terça-feira, abril 28, 2026

LUGAR CERTO

AUTISMO EM QUADRINHOS

Cada coisa no seu lugar — e o amor também no lugar certo

Esta HQ (História em Quadrinhos) não apresenta apenas uma situação familiar simples.

Ela expõe um ponto de ruptura silencioso, cotidiano e, ao mesmo tempo, profundo.

Um gesto comum para um adulto, como mudar um objeto de lugar, pode significar desorganização interna para uma criança no espectro do autismo.

E é justamente aí que a história começa a falar mais alto.

Não pelo que é dito.

Mas pelo que é sentido.

A mala fora do lugar não é apenas um detalhe.

Ela representa quebra de previsibilidade, perda de controle e insegurança.

A HQ, portanto, não explica.

Ela mostra.

E ao mostrar, convida o leitor a deslocar o seu próprio olhar.

É nesse momento que a HQ se transforma em algo maior.

Ela deixa de ser apenas narrativa e passa a ser instrumento.

É aqui que entra o QH (Quadro de Habilidades).

O QH não interpreta a história de forma superficial.

Ele organiza o olhar.

A partir da cena, torna-se possível identificar elementos fundamentais do desenvolvimento.

Comunicação não verbal, expressa nas reações, no silêncio e no olhar.

Processamento sensorial e a necessidade de previsibilidade.

Regulação emocional diante de mudanças.

Mediação social, evidenciada pela intervenção da tia.

Flexibilidade cognitiva, percebida no momento em que o pai revê sua postura.

A HQ sensibiliza.

O QH estrutura.

A HQ toca.

O QH revela.

E aqui está um ponto que precisa ser enfrentado com seriedade.

Se a história for vista apenas como algo bonito, o seu propósito se perde.

Essa proposta não é estética.

Ela é formativa.

Ela exige mudança de postura.

Porque inclusão não é agir rápido.

É olhar melhor.

O erro do pai não foi mover a mala.

Foi não perceber o significado daquele ato para o filho.

E esse é exatamente o erro mais comum nos contextos educacionais.

Interpreta-se comportamento sem compreender função.

Julga-se antes de observar.

Corrige-se antes de entender.

Essa HQ, associada ao QH, rompe com esse padrão.

Ela propõe uma inversão clara.

Primeiro observar.

Depois compreender.

E só então intervir.

Quando essa lógica é aplicada com consistência, a prática muda.

Quando é ignorada, os mesmos erros continuam sendo repetidos, ainda que com boas intenções.

E boas intenções não garantem inclusão real.


História: Professor Antônio Marcos

Elaboração: Charles Galvão de Aquino
Graduando em Educação Especial (Licenciatura)
Desenvolvedor do QH (Quadro de Habilidades)
Desenvolvedor da HQ (Histórias em Quadrinhos)


segunda-feira, abril 27, 2026

HÉLICES DO SILÊNCIO (HQ/QH)

AUTISMO EM QUADRINHOS

Hélices do Silêncio

Esta HQ (História em Quadrinhos)...

não é apenas uma história...

Ela é um convite para observar.

Cada cena revela formas de perceber o mundo que, muitas vezes, passam despercebidas no cotidiano escolar. 

O que pode parecer simples à primeira vista, como o interesse por um ventilador de teto, pode representar organização, segurança e uma forma legítima de interação com o ambiente.

Mais do que contar uma narrativa, este material propõe um exercício de olhar.

É nesse ponto que entra o QH (Quadro de Habilidades).

O QH é um instrumento analítico que permite transformar a história em campo de observação pedagógica. 

A partir da HQ, é possível identificar evidências relacionadas à comunicação, à interação social, ao processamento cognitivo e à regulação emocional.

Ou seja, a narrativa sensibiliza, mas a análise estrutura a compreensão.

Essa proposta nasce da necessidade de ir além da explicação pronta e desenvolver uma prática baseada na observação consciente

Antes de intervir, é preciso compreender. Antes de interpretar, é preciso olhar.

A inclusão não começa na adaptação imediata. Ela começa na forma como enxergamos.

Charles Galvão de Aquino

Graduando em Educação Especial (Licenciatura)

Desenvolvedor do QH (Quadro de Habilidades)

Desenvolvedor da HQ (Histórias em Quadrinhos)

Hélices do Silêncio by Itaúna Décadas

sábado, abril 25, 2026

PENA ENCANTADA II

AUTIMO HISTÓRIA

Você se lembra de Helber? O menino de Itaúna que atravessou caminhos até a África em busca da misteriosa Pena Encantada. 

Mas há uma pergunta essencial: o que acontece depois que a jornada termina? Helber voltou. E é exatamente aí que tudo começa.

Antes de seguir, uma provocação: você conhece storytelling

Mais do que contar uma história, é fazer sentir, refletir e se reconhecer no que está sendo vivido.

O retorno de Helber não foi como ele imaginava. O mundo não mudou e o verdadeiro desafio passou a ser outro.

Se você está pronto para ir além de uma simples narrativa, continue. Porque, a partir daqui essa história pode dizer mais sobre você do que imagina.

 “O Retorno que Ninguém Esperava”

Helber voltou para Itaúna carregando a pena...

com o mesmo cuidado de quem guarda um segredo.

Durante toda a viagem de volta, acreditou que algo havia mudado.
Não apenas dentro dele — mas ao redor.

Afinal, ele havia feito o pedido.

E pedidos feitos com verdade… deveriam transformar o mundo.

Mas Itaúna estava igual.

As ruas, as casas, os olhares.
Nada parecia ter percebido o que ele viveu.

Nos primeiros dias, Helber tentou compartilhar sua arte.

Organizou pequenos encontros. Separou suas penas. 

Preparou cada detalhe com dedicação quase silenciosa.

Mas quase ninguém veio.

E os poucos que apareceram não ficaram.

Olhavam com curiosidade, mas não com presença.
E antes de sair, sempre diziam:

— É bonito…, mas difícil de entender.

A frase começou a ecoar dentro dele.

Difícil de entender.

Difícil.

Talvez o problema não estivesse no mundo.

Talvez estivesse nele.

Helber então fez algo que nunca imaginou fazer.

Guardou as penas.

Começou a produzir uma arte diferente.
Mais simples.
Mais direta.
Mais aceitável.

E, dessa vez, as pessoas gostaram.

Elogiaram.
Compartilharam.
Sorriram.

Pela primeira vez, Helber foi compreendido.

Mas não foi visto.

Numa noite silenciosa, sentado diante de suas próprias criações, 

Helber percebeu algo que não soube explicar de imediato.

Tudo estava certo.

Mas ele não estava.

A aprovação que antes parecia distante agora era fácil, 

constante, quase automática.

E ainda assim…

vazia.

Ele abriu uma pequena caixa esquecida.

Lá estava a Pena Encantada.

Imóvel.

Sem brilho.

Sem resposta.

Como se esperasse.

Helber a segurou com cuidado.

E, naquele silêncio, entendeu.

A pena nunca foi feita para tornar sua vida mais fácil.

Nunca foi sobre aceitação.

Nunca foi sobre caber.

Era sobre verdade.

E a verdade, agora clara como nunca, era dura:

O mundo não havia mudado.

E talvez nunca mudasse completamente.

No dia seguinte, Helber tomou uma decisão.

Voltou às penas.

Mas não tentou mais alcançar todos.

Começou pequeno.

Muito pequeno.

Uma criança apareceu.
Depois outra.
Depois mais uma.

E, pela primeira vez, alguém não apenas olhou ...

mas permaneceu.

Não era fácil.
Não era rápido.
E não era reconhecido.

Mas era real.

Helber entendeu, então, o verdadeiro sentido do seu pedido.

O mundo não passaria, de repente, a compreender tudo.

Mas algumas pessoas… começariam a enxergar.

E talvez sempre tivesse sido isso.

Não transformar o mundo inteiro.

Mas acender pequenas compreensões dentro dele.

Helber já não esperava aplausos.
Nem aceitação imediata.
Nem respostas fáceis.

Aprendeu algo maior:

Ser compreendido por todos era impossível.

Mas ser verdadeiro para alguém…

isso era suficiente.

E, naquele pequeno espaço, naquela troca silenciosa, 

naquela construção paciente ...

a Pena Encantada voltou a brilhar.

 

Texto, arte e concepção: Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG). 

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 

Pena Encantada II by Itaúna Décadas

sexta-feira, abril 24, 2026

LENDA CÓRREGO DO SOLDADO

DISTRITO DE ITAÚNA MG

A LENDA DO “CÓRREGO DO SOLDADO”

Você já ouviu falar da história por trás desse nome?

Entre memórias, mistérios e acontecimentos que atravessaram o tempo, nasce uma narrativa que vai muito além de uma simples curiosidade. 

A história em quadrinhos “A Lenda do Córrego do Soldado” convida você a mergulhar em um episódio marcante, onde realidade e tradição se entrelaçam para explicar a origem de um dos lugares mais conhecidos da região.

Hoje, o povoado Córrego do Soldado está localizado no município de Itaúna, em Minas Gerais, mas seu nome carrega ecos de um passado que ainda desperta curiosidade e reflexão.

Nesta HQ, cada cena foi construída para transportar você para aquele momento: a tensão, as escolhas, o desfecho… e o legado que permanece até hoje.

Agora é com você:
Venha ler, interpretar e descobrir…
Porque algumas histórias não apenas explicam nomes ...
...elas revelam memórias que o tempo nunca apagou.

Quer ir além da história em quadrinhos?
Conheça mais detalhes e aprofundamentos acessando:

CÓRREGO DO SOLDADO


 Elaboração:

Charles Aquino / Alexandre Campos 

Nota sobre a imagem:

A imagem apresentada foi produzida por meio de inteligência artificial com finalidade exclusivamente ilustrativa e didática. Trata-se de uma construção visual interpretativa, baseada em referências históricas e narrativas orais/documentais, não correspondendo a registros iconográficos originais, fotografias de época ou documentos históricos autênticos. Seu uso visa auxiliar na mediação do conteúdo, sem pretensão de substituição ou validação como fonte primária.

quinta-feira, abril 23, 2026

STORYTELLING

AUTISMO HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

SORYTELLING

(HQQH)

Narrativas como Instrumento de Análise na Educação

Há narrativas que apenas relatam acontecimentos e outras que ampliam a forma como compreendemos o mundo. 

A proposta aqui apresentada insere-se nessa segunda perspectiva, ao estruturar um espaço em que histórias são concebidas não apenas como recursos de sensibilização, mas como instrumentos de observação e análise pedagógica.

Nesse contexto, o uso de HQ (Histórias em Quadrinhos) assume um papel central, uma vez que articula linguagem visual e textual, permitindo representar experiências complexas de forma acessível, dinâmica e significativa.

As narrativas em HQ, neste modelo, não são utilizadas como ilustrações complementares ou estratégias didáticas secundárias. 

Elas são concebidas como campos estruturados de observação, nos quais se tornam visíveis comportamentos, formas de comunicação, modos de interação e estratégias de regulação emocional.

A partir dessa perspectiva, cada história apresenta elementos que podem ser analisados de forma sistemática, possibilitando uma leitura que ultrapassa a dimensão narrativa e se insere no campo da reflexão pedagógica.

É nesse ponto que se insere o QH (Quadro de Habilidades), entendido como um instrumento analítico estruturado que sistematiza evidências observáveis presentes nas narrativas.

O QH organiza, de forma criteriosa, aspectos relacionados a habilidades cognitivas, comunicação, interação social e regulação emocional e comportamental, permitindo que esses elementos sejam identificados, descritos e interpretados com base em dados extraídos diretamente da narrativa.

Trata-se, portanto, de um recurso que reduz a subjetividade interpretativa, ao ancorar a análise em evidências observáveis, como falas, gestos, reações e interações representadas nas HQs.

A relação entre HQ e QH não é de complementaridade externa, mas de integração estrutural. O QH é derivado da própria narrativa, sendo construído a partir dos elementos que ela apresenta. 

Enquanto a HQ mobiliza a dimensão sensível e experiencial do leitor, o QH organiza essa experiência em categorias analíticas, permitindo sua leitura pedagógica de forma sistematizada. 

Essa articulação estabelece uma dupla camada de compreensão: a vivência da história e a análise estruturada dessa vivência.

As narrativas podem transitar entre o real, o fictício e o híbrido, sendo construídas a partir de vivências, inspirações e possibilidades.

Em todas elas, considera-se a diversidade das formas de sentir, comunicar, aprender e interagir, especialmente no contexto do Transtorno do Espectro Autista, no qual diferentes modos de percepção e organização do mundo se manifestam de maneira singular.

Nesse sentido, o foco não está em padronizar comportamentos, mas em ampliar a compreensão sobre as múltiplas formas de existência e aprendizagem.

A proposta não se orienta pela transmissão direta de conteúdos ou pela oferta de respostas prontas. Ao contrário, busca ampliar a capacidade de observação e análise, convidando o leitor a desenvolver um olhar mais atento, consciente e fundamentado.

Cada narrativa configura-se como um campo de observação, enquanto o QH funciona como um instrumento que orienta a leitura desses elementos, possibilitando que a compreensão construída a partir da experiência seja convertida em ação pedagógica.

Ao integrar narrativa e análise, essa abordagem promove uma articulação entre sensibilidade e rigor metodológico. 

A história permite acessar dimensões da experiência que, muitas vezes, não são alcançadas por explicações diretas, enquanto a análise estruturada possibilita transformar essa compreensão em prática educativa.

Dessa forma, o uso combinado de HQ e QH configura-se como uma estratégia que não apenas comunica, mas também investiga, interpreta e orienta, contribuindo para o desenvolvimento de práticas pedagógicas mais inclusivas, conscientes e alinhadas à complexidade do sujeito em processo de aprendizagem.

  Charles Galvão de Aquino

Graduando em Educação Especial (Licenciatura)

Desenvolvedor do QH (Quadro de Habilidades)

Desenvolvedor da HQ (Histórias em Quadrinhos)


PENA ENCANTADA (DISPONÍVEL)

PENA ENCANTADA - HQ/QH (Em breve)✔

PENA ENCANTADA II (DISPONÍVEL)

PENA ENCANTADA II - HQ/QH (Em breve)✔

 HÉLICES DO SILÊNCIO (DISPONÍVEL)

HÉLICES DO SILÊNCIO - HQ/QH (DISPONÍVEL)

OS SEGREDOS DE MARIA (DISPONÍVEL)

OS SEGREDOS DE MARIA - HQ/QH (Em breve)✔

LUGAR CERTO - HQ/QH (DISPONÍVEL)✔


A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 

quarta-feira, abril 22, 2026

O BRASIL EM XEQUE (1831)

CORCUNDAS X PATRIOTAS

O Brasil volta a ferver...

Opiniões rígidas. Discursos inflamados. Certezas absolutas de todos os lados.

Mas antes de achar que estamos vivendo algo inédito, vale uma pergunta incômoda:
isso é realmente novo… ou apenas mais um capítulo de uma velha história?

Em 1831, o país já enfrentava um cenário de intensa divisão política. De um lado, os chamados “corcundas”, defensores da ordem tradicional e da monarquia.

Do outro, os “patriotas”, que questionavam esse modelo e defendiam mudanças profundas na organização do país.

O texto do historiador itaunense João Dornas Filho, ao apresentar esse embate em forma de diálogo popular, revela algo que atravessa o tempo: a dificuldade de lidar com o diferente sem transformá-lo em inimigo.

Ali, como agora, não faltavam acusações, certezas morais e discursos carregados de verdade absoluta.

Ali, como agora, o debate muitas vezes dava lugar ao confronto.

Revisitar “Corcundas x Patriotas” em 2026 não é apenas olhar para o passado.
É reconhecer padrões que insistem em se repetir.

Porque talvez o problema nunca tenha sido apenas quem estava certo…

mas a forma como escolhemos discordar.

Leia o texto completo:

CORCUNDAS X PATRIOTAS

E depois reflita:

Mudaram os nomes… ou continuamos vivendo o mesmo conflito?

Referência:

AQUINO, CharlesGalvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

FILHO, João Dornas: A abdicação e a musa popular em 1831 — CULTURA POLÍTICA — Revista mensal de estudos brasileiros. - INVENTÁRIO - BN - Rio de Janeiro, Ano IV Nº 41- Junho de 1944, p.155-159.

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 

sábado, abril 18, 2026

LOGRADOUROS 1891

LOGRADOUROS DE ITAÚNA MG

Entre nomes, memórias e projetos: a gênese simbólica das ruas de Sant'Anna do Rio São João Acima

(18/04/1891-18/04/2026)

No dia 18 de abril de 1891, no edifício do antigo Theatro do arraial de Sant’Anna de São João Acima (embrião da atual cidade de Itaúna) um pequeno grupo de conselheiros distritais reuniu-se para realizar um ato que, embora aparentemente burocrático, possuía profunda carga simbólica: atribuir nomes às ruas do povoado. 

Sob a presidência do dr. Augusto Moreira, os conselheiros Miguel José de Faria e João Antônio da Fonseca não apenas organizaram o espaço urbano — eles inscreveram no território a memória que desejavam perpetuar.

Era o início da Primeira República, período em que o Brasil buscava substituir símbolos imperiais por novos marcos cívicos, celebrando datas e personagens republicanos. Não surpreende, portanto, que muitas das ruas nomeadas expressassem essa adesão ao novo regime e seus ideais modernizantes.

Datas e ideais republicanos impressos no chão

Entre as denominações propostas, sobressaem as alusões a efemérides da construção nacional:

Rua 15 de Novembro — homenagem direta à Proclamação da República, e que permanece com este nome até os dias atuais;

Rua 13 de Maio, alusiva à Abolição da Escravidão, igualmente mantida no traçado urbano contemporâneo;

Rua 7 de Setembro, Rua 21 de Abril, Rua 15 de Junho e outras marcações temporais, compondo uma cronologia patriótica na cartografia local.

Cumpre destacar que, mesmo sem constar na ata apresentada, a Rua Silva Jardim, existente em Itaúna é preservada até hoje, insere-se nesse mesmo movimento de exaltação cívica. Seu nome homenageia Antônio da Silva Jardim, militante republicano fluminense, orador apaixonado e mártir da causa, morto tragicamente em 1891, ano da sessão analisada. Sua memória encontra, assim, eco e reverência no espaço itaunense.

Essas referências demonstram que o arraial almejava situar-se dentro do espírito republicano, incorporando-se simbolicamente à nova ordem nacional.

 Fé e tradição e o costume oral: da permanência do sagrado à formalização urbana

Ao lado da modernidade republicana, o tecido urbano preservou nomes ancorados na devoção católica, como Rua da Matriz, Rua do Rosário, Rua de São José, Rua de São Sebastião, Largo do Cruzeiro e Largo dos Passos. Em uma terra marcada por irmandades, procissões e fé comunitária, o sagrado continuava a orientar caminhos, reafirmando que o nascimento cívico da cidade não apagaria sua alma religiosa.

Persistiram também referências locais e comunitárias, tais como Beco do Tio João, Rua da Harmonia (antiga do Felizardo), Rua da Concórdia, Rua do Buracão, entre outras. São vestígios do modo como o povo nomeava os espaços antes da institucionalização: pelos moradores, pela paisagem, por acontecimentos cotidianos. O Conselho, assim, congelava em letra pública uma geografia que já existia na memória viva dos habitantes.

A metamorfose da Rua Direita

Dentre as alterações posteriores, merece destaque especial a antiga Rua Direita, eixo estruturante da malha urbana. O nome, tradicional em vilas coloniais brasileiras para designar a rua principal, foi posteriormente substituído por Avenida Getúlio Vargas, durante o período autoritário do Estado Novo.

Trata-se de um exemplo emblemático de como o poder político também inscreve seus símbolos na cidade: um nome republicano e popular cedendo lugar, por imposição do regime, à exaltação do governante centralizador e ditatorial.

Hoje, ao caminhar pela avenida, o cidadão pisa não apenas no asfalto, mas na disputa histórica entre memória local e intervenções do poder estatal.

Além das denominações, a ata revela outras preocupações típicas de uma comunidade que se modernizava: criou-se uma comissão para estudar o desvio das águas pluviais, evidenciando as primeiras ações de planejamento urbano, e reclamou-se sobre as irregularidades nas malas postais vindas pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, sinal da importância crescente da comunicação e do transporte ferroviário para o desenvolvimento econômico local.

Considerações

Nomear ruas é escolher memórias e escolher memórias é escolher identidades. Em 1891, Sant’Anna de São João Acima delineou, na tinta e no papel, o que desejava ser: uma comunidade enraizada na fé, mas aberta à República e à modernidade; uma vila que registrava sua oralidade e seu cotidiano, mas que almejava civilidade, ordem e lugar na história nacional.

Curiosamente, alguns nomes sobreviveram incólumes ao tempo, como Rua 15 de Novembro, Rua 13 de Maio e Rua Silva Jardim, não apenas como placas de ferro, mas como símbolos de permanência e memória coletiva. Outros se transformaram, como a antiga Rua Direita, hoje Avenida Getúlio Vargas, lembrança viva de que a cidade, assim como a história, também pode ser moldada por decisões centralizadoras e por projetos políticos impostos.

Cada esquina nomeada naquela data, portanto, é um capítulo da formação urbana e simbólica de Itaúna. E ao revisitarmos essa ata, não lemos apenas uma lista, lemos o instante em que uma comunidade gravou sua alma nas ruas.

 

  TEXTO ORIGINAL

CONSELHO DISTRITAL

ATA DA 1ª SESSÃO ORDINÁRIA

Aos 18 dias do mês de abril de 1891, no edifício do Theatro deste distrito de Sant’Anna de São João Acima, às 12 horas do dia, presentes os srs. Conselheiros: dr. Augusto Moreira, presidente, Capitão Miguel José de Faria e João Antonio da Fonseca, havendo número legal o sr. Presidente declara aberta a sessão.

ORDEM DO DIA

O sr. Presidente propõe e é aceito pelo Conselho um projeto dando às ruas desta freguesia as seguintes denominações:

A rua compreendida entre as casas dos srs. Serafim Caetano e Francisco da Costa — Rua Direita.

A que que vai da casa do sr. Primo Ribeiro ao beco do Costa — Rua Direita.

A que vai da casa do sr. Primo Ribeiro ao beco do Costa — Rua 15 de Novembro.

A antiga dos Ferreiros — Rua 14 de Junho.

A que vai da casa do sr. Custódio Dornas à Igreja do Rosário — Rua 21 de Abril.

A que vai do Serafim à Matriz — Rua Silva Jardim.

A que vai do sr. José Pinto à Porteira do Vigário — Rua Tiradentes.

A que vai da Matriz à Vargem — Rua da Matriz.

A antiga das Viúvas — Rua da Boa Vista.

A que vai do sr. Joaquim de Freitas ao sr. Francisco Dornas — Rua São José.

A antiga da Vargem — Rua da Alegria.

A que vai da casa do sr. José Silvério ao Mirante — Rua do Rosário.

O antigo beco do Tio João — Beco do Tio João.

A antiga do João Lopes — Rua do Theatro.

A antiga do Felizardo — Rua da Harmonia.

A antiga do Canto — Rua 7 de Abril.

A antiga Rua Nova — Rua Nova.

A antiga de São Sebastião — Rua de São Sebastião.

A antiga do Buracão — Rua do Buracão.

A que vai da Rua 13 de Maio à 15 de Novembro — Rua 7 de Setembro.

A que vai da Rua Direita ao Quitão — Rua de Santo Antônio.

A antiga Rua do Xilindró — Rua da Justiça.

A que fica paralela a do Buracão — Rua do Fogo.

A antiga das Diogas — Rua da Concórdia.

A que vai do sr. José Pinto a Vargem — Rua 15 de Junho.

O antigo beco de Francisco Gonçalves — Beco 15 de Novembro.

Antigo beco do Costa — Beco do Costa.

A Rua que vai da 15 de Novembro à do Buracão — Rua do Descanso.

O antigo beco do Rosário — Beco do Rosário.

O que vai da Rua Direita a da Concórdia — Beco da Concórdia.

O antigo Largo da Matriz — Largo da Matriz.

O antigo do Cemitério — Largo do Cemitério.

Antigo Lardo do Serafim — Largo do Cruzeiro.

Antigo Largo do Primo — Largo dos Passos.

 

Por proposta do Presidente nomeou-se a seguinte comissão, composta dos srs. Capitão Miguel José de Faria, João Antônio da Fonseca e Capitão Vicente Gonçalves de Souza para apresentar na sessão de junho deste ano um plano de desvios das águas pluviais, nas ruas desta freguesia.

Foi apresentada uma outra proposta do Presidente, mandando que se oficie ao Ilustrado Diretor dos Correios deste Estado, pedindo providencias sobre as irregularidades havidas nas malas desta freguesia, na estra de ferro Oeste de Minas.

Aprovada. E nada mais havendo a tratar o sr. Presidente levanta a sessão até que se lavre a Ata. Reaberta a sessão e, esta aprovada, o sr. Presidente marca a 2ª sessão para 28 de julho, e encerra a presente sessão. Eu dr. Augusto Moreira, Presidente, servindo de secretário a escrevi.

<Dr. Augusto Moreira>

<Miguel José de Faria>

<João Antônio da Fonseca>

 

Referências:

AQUINO, Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

Jornal Centro de Minas, Sant’ Anna de São João Acima, 24 de abril de 1892, p. 2-3.

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 

Logradouros de Itauna (MG) by Itaúna Décadas