O texto do Professor Geraldo Fonte Boa registra o ritual de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna.
A cerimônia, realizada durante seu velório, é apresentada como uma manifestação rara e profundamente simbólica da tradição congadeira, marcada pela despedida de uma liderança que, por décadas, esteve à frente da organização e condução dos festejos do Reinado na cidade.
Antes de descrever o ritual, o autor contextualiza a importância de D. Sãozinha para a comunidade congadeira. Além de exercer a função de Rainha Perpétua, sua residência servia como quartel de guardas tradicionais do Reinado, tornando-se um importante espaço de preservação da fé, da cultura e das práticas religiosas ligadas à devoção a Nossa Senhora do Rosário e a Santa Ifigênia.
Sua atuação estava diretamente associada à manutenção das festividades anuais, que mobilizam guardas, capitães, familiares e devotos em torno de uma tradição transmitida entre gerações.
O velório foi marcado por homenagens realizadas pelos capitães e integrantes das guardas, que expressaram sua despedida por meio de orações e cânticos. Em respeito à solenidade do momento, os instrumentos tradicionalmente presentes nas festas permaneceram silenciados, reforçando o caráter de luto e reverência à rainha falecida.
O ritual de descoroamento teve início algumas horas antes do sepultamento, sob a condução do Capitão-Mor da Irmandade das Sete Guardas. Sobre o corpo da rainha foram colocados os símbolos de sua função: a coroa, o manto e o cetro. A cerimônia desenvolveu-se por meio de orações e cânticos responsoriais, nos quais a assembleia acompanhava as invocações conduzidas pelos capitães. Em seguida, realizou-se a retirada ritual desses objetos sagrados.
Utilizando bastões, os capitães erguiam a coroa, o manto e o cetro sem tocá-los diretamente com as mãos, conduzindo-os ao longo do corpo da falecida até entregá-los às suas filhas e netas. Esse gesto simbolizava o encerramento de sua missão terrena como Rainha Perpétua e a devolução das insígnias que representam a autoridade espiritual e cerimonial exercida durante sua vida.
Após a retirada dos símbolos, os participantes entoaram cânticos finais que confirmavam o descoroamento da rainha e exaltavam sua trajetória de devoção. O ritual foi encerrado com vivas a Nossa Senhora do Rosário e ao Rosário de Maria, reafirmando a dimensão religiosa da cerimônia e a crença na continuidade espiritual da missão cumprida por D. Sãozinha.
O texto também destaca que as homenagens prosseguiram durante o cortejo fúnebre, na Capela do Rosário e no cemitério, sempre acompanhadas por cânticos e manifestações de respeito à rainha falecida.
Ao final, o autor ressalta que a coroa permaneceu sob a guarda de suas descendentes, responsáveis por definir quem assumiria futuramente a função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, garantindo a continuidade da tradição do Reinado em Itaúna.
Por fim, o texto contextualiza historicamente a existência da Capela das Sete Guardas, vinculando sua criação às tensões ocorridas na década de 1940 entre congadeiros e autoridades eclesiásticas.
Dessa forma, o ritual de descoroamento é apresentado não apenas como uma despedida individual, mas como uma expressão da memória coletiva, da resistência cultural e da permanência das tradições afro-brasileiras que constituem o Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna.
A imagem de capa foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), a partir de referências visuais, históricas e culturais relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna/MG. Trata-se de uma representação artística inspirada na tradição congadeira, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.
Há encontros que acontecem por acaso. Outros,
porém, parecem estar aguardando o momento exato para acontecer. O meu encontro
com o Professor Marco Elísio foi um desses.
Era o início da década de 2010. Eu caminhava pelas
ruas do centro de Itaúna, observando aquilo que sempre me fascinou: os
vestígios do passado.
Procurava antigas casas, sobrados, construções que
resistiam silenciosamente ao tempo. Não era historiador. Não pesquisava
arquivos.
Não imaginava o caminho que ainda seria aberto diante de mim. Era
apenas um admirador da história da cidade onde nasci.
Na Rua Professor Francisco Santiago, tendo diante
dos olhos a imponência da antiga Escola Normal — hoje Escola Estadual de Itaúna
—, um sobrado chamou minha atenção. Não era apenas uma construção antiga. Havia
algo naquele lugar que parecia guardar histórias ainda não contadas.
Tentei fotografá-lo. Procurei o melhor ângulo.
Nenhum me satisfazia. Então apertei a campainha. Uma voz respondeu:
— Pois não?
Apresentei-me:
— Meu nome é Charles Aquino. Gostaria, se possível,
de tirar uma fotografia desta casa.
A resposta veio imediata:
— Claro que não!
Por um instante, pensei que a conversa terminaria
ali. Mas a voz continuou:
— Você poderá fazer muito mais do que um registro
fotográfico.
Entre. Precisamos conversar.
O portão se abriu. Ali estava um senhor alto,
magro, de cabelos brancos, segurando um lenço branco nas mãos. Antes mesmo de
qualquer apresentação formal, ele me entregou o lenço e disse:
— Segure isto. Você vai precisar.
O que iremos
começar agora provavelmente o deixará de queixo caído. E deixou.
Naquele dia, atravessei um portão. Mas, olhando
para trás, percebo que atravessei muito mais do que isso. Atravessei uma
fronteira entre a simples curiosidade e a paixão pela história. Depois daquela
porta, nunca mais fui o mesmo.
Muitos conheceram Marco Elísio Chaves Coutinho como escritor, ambientalista, defensor da cultura, homem de fé e servidor público, ou simplesmente professor Marco Elísio.
Sua trajetória é amplamente reconhecida em Itaúna.
Lecionou em diversas instituições, participou ativamente da vida cultural da
cidade, dedicou-se à preservação do patrimônio, à educação e à valorização das
tradições locais.
Mas quem teve o privilégio de conviver com ele de perto conheceu algo ainda maior — conheceu um semeador. Em um texto escrito após sua partida em 2018, Marco Elísio foi comparado ao personagem Tistu, "o menino do dedo verde", aquele que fazia florescer tudo o que tocava. A metáfora não poderia ser mais adequada.
Porque Marco não cultivava apenas jardins.
Cultivava pessoas.
Cultivava ideias.
Cultivava sonhos.
E, sobretudo, cultivava perguntas.
Cada encontro era uma aula.
Cada conversa transformava-se em uma investigação.
Cada dúvida tornava-se o ponto de partida para uma nova descoberta.
Não havia respostas prontas.
Havia caminhos.
Houve um episódio que ilustra bem o espírito
generoso e a grandeza intelectual de Marco Elísio. Em determinado momento de
minhas pesquisas, passei a me aprofundar na trajetória de seu pai, o Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho — o Dr. Coutinho.
Sua biografia, aliás, é
indispensável para qualquer leitor que deseje compreender uma parte
significativa da história de Itaúna e o legado de um homem que escolheu esta
terra como sua, dedicando-lhe seus talentos, sua fé, sua atuação pública e seu
amor até os últimos dias de vida.
À medida que avançava na investigação de
documentos, relatos e registros sobre sua trajetória, crescia também minha
admiração por aquela figura extraordinária. Em uma de nossas conversas, de
maneira franca e bem-humorada, confessei ao Professor Marco Elísio:
— Marco, quanto mais pesquiso sobre seu pai, mais
gosto dele. Acho que estou gostando mais dele do que de você.
A resposta veio imediata, acompanhada de um sorriso
sereno que lhe era característico:
— Então você está no caminho certo.
Naquele instante compreendi algo que ia além da
simples resposta. Marco Elísio não demonstrou qualquer vaidade ou ciúme da
memória paterna. Pelo contrário. Como verdadeiro educador, alegrava-se ao ver
alguém descobrir, por meio da pesquisa, a dimensão humana e histórica daqueles
que ajudaram a construir Itaúna.
Sua resposta revelava exatamente quem ele era: um homem que compreendia que a história não pertence aos indivíduos, mas à coletividade; que o pesquisador deve seguir as evidências, as fontes e as trajetórias que encontra pelo caminho, ainda que essas o conduzam para além das figuras que inicialmente admirava.
Foi mais uma lição. Talvez uma das maiores. Marco
ensinava que pesquisar não é procurar confirmação para nossas preferências, mas
permitir que os documentos, as memórias e os fatos nos conduzam. E, naquele
dia, ao dizer que eu estava "no caminho certo", ele reafirmou aquilo
que sempre procurou cultivar em seus alunos e amigos: a liberdade de pensar,
investigar e descobrir.
E foi justamente nesses caminhos que nasceu uma
amizade que ultrapassou a relação entre professor e aluno. Com o passar dos anos, Marco Elísio passou a fazer parte de momentos importantes da minha própria vida.
Em 2012, eu aguardava a chegada do meu primeiro filho. Em uma de nossas conversas em seu sobrado, comentei que o nascimento se aproximava e que eu ainda não havia decidido qual seria o nome da criança.
Com a serenidade habitual, ele me perguntou:
— Que dia você nasceu?
Respondi:
— Vinte e nove de setembro.
Marco então sorriu e disse:
— Seria interessante chamá-lo Gabriel. Neste dia a Igreja celebra os três Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael.
A sugestão pareceu simples naquele momento, mas ficou gravada em minha memória. Refleti sobre suas palavras e, pouco tempo depois, o nome foi escolhido.
Assim nasceu Gabriel.
Hoje percebo que essa foi mais uma das muitas sementes plantadas por Marco Elísio ao longo de nossa amizade. Não foi apenas um conselho sobre um nome. Foi uma demonstração de como ele conseguia relacionar cultura, tradição, fé e afeto, transformando conversas comuns em lembranças permanentes.
De certa forma, seu legado não ficou apenas nos livros, nos projetos culturais ou nas pesquisas históricas. Também permaneceu nas pequenas decisões da vida, nas histórias familiares e nos vínculos humanos que construiu ao longo de sua caminhada.
Com Marco Elísio aprendi que a história não mora
apenas nos arquivos, nas bibliotecas ou nos monumentos.
Ela vive nas esquinas.
Nas conversas esquecidas.
Nos apelidos.
Nas memórias familiares.
Nos detalhes aparentemente insignificantes que os
grandes livros raramente registram.
Juntos percorremos as trilhas do antigo Arraial de
Santana do Rio São João Acima.
Investigamos personagens esquecidos.
Questionamos versões cristalizadas.
Buscamos compreender não apenas aquilo que foi
oficialmente registrado, mas também aquilo que permaneceu nos bastidores da
memória coletiva.
Muitas vezes eram histórias que pareciam pequenas.
Sem relevância para alguns.
Mas Marco compreendia algo fundamental:
Não existe história pequena.
Pequeno é apenas o olhar de quem não consegue
perceber sua importância.
Foi assim que aprendemos a registrar acontecimentos
do cotidiano, memórias familiares, tradições populares, personagens anônimos e
fragmentos que, reunidos, ajudam a explicar quem somos.
Enquanto muitos olhavam apenas para os grandes
acontecimentos, Marco ensinava a enxergar a humanidade escondida nos detalhes.
Se hoje caminho pelos arquivos, pelas fontes
históricas, pelos jornais antigos e pelas memórias da cidade, muito disso
começou naquele sobrado.
Marco Elísio não me entregou respostas.
Entregou-me inquietações.
Mostrou que a história não é um conjunto de
verdades acabadas.
É uma investigação permanente.
É o exercício constante de perguntar.
De duvidar.
De comparar versões.
De ouvir vozes esquecidas.
Foi essa forma de enxergar o passado que despertou
em mim o desejo de estudar história, pesquisar, escrever e contribuir para a
preservação da memória de Itaúna.
Ao longo dos anos, compartilhamos projetos, ideias,
sonhos e desafios.
Houve entusiasmo.
Houve divergências.
Houve debates intensos.
Mas, acima de tudo, houve aprendizado.
Muito aprendizado.
Alguns chamavam Marco Elísio de sonhador.
Outros, de forma até irônica, apelidaram-no de
homem de "mente cor-de-rosa". O próprio registro de sua trajetória
recorda essa expressão, inicialmente usada por críticos para ridicularizar sua
capacidade de sonhar.
Mas o tempo fez justiça. Porque os sonhadores
costumam ser incompreendidos enquanto estão construindo o futuro. Marco sonhava
com uma Itaúna que valorizasse sua memória.
Sonhava com uma cidade que preservasse seu
patrimônio.
Sonhava com uma população consciente de sua própria história.
Sonhava com jardins.
Com cultura.
Com educação.
Com pertencimento.
Muitos desses sonhos continuam vivos.
Outros ainda aguardam realização.
Mas todos deixaram sementes.
E as sementes continuam germinando.
Nos últimos anos de sua vida, quando a saúde já não lhe permitia o mesmo vigor de outrora e os dias pareciam correr mais depressa, Marco Elísio não abandonou aquilo que dava sentido à sua existência. Permaneceu exatamente como sempre foi: um mestre, semeando conhecimento, esperança e amor por Itaúna.
Seu legado não está apenas nos livros que escreveu.
Nem nos projetos que idealizou.
Nem nos cargos que ocupou.
Seu maior legado está nas pessoas que transformou.
Eu sou uma delas.
E certamente não estou sozinho.
Há dezenas, talvez centenas, de itaunenses que
carregam um pouco de Marco Elísio em sua maneira de pensar, de observar a
cidade e de compreender o passado.
Hoje, quando olho para esta fotografia, vejo muito
mais do que duas pessoas.
Vejo uma história de amizade.
Vejo um mestre e um aprendiz.
Vejo duas gerações unidas pelo amor à memória e à
história de Itaúna.
Vejo o homem que abriu um portão e, sem saber,
abriu também um destino.
A caminhada continua.
Ainda há documentos para descobrir.
Ainda há histórias para registrar.
Ainda há memórias para preservar.
Ainda há sonhos para realizar.
E, enquanto houver alguém disposto a continuar essa
missão, a mente cor-de-rosa de Marco Elísio continuará viva.
Porque a história não termina com a partida dos
seus construtores.
Ela continua sendo escrita por aqueles que
receberam deles a responsabilidade de seguir adiante.
E foi exatamente isso que ele me ensinou.
Fazer história não é apenas estudar o passado.
É garantir que aquilo que merece ser lembrado
jamais seja esquecido.
Professor Marco Elísio, amigo, mestre e inspirador:
sua obra permanece.
Sua voz permanece.
Seu exemplo permanece.
E, enquanto
houver memória, sua história continuará caminhando conosco.
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG)
Projeto
independente de memória, história e patrimônio cultural.
Nota do autor: Embora esta fotografia não tenha sido registrada em estúdio, ela foi criada por Inteligência Artificial a partir de fotografias autênticas de Charles Aquino e do Professor Marco Elísio.
Mais do que reproduzir um instante real, a imagem procura representar simbolicamente anos de convivência, aprendizado, investigação histórica e amizade, eternizando visualmente uma relação que marcou profundamente a construção da memória de Itaúna.
O valor da fotografia não está em ser um registro real daquele momento específico, mas em representar visualmente algo que efetivamente existiu. Ou seja, a cena é simbólica, mas o sentimento é autêntico.
No ano de 1859,
quando o sino da capela ecoava entre os vales e colinas do arraial de Sant’Ana
do Rio São João Acima, uma pequena menina, chamada Luísa foi batizada, filha de Manuel,
pardo e de Joanna, crioula, escravos.
O batismo de Luísa não foi apenas um ato religioso — foi um gesto de
afirmação de vida.
A cena, registrada pelo padre João Batista de Miranda, revela mais do que um simples ato de
fé: traz também o testemunho de um povo que, mesmo sob privações, mantinha viva sua ligação
com o divino.
As mãos que seguraram Luísa sobre as águas batismais eram as
mesmas que trabalhavam na terra, construíam paredes, entoavam cânticos e faziam
do Morro do Rosário um altar invisível de resistência e esperança.
Naquela colina, onde hoje se ergue a Igreja do Rosário e onde ecoam as vozes do Reinado e do
Congado, as lágrimas e as preces de tantas Joannas e Manueis transformaram o
solo em território sagrado. O Morro do Rosário tornou-se, desde então, um portal
entre o céu e a terra, entre o sofrimento e a liberdade, entre o cativeiro e a
promessa de redenção.
As mãos negras
entrelaçadas, como na imagem, representam os elos que atravessaram os séculos:
mãos que batizaram, coroaram, construíram e rezaram. Cada toque, cada palma
aberta sobre o chão, fincou a fé dos ancestrais que fizeram daquele morro um símbolo
de comunhão espiritual e memória coletiva.
Hoje, Itaúna
guarda no Morro do Rosário não apenas uma paisagem, mas um testamento de fé.
Ali, a espiritualidade africana e cristã se fundiram em cânticos, tambores e
promessas. E se o nome antigo, Sant’Ana do Rio São João Acima, designava o
nascente de um povoado, o nome atual — Itaúna, Pedra Negra — parece carregar o
mesmo destino: lembrar que da pedra e da negritude brotou a força da cidade e
de sua história.
O Morro do
Rosário é, portanto, mais do que um ponto geográfico. É um santuário ancestral,
onde a história se ajoelha diante da fé, e onde o tempo se curva em reverência
àqueles que, mesmo sem liberdade, jamais deixaram de acreditar.
BATISMO: LUISA
Aos vinte de Agosto de mil
oitocentos e cinquenta e nove batizei solenemente a LUISA, filha
legítima de MANUEL pardo e de JOANNA crioula, escravos do Alferes
José Bernardes de Carvalho. Foram Padrinhos Ilídio Coelho Duarte, e sua cunhada
Carlota Nogueira Duarte, e para constar faço este assento”. <O Pároco
João Batista de Miranda>.
O texto 'ROSÁRIO SAGRADO' convida o leitor a adentrar uma narrativa construída a partir de vestígios documentais e sensibilidade histórica, na qual o registro de batismo de uma criança escravizada — Luísa — transcende sua dimensão burocrática para revelar camadas profundas de fé, resistência e memória coletiva no antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, atual Itaúna.
Ao articular o dado arquivístico com uma interpretação simbólica, a narrativa ilumina o papel do Morro do Rosário como espaço de espiritualidade, onde práticas religiosas, ancestralidade africana e experiências do cativeiro se entrelaçam.
Mais do que reconstituir um episódio, o texto propõe uma leitura sobre a permanência da fé como linguagem de afirmação da vida e como elemento estruturante das identidades sociais e culturais que moldaram a história local.
Texto,
pesquisa, arte e concepção: Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG
Referências:
História criada inspirada no registro
de batismo de 20 de agosto de 1859, lavrado pelo pároco João Batista de
Miranda, no antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima (atual Itaúna/MG).
Imagem e vídeo meramente ilustrativos, criados por Inteligência Artificial (IA), simbolizando união, ancestralidade e fé.
Em uma Itaúna
marcada pelos bailes populares, pelas serestas sob a luz amarelada dos postes e
pelos carnavais que transformavam a Praça da Matriz em um verdadeiro palco
popular, uma voz se impunha acima da multidão.
Não era apenas potência vocal.
Era presença. Era identidade. Era memória coletiva. Essa voz pertencia a Maria
Concebida Viana, eternizada na cidade simplesmente como Dunga.
Cantora negra,
Dunga construiu seu nome pela força do talento. Sua voz atravessou décadas,
atravessou gerações e permaneceu viva na lembrança afetiva de Itaúna mesmo após
sua morte, em 14 de outubro de 2005.
Sua trajetória
foi profundamente itaunense. Sua arte nasceu das ruas, dos encontros musicais,
das escolas de samba, dos grupos de baile e das serestas que moldaram a cultura
popular da cidade nas décadas de 1960, 1970 e 1980.
Durante anos,
integrou conjuntos musicais e apresentações ao lado de nomes importantes da
música local, como o acordeonista Glício Mendes. Sua presença artística se
expandiu para além de Itaúna através do projeto Minas ao Luar, promovido
pela Rede Globo Minas, pelo qual percorreu diversas cidades mineiras durante
parte da década de 1980, levando consigo a musicalidade e a identidade cultural
itaunense.
Mas talvez tenha
sido no carnaval que Dunga tenha alcançado uma dimensão quase mítica. Em uma
época em que os “puxadores” de samba eram tradicionalmente homens, ela assumiu
a condução dos sambas-enredo da Escola de Samba Clube dos Zulus. Não apenas
ocupou aquele espaço: dominou-o. Sua voz passou a incendiar a antiga avenida da
Praça da Matriz, transformando desfile em espetáculo.
Fernando Lúcio de
Lima recorda exatamente essa força: “A Dunga não
podia faltar. Voz poderosa que incendiava a Praça da Matriz nos bons tempos do
carnaval itaunense. Ouço a voz da Dunga nos desfiles memoráveis do Zulu. Era
uma rainha que cantava.”
A expressão é
precisa: “uma rainha que cantava”. Porque Dunga não era apenas intérprete; ela
ocupava o espaço com autoridade artística. Sua presença carregava dignidade,
imponência e carisma.
Sua trajetória,
porém, não se limitava ao samba e à música popular. O texto sobre as organistas
da Matriz de Sant’Ana registra sua participação ao lado da organista Anna Alves
Vieira dos Reis, entoando os versos graves e solenes do Agnus Dei da
Missa in honorem Sancti Michaelis Archangelis.
Esse detalhe é
extremamente significativo historicamente: revela uma artista capaz de
transitar entre o universo popular do carnaval e o repertório sacro erudito da
liturgia católica.
Essa
versatilidade desmonta qualquer tentativa simplista de enquadrar Dunga apenas
como cantora carnavalesca. Ela era intérprete de múltiplos repertórios, dona de
uma voz lírica e potente, capaz de ocupar tanto a avenida quanto a igreja,
tanto a seresta quanto o canto religioso.
Sandra Crespo
Lima resumiu essa lembrança em poucas palavras: “Conheci a Dunga.
Voz linda. Ela cantou no Zulu.”
Já Agostinho
Rocha recorda não apenas a cantora, mas a presença humana: “Já tive o prazer
de contracenar com a Dunga num curto diálogo teatral, no Sindicato dos
Metalúrgicos! Tudo é saudade para nós, corações vividos...!”
O comentário
revela outro aspecto importante: Dunga participava ativamente da vida cultural
da cidade. Não era uma artista isolada, mas alguém integrada aos espaços
coletivos de sociabilidade popular.
Pepe Chaves, por
sua vez, destacou a dimensão afetiva deixada por ela: “Sua voz potente
e lírica será ainda lembrada por muitos itaunenses que tiveram o prazer de
ouvi-la".[...] "Dunga possuía uma voz que remetia às grandes cantoras negras da
música gospel norte-americana".
E talvez seja
justamente aí que reside a permanência de Dunga. Sua memória sobrevive porque
ela pertence à experiência emocional da cidade. Dunga não foi apenas “uma
cantora de Itaúna”. Ela se tornou parte da paisagem sonora da memória
itaunense.
Sua última
apresentação pública possui força quase simbólica. Poucos dias antes de
falecer, voltou ao palco justamente em uma edição do Minas ao Luar,
realizada na Praça Dr. Augusto Gonçalves. Era como se encerrasse sua trajetória
diante da própria cidade que ajudou a cantar durante décadas.
Quando se fala
nos antigos carnavais de Itaúna, nas serestas, nos bailes populares, na Praça
da Matriz tomada pelo samba e pela música, sua voz continua presente, não
apenas como lembrança, mas como patrimônio afetivo e cultural de uma cidade
inteira.
NOTA SOBRE IMAGENS E VÍDEO DE DUNGA
As
imagens e o vídeo apresentados nesta publicação não correspondem, em sua
totalidade, a registros fotográficos ou audiovisuais originais de Maria
Concebida Viana, a Dunga.
Parte
do material consiste em recriações visuais interpretativas produzidas com
auxílio de inteligência artificial (IA), elaboradas a partir de fotografias
históricas, relatos memorialísticos, referências documentais e descrições
relacionadas à cantora itaunense.
As
recriações buscaram preservar, de forma respeitosa, características físicas,
estéticas e contextuais associadas à artista, especialmente sua atuação nos
meios musicais e culturais de Itaúna ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980.
O
objetivo deste material é contribuir para a preservação da memória cultural
itaunense, valorizando a trajetória artística de Dunga e ampliando o acesso
público à sua história por meio de recursos visuais contemporâneos inspirados
em fontes históricas disponíveis.
Todo
o conteúdo foi desenvolvido pelo projeto Itaúna Décadas com finalidade
exclusivamente cultural, educativa, histórica e memorialística.
CHAVES, Pepe.
Depoimento sobre Maria Concebida Viana (Dunga). Publicado no grupo “Itaúna...
Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
LIMA, Fernando
Lúcio de. Depoimento sobre os carnavais itaunenses e a participação de Dunga
nos desfiles do Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”,
Facebook, entre 2018 e 2020.
ROCHA, Agostinho.
Depoimento sobre participação teatral ao lado de Dunga no Sindicato dos
Metalúrgicos de Itaúna. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook,
entre 2018 e 2020.
LIMA, Sandra
Crespo. Depoimento sobre a atuação musical de Dunga no Clube dos Zulus.
Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.
XADREZ, Cepex.
Comentário em memória da cantora Dunga. Publicado no grupo “Itaúna... Bons
Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.