Mostrando postagens com marcador Reinado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reinado. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, junho 12, 2026

NOVA RAINHA

 

RAINHA PERPÉTUA DE SANTA IFIGÊNIA:ITAÚNA

Temos uma Nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia

Um registro da cerimônia documenta a coroação de Samara Regina Ferreira como nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna (MG), sucedendo sua avó, D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), que durante décadas exerceu papel central na preservação da tradição congadeira local.

A escolha da nova Rainha Perpétua representa a continuidade de um legado familiar, religioso e cultural profundamente vinculado à Irmandade das Sete Guardas e à preservação das festividades do Reinado. A sucessão reafirma a transmissão da missão desempenhada pela Rainha Perpétua entre gerações, fortalecendo a memória coletiva e a permanência das tradições afro-brasileiras que caracterizam o Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna.

A trajetória de Samara Regina Ferreira no Reinado teve início ainda na infância, quando foi coroada princesa e passou a integrar as celebrações do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, evidenciando a continuidade da tradição entre gerações.

Com a coroação, Samara Regina Ferreira passou a assumir, ao lado do Rei Congo Dilermando e da Rainha Conga Maria Ana, a responsabilidade pela condução dos festejos do Reinado, mantendo viva uma herança cultural transmitida entre gerações.

O registro descreve ainda o ritual de coroação realizado na Capelinha das Sete Guardas. A cerimônia é marcada por cortejo, cânticos, orações e pela entrega dos principais símbolos da realeza congadeira: a coroa, o manto e a insígnia.

Cada etapa é acompanhada por versos tradicionais entoados pelo Capitão-Mor e respondidos pela assembleia, reforçando o caráter sagrado da coroação e a devoção a Nossa Senhora do Rosário.

Por se tratar da coroação da Rainha de Santa Ifigênia, o rito inclui ainda elementos específicos ligados à santa, como a entrega simbólica da Casinha de Santa Ifigênia, além de cantos, homenagens e do ritual de cumprimentos realizado pelos congadeiros.

As guardas de Moçambique e Candombe participam ativamente da celebração, saudando a nova rainha com flores, cânticos e toques de caixas e gungas.

Ao final, o cortejo conduz a nova Rainha até a residência de D. Sãozinha, que permanece como quartel das guardas, simbolizando a continuidade da tradição.

Ao final, o registro reafirma o Reinado como expressão de fé, memória, ancestralidade e resistência cultural, ressaltando que o respeito a essa manifestação passa pelo conhecimento de suas tradições e pela convivência com a comunidade congadeira de Itaúna.

Nota metodológica

A presente síntese foi elaborada com base em um relato de observação produzido pelo Professor Geraldo Fonte Boa durante a cerimônia de coroação da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia. Como registro contemporâneo ao acontecimento, a fonte documenta aspectos da liturgia, dos cânticos e das práticas cerimoniais do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna, constituindo relevante testemunho para o estudo dessa tradição.

Nota complementar

A cerimônia de coroação da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, realizada em 2024, também foi registrada em vídeo por Gilson Antônio e encontra-se disponível no YouTube. O registro audiovisual constitui uma importante fonte complementar para a preservação da memória do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna, permitindo acompanhar os ritos, cânticos, símbolos e homenagens que marcaram a coroação de Samara Regina Ferreira como sucessora de D. Sãozinha na função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia.


Referências

FONTE BOA, Geraldo. Temos uma nova Rainha Perpétua de Santa Ifigênia! Itaúna, 24 mar. 2024. Disponível em: https://phonteboa.blogspot.com/2024/03/temos-uma-nova-rainha-perpetua-de-santa.html. Acesso em: 3 jun. 2026.

 © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Síntise, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).


Nota sobre a imagem de capa

A imagem de capa consiste em uma representação artística inspirada em referências históricas, culturais e iconográficas relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna (MG). Não se trata de um registro fotográfico de um evento específico, mas de uma composição concebida para ilustrar o universo simbólico e religioso abordado nesta obra.

sexta-feira, junho 05, 2026

DESCOROAMENTO

  

RAINHA PERPÉTUA DO REINADO: ITAÚNA MG

Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna

Um relato de observação produzido durante a cerimônia documenta o ritual de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), Rainha Perpétua de Santa Ifigênia do Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna, preservando uma rara descrição das práticas litúrgicas e simbólicas que acompanham esse rito funerário.

A cerimônia, realizada durante o velório de D. Sãozinha, constitui uma manifestação rara e profundamente simbólica da tradição congadeira, marcada pela despedida de uma liderança que, durante décadas, esteve à frente da organização do Reinado em Itaúna.

Antes da descrição do ritual, o documento contextualiza a importância de D. Sãozinha para a comunidade congadeira. Além de exercer a função de Rainha Perpétua, sua residência servia como quartel de guardas tradicionais do Reinado, tornando-se um importante espaço de preservação da fé, da cultura e das práticas religiosas ligadas à devoção a Nossa Senhora do Rosário e a Santa Ifigênia.

Sua atuação estava diretamente associada à manutenção das festividades anuais, que mobilizam guardas, capitães, familiares e devotos em torno de uma tradição transmitida entre gerações.

O velório foi marcado por homenagens realizadas pelos capitães e integrantes das guardas, que expressaram sua despedida por meio de orações e cânticos. Em respeito à solenidade do momento, os instrumentos tradicionalmente presentes nas festas permaneceram silenciados, reforçando o caráter de luto e reverência à rainha falecida.

O ritual de descoroamento teve início algumas horas antes do sepultamento, sob a condução do Capitão-Mor da Irmandade das Sete Guardas. Sobre o corpo da rainha foram colocados os símbolos de sua função: a coroa, o manto e o cetro. A cerimônia desenvolveu-se por meio de orações e cânticos responsoriais, nos quais a assembleia acompanhava as invocações conduzidas pelos capitães. Em seguida, realizou-se a retirada ritual desses objetos sagrados.

Utilizando bastões, os capitães erguiam a coroa, o manto e o cetro sem tocá-los diretamente com as mãos, conduzindo-os ao longo do corpo da falecida até entregá-los às suas filhas e netas. Esse gesto simbolizava o encerramento de sua missão terrena como Rainha Perpétua e a devolução das insígnias que representam a autoridade espiritual e cerimonial exercida durante sua vida.

Após a retirada dos símbolos, os participantes entoaram cânticos finais que confirmavam o descoroamento da rainha e exaltavam sua trajetória de devoção. O ritual foi encerrado com vivas a Nossa Senhora do Rosário e ao Rosário de Maria, reafirmando a dimensão religiosa da cerimônia e a crença na continuidade espiritual da missão cumprida por D. Sãozinha.

O documento registra ainda que as homenagens prosseguiram durante o cortejo fúnebre, na Capela do Rosário e no cemitério, sempre acompanhadas por cânticos e manifestações de respeito à Rainha Perpétua.

Ao final, informa que a coroa permaneceu sob a guarda de suas descendentes, responsáveis por definir quem assumiria futuramente a função de Rainha Perpétua de Santa Ifigênia, garantindo a continuidade da tradição do Reinado em Itaúna.

Por fim, o texto contextualiza historicamente a existência da Capela das Sete Guardas, vinculando sua criação às tensões ocorridas na década de 1940 entre congadeiros e autoridades eclesiásticas.

O ritual de descoroamento evidencia que a morte da Rainha Perpétua não representa o encerramento da tradição, mas a continuidade de uma missão religiosa transmitida entre gerações. Ao preservar os cânticos e a memória da falecida, a cerimônia reafirma a identidade coletiva da comunidade congadeira e a permanência das tradições afro-brasileiras que constituem o Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna.


Referência

FONTE BOA, Geraldo. Ritual de Descoroamento da Rainha Perpétua de Santa Ifigênia em Itaúna. Disponível em: https://phonteboa.blogspot.com/2023/12/ritual-de-descoroamento-da-rainha.html  . Acesso em consulta realizada para esta síntese.

A análise apresentada neste capítulo baseia-se principalmente em um relato de observação produzido durante a cerimônia de descoroamento de D. Maria da Conceição de Jesus (D. Sãozinha), documento que registra detalhadamente a sequência ritual, os cânticos e as práticas litúrgicas observadas. Por se tratar de um registro contemporâneo ao acontecimento, a fonte constitui um importante testemunho documental para o estudo do Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna.

 © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Síntese, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).

Mais registros sobre a Rainha

  Itaúna se despede de Dona Sãozinha, Rainha do Reinado

Expoente da cultura e folclore religioso

Itaúna perdeu uma rainha


Nota sobre a imagem de capa

A imagem de capa foi produzida com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial (IA), a partir de referências visuais, históricas e culturais relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna/MG. Trata-se de uma representação artística inspirada na tradição congadeira, não correspondendo a um registro fotográfico real de um evento específico.

quarta-feira, junho 03, 2026

VOZES DO REINADO

FESTA REINADEIRA DE ITAÚNA: PATRIMÔNIO

A série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal de Itaúna, oferece ao público a oportunidade de conhecer as narrativas, memórias e experiências compartilhadas pelos próprios integrantes de uma das mais importantes manifestações culturais e religiosas do município.

Organizada em quatro episódios temáticos, a produção aborda diferentes dimensões do Reinado, contemplando suas narrativas de origem, a trajetória das guardas, a centralidade da fé e a importância da festa como espaço de preservação da memória coletiva e da ancestralidade afro-brasileira.

Mais do que registrar uma celebração tradicional, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural em seu cotidiano.

Antes da análise dos episódios, é importante destacar que a série documental A História do Reinado em Itaúna, produzida pela Prefeitura Municipal de Itaúna, constitui um registro fundamentado principalmente na memória coletiva, na tradição oral e nos testemunhos dos próprios integrantes do Reinado.

Ao longo dos quatro episódios, as narrativas são construídas a partir das experiências, crenças, lembranças, devoções e interpretações compartilhadas por capitães, reis, rainhas, congadeiros e demais participantes da manifestação.

Nesse sentido, o documentário não se apresenta como uma pesquisa histórica baseada na análise crítica de documentação escrita, registros arquivísticos ou debates historiográficos especializados.

Sua proposta consiste em dar voz aos sujeitos que vivenciam e preservam a tradição do Reinado, registrando narrativas de origem, valores religiosos, símbolos, práticas culturais e memórias transmitidas entre gerações.

Dessa forma, os relatos apresentados devem ser compreendidos como expressões da memória social e da identidade cultural dos grupos envolvidos.

 Elementos como a lenda de Chico Rei, o resgate de Nossa Senhora do Rosário pelas guardas e outras narrativas presentes nos episódios integram um universo simbólico construído e preservado pela tradição oral, desempenhando papel fundamental na formação da identidade do Reinado.

Ainda que nem sempre possam ser verificadas por meio da documentação disponível, essas narrativas possuem relevância histórica por revelarem as formas pelas quais as comunidades interpretam suas origens, atribuem significados ao passado e fortalecem seus vínculos coletivos no presente.

Sob essa perspectiva, o documentário oferece uma importante fonte para a compreensão de como os próprios congadeiros interpretam sua história, sua fé, sua ancestralidade e sua trajetória coletiva. 

Mais do que buscar estabelecer uma reconstrução factual das origens do Reinado, a produção permite observar os significados atribuídos à manifestação por aqueles que a mantêm viva na contemporaneidade.

Do ponto de vista metodológico, torna-se necessário distinguir memória, tradição oral e história. Enquanto a história acadêmica busca compreender o passado por meio da análise crítica de diferentes fontes documentais, a memória constitui uma construção social permanentemente atualizada pelos grupos que a preservam.

A tradição oral, por sua vez, atua como um importante mecanismo de transmissão de conhecimentos, valores, crenças e experiências entre gerações. Essas diferentes formas de interpretação do passado não devem ser vistas como excludentes, mas como dimensões complementares que contribuem para a compreensão dos fenômenos culturais.

Assim, o principal valor histórico da série documental não reside na comprovação documental dos acontecimentos narrados, mas na possibilidade de compreender como os participantes do Reinado elaboram suas lembranças, constroem suas identidades e atribuem sentido à própria existência da manifestação.

A estrutura da série documental acompanha um percurso narrativo que parte das narrativas de origem do Reinado, avança para a organização e a continuidade das guardas, aprofunda-se na dimensão espiritual da manifestação e culmina na celebração pública da festa.

Ao longo dos quatro episódios, os depoimentos dos participantes revelam como memória, ancestralidade, fé, tradição e pertencimento são constantemente articulados na construção da identidade congadeira, expressa nas práticas e vivências do Reinado.

Dessa forma, mais do que apresentar uma cronologia dos acontecimentos, o documentário permite compreender os significados atribuídos ao Reinado por aqueles que vivenciam e preservam essa manifestação cultural na contemporaneidade.

Ao registrar essas vozes, o documentário preserva um importante patrimônio imaterial e oferece um testemunho significativo sobre os processos de construção da memória coletiva, da religiosidade popular e da ancestralidade afro-brasileira em Itaúna.

Ao mesmo tempo, a série contribui para reafirmar os vínculos entre essa tradição e a trajetória histórica de Itaúna — a antiga Sant’Ana do Rio São João Acima, a "Pedra Negra" que se consolidou como um importante espaço de preservação da memória, da religiosidade popular e da herança afro-brasileira no centro-oeste mineiro. 

PRIMEIRO EPISÓDIO

SEGUNDO EPISÓDIO

TERCEIRO EPISÓDIO ✅

QUARTO EPISÓDIO ✅

  © AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).

Revisão de terminologias e contribuições sobre aspectos culturais do Reinado em Itaúna: 
Maria Luiza de Oliveira Silva

Nota sobre a imagem de capa

A imagem utilizada na capa deste documentário consiste em uma representação artística inspirada em fotografias, registros visuais, elementos arquitetônicos, símbolos, relatos orais e referências históricas relacionados ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna. Sua finalidade é ilustrar o universo cultural e religioso dessa manifestação, não correspondendo à reprodução fiel de um evento ou registro fotográfico específico.

REFERÊNCIAS:

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A História do Reinado em Itaúna – Episódio 1. YouTube, 01/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=p0WuchARm_c. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. As Guardas – Episódio 2. YouTube, 11/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PHCkF8z7roM. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A Fé – Episódio 3. YouTube, 18/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uPtRln9vjhM. Acesso em: 10 jun. 2026.

PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA. A Festa – Episódio 4. YouTube, 26/08/2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Az0mXhLqbKU . Acesso em: 10 jun. 2026.

sexta-feira, novembro 28, 2025

MENÇÃO HONROSA: PEDRA NEGRA

O resultado preliminar do Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular – edição 2025, promovido pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan),trouxe uma notícia de grande relevância para Itaúna e para os estudos sobre cultura popular no Brasil.

Entre as 121 monografias inscritas de todas as regiões do país, o trabalho “Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna: o adro do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente”, apresentado sob o pseudônimo Pedra Negra, do historiador itaunense Charles Galvão de Aquino, recebeu a 1ª Menção Honrosa, reconhecimento que o coloca ao lado das pesquisas mais inovadoras e consistentes deste ano no campo do folclore e das tradições afro-brasileiras.

A conquista é representativa não apenas pelo resultado em si, mas pelo que simboliza para a cidade de Itaúna e para os debates contemporâneos sobre patrimônio, memória e identidade. O Concurso Sílvio Romero, criado em 1959, é um dos mais tradicionais certames acadêmicos do país.

As monografias vencedoras passam por um processo rigoroso de avaliação, conduzido por uma comissão de pesquisadoras e pesquisadores de instituições como UFBA, UFMG, UFRGS, UnB, UFF e UFMT, referência nacional em antropologia, história, cultura popular e música. 

Esses especialistas analisam cada trabalho a partir de critérios que incluem contribuição teórica, originalidade temática, domínio bibliográfico, consistência argumentativa e clareza na apresentação dos resultados. Em outras palavras, não se trata de um prêmio de participação, mas de um espaço onde apenas pesquisas com real densidade acadêmica ganham destaque.

Neste contexto altamente competitivo, a menção honrosa atribuída ao trabalho evidencia que o estudo sobre o Reinado, o Congado e o adro do Rosário em Itaúna alcançam um nível de maturidade intelectual que dialoga com agendas nacionais e com debates consolidados sobre religiosidade afro-brasileira, memória coletiva, territórios sagrados e patrimônio cultural.

O texto premiado demonstra que o adro do Rosário não é apenas um espaço físico, mas um território ritual e histórico onde narrativas, práticas e símbolos afrodescendentes resistiram e se reinventaram ao longo do tempo, mesmo diante de repressões, tentativas de silenciamento e transformações urbanas. 

Essa perspectiva interdisciplinar coloca Itaúna em posição de destaque ao reconhecer que suas celebrações e tradições não são manifestações periféricas, mas elementos essenciais da herança cultural brasileira.

Ao tratar o adro do Rosário como um “território sagrado da memória afrodescendente”, o estudo ilumina práticas de fé, redes de solidariedade e formas de resistência que estruturaram a experiência negra no município e continuam a moldar sua identidade cultural.

O reconhecimento nacional, portanto, fortalece reivindicações em torno da preservação do patrimônio material e imaterial, especialmente no Morro do Rosário de Itaúna/MG.

Ao receber a 1ª Menção Honrosa, o trabalho Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna ganha visibilidade pública e passará a integrar o acervo da Biblioteca Amadeu Amaral do CNFCP, onde poderá ser consultado por pesquisadores, estudantes e instituições interessadas no tema.

Isso contribui não apenas para difundir o nome de Itaúna e de sua tradição centenária, mas também para ampliar o debate sobre a memória afrodescendente no interior de Minas Gerais, aproximando a cidade de outras pesquisas nacionais sobre congados, reinados e religiosidades negras.

A premiação abre portas importantes para o fortalecimento das políticas culturais locais, já que legitima a relevância do Reinado e do adro do Rosário enquanto patrimônios coletivos.

Num momento em que muitas manifestações de matriz africana ainda enfrentam preconceito, marginalização e disputas simbólicas, ver um estudo sobre Itaúna ser destacado entre tantas pesquisas de alta qualidade reafirma a necessidade de valorização das tradições negras como fundamento da cultura brasileira.

Sob o pseudônimo Pedra Negra, a pesquisa reconhecida nacionalmente demonstra que o interior mineiro produz conhecimento capaz de transformar debates, ampliar horizontes e reposicionar histórias que por muito tempo foram relegadas aos bastidores.

A 1ª Menção Honrosa do Concurso Sílvio Romero 2025 não celebra apenas um pesquisador: celebra o Reinado, celebra a memória do Rosário e celebra a força ancestral que moldou — e continua moldando — Itaúna como um território vivo de fé, resistência e pertencimento.

REINADO DE ITAÚNA MG


Resumo: Esta monografia analisa o Reinado, o folclore e a cultura popular em Itaúna, tomando o adro da Capela do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente. O Reinado de Nossa Senhora do Rosário é interpretado como prática religiosa e política, na qual fé, ancestralidade e resistência se entrelaçam de forma coletiva. 

Embora o antigo cemitério tenha sido suprimido em sua estrutura física, abriga os restos mortais de centenas de afrodescendentes, configurando-se como espaço de pertencimento, dignidade histórica. 

A pesquisa demonstra como a cultura popular afro-brasileira transforma o esquecimento em presença simbólica viva. Diante da desatenção histórica e do apagamento dessa dimensão funerária, o trabalho defende o reconhecimento do antigo cemitério do adro como patrimônio imaterial, imprescindível à história negra e à construção da identidade cultural itaunense.




IMAGEM & VÍDEO
Reconstituição visual ilustrativa foi inspirada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Morro do Rosário, em Itaúna/MG, e na pesquisa “Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna: o adro do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente”, reconhecida com 1ª Menção Honrosa no Concurso Sílvio Romero 2025.

A imagem e vídeo não correspondem a um registro histórico, tratando-se de uma interpretação artística. Sua composição busca evocar o adro do Rosário como espaço de memória, fé e ancestralidade, incorporando simbolicamente o antigo cemitério que ali existiu, representado pelas cruzes que circundam a igreja.

Mais do que uma representação arquitetônica, a cena procura traduzir visualmente a dimensão simbólica do lugar: um território onde religiosidade, cultura popular e história afrodescendente se entrelaçam. 

A presença do Reinado, das práticas devocionais e dos elementos funerários remete à continuidade da memória coletiva, evidenciando formas de resistência, pertencimento e ressignificação diante do apagamento histórico.

Trata-se, portanto, de uma imagem e vídeo construídos para provocar reflexão — não sobre o que se vê, mas sobre o que foi silenciado, transformado e preservado no imaginário e nas práticas culturais de Itaúna.



Honorable Mention for “Pedra Negra”: Afro-Brazilian Memory and Cultural Heritage in Focus

The research project “Reinado, Folklore and Popular Culture in Itaúna: The Rosário Courtyard as a Sacred Territory of Afro-Brazilian Memory”, presented under the pseudonym “Pedra Negra”, received the 1st Honorable Mention at the prestigious Silvio Romero National Competition.

Among 121 submissions from across Brazil, the work stood out for its analytical depth and interdisciplinary approach, positioning itself alongside some of the most innovative research in the fields of folklore, cultural heritage, and Afro-Brazilian studies.

Organized by the Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), the competition is one of the most traditional academic forums dedicated to the study of Brazilian popular culture. Its evaluation process involves scholars from leading institutions, including federal universities recognized for their contributions to anthropology, history, and ethnomusicology.

The awarded research examines the Reinado tradition and the Rosário courtyard in Itaúna as a sacred space of Afro-descendant memory. It highlights how religious practices, collective rituals, and historical experiences intertwine to produce a living cultural heritage.

Particular emphasis is given to the historical presence of an old cemetery in the area, understood not merely as a physical site, but as a symbolic territory of belonging, dignity, and resistance. The study argues that even in the absence of visible material structures, memory persists through cultural practices and collective identity.

This recognition reinforces the relevance of local history within broader academic debates. It demonstrates that studies grounded in specific regional contexts can contribute significantly to national and international discussions on memory, heritage, and Afro-Brazilian culture.

Furthermore, the award strengthens ongoing efforts to recognize and preserve the Rosário site as an essential component of cultural heritage, particularly in relation to Afro-descendant history in Brazil.

By receiving this distinction, the research gains greater visibility and becomes part of the academic archive of the CNFCP, where it will be accessible to scholars, students, and institutions interested in the subject.

sexta-feira, julho 26, 2024

RAINHA DA IRMANDADE

REINADO DE ITAÚNA MG
"Maria da Conceição Basílio de Jesus", conhecida carinhosamente como "Dona Sãozinha", nasceu em 10 de novembro de 1925, em Divinópolis, Minas Gerais

Aos treze anos, ela foi coroada Rainha da Irmandade de "Santa Ifigênia", uma posição que a marcou como uma figura central no Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna, Minas Gerais, uma celebração de profunda importância cultural e religiosa para a comunidade afro-brasileira local.

Por 85 anos, Dona Sãozinha liderou a festa do Reinado, transformando sua casa no bairro Santo Antônio em um ponto de referência para as celebrações que ocorrem anualmente de 1º a 15 de agosto. 

Essa festa atrai milhares de participantes, incluindo políticos, artistas, congadeiros de outras cidades e pessoas da comunidade. Sua hospitalidade e liderança inquestionável fizeram de sua casa o “quartel-general” do Reinado, sede de três ternos ou “guardas” de congado: uma guarda de congo, um candombe e uma guarda de vilão.

Dona Sãozinha era mais que uma líder; ela era a personificação viva da tradição do Reinado. Todos os anos, no dia 1º de agosto, ela tinha a responsabilidade de levantar a Bandeira de "Santa Ifigênia", sinalizando o início das festividades. 

Essas celebrações eram ricas em dança, música, comida e a exibição de símbolos culturais como bandeiras e foguetes. O som de tambores, caixas, reco-recos, gungas e patangomes ecoava pela cidade, enraizando ainda mais a identidade cultural afro-brasileira na comunidade de Itaúna.

Sua morte, aos 98 anos, em 26 de dezembro de 2023, marcou o fim de uma era. O velório de Dona Sãozinha foi um evento solene, com cada capitão de guarda prestando sua homenagem com orações e cantos. O ritual de “descoroação” foi conduzido pelo capitão-mor, Mário, acompanhado por outros capitães, num processo repleto de simbolismo e reverência.

O descoroamento envolveu a retirada ritual da coroa, manto e cetro da Rainha, todos manuseados com o uso de bastões, simbolizando a passagem de sua autoridade e a reverência pela sua figura.

O cortejo fúnebre de Dona Sãozinha percorreu locais significativos, incluindo sua casa, a capela da Irmandade das Sete Guardas e o cemitério central. Mesmo em meio à dor da perda, a comunidade celebrou sua vida e legado através de cânticos e homenagens, ressaltando sua importância como patrimônio cultural e religioso de Itaúna. 

Dona Sãozinha deixou um legado profundo, não só em termos de liderança cultural e religiosa, mas também como uma guardiã das tradições afro-brasileiras. Sua missão agora passará para suas filhas e netas, que terão a responsabilidade de continuar as festividades do Reinado de Nossa Senhora do Rosário. 

A resistência cultural evidenciada pela construção da capela da Irmandade das Sete Guardas, após a proibição de entrada dos congadeiros na igreja pelo bispo D. Cabral na década de 1940, demonstra a resiliência e a determinação da comunidade em manter viva sua fé e suas tradições. 

Em suma, Dona Sãozinha foi uma verdadeira matriarca que, através de sua vida, fé, trabalho e resiliência assegurou que as tradições e a cultura afro-brasileira continuassem a prosperar em Itaúna. Sua memória e influência perdurarão, assegurando que as futuras gerações compreendam e valorizem o rico patrimônio cultural, tangível e intangível, que a Rainha Perpétua de "Santa Ifigênia", do tradicional Reinado de Nossa Senhora do Rosário de Itaúna, tanto se esforçou para preservar.


Referências:

Pesquisa e elaboração: C. A.

Imagem: Adilson Nogueira

Acervo Matrimonial: Paróquia de Sant'Ana de Itaúna