domingo, maio 31, 2026

MESTRE SEMEADOR

CHARLES AQUINO & PROF. MARCO ELÍSIO

Há encontros que acontecem por acaso. Outros, porém, parecem estar aguardando o momento exato para acontecer. O meu encontro com o Professor Marco Elísio foi um desses.

Era o início da década de 2010. Eu caminhava pelas ruas do centro de Itaúna, observando aquilo que sempre me fascinou: os vestígios do passado. 

Procurava antigas casas, sobrados, construções que resistiam silenciosamente ao tempo. Não era historiador. Não pesquisava arquivos. 

Não imaginava o caminho que ainda seria aberto diante de mim. Era apenas um admirador da história da cidade onde nasci.

Na Rua Professor Francisco Santiago, tendo diante dos olhos a imponência da antiga Escola Normal — hoje Escola Estadual de Itaúna —, um sobrado chamou minha atenção. Não era apenas uma construção antiga. Havia algo naquele lugar que parecia guardar histórias ainda não contadas.

Tentei fotografá-lo. Procurei o melhor ângulo. Nenhum me satisfazia. Então apertei a campainha. Uma voz respondeu:

— Pois não?

Apresentei-me:

— Meu nome é Charles Aquino. Gostaria, se possível, de tirar uma fotografia desta casa.

A resposta veio imediata:

— Claro que não!

Por um instante, pensei que a conversa terminaria ali. Mas a voz continuou:

— Você poderá fazer muito mais do que um registro fotográfico.

 Entre. Precisamos conversar.

O portão se abriu. Ali estava um senhor alto, magro, de cabelos brancos, segurando um lenço branco nas mãos. Antes mesmo de qualquer apresentação formal, ele me entregou o lenço e disse:

— Segure isto. Você vai precisar. 

O que iremos começar agora provavelmente o deixará de queixo caído. E deixou.

Naquele dia, atravessei um portão. Mas, olhando para trás, percebo que atravessei muito mais do que isso. Atravessei uma fronteira entre a simples curiosidade e a paixão pela história. Depois daquela porta, nunca mais fui o mesmo.

Muitos conheceram Marco Elísio Chaves Coutinho como escritor, ambientalista, defensor da cultura, homem de fé e servidor público, ou simplesmente professor Marco Elísio.

Sua trajetória é amplamente reconhecida em Itaúna. Lecionou em diversas instituições, participou ativamente da vida cultural da cidade, dedicou-se à preservação do patrimônio, à educação e à valorização das tradições locais.

Mas quem teve o privilégio de conviver com ele de perto conheceu algo ainda maior — conheceu um semeador. Em um texto escrito após sua partida em 2018, Marco Elísio foi comparado ao personagem Tistu, "o menino do dedo verde", aquele que fazia florescer tudo o que tocava. A metáfora não poderia ser mais adequada.

Porque Marco não cultivava apenas jardins.

Cultivava pessoas.

Cultivava ideias.

Cultivava sonhos.

E, sobretudo, cultivava perguntas.

Cada encontro era uma aula.

Cada conversa transformava-se em uma investigação.

Cada dúvida tornava-se o ponto de partida para uma nova descoberta. 

Não havia respostas prontas. 

Havia caminhos.

Houve um episódio que ilustra bem o espírito generoso e a grandeza intelectual de Marco Elísio. Em determinado momento de minhas pesquisas, passei a me aprofundar na trajetória de seu pai, o Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho — o Dr. Coutinho

Sua biografia, aliás, é indispensável para qualquer leitor que deseje compreender uma parte significativa da história de Itaúna e o legado de um homem que escolheu esta terra como sua, dedicando-lhe seus talentos, sua fé, sua atuação pública e seu amor até os últimos dias de vida.

À medida que avançava na investigação de documentos, relatos e registros sobre sua trajetória, crescia também minha admiração por aquela figura extraordinária. Em uma de nossas conversas, de maneira franca e bem-humorada, confessei ao Professor Marco Elísio:

— Marco, quanto mais pesquiso sobre seu pai, mais gosto dele. Acho que estou gostando mais dele do que de você.

A resposta veio imediata, acompanhada de um sorriso sereno que lhe era característico:

— Então você está no caminho certo.

Naquele instante compreendi algo que ia além da simples resposta. Marco Elísio não demonstrou qualquer vaidade ou ciúme da memória paterna. Pelo contrário. Como verdadeiro educador, alegrava-se ao ver alguém descobrir, por meio da pesquisa, a dimensão humana e histórica daqueles que ajudaram a construir Itaúna. 

Sua resposta revelava exatamente quem ele era: um homem que compreendia que a história não pertence aos indivíduos, mas à coletividade; que o pesquisador deve seguir as evidências, as fontes e as trajetórias que encontra pelo caminho, ainda que essas o conduzam para além das figuras que inicialmente admirava.

Foi mais uma lição. Talvez uma das maiores. Marco ensinava que pesquisar não é procurar confirmação para nossas preferências, mas permitir que os documentos, as memórias e os fatos nos conduzam. E, naquele dia, ao dizer que eu estava "no caminho certo", ele reafirmou aquilo que sempre procurou cultivar em seus alunos e amigos: a liberdade de pensar, investigar e descobrir.

E foi justamente nesses caminhos que nasceu uma amizade que ultrapassou a relação entre professor e aluno. Com o passar dos anos, Marco Elísio passou a fazer parte de momentos importantes da minha própria vida.

Em 2012, eu aguardava a chegada do meu primeiro filho. Em uma de nossas conversas em seu sobrado, comentei que o nascimento se aproximava e que eu ainda não havia decidido qual seria o nome da criança.

Com a serenidade habitual, ele me perguntou:

— Que dia você nasceu?

Respondi:

— Vinte e nove de setembro.

Marco então sorriu e disse:

— Seria interessante chamá-lo Gabriel. Neste dia a Igreja celebra os três Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael.

A sugestão pareceu simples naquele momento, mas ficou gravada em minha memória. Refleti sobre suas palavras e, pouco tempo depois, o nome foi escolhido.

Assim nasceu Gabriel.

Hoje percebo que essa foi mais uma das muitas sementes plantadas por Marco Elísio ao longo de nossa amizade. Não foi apenas um conselho sobre um nome. Foi uma demonstração de como ele conseguia relacionar cultura, tradição, fé e afeto, transformando conversas comuns em lembranças permanentes.

De certa forma, seu legado não ficou apenas nos livros, nos projetos culturais ou nas pesquisas históricas. Também permaneceu nas pequenas decisões da vida, nas histórias familiares e nos vínculos humanos que construiu ao longo de sua caminhada.

Com Marco Elísio aprendi que a história não mora apenas nos arquivos, nas bibliotecas ou nos monumentos.

Ela vive nas esquinas.

Nas conversas esquecidas.

Nos apelidos.

Nas memórias familiares.

Nos detalhes aparentemente insignificantes que os grandes livros raramente registram.

Juntos percorremos as trilhas do antigo Arraial de Santana do Rio São João Acima.

Investigamos personagens esquecidos.

Questionamos versões cristalizadas.

Buscamos compreender não apenas aquilo que foi oficialmente registrado, mas também aquilo que permaneceu nos bastidores da memória coletiva.

Muitas vezes eram histórias que pareciam pequenas.

Sem relevância para alguns.

Mas Marco compreendia algo fundamental:

Não existe história pequena.

Pequeno é apenas o olhar de quem não consegue perceber sua importância.

Foi assim que aprendemos a registrar acontecimentos do cotidiano, memórias familiares, tradições populares, personagens anônimos e fragmentos que, reunidos, ajudam a explicar quem somos.

Enquanto muitos olhavam apenas para os grandes acontecimentos, Marco ensinava a enxergar a humanidade escondida nos detalhes.

Se hoje caminho pelos arquivos, pelas fontes históricas, pelos jornais antigos e pelas memórias da cidade, muito disso começou naquele sobrado.

Marco Elísio não me entregou respostas.

Entregou-me inquietações.

Mostrou que a história não é um conjunto de verdades acabadas.

É uma investigação permanente.

É o exercício constante de perguntar.

De duvidar.

De comparar versões.

De ouvir vozes esquecidas.

Foi essa forma de enxergar o passado que despertou em mim o desejo de estudar história, pesquisar, escrever e contribuir para a preservação da memória de Itaúna.

Ao longo dos anos, compartilhamos projetos, ideias, sonhos e desafios.

Houve entusiasmo.

Houve divergências.

Houve debates intensos.

Mas, acima de tudo, houve aprendizado.

Muito aprendizado.

Alguns chamavam Marco Elísio de sonhador.

Outros, de forma até irônica, apelidaram-no de homem de "mente cor-de-rosa". O próprio registro de sua trajetória recorda essa expressão, inicialmente usada por críticos para ridicularizar sua capacidade de sonhar.

Mas o tempo fez justiça. Porque os sonhadores costumam ser incompreendidos enquanto estão construindo o futuro. Marco sonhava com uma Itaúna que valorizasse sua memória.

Sonhava com uma cidade que preservasse seu patrimônio.

Sonhava com uma população consciente de sua própria história.

Sonhava com jardins.

Com cultura.

Com educação.

Com pertencimento.

Muitos desses sonhos continuam vivos.

Outros ainda aguardam realização.

Mas todos deixaram sementes.

E as sementes continuam germinando.

Nos últimos anos de sua vida, quando a saúde já não lhe permitia o mesmo vigor de outrora e os dias pareciam correr mais depressa, Marco Elísio não abandonou aquilo que dava sentido à sua existência. Permaneceu exatamente como sempre foi: um mestre, semeando conhecimento, esperança e amor por Itaúna.

Seu legado não está apenas nos livros que escreveu. 

Nem nos projetos que idealizou.

Nem nos cargos que ocupou.

Seu maior legado está nas pessoas que transformou.

Eu sou uma delas.

E certamente não estou sozinho.

Há dezenas, talvez centenas, de itaunenses que carregam um pouco de Marco Elísio em sua maneira de pensar, de observar a cidade e de compreender o passado.

Hoje, quando olho para esta fotografia, vejo muito mais do que duas pessoas.

Vejo uma história de amizade.

Vejo um mestre e um aprendiz.

Vejo duas gerações unidas pelo amor à memória e à história de Itaúna.

Vejo o homem que abriu um portão e, sem saber, abriu também um destino.

A caminhada continua.

Ainda há documentos para descobrir.

Ainda há histórias para registrar.

Ainda há memórias para preservar.

Ainda há sonhos para realizar.

E, enquanto houver alguém disposto a continuar essa missão, a mente cor-de-rosa de Marco Elísio continuará viva.

Porque a história não termina com a partida dos seus construtores.

Ela continua sendo escrita por aqueles que receberam deles a responsabilidade de seguir adiante.

E foi exatamente isso que ele me ensinou.

Fazer história não é apenas estudar o passado.

É garantir que aquilo que merece ser lembrado jamais seja esquecido.

Professor Marco Elísio, amigo, mestre e inspirador: sua obra permanece.

Sua voz permanece.

Seu exemplo permanece.

E, enquanto houver memória, sua história continuará caminhando conosco.

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG)

Pesquisador da memória de Itaúna.

 © ITAÚNA DÉCADAS

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

 

Nota do autor: Embora esta fotografia não tenha sido registrada em estúdio, ela foi criada por Inteligência Artificial a partir de fotografias autênticas de Charles Aquino e do Professor Marco Elísio.

Mais do que reproduzir um instante real, a imagem procura representar simbolicamente anos de convivência, aprendizado, investigação histórica e amizade, eternizando visualmente uma relação que marcou profundamente a construção da memória de Itaúna.

O valor da fotografia não está em ser um registro real daquele momento específico, mas em representar visualmente algo que efetivamente existiu. Ou seja, a cena é simbólica, mas o sentimento é autêntico.

sábado, maio 30, 2026

ROSÁRIO SAGRADO

ROSÁRIO SAGRADO

No ano de 1859, quando o sino da capela ecoava entre os vales e colinas do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, uma pequena menina, chamada Luísa foi batizada, filha de Manuel, pardo e de Joanna, crioula, escravos.

O batismo de Luísa não foi apenas um ato religioso — foi um gesto de afirmação de vida.

A cena, registrada pelo padre João Batista de Miranda, revela mais do que um simples ato de fé: traz também o testemunho de um povo que, mesmo sob privações, mantinha viva sua ligação com o divino.

As mãos que seguraram Luísa sobre as águas batismais eram as mesmas que trabalhavam na terra, construíam paredes, entoavam cânticos e faziam do Morro do Rosário um altar invisível de resistência e esperança.

Naquela colina, onde hoje se ergue a Igreja do Rosário e onde ecoam as vozes do Reinado e do Congado, as lágrimas e as preces de tantas Joannas e Manueis transformaram o solo em território sagrado. O Morro do Rosário tornou-se, desde então, um portal entre o céu e a terra, entre o sofrimento e a liberdade, entre o cativeiro e a promessa de redenção.

As mãos negras entrelaçadas, como na imagem, representam os elos que atravessaram os séculos: mãos que batizaram, coroaram, construíram e rezaram. Cada toque, cada palma aberta sobre o chão, fincou a fé dos ancestrais que fizeram daquele morro um símbolo de comunhão espiritual e memória coletiva.

Hoje, Itaúna guarda no Morro do Rosário não apenas uma paisagem, mas um testamento de fé. Ali, a espiritualidade africana e cristã se fundiram em cânticos, tambores e promessas. E se o nome antigo, Sant’Ana do Rio São João Acima, designava o nascente de um povoado, o nome atual — Itaúna, Pedra Negra — parece carregar o mesmo destino: lembrar que da pedra e da negritude brotou a força da cidade e de sua história.

O Morro do Rosário é, portanto, mais do que um ponto geográfico. É um santuário ancestral, onde a história se ajoelha diante da fé, e onde o tempo se curva em reverência àqueles que, mesmo sem liberdade, jamais deixaram de acreditar.

BATISMO: LUISA

Aos vinte de Agosto de mil oitocentos e cinquenta e nove batizei solenemente a LUISA, filha legítima de MANUEL pardo e de JOANNA crioula, escravos do Alferes José Bernardes de Carvalho. Foram Padrinhos Ilídio Coelho Duarte, e sua cunhada Carlota Nogueira Duarte, e para constar faço este assento”. <O Pároco João Batista de Miranda>.


O texto 'ROSÁRIO SAGRADO' convida o leitor a adentrar uma narrativa construída a partir de vestígios documentais e sensibilidade histórica, na qual o registro de batismo de uma criança escravizada — Luísa — transcende sua dimensão burocrática para revelar camadas profundas de fé, resistência e memória coletiva no antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, atual Itaúna. 

Ao articular o dado arquivístico com uma interpretação simbólica, a narrativa ilumina o papel do Morro do Rosário como espaço de espiritualidade, onde práticas religiosas, ancestralidade africana e experiências do cativeiro se entrelaçam. 

Mais do que reconstituir um episódio, o texto propõe uma leitura sobre a permanência da fé como linguagem de afirmação da vida e como elemento estruturante das identidades sociais e culturais que moldaram a história local.

© ITAÚNA DÉCADAS
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG

 Referências:

História criada inspirada no registro de batismo de 20 de agosto de 1859, lavrado pelo pároco João Batista de Miranda, no antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima (atual Itaúna/MG).

Imagem e vídeo meramente ilustrativos, criados por Inteligência Artificial (IA), simbolizando união, ancestralidade e fé.

Fonte: Livro de Batismos – Arquivo Eclesiástico de Itaúna/MG. "Brasil, Minas Gerais, Registros da Igreja Católica, 1706-2018," database with images, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-6SPS-2TD?cc=2177275&wc=M5NZ-7MS%3A370027101%2C369941902%2C370591301): 23 February 2022), Divinópolis > Santana > Batismos 1858, Dez-1876, Nov > image 7 of 274; Paróquias Católicas (Catholic Church parishes), Minas Gerais. 

sábado, maio 23, 2026

DUNGA

Cantora Itaunense, Maria Concebida Viana

Maria Concebida Viana

A voz negra que ecoou na alma de Itaúna

Em uma Itaúna marcada pelos bailes populares, pelas serestas sob a luz amarelada dos postes e pelos carnavais que transformavam a Praça da Matriz em um verdadeiro palco popular, uma voz se impunha acima da multidão. 

Não era apenas potência vocal. Era presença. Era identidade. Era memória coletiva. Essa voz pertencia a Maria Concebida Viana, eternizada na cidade simplesmente como Dunga.

Cantora negra, Dunga construiu seu nome pela força do talento. Sua voz atravessou décadas, atravessou gerações e permaneceu viva na lembrança afetiva de Itaúna mesmo após sua morte, em 14 de outubro de 2005.

Sua trajetória foi profundamente itaunense. Sua arte nasceu das ruas, dos encontros musicais, das escolas de samba, dos grupos de baile e das serestas que moldaram a cultura popular da cidade nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Durante anos, integrou conjuntos musicais e apresentações ao lado de nomes importantes da música local, como o acordeonista Glício Mendes. Sua presença artística se expandiu para além de Itaúna através do projeto Minas ao Luar, promovido pela Rede Globo Minas, pelo qual percorreu diversas cidades mineiras durante parte da década de 1980, levando consigo a musicalidade e a identidade cultural itaunense.

Mas talvez tenha sido no carnaval que Dunga tenha alcançado uma dimensão quase mítica. Em uma época em que os “puxadores” de samba eram tradicionalmente homens, ela assumiu a condução dos sambas-enredo da Escola de Samba Clube dos Zulus. Não apenas ocupou aquele espaço: dominou-o. Sua voz passou a incendiar a antiga avenida da Praça da Matriz, transformando desfile em espetáculo.

Fernando Lúcio de Lima recorda exatamente essa força: “A Dunga não podia faltar. Voz poderosa que incendiava a Praça da Matriz nos bons tempos do carnaval itaunense. Ouço a voz da Dunga nos desfiles memoráveis do Zulu. Era uma rainha que cantava.”

A expressão é precisa: “uma rainha que cantava”. Porque Dunga não era apenas intérprete; ela ocupava o espaço com autoridade artística. Sua presença carregava dignidade, imponência e carisma.

Sua trajetória, porém, não se limitava ao samba e à música popular. O texto sobre as organistas da Matriz de Sant’Ana registra sua participação ao lado da organista Anna Alves Vieira dos Reis, entoando os versos graves e solenes do Agnus Dei da Missa in honorem Sancti Michaelis Archangelis

Esse detalhe é extremamente significativo historicamente: revela uma artista capaz de transitar entre o universo popular do carnaval e o repertório sacro erudito da liturgia católica.

Essa versatilidade desmonta qualquer tentativa simplista de enquadrar Dunga apenas como cantora carnavalesca. Ela era intérprete de múltiplos repertórios, dona de uma voz lírica e potente, capaz de ocupar tanto a avenida quanto a igreja, tanto a seresta quanto o canto religioso.

Sandra Crespo Lima resumiu essa lembrança em poucas palavras: “Conheci a Dunga. Voz linda. Ela cantou no Zulu.”

Já Agostinho Rocha recorda não apenas a cantora, mas a presença humana: Já tive o prazer de contracenar com a Dunga num curto diálogo teatral, no Sindicato dos Metalúrgicos! Tudo é saudade para nós, corações vividos...!”

O comentário revela outro aspecto importante: Dunga participava ativamente da vida cultural da cidade. Não era uma artista isolada, mas alguém integrada aos espaços coletivos de sociabilidade popular.

Pepe Chaves, por sua vez, destacou a dimensão afetiva deixada por ela: “Sua voz potente e lírica será ainda lembrada por muitos itaunenses que tiveram o prazer de ouvi-la".[...] "Dunga possuía uma voz que remetia às grandes cantoras negras da música gospel norte-americana".

E talvez seja justamente aí que reside a permanência de Dunga. Sua memória sobrevive porque ela pertence à experiência emocional da cidade. Dunga não foi apenas “uma cantora de Itaúna”. Ela se tornou parte da paisagem sonora da memória itaunense.

Sua última apresentação pública possui força quase simbólica. Poucos dias antes de falecer, voltou ao palco justamente em uma edição do Minas ao Luar, realizada na Praça Dr. Augusto Gonçalves. Era como se encerrasse sua trajetória diante da própria cidade que ajudou a cantar durante décadas.

Quando se fala nos antigos carnavais de Itaúna, nas serestas, nos bailes populares, na Praça da Matriz tomada pelo samba e pela música, sua voz continua presente, não apenas como lembrança, mas como patrimônio afetivo e cultural de uma cidade inteira.

 

NOTA SOBRE IMAGENS E VÍDEO DE DUNGA

As imagens e o vídeo apresentados nesta publicação não correspondem, em sua totalidade, a registros fotográficos ou audiovisuais originais de Maria Concebida Viana, a Dunga.

Parte do material consiste em recriações visuais interpretativas produzidas com auxílio de inteligência artificial (IA), elaboradas a partir de fotografias históricas, relatos memorialísticos, referências documentais e descrições relacionadas à cantora itaunense.

As recriações buscaram preservar, de forma respeitosa, características físicas, estéticas e contextuais associadas à artista, especialmente sua atuação nos meios musicais e culturais de Itaúna ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980.

O objetivo deste material é contribuir para a preservação da memória cultural itaunense, valorizando a trajetória artística de Dunga e ampliando o acesso público à sua história por meio de recursos visuais contemporâneos inspirados em fontes históricas disponíveis.

Todo o conteúdo foi desenvolvido pelo projeto Itaúna Décadas com finalidade exclusivamente cultural, educativa, histórica e memorialística.

 

 © ITAÚNA DÉCADAS

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).

 

Referências

CHAVES, Pepe. Itaúna perde a cantora Dunga. Via Fanzine, [s.l.], 2005. Disponível em: Via Fanzine Galeria. Acesso em: 23 maio 2026.

MOREIRA JÚNIOR, Rodrigo Botelho. As organistas da Matriz de Sant’Ana. Itaúna Décadas, Itaúna, 30 ago. 2016. Disponível em: Paróquia de Sant’Ana de Itaúna. Acesso em: 23 maio 2026.

Depoimentos em rede social

CHAVES, Pepe. Depoimento sobre Maria Concebida Viana (Dunga). Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.

LIMA, Fernando Lúcio de. Depoimento sobre os carnavais itaunenses e a participação de Dunga nos desfiles do Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.

ROCHA, Agostinho. Depoimento sobre participação teatral ao lado de Dunga no Sindicato dos Metalúrgicos de Itaúna. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.

LIMA, Sandra Crespo. Depoimento sobre a atuação musical de Dunga no Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.

XADREZ, Cepex. Comentário em memória da cantora Dunga. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020. 

sexta-feira, maio 22, 2026

PADRE CÁUPER

Missionário Espiritano - Tefé Amazonas
Em 2017, ainda nos meus anos de formação em História, publiquei uma pesquisa sobre o missionário espiritano Padre Manuel de Lima Cáuper

Quase dez anos depois, revisitando aquele texto com um olhar mais amadurecido, percebo suas limitações, mas também reconheço seu valor como registro de memória sobre uma figura que deixou marcas importantes em Itaúna/MG.

Nascido em Tefé, no Amazonas, em 1919, Padre Cáuper integrou a Congregação do Espírito Santo e teve uma trajetória ligada tanto à missão religiosa quanto à educação.


Após formação em Portugal e ordenação sacerdotal em 1947, atuou inicialmente na região amazônica antes de seguir para Minas Gerais. Foi na década de 1950 que chegou a Itaúna, período em que a cidade vivia intensas transformações urbanas, educacionais e religiosas.

Em Itaúna, Padre Cáuper exerceu atividades no então Ginásio Sant’Ana — atual Colégio Santana — administrado pelos padres espiritanos. Participou também da estruturação do Seminário Menor Nossa Senhora de Fátima, colaborando na formação religiosa e intelectual de jovens seminaristas. Sua presença esteve ligada não apenas ao ensino, mas também à vida cultural e comunitária da cidade.

Um aspecto pouco lembrado, mas bastante simbólico, foi sua atuação artística e cultural. Padre Cáuper esteve envolvido na organização do Congresso Vicentino Diocesano realizado em Itaúna, em 1962, integrando a comissão de arte do evento. Também é atribuída a ele a letra e música do hino oficial da Companhia Industrial Itaunense, revelando uma atuação que ultrapassava os limites estritamente religiosos.

Mais do que um sacerdote vindo da Amazônia, Padre Cáuper representou um momento da presença espiritana em Itaúna, período marcado pela expansão educacional católica, pela formação seminarística e pela forte influência das congregações religiosas na vida social da cidade. Sua passagem deixou ecos em gerações que conviveram com aquele ambiente educacional e religioso das décadas de 1950 e 1960.

Para quem desejar conhecer a pesquisa original publicada em 2017, agora preservada também como testemunho de uma etapa inicial da minha trajetória como pesquisador, o texto completo pode ser acessado em: Itaúna Décadas – Padre Cáuper: Missionário Espiritano

Missionário Espiritano - Tefé Amazonas

 NOTA SOBRE IMAGENS E VÍDEO DE PADRE CÁUPER

(22/05//2026)

As imagens e o vídeo apresentados nesta publicação não correspondem a registros fotográficos ou audiovisuais originais. Tratam-se de recriações visuais interpretativas produzidas com auxílio de inteligência artificial (IA), elaboradas a partir de fotografias históricas, referências documentais e elementos biográficos relacionados ao missionário espiritano Padre Cáuper.

O objetivo deste material é contribuir para a preservação da memória, valorização histórica e difusão cultural, oferecendo ao público uma aproximação visual artística inspirada em fontes históricas disponíveis.

Todo o conteúdo foi desenvolvido pelo projeto Itaúna Décadas com finalidade exclusivamente cultural, educativa e memorialística.


quarta-feira, maio 20, 2026

BATE-PAUS À GUARDA MUNICIPAL

ITAÚNA: tensões políticas Revolução de 1930

Em diferentes momentos de sua história, Itaúna debateu maneiras de garantir ordem pública, autoridade e segurança nas ruas. 

Em meio às tensões políticas da Revolução de 1930, surgiam os chamados “bate-paus”, grupos associados aos conflitos e disputas locais.

Em 2026, a cidade volta a discutir a presença de uma força de atuação urbana, agora dentro de uma estrutura institucional e jurídica distinta: a implantação da Guarda Municipal

Embora separados por quase um século, esses dois momentos revelam como o tema da segurança pública acompanha as transformações políticas, administrativas e sociais do município.

Durante a Revolução de 1930, Itaúna ainda conservava características típicas de uma pequena cidade do interior mineiro, marcada por limitações estruturais, ruas precárias e pela lenta circulação de informações. Enquanto os acontecimentos políticos se expandiam pelo país, grande parte da população compreendia apenas parcialmente a dimensão dos conflitos nacionais.

O destacamento itaunense da Força Pública de Minas Gerais, corporação que posteriormente daria origem à atual Polícia Militar, havia sido deslocado para Belo Horizonte para reforçar as tropas mineiras diante da crise que se desenrolava na capital.

Com a ausência do contingente policial local, o Coronel Arthur Contagem Vilaça, então chefe do Executivo municipal e presidente da Câmara de Vereadores, organizou um destacamento provisório formado por civis para auxiliar na manutenção da ordem pública.

Sem armamento adequado, esses homens utilizavam porretes de madeira, origem da expressão “bate-paus”. Alguns também usavam lenços vermelhos ligados à adesão local ao movimento revolucionário, elemento que se tornaria uma das marcas simbólicas daquele contexto político em Itaúna.

A formação dos bate-paus evidencia também os limites da presença estatal nas pequenas cidades do interior brasileiro durante as primeiras décadas do século XX. Diante da retirada do efetivo policial para a capital mineira, o próprio município precisou improvisar formas locais de autoridade e vigilância.

Os relatos preservados pela memória local demonstram que muitos desses homens não eram policiais profissionais, mas funcionários e moradores convocados em caráter emergencial. Um dos casos mais conhecidos foi o de Benevides Garcia, fotógrafo, “chauffeur do carro de praça” e motorista da Câmara Municipal na época, que anos depois seria lembrado como integrante do destacamento improvisado.

Segundo seu próprio relato, Arthur Vilaça o teria nomeado “sargento” dos bate-paus. Benevides afirmaria anos depois que entrou para o grupo “contra a própria vontade”, evidenciando o caráter improvisado daquela mobilização civil durante a Revolução de 1930.

Mais do que uma força organizada de segurança, os bate-paus refletiam um período marcado pela precariedade institucional e pela forte influência das lideranças locais sobre a vida pública. Em cidades pequenas do interior brasileiro, as fronteiras entre servidor público, cidadão comum e agente de autoridade ainda eram bastante fluidas.

A ausência de uma estrutura profissional de policiamento fazia com que o próprio poder municipal assumisse funções de mediação da ordem urbana diante de situações consideradas emergenciais.

A aproximação entre os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal, entretanto, exige cautela histórica. Não se trata de afirmar que ambos possuam a mesma natureza, função ou legitimidade, mas de compreender como diferentes épocas produziram distintos modos de atuação do poder público nas ruas da cidade.

Na década de 1930, a força política frequentemente se apoiava em relações pessoais, influência local e demonstrações informais de poder. Em 2026, o debate ocorre dentro de uma lógica burocrática e institucional, marcada por regulamentação jurídica, profissionalização e controle administrativo.

A proposta contemporânea surge associada ao crescimento urbano, à organização do trânsito, à proteção patrimonial e às demandas por maior atuação do poder público nos espaços urbanos.

Revisitar a memória dos bate-paus, portanto, não significa estabelecer equivalências simplistas entre passado e presente. O interesse histórico está em perceber como diferentes períodos produziram respostas próprias para questões relacionadas à ordem urbana, à autoridade pública e às percepções locais de insegurança.

A distância entre as formas improvisadas de vigilância de 1930 e os projetos institucionais discutidos em 2026 revela não apenas mudanças nas estruturas de segurança pública, mas também transformações na própria relação entre administração municipal, autoridade e espaço urbano.

Entre permanências e mudanças, os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal evidenciam como diferentes épocas produziram distintas maneiras de estruturar a autoridade, a segurança e a atuação do poder municipal na trajetória histórica, política e urbana de Itaúna.

Elaborado a partir de reportagens publicadas pelo extinto Jornal Panorama Itaunense na década de 1980 e de relatos sobre os “bate-paus” durante a Revolução de 1930 preservados em acervos de memória local.

  

© ITAÚNA DÉCADAS
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG

 

 Fonte: Jornal Panorama Itaunense, pág. 9 (Década 80)

Acervo: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC

Imagem: Meramente ilustrativa, criada por Inteligência Artificial (IA).