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terça-feira, agosto 24, 2021

sexta-feira, setembro 20, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (IV)

CENTRO OESTE DE MINAS GERAIS - SAÚDE

Teve grande repercussão em nossa cidade o Concurso de Robustez Infantil promovido pelo Centro de saúde de Divinópolis, como preliminar ao grande concurso que será realizado no fim do ano na Capital do Estado.

O dr. Mario Figueiredo, esforçado diretor daquele centro, não tem poupado energias para o maior brilhantismo do certâmen: grande é o número de prêmios que recebeu aquele posto para serem distribuídos às crianças vencedoras.

Em Itaúna já estão fichadas e prontas para concorrerem ao concurso as seguintes crianças:
FILHO
PAI
Evandro Alberto
dr. Lima Coutinho
Luiz Augusto
dr. Augusto Gonçalves
Zenolia
sr. Crispim Magalhães
Ildeu
sr. Francisco Guimarães
José Jorge
Sr. Messias Jorge
José Joaquim
sr. Alcino Ribeiro
Danilo
sr. Bossuet Guimarães
Renée
sr. Tertuliano Queiroz
Carlo Nei
sr. Acrísio Moura Costa
Guido
sr. Francisco Saldanha
Adolfo
sr. Adolfo Mendes

Há ainda várias outras crianças cujas filhas estão em preparação. Os pais que possuírem filhos robustos, com idades de 3 meses a um ano, e desejarem que concorram ao concurso, devem procurar os drs. Lima Coutinho, Lincoln Nogueira, Hely Nogueira e José Drumond.

Robustez em Divinópolis

A campanha em torno do primeiro Concurso de Robustez Infantil em Divinópolis, estava com base na ideologia da “eugenia positiva[1] (SOARES, 2012), por meio de cuidados biológicos e tratando dos problemas sociais, não como questões raciais, mas como decorrência de precárias condições de saneamento, que grande parte da população urbana e rural do início do século XX se encontravam.

O dr. Figueiredo acreditava que o concurso seria uma forma de conscientizar e educar as famílias para o fortalecimento das sociedades humanas e consequentemente a do país, tendo como principal alvo, “a participação da mulher na construção de uma nação forte e saudável”. (ALMEIDA, 1928, p.160).

As inscrições para o primeiro concurso de robustez foram realizadas no próprio Centro de Saúde de Divinópolis, entre o período de agosto a outubro de 1933.

O local do concurso de Robustez, foi realizado no Cine Avenida, localizado no centro da cidade. Neste evento, reuniram-se cerca de quatrocentas pessoas, entre várias personalidades: políticos, médicos, sanitaristas, colaboradores e a população divinopolitana. 

O concurso foi superintendido pelo dr. Mário Augusto de Figueiredo e composto por um grupo de médicos que constituiu uma comissão de júri: dr. José Drumonddr. Aristóteles de Barros, dr. Dario Gonçalves, dr. Antônio de Lima Coutinho, sendo todos médicos da cidade de Itaúna/MG e dr. Ananias Ataliba Teixeira, médico da cidade de Formiga.

CONCURSO ROBUSTEZ INFANTIL -MG

O evento contou com a presença do farmacêutico e prefeito da cidade de Divinópolis, Pedro X. Gontijo, ficando o discurso inicial na incumbência do juiz municipal, dr. José Pereira Brasil. O orador fez “largas considerações sobre a eugenia” e enalteceu o bom trabalho realizado pelo dr. Mário no município.

Em seguida, foi realizada uma conferência pelo universitário, Paulo Augusto de Figueiredo, filho do dr. Mário, com o tema: “Como enriquecer a nação com filhos sadios e robustos”, referindo-se também aos problemas da higiene infantil e pré-natal, focalizando na questão do amparo a infância proletária.

ROBUSTEZ INFANTIL MG

Encerrada a conferência, dr. Mário deu continuidade ao concurso de robustez que chegou ao número de 50 crianças participantes, sendo classificadas as 10 primeiras robustas recebendo prêmios e brindes como forma de incentivo à saúde. 



REFERÊNCIAS:

ORGANIZAÇÃO E PESQUISA: Charles Aquino
ALMEIDA, Jane Soares de. Imagem feminina e maternidade: o concurso de robustez infantil em São Paulo. 1928. p. 160,163,165,166. Disponível em: <http://emaberto.inep.gov.br/index.php/rbep/article/view/769/744> Acesso em:  04 out. 2016.
AZEVEDO Francisco Gontijo de; AZEVEDO, Antônio Gontijo de. Da História de Divinópolis. Divinópolis: Graphilivros,1988. p.50.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1933, p.6.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1931, p.6.
 JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 24 de novembro de 1933, p.7.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1933, p.11.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 1934, p.5.
JORNAL: LAVOURA E COMÉRCIO, Uberaba, 23 de julho de 1936, p.2.
JORNAL: O OPERÁRIO, Montes Claros, 15 de setembro de 1934, p.1.
AQUINO, CHARLES; SANTOS, HELENO: UEMG. 6º Período História. JORNADA DA SAÚDE: PRÁTICAS EDUCATIVAS E POLÍTICAS EM DIVINÓPOLIS NA DÉCADA DE 30.
ROBUSTEZ EM ITAÚNA TEXTO: Jornal de Itaúna, 22 de outubro 1933, p.1.
ACERVO: Professor Marco Elísio Chaves Coutinho (In Memoriam), Charles Aquino



[1] A eugenia no Brasil foi apropriada e lida de formas extremamente diversas, produziu vertentes mais radicalizadas, que obtiveram pouco efeito prático e também suscitou aproximações menos radicalizadas, onde alguns dos intelectuais brasileiros responderam a suposta “degeneração” advinda da mestiçagem que “acometia” a população brasileira de forma extremamente criativa e arrojada, defendiam que a mestiçagem não constituía um fator de degeneração na população brasileira, mas pelo contrário, a mestiçagem foi entendida como uma das melhores qualidades da população.



quarta-feira, janeiro 09, 2019

HOSPITAL NOVO

HOSPITAL MANOEL GONÇALVES ITAÚNA MG
Caro colega e amigo Dr. Téofilo. Cordiais cumprimentos!

A construção do novo hospital de Itaúna ainda não foi iniciada, estando já escolhida a empresa que vai construí-lo, mas perdura entre aqueles que não concordaram com a escolha do local, a esperança de que a Mesa Administrativa resolva a construí-lo num outro ponto, onde não houvesse as inconveniências daquele que foi escolhido.

Lembro-me ainda de sua opinião, indagando se não havia outro terreno, mais próximo da cidade, ou mesmo na cidade, que melhor se prestasse; com as respostas negativas, mas percebendo bem que o terreno apontado não lhe satisfazia, apontou para o terreno em frente, de propriedade de José de Cerqueira Lima, a cavaleiro da linha férrea.

Foi manifestada pelo Dario a impossibilidade do Cerqueira Lima cedê-lo. Mostrei-lhe, então, outro terreno do lado oposto ao rio São João, local magnífico, num descampado, insolado e ventilado, satisfatoriamente, no alto de um cômoro, absolutamente plano, bem em frente à cidade, mais próximo desta, longe da linha férrea e da estrada de automóvel.

A Mesa Administrativa, no momento representada pelo Dario, Santiago e Drumond, combateram todos esses alvitres, alegando que o terreno apresentado, junto ao atual Hospital era o mais conveniente para a administração, por ser mais próximo e por já pertencer ao Hospital, facilitando a administração do futuro asilo em que se transformará o atual e do novo hospital.

Recordo-me perfeitamente de sua palavra, dizendo uma vez que não me apresentam outro terreno, você leva os dados deste único, para estudar melhor a maneira de nele localizar o Hospital, procurando sanar-lhe os defeitos, entre muitos o de estar muito próximo à linha férrea e à estrada de automóvel e ficar, além disso, entre estas e o rio São João, não podendo se afastar muito daquelas por se tornar maior o declive junto ao rio, o que sanaria em parte os outros dois inconvenientes.

Veio-nos, afinal, o "croquis" para receber sugestão e estas lhe foram enviadas e obedecidas, vindo-nos, posteriormente, o projeto definitivo, magnífico em todos os sentidos e que a todos satisfez. Na carta que V. escreveu ao Dario sugeriu que se não desse ouvidos a opiniões de leigos que quisessem meter o bedelho, com intuito de modificá-lo. Esse seu conselho foi exclusivamente, quanto ao projeto e nunca ao terreno.

Nós que sempre julgamos que a construção no outro local daria maior realce à obra, ficamos satisfeitos também, com a verificação que o projeto pode ser perfeitamente adaptado ao outro terreno, bastando para isso suprimir-se o porão, oriundo do declive do terreno.

Tudo fizemos para convencer aos Membros da Mesa para estudarem a possibilidade de localizá-lo no terreno do Sr. Astolfo Dornas, já anteriormente descrito e de onde se descortina magnífico panorama, visível de qualquer lado que se chegue à cidade, seja por via férrea, seja pela rodovia, longe, portanto dos ruídos e da poeira, com espaço suficiente para ornamentá-lo com um parque em redor, afim de amenizar a vida dos doentes. Tudo foi em vão.

O Dario, de princípio pareceu concordar, mas influindo-lhe demasiado no espírito a opinião do Santiago e como esse, se tornou ferrenho adversário da mudança do local. O Santiago faleceu, há dias, em Belo Horizonte e nós que somos favoráveis à outra localização, queríamos agora outra opinião no caso. 

Deve-se recordar do terreno que temos em vista e que foi combatido pelo Dario porque julgava difícil o abastecimento d'água e por ser de propriedade de terceiros. Esses argumentos não prevalecem e nós queríamos sua opinião abalizada, mais ainda porque os defensores da localização junto ao antigo Hospital alegam que foi esse o maior terreno que V. achou apropriado.

De vez que a Mesa não concordava com nenhum outro e só lhe tenha apresentado aquele, outra não podia ser sua atitude. Alegasse mais ainda que até a opinião de técnicos americanos fosse ouvida e que estes achavam magnífico o terreno. Isso foi ouvido aqui de gente muito boa.... Não concordando em absoluto com essas alegações por me recordar perfeitamente de suas palavras que ainda me foram repetidas aí no Rio quando me indagou se a mesa ainda resistia no intento de localizar o Hospital junto ao antigo.

Ainda ontem conversando com o engenheiro da empresa encarregada da construção ele alegou que no terreno escolhido ela ficará muito mais dispendiosa pela natureza do terreno e que reconhece todos os inconvenientes do ponto de vista de nós outros que não nos apegamos a argumentos sem base e solos para localizar a obra num lugar que possuímos, por certo hão de censurar.

Desejaria, pois, sua opinião definitiva sobre esse caso, para que de futuro, caso a construção se realize no local já escolhido, nós tenhamos ressalvada a nossa responsabilidade. Pedindo-lhe muitas desculpas pela importunação, subscrevo-me com verdadeira estima e especial simpatia, colega e velho admirador,

                                 A.Lima Coutinho                                               
                                                  Itaúna, 2-VI-46

História de Itaúna


Referência:
Carta manuscrita: Doutor Antônio de Lima Coutinho
Acervo Fotográfico: Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho.
Pesquisa e organização: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

segunda-feira, julho 21, 2014

TREM-HOSPITAL


NA FRENTE MINEIRA
Na Revolução de 30, no estado de Minas Gerais na cidade de Belo Horizonte, foi montado um "Trem-Hospital" de Primeiros Socorros que ajudaram a socorrer os combatentes feridos. 

A organização do trem-hospital que prestará socorro ás tropas. Do serviço de Publicidade da Secretaria do Interior de Belo Horizonte recebemos o seguinte comunicado: "Encontra-se definitivamente organizado o "Trem-Hospital" que se destina a prestar socorros medico-cirúrgicos ás tropas mineiras em combate. A execução do plano coube ao Hospital Militar da Força Pública, por determinação do dr. Gustavo Capanema, secretário do Interior.

 O trem-ambulância, que se acha encostado numa das plataformas da Oeste de Minas, foi hoje visitado pela nossa reportagem, que obteve informações completas sobre o aparelhamento e distribuição do comboio-hospital, que se acha provido de todos os recursos necessários para prestar socorros ás forças em operações. A iniciativa de ser colocar o hospital numa composição da Estrada de Ferro Oeste de Minas atende plenamente aos objetivos visado, por isso que o trem pode trafegar livremente na linha desta estrada, estando, portanto, assegurado o seu deslocamento para as zonas de localização de nossas linhas de frente.


FINALIDADES DO "TREM HOSPITAL"
 De acordo com o esboço de regulamento apresentado aos srs. Secretários do Interior e coronel chefe de E.M. das forças em operações, são as seguintes as finalidades do "TREM-HOSPITAL": prestar socorro de urgência aos feridos mais graves que possam ser atendidos na linha de frente; operar todos os casos que exijam intervenção imediata; transportar para os hospitais fixos os feridos, operados ou não, que devam ser hospitalizados e fornecer aos diversos postos fiscais avançados todo o material de que os mesmos necessitem.

COMO SE DISTRIBUI O PESSOAL
 Quanto ao pessoal contratado para o serviço, o "TREM-HOSPITAL" conta com a colaboração de dois cirurgiões, dois médicos internistas e três internos, doutorandos em medicina, cirurgião dentista, um farmacêutico, que é também radiologista, tenente-intendente, prático de farmácia, enfermeiro-chefe, ajudante e copeiro.

OS CARROS E SUAS INSTALAÇÕES

Sete são os carros que formam a composição do "Trem Hospital". No primeiro, próprio para transporte de enfermos em estado grave, além de camas, existe um moderníssimo aparelho de Raio X portátil. Num cômodo desse carro, que é pintado a laquê, há ainda a câmara escura para revelações. Os dois carros seguintes, cedidos pelo dr. diretor da Saúde Pública, foram destinados, um, a sala de operações, munida de material cirúrgico de primeira ordem, e o outro ao serviço de clinica medica, curativos ligeiros e secretaria. Anexo à sala de operações foi instalado o serviço odontológico.

 Além desses carros, há mais o seguinte: carro dormitório, onde se adaptou a enfermaria e o ocupado pela farmácia, onde verificamos a existência de grande stock de drogas, avaliado em 45 contos. Os medicamentos estão acondicionados em 23 malas de campanha, numeradas e providas de um índice, afim de simplificar a procura do remédio desejado. Da mesma composição faz parte uma prancha destinada a condução de uma ambulância-automóvel, posta à disposição do governo mineiro pelo dr. Antônio de Lima Coutinho de Itaúna.


Fonte: Jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro 29 de Julho 1932 pág. 03
Acervo: Prof. Marco Elísio
Pesquisa: Charles Aquino 

quarta-feira, novembro 07, 2012

JOÃO GUIMARÃES ROSA, MEU PAI


Em 1973, idealizada pelo escritor David de Carvalho, a programação cultural desta semana festiva foi dedicada à memória de João Guimarães Rosa, que de lá saíra há quarenta anos, mas prometendo se conservar “itaguaro-itaunense” de coração, para sempre.
  Eu fora convidada a participar, fazendo uma conferência sobre a obra e a personalidade de meu pai.  Desde o momento em que o comitê de recepção nos recebeu à porta da cidade, com ramos de flores e aplausos, Peter e eu nos sentimos itaunenses também, e vivemos dias maravilhosos, ambiente de grande carinho.
  Tudo perfeito. A gentil hospitalidade da família Guaracy de Castro Nogueira, na sua bela mansão às margens da barreira de Benfica. Dona Ivete mandara enfeitar de rosas desde a entrada até a suíte que ocupamos. Garçons enluvados serviram-nos gostosos pratos típicos mineiros. Amigos antigos, que me haviam visto pela última vez quando eu tinha apenas dois anos, foram, pressurosos, me beijar. Estudantes nos entrevistando, gravadores ligados, fotografias, conversas e risos, amizade, curiosidade e uma emoção.
  De parabéns a comissão organizadora, constituída pelo próprio David de Carvalho, José Waldemar Teixeira de Melo, chefe de gabinete do prefeito Hidelbrando Canabrava Rodrigues, os professores Marco Elísio Chaves Coutinho, Francisco De Filippo, José Gomes Miranda, Jefferson Ribeiro de Andrade, diretor da revista literária bel’Contos, e a jornalista e escritora Carmem Schneider Guimarães, casada com o primo de papai, José Luiz Gonçalves, que é advogado e professor. Carmita, como a chamamos na intimidade, é conhecedora entusiasta da obra de meu pai, e muito a tem divulgado, em Minas, com excelentes artigos.

  A programação começou inaugurando o minimuseu Guimarães Rosa, com livros, algumas cartas, fotografias e objetos-lembranças. O seu retrato foi descerrado. Professores fizeram conferências diárias sobre a sua obra, e também falou o tio Vicente Guimarães, que estava com tia Miretta. Ele lançou então o livro infantil Joãozito, Infância de Guimarães Rosa, autografando-o para os alunos de vários grupos escolares da cidade.
  O reitor Guaracy de Castro Nogueira e o diretor da Faculdade de Filosofia, professor Antônio de Oliveira, receberam-nos com muita simpatia. E, para um auditório lotado de alunos, professores e convidados, fiz a conferência de encerramento.  Antes, uma bonita missa celebrada pelo padre que havia sido porteiro do Colégio Arnaldo, onde Joãozito estudara, em Belo Horizonte. E à saída da igreja, uma alegre surpresa: a banda de música de Itaguara – e como papai apreciava uma bandinha ...
  Um dos músicos, velhinho simpático de úmidos olhos verdes, se adiantou, me abraçando: Seu pai, o querido dr. Rosa, salvou a vida de meu filho! Foi um dos melhores momentos ouvir esta frase feliz de um homem cuja gratidão ainda persistia muito forte após quarenta anos.  O enorme sucesso dessa promoção, cultural, a beleza da homenagem, a bondade do povo de Itaúna, permanecerão entre as minhas lembranças mais gratas e queridas.

Vilma Guimarães Rosa

FONTE: ROSA, VILMA GUIMARÃES. Relembramentos: João Guimarçaes Rosa, Meu Pai. Ed. Nova Fronteira S.A., 2008. p.410-411.  


quinta-feira, outubro 04, 2012

JOÃO GUIMARÃES ROSA

ITAGUARO-ITAUNENSE

Rio, 21 de julho de 1958
Meu Caro Coutinho,
Saudades, lembranças, muito afeto.
     Aqui está o nome do atual Cônsul do Brasil em Francforte-s/o Memo, com o endereço do Consulado:
Ilm.º Srn.
Cônsul RODOLPHO KAISER MACHADO
Brasilianisches Konsulat
Scheberstrasse, 1
FRANKFURT  am MAIN   
Deustschland
 (Alemanha).

   Claro que, daqui, de minha parte, estarei com vocês, em prol de Itaúna – e como itaguaro-itaunense  também, de coração. Assim, logo que você escrever ao Cônsul, mande-me aviso, e eu imediatamente irei a ele, em carta aérea, para a “chuchadela”. Industrializemos Minas: - seja o brado, colaborando, outros – sim, na ampla e formidável campanha pelo desenvolvimento econômico do Brasil.
    Sempre seu, meu caro Coutinho, recomendando-me afetuosamente a sua senhora e a todos da Família. E com o grande abraço amigo do

Guimarães Rosa

Acervo: Professor Marco Elísio


domingo, setembro 30, 2012

GUIMARÃES ROSA


João Guimarães Rosa  escreve ao amigo, Dr. Antônio A. de Lima Coutinho de Itaúna.

 Assis, 4 de novembro de 1949

Meu Caro Coutinho,

Em viagem de férias pela Itália, estou passando dia e meio nesta bela, estranha e mística cidade de Assis, toda impregnada ainda do grande santo. Vem – nos a ideia de que aqui é uma das portas, um dos lugares onde será mais fácil e direto o caminho da Terra ao Céu.

Pois bem, ontem à tarde, na basílica de São Francisco, ganhei uma relíquia; depois, na igreja de Santa Clara, uma freira, velhinha e boa como se já vivesse entre isto aqui e o Paraíso, incorrupto, da primeira franciscana. Perguntou-me de onde eu era, de onde vinha, e, ao ouvir o nome Brasil, pôs-se a repetir, mansamente: - " De “tão longe ... De tão longe ... Precisa de levar também uma relíquia, para uma pessoa amiga ... “ imediatamente, no instante mesmo, lembrei-me de você, assim sem mais, sem outra explicação.

Por que, logo naquele momento? Não sei. A saudade tem suas surpresas, e há muita coisa misteriosa, que a gente não sabe. Assim decidi-me logo a enviar-lhe as piedosas lembranças, que, estou certo, hão de fazer prazer a Dona Dulce, cujas mãos beijo e de quem guardo sempre uma muito grande recordação. Como você sabe, estou na Embaixada em Paris, para onde estou regressando, hoje, via Perugia, Florença e Pisa.

Lá, estarei sempre a postos, para o que você desejar. Transmita um forte e saudoso abraço meu ao Ary e minhas recordações à Dona Nair. E acolha outro grande abraço, muito amigo do seu

 Guimarães Rosa


Acervo: Prof. Marco Elísio