sábado, setembro 21, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA

A formação histórica da assistência à saúde em Itaúna (MG): práticas, instituições e controle social

A história da saúde em Itaúna, município localizado na região centro-oeste de Minas Gerais, permite compreender não apenas a evolução das práticas médicas locais, mas, sobretudo, os modos pelos quais diferentes formas de saber, instituições e relações sociais se articularam na construção de mecanismos de cuidado, controle e exclusão. 

Longe de constituir uma trajetória linear de progresso, a organização da assistência à saúde no município revela tensões entre empirismo e cientificidade, filantropia e institucionalização, bem como entre práticas de cura e dispositivos de disciplinamento social.

Partindo da análise de registros históricos reunidos em iniciativas de memória local, como o acervo digital do blog Itaúna em Décadas, este estudo busca examinar as transformações nas práticas de saúde em Itaúna, desde o período em que ainda era um arraial até a consolidação de instituições hospitalares e políticas sanitárias mais estruturadas ao longo do século XX.

Durante o século XIX, quando Itaúna ainda se configurava como o arraial de Sant’Anna do Rio São João Acima, a assistência à saúde era marcada pela ausência de institucionalização formal. Nesse contexto, predominavam práticas terapêuticas exercidas por boticários, curandeiros e práticos, cujos conhecimentos articulavam elementos da tradição empírica, da farmacologia rudimentar e de concepções herdadas da medicina hipocrática.

As boticas desempenhavam papel central nesse sistema, funcionando como espaços híbridos de atendimento, onde se manipulavam substâncias, realizavam-se orientações terapêuticas e, em muitos casos, intervenções diretas sobre os corpos dos pacientes. 

Procedimentos como sangrias e o uso de sanguessugas eram amplamente empregados, refletindo a permanência de paradigmas médicos pré-científicos, ainda vigentes em diversas regiões do Brasil oitocentista.

Contudo, a distinção progressiva entre o boticário prático e o farmacêutico formado indica o início de um processo de especialização do saber médico, associado à expansão de instituições de ensino e à circulação de novos referenciais científicos. 

Essa transição, embora incipiente, evidencia a inserção gradual de Itaúna em dinâmicas mais amplas de profissionalização da saúde no país.

O início do século XX marca uma inflexão importante na história da saúde em Itaúna, com a presença crescente de médicos formados e a introdução de práticas alinhadas à medicina científica. Profissionais como o médico Hely Nogueira, atuante na década de 1920, exemplificam essa mudança, ainda que em condições materiais limitadas.

Nesse período, os atendimentos médicos eram frequentemente realizados em espaços adaptados, com escassez de instrumentos diagnósticos e terapêuticos. 

Ainda assim, a figura do médico passa a ocupar posição de destaque no tecido social, não apenas como agente técnico, mas como mediador simbólico entre doença, cura e ordem social.

Essa valorização do saber médico está diretamente relacionada à consolidação de um discurso científico que reivindica autoridade sobre o corpo e a doença, contribuindo para a deslegitimação progressiva de práticas consideradas “tradicionais” ou “não científicas”. 

Contudo, esse processo não se deu de forma homogênea, sendo atravessado por resistências, adaptações e permanências.

A criação de instituições hospitalares representa um marco fundamental na organização da saúde em Itaúna. A fundação da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, cuja pedra fundamental foi lançada em 1916, evidencia o papel central da filantropia e da religiosidade na estruturação dos serviços de saúde.

Antes da consolidação de políticas públicas universais, o atendimento aos enfermos estava fortemente vinculado a iniciativas privadas de caráter assistencial, frequentemente associadas a valores cristãos de caridade e compaixão. 

Nesse modelo, o acesso ao cuidado não se configurava como um direito, mas como um benefício mediado por relações sociais, morais e econômicas.

Tal configuração reforçava hierarquias sociais, distinguindo aqueles que prestavam assistência daqueles que dela dependiam. Ao mesmo tempo, contribuía para a construção de uma cultura de cuidado baseada na solidariedade, ainda que limitada em sua capacidade de alcance e permanência.

A análise da história da saúde em Itaúna também revela o papel das doenças como catalisadoras de práticas de exclusão e controle social. A lepra, atualmente denominada hanseníase, constitui um exemplo emblemático nesse sentido.

Marcada por forte estigmatização, a doença gerava medo coletivo e implicava profundas consequências sociais para os indivíduos acometidos, incluindo isolamento, perda de vínculos econômicos e marginalização. 

A resposta institucional a esse problema frequentemente se dava por meio de políticas de segregação, como o encaminhamento de doentes para colônias especializadas, a exemplo da Colônia Santa Isabel, inaugurada em 1931.

Essas práticas não podem ser compreendidas apenas como estratégias sanitárias, mas como dispositivos que articulavam saber médico, poder estatal e normas sociais na regulação dos corpos. Nesse contexto, a saúde pública se configurava também como instrumento de disciplinamento, definindo limites entre normalidade e desvio.

A trajetória da saúde em Itaúna evidencia um processo complexo, estruturado por disputas entre saberes, desigualdades de acesso e práticas de disciplinamento social, no qual práticas empíricas, saberes científicos, instituições filantrópicas e políticas sanitárias se entrelaçam na construção de formas de cuidado e regulação social.

Ao invés de uma narrativa linear de progresso, o que se observa é a coexistência de diferentes modelos de assistência, marcados por disputas de legitimidade, desigualdades de acesso e tensões entre inclusão e exclusão. 

Nesse sentido, a história da saúde no município oferece um campo privilegiado para a análise das relações entre medicina, sociedade e poder, contribuindo para uma compreensão mais ampla das dinâmicas históricas que moldaram o cuidado com o corpo e a doença no Brasil.



PRESERVARÇÃO PATRIMONIAL DA SAÚDE

Referências:
Organização e pesquisa: Charles  Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG
Imagem:
Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada nas primeiras salas de operação e nos ambientes hospitalares de Itaúna ao longo do início do século XX, com base em referências históricas sobre a organização da assistência à saúde no município.

A imagem não corresponde a um registro histórico, mas sim a uma interpretação artística que busca evocar a saúde, o cuidado e as condições materiais da prática médica da época, os instrumentos disponíveis, a configuração dos espaços hospitalares e as dinâmicas de atenção e intervenção sobre o corpo. 

Procura-se, assim, representar o contexto em que se estruturavam as práticas cirúrgicas, evidenciando tanto os avanços técnicos quanto as limitações e os desafios enfrentados pelos profissionais de saúde no cenário local.

sexta-feira, setembro 20, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (IV)

CENTRO OESTE DE MINAS GERAIS - SAÚDE

Teve grande repercussão em nossa cidade o Concurso de Robustez Infantil promovido pelo Centro de saúde de Divinópolis, como preliminar ao grande concurso que será realizado no fim do ano na Capital do Estado.

O dr. Mario Figueiredo, esforçado diretor daquele centro, não tem poupado energias para o maior brilhantismo do certâmen: grande é o número de prêmios que recebeu aquele posto para serem distribuídos às crianças vencedoras.

Em Itaúna já estão fichadas e prontas para concorrerem ao concurso as seguintes crianças:
FILHO
PAI
Evandro Alberto
dr. Lima Coutinho
Luiz Augusto
dr. Augusto Gonçalves
Zenolia
sr. Crispim Magalhães
Ildeu
sr. Francisco Guimarães
José Jorge
Sr. Messias Jorge
José Joaquim
sr. Alcino Ribeiro
Danilo
sr. Bossuet Guimarães
Renée
sr. Tertuliano Queiroz
Carlo Nei
sr. Acrísio Moura Costa
Guido
sr. Francisco Saldanha
Adolfo
sr. Adolfo Mendes

Há ainda várias outras crianças cujas filhas estão em preparação. Os pais que possuírem filhos robustos, com idades de 3 meses a um ano, e desejarem que concorram ao concurso, devem procurar os drs. Lima Coutinho, Lincoln Nogueira, Hely Nogueira e José Drumond.

Robustez em Divinópolis

A campanha em torno do primeiro Concurso de Robustez Infantil em Divinópolis, estava com base na ideologia da “eugenia positiva[1] (SOARES, 2012), por meio de cuidados biológicos e tratando dos problemas sociais, não como questões raciais, mas como decorrência de precárias condições de saneamento, que grande parte da população urbana e rural do início do século XX se encontravam.

O dr. Figueiredo acreditava que o concurso seria uma forma de conscientizar e educar as famílias para o fortalecimento das sociedades humanas e consequentemente a do país, tendo como principal alvo, “a participação da mulher na construção de uma nação forte e saudável”. (ALMEIDA, 1928, p.160).

As inscrições para o primeiro concurso de robustez foram realizadas no próprio Centro de Saúde de Divinópolis, entre o período de agosto a outubro de 1933.

O local do concurso de Robustez, foi realizado no Cine Avenida, localizado no centro da cidade. Neste evento, reuniram-se cerca de quatrocentas pessoas, entre várias personalidades: políticos, médicos, sanitaristas, colaboradores e a população divinopolitana. 

O concurso foi superintendido pelo dr. Mário Augusto de Figueiredo e composto por um grupo de médicos que constituiu uma comissão de júri: dr. José Drumonddr. Aristóteles de Barros, dr. Dario Gonçalves, dr. Antônio de Lima Coutinho, sendo todos médicos da cidade de Itaúna/MG e dr. Ananias Ataliba Teixeira, médico da cidade de Formiga.

CONCURSO ROBUSTEZ INFANTIL -MG

O evento contou com a presença do farmacêutico e prefeito da cidade de Divinópolis, Pedro X. Gontijo, ficando o discurso inicial na incumbência do juiz municipal, dr. José Pereira Brasil. O orador fez “largas considerações sobre a eugenia” e enalteceu o bom trabalho realizado pelo dr. Mário no município.

Em seguida, foi realizada uma conferência pelo universitário, Paulo Augusto de Figueiredo, filho do dr. Mário, com o tema: “Como enriquecer a nação com filhos sadios e robustos”, referindo-se também aos problemas da higiene infantil e pré-natal, focalizando na questão do amparo a infância proletária.

ROBUSTEZ INFANTIL MG

Encerrada a conferência, dr. Mário deu continuidade ao concurso de robustez que chegou ao número de 50 crianças participantes, sendo classificadas as 10 primeiras robustas recebendo prêmios e brindes como forma de incentivo à saúde. 



REFERÊNCIAS:

ORGANIZAÇÃO E PESQUISA: Charles Aquino
ALMEIDA, Jane Soares de. Imagem feminina e maternidade: o concurso de robustez infantil em São Paulo. 1928. p. 160,163,165,166. Disponível em: <http://emaberto.inep.gov.br/index.php/rbep/article/view/769/744> Acesso em:  04 out. 2016.
AZEVEDO Francisco Gontijo de; AZEVEDO, Antônio Gontijo de. Da História de Divinópolis. Divinópolis: Graphilivros,1988. p.50.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1933, p.6.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1931, p.6.
 JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 24 de novembro de 1933, p.7.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1933, p.11.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 1934, p.5.
JORNAL: LAVOURA E COMÉRCIO, Uberaba, 23 de julho de 1936, p.2.
JORNAL: O OPERÁRIO, Montes Claros, 15 de setembro de 1934, p.1.
AQUINO, CHARLES; SANTOS, HELENO: UEMG. 6º Período História. JORNADA DA SAÚDE: PRÁTICAS EDUCATIVAS E POLÍTICAS EM DIVINÓPOLIS NA DÉCADA DE 30.
ROBUSTEZ EM ITAÚNA TEXTO: Jornal de Itaúna, 22 de outubro 1933, p.1.
ACERVO: Professor Marco Elísio Chaves Coutinho (In Memoriam), Charles Aquino



[1] A eugenia no Brasil foi apropriada e lida de formas extremamente diversas, produziu vertentes mais radicalizadas, que obtiveram pouco efeito prático e também suscitou aproximações menos radicalizadas, onde alguns dos intelectuais brasileiros responderam a suposta “degeneração” advinda da mestiçagem que “acometia” a população brasileira de forma extremamente criativa e arrojada, defendiam que a mestiçagem não constituía um fator de degeneração na população brasileira, mas pelo contrário, a mestiçagem foi entendida como uma das melhores qualidades da população.