Paróquia de Sant’Ana de Itaúna: a tradição da Queima do Judas
A tradicional “Queima do Judas” constitui um costume de origem ibérica, difundido na América Latina durante o período colonial por portugueses e espanhóis e incorporado às práticas culturais de matriz católica. Associada ao Sábado de Aleluia, a encenação remete simbolicamente à figura de Judas Iscariotes, conhecido por sua traição a Jesus Cristo.
O ritual consistia na confecção de um boneco em tamanho humano, geralmente produzido com tecidos e preenchido com materiais inflamáveis e explosivos populares. Mais do que uma representação estritamente religiosa, o Judas assumia, em muitas ocasiões, um caráter simbólico ampliado: podia representar não apenas o traidor bíblico, mas também figuras públicas, autoridades ou indivíduos locais alvo de críticas. Dessa forma, a prática articulava devoção, teatralidade e crítica social, tornando-se um espaço de expressão coletiva.
Em Itaúna, a “Queima do Judas” consolidou-se como um evento amplamente aguardado pela população. O boneco era transportado pelas ruas, frequentemente em cortejo acompanhado por crianças e jovens, até a praça principal, onde ficava exposto até o momento da encenação final. A expectativa em torno do evento revelava seu papel como importante ocasião de sociabilidade urbana.
As celebrações do Sábado de Aleluia reuniam a comunidade em um ambiente marcado pela convivência e pelo encontro. A praça tornava-se um espaço de circulação, conversa e observação, no qual diferentes grupos sociais se encontravam, reforçando laços comunitários e práticas culturais compartilhadas.
Um dos momentos mais significativos da festividade era a leitura do chamado “Testamento do Judas”. Trata-se de uma peça satírica, tradicionalmente elaborada com humor e ironia, que apresentava críticas a acontecimentos recentes e a personagens da vida local. Por meio dessa leitura, a comunidade exercia, de maneira simbólica, uma forma de julgamento social, utilizando a linguagem como instrumento de comentário e reflexão coletiva.
O ápice da celebração ocorria com a queima do boneco. Envolto em chamas e frequentemente acompanhado por fogos de artifício, o Judas era consumido diante do público, marcando simbolicamente o encerramento do ciclo festivo. O espetáculo visual e sonoro reforçava o caráter ritualístico do evento, ao mesmo tempo em que consolidava sua dimensão lúdica e comunitária.
Ao longo das últimas décadas, contudo, a tradição da “Queima do Judas” em Itaúna entrou em declínio. Transformações sociais, mudanças nas formas de sociabilidade, maior regulamentação do uso de materiais explosivos e novas dinâmicas culturais contribuíram para a perda de centralidade desse costume. Ainda assim, sua memória permanece viva entre os moradores, constituindo um importante registro das formas de convivência, expressão crítica e celebração coletiva que marcaram a história local.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
