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quinta-feira, julho 02, 2026

O PRIMEIRO SACERDOTE

Padre José Teixeira de Camargo: o Primeiro Sacerdote a Celebrar Missa no Arraial de Sant’Ana do São João Acima

A história de Itaúna, cidade do Centro-Oeste de Minas Gerais, é marcada por profundas raízes coloniais e encontra em suas origens figuras que exerceram papéis determinantes na formação espiritual, social e cultural da localidade. 

Entre elas destaca-se o Padre José Teixeira de Camargo, o primeiro sacerdote a celebrar missa no então arraial de Sant’Ana do São João Acima, marco inicial da vida religiosa e comunitária que viria a moldar o futuro município de Itaúna, Minas Gerais.

José Teixeira de Camargo nasceu em 12 de maio de 1740, na cidade de Congonhas do Campo/MG, filho do casal Tomás Teixeira e Ana Maria Cardoso de Camargo. 

Por parte materna, trazia uma linhagem ilustre, típica das famílias que participaram da formação do interior paulista e mineiro: era neto de João Lopes de Camargo e Isabel Cardoso de Almeida, e tetraneto de José Ortiz de Camargo e Leonor Domingues Carvoeiro (nomes vinculados à expansão bandeirante e à ocupação do sertão do Brasil colônia).

José Teixeira de Camargo, portanto, cresceu em meio à tradição da religiosidade e do prestígio familiar, o que lhe garantiu condições de buscar o sacerdócio. No entanto, a entrada nos quadros do clero na segunda metade do século XVIII exigia muito mais do que vocação. Na época em que este jovem padre ingressou no seminário, a Igreja Católica vivia sob forte conservadorismo. Ser ordenado sacerdote implicava enfrentar um rígido processo de comprovações.

O primeiro desafio era a prova de “pureza de sangue”, exigência que visava atestar que o candidato “não era descendente de penitenciado pelo Santo Ofício (inquisição), nem de judeu, mouro, mourisco, preto, mulato ou qualquer outra nação infecta.”

Vencida essa barreira racial e religiosa, processo comum àquele tempo, seguia-se a avaliação dos costumes morais e da reputação “ilibada”, feita por testemunhas em segredo, sob juramento. Era necessário demonstrar uma vida “sem manchas”, íntegra e respeitável, tanto do ponto de vista pessoal quanto familiar. 

Por fim, o terceiro requisito consistia em doar um patrimônio à diocese, condição indispensável à ordenação. Era exigido que esse patrimônio fosse legítimo e desvinculado de bens de raiz ou escravizados. No caso de José, foram seus pais que realizaram a doação de parte da fazenda adquirida pela família, o que permitiu que o processo fosse concluído.

Àquela altura, a cidade de Mariana, sede do bispado, passava por um período de transição, sem um bispo titular, sendo então administrada pelo Cabido Eclesiástico. Nesse contexto, coube ao influente cônego Ignácio Corrêa de Sá, também comissário do Santo Ofício e juiz das Justificações de Genere, conduzir os trâmites e nomeações eclesiásticas. 

Para julgar o processo de moralidade e origem, “de moribus”, de José Teixeira, nomeou-se o padre Jorge de Abreu Castelo Branco, bacharel pela Universidade de Coimbra e vigário da Freguesia de Pitangui e “pai da Joaquina do Pompéu, ordenado viúvo”.

Com o processo aprovado, o próprio padre Jorge de Abreu nomeou, em 4 de fevereiro de 1766, José Teixeira de Camargo como capelão da Capela de Sant’Ana do São João Acima, então filial da Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Pitangui. Tratava-se da primeira nomeação formal de um sacerdote para atuar de forma permanente no arraial, localizado em ponto estratégico de passagem de tropas e de expansão da ocupação do sertão, já densamente povoado e carente de assistência espiritual.

Aos 23 dias de abril, José Teixeira Camargo, ainda na condição de diácono, formalizou um requerimento ao Juiz das Dispensas em Mariana, explicando as razões para sua ordenação imediata. Alegava que a capela de Sant’Ana já estava concluída há seis meses, mas seguia sem sacerdote, e que havia grande carência de clérigos em toda a região do bispado de Mariana, não apenas para as terras povoadas, mas para aquelas que vinham sendo recentemente descobertas e colonizadas. Seu apelo foi atendido.

Ainda no mesmo ano de 1766, José Teixeira foi finalmente ordenado sacerdote e assumiu a capela de Sant’Ana, sendo o primeiro padre a celebrar oficialmente uma missa naquele espaço sagrado. Com esse ato inaugural, inaugurava-se também uma nova etapa no processo de enraizamento da fé católica e da vida comunitária no arraial, que com o tempo viria a se tornar o município de Itaúna.

Por mais de dois séculos, a sua memória permaneceu viva sobretudo em registros históricos e nos relatos da tradição oral local. Entretanto, seu nome demorou a ser reconhecido oficialmente nos espaços públicos da cidade que ajudou a fundar.

Em 4 de setembro de 1968, foi promulgada a Lei Municipal nº 908, que deu à praça localizada em torno da Igreja do Rosário o nome de “Praça Manoel Pinto Moreira”. Conforme reconheceu posteriormente Guaracy de Castro Nogueira, o nome homenageado nunca existiu, sendo fruto de um equívoco administrativo que ele próprio admitiu: “Este cidadão nunca existiu e eu sou o culpado, até que mude a denominação. Espero que tenha o nome do primeiro sacerdote que nela celebrou a primeira missa.”

A correção desse erro histórico foi finalmente realizada em 23 de março de 2004, trinta e seis anos após a nomeação anterior, com a promulgação da Lei Municipal nº 3.861, que modificou oficialmente o nome da praça para “Praça Pe. José Teixeira de Camargo”, reconhecendo de forma institucional o papel daquele que foi o primeiro sacerdote a atuar oficialmente em Itaúna.

A nova lei, além de revogar a anterior, determinou à Prefeitura a colocação de placas indicativas e a comunicação às instituições públicas e concessionárias de serviços essenciais sobre a alteração do logradouro.

A trajetória do Padre representa um elo vital entre a expansão da fé católica, os processos de ocupação do sertão mineiro e a consolidação das comunidades locais durante o período colonial. Ao ser o primeiro a celebrar missa na capela de Sant’Ana, ele não apenas cumpriu um rito litúrgico inaugural, mas fundou espiritualmente um povoado, ajudando a definir suas identidades, valores e referências religiosas.

Mais do que o primeiro a erguer a hóstia consagrada no altar de Sant’Ana do São João Acima, certamente, foi também uma figura que encarnou os ideais da Igreja colonial, o peso das tradições familiares e o impulso civilizador que moldou o interior de Minas Gerais. Seu percurso, da rígida formação eclesiástica à atuação pastoral em terras remotas, revela os bastidores de um tempo em que o sacerdócio representava mais do que vocação: era um caminho árduo de legitimação social, étnica e econômica.

Recuperar sua história é mais do que prestar homenagem: é restaurar a memória de um dos pilares invisíveis que sustentaram a fé, a esperança e a formação comunitária do que viria a ser Itaúna. A posterior reparação toponímica feita em 2004 sela um compromisso da cidade de Itaúna com sua própria história. Dar nome a um espaço público é também reconhecer a relevância de um passado que não pode ser esquecido. 

E nesse caso, o passado do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima também passa necessariamente pela figura de seu primeiro padre, cuja presença, hoje gravada no nome da praça, ecoa como sinal de pertencimento e permanência.

Que seu nome seja enfim reconhecido onde deve: na “Praça Pe. José Teixeira de Camargo” que hoje ocupa o mesmo chão em que ele certamente, pela primeira vez, levantou a voz para dizer “Dominus vobiscum” no coração do povoado de Sant’Ana.

Placa: Praça Pe. José Teixeira de CamargoCep: 35680-015

Referências:

Pesquisa e elaboração: Charles Aquino

CMI - CÂMARA MUNICPAL DE ITAÚNA. Lei nº 908, de 4 de setembro de 1968. Dá denominação à praça situada em volta da Igreja Nossa Senhora do Rosário como “Praça Manoel Pinto Moreira”, Itaúna, MG, 4 set. 1968. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/norma/8986

CMI – CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Lei nº 3.861, de 23 de março de 2004. Modifica denominação de logradouro público para “Praça Pe. José Teixeira de Camargo”, Itaúna, MG, 23 mar. 2004. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/norma/9841 

Fonte Impressa:   Itaúna em Detalhes – Pesquisa Guaracy de Castro Nogueira - Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa. Edição: Jornal Folha do Povo, 2003, p. 4, 6-7,

Ilustração inspirada no conteúdo do texto. 

sábado, abril 04, 2026

QUEIMA DO JUDAS

Em 2015, foi publicada uma postagem sobre a tradicional “Queima do Judas” em Itaúna — uma prática que marcou gerações e integrou o calendário cultural da cidade. 

Passados alguns anos, revisitar esse conteúdo é também revisitar a memória coletiva. A “Queima do Judas”, comum em diversas regiões do Brasil no contexto do Sábado de Aleluia, está ligada simbolicamente à figura de Judas Iscariotes, associada à tradição cristã.

No entanto, seu significado ultrapassa o campo religioso.

Mais do que um rito simbólico, essa prática se consolidou como uma manifestação da cultura popular, marcada pela participação coletiva, pelo humor e, em muitos casos, pela crítica social. Em diferentes épocas, a figura do “Judas” representava personagens públicos ou situações do cotidiano, funcionando como uma forma de expressão social e cultural das comunidades.

A imagem utilizada nesta publicação é inspirada na fotografia original da década de 1900, que retrata a Praça da Matriz de Itaúna/MG, importante registro da memória local. A igreja ali existente, posteriormente demolida em 1934, remete a um contexto histórico no qual práticas como a “Queima do Judas” possivelmente ainda integravam o cotidiano da cidade, ao menos nas primeiras décadas do século XX.

Hoje, essa tradição já não aparece com a mesma força em muitas localidades, o que torna ainda mais importante preservar esses registros. Mais do que uma simples encenação, tratava-se de uma prática que revelava valores, tensões e formas de sociabilidade de seu tempo.

  Relembre a postagem original de 2015: 



A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por IA (Inteligência Artificial), sendo inspirada na fotografia original da década de 1900, que retrata a Praça da Matriz de Itaúna/MG, importante registro da memória local.

Organização: Charles Aquino


segunda-feira, dezembro 15, 2025

ITAÚNA A ROMA (1950)

Travessia de Fé: de Itaúna a Roma a bordo do Vapor Duque de Caxias (1950)

Em 1950, o Ano Santo proclamado pelo Papa Pio XII mobilizou milhões de católicos em todo o mundo. No Brasil, a celebração foi marcada por um feito inédito: a organização da Primeira Peregrinação Oficial Popular a Roma, coordenada por monsenhor Helder Câmara

A iniciativa combinou espiritualidade, articulação política, ousadia logística e profunda sensibilidade pastoral. Este artigo analisa os principais aspectos dessa jornada marcante, destacando sua dimensão religiosa, social e política, bem como a atuação carismática de Helder Câmara.

Embora já fosse uma figura nacional da Igreja e da Ação Católica, Helder Câmara ainda não havia feito nenhuma viagem internacional. O desejo de conhecer Roma e o Vaticano se concretizou quando foi convidado a colaborar na organização da peregrinação brasileira ao Ano Santo.

Em Itaúna, Minas Gerais, os “sinos” da Igreja da Matriz de Sant’Anna repicaram mais altos do que nunca. Era a manhã de 27 de abril, e a cidade vivia um momento de fervor e despedida. No altar principal, o Padre José Ferreira Neto ( Padre Zé Neto ) celebrava a missa de envio dos peregrinos que partiriam rumo a Roma para o Ano Santo proclamado pelo Papa Pio XII.

Ao seu lado, as senhoritas Ivolina Gonçalves, Maria Jardim Guimarães, Divina Coutinho, Angélica Lenti, Lídia Braz e o Padre Waldemar Teixeira, da vizinha Maravilhas. A cerimônia foi um misto de emoção, lágrimas e esperança. A pequena Itaúna, de alma interiorana, preparava-se para cruzar o Atlântico e chegar ao coração da cristandade.

Após a missa, a caravana embarcou em um micro-ônibus especial rumo a Belo Horizonte e, de lá, tomou um voo da Aerovias para o Rio de Janeiro — aventura inédita para a maioria. No porto, aguardavam centenas de fiéis vindos de todo o país. Era a Primeira Peregrinação Oficial Popular a Roma, organizada por Dom Helder Câmara, figura em ascensão na Igreja brasileira.

Com apoio de dom Rosalvo Costa Rego e intervenção direta junto ao presidente Eurico Gaspar Dutra, obteve-se o navio-escola Duque de Caxias da Marinha brasileira. Além da embarcação, o governo isentou os fiéis da exigência de passaporte e concedeu licença aos funcionários públicos que participassem da peregrinação. 

O Duque de Caxias, de 135 metros de comprimento e mais de 6.900 toneladas, já tinha percorrido os mares da guerra. Construído nos Estados Unidos em 1918 sob o nome Orizaba, transportara tropas nas duas Guerras Mundiais

Em 1945, chegou ao Brasil e trouxe de volta os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Dois anos depois, em 1947, foi cenário de uma tragédia: um incêndio vitimou 27 pessoas. Reformado, renasceu com um novo destino: de navio de guerra, tornou-se navio de paz, e, em 1950, seria palco da maior peregrinação religiosa do país.

Na manhã de 30 de abril, o cais do Rio de Janeiro estava tomado por familiares e curiosos. O sol iluminava a Baía da Guanabara, e a multidão agitava lenços e bandeirinhas. O apito grave do Duque de Caxias ecoou sobre as águas, e a embarcação começou a se mover. Dom Helder, emocionado, dirigiu-se aos peregrinos:

“Não é uma viagem de turismo. É uma peregrinação de fé. Cada sacrifício será parte da bênção.”

O navio partiu lentamente, levando a bordo mais de 1.300 peregrinos — embora sua capacidade fosse de 800. Lá estavam padres, freiras, idosos, jovens e famílias inteiras. Entre eles, o grupo de Itaúna, guiado pela firmeza e serenidade do Padre Zé Neto.

Durante os 22 dias de travessia, o Duque de Caxias se transformou em uma cidade flutuante. As cabines tornaram-se capelas, o convés virou espaço de procissões e orações. O enjoo do mar e o calor sufocante dos camarotes foram vencidos pela alegria dos hinos e pela fé compartilhada confortava os peregrinos adoecidos.

Outro episódio curioso marcou a viagem: diante das dificuldades enfrentadas pelas enfermeiras, foi autorizado o uso de calças compridas pelas mulheres, até então proibido no regulamento do navio. A decisão foi recebida com aplausos — símbolo da fé que se renova sem perder a essência.

Roma: o encontro com o Papa

O Duque de Caxias fez paradas em Salvador e Recife, e após sete dias de mar aberto, os peregrinos avistaram a ilha de Tenerife, nas Canárias (“terra natal do Padre Anchieta”), como escreveu Padre Zé Neto. No dia 19 de maio, chegaram à cidade italiana de Nápoles e, dois dias depois, seguiram rumo a São João de Latrão, em Roma.

O ápice da peregrinação aconteceu em 24 de maio de 1950, quando os brasileiros foram recebidos em audiência pelo Papa Pio XII, na Basílica de São Pedro. O relato no Livro Tombo de Itaúna é comovente:

“Foi um momento de grande comoção quando apareceu no fundo da Basílica a figura cândida de Pio XII. Falou diretamente aos brasileiros em português. Tive a felicidade de tocar em sua mão sagrada.”

Era a voz do Padre José Ferreira Neto, o vigário de Itaúna, que registrava com suas próprias palavras o instante em que tocou as mãos do Papa, gesto que uniria para sempre a fé de um povo mineiro à história da Igreja Universal.

A jornada prosseguiu por Assis, Florença e Pisa, com paradas de oração e contemplação. Em Pistóia, os peregrinos visitaram o Cemitério Militar Brasileiro, onde repousavam os soldados da FEB — o mesmo exército que o Duque de Caxias havia transportado anos antes. Na volta, o navio fez escalas em Marselha, Lisboa, Fátima, Sintra, Cascais e Estoril, unindo espiritualidade e cultura.

Dom Helder, que retornou antes ao Brasil de avião, deixara organizado um segundo grupo para setembro daquele ano, que viajaria no navio Geni — a chamada “Segunda Peregrinação”. Assim nasceram dois nomes simbólicos: os duquistas, do Duque de Caxias, e os genianos, do Geni.

O retorno

O grupo itaunense chegou a Itaúna em 5 de julho de 1950, após mais de dois meses de viagem. A recepção foi apoteótica. O Padre Silvério organizou uma grande celebração. O prefeito Dr. Antônio de Lima Coutinho, o Dr. José Luiz Guimarães e o jovem Guaracy Nogueira discursaram na porta da Matriz, e tudo foi transmitido ao vivo pela recém-inaugurada Rádio Clube de Itaúna (ZY-Z4), que seria oficialmente inaugurada e abençoada dias depois, em 9 de julho.

“Itaúna sentiu orgulho dos filhos que cruzaram o oceano pela fé”, escreveu Padre Zé Neto no encerramento do registro.

A Peregrinação de 1950 marcou para sempre a história religiosa de Itaúna. Foi a união entre a fé simples do interior e a universalidade da Igreja. Para o Brasil, foi o símbolo de um tempo novo: a espiritualidade popular ganhava força, e Dom Helder Câmara, inspirado pela experiência, daria origem à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1952.

O Vapor Duque de Caxias, que um dia transportara soldados e feridos, transformou-se em navio de oração. E o gesto de Padre José Ferreira Neto, ao tocar as mãos do Papa Pio XII, ficou para sempre gravado como o símbolo máximo dessa travessia.

Mais de sete décadas depois, as páginas do Livro Tombo II ainda guardam o perfume do incenso daquela missa de envio. E quando se fala em Itaúna e Roma, é importante recordar de que um dia o mar uniu Minas à Cidade Eterna e que um sacerdote levou consigo, nas mãos estendidas ao Papa, a fé viva de todo um povo.




Referências:

Realização e pesquisa: Charles Galvão de Aquino

Dom Hélder Câmara: o profeta da paz, Walter Praxedes, Nelson Piletti. Editora Contexto, 2009, p. 145-151.

Livro do Tombo II, 1950,  p. 9. Paróquia Santana de Itaúna/MG.

NAVAL — Navios de Guerra Brasileiros. NGB – Duque de Caxias (D-068). Disponível em: https://www.naval.com.br/ngb/D/D068/D068.htm. Acesso em: 24 out. 2025.

MARINHA DO BRASIL. Duque de Caxias : navio-auxiliar/navio-escola (31 jul. 1945-16 maio 1958). Rio de Janeiro: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, s.d. Disponível em: https://www.marinha.mil.br/dphdm/sites/www.marinha.mil.br.dphdm/files/DuquedeCaxiasNavioAuxiliarNavioEscola1945-1958.pdf. Acesso em: 24 out. 2025.

 

sexta-feira, outubro 17, 2025

ITAÚNA A ROMA

Em breve...

Uma travessia de fé que ligou Itaúna a Roma

O Itaúna em Décadas trará ao público uma história inesquecível — a jornada do Padre José Ferreira Neto e dos fiéis itaunenses que, em 1950, cruzaram o oceano a bordo do Vapor Duque de Caxias rumo a Roma, no Ano Santo proclamado pelo Papa Pio XII.

Foi uma verdadeira epopeia de fé e coragem. Da missa de envio celebrada na Matriz de Itaúna à audiência com o Papa, passando pelos dias em alto-mar e pelas emoções do retorno, essa viagem marcou para sempre a memória religiosa da cidade.

Com base em registros originais, relatos de Dom Helder Câmara e documentos históricos sobre o navio Duque de Caxias, reconstruímos essa travessia que uniu o sertão mineiro à Cidade Eterna — uma história de devoção, esperança e encontro espiritual.

Já está disponível esta publicação exclusiva e descubra como, há mais de setenta anos, Itaúna levou sua fé até Roma — e trouxe de volta um legado que ainda ecoa nas páginas da nossa história. ITAÚNA A ROMA (1950)




segunda-feira, setembro 22, 2025

A CAPELA EM VISTA ALEGRE

HISTÓRIA CAPELA VISTA ALEGRE ITAÚNA MG

Mais de um século de História, Fé e Memória na vida religiosa de Itaúna

No dia 22 de setembro de 1915, foi concedida, em Mariana/MG, a licença eclesiástica para a bênção da Capela de Santo Antônio do Campo Alegre, hoje conhecida como Capela de Santo Antônio de Vista Alegre, em Itaúna/MG. 

O ato, registrado em documento oficial, foi assinado por Dom Silvério Gomes Pimenta, então Arcebispo Metropolitano de Mariana, e redigido por Monsenhor José Silvério Horta, secretário da Cúria. 

O pedido partiu do vigário local, Padre João Ferreira Álvares da Silva, que buscava oficializar a capela erguida pela comunidade, a fim de nela se celebrar a missa e administrar os sacramentos.

À época, o vigário registrava que a freguesia de Sant’Ana de Itaúna contava com uma população de “aproximadamente sete mil almas” e dispunha dos seguintes templos: na sede, além da matriz, a antiga matriz, então transformada em Igreja do Rosário; a Igreja do Monte; e a Capela do Senhor dos Passos

Havia ainda, nas zonas rurais, a Capela de Nossa Senhora de Lourdes, a 14 km ao sul da sede; a Capela de Santo Antônio do Campo Alegre, a 12 km a oeste; a Capela de Santo Antônio do Brejo Alegre, a 16 km a noroeste; e a Capela de São Sebastião dos Paulas, a 12 km ao norte.

O documento determinava que o templo deveria ser sólido, decente e dotado do necessário para o culto, bem como possuir patrimônio suficiente para a sua manutenção. Somente após a devida regularização e bênção, os sacramentos poderiam ser administrados no local. Esse ato representou não apenas a institucionalização do espaço religioso, mas também o reconhecimento da fé e da mobilização comunitária no arraial de Campo Alegre.

Em 2025, celebram-se 110 anos da bênção da capela, um marco que une a história da Arquidiocese de Mariana e a fé popular de Itaúna. O documento de 1915 não é apenas um registro burocrático, mas um testemunho da articulação entre comunidade, pároco e hierarquia eclesiástica para consolidar um espaço sagrado que permanece vivo na memória coletiva.

Assim, ao recordar este centenário e uma década, resgatamos também as trajetórias de Dom Silvério, Monsenhor Horta e Padre João Ferreira, cujas vidas se cruzaram nesse episódio e que, cada um a seu modo, contribuíram para a história da Igreja e da religiosidade no interior de Minas Gerais.

Os protagonistas deste registro histórico

Padre João Ferreira Álvares da Silva (1862–1950)

Natural de Abadia de Pitangui (atual Martinho Campos/MG), nasceu em 13 de dezembro de 1862. Iniciou seus estudos de humanidades em Pitangui e os concluiu no tradicional Colégio do Caraça, onde também cursou o primeiro ano do Seminário Maior. Posteriormente, transferiu-se para Mariana, onde concluiu a formação sacerdotal em 1885.

Exerceu o ministério em diversas paróquias do interior mineiro, atuando como vigário em Morada Nova de Minas, Paranaíba, Abaeté, Chapéu d’Uvas e São Miguel do Anta, até assumir, em 1902, a paróquia de Itaúna, onde deixou forte marca pastoral. 

Em sua trajetória no município, destacou-se especialmente em 1919, quando participou, ao lado de Dom Silvério Gomes Pimenta, da solenidade de bênção do Hospital da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, instituição que se tornaria referência na assistência à saúde da região.

Dom Silvério Gomes Pimenta (1840–1922)

Natural de Congonhas (MG), foi o primeiro bispo negro do Brasil, além de notável intelectual, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Destacou-se pela erudição, pelo latim impecável e pelo papel ativo na vida da Igreja. Foi Bispo de Mariana (1896–1906) e, depois, Arcebispo Metropolitano (1906–1922). É lembrado como uma figura “além do seu tempo”, defensor da fé, da educação e da dignidade humana.

Monsenhor José Silvério Horta (1859–1932)

Nascido em Barra Longa (MG), dedicou 47 anos ao sacerdócio, atuando como secretário do bispado e vigário-geral da Arquidiocese de Mariana. Reconhecido pela dedicação pastoral e pela assistência aos pobres, tornou-se figura venerada, chegando a ter processo de beatificação iniciado em 2010. Foi ele quem redigiu o documento de 1915, registrando oficialmente a concessão da licença para a bênção da capela.

 Documento histórico

Segue a transcrição da carta oficial de 1915, assinada por Dom Silvério Gomes Pimenta e lavrada por Monsenhor José Silvério Horta, a pedido do vigário Padre João Ferreira Álvares da Silva:

D. Silverio Gomes Pimenta pela graça de Deus e da Santa Sé Apostolica arcebispo Metropolitano de Marianna Prelado Domestico de Sua Santidade Bento XV e Assistente ao Solio Pontificio, etc. etc.

Aos Fieis Christãos saudação paz e benção em J. C.

FAZEMOS saber que tendo os fieis de Santa Antonio do Campo Alegre freguezia de Santa Anna do Itauna, deste Arcebispado, edificado uma Capella para facilitar a administração dos Sacramentos e funções do culto divino, e havendo o Rvmo. Vigario Pe. João Ferreira Alvares da Silva, requerido licença Nossa para benzel-a.

HAVEMOS por bem lhe conceder a licença pedida, como pela presente lhe concedemos, contanto que esteja decente, solida e provida do necessario para o culto e tenha suficiente patrimonio, cujo titulo legal deverá ser exhibido em Nossa Curia Archiepiscopal.

Só então podem ser nessa Capella celebrados o santo sacrificio da Missa e administrados os sacramentos por qualquer sacerdote approvado neste Arcebispado, servatis servandis, e salvos os direitos parochiaes. Ao pé desta se lavrará a acta da benção da qual se remetta copia authentica á Nossa Curia Ecclesiastica. Registre-se na Camara Ecclesiastica e no livro da Matriz.

Dada em Marianna sob Nosso Signal e Sello de Nosso Vigario Geral aos 22 de Setembro de 1915. Eu Monsenhor José Silverio Horta Escrevão da Camara Ecclesiastica, a escrevi. <Monsenhor Horta>.


Referências

Realização: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Colaboração e apoio a pesquisa: Professor Luiz Mascarenhas

ARQ. MARIANA. Processo de Monsenhor Horta. Disponível em: https://arqmariana.com.br/processo-de-monsenhor-horta/. Acesso em: 14/09/2025.

ARQ. MARIANA. Um bispo além do seu tempo: Arquidiocese de Mariana celebra o centenário de falecimento de Dom Silvério. Disponível em: https://arqmariana.com.br/noticia/um-bispo-alem-do-seu-tempo-arquidiocese-de-mariana-celebra-o-centenario-de-falecimento-de-dom-silverio/. Acesso em: 14/09/2025.

ARQUIVO ECLESIÁSTICO DA ARQUIDIOCESE DE MARIANA. Licença e bênção da Capela de Santo Antônio do Campo Alegre, Itaúna/MG. Cúria Metropolitana, 1915. Documento manuscrito.

LIVRO TOMBO PARÓQUIA SANT’ANA — 1902 a 1947, p. 1v. 

Imagem meramente ilustrativa criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.       

sexta-feira, agosto 22, 2025

ENCOMENDAÇÃO DAS ALMAS

QUARESMA EM ITAÚNA MG

Encomendação das Almas em Itaúna 

Quando a Quaresma se instala em Itaúna, a cidade parece ganhar outro fôlego, mais lento, mais denso, como se as ruas guardassem segredos que só a noite conhece. É então que, às quartas e sextas-feiras, um pequeno cortejo rompe a rotina, trazendo consigo a memória de tempos antigos: a Encomendação das Almas.

Não há badalos de sinos nem anúncios festivos. O chamado vem do silêncio, da chama trêmula das velas, do som áspero da matraca que corta a noite como um lamento. À frente, uma cruz coberta por pano roxo guia os passos — cor da penitência, da espera, do mistério. 

Atrás dela, homens e mulheres seguem com o olhar fixo, em silêncio profundo, obedecendo ao preceito de nunca voltar os olhos para trás. Dizem que quem ousa quebrar essa regra pode ver o que não deve: as almas que caminham junto ao grupo, invisíveis, mas presentes, ansiosas pelas preces que lhes são oferecidas.

As ruas, de repente, se tornam santuário. Em cada encruzilhada, em cada cruzeiro de pedra, o cortejo se detém. O “tirador” entoa, em tom grave, o cântico que atravessa gerações: Alerta, pecador, alerta...” E o coro responde, como um eco antigo, unindo vozes em súplica pelas almas esquecidas no purgatório. É um canto de dor, mas também de esperança, um fio que costura o visível e o invisível, o humano e o divino.

Do lado de dentro das casas, moradores acompanham em silêncio. Rezam suas Ave-Marias, acendem pequenas luzes, deixam-se tocar pela melodia que entra pelas frestas das janelas. A cidade inteira parece rezar junto, ainda que muitos nem estejam nas ruas. O rito não é apenas visto, é sentido.

A cada parada, a cena se repete, mas nunca é a mesma. No cemitério, o ar parece mais denso; diante da igreja, mais leve; na encruzilhada, mais misterioso. O som da matraca anuncia o início e o fim de cada momento, despertando não apenas as almas, mas também a consciência dos vivos: somos todos, um dia, memória à espera de oração.

Quando a meia-noite se aproxima, o cortejo se encerra diante de uma igreja. O último cântico, “Bendita sejais”, sobe como uma prece derradeira. As velas se apagam, e o silêncio retorna às ruas. Mas não é um silêncio vazio: é o silêncio cheio da presença dos que já partiram, reconfortados pelas vozes dos vivos.

Assim, ano após ano, a Encomendação das Almas em Itaúna refaz a ponte entre tempos e mundos. É mais que um ritual; é uma crônica viva, cantada e rezada, que recorda aos vivos a fragilidade da existência e oferece às almas a esperança da eternidade.

 

RELIGIOSIDADE, PRESERVAÇÃO E RESSIGNIFICAÇÃO

A Encomendação das Almas em Itaúna constitui-se como um dos mais expressivos exemplos de continuidade e reinvenção das práticas do catolicismo popular em Minas Gerais. A tradição, de origem luso-brasileira, foi retomada em 2014 após anos de interrupção e, desde então, passou a integrar de forma viva o calendário religioso da cidade.

Trata-se de um ritual exclusivamente quaresmal e noturno, marcado por um profundo caráter penitencial. Os participantes, conhecidos como encomendadores, percorrem ruas e cruzamentos do centro urbano após as 22h, carregando velas, terços, lenços e sobretudo a cruz coberta por pano roxo, sinal de luto e penitência no período litúrgico.

À frente do cortejo, um guia conduz a caminhada em silêncio absoluto, sendo a fala reservada apenas aos momentos de canto e oração. O gesto de não olhar para trás, enfatizado pela tradição, traduz a crença de que as almas acompanham os vivos durante o trajeto e podem se manifestar de forma aterradora caso alguém rompa o protocolo do olhar fixo no crucifixo.

O percurso inclui um número ímpar de paradas (três, cinco, sete ou nove) realizadas diante de encruzilhadas, cruzeiros, igrejas ou cemitérios. Cada parada é marcada pelo som seco da matraca, instrumento que desempenha papel ritual central, tanto para iniciar e encerrar cânticos quanto para simbolicamente “acordar” as almas.

A musicalidade surge, então, como elemento-chave: cânticos de entonação lúgubre, como “Alerta, pecador, alerta”, são entoados de forma responsorial, com um “tirador” iniciando os versos e o coro respondendo em uníssono. Esse diálogo sonoro expressa não apenas a intercessão pelos mortos, mas também uma pedagogia religiosa, advertindo os vivos sobre a penitência, o pecado e a necessidade de conversão.

A participação dos fiéis não se limita à rua. Nas casas por onde o cortejo passa, espera-se que os moradores, mesmo sem sair, rezem em silêncio as orações solicitadas, Pai Nosso e Ave Maria, em sintonia com os encomendadores. Desse modo, o ritual cria uma atmosfera que ultrapassa o espaço físico do grupo e envolve toda a comunidade no sufrágio das almas.

Um aspecto singular em Itaúna é o apoio eclesial. Diferente de outros locais onde a prática subsiste de modo residual, aqui padres e paróquias não apenas autorizam, mas incentivam a celebração. Os folhetos com letras dos cânticos são distribuídos após missas, e muitos sacerdotes chegam a participar, ainda que discretamente, como simples devotos, reforçando a legitimidade do rito. Esse amparo institucional fortalece os encomendadores e garante a continuidade da tradição em meio às mudanças sociais e urbanas.

Outro traço de destaque é o uso das novas tecnologias como recurso de preservação e difusão. Além de panfletos impressos, a prática se vale de flyers digitais e QR Codes que direcionam a áudios e vídeos das celebrações. Essa inovação insere a Encomendação das Almas no universo midiático contemporâneo, ampliando seu alcance e oferecendo uma forma de documentação viva da tradição. Ao mesmo tempo, demonstra a capacidade de adaptação da religiosidade popular frente aos desafios da modernidade urbana – como trânsito, iluminação artificial, barulho da cidade e presença de curiosos.

Mais do que uma tradição isolada, trata-se de uma manifestação que atravessa décadas e que, em Itaúna, apresenta um percurso histórico particular. Uma hipótese relevante é que a “Reza ou Procissão das Almas” tenha tido início em 1933, conforme registrado no Livro do Tombo da Paróquia de Sant’Ana, sob a pena do vigário Pe. José Ferreira Neto. Nesse documento, o sacerdote anotou:

“Foi introduzido pelo atual Vigário, o piedoso dos costumes de se fazer no dia de Finados, uma tocante procissão, chamada das almas no cemitério.”

Esse registro permite compreender que a prática, hoje parte da memória coletiva, remonta às primeiras décadas do século XX e já naquele tempo era concebida como expressão tocante da piedade popular.

Do ponto de vista musical e simbólico, os cânticos cumprem múltiplas funções: marcam ritualmente cada momento; reforçam os valores da fé católica; definem quais almas são lembradas e beneficiadas; e orientam os devotos sobre como participar. Eles condensam uma visão de mundo em que a vida e a morte se entrelaçam, reafirmando a esperança na intercessão e na misericórdia divina.

Em síntese, a Encomendação das Almas em Itaúna não é apenas a reprodução de uma tradição antiga, mas sim sua ressignificação. O grupo atual mostra-se capaz de articular fé, comunidade e tecnologia para manter viva uma prática ancestral. O resultado é uma celebração que, a cada Quaresma, percorre as ruas da cidade, entre velas e matracas, como um testemunho da permanência do catolicismo popular. Trata-se, portanto, de uma devoção que une gerações, conecta vivos e mortos e insere Itaúna no mapa das expressões culturais e religiosas de Minas Gerais.



Referências:

Pesquisa e elaboração: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Imagem meramente ilustrativa criada com IA, inspirada no conteúdo do texto. 

Livro do Tombo da Paróquia de Sant’Ana — 1902 a 1947, p. 30v.

EUFRÁSIO, Vinícius; ROCHA, Edite. A Encomendação das Almas na cidade de Itaúna-MG: cânticos e contexto. In: XXIX Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música – Pelotas – 2019, p.1-7. Disponível em: https://anppom.org.br/anais/anaiscongresso_anppom_2019/5631/public/5631-20583-1-PB.pdf

 


terça-feira, agosto 12, 2025

AS TRÊS IMAGENS DE SOBREIRA

HISTORIA MANOEL TEIXEIRA SOBREIRA

A trajetória de um cristão-novo nas Minas setecentistas: da mácula inquisitorial à fundação de marcos sagrados

Manoel Teixeira Sobreira nasceu na freguesia de Vila Cova da Lixa, concelho de Felgueiras, no Arcebispado de Braga — região do Minho, norte de Portugal.

Filho de Domingos Vaz e de Luiza Gonçalves, ambos naturais da freguesia de Borba de Godim, também no concelho de Felgueiras, era oriundo de uma terra marcada por intensas correntes migratórias rumo ao Brasil. 

Movido por esse fluxo, atravessou o Atlântico e, nas Minas do século XVIII, encontrou o cenário propício para construir sua fortuna. Em Vila Rica, destacou-se como negociante e, posteriormente, como abastado proprietário de terras, firmando alianças estratégicas que asseguraram sua inserção e prestígio na sociedade mineradora.

O casamento com Maria Ribeira da Conceição, filha de Manoel Ribeiro Filgueiras — conterrâneo de Vila Cova da Lixa — e de Ana Maria de Campos, natural de Recife, Pernambuco, evidencia o peso das redes de origem como fator de confiança e apoio na mobilidade social colonial. Essas conexões de terra natal eram comuns entre reinóis no Brasil e serviam de base para parcerias de negócios e alianças matrimoniais.

Em 1742 o negociante já residia em Vila Rica, já casado, requereu em Lisboa a carta de familiar do Santo Ofício — cargo honorífico ligado à Inquisição portuguesa. Esse título não apenas conferia prestígio, mas garantia privilégios jurídicos e proteção em disputas, funcionando também como um selo de “pureza de sangue” para quem o obtinha.

O processo, porém, foi interrompido sem despacho final após diligências na sua terra natal revelarem suspeitas sobre sua ascendência. O comissário inquisitorial recolheu depoimentos que apontavam a avó paterna, Ana Ferreira, como filha de Cecília Ferreira, uma mulher solteira que tivera filhos com Henriques Monteiro, judeu castelhano fugitivo da Inquisição.

O relato das testemunhas de que Manoel teria adotado o sobrenome Sobreira (de seu bisavô, o Reverendo Manoel Sobreira) para se afastar do “Henriques” mostra um caso típico de estratégia onomástica para tentar apagar vínculos públicos com a origem judaica. Essa prática de mudar sobrenomes, enfatizar linhagens “limpas”, buscar alianças matrimoniais estratégicas era comum entre cristãos-novos em busca de aceitação social.

Essa ascendência o inseria automaticamente na categoria jurídica e social de cristão-novo, grupo marcado por estigma hereditário na sociedade portuguesa de Antigo Regime. Embora o batismo o tornasse formalmente cristão, a “mácula de linhagem” (tida à época como transmissível indefinidamente) impunha barreiras a certos cargos e honras, entre eles a carta de familiar do Santo Ofício.

O caso de Sobreira ilustra bem o mecanismo inquisitorial de “prova de limpeza de sangue”, pelo qual a Inquisição investigava não apenas o candidato, mas seus ascendentes e colaterais por várias gerações. A descoberta de um antepassado “contaminado” bastava para reprovar o pleito, independentemente da conduta religiosa do candidato.

Apesar do insucesso na habilitação ao Santo Ofício, Manoel Teixeira Sobreira consolidou-se nas Minas como um agente econômico multifuncional. Em Vila Rica, atuou como comerciante e credor, figurando em ações cíveis — de Alma e de Crédito — na Execução para cobrar devedores, além de emprestar mercadorias — inclusive em operações com outros abastados comerciantes —, o que evidencia circulação de capital e uma rede de parceiros bem azeitada.

Além do comércio, investiu na mineração e na produção rural, garantindo receitas estáveis e expandindo sua influência. Participou da arrematação de contratos régios e obteve sesmarias estratégicas, transformando mercês reais em patrimônio e consolidando-se na elite mineradora do século XVIII. Ao lado da fortuna material, Manoel investiu na paisagem do sagrado, pedindo de Setúbal, Portugal três imagens por promessa: Senhor do Bonfim e duas Sant’Ana. Em contexto setecentista, devoção pública funcionava tanto como expressão religiosa quanto como estratégia de legitimidade  aproximando o benfeitor da comunidade e blindando reputações em tempos sensíveis à pureza de sangue.

Bonfim: o Senhor do Bonfim como padroeiro e identidade

Foi nas terras da Rocinha, onde Manoel Teixeira Sobreira fixara residência, que a primeira das imagens encontrou repouso. Em 1750, já na Fazenda Palestina, no vale do rio Águas Claras, ele obteve licença episcopal para erguer uma capela; ali foi entronizada a imagem do Senhor do Bonfim, núcleo do culto que mais tarde daria lugar ao atual Santuário.

Mais que um objeto devocional, a imagem funcionou como marco fundador do povoado: em seu entorno consolidaram-se vizinhanças, abriram-se caminhos, organizaram-se procissões, e multiplicaram-se promessas e ofertas votivas (os chamados ex-votos, objetos oferecidos aos santos como agradecimento por graças recebidas), estruturando uma sociabilidade centrada na fé, em uma religiosidade que combina o catolicismo tradicional com elementos populares, herdados da tradição ibérica e adaptados ao contexto mineiro.

O nome da cidade de Bonfim é uma homenagem direta à imagem do Senhor do Bonfim. A própria toponímia evidencia o papel estruturante dessa devoção: Bonfim é o nome que substituiu “Bonfim do Paraopeba” após a emancipação e elevação do arraial à categoria de cidade, em 1860. A fé e o reconhecimento popular à imagem foram tão marcantes que influenciaram, inclusive, os registros administrativos e a formação simbólica da comunidade.

 Santana do Paraopeba: a imagem de Sant’Ana e o barroco da fé rural

A história da imagem de Nossa Senhora Sant’Ana em Santana do Paraopeba — distrito do município de Belo Vale/MG — está intimamente ligada aos primórdios da colonização do Vale do Rio Paraopeba e ao desenvolvimento cultural e religioso da região. Erguida como expressão de fé e devoção pelos primeiros colonos portugueses, a imagem representa não apenas um símbolo religioso, mas também um testemunho material do processo de formação social e espiritual do interior de Minas Gerais no século XVIII.

Destinada à então São Pedro do Paraopeba, a segunda imagem de Sant’Ana acompanhou a frente mineradora que Manoel Teixeira Sobreira e o sócio Manoel Machado abriram na região. Por volta de 1735, ergueram no alto de um outeiro uma capela dedicada à padroeira, que rapidamente se tornou o núcleo religioso e organizador do povoado, rebatizando-o como Santana do Paraopeba. A imagem trazida por Sobreira permanece no altar; a capela, de feição barroca, foi restaurada e hoje é bem tombado do município de Belo Vale. A devoção se renova anualmente, sobretudo em 26 de julho, quando peregrinações e festejos reafirmam a memória devocional e a identidade local — sinais da durabilidade do gesto fundador de Sobreira.

A imagem de Sant’Ana, mais que um objeto de culto, representa um elo entre o passado e o presente, entre o sagrado e o território. Sua presença foi determinante para a formação espiritual, urbana e social de Santana do Paraopeba, que por sua vez é parte indissociável da história de Belo Vale.

Itaúna: a Sant’Ana das barrancas do Rio São João Acima

A imagem de Senhora Sant’Ana, padroeira de Itaúna, representa não apenas um símbolo religioso, mas também um marco histórico e identitário da cidade. A trajetória dessa imagem entrelaça-se com a própria formação do município, sendo possível traçar suas origens até os primeiros momentos da colonização da região, ainda no século XVIII.

A imagem depositada em Itaúna foi colocada inicialmente em um oratório simples de taipa de pilão no alto do morro, próximo a um antigo cruzeiro. Estima-se que esse oratório tenha sido erguido por volta de 1739. Foi nesse espaço que a imagem em madeira entalhada, proveniente da cidade de Setúbal, passou a receber as primeiras manifestações de fé da população local. Com o tempo, esse oratório daria lugar à Capela de Sant’Ana, construída com autorização do Bispo de Mariana, Dom Frei Manoel da Cruz, em 1750. A capela foi concluída em 1765 e, no ano seguinte, foi nomeado o primeiro capelão: o padre José Teixeira de Camargos.

A importância da imagem de Sant’Ana transcende sua presença física e simbólica. A devoção à santa impulsionou a nomeação do arraial como “Sant’Ana do Rio São João Acima”, expressão do vínculo afetivo e devocional da comunidade com sua padroeira. A própria origem do nome “Itaúna” não apaga essa marca inicial: antes de ser cidade, o lugar era reconhecido como um espaço de fé e pertencimento sob o manto de Sant’Ana.

Ao longo dos séculos, a imagem acompanhou o desenvolvimento do povoado, atravessando as transformações dos períodos colonial, imperial e republicano da história brasileira. Foi testemunha do surgimento de uma paróquia em 1841, da fundação da Companhia de Tecidos Santanense em 1895, e da emancipação político-administrativa do município em 1901. Em 1961, por Bula do Papa João XXIII, Sant’Ana foi oficialmente declarada Padroeira de Itaúna.

A imagem de Sant’Ana que hoje repousa na Matriz da cidade é considerada uma das relíquias religiosas mais importantes de Itaúna. Trata-se de uma escultura barroca em madeira policromada do tipo “Sant’Ana Mestra” representando Sant’Ana ensinando a Virgem Maria. É, muito provavelmente, o bem religioso mais antigo do município e está protegida por tombamento municipal.

Seu valor ultrapassa o aspecto material: a imagem carrega consigo um elo emocional com a comunidade, sendo objeto de orações, promessas e peregrinações. Sua presença na vida litúrgica da cidade é marcada, especialmente, pela tradicional festa de julho, celebrada há quase três décadas, reunindo milhares de fiéis em novenas, procissões e outras manifestações de fé.

A imagem em cedro de Senhora Sant’Ana é mais que uma peça devocional — é uma herança cultural que guarda em si a memória da fé dos antepassados, dos pioneiros, das famílias, das comunidades negras e brancas que ali ergueram capelas, cantaram ladainhas e construíram a cidade ao redor da fé. Hoje, protegida como patrimônio tombado, a imagem continua a exercer sua função simbólica de agregação comunitária, memória viva e resistência cultural. Ao preservá-la, Itaúna preserva a si mesma a sua história, sua identidade e sua alma coletiva.

Tutela, casamento e cautela historiográfica

Em 1737, Manoel Teixeira Sobreira requereu a D. João V licença para transportar seus sobrinhos órfãos ao Reino, “debaixo de fiança”, a fim de apresentá-los “em juízo competente” e assumir a tutoria. O pedido descreve quatro menores (“três fêmeas e hum macho”), filhos de Manoel Ribeiro Filgueira; são nomeados Manoel, Anna Maria e Thereza, informando-se ainda que até então a mãe, Ana Maria de Campos, fora sua tutora e administradora.

Dado que outras fontes identificam a esposa de Sobreira como Maria Ribeira da Conceição, filha de Manoel Ribeiro (Filgueira) e de Ana Maria de Campos, é altamente plausível que Maria seja a menor nomeada no requerimento de 1737  o que implicaria que Sobreira casou-se com uma das órfãs sob sua tutela. A hipótese é coerente com o conjunto documental (parentesco, redes de conterrâneos, cronologia), mas reclama confirmação direta em assento matrimonial e/ou autos de tutela (prestação de contas, termo de exoneração) conforme o direito vigente.

Em regra, tutores que se casavam com tuteladas deviam prestar contas e obter autorização da justiça eclesiástica/cível; rastros dessa tramitação podem constar dos livros de casamentos paroquiais (Vila Rica e entorno) e dos autos cíveis das comarcas.

Em suma, o raciocínio é consistente — mesmos pais, mesma rede e cronologia compatível —, e a identificação de Maria como uma das órfãs é provável. A demonstração cabal, contudo, depende da localização do assento de casamento (com menção da filiação e, idealmente, referência à tutela/dispensa) e/ou de peças judiciais relativas à tutela. A hipótese, agora fortalecida pela menção explícita do nome, permanece historiograficamente prudente até sua confirmação documental.

Cristão-novo

A trajetória de Manoel Teixeira Sobreira, cristão-novo nas Minas setecentistas, condensa as ambivalências do Antigo Regime luso-brasileiro: entre o estigma inquisitorial e a mobilidade social, entre a devoção sincera e a estratégia de legitimação, entre o capital econômico e o capital simbólico. Reprovado na habilitação ao Santo Ofício por “mácula de sangue”, Sobreira não permaneceu à margem: acumulou terras, diversificou negócios, firmou contratos régios e inscreveu o sagrado na geografia de Bonfim, Santana do Paraopeba e Itaúna. Cada uma dessas fundações religiosas, ancoradas em imagens trazidas de além-mar, revela como a fé podia se converter em instrumento de coesão social e em legado duradouro.

As Minas ofereceram condições únicas para a ascensão social dos cristãos-novos, com oportunidades mais rápidas e amplas do que em regiões como a açucareira. Espalhados por todo o território, eles mantinham redes de comunicação que atravessavam fronteiras e conectavam diferentes partes da América e da Europa. Nesse contexto, Manoel Teixeira Sobreira se destaca como exemplo de quem soube transformar essas conexões e oportunidades em patrimônio, influência e memória.

Mais que um proprietário ou negociante de vulto, foi mediador de sentidos e construtor de marcos de identidade coletiva. Ao redor das imagens que introduziu, consolidaram-se arraiais, moldaram-se paisagens e perpetuaram-se devoções que atravessaram séculos. Assim, a biografia de Manoel Teixeira Sobreira ultrapassa os limites da vida individual para se projetar na memória e no patrimônio de comunidades que, até hoje, rezam, celebram e se reconhecem sob a sombra de sua obra.

 Nota final

Esta pesquisa já estava concluída e pronta para ser publicada quando o jovem historiador Filipe Abner fez uma pergunta que mudou totalmente meu olhar sobre Manoel Teixeira Sobreira: sobre a possibilidade de ele e seus antepassados terem sido cristãos-novos.
Essa indagação abriu um leque de informações e conexões que até então eu não havia observado, levando-me a retomar os estudos, buscar novas fontes e aprofundar a análise. O resultado foi uma compreensão mais ampla e precisa de quem ele foi. Agradeço ao historiador Filipe por sua contribuição valiosa e o encorajo — assim como a todos os jovens pesquisadores — a continuar fazendo perguntas instigantes. São essas inquietações que movem a pesquisa histórica e fazem toda a diferença na construção do conhecimento.

Ao longo dos anos, realizamos visitas e pesquisas empíricas nos três locais históricos diretamente ligados à trajetória de Sobreira, acompanhados dos genealogistas Aureo Nogueira, Alan Penido e Alexandre Campos, cujo apoio e incentivo à valorização da história mineira foram fundamentais. Nessas ocasiões, fizemos registros fotográficos e filmagens que contribuíram para documentar e preservar a memória desses espaços. 

                                                    

Organização e pesquisa: CharlesGalvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Colaboradores:

Filipe Abner Silva Souza

Dr. Alan Penido

Alexandre Magno Martoni Debique Campos

Aureo Nogueira da Silveira


Referências consultadas:

Fontes Primárias:

ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO – AHU (Portugal). Minas Gerais, caixa 29, doc. 3087, 1737, p.1-8.  Projeto Resgate – BNDigital. Disponível em: http://resgate.bn.gov.br/docreader/017_RJ_AV/20771. Acesso em: 13 ago. 2025.

ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO. Extinção do Tribunal do Santo Ofício e da Inquisição. Portugal. Exposição virtual. Disponível em: https://antt.dglab.gov.pt/exposicoes-virtuais-2/tribunal-do-santo-oficio/. Acesso em: 12 ago. 2025.

PORTUGAL. Tribunal do Santo Ofício. Conselho Geral. Diligência de habilitação de Manuel Teixeira Sobreira. Habilitações incompletas, doc. 4695, 1741-1742. Disponível em: https://digitarq.arquivos.pt/documentDetails/788ee5ed33844c6392cd1cc2df2333ab .Acesso em: 12 ago. 2025.

Fonte Impressa:

Itaúna em Detalhes – Pesquisa Guaracy de Castro Nogueira - Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa. Edição: Jornal Folha do Povo, 2003, fascículo, 2- 6.

Bibliografias: 

NOVINSKY, Anita. Ser marrano em Minas Colonial. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 21, n. 40, p. 203-220, 2001. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbh/a/m9BHw96SxvjbjZwVbkvfpqr/?lang=pt . Acesso em: 11 ago. 2025. 

PEREIRA, A. M. Trajetórias individuais: uma proposta metodológica para o estudo dos comerciantes nas Minas setecentistas. Locus: Revista de História[S. l.], v. 22, n. 2, p. 495-496, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/locus/article/view/20836 . Acesso em: 12 ago. 2025. 

RODRIGUES LOPES, L. F. Os que fracassaram: os candidatos rejeitados pelo Santo Ofício em Minas Gerais Colonial. Locus: Revista de História[S. l.], v. 27, n. 1, p. 215–216, 2021. DOI: 10.34019/2594-8296.2021.v27.31898. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/locus/article/view/31898 . Acesso em: 12 ago. 2025.

TRIGUEIRO, Renato. Museu de Cabeceira – Bonfim/MG – Documentário. Belo Horizonte, edição do autor, p, 8-10, 2008.

Sites: 

IBGE – Histórico do município de Bonfim – Disponível: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/bonfim/historico 

Jornal S’Passo – Luiz Mascarenhas, “Capela do Rosário” e “Sant’Ana, nossa Padroeira”. Disponível: https://jornalspasso.com.br/santana-nossa-padroeira/ 

Memorial Santana Belo Vale. Disponível em: https://visitebelovale.com.br/memorialdesantana     

Prefeitura de Belo Vale – Tombamento da Igreja de Santana. Disponível: https://www.belovale.mg.gov.br/pagina/11653/TOMBAMENTO%20IGREJA%20DE%20SANTANA

Prefeitura Municipal de Bonfim – Informações Históricas. Disponível: https://www.prefeiturabonfim.mg.gov.br/detalhe-da-materia/info/conheca-a-historia-de-bonfim/6594 

Prefeitura Municipal de Itaúna/MG – Quadro III Processo Tombamento da Imagem de Sant’Ana Mestra. Disponível: https://www.itauna.mg.gov.br/arquivos/imagem_da_senhora_de_santana_01105806.pdf

Prefeitura Municipal de Itaúna/MG: Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Codempace Bens Patrimoniais Tombados e Registrados.  Disponível: https://www.itauna.mg.gov.br/portal/secretarias-paginas/154/relacao-de-bens--protegidos-por-tombamento/

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.