segunda-feira, outubro 12, 2026

MUSEU CHICO FRANCO

Museu Virtual Chico Franco

Você já imaginou conhecer um pouco mais da história de Itaúna por meio de um MUSEU VIRTUAL dedicado à preservação da memória e à valorização de seu passado?

O Itaúna Décadas convida você a conhecer o Museu Virtual Chico Franco, um espaço dedicado à memória do Coronel Francisco Manoel Franco, figura que se destacou, ainda no século XIX, pelo interesse em reunir e preservar objetos de valor histórico, cultural e afetivo.

Inspirado nessa iniciativa, o museu virtual propõe uma viagem ao passado, aproximando os visitantes de objetos, costumes e referências de outras épocas. É uma oportunidade de conhecer aspectos da história local, compreender a importância da preservação dos vestígios do passado e reconhecer as memórias que ajudam a construir a identidade de nossa cidade.

Mais do que recordar o que passou, preservar a memória é compreender quem somos e valorizar o legado deixado pelas gerações anteriores.

Venha conhecer o Museu Virtual Chico Franco!

Explore nosso acervo, descubra histórias e viaje pelo tempo sem sair de casa.

MUSEU VIRTUAL CHICO FRANCO


Organização e pesquisa

 Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

@ITAÚNA DÉCADAS - HISTÓRIA & MEMÓRIA


MUSEU VIRTUAL CHICO FRANCO

Imagem meramente ilustrativa: representação artística de Chico Franco em seu museu particular, inspirada no contexto histórico do século XIX e XX.

sábado, outubro 10, 2026

CARREIROS EM ITAÚNA

CARROS DE BOIS ITAUNA MG
Fragmentos das muitas histórias em Sant’Ana

Muito antes de os caminhões ocuparem as estradas e de os veículos motorizados transformarem o transporte de mercadorias, os carros de bois percorriam caminhos, fazendas e povoados, levando aquilo de que a população precisava para viver, trabalhar e produzir. Conduzidos pelos carreiros, esses veículos foram fundamentais para a economia de Minas Gerais e também fizeram parte da história da antiga freguesia de Sant’Ana do Rio São João Acima, hoje município de Itaúna/MG.

A trajetória desse ofício em nossa terra remonta aos primeiros registros da antiga freguesia. As listas nominativas de habitantes de 1831 já registravam os carreiros de bois entre as profissões existentes no arraial. Esse documento constitui um importante testemunho da presença desses trabalhadores na vida econômica local. Não significa que a profissão tenha surgido naquele ano, mas comprova que, há quase dois séculos, o transporte com carros de bois já integrava o cotidiano da comunidade.

O carreiro não era apenas alguém que conduzia uma junta de bois. Seu trabalho exigia experiência, conhecimento dos animais, domínio do carro e habilidade para enfrentar caminhos irregulares, terrenos acidentados, travessias e períodos de chuva. Transportava pedras, madeira, mantimentos e produtos agrícolas, além de materiais necessários às construções e às atividades comerciais. Em uma época na qual as estradas eram precárias e o transporte motorizado ainda não fazia parte da realidade cotidiana, seu ofício era indispensável.

A importância desses trabalhadores não ficou restrita às atividades rurais. Com o crescimento do comércio e o surgimento das primeiras indústrias, os carros de bois também participaram de um processo decisivo para a transformação econômica de Itaúna.

Um exemplo expressivo está na história da Companhia de Tecidos Santanense. As máquinas destinadas à instalação da fábrica precisaram ser transportadas do Rio de Janeiro até Sant’Ana do Rio São João Acima. Muitas dessas cargas eram extremamente pesadas, e o transporte, realizado por tropeiros e carreiros, com o auxílio de animais de carga e carros de bois, era lento e podia levar meses.

A informação permite compreender a dimensão dos desafios enfrentados na implantação de uma indústria têxtil no interior mineiro. Antes de os teares começarem a funcionar, era preciso vencer grandes distâncias, superar as dificuldades do caminho e fazer chegar ao arraial equipamentos fundamentais para a produção industrial.

Inaugurada em 1895, a Santanense tornou-se um marco da história econômica local. Ao recordar sua implantação, é necessário reconhecer também a participação dos trabalhadores responsáveis pelo transporte dos equipamentos e materiais. Embora nem todos tenham sido identificados nominalmente pelas fontes disponíveis, os carreiros e seus carros de bois fizeram parte dessa operação que ajudou a aproximar Itaúna de uma nova etapa de desenvolvimento.

A história da indústria, portanto, não se resume aos fundadores, aos investimentos e às máquinas instaladas. Ela também envolve os caminhos percorridos, a força dos animais e o trabalho daqueles que tornaram possível transportar equipamentos por longas distâncias.

 Zé Carreiro: um personagem da história itaunense

Entre os personagens que ajudam a dar rosto a essa história está José Ferreira da Silva, conhecido como Zé Carreiro.

Nascido em 1885, na Várzea da Olaria, era filho de João de Deus Ferreira e Castorina Maria. De origem humilde e sem escolarização, começou a trabalhar ainda muito jovem nas fazendas, exercendo diferentes tarefas. Mais tarde, adotou a profissão de carreiro e, durante muitos anos, transportou pedras, madeiras e mantimentos.

Sua trajetória revela um aspecto importante da história social de Itaúna: a participação de trabalhadores cuja contribuição para o funcionamento da comunidade nem sempre recebeu o mesmo reconhecimento dedicado a comerciantes, industriais e autoridades. Eram homens que, por meio do trabalho cotidiano, ajudavam a abastecer a população e a movimentar a economia local.

A memória de Zé Carreiro permaneceu registrada também na toponímia da cidade. A Rua José Carreiro, localizada na Várzea da Olaria, foi instituída pela Lei Municipal nº 1.255, de 24 de dezembro de 1975, a partir do Projeto de Lei nº 04/75, de autoria do vereador Cosme Caetano Silva.

A existência desse logradouro constitui uma referência importante à memória de Itaúna, mas também nos convida a ir além do nome gravado em uma placa. Ao resgatar a trajetória de Zé Carreiro, valorizamos a memória de tantos outros trabalhadores que, com seu esforço cotidiano, contribuíram para o desenvolvimento do município e nem sempre tiveram suas histórias registradas.

Outro registro importante que temos é que Zé Carreiro foi pai do maestro Jesus Ferreira, a quem se atribui a criação da melodia do Hino de Itaúna, estabelecendo também uma ligação entre a história dessa família e a memória musical do município.

 João “Coisa Boa” e a arte de construir carros de bois

A história dos carreiros também passa pelas mãos daqueles que fabricavam e consertavam seus instrumentos de trabalho. Nesse contexto, destaca-se João, conhecido popularmente como “Coisa Boa”, lembrado em relato pelo memorialista, “Urtigão” — José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60 — publicado no Itaúna Décadas.

Morador da antiga Rua Direita, hoje Avenida Getúlio Vargas, João “Coisa Boa” dominava diferentes ofícios: era ferreiro, carapina e carpinteiro. Sua principal atividade consistia em fabricar carros de bois, galeotas e carretões, além de consertar veículos avariados, substituir peças e reparar rodas, eixos e cocões.

O relato evidencia que construir um carro de bois exigia conhecimento técnico e experiência. A confecção das rodas, por exemplo, demandava encaixes precisos entre as peças de madeira. Depois, o aro de ferro era aquecido na forja, colocado ao redor da roda e resfriado, de modo que sua contração ajudasse a firmar o conjunto.

Esse trabalho se relacionava diretamente à atividade dos ferreiros, cuja presença em Sant’Ana já aparece nos registros de 1831. No século XIX, as ferrarias da família Leite, dos irmãos Joaquim e José, ferravam rodas de carros de bois e atendiam às necessidades da região.

Percebemos, assim, que a história do carreiro não pode ser contada isoladamente. Ao seu redor existia uma rede de trabalhadores especializados: ferreiros, carpinteiros, fabricantes de rodas e outros profissionais que construíam, reparavam e mantinham os veículos em condições de circular. O carro de bois era um instrumento de transporte, mas também resultado de um conjunto de saberes transmitidos pela prática.

 O carro de bois que tirou Osório do atoleiro

Mesmo com a expansão dos veículos motorizados, os carreiros continuaram presentes na vida regional durante boa parte do século XX. Um episódio registrado por Osório Martins Fagundes, em Fragmentos de um passado, ilustra essa convivência entre diferentes formas de transporte.

No final de 1948 e nos primeiros meses de 1949, chuvas persistentes tornaram as estradas de terra praticamente intransitáveis. O trecho entre Itaúna e Belo Horizonte chegou a ficar paralisado por causa das condições do Morro Grande.

Em seu relato, Fagundes conta que, durante uma viagem para levar leite à Cooperativa em Itaúna, sua caminhonete Studebaker ficou presa em um trecho tomado pela lama e por valas profundas. A solução veio de um carro de bois pertencente ao senhor Juca Gonçalves, que passava pelo local.

O carreiro retirou uma junta de bois-guia da boiada, amarrou o cambão ao para-choque da caminhonete e ajudou a puxar o veículo pelo trecho difícil. Graças à sua disposição e à força dos animais, a caminhonete conseguiu vencer o obstáculo.

O episódio é revelador. Em uma época de transição tecnológica, quando os automóveis e caminhões já circulavam pelas estradas, o carro de bois ainda demonstrava sua utilidade. Mais do que um meio de transporte antigo, representava uma solução prática diante das limitações da infraestrutura rodoviária.

 Sant’Ana e seus Carreiros

Zé Carreiro, João “Coisa Boa” e o carreiro que ajudou a retirar a caminhonete do atoleiro são personagens que nos permitem reconstruir diferentes aspectos dessa história. Entretanto, sabemos que muitos outros “Carreiros” exerceram a profissão em Itaúna, transportando cargas, abastecendo fazendas, servindo ao comércio e contribuindo para as atividades que sustentaram o crescimento da cidade.

Grande parte desses trabalhadores não deixou biografias, fotografias identificadas ou registros suficientes para que seus nomes chegassem até nós. Por isso, os documentos históricos, as lembranças familiares, as narrativas de antigos moradores e os registros da imprensa assumem especial importância. Cada informação localizada pode ajudar a recuperar uma trajetória que, de outra forma, permaneceria esquecida.

É também necessário reconhecer que o desenvolvimento de Itaúna, a histórica “Pedra Negra”, não foi obra exclusiva de grandes empreendimentos ou de personagens de destaque público. A formação da antiga Sant’Ana do Rio São João Acima e as transformações posteriores dependeram de uma coletividade de trabalhadores, entre os quais estavam os carreiros, os ferreiros, os carpinteiros, os lavradores e tantos outros profissionais.

Em Itaúna, recordar os carreiros é revisitar quase dois séculos de história documentada, desde os registros da antiga freguesia até os caminhos percorridos durante a expansão industrial e as dificuldades enfrentadas nas estradas de terra.

É reconhecer que, antes de muitos equipamentos chegarem às fábricas, antes de numerosas mercadorias alcançarem o comércio e antes de os caminhões dominarem o transporte de cargas, houve homens conduzindo carros de bois por caminhos difíceis. Homens cujo trabalho ajudou a movimentar a economia e a construir a cidade.

O que reunimos aqui é apenas um fragmento das muitas histórias que Sant’Ana do Rio São João Acima e, mais tarde, Itaúna ainda têm a nos contar. Há muito a pesquisar, personagens a identificar e lembranças a recuperar.

Afinal, essa memória não pertence somente aos nomes que conseguimos registrar, mas também a todos aqueles que, conhecidos ou anônimos, contribuíram com seu trabalho cotidiano para construir nossa cidade. São histórias que, mesmo incompletas ou ainda pouco conhecidas, merecem ser resgatadas, pois fazem parte da memória coletiva e ajudam a compreender os caminhos percorridos pela nossa gente.

Em 2026, a história e a memória desses trabalhadores ganharam reconhecimento nacional. A Lei Federal nº 15.495, de 3de setembro de 2026, instituiu o Dia Nacional do Carreiro de Boi, celebrado todos os anos em 6 de setembro. A data representa uma oportunidade de valorizar não apenas o veículo tradicional, mas também o conhecimento, o trabalho e a experiência daqueles que o conduziam.

 

REFERÊNCIAS

AQUINO, Charles. Censo 1831. Itaúna Décadas, 13 abr. 2022. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2022/04/itauna-censo-1831.html. Acesso em: 10 out. 2026.

BRASIL. Lei nº 15.495, de 3 de setembro de 2026. Institui o Dia Nacional do Carreiro de Boi. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 4 set. 2026. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15495.htm. Acesso em: 10 out. 2026.

CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Biografia de José Ferreira da Silva, o Zé Carreiro. Itaúna: Câmara Municipal de Itaúna. Lei Municipal nº1.255, de 24 de dezembro de 1975. Denominação do logradouro público Rua José Carreiro, no bairro Várzea da Olaria, em Itaúna, Minas Gerais. Projeto de Lei nº 04/75, de autoria do vereador Cosme Caetano Silva. Itaúna, MG, 1975.

FAGUNDES, Osório Martins. Chuvas torrenciais. Itaúna Décadas, 16 set. 2012. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2012/09/fragmentos-de-um-passado.html. Acesso em: 10 out. 2026.

FAGUNDES, Osório Martins. Fragmentos de um passado: memórias, narrativas, homenagens, crônicas e cartas. [S. l.: s. n.], 1977. p. 419–420.

FERREIROS EM SANTANA. Itaúna Décadas, 20 mar. 2021. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2021/03/ferreiros-em-santana.html. Acesso em: 10 out. 2026.

LIMA, Maria. Manoel José de Souza Moreira. Itaúna Décadas, 1 maio 2018. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2018/05/manoel-jose-de-souza-moreira.html. Acesso em: 10 out. 2026.

MEMORÁVEL professor itaunense. Itaúna Décadas, jun. 2022. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2022/06/memoravel-professor-itaunense.html. Acesso em: 10 out. 2026.

O MAESTRO da Pedra Negra. Itaúna Décadas, ago. 2025. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2025/08/o-maestro-da-pedra-negra.html. Acesso em: 10 out. 2026.

URTIGÃO (pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda). João “Coisa Boa”. Itaúna Décadas, 20 ago. 2017. Disponível em: https://www.itaunadecadas.com.br/2017/08/joao-coisa-boa-carros-de-boi-em-itauna.html. Acesso em: 10 out. 2026.

Organização e pesquisa

 Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

@ITAÚNA DÉCADAS - HISTÓRIA & MEMÓRIA

 

quarta-feira, outubro 07, 2026

PRAÇA JOSÉ BEGHIGI

Sapateiro em Itaúna Minas Gerais

Conheça a história de José Beghini

Você já parou para pensar nas histórias escondidas por trás dos nomes das ruas e praças de Itaúna?

A Praça José Beghini, no bairro Nogueira Machado, homenageia um imigrante italiano que chegou a Itaúna no início do século XX e aqui construiu sua trajetória como comerciante e fabricante de calçados e bolsas.

Mas quem foi José Beghini? De onde veio? Como era sua oficina? Que papel desempenhou na vida da cidade? E por que, décadas depois de sua morte, seu nome passou a fazer parte da paisagem urbana de Itaúna?

Venha conhecer essa história e descobrir o homem que existe por trás do nome da praça.

Uma história de trabalho, imigração, família, solidariedade e memória, recuperada a partir de documentos históricos da Câmara Municipal de Itaúna.

Leia a história completa em Ruas de Itaúna e descubra mais um personagem que ajudou a construir a memória da nossa cidade.

 

Organização, arte e pesquisa

 Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

@ITAÚNA DÉCADAS - HISTÓRIA & MEMÓRIA

Imagem ilustrativa (IA), inspirada na atividade de José Beghini em Itaúna nas primeiras décadas do século XX. A cena é uma recriação artística do ambiente de trabalho de um sapateiro da época, não uma fotografia histórica de José Beghini.

quarta-feira, setembro 23, 2026

MANOEL SOBREIRA & MARIA RIBEIRO

Manoel Teixeira Sobreira e Maria Ribeiro da Conceição

O português Manoel Teixeira Sobreira nasceu em 17 de janeiro de 1702 na freguesia de São Salvador de Vila Cova da Lixa, concelho de Felgueiras, arcebispado de Braga, na província do Minho, ao norte de Portugal. 

Era filho de Domingos Vaz Neto e Luísa Gonçalves, pertencendo, portanto, a uma família minhota que manteve vínculos com outros parentes que emigraram para o Brasil.

Sua mãe, Luísa Gonçalves, tinha uma irmã chamada Isabel Gonçalves, da qual descendeu Manoel Ribeiro Filgueiras, pai de Maria Ribeiro da Conceição.

Essa ligação de sangue explica o parentesco entre Manoel Teixeira Sobreira e sua futura esposa: Maria era, de fato, sua sobrinha-neta, o que exigiu uma dispensa de consanguinidade em 3º grau misto ao 2º grau para que o matrimônio fosse celebrado.

Maria Ribeiro da Conceição nasceu por volta de 1726, sendo filha de Manoel Ribeiro Filgueiras e de Ana Maria de Campos, neta de Isabel Gonçalves e, por essa linha, bisneta da família Gonçalves. Órfã de pai e mãe desde 1739, vivia com suas irmãs Teresa de Jesus Ribeiro e Ana Maria da Conceição sob a tutela de Manoel Teixeira Sobreira, que as acolheu em sua casa em Vila Rica de Ouro Preto. Nesse mesmo ano, em 3 de setembro de 1739, Maria, então com cerca de 13 anos de idade, casou-se com seu tutor, Manoel, já com 37 anos, na Matriz do Pilar de Ouro Preto.

Do enlace nasceram ao menos três filhos conhecidos. A primogênita, Teresa Teixeira Sobreira, casou-se em 1782 com o guarda-mor João Pedro Cota, português natural da freguesia de Santa Bárbara das Nove Ribeiras, na Ilha Terceira, nos Açores. O casal fixou-se na região de Antônio Pereira (atual distrito de Ouro Preto) e gerou uma numerosa descendência, entre os quais se destacam o Padre Pedro Lúcio Leonel Cota, nascido em 1786, e o Capitão Manoel Pedro Cota, falecido em 1884, que herdou a Fazenda da Alegria.

Os outros dois filhos de Manoel e Maria seguiram a vida eclesiástica: Padre José Teixeira Sobreira, ordenado em Mariana em 1778, e Padre Joaquim Teixeira Sobreira, ordenado em 1795, também em Mariana. Esses dois membros reforçam a presença da família nas estruturas religiosas e sociais da região das Minas Gerais setecentistas, demonstrando o prestígio adquirido.

Dessa forma, a trajetória de Manoel Teixeira Sobreira e Maria Ribeiro da Conceição revela como laços de sangue, alianças matrimoniais e a inserção em funções eclesiásticas moldaram o destino de uma família luso-brasileira. O casamento, embora celebrado sob forte impedimento canônico, obteve dispensa e consolidou uma rede de parentesco que unia diferentes ramos familiares, garantindo projeção tanto no espaço religioso, por meio dos filhos sacerdotes, quanto no econômico e social, pela descendência ligada à família Cota.

 Grau de parentesco genealógico entre Manoel Sobreira e Maria Ribeiro

Manoel Teixeira Sobreira (filho de Luísa Gonçalves) e Maria Ribeiro da Conceição (filha de Manoel Ribeiro Filgueiras) eram parentes próximos. As irmãs Luísa Gonçalves e Isabel Gonçalves ocupam a primeira geração comum dessa linhagem: Luísa foi mãe de Manoel Teixeira Sobreira e Isabel, sua tia materna, foi mãe de Manoel Ribeiro Filgueiras, que por sua vez foi o pai de Maria. 

Assim, Isabel aparece como avó materna de Maria e, ao mesmo tempo, tia materna de Manoel, posição intermediária que faz com que os dois se encontrem em linhas desiguais de geração.

Desse modo, Manoel era primo em primeiro grau de Manoel Ribeiro Filgueiras e, portanto, tio de segundo grau de Maria Ribeiro, sua sobrinha-neta. Nos termos do Direito Canônico vigente no século XVIII, o vínculo configurava impedimento de consanguinidade em 3º grau colateral.

O casamento entre Manoel Teixeira Sobreira e Maria Ribeiro da Conceição, celebrado em 1739 na Matriz do Pilar de Ouro Preto, envolveu, portanto, parentesco próximo. Pela linha de Maria, ela era sobrinha-neta de Luísa Gonçalves e, consequentemente, sobrinha em 2º grau de Manoel; pela linha de Manoel, ele era tio-avô de Maria. No Direito Canônico tridentino, essa relação configurava impedimento de 3º grau colateral misto ao 2º, razão pela qual o matrimônio só foi possível mediante dispensa eclesiástica.

O quadro genealógico de Manoel Teixeira Sobreira permite compreender melhor essa proximidade: na primeira geração, encontram-se as irmãs Luísa Gonçalves e Isabel Gonçalves; da segunda geração descendem Manoel Teixeira Sobreira, filho de Luísa, e Manoel Ribeiro Filgueiras, filho de Isabel; e na terceira geração surge Maria Ribeiro da Conceição, filha de Manoel Ribeiro Filgueiras e neta de Isabel.

Quando observado segundo a contagem do Direito Canônico tridentino, utilizada no século XVIII, o parentesco é medido em graus de consanguinidade: Manoel até sua mãe, Luísa, corresponde ao 1º grau; de Luísa até Isabel, sua irmã, ao 2º grau; de Isabel a seu filho, Manoel Ribeiro Filgueiras, ao 3º grau; e deste até Maria, sua filha, ao 4º grau. Contudo, o cálculo canônico considerava sempre o grau mais próximo e, nesse caso, o matrimônio foi classificado como de 3º grau colateral misto ao 2º, dada a diferença de gerações entre os cônjuges.

Em resumo, pela genealogia civil o laço configurava-se como o de tio-avô e sobrinha-neta; já pelo Direito Canônico, o matrimônio encontrava-se impedido por consanguinidade sendo, por isso, necessária a dispensa eclesiástica para sua celebração: Manoel encontrava-se em uma geração superior, enquanto Maria pertencia à geração seguinte. A dispensa eclesiástica, portanto, foi imprescindível para legitimar o matrimônio.

 Diagrama genealógico

1ª geração: Luísa Gonçalves e Isabel Gonçalves (irmãs).

2ª geração: Manoel Teixeira Sobreira (filho de Luísa, 37 anos) e Manoel Ribeiro Filgueiras (filho de Isabel) → primos em 1º grau.

3ª geração: Maria Ribeiro da Conceição (filha de Manoel Ribeiro Filgueiras, 14 anos).

Direito Canônico

1º grau: Manoel Sobreira → sua mãe Luísa Gonçalves.

2º grau: Luísa → Isabel (irmãs).

3º grau: Isabel → seu filho Manoel Ribeiro Filgueiras.

4º grau: Manoel Ribeiro Filgueiras → sua filha Maria Ribeiro.

O casamento entre Manoel Teixeira Sobreira e Maria Ribeiro da Conceição só foi possível mediante dispensa eclesiástica, pois o Direito Canônico classificava o vínculo de consaguinidade 3º grau colateral misto ao 2º grau.

No Direito Canônico tridentino, o parentesco entre Manoel Teixeira Sobreira e Maria Ribeiro da Conceição foi classificado como 3º grau colateral misto ao 2º, em razão da diferença de gerações entre ambos (Manoel figurava como tio-avô, enquanto Maria era sua sobrinha-neta). 

Contudo, o documento coevo registra a fórmula “consanguinidade de 2º grau misto ao 3º”, forma usual encontrada em assentos eclesiásticos do século XVIII. Ambas as expressões remetem ao mesmo impedimento canônico, cuja superação exigia dispensa papal. Tecnicamente, pelo cálculo canônico, o mais aceito é 3º grau colateral misto ao 2º (porque Manoel está uma geração acima de Maria).

 ✅Nota:

Teresa Teixeira Sobreira, n. em Santana do Paraopeba; c.c. o Guarda-mor João Pedro Cota (português da Freguesia de Santa Bárbara das Nove Ribeiras, Bispado de Angra, Ilha Terceira; filho de Manoel Cota Vieira e Bárbara Maria) em 21/6/1782 na Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Antônio Pereira, hoje distrito de Ouro Preto, pelo Padre João Pimenta da Costa e foram testemunhas José Nunes Pinto Louzada e o Alferes Sebastião Pereira Leite [F.85A-L.Matr-Matriz de Antônio Pereira in De Genere do Padre Pedro Lúcio Leonel Cota; pais de:

F1N1. José Teixeira Cota;

F1N2. João Pedro Cota Júnior;

F1N3. Teresa Maria de Jesus Cota;

F1N4. Padre Pedro Lúcio Leonel Cota, n. em 1786;

F1N5. Rita de Cássia Cota;

F1N6. Maria Teresa cota;

F1N7. Angélica Perpétua Cota;

F1N8. Joana Cota;

F1N9. Feliciano Pedro Cota;

F1N10. Antônio Pedro Cota;

F1N11. Maria do Carmo Cota de Figueiredo;

F1N12. Capitão Manoel Pedro Cota; herdou a Fazenda da Alegria de seu pai; faleceu em 1884;

F2. Padre José Teixeira Sobreira; ordenado em 1778 em Mariana;

F3. Padre Joaquim Teixeira Sobreira; ordenado em 1795 em Mariana;


SAIBA MAIS

✅AS TRÊS IMAGENS DE SOBREIRA


Referências:

AQUINO, Charles. Realização e análise histórica. Historiador, Registro nº 343/MG.

PENIDO, Alan. Pesquisa e paleografia. Genealogista, Doutor.

ARQUIVO ECLESIÁSTICO DA ARQUIDIOCESE DE MARIANA (AEAM). Cúria Metropolitana. Processo matrimonial dos oradores Manoel Teixeira Sobreira e Maria Ribeiro. Processo nº 7226, Ouro Preto/MG, 1739.