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sexta-feira, maio 01, 2026

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (IX)

A LEPRA EM ITAÚNA MG

Saúde, medo e defesa social:

A lepra como problema estruturante em Itaúna (década de 1930)

A análise dos textos produzidos em Itaúna nas primeiras décadas do século XX, especialmente “Itaúna: os males da época”, a entrevista com o dr. Alcides Gonçalves de Souza e o texto “Ação benemérita”, publicado no Jornal de Itaúna em 1933 , permite identificar a construção de um discurso articulado em torno da lepra que ultrapassa a dimensão estritamente sanitária. 

Em conjunto, esses documentos revelam não apenas a presença da doença no município, mas a forma como ela foi interpretada, problematizada e mobilizada como questão central para a organização da vida local.

No texto “Itaúna: os males da época”, observa-se inicialmente uma tentativa de sistematização das enfermidades que atingiam a população, como impaludismo, verminoses e sífilis, todas apresentadas como doenças conhecidas, tratáveis e, sobretudo, evitáveis mediante práticas higiênicas e acompanhamento médico. 

Essa abordagem estabelece um contraste fundamental com a lepra, descrita como um mal de natureza distinta, tanto por sua gravidade quanto pela ausência de tratamento eficaz no período. A doença é caracterizada como “hedionda” e aterrorizante, sendo associada à inevitabilidade do isolamento, o que já indica uma ruptura com as estratégias aplicadas às demais enfermidades.

Esse contraste não é apenas médico, mas estrutural. Enquanto as outras doenças são tratadas no âmbito da prevenção individual e da higiene, a lepra é deslocada para o campo da coletividade, sendo apresentada como uma ameaça direta à comunidade. 

Essa percepção se intensifica quando o texto associa a presença da doença à possibilidade de desvalorização econômica do município, destacando que produtos agrícolas poderiam ser rejeitados e terras consideradas “amaldiçoadas”. 

Assim, o problema sanitário é articulado a uma preocupação com a estabilidade econômica e com a imagem de Itaúna perante outras regiões.

A entrevista com o dr. Alcides Gonçalves de Souza reforça essa dimensão ao introduzir uma leitura que legitima o movimento em curso. Ao afirmar que a lepra prejudica “as relações sociais, econômicas e comerciais”, o entrevistado desloca o problema para além do campo médico, inserindo-o na dinâmica das interações sociais e do mercado. 

A menção a episódios de rejeição de produtos locais por parte de comerciantes externos evidencia que o estigma associado à doença já produzia efeitos concretos sobre a circulação de bens e sobre a reputação do município. 

Ao mesmo tempo, sua fala busca equilibrar a necessidade da campanha com a correção de “equívocos”, sugerindo uma preocupação em controlar não apenas a doença, mas também a percepção externa sobre Itaúna.

O texto “Ação benemérita”, por sua vez, opera em um registro distinto, marcado por forte apelo moral e emocional. Ao convocar diretamente os “itauenses” e, em especial, os “pais de família”, o texto constrói uma narrativa de responsabilidade coletiva, na qual o combate à lepra se apresenta como um dever cívico. 

A caracterização da doença como um “terrível mal” e a ênfase na necessidade de proteger as “pessoas sãs” reforçam a ideia de perigo iminente, contribuindo para a mobilização social em torno da campanha. Além disso, ao mencionar a existência de áreas fortemente afetadas no município, o texto amplia a percepção de urgência e legitima as medidas propostas.

Apesar das diferenças de tom e abordagem, os três textos convergem em um ponto fundamental: a defesa do isolamento dos doentes como principal estratégia de enfrentamento da lepra. 

A referência recorrente ao Leprosário Santa Isabel, em Minas Gerais, indica a existência de uma estrutura institucional já consolidada, para a qual os indivíduos diagnosticados deveriam ser encaminhados. 

Dessa forma, o discurso presente no jornal não se limita a uma construção retórica, mas se insere em uma prática concreta de encaminhamento e exclusão, refletindo o temor local diante da doença e a tentativa de evitar que o município fosse atingido por seus efeitos sociais e econômicos. 

Tal dinâmica pode ser interpretada à luz do conceito de biopolítica, conforme formulado por Michel Foucault (1988), no qual o controle da doença se articula à regulação dos corpos e à organização da vida social. 

No caso de “Itaúna: os males da época”, essa proposta é acompanhada de um plano detalhado de mobilização financeira, envolvendo diferentes segmentos da sociedade — fazendeiros, comerciantes, industriais e mulheres, evidenciando um esforço coletivo organizado em torno da construção de instalações no leprosário.

Essa mobilização revela um aspecto central do processo: o combate à lepra em Itaúna não se limitava a uma política sanitária imposta externamente, mas envolvia a participação ativa das elites locais e da população, que eram convocadas a contribuir material e simbolicamente para a solução do problema. 

As assinaturas de médicos, autoridades e figuras de prestígio ao final do texto reforçam esse caráter, indicando que a campanha era conduzida por setores com capacidade de influência e organização.

Dessa forma, a análise articulada dessas fontes permite compreender que o enfrentamento da lepra em Itaúna, na década de 1930, configurou-se como um processo complexo, no qual saúde, economia e organização social estavam profundamente interligadas.

 A doença, mais do que um problema médico, foi construída como uma ameaça à ordem do município, exigindo respostas que combinavam mobilização coletiva, intervenção institucional e redefinição das relações sociais. 

Nesse contexto, o isolamento dos doentes no Leprosário Santa Isabel aparece não apenas como medida sanitária, mas como elemento central de um projeto de defesa e preservação da cidade.

Como complemento à análise apresentada em “Saúde, medo e defesa social: a lepra como problema estruturante em Itaúna (década de 1930)”, segue abaixo a transcrição do texto original “Ação benemérita”, publicado no Jornal de Itaúna em 25 de junho de 1933. 

O documento permite observar, de forma direta, a linguagem, as preocupações e os apelos mobilizados à época no enfrentamento da lepra no município.


Ação benemérita – Fonte Jornal  de Itaúna 1933

A campanha de protecção aos lazaros e defeza contra a lepra, que se promove em Itauna, sob a direcção do dr. Lima Coutinho, é dessas campanhas santas e dignificadoras que por si só elevam os seus propagadores à categoria de semi-deuses.

Esta guerra titanica que ora se inicia contra o terrivel mal de Hansen, contra essa horrenda doença que arruina inexoravelmente a integridade physica da pessoa que é victima, levando-a paulatinamente ao tumulo, 

é sem duvida uma das nossas mais prementes necessidades, e infelizmente uma necessidade que se impõe pela urgencia que se tem de evitar a propagação do mal, preservando do perigo as pessoas sãs.

Itauenses, é preciso saibas a nossa terra, o municipio de Itauna, é infelizmente em todas Minas um dos mais infestados pela morféa.

Ha no districto da cidade um pequeno povoado denominado “Corrego do Soldado” onde, desgraçadamente, quasi uma população inteira soffre da terrivel molestia.

E essa gente, como todos nós, quer viver. Para viver trabalha, e o producto desse trabalho, farinha, polvilho, queijo, mantimento, é vendido sem menor escrupulo pela cidade.

Itauenses, precisamos conjurar o mal! Paes de familia, Itauna, hoje mais do que nunca, necessita do seu valioso e indispensavel concurso!

A idéa está lançada. Itauna vai ter o seu pavilhão na Colonia de Leprosos S. Izabel, em Bello-Horizonte. Para lá deverão seguir, depois de construido o pavilhão, todos os demais contaminados pelo hediondo mal, em todo o municipio de Itauna.

E assim, desse modo, em pouco tempo, sanearmos Itauna da morféa.

O homem domador do mar, fecundador da terra, conquistador do ar, senhor dos animaes, construtor de maravilhas, autor da linguagem, do pensamento, dos costumes, da arte e da sciencia só à morte não poderá fugir. 

A morte é mesmo inevitavel, mas poderá ser adiada. E a doença? Esta pode não existir, pois que todas as doenças infecciosas são de certo modo evitaveis.

Evitemos, pois, o mal, itauenses, concorrendo e trabalhando em prol da Santa Campanha!


NOTA

O termo “lepra” era amplamente utilizado nas primeiras décadas do século XX para designar a doença hoje conhecida como hanseníase. A substituição terminológica ocorreu ao longo do século XX, especialmente no Brasil, com o objetivo de reduzir o estigma historicamente associado à enfermidade. 

No presente trabalho, opta-se por manter o uso do termo “lepra” quando referido às fontes históricas, preservando sua linguagem original, enquanto “hanseníase” é utilizado em referência ao conceito contemporâneo.

Referências:

 Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

JORNAL DE ITAÚNA. Ação benemérita. Itaúna, ano I, 25 jun. 1933.

ITAÚNA EM DÉCADAS. História da saúde em Itaúna – parte VII. Disponível em: https://itaunaemdecadas.blogspot.com/2022/04/historia-da-saude-em-itauna-parte-vii.html  Acesso em: 10 abr. 2026.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988, p.129-144.

IMAGEM:

A imagem apresentada não se configura como registro histórico, mas como uma representação artística interpretativa, construída com o propósito de evocar o contexto social e sanitário de Itaúna nas primeiras décadas do século XX. 

Ao representar a mobilização coletiva, a atuação de agentes locais e os discursos de combate à lepra, a imagem dialoga com os elementos identificados nas fontes históricas, evidenciando as dimensões sociais, morais e organizacionais que caracterizaram o enfrentamento da doença no município.

A imagem utilizada nesta publicação foi criada com finalidade exclusivamente ilustrativa.

segunda-feira, setembro 29, 2025

MÉDICOS ITAUNENSES (UFMG)

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA MG
Dr. Dario e Dr. Lincoln: a trajetória dos primeiros itaunenses formados na UFMG

A fundação da Escola de Medicina de Belo Horizonte em 1911, representou um marco no ensino superior de Minas Gerais.

Instalando-se em um palacete no centro da jovem capital, a instituição se tornaria, anos mais tarde, a renomada Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Em dezembro de 1917, no período da Primeira República, concluiu-se a primeira turma de formandos, cuja diplomação oficial ocorreu em março de 1918, após o reconhecimento pelo Conselho Superior de Ensino. 

Entre os alunos pioneiros desse grupo estavam dois jovens de Itaúna: Dario Gonçalves de Souza e Lincoln Nogueira Machado.

A presença desses dois itaunenses nesse seleto grupo evidencia a inserção precoce do município nos caminhos da ciência médica e destaca o protagonismo de suas trajetórias na saúde e na vida pública da região.

Dr. Dario Gonçalves de Souza: Medicina, Indústria e Vida Pública

Nascido em Itaúna, em 15 de novembro de 1893, Dario Gonçalves de Souza seguiu o pioneirismo na Medicina de seu pai, o médico Dr. Augusto Gonçalves de Souza, que se formou em 1888 pela Faculdade do Rio de Janeiro, no final do Brasil Império. Formado pela Universidade de Minas Gerais, fixou-se em sua terra natal, onde honrou o juramento médico com dedicação integral, conquistando a confiança e o reconhecimento da população. 

Em 1923, além de contrair matrimônio com D. Judith Camardel Gonçalves — cujo nome hoje é preservado em Itaúna pela Escola Estadual Dona Judith Gonçalves, situada no bairro Santanense — foi eleito "Presidente da Câmara Municipal e Agente Executivo, como à época se denominava o atual cargo de Prefeito", promovendo obras relevantes para a cidade.

Na década de 1930, sua atuação se ampliou para o setor industrial, ao assumir a presidência da Companhia Industrial Itaunense, cargo que exerceu por décadas. Também dedicou parte significativa de sua vida ao Hospital Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, do qual foi provedor por mais de trinta anos.

Homem de visão empresarial e social, também participou de importantes instituições de Minas Gerais. Seu legado é lembrado até hoje, sendo patrono da unidade Escola SESI Itaúna "Dario Gonçalves de Souza". Faleceu em 15 de novembro de 1970, aos 77 anos, justamente no dia de seu aniversário.

Dr.Lincoln Nogueira Machado: Medicina, Literatura e Política

Também nascido em Itaúna, em 15 de junho de 1893, Lincoln Nogueira Machado destacou-se como médico, poeta, educador e homem público. Após estudos em São João del-Rei, ingressou na Escola de Medicina de Belo Horizonte. Sua carreira, porém, transcendeu o consultório.

Na saúde, atuou desde a fundação da Casa de Caridade Manoel Gonçalves, em 1919, sendo médico dedicado até o fim da vida. Exerceu cargos públicos de destaque: foi Chefe do Posto de Profilaxia de Itaúna, vereador, presidente da Câmara Municipal e, entre 1936 e 1947, prefeito de Itaúna, nomeado por Benedito Valadares e depois eleito pelo povo.

Intelectual refinado, era também poeta e escritor. Em 1947, lançou o livro “Médicos de 1917”, obra em que, com lirismo e erudição, retratou seus colegas da primeira turma. Além disso, lecionou Língua Portuguesa na Escola Normal Manoel Gonçalves e escreveu artigos para a imprensa local.

Na vida pessoal, constituiu família com Laudelina de Carvalho Machado, com quem teve quatro filhos. Faleceu em 6 de abril de 1968, deixando um legado de amor à medicina, à literatura e ao serviço público.

Em reconhecimento à sua contribuição para a cidade, uma instituição de ensino leva o seu nome: a Escola Municipal Doutor Lincoln Nogueira Machado, perpetuando sua memória junto às novas gerações de itaunenses.

O Legado

A presença de dois filhos de Itaúna na primeira turma de médicos de Belo Horizonte é motivo de orgulho histórico. Ambos uniram a vocação médica a papéis de liderança comunitária e política, participando ativamente da construção do município e de suas instituições.

Enquanto o Dr. Dario Gonçalves de Souza simboliza a fusão entre medicina, política e indústria, sendo lembrado como patrono e líder empresarial, o Dr. Lincoln Nogueira Machado personifica a síntese entre ciência, literatura e vida pública, eternizado como médico humanista, poeta e administrador.

Suas trajetórias, entrelaçadas desde a juventude acadêmica até a atuação em Itaúna, confirmam que a primeira turma de medicina de Belo Horizonte não apenas formou médicos, mas também líderes e visionários que moldaram o futuro das cidades mineiras.

Primeira Turma de Medicina de Belo Horizonte de 1917

Casimiro Laborne Tavares, Dario Gonçalves de Souza, Francisco de Arêa Leão, Gumercindo do Couto e Silva, Honorico Nunes de Oliveira, Irineu Lisboa, João Affonso Moreira, José Argemiro de Moura, José Camillo de Castro e Silva,  Lincoln Nogueira Machado, Luiz Gonzaga de Moura, Manoel Taurino do Carmo, Olavo de Sá Pires, Olyntho Orsini de Castro, Pedro Versiani dos Anjos, Plínio Moraes, Rivadávia Versiani Murta de Gusmão, Sóter Ramos Couto.

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QUARTO PREFEITO ITAÚNA

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LINCOLN NOGUEIRA MACHADO

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA

IRMANDADE CASA DE CARIDADE


Referências:

Pesquisa, elaboração e arte: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Imagem meramente ilustrativa criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.     

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Boletim comemorativo Nº 10 [PDF]. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina da UFMG, ago. 2018. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/wp-content/uploads/sites/51/2018/08/bolteim-cememor-n10.pdf. Acesso em: 16 set. 2025.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Formados – Medicina, Fonoaudiologia, Radiologia [PDF]. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina da UFMG, 3 out. 2018. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/wp-content/uploads/sites/51/2018/10/FORMADOS-MEDICINA-FONOAUDIOLOGIA-RADIOLOGIA-03-10-2018.pdf. Acesso em: 16 set. 2025.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. História – Faculdade de Medicina da UFMG [online]. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina da UFMG. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/institucional/historia/. Acesso em: 16 set. 2025.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. História – Faculdade de Medicina da UFMG [online]. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina da UFMG. Disponível em: linha do tempo. Acesso em: 16/09/2025.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS. Turma 1917 [PDF]. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina da UFMG, nov. 2016. Disponível em: https://www.medicina.ufmg.br/wp-content/uploads/sites/51/2016/11/TURMA_1917.pdf. Acesso em: 16 set. 2025.

SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, p. 223-228.

Revista Acaiaca: Dr. Dario Gonçalves de Souza, p. 106. Ano: 1954, Org. Celso Brant, BH/MG.



segunda-feira, março 03, 2025

LINCOLN NOGUEIRA MACHADO

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA MG
Dr. Lincoln Nogueira Machado foi um dos mais ilustres médicos de sua época, destacando-se não apenas na Medicina, mas também como benemérito e figura de grande expressão humana. Pioneiro em causas relevantes, exerceu forte influência nos meios científicos e sociais de sua terra natal e região.

Homem público de elevado valor, sempre leal aos seus princípios, defendeu incansavelmente os interesses populares e deixou um legado significativo para seu município.

Inteligente e culto, possuía inclinação literária marcante, sendo um estilista refinado e profundo conhecedor da língua portuguesa. 

Sua erudição contribuiu imensamente para o desenvolvimento intelectual e médico de sua época. 

Além disso, era poeta de sensibilidade ímpar, compondo versos fluidos e bem estruturados, onde a retórica jamais comprometia a qualidade técnica.

Nascido em 15 de junho de 1893, em Sant'anna do Rio São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais, era filho de Josias Nogueira Machado e Thereza Gonçalves Nogueira. Seus irmãos eram Augusta Nogueira Soares, Azarias Nogueira Machado, Rachel Nogueira, Ovídio Nogueira Machado, Olandim Nogueira Machado, Josias Nogueira Filho, Aristides Nogueira Machado, Alice Gonçalves Nogueira, Sady Nogueira Machado, Geny Nogueira Machado (Lima) e Mozart Nogueira Machado.

Seus estudos primários foram realizados em Itaúna, entre 1903 e 1906, sob a orientação do professor José de Melo. Em seguida, frequentou o Ginásio Santo Antônio, em São João del-Rei, onde concluiu o curso ginasial após cinco anos. Posteriormente, ingressou na Escola de Medicina de Belo Horizonte, formando-se em dezembro de 1917, embora tenha recebido seu diploma apenas em 1918, após a oficialização da instituição pelo governo. Integrante da primeira turma de médicos da escola, teve como diretor o renomado Dr. Eduardo Borges da Costa, que lhe dispensava grande amizade e consideração.

Na Medicina, desempenhou papel fundamental na saúde pública. Em 1927, tornou-se Chefe do Posto de Profilaxia de Itaúna e prestou inestimáveis serviços à Casa de Caridade Manoel Gonçalves (hoje Hospital Manoel Gonçalves), onde atuou desde a fundação, em 1919, até seu falecimento. Além de Itaúna, também exerceu a profissão em Conquista (atual Itaguara), Carmo do Cajurú e cidades vizinhas. Seu compromisso com o juramento médico e sua vocação humanitária foram traços marcantes de sua carreira.

Dr. Lincoln também teve forte atuação na educação. Durante muitos anos, lecionou língua portuguesa na Escola Normal Manoel Gonçalves, desde sua fundação até sua oficialização. Em 1947, publicou um livro de grande valor histórico e literário: "Médicos de 1917", em que celebrou os 30 anos de sua formatura, traçando perfis de seus colegas por meio de versos repletos de humor, filosofia e sensibilidade. Além disso, colaborava regularmente com artigos para o jornal local "Folha do Oeste".

Após a colação de grau, retornou a Itaúna, onde estabeleceu consultório e rapidamente conquistou o respeito e a admiração de seus conterrâneos. Além da atuação médica, teve uma notável trajetória na política local. Foi nomeado Prefeito Municipal de Itaúna (1936-1947) pelo governador Benedito Valadares, exercendo o cargo por 11 anos. Posteriormente, foi eleito pelo povo e permaneceu na administração municipal como filiado ao extinto PSD, sendo vereador e Presidente da Câmara Municipal de Itaúna (1951-1953).

Na vida pessoal, casou-se primeiramente com Anita Soares Nogueira, filha de Jove Soares e Augusta Nogueira Soares, união da qual não houve descendência. Após enviuvar, contraiu segundas núpcias com Laudelina de Carvalho Machado, filha de Oscar de Carvalho e Amélia Gonçalves de Carvalho, com quem teve quatro filhos:

Maria Teresa Machado Alves, professora aposentada, casada com Elídio Alves Fonseca, pais de Gislene e Cláudia.

Thaís Machado de Souza, normalista, casada com o advogado Dr. Hélio Gonçalves de Souza, pais de Lucas e Lincoln.

Otto Nogueira Machado, engenheiro civil e metalúrgico, casado com Eni Carvalho Machado, pais de Dênio e Cristine.

Izis Nogueira Lima, normalista, casada com o contabilista Olce Lima, pais de Greisson e Ricardo.

Ao completar 40 anos de casamento, dedicou à esposa um poema intitulado "Salve 18 de junho de 1966", como expressão de amor e gratidão.

Dr. Lincoln Nogueira Machado faleceu em 6 de abril de 1968, na Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Seu nome foi eternizado em avenidas de Itaúna, Carmo do Cajurú e Itaguara, bem como no Grupo Escolar de Itaúna. Embora algumas dessas homenagens tenham sido substituídas por novos nomes ao longo dos anos, sua memória permanece viva entre familiares, amigos e conterrâneos.

Sua trajetória exemplar, marcada pela dedicação à Medicina, à educação e à administração pública, consolidou um legado de inestimável valor. Como um bom semeador, deixou flores e frutos ao longo de sua caminhada, garantindo que seu nome jamais se apague da história de Itaúna e da Medicina mineira.


Referências:

Pesquisa, elaboração e arte: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, p. 267-268.

NOGUEIRA, Guaracy de Castro Nogueira. Biografia Dr. Lincoln Nogueira Machado.


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sábado, abril 02, 2022

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (VII)

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA MG
 
PRIMEIRO TEXTO

O texto "ITAÚNA: OS MALES DA ÉPOCA" aborda as doenças que afligem a população do município, destacando a importância do saneamento para a prevenção e controle dessas enfermidades. Inicialmente, são mencionadas doenças como impaludismo (malária), verminose (amarelão) e sífilis, enfatizando que todas elas têm tratamentos conhecidos e medidas preventivas que podem ser adotadas pela população. O autor explica que o impaludismo pode ser combatido eliminando mosquitos, enquanto a verminose pode ser evitada com práticas higiênicas e o uso de vermífugos. A sífilis, por sua vez, é tratável com medicamentos específicos.

No entanto, o texto destaca a morféia (lepra) como o maior desafio, dada sua gravidade e dificuldade de tratamento. A lepra é descrita como uma doença que causa grande temor e que, ao ser diagnosticada, requer isolamento do paciente em leprosários para evitar a disseminação. A presença de um grande número de doentes no município de Itaúna é apontada como uma ameaça ao bem-estar coletivo e à economia local, já que a desvalorização dos produtos agrícolas e das terras pode ocorrer devido ao estigma associado à doença.

O autor apela para a colaboração da população na construção de novas instalações no Leprosário Santa Isabel, argumentando que isso permitirá isolar todos os doentes e, consequentemente, erradicar a lepra do município. É feita uma proposta concreta de arrecadação de fundos, solicitando contribuições financeiras de diferentes segmentos da sociedade, como fazendeiros, comerciantes e industriais, além das mulheres da cidade. O objetivo é reunir uma quantia suficiente para construir um grupo de casas no leprosário e, assim, alcançar o saneamento completo de Itaúna.

O texto conclama os habitantes de Itaúna a não medirem esforços e sacrifícios para realizar essa "grandiosa obra de saneamento" e garantir a salvação e prosperidade do município. O apelo é reforçado pelas assinaturas de várias figuras proeminentes da sociedade local, como médicos e autoridades, demonstrando a seriedade e urgência da questão.

Essa síntese crítica evidencia a preocupação com a saúde pública e o impacto socioeconômico das doenças na comunidade. O texto reflete um período em que o combate a doenças infecciosas era central para o desenvolvimento das localidades e destaca a importância da mobilização coletiva para enfrentar desafios de saúde pública.


ITAÚNA: OS MALES DA ÉPOCA

Excelentíssimo Senhor Prezado Conterrâneo. Iniciamos como não ignorais um movimento, visando o saneamento do município. Muitos males atacam o homem.

Conheceis todos: o impaludismo [1] ou maleita, a verminose ou amarelão [2], a sífilis ou o gáico e a morfeia [3], lepra ou mal de São Lázaro.

Quando a maleita vos ataca, sabeis que o quinino a debéla. Procurais um médico e ele vos aconselhará a evitardes os mosquitos chamados pernilongos, a exterminá-los mesmo, fazendo desaparecer de um torno as vossas casas qualquer poça d´agua, qualquer vasilha que possa coletá-la, ainda que seja em quantidade mínima, porque é na água limpa e parada que os mosquitos se criam e desenvolvem.

Não havendo mosquito, não haverá impaludismo. A verminose ou amarelão quando vos ataca, quando sentis dores nas pernas, desanimo, falta de forças, o rosto pálido, sabeis que os “bichos” vos molestam.

Procurais na farmácia um lombrigueiro ou vermífugo ou consultais a um médico e ele vos receitará esses mesmos medicamentos que já vos são familiares, e vos aconselhará a não andares descalços e a vós utilizares das latrinas sempre, a terdes as mãos sempre limpas, enfim, vos dará os conselhos higiênicos com os quais evitareis o mal.

Se manifestações súbitas de sífilis adquirida, ou tardias de sífilis hereditária, vos aparecem, os médicos em poucos dias as combaterão, preservando-vos o novecentos e quatorze, o mercúrio e as injeções de bismuto que, a breve trecho, farão desaparecer os sintomas alarmantes, tranquilizando o vosso espírito.

São este os males que atacam o homem. São eles curáveis e perfeitamente evitáveis.

Existe, porém um, maior que todos esses outros, que, muitas vezes, vos ataca traiçoeiramente e que vos leva, um dia ao consultório de um médico.

A morféa, esse mal hediondo que a todos aterroriza. Para ela, pode-se dizer, que não encontrais remédios. O médico horrorizado, depois de longo e cuidadoso exame, vos dará a triste notícia e, imediatamente, vos aconselhará a vos afastardes dos vossos.
Aconselhar-vos-á, com um elevado espírito de humanidade, que vos recolhais a um Leprosário, onde podereis vos tratar melhor, com maior probabilidade de cura, ou pelo menos paralisação do mal, isentando, assim, do perigo os demais membros da vossa família e os vossos amigos.

Atentai bem para essa perspectiva dolorosa que a todos nós deve atormentar, enquanto tivermos no município um elevado número de doentes contagiantes, isto é, indivíduos que vos poderão transmitir tão horripilante mal.

No Leprosário Santa Isabel já conseguimos recolher mais de 50 doentes. Temos ainda no município cerca de 200 morféticos espalhados por todos os recantos, menos, felizmente no perímetro da cidade e nas sedes dos distritos, que já se acham saneados. Carecemos recolhe-los todos para que possamos orgulhosamente dizer que no território do município não há mais um único leproso.

Está na vossa boa vontade alcançarmos essa grande conquista. Se o povo do município de Itaúna concorrer para a construção de um grupo de casas no Leprosário, teremos no menor prazo de tempo possível, o município perfeitamente saneado, Lá fora, na Capital e nas outras zonas do Estado, sabe-se que o número de leprosos, em vez de diminuir, vai aumentando, os vossos produtos e irão, casa vez mais, se desvalorizando.

Aquilo que plantais passará a valer menos. Todos os mercados rejeitarão os vossos produtos, os depreciarão de tal forma que não vos valerá a pena vende-los. As vossas terras serão tidas como terras amaldiçoadas, passarão também a nada valer e, assim. O município irá de queda em queda e se transformará numa vasta tapera.

O mal crescerá sempre, contaminará todas as vossas famílias, transformará os vossos filhos nessas guras horrorosas de enfermos, enfermados, mutilados e chagados.

Em 1931 a estatística fornecida pela Saúde Pública dava o município de Itaúna como tendo 75 morféticos, somente. Agora coma remessa de 50 e tantos para o Leprosário, verificou-se que ainda existem perto de 200. Vede como em dois anos aumentou o número de portadores do mal! Vede como se alastra a moléstia!

Auxiliando a construção da vila do município, na Colônia Santa Isabel, concorreis para livrar-nos do grande mal, concorreis para a vossa própria defesa e dos vossos.

Se cada indivíduo der, no prazo de um ano, a quantia mínima de 10$000 (dez mil réis), poderemos dentro de pouco tempo levar a efeito essa grande obra. Fazemos a todos um apelo veemente para que contribuam com o que puderem.

Na classe dos fazendeiros temos 1400 propriedades registradas na Prefeitura. Se cada proprietário der 10$000, serão 14 contos de contribuição só dessa laboriosa classe, para tão útil cometimento. Muitas pessoas hão de dizer que não podem dar tal quantia, mas também quantos poderão, sem sacrifício, da mais do que isso?

Continuando o mal a crescer na proporção que se verifica, serão os fazendeiros os mais prejudicados, pois, todos os seus produtos e suas terras passarão a nada valer.

A grande e numerosa classe dos negociantes se prejudicará também indiretamente, os industriais da mesma forma, todas as classes, enfim toda a coletividade sofrerá um forte desequilíbrio e caminhará para o aniquilamento. O combate incansável, sem tréguas, sem desalento, à morféa é questão de vida ou de morte para essa coletividade, que tanto tem trabalhado para o engrandecimento do município.

Estabelecemos um plano que, certamente, dará resultado se não houver desfalecimentos, se todo o povo medir bem o perigo que lhe apontamos, clara e insofismavelmente.

Se conseguirmos a quantia de 50 contos de réis para as construções que planejamos, teremos dentro de pouco tempo o município saneado. Para isso basta que cada classe contribua, no prazo de um ano, com 10 contos.
Todos os fazendeiros, negociantes, industriais, todos os homens formados, contribuirão, qualquer que ela seja, para constituir também uma quota de 10 contos.

Para mostrar como não é difícil isso damos um exemplo. Itaúna, só a cidade, tendo calculadamente 5.000 habitantes, terá certamente 2.000 mulheres que podem dar 1$000 (mil réis) no prazo de 1 ano, menos de UM TOSTÃO POR MÊS. Estão aí 2 contos de réis. Que representadora perspectiva, poderemos dentro de um ano conseguir tudo isso.

Mãos à obra, pois itaunenses!

Nós vos conclamamos a não medir sacrifícios, a empenhar a todos esforços para essa grandiosa obra de saneamento, para a salvação do nosso grande e próspero município.

Assinaturas:

Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho
Dr. Dario Gonçalves de Souza
Dr. Lincoln Nogueira Machado
Dr. Hely Nogueira
Dr. Ademar Gonçalves de Souza
Dr. José Drummond
Dr. Elizeu M. Jardim — Juiz de Direito e Vice-Presidente de Honra da mesma Sociedade de Proteção aos Lázaros
 
[1] IMPALUDISMO: é o mesmo que Malária. Infecção causada por protozoários do gênero Plasmodium transmitida pela picada de mosquitos do gênero Anopheles, e que se caracteriza por calafrios e febre.

[2] AMARELÃO: A ancilostomose, também conhecida por amarelão, é uma doença causada por vermes nematódeos (espécie: Necator americanus e Ancylostoma duodenale). As formas adultas desses parasitas se instalam no aparelho digestivo dos seres humanos, onde se fixam na porção que compreende o intestino delgado, nutrindo-se de sangue do hospedeiro e causando anemia. Essa doença é transmitida através da penetração ativa de pequenas larvas infectantes na pele de um indivíduo em contato com ambientes propensos, principalmente o solo, contendo fezes contaminadas por ovos que eclodem e desenvolvem as larvas.

[3] MORFEIA: A hanseníase é uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Também conhecida como lepra, morfeia, mal de Hansen ou mal de Lázaro, é responsável por severos danos aos nervos e ao tecido epitelial.



SEGUNDO TEXTO

O texto "Entrevista com o Dr. Alcides Gonçalves de Souza" faz parte de uma campanha de um jornal em Itaúna para promover a internação de todos os leprosos do município no Leprosário Santa Isabel. A entrevista com o Dr. Alcides Gonçalves, um advogado local e figura respeitada, revela a importância desta iniciativa para a comunidade.

Dr. Alcides considera o esforço de combate à lepra como extremamente útil e louvável. Ele destaca que a presença da lepra prejudica as relações sociais, econômicas e comerciais em qualquer localidade. Portanto, livrar Itaúna dos leprosos seria um grande alívio e um exemplo do valor do entusiasmo juvenil ao serviço de uma boa causa. Ele elogia o jornal e os líderes da campanha pela sua dedicação.

Em relação aos possíveis prejuízos causados pela propaganda sobre a lepra, Dr. Alcides menciona que alguns comerciantes de fora estão prevenidos contra produtos de Itaúna, devido à desinformação. Ele relata um caso em que um viajante impediu sua filha de comprar frutas e doces na estação da cidade, devido ao medo da lepra. Dr. Alcides argumenta que a solução está em corrigir esses equívocos, não em paralisar a propaganda útil. Ele sugere que o jornal enfatize que apenas dois casos de lepra foram diagnosticados na cidade, e que os outros doentes estão localizados em zonas rurais afastadas.

A biografia do Dr. Alcides Gonçalves revela suas raízes em Itaúna, sua formação em Direito em Belo Horizonte e sua carreira bem-sucedida em Pitangui, onde foi um colaborador político significativo. Ele faleceu em 1957, e seu legado continua a ser lembrado.

O texto também fornece um contexto histórico sobre a Colônia Santa Isabel, inaugurada em 1931 em Betim, para isolar pessoas com lepra. Na época, a lepra era uma doença temida, e os doentes eram abandonados por suas famílias e isolados na colônia. As condições de vida eram difíceis, pois a medicina ainda não tinha conhecimentos profundos sobre a doença.

Hoje, a lepra, ou hanseníase, está praticamente controlada no Brasil, e a Colônia Santa Isabel vive dias de glória. Este histórico reforça a importância da campanha em Itaúna para evitar que o município sofra os mesmos estigmas e prejuízos enfrentados por outras localidades no passado.

Em síntese, a entrevista com o Dr. Alcides Gonçalves de Souza destaca a importância do combate à lepra em Itaúna, enfatizando tanto os benefícios sociais e econômicos quanto os desafios de desinformação enfrentados. Sua opinião reforça a necessidade de uma abordagem equilibrada, que inclua a correção de equívocos e a continuidade da propaganda educativa.



Entrevista com o dr. Alcides Gonçalves de Souza

Este jornal está fazendo, como sabem os nossos leitores, uma campanha em favor da internação de todos os leprosos do município de Itaúna, no Leprosário Santa Isabel.

Procurou ausculta a opinião da classe média, naturalmente mais em contato com o assunto, e agora vai ampliar as pessoas destacadas de nosso meio, sua sindicância.

Procuramos ouvir, entre os das classe liberais, o dr. Alcides Gonçalves , antigo advogado no Oeste, em Pitangui e nesta cidade e filho de Itaúna.. Prestou-se ele a responder nossas perguntas, como que se segue:

— Acha o senhor útil e louvável o trabalho que se está fazendo, com relação à lepra?

Julgo – o dos mais úteis, louváveis. Alheio a questões que não sejam da minha profissão, acompanho, entretanto, com simpatia qualquer movimento interessante aos problemas capitais de nossa terra. E nenhum supera o da profilaxia da lepra.
Esta moléstia, pelo justificado receio que inspira, prejudica os centro em que existe, nas relações sociais, econômicas, comerciais, para não falar senão da parte alheia no campo médico.

Ora, se Itaúna conseguisse ver-se livre de todos os leprosos do município, seria um pesadelo retirado de sobre todos nós, além de um belo exemplo do valor do entusiasmo de alguns moços, ao serviço de uma boa causa.

É de se louvar o esforço do seu jornal e dos que se acham à frente desta benemérita campanha .

— Pensa que esta propaganda prejudica o município de Itaúna?

Há no caso grandes objetivos, conquistas preciosas, embora acredite em pequenos equívocos momentâneos. Tenho ouvido dizer que alguns comerciantes de fora, mal informados sobre o assunto, estão se prevenindo contra os produtos itaunenses, e corre como autêntico que um viajante impediu, na estação desta cidade, sua   filhinha de adquirir frutos e doces, sob a alegação da morféa ou receio dela.

O remédio está na correção do engano, e não no paralisar a propaganda útil.

Vocês deverão frisar sempre, no seu jornal, que Itaúna possui apenas dois morféticos com diagnósticos positivo. Estes, pela defesa sanitária, como pelo pavor da moléstia, vivem segregados da população.

Outros, existentes no município, e o que vocês dizem orçar por uma centena, localizam-se em zonas rurais afastadas, em regra congregados, pela própria natureza da moléstia, em pequenos núcleos.

O que convém, pois, é esclarecer bem a situação; e se a campanha der o resultado esperado, esses pequenos prejuízos momentâneos serão fartamente compensados.

O Advogado Dr. Alcides Gonçalves de Souza nasceu em Santana de São João Acima (hoje Itaúna/MG), aos 25 dias do mês de abril de 1888,  filho de João Gonçalves de Souza e dona Castorina Honorina Gonçalves de Souza.

Ele era, portanto, pelo lado materno, neto de Manoel José de Souza Moreira e, pelo lado paterno, neto de José Gonçalves de Souza Moreira e bisneto do guarda-mor Antônio José de Souza Moreira.

O dr. Alcides cursou a Faculdade de Direito, em Belo Horizonte, pela qual se diplomou, em 8 de dezembro de 1910, transferindo, em seguida, sua residência, para a cidade de Pitangui, onde instalou, com êxito, sua banca de advocacia, além de se transformar no principal colaborador político de seu tio, dr. José Gonçalves de Souza, que exercia, na importante cidade mineira, expressiva liderança. 

Ele se casou, em janeiro de 1912, com a distinta e prendada senhora dona Alzira Gonçalves de Matos, tornando – se, pois, cunhado do dr. Mário Gonçalves de Matos. O dr. Alcides Gonçalves de Souza faleceu, em 13 de março de 1957, sendo sepultado em Belo Horizonte. (SOUZA, 2002).
 
Inaugurada em 23 de abril de 1931, a Colônia Santa Isabel, instalada no município de Betim, a 30 quilômetros de Belo Horizonte, local onde se enclausuravam pessoas com a doença de lepra e atualmente chamada de hanseníase, vive hoje dias de glória, uma vez que a assustadora doença está praticamente controlada no Brasil.

As pessoas que descobriam serem portadoras da enfermidade eram abandonadas pelas famílias e, como inválidas, eram levadas para a colônia, onde cavam à mercê da sorte, sem a menor chance de sobrevida, visto que, na época, a medicina não possuía conhecimentos profundos da doença, o que impedia que os doentes se curassem.

Naquele tempo os hansenianos eram obrigados a se isolarem na pequena comunidade que era cercada com correntes para impedir o acesso de transeuntes que não fossem portadores da doença. (Blog Notícias de Minas)


Referências:

Pesquisa, Organização, Síntese e Arte: Charles Aquino

Colaboração: Terezinha Pereira (Pará de Minas/MG)

Fonte Impressa: Jornal de Itaúna 17 de setembro de 1933, nº58, pág.1.

Fonte primária: Texto do Museu Sagarana (cidade de Itaguara/MG) sobre “Os Males da Época” década 1930’s.

Impaludismo:
https://www.dicionarioinformal.com.br/significado/impaludismo/2779/

Hanseníase: disponível em: https://www.stoodi.com.br/blog/2018/10/26/hanseniase/
Acervo Portal da Colônia Santa Isabel. Hoje em Dia: https://www.hojeemdia.com.br/primeiro-plano/       filhos-de-pessoas-com- hansen%C3%ADase-ter%C3%A3o-de-ser-indenizados-pelo-estado-1.673114

Acervo Portal da Colônia Santa Isabel: Jornal O Tempo: https://www.otempo.com.br/o-tempo-betim/homem-foi-morto-a-luz-do-dia- na-colonia-st-izabel-1.20052

Acervo: Professor Marco Elísio Chaves Coutinho, Charles Aquino.

SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. ITAÚNA: sua trajetória política, social religiosa, econômica e cultural… : 1765-2002, BH, Ed. Santa Clara, 2002, p.179,180,182.

Fonte Impressa: Hemeroteca Digital Brasileira – Jornal A Noite: Suplemento, 1942, p.2. edição 709

Texto: COLÔNIA SANTA ISABEL, O HOMEM E A LEPRA.
http://jornalistaruitherferrao.blogspot.com/2007/06/colnia-santa-isabel-o- homem-e-lepra_19.html