Fragmentos das muitas histórias em
Sant’Ana
Muito antes de os caminhões ocuparem as estradas e
de os veículos motorizados transformarem o transporte de mercadorias, os carros
de bois percorriam caminhos, fazendas e povoados, levando aquilo de que a
população precisava para viver, trabalhar e produzir. Conduzidos pelos
carreiros, esses veículos foram fundamentais para a economia de Minas Gerais e
também fizeram parte da história da antiga freguesia de Sant’Ana do Rio São
João Acima, hoje município de Itaúna/MG.
A trajetória desse ofício em nossa terra remonta
aos primeiros registros da antiga freguesia. As listas nominativas de
habitantes de 1831 já registravam os carreiros de bois entre as
profissões existentes no arraial. Esse documento constitui um importante
testemunho da presença desses trabalhadores na vida econômica local. Não
significa que a profissão tenha surgido naquele ano, mas comprova que, há quase
dois séculos, o transporte com carros de bois já integrava o cotidiano da
comunidade.
O carreiro não era apenas alguém que conduzia uma
junta de bois. Seu trabalho exigia experiência, conhecimento dos animais,
domínio do carro e habilidade para enfrentar caminhos irregulares, terrenos
acidentados, travessias e períodos de chuva. Transportava pedras, madeira,
mantimentos e produtos agrícolas, além de materiais necessários às construções
e às atividades comerciais. Em uma época na qual as estradas eram precárias e o
transporte motorizado ainda não fazia parte da realidade cotidiana, seu ofício
era indispensável.
A importância desses trabalhadores não ficou
restrita às atividades rurais. Com o crescimento do comércio e o surgimento das
primeiras indústrias, os carros de bois também participaram de um processo
decisivo para a transformação econômica de Itaúna.
Um exemplo expressivo está na história da Companhia
de Tecidos Santanense. As máquinas destinadas à instalação da fábrica
precisaram ser transportadas do Rio de Janeiro até Sant’Ana do Rio São João
Acima. Muitas dessas cargas eram extremamente pesadas, e o transporte, realizado por tropeiros e carreiros, com o auxílio de animais de carga e carros de bois, era lento e podia levar meses.
A informação permite compreender a dimensão dos
desafios enfrentados na implantação de uma indústria têxtil no interior
mineiro. Antes de os teares começarem a funcionar, era preciso vencer grandes
distâncias, superar as dificuldades do caminho e fazer chegar ao arraial
equipamentos fundamentais para a produção industrial.
Inaugurada em 1895, a Santanense tornou-se um marco
da história econômica local. Ao recordar sua implantação, é necessário
reconhecer também a participação dos trabalhadores responsáveis pelo transporte
dos equipamentos e materiais. Embora nem todos tenham sido identificados
nominalmente pelas fontes disponíveis, os carreiros e seus carros de bois
fizeram parte dessa operação que ajudou a aproximar Itaúna de uma nova etapa de
desenvolvimento.
A história da indústria, portanto, não se resume
aos fundadores, aos investimentos e às máquinas instaladas. Ela também envolve
os caminhos percorridos, a força dos animais e o trabalho daqueles que tornaram
possível transportar equipamentos por longas distâncias.
Zé Carreiro: um personagem da
história itaunense
Entre os personagens que ajudam a dar rosto a essa
história está José Ferreira da Silva, conhecido como Zé Carreiro.
Nascido em 1885, na Várzea da Olaria, era filho de
João de Deus Ferreira e Castorina Maria. De origem humilde e sem escolarização,
começou a trabalhar ainda muito jovem nas fazendas, exercendo diferentes
tarefas. Mais tarde, adotou a profissão de carreiro e, durante muitos anos,
transportou pedras, madeiras e mantimentos.
Sua trajetória revela um aspecto importante da
história social de Itaúna: a participação de trabalhadores cuja contribuição
para o funcionamento da comunidade nem sempre recebeu o mesmo reconhecimento
dedicado a comerciantes, industriais e autoridades. Eram homens que, por meio
do trabalho cotidiano, ajudavam a abastecer a população e a movimentar a
economia local.
A memória de Zé Carreiro permaneceu registrada
também na toponímia da cidade. A Rua José Carreiro, localizada na Várzea da
Olaria, foi instituída pela Lei Municipal nº 1.255, de 24 de dezembro de 1975,
a partir do Projeto de Lei nº 04/75, de autoria do vereador Cosme Caetano
Silva.
A existência desse logradouro constitui uma referência importante à memória de Itaúna, mas também nos convida a ir além do nome gravado em uma placa. Ao resgatar a trajetória de Zé Carreiro, valorizamos a memória de tantos outros trabalhadores que, com seu esforço cotidiano, contribuíram para o desenvolvimento do município e nem sempre tiveram suas histórias registradas.
Outro registro importante que temos é que Zé Carreiro foi pai do maestro Jesus Ferreira, a quem se atribui a criação da melodia do Hino de Itaúna, estabelecendo também uma ligação entre a história dessa família e a memória musical do município.
João “Coisa Boa” e a arte de
construir carros de bois
A história dos carreiros também passa pelas mãos
daqueles que fabricavam e consertavam seus instrumentos de trabalho. Nesse
contexto, destaca-se João, conhecido popularmente como “Coisa Boa”,
lembrado em relato pelo memorialista, “Urtigão” — José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em
Itaúna nas décadas de 50 e 60 — publicado no Itaúna Décadas.
Morador da antiga Rua Direita, hoje Avenida Getúlio
Vargas, João “Coisa Boa” dominava diferentes ofícios: era ferreiro, carapina e
carpinteiro. Sua principal atividade consistia em fabricar carros de bois,
galeotas e carretões, além de consertar veículos avariados, substituir peças e
reparar rodas, eixos e cocões.
O relato evidencia que construir um carro de bois
exigia conhecimento técnico e experiência. A confecção das rodas, por exemplo,
demandava encaixes precisos entre as peças de madeira. Depois, o aro de ferro
era aquecido na forja, colocado ao redor da roda e resfriado, de modo que sua
contração ajudasse a firmar o conjunto.
Esse trabalho se relacionava diretamente à
atividade dos ferreiros, cuja presença em Sant’Ana já aparece nos registros de
1831. No século XIX, as ferrarias da família Leite, dos irmãos Joaquim e José,
ferravam rodas de carros de bois e atendiam às necessidades da região.
Percebemos, assim, que a história do carreiro não
pode ser contada isoladamente. Ao seu redor existia uma rede de trabalhadores
especializados: ferreiros, carpinteiros, fabricantes de rodas e outros
profissionais que construíam, reparavam e mantinham os veículos em condições de
circular. O carro de bois era um instrumento de transporte, mas também
resultado de um conjunto de saberes transmitidos pela prática.
O carro de bois que tirou Osório
do atoleiro
Mesmo com a expansão dos veículos motorizados, os
carreiros continuaram presentes na vida regional durante boa parte do século
XX. Um episódio registrado por Osório Martins Fagundes, em Fragmentos de um
passado, ilustra essa convivência entre diferentes formas de transporte.
No final de 1948 e nos primeiros meses de 1949,
chuvas persistentes tornaram as estradas de terra praticamente intransitáveis.
O trecho entre Itaúna e Belo Horizonte chegou a ficar paralisado por causa das
condições do Morro Grande.
Em seu relato, Fagundes conta que, durante uma
viagem para levar leite à Cooperativa em Itaúna, sua caminhonete Studebaker
ficou presa em um trecho tomado pela lama e por valas profundas. A solução veio
de um carro de bois pertencente ao senhor Juca Gonçalves, que passava pelo
local.
O carreiro retirou uma junta de bois-guia da
boiada, amarrou o cambão ao para-choque da caminhonete e ajudou a puxar o
veículo pelo trecho difícil. Graças à sua disposição e à força dos animais, a
caminhonete conseguiu vencer o obstáculo.
O episódio é revelador. Em uma época de transição
tecnológica, quando os automóveis e caminhões já circulavam pelas estradas, o
carro de bois ainda demonstrava sua utilidade. Mais do que um meio de
transporte antigo, representava uma solução prática diante das limitações da
infraestrutura rodoviária.
Sant’Ana e seus Carreiros
Zé Carreiro, João “Coisa Boa” e o carreiro que
ajudou a retirar a caminhonete do atoleiro são personagens que nos permitem
reconstruir diferentes aspectos dessa história. Entretanto, sabemos que muitos
outros “Carreiros” exerceram a profissão em Itaúna, transportando cargas,
abastecendo fazendas, servindo ao comércio e contribuindo para as atividades
que sustentaram o crescimento da cidade.
Grande parte desses trabalhadores não deixou
biografias, fotografias identificadas ou registros suficientes para que seus
nomes chegassem até nós. Por isso, os documentos históricos, as lembranças
familiares, as narrativas de antigos moradores e os registros da imprensa
assumem especial importância. Cada informação localizada pode ajudar a
recuperar uma trajetória que, de outra forma, permaneceria esquecida.
É também necessário reconhecer que o
desenvolvimento de Itaúna, a histórica “Pedra Negra”, não foi obra exclusiva de
grandes empreendimentos ou de personagens de destaque público. A formação da
antiga Sant’Ana do Rio São João Acima e as transformações posteriores
dependeram de uma coletividade de trabalhadores, entre os quais estavam os
carreiros, os ferreiros, os carpinteiros, os lavradores e tantos outros
profissionais.
Em Itaúna, recordar os carreiros é revisitar quase
dois séculos de história documentada, desde os registros da antiga freguesia
até os caminhos percorridos durante a expansão industrial e as dificuldades
enfrentadas nas estradas de terra.
É reconhecer que, antes de muitos equipamentos
chegarem às fábricas, antes de numerosas mercadorias alcançarem o comércio e
antes de os caminhões dominarem o transporte de cargas, houve homens conduzindo
carros de bois por caminhos difíceis. Homens cujo trabalho ajudou a movimentar
a economia e a construir a cidade.
O que reunimos aqui é apenas um fragmento das
muitas histórias que Sant’Ana do Rio São João Acima e, mais tarde, Itaúna ainda
têm a nos contar. Há muito a pesquisar, personagens a identificar e lembranças
a recuperar.
Afinal, essa memória não pertence somente aos nomes
que conseguimos registrar, mas também a todos aqueles que, conhecidos ou
anônimos, contribuíram com seu trabalho cotidiano para construir nossa cidade.
São histórias que, mesmo incompletas ou ainda pouco conhecidas, merecem ser
resgatadas, pois fazem parte da memória coletiva e ajudam a compreender os
caminhos percorridos pela nossa gente.
Em 2026, a história e a memória desses
trabalhadores ganharam reconhecimento nacional. A Lei Federal nº 15.495, de 3de setembro de 2026, instituiu o Dia Nacional do Carreiro de Boi,
celebrado todos os anos em 6 de setembro. A data representa uma oportunidade de
valorizar não apenas o veículo tradicional, mas também o conhecimento, o
trabalho e a experiência daqueles que o conduziam.
REFERÊNCIAS
AQUINO,
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Acesso em: 10 out. 2026.
BRASIL. Lei
nº 15.495, de 3 de setembro de 2026. Institui o Dia Nacional do Carreiro de
Boi. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 4 set. 2026. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15495.htm.
Acesso em: 10 out. 2026.
CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Biografia de José Ferreira da Silva, o Zé
Carreiro. Itaúna: Câmara Municipal de Itaúna. Lei Municipal nº1.255, de 24 de dezembro de 1975. Denominação do logradouro público Rua José Carreiro, no bairro Várzea da Olaria, em Itaúna, Minas Gerais. Projeto de Lei
nº 04/75, de autoria do vereador Cosme Caetano Silva. Itaúna, MG, 1975.
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Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2012/09/fragmentos-de-um-passado.html.
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URTIGÃO
(pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda). João “Coisa Boa”.
Itaúna Décadas, 20 ago. 2017. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2017/08/joao-coisa-boa-carros-de-boi-em-itauna.html.
Acesso em: 10 out. 2026.
Organização e pesquisa
Charles Aquino – Historiador Registro nº
343/MG
@ITAÚNA DÉCADAS - HISTÓRIA
& MEMÓRIA