segunda-feira, setembro 07, 2026

SANTANA 1831

História de Itaúna Minas Gerais - censo

As Mãos que construíram Sant'Ana 

Em 1831, Sant'Ana do Rio São João Acima era uma freguesia em transformação.

Pequena em suas dimensões, mas muito mais complexa do que uma simples descrição de seus moradores poderia sugerir.

Naquele ano, homens, mulheres, crianças, trabalhadores livres, pessoas escravizadas e libertas viviam em diferentes núcleos familiares registrados nas chamadas listas nominativas de habitantes.

Esses documentos, produzidos para recensear a população, acabaram preservando algo ainda mais valioso: fragmentos da vida cotidiana de uma sociedade do século XIX.

Entre nomes, idades, cores, condições jurídicas e relações familiares, aparecem também os ofícios.

E são eles que permitem enxergar uma Sant'Ana que muitas vezes permanece escondida quando olhamos apenas para os nomes de proprietários, autoridades e personagens considerados importantes pela memória tradicional.

Havia quem trabalhasse na terra. Havia quem construísse casas, produzisse ferramentas, fabricasse calçados e preparasse roupas.

Havia também mulheres que, dentro de suas próprias casas ou em pequenos espaços de produção, transformavam fibras em fios e fios em tecidos. Eram as mãos que faziam a freguesia funcionar.

Entre os registros ocupacionais, um número chama especialmente a atenção: 284 mulheres aparecem como fiadeiras na amostragem analisada. O dado é extraordinário não apenas pela quantidade, mas pelo que ele revela.

A fiação era uma atividade fundamental para a produção de tecidos e vestimentas. Preparar o fio exigia conhecimento, habilidade manual, tempo e experiência. 

Embora muitas vezes realizado no espaço doméstico, esse trabalho possuía importância econômica e fazia parte de uma cadeia produtiva muito maior.

Essas mulheres não aparecem apenas como integrantes de suas famílias, elas aparecem como trabalhadoras.

Muitas eram negras ou pardas e viviam em diferentes condições jurídicas e familiares. Entre elas estavam mulheres solteiras, casadas e viúvas. Seus registros ajudam a perceber que o trabalho feminino estava profundamente integrado à economia cotidiana da freguesia.

Ao lado das fiadeiras, aparecem também tecedeiras, costureiras, rendeiras e parteiras. São ocupações diferentes, mas que possuem algo em comum: estavam diretamente relacionadas à produção, ao cuidado e à manutenção da vida comunitária. 

A história econômica de Sant'Ana também passava pelas mãos dessas mulheres.

Os registros masculinos revelam outro conjunto de atividades indispensáveis. Havia lavradores, responsáveis pelo trabalho agrícola; jornaleiros, que ofereciam sua força de trabalho em troca de pagamento por jornada; carpinteiros, responsáveis por construir e reparar estruturas de madeira; ferreiros, cuja atividade era fundamental para produzir e consertar ferramentas e objetos de metal; e sapateiros, responsáveis por um dos elementos básicos da vestimenta.

Também encontramos alfaiates, carreiros de bois, pedreiros, oleiros, paneleiros, telheiros, entalhadores, sacristães e mestres de primeiras letras, entre outras atividades.

Cada profissão revela uma necessidade.

O lavrador produzia.

O carreiro transportava.

O ferreiro fabricava e reparava instrumentos.

O carpinteiro construía.

O pedreiro levantava paredes.

O sapateiro produzia calçados.

O alfaiate confeccionava roupas.

A fiadeira preparava o fio.

A tecedeira transformava o fio em tecido.

A costureira dava forma às vestimentas.

A parteira ajudava a trazer novas vidas ao mundo.

Assim, quando reunimos esses ofícios, percebemos uma economia muito mais diversificada do que a imagem de uma pequena freguesia rural poderia fazer imaginar. 

Grande parte desses trabalhadores era formada por pessoas classificadas nos documentos como pretas, pardas, crioulas ou africanas.

Isso é especialmente importante para compreender a formação histórica de Sant'Ana do Rio São João Acima.

A população negra e mestiça não estava presente apenas como força de trabalho nas atividades agrícolas. Ela também participava de diferentes ofícios especializados, da produção artesanal, dos serviços, do transporte e das atividades que sustentavam o cotidiano da comunidade.

Esses registros ajudam, portanto, a superar uma visão simplificada segundo a qual a população negra estaria restrita às atividades mais pesadas ou exclusivamente ao trabalho rural. Os documentos mostram outra realidade.

Mostram saberes.

Mostram profissões.

Mostram especializações.

E mostram pessoas que dominavam técnicas indispensáveis à vida econômica e social da freguesia.

Existe uma dificuldade para quem pesquisa a história do cotidiano: grande parte do trabalho realizado por essas pessoas não deixou monumentos.

Uma igreja pode permanecer de pé durante séculos.

Uma casa antiga pode conservar suas paredes.

Um documento pode preservar o nome de um proprietário.

Mas quem produziu os tijolos? Quem trabalhou a madeira? Quem forjou as ferramentas? Quem costurou as roupas? Quem preparou os fios? Quem conduziu os animais? Quem plantou e colheu? Quem ajudou mulheres durante o parto?

Essas pessoas também construíram Sant'Ana.

Suas obras, entretanto, muitas vezes desapareceram junto com o uso cotidiano.

O que permanece são pequenos vestígios documentais: um nome, uma profissão, uma idade, uma condição jurídica, uma anotação feita há quase dois séculos.

É justamente nesses fragmentos que o historiador pode reencontrar parte dessas trajetórias. As listas nominativas em 1831 não foram produzidas para contar histórias individuais. Seu objetivo era administrativo e estatístico. Mas, quase duzentos anos depois, elas permitem outra leitura.

Quando observamos uma fiadeira, um lavrador, um ferreiro, uma costureira ou um carreiro de bois, não estamos diante de uma simples profissão registrada em uma tabela.

Estamos diante de uma pessoa que possuía conhecimentos, relações familiares, necessidades, estratégias de sobrevivência e um lugar dentro daquela sociedade. Por isso, olhar para Sant'Ana em 1831 significa também olhar para suas mãos.

Mãos negras.

Mãos pardas.

Mãos livres.

 Mãos escravizadas.

Mãos de mulheres e homens.

Mãos que fiavam.

Mãos que teciam.

Mãos que plantavam.

Mãos que forjavam o ferro.

Mãos que trabalhavam a madeira.

Mãos que costuravam.

Mãos que faziam sapatos.

Mãos que conduziam carros de bois.

Mãos que carregavam.

Mãos que construíam.

Mãos que cuidavam.

Eram essas mãos que, todos os dias, davam forma à vida de Sant'Ana do Rio São João Acima. Muito antes de existir a Itaúna que conhecemos hoje, havia uma comunidade sendo construída pelo trabalho cotidiano de milhares de pessoas. 

Conhecer essas histórias é também reconhecer que a formação de nossa terra não foi obra de poucos. Foi uma construção coletiva. E algumas das mãos que a construíram ainda podem ser encontradas, quase dois séculos depois, nas páginas das listas nominativas de 1831.

 

CENSO 1831

@CAMI – COLEÇÃO AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Pesquisa: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Fonte: Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna: o adro do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente (2025), p 18-43.

Premiação: Monografia classificada em 1ª Menção Honrosa no Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular, ano de 2025, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, por meio do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP/IPHAN.


Nota: Imagem meramente ilustrativa, produzida como representação artística inspirada nos trabalhadores, trabalhadoras e ofícios registrados nas listas nominativas de 1831. A composição não representa uma cena histórica específica, mas busca evocar a diversidade do trabalho e a participação da população negra e parda na formação econômica e social da antiga freguesia de Sant'Ana do Rio São João Acima.

 

sábado, setembro 05, 2026

O CABO ANDRADE

Guarda Municipal de Itaúna MG

A passagem é breve, mas revela muito sobre a Itaúna de 1913.

Sebastião Pereira de Andrade, cabo da Guarda Municipal, morreu aos 45 anos, vítima da tuberculose, e foi sepultado no cemitério da então vila — no local onde hoje se encontra a Escola Estadual José Gonçalves de Melo.

Natural de Diamantina e com a filiação ignorada no registro, sua trajetória pessoal permanece quase silenciosa.

Restam aquelas poucas linhas, suficientes para registrar sua morte e nos lembrar que, sob a paisagem da Itaúna atual, existem camadas de histórias que o tempo não apagou completamente.

Fonte:

"Brasil, Minas Gerais, Registros da Igreja Católica, 1706-2018," database with images, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:939N-D79B-4N?cc=2177275&wc=M5FD-K68%3A370882003%2C369941902%2C370953901: 22 May 2014), Itaúna > Santana > Óbitos 1901, Jan-1928, Fev > image 90 of 199; Paróquias Católicas (Catholic Church parishes), Minas Gerais.

 Imagem:

A imagem apresentada não se configura como registro histórico, mas como uma representação artística interpretativa, construída com o propósito de evocar o contexto social de Itaúna nas primeiras décadas do século XX. 

Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

@ITAÚNA DÉCADAS - HISTÓRIA & MEMÓRIA


quarta-feira, setembro 02, 2026

MEMÓRIA ITAUNENSE

Município de Itaúna Minas Gerais
PROJETO DE LEI

Durante a Reunião Ordinária realizada em 11 de novembro de 2025, a Câmara Municipal de Itaúna (MG) aprovou o Projeto de Lei nº 107/2025, de autoria do vereador Aristides Ribeiro de Carvalho Filho, apresentado anteriormente na Sala das Sessões em 22 de setembro de 2025.

A proposta institui o Programa Municipal de Educação Patrimonial e Memória Itaunense, com o objetivo de promover a valorização da história, da cultura e da identidade local por meio de ações educativas e culturais integradas.

A aprovação do projeto pelos vereadores representa um passo importante no reconhecimento institucional da memória como elemento estruturante da formação social e cultural do município. Ao articular educação, patrimônio e identidade, a iniciativa busca aproximar a população, especialmente os estudantes, da história de Itaúna, incentivando o conhecimento e a preservação de seus marcos históricos e manifestações culturais.

Mais do que uma medida simbólica, o projeto estabelece diretrizes concretas para a inserção da memória no cotidiano escolar e comunitário, ainda que sua efetividade dependa da implementação prática das ações previstas.

 PROJETO DE LEI Nº 107/2025 (REDAÇÃO FINAL)

Institui o Programa Municipal de Educação Patrimonial e Memória Itaunense para a valorização da história, da cul­tura e da identidade do Município de Itaúna, e dá outras providências

O povo do Município de Itaúna, por seus representantes aprova e eu, Prefeito Municipal, em seu nome, sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º. Fica instituído, no Município de Itaúna, o Programa Municipal de Educação Patrimonial e Memória Itaunense, com a finalidade de incentivar a preservação, o estudo e a difusão da história, da cultura e da identidade local, mediante ações educativas, culturais e de fo­mento à produção artística e documental.

Art. 2º. São ações do Programa:

I – a instituição do Dia da História de Itaúna a ser comemorado anualmente em 16 de setembro;

II – a realização de concursos de redação, de fotografia, de desenho e de produção audio­visual nas escolas da rede pública e privada, com temas voltados à memória e identidade do mu­nicípio;

III – a promoção de palestras, exposições, rodas de conversa e apresentações culturais;

IV – a divulgação e a publicação dos trabalhos e registros históricos, preferencialmente em meio digital.

V - na semana que antecede o dia 16 de setembro a Secretaria Municipal de Educação or­ganizará gincana entre os alunos da rede municipal com o tema Preservação da memória”, haste­amento da bandeira e execução dos hinos (nacional, estadual e municipal); Exposições fotográfi­cas e visitas guiadas aos marcos históricos aos alunos e participação das Guardas de Congo e Moçambique, e de grupos culturais locais, quando puder.

§ 1º. As ações previstas neste artigo serão implementadas observadas a disponibilidade orçamentária, mediante utilização de dotações existentes, recursos decorrentes de convênios, parcerias público-privadas, patrocínios ou outras fontes previstas em lei, sem criação de despe­sa obrigatória para o Município.

§ 2º. A premiação dos vencedores terá caráter meramente honorífico, vedada a conces­são de vantagens de caráter permanente ou de natureza remuneratória sem prévia e específica previsão orçamentária.

Art. 3º. Os trabalhos selecionados poderão ser expostos na Câmara Municipal de Itaúna, mediante aprovação da Mesa Diretora, respeitadas as normas internas e a disponibilidade de es­paço.

Art. 4º. O Poder Executivo poderá firmar parcerias com instituições de ensino, entidades culturais, associações comunitárias e a iniciativa privada para a execução das ações previstas nesta Lei, bem como regulamentar, por ato próprio, os procedimentos necessários à sua imple­mentação.

Art. 5º. O Programa Municipal de Educação Patrimonial e Memória Itaunense deve ob­servar, no que couber, a Lei Municipal 3.278/1997.

Art. 6º. As despesas decorrentes da execução desta Lei correrão por conta de dotações orçamentárias próprias, condicionadas à prévia inclusão orçamentária e à disponibilidade finan­ceira do Município.

Art. 7º. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Sala das Sessões, 22 de setembro de 2025.

Aristides Ribeiro de Carvalho Filho

Vereador 

Justificativa

O projeto Memória Itaunense nasce para valorizar a história e a cultura de nossa cidade, resgatando tradições e fortalecendo a identidade de Itaúna. Ao instituir o Dia da História de Itaúna e promover concursos culturais em escolas, queremos despertar o orgulho dos jovens e aproximar a comunidade da memória local.

A proposta dialoga diretamente com os princípios estabelecidos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei Federal nº 9.394/1996). O art. 3º, inciso X, prevê a valorização da experiência extraescolar como princípio do ensino; já o art. 26 estabelece que os currículos devem refletir as características regionais e locais da sociedade, da cultura e dos educandos, permitindo, em seu § 7º, a inclusão de projetos e pesquisas sobre temas transversais. Além disso, o art. 32, inciso II, prevê que o ensino fundamental deve assegurar ao cidadão a compreensão do ambiente natural e social, da política, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade. Já o art. 35-B, § 1º, inciso II, reforça a necessidade de conexão do ensino com a vida comunitária e social em cada território, princípio plenamente atendido por este projeto.

Trata-se, portanto, uma ação de alto impacto social, que pode contar com parcerias de escolas, entidades culturais e iniciativa privada, sem gerar despesas obrigatórias ao Executivo. Com este projeto, reforçamos o compromisso da Câmara com a educação, a cultura e a cidadania, garantindo que as futuras gerações conheçam, preservem e respeitem nossas raízes. Itaúna, 22 de setembro de 2025.

Aristides Ribeiro de Carvalho Filho

Vereador 

Referencias:

Organização e arte: Charles Aquino

Idealização - CâmaraMunicipal de Itaúna

PROJETO DE LEI Nº 107/2025. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=q6QfRA7DJyw

https://sapl.itauna.mg.leg.br/materia/4723

https://sapl.itauna.mg.leg.br/media/sapl/public/materialegislativa/2025/4723/pl_107-2025_-lei_memoria_de_itauna.pdf

Imagem:

Representação artística ilustrativa é inspirada na aprovação do Projeto de Lei nº 107/2025 pela Câmara Municipal de Itaúna, durante a Reunião Ordinária realizada em 11 de novembro de 2025, de autoria do vereador Aristides Ribeiro de Carvalho Filho.

A imagem não corresponde a um registro fotográfico real do evento, mas a uma interpretação visual que busca evocar o ambiente institucional da Câmara, o caráter solene da sessão legislativa e o simbolismo cívico representado pelo brasão e pela bandeira de Itaúna.

A composição enfatiza elementos de identidade local e memória coletiva, alinhando-se ao conteúdo do projeto aprovado, que visa à valorização da história, da cultura e do patrimônio itaunense por meio de ações educativas e culturais.

 

sábado, agosto 29, 2026

DORNAS & MATTOS

Um Retrato de João Dornas Filho e o Brasil de Sua Época

Itaúna, cidade mineira de rica tradição cultural, tem entre seus filhos dois nomes ilustres que se destacaram não apenas em Minas Gerais, mas no cenário literário e intelectual do Brasil: João Dornas Filho e Mário Gonçalves de Matos.

Ambos foram membros da Academia Mineira de Letras, homens notáveis em seu tempo, que honraram com palavras e ações o ofício da escrita e o compromisso com a cultura.

Dois itaunenses notáveis  que são nomes que honram a memória intelectual de Itaúna e de Minas Gerais. Ambos membros da Academia Mineira de Letras, deixaram contribuições significativas para a história, a literatura e o pensamento político do Brasil. 

Essa carta, que reúne lembranças pessoais, crítica literária e observações sociais, é um documento valioso para conhecermos não apenas Silva Jardim, mas também o modo como Minas pensava, escrevia e se via no espelho de sua história.

A carta que aqui apresentamos é um verdadeiro tesouro histórico e literário: trata-se de uma correspondência escrita por Mário Matos a João Dornas Filho, que revela não só a admiração mútua entre dois grandes intelectuais itaunenses, mas também o reconhecimento do valor literário e humano de Dornas Filho, especialmente por sua obra dedicada ao revolucionário republicano Silva Jardim (temos a Rua Silva Jardim em Itaúna).

A carta é também um retrato de uma época, de um tempo em que a palavra era a maior arma dos homens públicos e em que a literatura e o jornalismo andavam lado a lado com a política e a história. Ao mesmo tempo em que Mário Mattos celebra a grandeza intelectual de Dornas, também relembra seus passos incertos e suas “faltas”, sem deixar de reconhecer o brilho incomum de sua escrita, sua vocação para a verdade e seu compromisso com a República.

Convidamos você a mergulhar nessa leitura e conhecer essa página tocante de nossa história. Uma carta que é mais que correspondência: é documento, é literatura, é memória viva de Itaúna. Descubra como a amizade, a palavra e a paixão pelas ideias uniram dois gigantes da cultura mineira.

Venha conhecer a carta de Mário Matos a João Dornas Filho — um tributo entre gigantes da nossa história!

 A CARTA  DE MÁRIO MATOS

Essa carta (escrita por Mário Matos como prefácio ou comentário ao livro sobre Silva Jardim, de autoria de João Dornas Filho) é uma peça literária e histórica de grande valor. Mais que um simples elogio à obra, a carta traça um duplo retrato: o de Silva Jardim, personagem central da biografia, e o do próprio autor João Dornas, então emergente na cena intelectual mineira.

Dito com lirismo e crítica sutil, a carta relembra os tempos iniciais de Dornas Filho como tipógrafo autodidata em Itaúna, destacando sua inteligência precoce, sua sede de leitura e seu talento para a escrita, características que, embora ignoradas pelas “sumidades locais”, já anunciavam sua vocação de escritor. É também um raro testemunho da vida intelectual do interior mineiro no início do século XX, onde a escassez de recursos era vencida com perseverança e amizade.

Ao comentar o livro Silva Jardim, Mário Matos não apenas exalta a escolha do tema e a qualidade do estilo, mas também ressalta a importância do gesto: escrever sobre uma figura política como Silva Jardim era, naquele tempo, um ato de justiça e memória. 

A carta faz paralelos entre a intensidade do biografado ( cuja trajetória foi "um caminho de fogo entre os combates e o Vesúvio" ) e a capacidade do autor em captar essa chama. Mais do que isso, o autor valoriza o esforço de Dornas em apresentar não só o político, mas o homem: idealista, íntegro, inquieto e, por isso mesmo, trágico.

Contudo, é impossível ignorar os traços de seu tempo: a carta carrega uma visão paternalista sobre a mulher, reduzida a uma “clareira de doçura e paz” na vida do homem público. Anna Margarida, esposa de Silva Jardim, é apresentada como a “redenção do sexo feminino”, em uma construção que espelha os valores patriarcais e moralistas da época. 

Essa visão, que hoje soaria ofensiva ou ultrapassada, serve de chave de leitura para compreendermos não apenas os limites individuais, mas a mentalidade de uma geração inteira de intelectuais brasileiros.

Por fim, Mário Matos lança um comentário perspicaz sobre a política brasileira "então e agora" ao citar uma das ideias de Silva Jardim:

“O homem não deve aparecer em público senão em determinadas ocasiões e sempre com um fim nobre e elevado.”

Com ironia refinada, Matos diz que, se essa máxima fosse levada a sério, muitos políticos deveriam se recolher à vida privada — uma crítica que atravessa o tempo.

 

CARTA RESERVADA  A JOÃO DORNAS FILHO

Logo que acabei a leitura do seu livro a respeito de Silva Jardim, feita de assentada, pus-me a rememorar a parábola de sua vida, João Dornas. Lembrei-me do seu tempo de typógrapho sem emprego na redação de pequenos jornais em Itaúna — “Centro de Minas” e “Tribuna” — onde você acumulava todos os cargos, fazendo quase sozinho, o jornal todo.

Em mangas de camisa, você trabalhava o dia inteiro e, à noite, lia devoradamente não só livros comprados por você, como emprestados por mim. Estes livros eram entregues honestamente e, percorrendo-os, eu via, pelos sinais, que os lera e dormira sobre eles.

Você aparecia naquelas manhãs brumosas nossa erra, à porta do meu escritório, chamando-me de modo invariável:

— Deputado?

— Entre, Záu...

Você entrava. Em duas ou três palavras, explicava-me, com penetração a inteligência do que meditara. Você era menino e moço, mais menino ainda do que moço. Frequentara a escola pública, em que deixara impressão oficial de crença vadia. Inteligente, mas vadia. Muitos o elogiavam pela única maneira porque as sumidades locais enaltecem os homens diferentes. Que pena João Dornas não querer estudar! 

Para essa gente, estudar é seguir carreira liberal, afim de que se possa, mais tarde, à sombra da lei, exercer a falta de talento e de caráter.  Recordo-me de que você se mostrava lisonjeado com a minha defesa constante, prevendo o que hoje é realidade: quando ninguém, se apercebe de muitos, seu nome já está na admiração dos homens cultos de Minas.

Bem sei que você cometeu faltas que francamente lhe reprovava, não havendo sido das menores alguns discursos proferidos sobre o túmulo raso de certos defuntos explicáveis, mas inteiramente municipais. Nesses momentos, era tomado a sério, porque parecia ter criado juízo. Mas não criava nada.

As coisas continuaram assim, até um dia que você me surgiu, novo e feliz, para despedir-se. Fora nomeado funcionário público em Belo Horizonte. O resto, que é tudo, pode ser totalizado no resumo de sua vitória. “Silva Jardim”.

Este livro, para mim, já é senáculo de uma vocação que venho acompanhando com simpatia desde os primeiros estampas lactentes. As virtudes de um escritor apuram-se em um cadinho: o estilo, exteriorização gráfica da personalidade. É com o escritor que se deixa ler por todo homem inteligente.

 O estilo de “Silva Jardim” em está apropriado ao assumpto. Nele se refletem movimento, eloquência, calor, vida, tudo isso compondo a existência progressiva de um homem, cuja atividade catapultosa “foi um caminho de fogo entre os combates e o Vesúvio.

  “A Idea republicana incidiu-lhe a vida inteira. A impressão singular que deixou foi a do movimento. Teve uma passagem entre os homens meteórica. Isto você fixou no livro de modo exato e humano, convindo dizer que a sua capitulação coincide com a realidade teatral da ação pública de Silva Jardim.

E’ também um ato de justiça retardatária. Não se continha noção certa da sua figura excepcional, a não ser por episódios salteados, os quais, muitas vezes, costumam desfigurar os homens. Você veio mostrar a força e o ímpeto com que Silva Jardim sempre gravitou no sentido de implantar a Republica no Brasil.

É o desenho do político. Não esqueceu, porém, o indivíduo. Para Silva Jardim era tudo difícil, como para os que tem escrúpulos morais. Seu temperamento proceloso era agravado pela integridade de caráter.

O homem de fé, de caráter e de coração vive mal e perigosamente, mas entra de pé na História. Querem os céticos que tal compensação seja precária. Não sei ...

Outros aspectos, inéditos por assim dizer, são expostos com espontaneidade, nessa biografia semeada em crônicas. Foi novidade para mim verificar em Silva Jardim a capacidade de pensar. Ha aqui algumas ideias dele, que me ficaram. Parecem simples, mas, a meu ver, têm um grande alcance. 

Citarei unicamente uma: “O homem não deve aparecer em público; senão em determinadas ocasiões e sempre com um fim nobre e elevado.” Se este pensamento for invertido em norma de conduta, número apreciável de políticos no Brasil recolher-se-á à vida privada.

Na carreira de todo homem agitador existe, quase sempre, uma clareira de doçura e paz. Na de Silva Jardim foi Anna Margarida, sua esposa. Este destino da mulher é a coisa mais consoladora deste mundo. Só isso redime o sexo de suas falhas, cuja designação peço licença para não declinar... 

Chama você atenção do leitor para esse fato: a campanha republicana teve, em Minas, decidido apoio dos médicos ao contrário do que se narrou com os bacharéis. Não há estranhável no caso. Os médicos atuam clinicamente, o bacharel é de sua própria natureza profissional um tanto oportunista e suspicaz


Elaboração: Charles Aquino

Revista Belo Horizonte/MG 1933 

Imagem meramente ilustrativa 

Veja mais em: Rua Silva Jardim - Itaúna/MG


domingo, agosto 23, 2026

NORMALISTAS 1928


Escola Estadual em Itaúna

Você conhece as normalistas de 1928?

Em 1928, jovens de Itaúna e de diversas cidades mineiras e até do Espírito Santo estudavam na antiga Escola Normal “Manoel Gonçalves”, instituição que já havia conquistado importante reconhecimento no cenário educacional de Minas Gerais.

Quase um século depois, seus rostos permanecem registrados em fotografias que nos permitem reencontrar uma geração de jovens que se preparava para uma profissão que transformaria a educação de diferentes regiões: o magistério.

Quem eram essas normalistas? De onde vieram? Quem eram seus professores? 

O Sertões de Minas convida você a conhecer essa história e a olhar para uma fotografia de 1928 não apenas como uma imagem antiga, mas como um documento de uma época e da trajetória de mulheres que participaram da expansão da educação em Minas Gerais.

Venha conhecer as Normalistas de 1928 e descobrir um pouco mais dessa história.

Acesse a história completa no Portal Sertões de Minas.

História, memória e patrimônio dos nossos lugares.

 Sertão de Minas gerais
 
Charles Aquino – Historiador


quinta-feira, agosto 20, 2026

ANA CINTRA: OURO PRETO A ITAÚNA

Escola Ana Cintra Itaúna Minas Gerais

Educação e alfabetização de uma pioneira entre o Império e a República

Anna Cintra de Carvalho (1868–1944) ocupa um lugar significativo na história da educação de Minas Gerais.

Professora, diretora escolar e autora de material destinado ao ensino da leitura, sua trajetória atravessou diferentes momentos da educação mineira entre o final do Império e as primeiras décadas da República.

Sua carreira esteve ligada à formação de professores, à direção de grupos escolares, às experiências de renovação dos métodos de ensino e à produção de materiais destinados à alfabetização. 

Em 1928, depois de mais de quatro décadas dedicadas ao magistério, foi homenageada na II Conferência Nacional de Educação, realizada em Belo Horizonte, como representação do mestre brasileiro.

Décadas depois de sua morte, seu nome seria oficialmente atribuído a um jardim de infância em Itaúna, estabelecendo uma ligação entre sua trajetória na educação mineira e a história da educação infantil do município.

Segundo a documentação publicada por ocasião da II Conferência Nacional de Educação de 1928, Ana Cintra diplomou-se pela Escola Normal de Ouro Preto em 1882, aos 14 anos de idade. Como ainda não atingira a idade mínima prevista pelo regulamento, seu título foi concedido mediante uma lei aprovada pela Assembleia Provincial.

O episódio é significativo porque situa Ana Cintra em um momento em que a formação profissional do magistério estava sendo institucionalizada em Minas Gerais. Sua entrada precoce na profissão não foi apenas uma particularidade pessoal: sua formação ocorreu dentro de uma estrutura educacional que começava a definir normas específicas para a preparação dos professores.

No ano seguinte, em 1883, abriu um curso particular, que funcionou até 1889. Nesse último ano, foi nomeada para uma cadeira de ensino misto criada na freguesia de Antônio Dias. Entre 1887 e 1888, havia substituído professoras que se encontravam licenciadas. Em 1891, foi removida para a aula prática anexa à Escola Normal.

Sua trajetória inicial já revela uma característica que permaneceria ao longo de sua carreira: Ana Cintra transitou por diferentes espaços de ensino, combinando experiência como professora, atuação institucional e práticas relacionadas à formação docente. 

Em 1904, com a supressão das Escolas Normais, Ana Cintra voltou a abrir seu curso particular. Dois anos depois, em agosto de 1906, transferiu sua residência para Belo Horizonte. A mudança ocorreu em um momento importante da educação mineira.

Durante o governo de João Pinheiro, Ana Cintra foi chamada pelo secretário do Interior para participar de experiências relacionadas aos novos métodos e programas de ensino que acompanhavam a reforma educacional então em curso. 

A documentação da II Conferência Nacional de Educação de 1928 apresenta sua atuação como parte das experiências ligadas à renovação do ensino mineiro. Estudos posteriores sobre a história da alfabetização também relacionam a produção de Ana Cintra às transformações metodológicas associadas à reforma de João Pinheiro.

É importante, entretanto, não atribuir a Ana Cintra responsabilidades que as fontes atualmente reunidas não comprovam. Podemos afirmar que ela participou de experiências com novos métodos e programas de ensino e que foi posteriormente reconhecida como colaboradora da reforma.  Não temos, neste conjunto documental, elementos suficientes para reconstruir toda a extensão de sua participação na formulação da reforma.

A partir de 1907, Ana Cintra passou a ocupar posições de direção na estrutura dos grupos escolares da capital. Em 5 de agosto do mesmo ano, assumiu a direção do 2º Grupo Escolar da capital, como substituta da diretora Maria Guilhermina de Loureiro Andrade. Em 30 de março de 1910, foi nomeada diretora do 3º Grupo Escolar, posteriormente denominado Grupo Escolar Cesário Alvim, criado pelo Decreto nº 2.613, de 17 de agosto de 1909.

Os documentos relacionados aos grupos escolares revelam uma preocupação com diferentes aspectos da organização da escola. Entre essas experiências esteve a Escola Noturna Feminina da Capital, instalada em 1913 nas dependências do 3º Grupo Escolar, então dirigido por Ana Cintra. A escola funcionou entre 1913 e 1917.

Essa experiência é particularmente relevante porque demonstra que a educação desenvolvida naquele espaço não estava limitada às crianças em idade escolar regular. Sua atuação nesse período ultrapassou as funções administrativas, havia também uma iniciativa destinada à escolarização de mulheres adultas.

Ana Cintra e o ensino da leitura

Uma das dimensões mais importantes de sua trajetória está relacionada ao ensino da leitura.

Em 1917, quando dirigia o Grupo Escolar Cesário Alvim, Ana Cintra relatou às autoridades educacionais a aplicação de lições de leitura que ela própria havia organizado.

Segundo o registro de sua experiência, suas lições procuravam ser simples e acessíveis às crianças e pretendiam evitar aquilo que ela considerava um problema dos livros então utilizados: a aprendizagem baseada na decoração.

Esse episódio é fundamental para compreender Ana Cintra como educadora.

Ela não se limitava a utilizar os materiais disponíveis. A experiência acumulada em sala de aula e na direção escolar levou-a a organizar suas próprias lições e submetê-las à apreciação das autoridades educacionais. A experiência posteriormente transformou-se em livro.

A obra de Ana Cintra intitulada Lições para o ensino completo da leitura teve sua 3ª edição publicada em 1922, pela Imprensa Oficial de Minas Gerais.

Pesquisas sobre a história da alfabetização identificam na obra a combinação dos métodos analítico e sintético, característica que permite classificá-la como uma proposta eclética. A organização das lições partia de sentenças que posteriormente eram analisadas em sílabas e relacionadas a vocábulos contendo a letra ou consoante trabalhada.

A proposta buscava fazer com que a criança pudesse decompor pequenos vocábulos em seus elementos sonoros e posteriormente utilizar esses elementos para formar novas palavras. A cartilha também apresentava desenhos e fotografias, em número relativamente reduzido, utilizados em associação com as palavras e os elementos trabalhados nas lições.

Estudos posteriores apontam ainda que a obra combinava leitura e escrita e organizava os vocábulos em uma sequência progressiva. (Repositório da UFMG)

A cartilha passou a ser conhecida não apenas pelo título, mas também pelo nome da autora. Pesquisas sobre sua circulação registram expressões como “Cartilha da Ana Cintra” e “Processo de Ana Cintra”. (Repositório da UFMG)

Isso é um indicador importante da repercussão alcançada por seu trabalho: o nome da professora passou a identificar o próprio processo de ensino. A publicação de Lições para o ensino completo da leitura não ficou restrita à experiência individual de sua autora.

Pesquisas sobre os livros escolares mineiros mostram que a obra teve circulação em escolas do estado. A terceira edição foi publicada pela Imprensa Oficial em 1922 e, no ano seguinte, a obra passou à Livraria Francisco Alves. Os estudos identificam pedidos e registros que demonstram sua presença no circuito de livros escolares de Minas Gerais. (Portcom)

Outro estudo sobre a distribuição das cartilhas mineiras identifica as “Lições de Ana Cintra” entre as obras de maior repercussão e registra que o livro foi aprovado pelo Conselho Superior de Instrução e adotado em escolas do estado. (Repositório da UFMG)

A documentação sobre os processos educativos de leitura registra ainda que as lições de Ana Cintra foram publicadas em livro e adotadas pelo Conselho Superior em 1924 para uso no primeiro semestre do 1º ano.

Portanto, sua contribuição não deve ser reduzida ao fato de ter escrito uma cartilha. Sua experiência pedagógica transformou-se em material impresso e passou a integrar o universo oficial dos livros destinados ao ensino da leitura em Minas Gerais.

 Em 17 de junho de 1925, Ana Cintra foi nomeada para o Grupo Escolar Olegário Maciel. Permaneceu trabalhando até 17 de setembro de 1926, quando obteve sua aposentadoria. Naquele momento, contabilizava 36 anos, dois meses e 19 dias de serviço público.

Sua aposentadoria encerrou uma longa carreira no serviço público, mas não significou o desaparecimento de seu nome da história da educação mineira. Pouco tempo depois, Ana Cintra seria novamente colocada no centro de uma importante cerimônia.

A homenagem de 1928

Entre 4 e 11 de novembro de 1928, Belo Horizonte sediou a II Conferência Nacional de Educação da Associação Brasileira de Educação. Na ocasião, Ana Cintra recebeu uma homenagem especial.

A documentação oficial da Conferência registra que ela foi escolhida como representação do mestre brasileiro, destacando sua longa dedicação à instrução pública e sua atuação durante a reforma do ensino mineiro. A homenagem possui grande significado histórico.

Ana Cintra não estava sendo reconhecida simplesmente como uma professora aposentada. Sua trajetória estava sendo utilizada como representação de uma determinada concepção do magistério: a do professor que dedicara grande parte da vida à educação.

No discurso pronunciado durante a homenagem, Ana Cintra recordou sua entrada na profissão e falou sobre as dificuldades encontradas no caminho, a necessidade de compreender os alunos e o dever do mestre.

A documentação contemporânea apresenta, assim, uma imagem bastante clara de como Ana Cintra era percebida no final de sua carreira: uma professora experiente, diretora escolar, autora e participante das transformações educacionais de Minas Gerais. 

Sabemos que Ana Cintra faleceu em 1944. A documentação atualmente reunida, porém, não nos permite reconstruir com segurança os seus últimos anos entre a homenagem de 1928 e sua morte. Por isso, não é adequado preencher esse período com informações não documentadas. 

O que podemos afirmar é que, em 1928, sua trajetória profissional já havia recebido um reconhecimento público de grande importância e que seu nome permaneceu ligado à história da educação mineira. 

O Jardim de Infância Ana Cintra em Itaúna

A história de Ana Cintra ganha uma nova dimensão em 1956, doze anos após sua morte. Aqui possuímos agora uma documentação oficial particularmente importante.

Em 10 de janeiro de 1956, o Governo de Minas Gerais publicou o Decreto nº 4.890, determinando:

“Cria um jardim de infância na Cidade de Itaúna.”

O decreto criou a instituição, mas não lhe atribuiu naquele momento o nome de Ana Cintra.

Quatro meses depois, ocorreu a denominação.

Em 17 de maio de 1956, o Governo de Minas Gerais publicou o Decreto nº 5.017, cujo título é:

“Dá a denominação de ‘Ana Cintra’ ao Jardim de Infância de Itaúna.”

O próprio decreto determina que fosse dada a denominação “Ana Cintra” ao Jardim de Infância de Itaúna.

Temos, portanto, uma sequência documental precisa:

10 de janeiro de 1956 — criação do Jardim de Infância de Itaúna.

17 de maio de 1956 — atribuição oficial do nome Ana Cintra.

Essa distinção é importante porque o decreto de maio não explica a razão da escolha do nome.

A documentação oficial comprova a denominação, mas não informa, no texto do decreto, quem propôs o nome ou quais foram os motivos específicos que levaram o Governo de Minas Gerais a escolher Ana Cintra.

Há uma explicação registrada posteriormente na memória local, segundo a qual a denominação constituiu uma homenagem à educadora mineira. Essa informação deve ser tratada como memória histórica, e não confundida com o conteúdo do decreto. Essa distinção será importante para pesquisas futuras. 

Os testemunhos de antigos alunos permitem reconstruir parte da trajetória da instituição.

Vicentina Brant afirma ter sido aluna da primeira turma do Jardim de Infância Ana Cintra e identifica Graciana Coura de Miranda como a primeira diretora. Em seu depoimento, recorda também as professoras Noêmia Delgado e Terezinha Lara e descreve a escola como um espaço profundamente presente em sua memória de infância.

Outro testemunho, de Angélica de Aquino, registra sua passagem pela escola em 1968, quando o Jardim de Infância ainda funcionava na Avenida Getúlio Vargas. Ela recorda o casarão, o pátio, as grandes gangorras e as atividades realizadas com argila. Também identifica Graciana Coura de Miranda como diretora naquele período.

Anos depois, o antigo aluno Prof. Luiz Mascarenhas recordaria o Jardim de Infância Ana Cintra funcionando na Rua Professor Francisco Santiago, em um antigo casarão. Seu testemunho descreve o portão, o alpendre, o pátio, os brinquedos, as salas e as atividades escolares realizadas com mimeógrafo, massa de modelar e peças de madeira.

Esses testemunhos não servem para reconstruir a biografia de Ana Cintra. Eles possuem outra função: registrar a permanência de seu nome na experiência educacional de sucessivas gerações de crianças de Itaúna. 

A história de Ana Cintra pode ser observada em três momentos distintos.

O primeiro está em Ouro Preto, onde se formou e iniciou sua carreira ainda no século XIX.

O segundo está em Belo Horizonte, onde participou das experiências relacionadas à renovação do ensino, dirigiu grupos escolares e desenvolveu suas experiências com o ensino da leitura.

O terceiro aparece em Itaúna, décadas depois de sua morte, quando seu nome foi oficialmente atribuído a um jardim de infância.

Essa última etapa é especialmente significativa porque não devemos confundir a trajetória da educadora com a história posterior da instituição. Ana Cintra não atuou no Jardim de Infância de Itaúna — ela havia falecido em 1944, enquanto a instituição foi criada em 1956. O que existe é uma continuidade da memória por meio do nome. É justamente essa permanência que torna a história interessante.

Uma educadora que começou sua carreira ainda no século XIX, participou da transformação do ensino mineiro, dirigiu grupos escolares, produziu material para alfabetização e foi homenageada em 1928 como representação do magistério passou, após sua morte, a identificar uma instituição destinada à educação das crianças pequenas em Itaúna.

A trajetória documentada de Ana Cintra permite compreendê-la como uma educadora que atuou em diferentes dimensões da escola.

Foi professora, porque dedicou décadas ao ensino.

Foi diretora, porque esteve à frente de importantes grupos escolares de Belo Horizonte.

Foi autora, porque transformou sua experiência pedagógica em uma obra destinada ao ensino da leitura.

Foi também uma experimentadora de práticas de alfabetização, pois suas próprias lições nasceram de sua experiência escolar e posteriormente foram publicadas e incorporadas ao circuito educacional mineiro.

Sua importância histórica não depende de transformá-la em uma figura excepcional em todos os aspectos da educação brasileira. As fontes permitem uma afirmação mais precisa e, justamente por isso, mais forte:

Ana Cintra foi uma educadora mineira que participou de importantes processos de renovação do ensino, dirigiu grupos escolares, produziu material próprio para alfabetização e alcançou reconhecimento público no campo educacional de seu tempo.

Em Itaúna, seu nome adquiriu uma segunda vida.

O Decreto nº 5.017, de 17 de maio de 1956, transformou oficialmente “Ana Cintra” no nome do Jardim de Infância de Itaúna. A partir daí, sua memória passou a fazer parte da história educacional do município.

E é nessa passagem — de uma professora da educação mineira a um nome preservado por uma escola itaunense — que sua história ganha uma dimensão que ultrapassa sua própria vida.  

Ana Cintra de Carvalho — síntese cronológica

1868 — Nascimento de Anna Cintra de Carvalho.

1882 — Diploma-se pela Escola Normal de Ouro Preto, aos 14 anos.

1883 — Inicia curso particular.

1887–1888 — Substitui professoras licenciadas.

1889 — Nomeada para cadeira de ensino misto em Antônio Dias.

1891 — Passa à aula prática anexa à Escola Normal.

1904 — Retoma o curso particular após a supressão das Escolas Normais.

1906 — Muda-se para Belo Horizonte e participa de experiências relacionadas aos novos métodos e programas de ensino.

1907 — Assume a direção do 2º Grupo Escolar da capital.

1910 — Torna-se diretora do 3º Grupo Escolar, posteriormente Cesário Alvim.

1913–1917 — Funciona a Escola Noturna Feminina da Capital nas dependências do grupo escolar.

1917 — Apresenta experiências com lições de leitura organizadas por ela.

1922 — Publicada a 3ª edição de Lições para o ensino completo da leitura.

1923 — A obra passa à Livraria Francisco Alves.

1924 — Suas lições são adotadas pelo Conselho Superior para o primeiro semestre do 1º ano.

1925 — Nomeada para o Grupo Escolar Olegário Maciel.

1926 — Aposenta-se, após 36 anos, 2 meses e 19 dias de serviço público.

1928 — Homenageada na II Conferência Nacional de Educação como representação do mestre brasileiro.

1944 — Falecimento.

10 de janeiro de 1956 — Criado oficialmente um jardim de infância na cidade de Itaúna pelo Decreto nº 4.890.

17 de maio de 1956 — Decreto nº 5.017 dá oficialmente a denominação “Ana Cintra” ao Jardim de Infância de Itaúna.

Décadas seguintes — O nome permanece na memória de sucessivas gerações de alunos itaunenses. 

 

FONTES E REFERÊNCIAS

1. Fontes primárias e documentação oficial

MINAS GERAIS. Coleção dos Decretos de 1956. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.

MINAS GERAIS. Decreto nº 4.890, de 10 de janeiro de 1956. Cria um jardim de infância na Cidade de Itaúna. In: MINAS GERAIS. Coleção dos Decretos de 1956. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.

MINAS GERAIS. Decreto nº 5.017, de 17 de maio de 1956. Dá a denominação de “Ana Cintra” ao Jardim de Infância de Itaúna. In: MINAS GERAIS. Coleção dos Decretos de 1956. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.

SILVA, Arlette Pinto de Oliveira e (org.). Páginas da história: notícias da II Conferência Nacional de Educação da ABE: Belo Horizonte, 4 a 11 de novembro de 1928. Brasília, DF: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2004. Publicação do INEP 

2. Estudos acadêmicos

FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva; MACIEL, Francisca Izabel Pereira. A história da alfabetização: contribuições para o estudo das fontes. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPEd, 29., 2006, Caxambu. Anais... Caxambu: ANPEd, 2006.

FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva; LANA, Priscila Maria de. Imagens em livros escolares denominados cartilhas. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 3., 2004, Curitiba. Anais... Curitiba: Sociedade Brasileira de História da Educação, 2004.

KLINKE, Karina. Processos educativos de leitura nos grupos escolares de Minas Gerais. In: CONGRESSO DE PESQUISA E ENSINO EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS, 2., 2008, Uberlândia. Anais... Uberlândia: EDUFU, 2008.

MACIEL, Francisca Izabel Pereira. Lúcia Casasanta e o método global de contos: uma contribuição à história da alfabetização em Minas Gerais. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 2001. (Repositório da UFMG)

NOGUEIRA, Vera Lúcia. A cultura material da escola noturna de Minas Gerais nas primeiras décadas da República. EDUCA – Revista Multidisciplinar em Educação, v. 5, n. 10, p. 183-204, 2018. DOI: 10.26568/2359-2087.2018.3225. 

3. Fontes de memória e história local

AQUINO, Angélica de. “Ana Cintra”: gangorras tocavam o céu. Itaúna em Décadas, 23 maio 2017. Depoimento de ex-aluna.

BRANT, Vicentina. Escola de criança feliz. Itaúna em Décadas, 25 maio 2017. Depoimento de ex-aluna da primeira turma do Jardim de Infância Ana Cintra.

MASCARENHAS, Luiz. Meu Jardim de Infância “Ana Cintra”. Itaúna em Décadas, 23 maio 2017. Depoimento memorialístico.

MASCARENHAS, Luiz. Que saudade da professorinha. Santana FM, 1 ago. 2020. Memória sobre a história da educação infantil em Itaúna. 

4. Documento de pesquisa local

AQUINO, Charles. História da Escola Ana Cintra. Itaúna, 2016. Documento de pesquisa não publicado. 

5. Imagem

PENIDO, Angela. Publicação sobre Ana Cintra de Carvalho. Facebook, 22 maio 2017. Fotografia e depoimento pessoal sobre sua bisavó materna. Acervo digital. 

Nota do autor: Esta biografia foi elaborada a partir do cruzamento de documentação oficial, estudos acadêmicos e fontes de memória local. As informações sobre a trajetória de Ana Cintra foram diferenciadas das memórias posteriores sobre o Jardim de Infância Ana Cintra, em Itaúna.

Fonte da imagem: fotografia de Ana Cintra publicada por Ângela Penido em sua página no Facebook, em 22 de maio de 2017. A imagem acima foi recriada digitalmente, tendo a fotografia como referência visual.

Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

@ITAÚNA DÉCADAS - HISTÓRIA & MEMÓRIA