sexta-feira, junho 05, 2026

DESCOROAMENTO

  

RAINHA PERPÉTUA DO REINADO: ITAÚNA MG

Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna

O texto do Professor Geraldo Fonte Boa registra o ritual de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna.

A cerimônia, realizada durante seu velório, é apresentada como uma manifestação rara e profundamente simbólica da tradição congadeira, marcada pela despedida de uma liderança que, por décadas, esteve à frente da organização e condução dos festejos do Reinado na cidade.

Antes de descrever o ritual, o autor contextualiza a importância de D. Sãozinha para a comunidade congadeira. Além de exercer a função de Rainha Perpétua, sua residência servia como quartel de guardas tradicionais do Reinado, tornando-se um importante espaço de preservação da fé, da cultura e das práticas religiosas ligadas à devoção a Nossa Senhora do Rosário e a Santa Ifigênia.

Sua atuação estava diretamente associada à manutenção das festividades anuais, que mobilizam guardas, capitães, familiares e devotos em torno de uma tradição transmitida entre gerações.

O velório foi marcado por homenagens realizadas pelos capitães e integrantes das guardas, que expressaram sua despedida por meio de orações e cânticos. Em respeito à solenidade do momento, os instrumentos tradicionalmente presentes nas festas permaneceram silenciados, reforçando o caráter de luto e reverência à rainha falecida.

O ritual de descoroamento teve início algumas horas antes do sepultamento, sob a condução do Capitão-Mor da Irmandade das Sete Guardas. Sobre o corpo da rainha foram colocados os símbolos de sua função: a coroa, o manto e o cetro. A cerimônia desenvolveu-se por meio de orações e cânticos responsoriais, nos quais a assembleia acompanhava as invocações conduzidas pelos capitães. Em seguida, realizou-se a retirada ritual desses objetos sagrados.

Utilizando bastões, os capitães erguiam a coroa, o manto e o cetro sem tocá-los diretamente com as mãos, conduzindo-os ao longo do corpo da falecida até entregá-los às suas filhas e netas. Esse gesto simbolizava o encerramento de sua missão terrena como Rainha Perpétua e a devolução das insígnias que representam a autoridade espiritual e cerimonial exercida durante sua vida.

Após a retirada dos símbolos, os participantes entoaram cânticos finais que confirmavam o descoroamento da rainha e exaltavam sua trajetória de devoção. O ritual foi encerrado com vivas a Nossa Senhora do Rosário e ao Rosário de Maria, reafirmando a dimensão religiosa da cerimônia e a crença na continuidade espiritual da missão cumprida por D. Sãozinha.

O texto também destaca que as homenagens prosseguiram durante o cortejo fúnebre, na Capela do Rosário e no cemitério, sempre acompanhadas por cânticos e manifestações de respeito à rainha falecida.

Ao final, o autor ressalta que a coroa permaneceu sob a guarda de suas descendentes, responsáveis por definir quem assumiria futuramente a função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, garantindo a continuidade da tradição do Reinado em Itaúna.

Por fim, o texto contextualiza historicamente a existência da Capela das Sete Guardas, vinculando sua criação às tensões ocorridas na década de 1940 entre congadeiros e autoridades eclesiásticas.

Dessa forma, o ritual de descoroamento é apresentado não apenas como uma despedida individual, mas como uma expressão da memória coletiva, da resistência cultural e da permanência das tradições afro-brasileiras que constituem o Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna.


Referência

FONTE BOA, Geraldo. Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna. Disponível em: https://phonteboa.blogspot.com/2023/12/ritual-de-descoroamento-da-rainha.html  . Acesso em consulta realizada para esta síntese.


 © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Síntese, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).


Mais registros sobre a Rainha

  Itaúna se despede de Dona Sãozinha, Rainha do Reinado

Expoente da cultura e folclore religioso

Itaúna perdeu uma rainha


Nota sobre a imagem de capa

A imagem de capa foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), a partir de referências visuais, históricas e culturais relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna/MG. Trata-se de uma representação artística inspirada na tradição congadeira, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.

quarta-feira, junho 03, 2026

VOZES DO REINADO

FESTA REINADEIRA DE ITAÚNA: PATRIMÔNIO

A série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal de Itaúna, oferece ao público a oportunidade de conhecer as narrativas, memórias e experiências compartilhadas pelos próprios integrantes de uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas do município.

Organizada em quatro episódios temáticos, a produção aborda diferentes dimensões do Reinado, contemplando suas narrativas de origem, a trajetória das guardas, a centralidade da fé e a importância da festa como espaço de preservação da memória coletiva e da ancestralidade afro-brasileira.

Mais do que registrar uma celebração tradicional, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural em seu cotidiano.

Antes da análise dos episódios, é importante destacar que a série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal de Itaúna, constitui um registro fundamentado principalmente na memória coletiva, na tradição oral e nos testemunhos dos próprios integrantes do Reinado.

Ao longo dos quatro episódios, as narrativas são construídas a partir das experiências, crenças, lembranças, devoções e interpretações compartilhadas por capitães, reis, rainhas, congadeiros e demais participantes da manifestação.

Nesse sentido, o documentário não se apresenta como uma pesquisa histórica baseada na análise crítica de documentação escrita, registros arquivísticos ou debates historiográficos especializados.

Sua proposta consiste em dar voz aos sujeitos que vivenciam e preservam a tradição reinadeira, registrando as narrativas de origem, os valores religiosos, os símbolos, as práticas culturais e as memórias transmitidas entre gerações.

Dessa forma, os relatos apresentados devem ser compreendidos como expressões da memória social e da identidade cultural dos grupos envolvidos. Elementos como a lenda de Chico Rei, o resgate de Nossa Senhora do Rosário pelas guardas e outras narrativas presentes nos episódios integram um universo simbólico construído e preservado pela tradição oral, desempenhando papel fundamental na formação da identidade do Reinado.

Ainda que nem sempre possam ser verificadas por meio da documentação disponível, essas narrativas possuem relevância histórica por revelarem as formas pelas quais as comunidades interpretam suas origens, atribuem significados ao passado e fortalecem seus vínculos coletivos no presente.

Sob essa perspectiva, o documentário oferece uma importante fonte para a compreensão de como os próprios reinadeiros interpretam sua história, sua fé, sua ancestralidade e sua trajetória coletiva. Mais do que buscar estabelecer uma reconstrução factual das origens do Reinado, a produção permite observar os significados atribuídos à manifestação por aqueles que a mantêm viva na contemporaneidade.

Do ponto de vista metodológico, torna-se necessário distinguir memória, tradição oral e história. Enquanto a história acadêmica busca compreender o passado por meio da análise crítica de diferentes fontes documentais, a memória constitui uma construção social permanentemente atualizada pelos grupos que a preservam.

A tradição oral, por sua vez, atua como um importante mecanismo de transmissão de conhecimentos, valores, crenças e experiências entre gerações. Essas diferentes formas de interpretação do passado não devem ser vistas como excludentes, mas como dimensões complementares que contribuem para a compreensão dos fenômenos culturais.

Assim, o principal valor histórico da série documental não reside na comprovação documental dos acontecimentos narrados, mas na possibilidade de compreender como os participantes do Reinado elaboram suas lembranças, constroem suas identidades e atribuem sentido à própria existência da manifestação.

A estrutura da série documental acompanha um percurso narrativo que parte das narrativas de origem do Reinado, avança para a organização e a continuidade das guardas, aprofunda-se na dimensão espiritual da manifestação e culmina na celebração pública da festa.

Ao longo dos quatro episódios, os depoimentos dos participantes revelam como memória, ancestralidade, fé, tradição e pertencimento são constantemente articulados na construção da identidade reinadeira.

Dessa forma, mais do que apresentar uma cronologia dos acontecimentos, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural na contemporaneidade.

Ao registrar essas vozes, o documentário preserva um importante patrimônio imaterial e oferece um testemunho significativo sobre os processos de construção da memória coletiva, da religiosidade popular e da ancestralidade afro-brasileira em Itaúna.

Ao mesmo tempo, a série contribui para reafirmar os vínculos entre essa tradição e a trajetória histórica de Itaúna — a antiga Sant’Ana do Rio São João Acima, a "Pedra Negra" que se consolidou como um importante espaço de preservação da memória, da religiosidade popular e da herança afro-brasileira no centro-oeste mineiro.

 

 

PRIMEIRO EPISÓDIO

SEGUNDO EPISÓDIO

TERCEIRO EPISÓDIO ✅

QUARTO EPISÓDIO ✅

  © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).

Nota sobre a imagem de capa

A imagem utilizada na capa deste documentário foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), tendo como referência fotografias, registros visuais, elementos arquitetônicos, símbolos, relatos orais e informações históricas relacionados ao Reinado de Itaúna. Trata-se de uma representação artística inspirada no patrimônio cultural e religioso da manifestação, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.

    domingo, maio 31, 2026

    MESTRE SEMEADOR

    CHARLES AQUINO & PROF. MARCO ELÍSIO

    Há encontros que acontecem por acaso. Outros, porém, parecem estar aguardando o momento exato para acontecer. O meu encontro com o Professor Marco Elísio foi um desses.

    Era o início da década de 2010. Eu caminhava pelas ruas do centro de Itaúna, observando aquilo que sempre me fascinou: os vestígios do passado. 

    Procurava antigas casas, sobrados, construções que resistiam silenciosamente ao tempo. Não era historiador. Não pesquisava arquivos. 

    Não imaginava o caminho que ainda seria aberto diante de mim. Era apenas um admirador da história da cidade onde nasci.

    Na Rua Professor Francisco Santiago, tendo diante dos olhos a imponência da antiga Escola Normal — hoje Escola Estadual de Itaúna —, um sobrado chamou minha atenção. Não era apenas uma construção antiga. Havia algo naquele lugar que parecia guardar histórias ainda não contadas.

    Tentei fotografá-lo. Procurei o melhor ângulo. Nenhum me satisfazia. Então apertei a campainha. Uma voz respondeu:

    — Pois não?

    Apresentei-me:

    — Meu nome é Charles Aquino. Gostaria, se possível, de tirar uma fotografia desta casa.

    A resposta veio imediata:

    — Claro que não!

    Por um instante, pensei que a conversa terminaria ali. Mas a voz continuou:

    — Você poderá fazer muito mais do que um registro fotográfico.

     Entre. Precisamos conversar.

    O portão se abriu. Ali estava um senhor alto, magro, de cabelos brancos, segurando um lenço branco nas mãos. Antes mesmo de qualquer apresentação formal, ele me entregou o lenço e disse:

    — Segure isto. Você vai precisar. 

    O que iremos começar agora provavelmente o deixará de queixo caído. E deixou.

    Naquele dia, atravessei um portão. Mas, olhando para trás, percebo que atravessei muito mais do que isso. Atravessei uma fronteira entre a simples curiosidade e a paixão pela história. Depois daquela porta, nunca mais fui o mesmo.

    Muitos conheceram Marco Elísio Chaves Coutinho como escritor, ambientalista, defensor da cultura, homem de fé e servidor público, ou simplesmente professor Marco Elísio.

    Sua trajetória é amplamente reconhecida em Itaúna. Lecionou em diversas instituições, participou ativamente da vida cultural da cidade, dedicou-se à preservação do patrimônio, à educação e à valorização das tradições locais.

    Mas quem teve o privilégio de conviver com ele de perto conheceu algo ainda maior — conheceu um semeador. Em um texto escrito após sua partida em 2018, Marco Elísio foi comparado ao personagem Tistu, "o menino do dedo verde", aquele que fazia florescer tudo o que tocava. A metáfora não poderia ser mais adequada.

    Porque Marco não cultivava apenas jardins.

    Cultivava pessoas.

    Cultivava ideias.

    Cultivava sonhos.

    E, sobretudo, cultivava perguntas.

    Cada encontro era uma aula.

    Cada conversa transformava-se em uma investigação.

    Cada dúvida tornava-se o ponto de partida para uma nova descoberta. 

    Não havia respostas prontas. 

    Havia caminhos.

    Houve um episódio que ilustra bem o espírito generoso e a grandeza intelectual de Marco Elísio. Em determinado momento de minhas pesquisas, passei a me aprofundar na trajetória de seu pai, o Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho — o Dr. Coutinho

    Sua biografia, aliás, é indispensável para qualquer leitor que deseje compreender uma parte significativa da história de Itaúna e o legado de um homem que escolheu esta terra como sua, dedicando-lhe seus talentos, sua fé, sua atuação pública e seu amor até os últimos dias de vida.

    À medida que avançava na investigação de documentos, relatos e registros sobre sua trajetória, crescia também minha admiração por aquela figura extraordinária. Em uma de nossas conversas, de maneira franca e bem-humorada, confessei ao Professor Marco Elísio:

    — Marco, quanto mais pesquiso sobre seu pai, mais gosto dele. Acho que estou gostando mais dele do que de você.

    A resposta veio imediata, acompanhada de um sorriso sereno que lhe era característico:

    — Então você está no caminho certo.

    Naquele instante compreendi algo que ia além da simples resposta. Marco Elísio não demonstrou qualquer vaidade ou ciúme da memória paterna. Pelo contrário. Como verdadeiro educador, alegrava-se ao ver alguém descobrir, por meio da pesquisa, a dimensão humana e histórica daqueles que ajudaram a construir Itaúna. 

    Sua resposta revelava exatamente quem ele era: um homem que compreendia que a história não pertence aos indivíduos, mas à coletividade; que o pesquisador deve seguir as evidências, as fontes e as trajetórias que encontra pelo caminho, ainda que essas o conduzam para além das figuras que inicialmente admirava.

    Foi mais uma lição. Talvez uma das maiores. Marco ensinava que pesquisar não é procurar confirmação para nossas preferências, mas permitir que os documentos, as memórias e os fatos nos conduzam. E, naquele dia, ao dizer que eu estava "no caminho certo", ele reafirmou aquilo que sempre procurou cultivar em seus alunos e amigos: a liberdade de pensar, investigar e descobrir.

    E foi justamente nesses caminhos que nasceu uma amizade que ultrapassou a relação entre professor e aluno. Com o passar dos anos, Marco Elísio passou a fazer parte de momentos importantes da minha própria vida.

    Em 2012, eu aguardava a chegada do meu primeiro filho. Em uma de nossas conversas em seu sobrado, comentei que o nascimento se aproximava e que eu ainda não havia decidido qual seria o nome da criança.

    Com a serenidade habitual, ele me perguntou:

    — Que dia você nasceu?

    Respondi:

    — Vinte e nove de setembro.

    Marco então sorriu e disse:

    — Seria interessante chamá-lo Gabriel. Neste dia a Igreja celebra os três Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael.

    A sugestão pareceu simples naquele momento, mas ficou gravada em minha memória. Refleti sobre suas palavras e, pouco tempo depois, o nome foi escolhido.

    Assim nasceu Gabriel.

    Hoje percebo que essa foi mais uma das muitas sementes plantadas por Marco Elísio ao longo de nossa amizade. Não foi apenas um conselho sobre um nome. Foi uma demonstração de como ele conseguia relacionar cultura, tradição, fé e afeto, transformando conversas comuns em lembranças permanentes.

    De certa forma, seu legado não ficou apenas nos livros, nos projetos culturais ou nas pesquisas históricas. Também permaneceu nas pequenas decisões da vida, nas histórias familiares e nos vínculos humanos que construiu ao longo de sua caminhada.

    Com Marco Elísio aprendi que a história não mora apenas nos arquivos, nas bibliotecas ou nos monumentos.

    Ela vive nas esquinas.

    Nas conversas esquecidas.

    Nos apelidos.

    Nas memórias familiares.

    Nos detalhes aparentemente insignificantes que os grandes livros raramente registram.

    Juntos percorremos as trilhas do antigo Arraial de Santana do Rio São João Acima.

    Investigamos personagens esquecidos.

    Questionamos versões cristalizadas.

    Buscamos compreender não apenas aquilo que foi oficialmente registrado, mas também aquilo que permaneceu nos bastidores da memória coletiva.

    Muitas vezes eram histórias que pareciam pequenas.

    Sem relevância para alguns.

    Mas Marco compreendia algo fundamental:

    Não existe história pequena.

    Pequeno é apenas o olhar de quem não consegue perceber sua importância.

    Foi assim que aprendemos a registrar acontecimentos do cotidiano, memórias familiares, tradições populares, personagens anônimos e fragmentos que, reunidos, ajudam a explicar quem somos.

    Enquanto muitos olhavam apenas para os grandes acontecimentos, Marco ensinava a enxergar a humanidade escondida nos detalhes.

    Se hoje caminho pelos arquivos, pelas fontes históricas, pelos jornais antigos e pelas memórias da cidade, muito disso começou naquele sobrado.

    Marco Elísio não me entregou respostas.

    Entregou-me inquietações.

    Mostrou que a história não é um conjunto de verdades acabadas.

    É uma investigação permanente.

    É o exercício constante de perguntar.

    De duvidar.

    De comparar versões.

    De ouvir vozes esquecidas.

    Foi essa forma de enxergar o passado que despertou em mim o desejo de estudar história, pesquisar, escrever e contribuir para a preservação da memória de Itaúna.

    Ao longo dos anos, compartilhamos projetos, ideias, sonhos e desafios.

    Houve entusiasmo.

    Houve divergências.

    Houve debates intensos.

    Mas, acima de tudo, houve aprendizado.

    Muito aprendizado.

    Alguns chamavam Marco Elísio de sonhador.

    Outros, de forma até irônica, apelidaram-no de homem de "mente cor-de-rosa". O próprio registro de sua trajetória recorda essa expressão, inicialmente usada por críticos para ridicularizar sua capacidade de sonhar.

    Mas o tempo fez justiça. Porque os sonhadores costumam ser incompreendidos enquanto estão construindo o futuro. Marco sonhava com uma Itaúna que valorizasse sua memória.

    Sonhava com uma cidade que preservasse seu patrimônio.

    Sonhava com uma população consciente de sua própria história.

    Sonhava com jardins.

    Com cultura.

    Com educação.

    Com pertencimento.

    Muitos desses sonhos continuam vivos.

    Outros ainda aguardam realização.

    Mas todos deixaram sementes.

    E as sementes continuam germinando.

    Nos últimos anos de sua vida, quando a saúde já não lhe permitia o mesmo vigor de outrora e os dias pareciam correr mais depressa, Marco Elísio não abandonou aquilo que dava sentido à sua existência. Permaneceu exatamente como sempre foi: um mestre, semeando conhecimento, esperança e amor por Itaúna.

    Seu legado não está apenas nos livros que escreveu. 

    Nem nos projetos que idealizou.

    Nem nos cargos que ocupou.

    Seu maior legado está nas pessoas que transformou.

    Eu sou uma delas.

    E certamente não estou sozinho.

    Há dezenas, talvez centenas, de itaunenses que carregam um pouco de Marco Elísio em sua maneira de pensar, de observar a cidade e de compreender o passado.

    Hoje, quando olho para esta fotografia, vejo muito mais do que duas pessoas.

    Vejo uma história de amizade.

    Vejo um mestre e um aprendiz.

    Vejo duas gerações unidas pelo amor à memória e à história de Itaúna.

    Vejo o homem que abriu um portão e, sem saber, abriu também um destino.

    A caminhada continua.

    Ainda há documentos para descobrir.

    Ainda há histórias para registrar.

    Ainda há memórias para preservar.

    Ainda há sonhos para realizar.

    E, enquanto houver alguém disposto a continuar essa missão, a mente cor-de-rosa de Marco Elísio continuará viva.

    Porque a história não termina com a partida dos seus construtores.

    Ela continua sendo escrita por aqueles que receberam deles a responsabilidade de seguir adiante.

    E foi exatamente isso que ele me ensinou.

    Fazer história não é apenas estudar o passado.

    É garantir que aquilo que merece ser lembrado jamais seja esquecido.

    Professor Marco Elísio, amigo, mestre e inspirador: sua obra permanece.

    Sua voz permanece.

    Seu exemplo permanece.

    E, enquanto houver memória, sua história continuará caminhando conosco.

    Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG)

    Pesquisador da memória de Itaúna.

     © ITAÚNA DÉCADAS

    Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

     

    Nota do autor: Embora esta fotografia não tenha sido registrada em estúdio, ela foi criada por Inteligência Artificial a partir de fotografias autênticas de Charles Aquino e do Professor Marco Elísio.

    Mais do que reproduzir um instante real, a imagem procura representar simbolicamente anos de convivência, aprendizado, investigação histórica e amizade, eternizando visualmente uma relação que marcou profundamente a construção da memória de Itaúna.

    O valor da fotografia não está em ser um registro real daquele momento específico, mas em representar visualmente algo que efetivamente existiu. Ou seja, a cena é simbólica, mas o sentimento é autêntico.