terça-feira, julho 28, 2026

PRIMEIRA AGROPECUÁRIA

Pároquia de Santana Itaúna/MG -  S.Sebastião

Rumo aos 60 anos de um marco, o registro intitulado “Primeira Exposição Agropecuária – 1967”, redigido pelo vigário Cônego José Ferreira Netto, constitui uma fonte primária de grande relevância para a compreensão das dinâmicas sociais, econômicas e simbólicas de Itaúna na segunda metade do século XX.

À frente da Paróquia de Santana por mais de quatro décadas, o sacerdote não apenas exerceu funções religiosas, mas também se afirmou como um agente ativo na construção da memória local, registrando eventos que extrapolavam o campo estritamente eclesiástico.

Inserido no Livro Tombo II (1948–1992), o texto revela a centralidade da Igreja na organização e legitimação de iniciativas públicas, como a realização da primeira exposição agropecuária do município. A abertura do evento com uma missa campal, assistida por autoridades, organizadores e uma expressiva multidão, evidencia a intersecção entre religiosidade, poder institucional e vida comunitária, característica marcante de cidades do interior brasileiro no período.

O relato também destaca elementos que permitem observar práticas culturais e representações sociais da época, como o cortejo até o Campo da Vargem, a valorização da pecuária como eixo econômico e, de maneira particular, a presença das chamadas “amazonas”— jovens mulheres montadas, cuja participação sugere tanto um componente festivo quanto uma dimensão simbólica de distinção social e estética.

Ao registrar os nomes dos organizadores e enfatizar o sucesso do evento, o texto assume um tom celebrativo, próprio da escrita paroquial, que tende a valorizar a ordem, a participação coletiva e os êxitos da comunidade. Nesse sentido, mais do que uma simples descrição factual, o documento deve ser lido criticamente, como uma narrativa que constrói memória, seleciona protagonistas e reforça determinadas visões sobre o desenvolvimento local.

Assim, o escrito de José Ferreira Netto não apenas documenta a realização da primeira exposição agropecuária de Itaúna, mas também ilumina o papel da Igreja como mediadora entre tradição, progresso e identidade social, oferecendo ao pesquisador uma janela privilegiada para a compreensão das relações entre fé, economia e sociabilidade no contexto itaunense.

 PRIMEIRA EXPOSIÇÃO AGROPECUÁRIA - 1967

"Teve seu início com uma missa campal em frente a matriz, assistida por todas as autoridades e organizadores proprietários dos animais e uma grande multidão, apesar de ter sido em dia útil em 25 de agosto.

Formou-se em seguida grande cortejo, para o local da exposição Campo da Vargem. Aí foram erguidos diversos galpões, neles belos tipos de gado.

O que mais se destacou foi o grupo das amazonas, jovens moças tipicamente vestidas, montadas em seus vistosos cavalos, perto de umas cinquentas.    Foram três dias de grande movimento em Itaúna. Foi encerrada a exposição no dia 28 de agosto com a entrega dos valiosos prêmios.

Foram os grandes batalhadores desta exposição os senhores Ibsen Drumond e Dr. Oscar".

Vigário Cônego José Ferreira Netto

 

Referências:

Livro Tombo II (1948-1992), página 84, 1967. Paróquia Santana de Itaúna/MG

Imagem:

Reconstituição visual ilustrativa inspirada no registro da Primeira Exposição Agropecuária de Itaúna (1967), descrita pelo vigário Cônego José Ferreira Netto no Livro Tombo II (1948–1992), página 84.

A composição não corresponde a um registro fotográfico do evento, mas a uma interpretação artística baseada na narrativa paroquial, buscando representar o contexto social da época, a centralidade da Igreja na abertura da exposição, marcada pela missa campal em frente à matriz , o cortejo até o Campo da Vargem e a dinâmica rural evidenciada pela presença de carros de bois, criadores e público.

Destaca-se, ainda, a inclusão das chamadas “amazonas”, jovens montadas que participaram do evento, elemento mencionado na fonte e que revela aspectos simbólicos, sociais e culturais da celebração.

A imagem, portanto, deve ser compreendida como uma construção visual interpretativa, orientada pela fonte escrita, com o objetivo de evocar a ambiência, os agentes envolvidos e as práticas coletivas associadas à realização da primeira exposição agropecuária do município. 

Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

@ITAÚNA DÉCADAS -  HISTÓRIA & MEMÓRIA

segunda-feira, julho 20, 2026

PORTAL SERTÕES DE MINAS

História, memória e Patrimônio de Minas

Portal Sertões de Minas: História, Memória e Patrimônio 

Os sertões de Minas não são apenas um espaço geográfico. São territórios marcados pela formação de povoados, pela abertura de caminhos, pela religiosidade, pelas tradições populares e pelas histórias de homens e mulheres que construíram a identidade do interior mineiro ao longo dos séculos.

O Portal Sertões de Minas nasce com a missão de reunir, preservar e divulgar esse patrimônio histórico e cultural, oferecendo um ambiente dedicado à pesquisa, à memória e à valorização da história regional. 

Mais do que um repositório de informações, o portal pretende aproximar pesquisadores, professores, estudantes e todos aqueles que reconhecem na história um instrumento essencial para compreender o presente e preservar o legado do passado.

Aqui, o visitante encontrará artigos, documentos históricos, fotografias, mapas, livros, biografias, estudos acadêmicos e conteúdos voltados aos municípios que compõem os antigos sertões mineiros.

 Cada publicação busca unir rigor histórico, linguagem acessível e compromisso com a preservação das fontes, contribuindo para fortalecer a identidade cultural das comunidades do Centro-Oeste e de outras regiões de Minas Gerais.

O portal também nasce como um espaço de colaboração. Historiadores, pesquisadores, instituições culturais e arquivos são convidados a compartilhar conhecimentos e documentos que ampliem o acesso à história regional, promovendo a circulação do conhecimento e incentivando novas pesquisas.

Inspirado nos antigos mapas, nas rotas dos desbravadores e na riqueza do patrimônio material e imaterial de Minas Gerais, o Portal Sertões de Minas reafirma seu compromisso com três pilares fundamentais:

História, como conhecimento baseado em pesquisa e documentação;

Memória, como preservação das experiências e das identidades coletivas;

Patrimônio, como reconhecimento e valorização dos bens culturais que constituem nossa herança histórica.

Mais do que contar histórias, o Portal Sertões de Minas busca preservá-las para as futuras gerações, transformando documentos, imagens e pesquisas em uma ponte entre o passado e o presente.

Seja bem-vindo ao Portal Sertões de Minas. Um espaço dedicado à história, à memória e ao patrimônio do interior mineiro.

História Memória do centro oeste mineiro

Charles Galvão de Aquino 
Historiador
Registro nº 343/MG

 

Institucional

quinta-feira, julho 02, 2026

O PRIMEIRO SACERDOTE

Padre José Teixeira de Camargo: o Primeiro Sacerdote a Celebrar Missa no Arraial de Sant’Ana do São João Acima

A história de Itaúna, cidade do Centro-Oeste de Minas Gerais, é marcada por profundas raízes coloniais e encontra em suas origens figuras que exerceram papéis determinantes na formação espiritual, social e cultural da localidade. 

Entre elas destaca-se o Padre José Teixeira de Camargo, o primeiro sacerdote a celebrar missa no então arraial de Sant’Ana do São João Acima, marco inicial da vida religiosa e comunitária que viria a moldar o futuro município de Itaúna, Minas Gerais.

José Teixeira de Camargo nasceu em 12 de maio de 1740, na cidade de Congonhas do Campo/MG, filho do casal Tomás Teixeira e Ana Maria Cardoso de Camargo. 

Por parte materna, trazia uma linhagem ilustre, típica das famílias que participaram da formação do interior paulista e mineiro: era neto de João Lopes de Camargo e Isabel Cardoso de Almeida, e tetraneto de José Ortiz de Camargo e Leonor Domingues Carvoeiro (nomes vinculados à expansão bandeirante e à ocupação do sertão do Brasil colônia).

José Teixeira de Camargo, portanto, cresceu em meio à tradição da religiosidade e do prestígio familiar, o que lhe garantiu condições de buscar o sacerdócio. No entanto, a entrada nos quadros do clero na segunda metade do século XVIII exigia muito mais do que vocação. Na época em que este jovem padre ingressou no seminário, a Igreja Católica vivia sob forte conservadorismo. Ser ordenado sacerdote implicava enfrentar um rígido processo de comprovações.

O primeiro desafio era a prova de “pureza de sangue”, exigência que visava atestar que o candidato “não era descendente de penitenciado pelo Santo Ofício (inquisição), nem de judeu, mouro, mourisco, preto, mulato ou qualquer outra nação infecta.”

Vencida essa barreira racial e religiosa, processo comum àquele tempo, seguia-se a avaliação dos costumes morais e da reputação “ilibada”, feita por testemunhas em segredo, sob juramento. Era necessário demonstrar uma vida “sem manchas”, íntegra e respeitável, tanto do ponto de vista pessoal quanto familiar. 

Por fim, o terceiro requisito consistia em doar um patrimônio à diocese, condição indispensável à ordenação. Era exigido que esse patrimônio fosse legítimo e desvinculado de bens de raiz ou escravizados. No caso de José, foram seus pais que realizaram a doação de parte da fazenda adquirida pela família, o que permitiu que o processo fosse concluído.

Àquela altura, a cidade de Mariana, sede do bispado, passava por um período de transição, sem um bispo titular, sendo então administrada pelo Cabido Eclesiástico. Nesse contexto, coube ao influente cônego Ignácio Corrêa de Sá, também comissário do Santo Ofício e juiz das Justificações de Genere, conduzir os trâmites e nomeações eclesiásticas. 

Para julgar o processo de moralidade e origem, “de moribus”, de José Teixeira, nomeou-se o padre Jorge de Abreu Castelo Branco, bacharel pela Universidade de Coimbra e vigário da Freguesia de Pitangui e “pai da Joaquina do Pompéu, ordenado viúvo”.

Com o processo aprovado, o próprio padre Jorge de Abreu nomeou, em 4 de fevereiro de 1766, José Teixeira de Camargo como capelão da Capela de Sant’Ana do São João Acima, então filial da Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Pitangui. Tratava-se da primeira nomeação formal de um sacerdote para atuar de forma permanente no arraial, localizado em ponto estratégico de passagem de tropas e de expansão da ocupação do sertão, já densamente povoado e carente de assistência espiritual.

Aos 23 dias de abril, José Teixeira Camargo, ainda na condição de diácono, formalizou um requerimento ao Juiz das Dispensas em Mariana, explicando as razões para sua ordenação imediata. Alegava que a capela de Sant’Ana já estava concluída há seis meses, mas seguia sem sacerdote, e que havia grande carência de clérigos em toda a região do bispado de Mariana, não apenas para as terras povoadas, mas para aquelas que vinham sendo recentemente descobertas e colonizadas. Seu apelo foi atendido.

Ainda no mesmo ano de 1766, José Teixeira foi finalmente ordenado sacerdote e assumiu a capela de Sant’Ana, sendo o primeiro padre a celebrar oficialmente uma missa naquele espaço sagrado. Com esse ato inaugural, inaugurava-se também uma nova etapa no processo de enraizamento da fé católica e da vida comunitária no arraial, que com o tempo viria a se tornar o município de Itaúna.

Por mais de dois séculos, a sua memória permaneceu viva sobretudo em registros históricos e nos relatos da tradição oral local. Entretanto, seu nome demorou a ser reconhecido oficialmente nos espaços públicos da cidade que ajudou a fundar.

Em 4 de setembro de 1968, foi promulgada a Lei Municipal nº 908, que deu à praça localizada em torno da Igreja do Rosário o nome de “Praça Manoel Pinto Moreira”. Conforme reconheceu posteriormente Guaracy de Castro Nogueira, o nome homenageado nunca existiu, sendo fruto de um equívoco administrativo que ele próprio admitiu: “Este cidadão nunca existiu e eu sou o culpado, até que mude a denominação. Espero que tenha o nome do primeiro sacerdote que nela celebrou a primeira missa.”

A correção desse erro histórico foi finalmente realizada em 23 de março de 2004, trinta e seis anos após a nomeação anterior, com a promulgação da Lei Municipal nº 3.861, que modificou oficialmente o nome da praça para “Praça Pe. José Teixeira de Camargo”, reconhecendo de forma institucional o papel daquele que foi o primeiro sacerdote a atuar oficialmente em Itaúna.

A nova lei, além de revogar a anterior, determinou à Prefeitura a colocação de placas indicativas e a comunicação às instituições públicas e concessionárias de serviços essenciais sobre a alteração do logradouro.

A trajetória do Padre representa um elo vital entre a expansão da fé católica, os processos de ocupação do sertão mineiro e a consolidação das comunidades locais durante o período colonial. Ao ser o primeiro a celebrar missa na capela de Sant’Ana, ele não apenas cumpriu um rito litúrgico inaugural, mas fundou espiritualmente um povoado, ajudando a definir suas identidades, valores e referências religiosas.

Mais do que o primeiro a erguer a hóstia consagrada no altar de Sant’Ana do São João Acima, certamente, foi também uma figura que encarnou os ideais da Igreja colonial, o peso das tradições familiares e o impulso civilizador que moldou o interior de Minas Gerais. Seu percurso, da rígida formação eclesiástica à atuação pastoral em terras remotas, revela os bastidores de um tempo em que o sacerdócio representava mais do que vocação: era um caminho árduo de legitimação social, étnica e econômica.

Recuperar sua história é mais do que prestar homenagem: é restaurar a memória de um dos pilares invisíveis que sustentaram a fé, a esperança e a formação comunitária do que viria a ser Itaúna. A posterior reparação toponímica feita em 2004 sela um compromisso da cidade de Itaúna com sua própria história. Dar nome a um espaço público é também reconhecer a relevância de um passado que não pode ser esquecido. 

E nesse caso, o passado do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima também passa necessariamente pela figura de seu primeiro padre, cuja presença, hoje gravada no nome da praça, ecoa como sinal de pertencimento e permanência.

Que seu nome seja enfim reconhecido onde deve: na “Praça Pe. José Teixeira de Camargo” que hoje ocupa o mesmo chão em que ele certamente, pela primeira vez, levantou a voz para dizer “Dominus vobiscum” no coração do povoado de Sant’Ana.

Placa: Praça Pe. José Teixeira de CamargoCep: 35680-015

Referências:

Pesquisa e elaboração: Charles Aquino

CMI - CÂMARA MUNICPAL DE ITAÚNA. Lei nº 908, de 4 de setembro de 1968. Dá denominação à praça situada em volta da Igreja Nossa Senhora do Rosário como “Praça Manoel Pinto Moreira”, Itaúna, MG, 4 set. 1968. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/norma/8986

CMI – CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Lei nº 3.861, de 23 de março de 2004. Modifica denominação de logradouro público para “Praça Pe. José Teixeira de Camargo”, Itaúna, MG, 23 mar. 2004. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/norma/9841 

Fonte Impressa:   Itaúna em Detalhes – Pesquisa Guaracy de Castro Nogueira - Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa. Edição: Jornal Folha do Povo, 2003, p. 4, 6-7,

Ilustração inspirada no conteúdo do texto. 

sábado, junho 27, 2026

PADRE CÁUPER

Missionário de Tefé, Amazonas a Itaúna/MG

Padre Manuel de Lima Cáuper: Das margens do Solimões às montanhas de Minas

Quem foi Padre Manuel de Lima Cáuper? Como um jovem nascido em Tefé, no coração da Amazônia, tornou-se um dos mais notáveis missionários da Congregação do Espírito Santo, deixando marcas profundas na educação, na evangelização e na cultura brasileira?

Nesta biografia inédita, o historiador Charles Galvão de Aquino reconstrói a trajetória de Padre Manuel de Lima Cáuper (1919–1999), acompanhando sua caminhada desde a infância às margens do rio Solimões, sua formação em Portugal, sua atuação missionária na Amazônia, seu trabalho como educador em Curvelo e Itaúna, em Minas Gerais, e seus últimos anos de missão no Rio de Janeiro.

Fundamentada em documentos históricos, livros de tombo, periódicos, fotografias, registros eclesiásticos e testemunhos, esta obra vai além da narrativa biográfica. Ela revela a história da presença dos Missionários Espiritanos no Brasil, da formação do clero amazônico, da educação católica no século XX e do legado de um sacerdote que também deixou sua contribuição como compositor do Hino de Tefé e do Hino Oficial da Companhia Industrial Itaunense.

Mais do que contar a história de um missionário, este livro preserva a memória de um homem cuja vocação atravessou rios, montanhas e gerações, demonstrando que a verdadeira grandeza se revela no serviço silencioso prestado ao próximo.
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quinta-feira, junho 25, 2026

ÚLTIMO DESEJO 1834

Testamento de Salvador em Pitangui MG

O ÚLTIMO DESEJO 1834: Fé, Família e Memória em Sant'Ana do Rio São João Acima

Em fevereiro de 1834, no sítio da Cachoeira, nas terras do antigo arraial de Sant'Ana do Rio São João Acima, um homem decidiu colocar sua vida em ordem.

Seu nome era Salvador Lopes Rodrigues.

Lavrador, pai de família e irmão da Ordem de São Francisco, ele não era uma figura célebre nem ocupava posição de destaque na história do Brasil. Ainda assim, deixou para trás um documento extraordinário: seu testamento.

A partir dessa fonte histórica real, este livro reconstrói o universo de um homem comum do sertão mineiro do século XIX, revelando suas crenças, seus afetos, suas preocupações espirituais e os laços que uniam família, compadres, afilhados e escravizados em uma sociedade profundamente marcada pela fé.

Entre missas encomendadas para vivos e mortos, lembranças da esposa falecida, disposições sobre herança e a preparação para a própria morte, emerge um retrato humano e sensível de uma época quase esquecida.
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terça-feira, junho 23, 2026

FRANCISCO 1884

Francisco 1884: Uma História Inspirada em Documentos da Escravidão

Em 1884, um jovem escravizado desapareceu de uma fazenda no interior de Minas Gerais. Seu nome era Francisco.

Inspirado em documentos históricos do período da escravidão, este livro reconstrói, de forma narrativa, a trajetória de um homem que ousou buscar a liberdade em uma época marcada pelo cativeiro, pela perseguição e pela incerteza. Entre fazendas, estradas, quilombos e os últimos anos do regime escravista, o leitor acompanha uma jornada de coragem, resistência e esperança.

Mais do que a história de um indivíduo, Francisco 1884 revela aspectos da vida cotidiana dos escravizados, das redes de solidariedade que ajudavam fugitivos e das transformações que culminaram na Abolição da Escravidão em 1888.

Uma obra que combina pesquisa documental e narrativa histórica para resgatar a humanidade daqueles que muitas vezes aparecem nos arquivos apenas como nomes, descrições ou anúncios de fuga. 

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sexta-feira, junho 12, 2026

NOVA RAINHA

 

RAINHA PERPÉTUA DE SANTA IFIGÊNIA:ITAÚNA

Temos uma Nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia

Um registro da cerimônia documenta a coroação de Samara Regina Ferreira como nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna (MG), sucedendo sua avó, D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), que durante décadas exerceu papel central na preservação da tradição congadeira local.

A escolha da nova Rainha Perpétua representa a continuidade de um legado familiar, religioso e cultural profundamente vinculado à Irmandade das Sete Guardas e à preservação das festividades do Reinado. A sucessão reafirma a transmissão da missão desempenhada pela Rainha Perpétua entre gerações, fortalecendo a memória coletiva e a permanência das tradições afro-brasileiras que caracterizam o Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna.

A trajetória de Samara Regina Ferreira no Reinado teve início ainda na infância, quando foi coroada princesa e passou a integrar as celebrações do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, evidenciando a continuidade da tradição entre gerações.

Com a coroação, Samara Regina Ferreira passou a assumir, ao lado do Rei Congo Dilermando e da Rainha Conga Maria Ana, a responsabilidade pela condução dos festejos do Reinado, mantendo viva uma herança cultural transmitida entre gerações.

O registro descreve ainda o ritual de coroação realizado na Capelinha das Sete Guardas. A cerimônia é marcada por cortejo, cânticos, orações e pela entrega dos principais símbolos da realeza congadeira: a coroa, o manto e a insígnia.

Cada etapa é acompanhada por versos tradicionais entoados pelo Capitão-Mor e respondidos pela assembleia, reforçando o caráter sagrado da coroação e a devoção a Nossa Senhora do Rosário.

Por se tratar da coroação da Rainha de Santa Ifigênia, o rito inclui ainda elementos específicos ligados à santa, como a entrega simbólica da Casinha de Santa Ifigênia, além de cantos, homenagens e do ritual de cumprimentos realizado pelos congadeiros.

As guardas de Moçambique e Candombe participam ativamente da celebração, saudando a nova rainha com flores, cânticos e toques de caixas e gungas.

Ao final, o cortejo conduz a nova Rainha até a residência de D. Sãozinha, que permanece como quartel das guardas, simbolizando a continuidade da tradição.

Ao final, o registro reafirma o Reinado como expressão de fé, memória, ancestralidade e resistência cultural, ressaltando que o respeito a essa manifestação passa pelo conhecimento de suas tradições e pela convivência com a comunidade congadeira de Itaúna.

Nota metodológica

A presente síntese foi elaborada com base em um relato de observação produzido pelo Professor Geraldo Fonte Boa durante a cerimônia de coroação da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia. Como registro contemporâneo ao acontecimento, a fonte documenta aspectos da liturgia, dos cânticos e das práticas cerimoniais do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna, constituindo relevante testemunho para o estudo dessa tradição.

Nota complementar

A cerimônia de coroação da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, realizada em 2024, também foi registrada em vídeo por Gilson Antônio e encontra-se disponível no YouTube. O registro audiovisual constitui uma importante fonte complementar para a preservação da memória do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna, permitindo acompanhar os ritos, cânticos, símbolos e homenagens que marcaram a coroação de Samara Regina Ferreira como sucessora de D. Sãozinha na função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia.


Referências

FONTE BOA, Geraldo. Temos uma nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia! Itaúna, 24 mar. 2024. Disponível em: https://phonteboa.blogspot.com/2024/03/temos-uma-nova-rainha-perpetua-de-santa.html. Acesso em: 3 jun. 2026.

 © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Síntise, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).


Nota sobre a imagem de capa

A imagem de capa consiste em uma representação artística inspirada em referências históricas, culturais e iconográficas relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna (MG). Não se trata de um registro fotográfico de um evento específico, mas de uma composição concebida para ilustrar o universo simbólico e religioso abordado nesta obra.

sexta-feira, junho 05, 2026

DESCOROAMENTO

  

RAINHA PERPÉTUA DO REINADO: ITAÚNA MG

Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna

Um relato de observação produzido durante a cerimônia documenta o ritual de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna, preservando uma rara descrição das práticas litúrgicas e simbólicas que acompanham esse rito funerário.

A cerimônia, realizada durante o velório de D. Sãozinha, constitui uma manifestação rara e profundamente simbólica da tradição congadeira, marcada pela despedida de uma liderança que, durante décadas, esteve à frente da organização do Reinado em Itaúna.

Antes da descrição do ritual, o documento contextualiza a importância de D. Sãozinha para a comunidade congadeira. Além de exercer a função de Rainha Perpétua, sua residência servia como quartel de guardas tradicionais do Reinado, tornando-se um importante espaço de preservação da fé, da cultura e das práticas religiosas ligadas à devoção a Nossa Senhora do Rosário e a Santa Ifigênia.

Sua atuação estava diretamente associada à manutenção das festividades anuais, que mobilizam guardas, capitães, familiares e devotos em torno de uma tradição transmitida entre gerações.

O velório foi marcado por homenagens realizadas pelos capitães e integrantes das guardas, que expressaram sua despedida por meio de orações e cânticos. Em respeito à solenidade do momento, os instrumentos tradicionalmente presentes nas festas permaneceram silenciados, reforçando o caráter de luto e reverência à rainha falecida.

O ritual de descoroamento teve início algumas horas antes do sepultamento, sob a condução do Capitão-Mor da Irmandade das Sete Guardas. Sobre o corpo da rainha foram colocados os símbolos de sua função: a coroa, o manto e o cetro. A cerimônia desenvolveu-se por meio de orações e cânticos responsoriais, nos quais a assembleia acompanhava as invocações conduzidas pelos capitães. Em seguida, realizou-se a retirada ritual desses objetos sagrados.

Utilizando bastões, os capitães erguiam a coroa, o manto e o cetro sem tocá-los diretamente com as mãos, conduzindo-os ao longo do corpo da falecida até entregá-los às suas filhas e netas. Esse gesto simbolizava o encerramento de sua missão terrena como Rainha Perpétua e a devolução das insígnias que representam a autoridade espiritual e cerimonial exercida durante sua vida.

Após a retirada dos símbolos, os participantes entoaram cânticos finais que confirmavam o descoroamento da rainha e exaltavam sua trajetória de devoção. O ritual foi encerrado com vivas a Nossa Senhora do Rosário e ao Rosário de Maria, reafirmando a dimensão religiosa da cerimônia e a crença na continuidade espiritual da missão cumprida por D. Sãozinha.

O documento registra ainda que as homenagens prosseguiram durante o cortejo fúnebre, na Capela do Rosário e no cemitério, sempre acompanhadas por cânticos e manifestações de respeito à Rainha Perpétua.

Ao final, informa que a coroa permaneceu sob a guarda de suas descendentes, responsáveis por definir quem assumiria futuramente a função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, garantindo a continuidade da tradição do Reinado em Itaúna.

Por fim, o texto contextualiza historicamente a existência da Capela das Sete Guardas, vinculando sua criação às tensões ocorridas na década de 1940 entre congadeiros e autoridades eclesiásticas.

O ritual de descoroamento evidencia que a morte da Rainha Perpétua não representa o encerramento da tradição, mas a continuidade de uma missão religiosa transmitida entre gerações. Ao preservar os cânticos e a memória da falecida, a cerimônia reafirma a identidade coletiva da comunidade congadeira e a permanência das tradições afro-brasileiras que constituem o Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna.


Referência

FONTE BOA, Geraldo. Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna. Disponível em: https://phonteboa.blogspot.com/2023/12/ritual-de-descoroamento-da-rainha.html  . Acesso em consulta realizada para esta síntese.

A análise apresentada neste capítulo baseia-se principalmente em um relato de observação produzido durante a cerimônia de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), documento que registra detalhadamente a sequência ritual, os cânticos e as práticas litúrgicas observadas. Por se tratar de um registro contemporâneo ao acontecimento, a fonte constitui um importante testemunho documental para o estudo do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna.

 © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Síntese, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).

Mais registros sobre a Rainha

  Itaúna se despede de Dona Sãozinha, Rainha do Reinado

Expoente da cultura e folclore religioso

Itaúna perdeu uma rainha


Nota sobre a imagem de capa

A imagem de capa foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), a partir de referências visuais, históricas e culturais relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna/MG. Trata-se de uma representação artística inspirada na tradição congadeira, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.

quarta-feira, junho 03, 2026

VOZES DO REINADO

FESTA REINADEIRA DE ITAÚNA: PATRIMÔNIO

A série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal de Itaúna, oferece ao público a oportunidade de conhecer as narrativas, memórias e experiências compartilhadas pelos próprios integrantes de uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas do município.

Organizada em quatro episódios temáticos, a produção aborda diferentes dimensões do Reinado, contemplando suas narrativas de origem, a trajetória das guardas, a centralidade da fé e a importância da festa como espaço de preservação da memória coletiva e da ancestralidade afro-brasileira.

Mais do que registrar uma celebração tradicional, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural em seu cotidiano.

Antes da análise dos episódios, é importante destacar que a série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal de Itaúna, constitui um registro fundamentado principalmente na memória coletiva, na tradição oral e nos testemunhos dos próprios integrantes do Reinado.

Ao longo dos quatro episódios, as narrativas são construídas a partir das experiências, crenças, lembranças, devoções e interpretações compartilhadas por capitães, reis, rainhas, congadeiros e demais participantes da manifestação.

Nesse sentido, o documentário não se apresenta como uma pesquisa histórica baseada na análise crítica de documentação escrita, registros arquivísticos ou debates historiográficos especializados.

Sua proposta consiste em dar voz aos sujeitos que vivenciam e preservam a tradição do Reinado, registrando narrativas de origem, valores religiosos, símbolos, práticas culturais e memórias transmitidas entre gerações.

Dessa forma, os relatos apresentados devem ser compreendidos como expressões da memória social e da identidade cultural dos grupos envolvidos.

 Elementos como a lenda de Chico Rei, o resgate de Nossa Senhora do Rosário pelas guardas e outras narrativas presentes nos episódios integram um universo simbólico construído e preservado pela tradição oral, desempenhando papel fundamental na formação da identidade do Reinado.

Ainda que nem sempre possam ser verificadas por meio da documentação disponível, essas narrativas possuem relevância histórica por revelarem as formas pelas quais as comunidades interpretam suas origens, atribuem significados ao passado e fortalecem seus vínculos coletivos no presente.

Sob essa perspectiva, o documentário oferece uma importante fonte para a compreensão de como os próprios congadeiros interpretam sua história, sua fé, sua ancestralidade e sua trajetória coletiva. 

Mais do que buscar estabelecer uma reconstrução factual das origens do Reinado, a produção permite observar os significados atribuídos à manifestação por aqueles que a mantêm viva na contemporaneidade.

Do ponto de vista metodológico, torna-se necessário distinguir memória, tradição oral e história. Enquanto a história acadêmica busca compreender o passado por meio da análise crítica de diferentes fontes documentais, a memória constitui uma construção social permanentemente atualizada pelos grupos que a preservam.

A tradição oral, por sua vez, atua como um importante mecanismo de transmissão de conhecimentos, valores, crenças e experiências entre gerações. Essas diferentes formas de interpretação do passado não devem ser vistas como excludentes, mas como dimensões complementares que contribuem para a compreensão dos fenômenos culturais.

Assim, o principal valor histórico da série documental não reside na comprovação documental dos acontecimentos narrados, mas na possibilidade de compreender como os participantes do Reinado elaboram suas lembranças, constroem suas identidades e atribuem sentido à própria existência da manifestação.

A estrutura da série documental acompanha um percurso narrativo que parte das narrativas de origem do Reinado, avança para a organização e a continuidade das guardas, aprofunda-se na dimensão espiritual da manifestação e culmina na celebração pública da festa.

Ao longo dos quatro episódios, os depoimentos dos participantes revelam como memória, ancestralidade, fé, tradição e pertencimento são constantemente articulados na construção da identidade congadeira, expressa nas práticas e vivências do Reinado.

Dessa forma, mais do que apresentar uma cronologia dos acontecimentos, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural na contemporaneidade.

Ao registrar essas vozes, o documentário preserva um importante patrimônio imaterial e oferece um testemunho significativo sobre os processos de construção da memória coletiva, da religiosidade popular e da ancestralidade afro-brasileira em Itaúna.

Ao mesmo tempo, a série contribui para reafirmar os vínculos entre essa tradição e a trajetória histórica de Itaúna — a antiga Sant’Ana do Rio São João Acima, a "Pedra Negra" que se consolidou como um importante espaço de preservação da memória, da religiosidade popular e da herança afro-brasileira no centro-oeste mineiro. 

PRIMEIRO EPISÓDIO

SEGUNDO EPISÓDIO

TERCEIRO EPISÓDIO ✅

QUARTO EPISÓDIO ✅

  © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).

Revisão de terminologias e contribuições sobre aspectos culturais do Reinado em Itaúna: 
Maria Luiza de Oliveira Silva

Nota sobre a imagem de capa

A imagem utilizada na capa deste documentário consiste em uma representação artística inspirada em fotografias, registros visuais, elementos arquitetônicos, símbolos, relatos orais e referências históricas relacionados ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna. Sua finalidade é ilustrar o universo cultural e religioso dessa manifestação, não correspondendo à reprodução fiel de um evento ou registro fotográfico específico.

REFERÊNCIAS:

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A História do Reinado em Itaúna – Episódio 1. YouTube, 01/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p0WuchARm_c. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. As Guardas – Episódio 2. YouTube, 11/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PHCkF8z7roM. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A Fé – Episódio 3. YouTube, 18/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uPtRln9vjhM. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A Festa – Episódio 4. YouTube, 26/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Az0mXhLqbKU . Acesso em: 10 jun. 2026.