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domingo, maio 03, 2026

ITAÚNA FOOT-BALL CLUB

PRIMEIRA AGREMIAÇÃO ESPORTIVA ITAÚNA

PRIMEIRA AGREMIAÇÃO ESPORTIVA

Em maio de 1914, rapazes da época fundaram a primeira agremiação esportiva da cidade denominada “Itaúna Foot-Ball Club”, que tinha por presidente o Sr. Josaphat Santiago, secretário Solon Melo, tesoureiro José Santiago e o juiz treinador Abelardo Lima. 

O campo dos jogos ficava na “Vargem”, nos fundos do Itaúna Hotel, e aos domingos havia partidas frequentadas por grande parte da população. (Dornas, 1936).


Nota histórica sobre a colorização digital da imagem

Destaca-se que a imagem que apresenta o jogador isolado, com boné e o pé apoiado sobre a bola, não corresponde a um registro fotográfico original. Trata-se de uma reconstrução visual gerada por meio de inteligência artificial, elaborada a partir da extração e interpretação de um dos indivíduos presentes na fotografia histórica original.

A partir dessa referência, foram aplicados comandos específicos com o objetivo de produzir uma representação individualizada, inexistente no acervo original. 

Dessa forma, a imagem deve ser compreendida como uma criação digital interpretativa, baseada em elementos históricos, não se configurando como documento primário, mas como recurso visual auxiliar voltado à mediação e à ampliação da compreensão do contexto retratado.

Trata-se de um registro visual cuja materialidade e características técnicas indicam produção em contexto histórico anterior à popularização da fotografia em cores, o que limita a identificação precisa dos elementos cromáticos originais.

A versão colorida apresentada foi produzida por meio de técnicas de inteligência artificial (IA), com o objetivo de oferecer uma reconstituição visual interpretativa das possíveis cores da cena.

Ressalta-se que não existem registros cromáticos da fotografia original, sendo, portanto, impossível determinar com precisão absoluta as cores utilizadas no momento do registro. Nesse sentido, a imagem colorizada deve ser compreendida como uma aproximação visual fundamentada, e não como reprodução fiel.

A colorização adotou como base critérios históricos e técnicos, considerando estudos sobre vestuário esportivo do período, padrões de contraste em fotografia monocromática e a cultura material associada ao futebol nas primeiras décadas do século XX. 

Todavia, a utilização de inteligência artificial em contextos de preservação e interpretação do patrimônio cultural demanda reflexão crítica.

Conforme aponta Bravo (2024), embora tais tecnologias apresentem elevada capacidade de processamento e reconstrução visual, sua aplicação exige avaliação quanto à viabilidade, à sustentabilidade e, sobretudo, às implicações éticas relacionadas à autenticidade e ao valor cultural dos bens patrimoniais. Nesse contexto, torna-se fundamental a atuação interdisciplinar entre especialistas das áreas de arte, tecnologia e conservação.

Além disso, a interpretação da imagem não deve ser entendida como um processo fixo ou definitivo. De acordo com Rodrigues e Rodrigues (2013), interpretar uma imagem implica atribuir sentidos e significados que variam conforme o contexto, a experiência e o olhar do observador, configurando-se como uma leitura possível entre múltiplas alternativas.

Assim, a colorização aqui apresentada constitui apenas uma dentre diversas interpretações plausíveis, construída a partir de critérios técnicos e referências históricas. No campo da preservação e restauração de imagens, a dimensão ética também se impõe como elemento central.

Costa destaca que intervenções visuais devem manter um equilíbrio rigoroso entre a recuperação estética e a preservação da integridade do documento original, evitando que a ação interpretativa ultrapasse os limites da reconstituição e se configure como alteração indevida. 

Tal princípio orientou o processo de colorização, buscando minimizar anacronismos e respeitar as características históricas da imagem.

A presente imagem consiste em uma versão colorizada, por meio de inteligência artificial, de uma fotografia originalmente em preto e branco, provavelmente datada das primeiras décadas do século XX, representando uma equipe de futebol acompanhada de um adulto, possivelmente treinador, dirigente ou professor, posando em ambiente externo.

PRIMEIRA AGREMIAÇÃO ESPORTIVA ITAÚNA

Dessa forma, a versão colorizada constitui um recurso interpretativo que amplia a legibilidade e a acessibilidade do registro histórico, especialmente para públicos contemporâneos.

No entanto, não substitui o documento original em preto e branco, que permanece como fonte primária e referência fundamental para a análise histórica. Ambas as versões devem ser compreendidas de maneira complementar: a original como suporte documental autêntico e a colorizada como instrumento de mediação cultural.


Justificativa técnica

Camisas dos jogadores (azul escuro / azul-marinho):

Escolha baseada na tonalidade muito escura observada na imagem original em escala de cinza. Tecidos utilizados em uniformes esportivos do início do século XX frequentemente apresentavam cores sóbrias como azul-marinho, preto ou verde escuro, devido à durabilidade e disponibilidade de pigmentos.

Calções (branco / off-white):

A alta refletância na fotografia indica tonalidade clara. Registros históricos mostram que calções brancos eram amplamente utilizados no futebol da época, sendo uma convenção comum.

Lenços ou gravatas (branco):

Elementos visivelmente claros na imagem original. O uso de lenços ou gravatas leves fazia parte de uniformes esportivos iniciais, especialmente em contextos amadores ou escolares.

Meias (azul escuro):

Harmonizadas com a cor das camisas, seguindo práticas comuns de uniformização visual em equipes.

Calçados (marrom couro):

Baseado no uso predominante de botas de couro natural no período, frequentemente em tonalidades marrons.

Bola (marrom):

Coerente com bolas de futebol antigas, confeccionadas em couro cru ou tratado, com costuras aparentes.

Traje do adulto (terno marrom/cinza):
Inspirado na moda masculina formal da época, caracterizada por tecidos como tweed e cores neutras.

Vegetação (tons naturais de verde):
Aplicados de forma realista, considerando iluminação difusa e textura de vegetação densa.

Considerações metodológicas

   A colorização não deve ser interpretada como reprodução fiel, mas sim como uma interpretação cromática plausível, baseada em: análise de contraste da fotografia original; referências históricas de vestuário esportivo; conhecimento sobre materiais e pigmentos disponíveis no período; e padrões visuais de equipes de futebol do início do século XX.

   Adicionalmente, a geração da imagem individualizada por inteligência artificial constitui uma reconstrução interpretativa derivada da fotografia original, elaborada a partir da extração e reconfiguração de elementos visuais, não correspondendo a um registro histórico autêntico.

   Todas as intervenções foram realizadas com o compromisso de minimizar anacronismos e manter coerência histórica, respeitando a distinção entre documento original e produções derivadas.

PRIMEIRA AGREMIAÇÃO ESPORTIVA ITAÚNA

 Identificação do objeto

Título atribuído:  Itaúna Foot-Ball Club

Datação estimada: c. 1900 - 1914

Tipologia: Fotografia histórica (retrato coletivo)

Suporte original: Fotografia monocromática (preto e branco)

Localização: Município de Itaúna (MG)

Estado da imagem original: Baixa definição, granulação acentuada, perda de detalhes finos

Acervo:  DORNAS FILHO, João (1936)

Natureza da intervenção

Tipo de intervenção: Colorização digital interpretativa e geração de imagem derivada por inteligência artificial

Tecnologia empregada: Modelos de inteligência artificial para reconstrução cromática assistida e geração de imagens a partir de referência visual

Mediação humana: Curadoria e ajuste manual das cores, bem como definição de parâmetros e comandos para geração da imagem derivada, com base em referências históricas

Finalidade: Mediação cultural, difusão e ampliação da legibilidade visual, bem como exploração interpretativa de elementos presentes na fotografia original

Caráter: Não substitutivo — a imagem original permanece como documento primário, sendo as demais versões compreendidas como derivações interpretativas

 Sobre o uso de inteligência artificial

A imagem foi processada utilizando modelos de inteligência artificial treinados em reconhecimento visual e geração de imagens, capazes de aplicar cores de forma contextual. A intervenção humana orientou as escolhas cromáticas, garantindo alinhamento com referências históricas.

Adicionalmente, a inteligência artificial foi empregada na geração de uma imagem derivada, correspondente à representação individualizada de um dos jogadores presentes na fotografia original.

Essa imagem foi produzida a partir da interpretação de elementos visuais extraídos do registro histórico, mediante comandos específicos, não correspondendo, portanto, a um documento fotográfico original.

  Conclusão

A versão colorizada constitui um recurso interpretativo que amplia a legibilidade e a acessibilidade do registro histórico, especialmente para públicos contemporâneos. Sua elaboração baseou-se em critérios históricos e técnicos, orientados pela busca de verossimilhança e pela minimização de anacronismos.

Ressalta-se, contudo, que a imagem colorizada não substitui o documento original em preto e branco, o qual permanece como fonte primária e referência fundamental para análise histórica. Ambas as versões devem ser compreendidas de forma complementar, sendo a primeira um instrumento de mediação e a segunda o suporte documental autêntico.

Adicionalmente, a imagem individual gerada por inteligência artificial deve ser compreendida como uma reconstrução interpretativa derivada da fotografia original, não se configurando como registro histórico, mas como recurso visual auxiliar voltado à ampliação da compreensão do contexto representado.

 

Organização e pesquisa: Charles Galvão de Aquino. Historiador – Registro nº343/MG.

Referências:

BRAVO, Teddy Alex Cevallos. Tecnologías para la conservación del arte y patrimonio cultural: algoritmos de inteligencia artificial en aplicaciones. Revista ASRI. Universidad Técnica de Manabí, 2024. Disponível em: https://revistaasri.com/article/view/6741/7327. Acesso em: 2026.

COSTA, Júnior. Revitalizando o passado: IA transforma restauração de imagens. Disponível em: https://juniorcosta.com.br/revitalizando-o-passado-ia-transforma-restauracao-de-imagens/. Acesso em: 2026.

DORNAS FILHO, João. Itaúna: contribuição para a história do município. 1936. p. 86-87.

RODRIGUES, Iara; RODRIGUES, Liliana. Fotografia e a interpretação do real. In: INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2013. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2013/resumos/R8-1342-1.pdf. Acesso em: 2026. 


quarta-feira, abril 22, 2026

O BRASIL EM XEQUE (1831)

CORCUNDAS X PATRIOTAS

O Brasil volta a ferver...

Opiniões rígidas. Discursos inflamados. Certezas absolutas de todos os lados.

Mas antes de achar que estamos vivendo algo inédito, vale uma pergunta incômoda:
isso é realmente novo… ou apenas mais um capítulo de uma velha história?

Em 1831, o país já enfrentava um cenário de intensa divisão política. De um lado, os chamados “corcundas”, defensores da ordem tradicional e da monarquia.

Do outro, os “patriotas”, que questionavam esse modelo e defendiam mudanças profundas na organização do país.

O texto do historiador itaunense João Dornas Filho, ao apresentar esse embate em forma de diálogo popular, revela algo que atravessa o tempo: a dificuldade de lidar com o diferente sem transformá-lo em inimigo.

Ali, como agora, não faltavam acusações, certezas morais e discursos carregados de verdade absoluta.

Ali, como agora, o debate muitas vezes dava lugar ao confronto.

Revisitar “Corcundas x Patriotas” em 2026 não é apenas olhar para o passado.
É reconhecer padrões que insistem em se repetir.

Porque talvez o problema nunca tenha sido apenas quem estava certo…

mas a forma como escolhemos discordar.

Leia o texto completo:

CORCUNDAS X PATRIOTAS

E depois reflita:

Mudaram os nomes… ou continuamos vivendo o mesmo conflito?

Referência:

AQUINO, CharlesGalvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

FILHO, João Dornas: A abdicação e a musa popular em 1831 — CULTURA POLÍTICA — Revista mensal de estudos brasileiros. - INVENTÁRIO - BN - Rio de Janeiro, Ano IV Nº 41- Junho de 1944, p.155-159.

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 



sexta-feira, abril 04, 2025

ITAUNENSE MODERNISTA

HISTORIADOR JOÃO DORNAS FILHO

Minas também foi moderna: a história esquecida do modernismo fora de São Paulo

Quando se fala em modernismo no Brasil, quase sempre o foco recai sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. É como se tudo tivesse começado ali, com Mário de Andrade, Oswald e companhia. 

Mas será que é justo contar essa história como se outros estados fossem apenas plateia? Minas Gerais, com sua tradição literária riquíssima, também teve papel fundamental nesse movimento e já passou da hora de darmos a devida atenção a isso.

Em seu artigo “O modernismo mineiro” de 1970 do “suplemento Literário” paulista, o crítico e Professor Fábio Lucas nos convida a olhar para o modernismo sob outro ângulo.

 Ele se apoia em estudos do sociólogo Fernando Correia Dias para mostrar que o modernismo mineiro não foi uma simples réplica do paulista. Pelo contrário: teve vida própria, personalidade forte e raízes bem fincadas no solo mineiro.

Antes mesmo de 1922, autores mineiros como João Alphonsus e Ronald de Carvalho já estavam experimentando formas novas de expressão literária. Em 1921, a obra Panóplia, de Carvalho, já trazia o frescor do novo em um momento em que o modernismo paulistano ainda se organizava. Ou seja, enquanto os refletores ainda nem tinham sido ligados em São Paulo, Minas já respirava modernidade.

Mas o que torna o modernismo mineiro tão especial não é apenas sua cronologia. É a forma como os escritores mineiros conseguiram integrar a tradição local à ousadia estética. Eles não queriam romper com tudo, mas sim reinterpretar com espírito crítico e linguagem nova  aquilo que fazia parte da alma mineira. 

Um exemplo marcante é a revista Leite Crioulo, idealizada pelo itaunense João Dornas Filho com colaboração de jovens como José de Guimarães Alves. A publicação foi ousada, provocativa, e acabou sendo censurada em 1929, sinal claro de que mexeu com estruturas conservadoras.

Ainda assim, por que essa história ficou esquecida? Talvez porque os mineiros não fizeram tanto barulho. O modernismo em Minas foi mais silencioso, mais profundo, menos performático e talvez por isso tenha sido deixado de lado pelas narrativas mais convencionais. Fábio Lucas questiona justamente isso: por que insistimos em contar uma história do modernismo tão centrada em São Paulo, quando há tanta riqueza criativa em outras regiões?

Em suma, revisitar o modernismo mineiro é mais do que um exercício de memória é um gesto de justiça literária. É reconhecer que a modernidade no Brasil sempre foi plural, diversa e profundamente enraizada nas realidades regionais. Autores como João Dornas Filho, Rosário Fusco, Aquiles Vivacqua, Guilhermino César e Francisco Inácio Peixoto merecem estar no mesmo panteão daqueles que transformaram a literatura brasileira. E mais: merecem ser lidos, discutidos e redescobertos ao lado dos modernistas mineiros já consagrados como Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Pedro Nava, Cyro dos Anjos, Abgar Renault e outros (grifo meu).

No fim das contas, valorizar o modernismo mineiro é valorizar a diversidade cultural do Brasil. É perceber que nossa identidade literária não cabe em um só palco. Minas também foi moderna  e talvez tenha sido moderna à sua maneira, com silêncio, sutileza e força. E isso, convenhamos, é muito mais interessante do que uma história contada pela metade.


Quem é Fábio Lucas?

Fábio Lucas foi um renomado crítico literário, ensaísta e professor mineiro. Autor de dezenas de livros sobre literatura brasileira, especialmente sobre a literatura mineira, ele foi membro da Academia Mineira de Letras (Cadeira 22/1931) e teve atuação destacada na valorização de vozes regionais na crítica literária. Sua obra é marcada por uma visão crítica e plural da cultura nacional, sempre buscando destacar autores e movimentos esquecidos ou marginalizados pela historiografia tradicional.

 Saiba mais 


Referências:

Pesquisa e elaboração: Charles Galvão de Aquino

Jornal Suplemento Literário, São Paulo, 30 de maio 1970, p.4, Ed.672.

Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional 

sábado, março 01, 2025

TEMPOS DE GUERRA

"OUVI..." 

Em tempos de guerra e conflitos incessantes, a história nos ensina que o conhecimento e a fraternidade são os verdadeiros pilares de uma sociedade justa e equilibrada.

No poema "OUVI...", escrito em 1922, o itaunense João Dornas Filho nos convida a enxergar além do campo de batalha, a questionar a validade do sangue derramado em nome de ambições fugazes e a reconhecer o poder transformador da educação. 

Com versos marcantes e uma crítica contundente ao militarismo, o poeta propõe um novo ideal de luta: não com armas, mas com palavras, não com destruição, mas com aprendizado.

Se cada estudante é um herói, como nos diz Dornas Filho, cada livro aberto é um escudo contra a ignorância e cada sala de aula, uma fortaleza para o futuro. 

A leitura deste poema não é apenas um exercício literário, mas um chamado à consciência, uma oportunidade de repensarmos os valores que realmente constroem o mundo.

O poema "OUVI...", de João Dornas Filho, é uma peça lírica profundamente imbuída do espírito modernista e pacifista do início do século XX. Escrito em 1922, o poema dialoga com o contexto histórico da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), cujas cicatrizes ainda marcavam a humanidade, e ecoa uma das grandes preocupações do modernismo brasileiro: a necessidade de transformar valores e redefinir heroísmos.

Com forte carga crítica, a obra contrapõe o militarismo e a glória passageira da guerra à educação e à fraternidade, elevando o conhecimento e a união como ideais superiores à violência.

Desde os primeiros versos, Dornas Filho convoca os guerreiros a repensarem suas trajetórias:

"Pugillo heroico de guerreiros fortes!
Vós que lutaes pela sangrenta gloria,
Mudae vossos destinos, vossos nortes;
De outro modo encarae vossa victoria!"

A escolha da palavra "pugilo" (do latim pugillus, que significa "punhado") já sugere a diminuição da grandiosidade atribuída aos guerreiros. O poeta reconhece a força e a coragem dos soldados, mas ironiza sua busca por uma "sangrenta glória". O uso do termo "sangrenta" é crucial para evidenciar a crítica: a glória, assim conquistada, vem sempre ao custo de sofrimento e destruição.

No segundo quarteto, a inutilidade da guerra fica ainda mais evidente:

"Que vale o sangue vosso derramado,
Em pró da primazia transitória;
Se o vencedor se assenta fatigado
E sobre as ruinas de sua própria gloria?"

Aqui, Dornas Filho recorre a uma argumentação lógica: mesmo aquele que vence a guerra sofre as consequências. O vencedor, longe de alcançar um triunfo absoluto, encontra-se "fatigado", rodeado de ruínas. O termo "primazia transitória" reforça a efemeridade do poder bélico, sugerindo que a dominação obtida pela força é passageira e, muitas vezes, ilusória. Essa percepção já se fazia presente em diversas reflexões da época, como nos escritos de Erich Maria Remarque (Nada de Novo no Front, 1929) e nos discursos pacifistas de Mahatma Gandhi.

O questionamento continua no terceiro quarteto:

"Que vale a vossa indômita coragem,
A batalhar pela ambição funesta,
Se esta, em verdade, é pútrida voragem,
Que cem mil guerras num momento apresta?"

Dornas Filho descontrói o conceito de bravura associado à guerra. A "indômita coragem" dos guerreiros não é negada, mas sim ressignificada: ao ser direcionada para uma "ambição funesta", torna-se um mecanismo de destruição em massa. A metáfora de hostilidades como uma "pútrida voragem" (isto é, um abismo podre e devorador) remete à ideia de um ciclo vicioso, onde cada desinteligência gera inúmeros outros, um prenúncio da lógica destrutiva que culminaria em uma Guerra Mundial.

No quarto quarteto, há uma transição na argumentação: o poeta propõe uma alternativa à guerra:

"Lutae, lutae pela fraternidade!
Pugnae pelo alphabeto, que constróe!
Se é fortaleza uma universidade,
Cada estudante é um desestimido herói!"

A escolha da palavra "lutae" (imperativo do verbo lutar) sugere que a batalha não precisa cessar, mas deve ser redirecionada para uma causa mais nobre: a fraternidade e o conhecimento. O poeta defende a alfabetização e o aprendizado como meios de construção ("alphabeto, que constróe"), contrastando diretamente com o caráter destrutivo da guerra.

A metáfora da "universidade como fortaleza" redefine os espaços de combate: em vez dos campos de batalha, o verdadeiro cenário de transformação está na sala de aula. A escolha do termo "desestimido herói" para os estudantes reforça que o heroísmo não reside apenas na força bruta, mas sim na dedicação ao saber.

A expressão “desestimido herói”", presente no poema de João Dornas Filho, não é um termo comum na língua portuguesa atual. O termo parece derivar de “desestimar”, que significa não dar valor, desprezar ou considerar de pouca importância. “Desestimido” poderia ser, então, alguém que não é devidamente valorizado ou reconhecido.

Dessa forma, a expressão “desestimido herói” pode ser interpretada como uma homenagem ao estudante, que, embora não seja celebrado como um guerreiro, desempenha um papel fundamental na construção de um mundo melhor. Em um Brasil ainda marcado pelo analfabetismo e por políticas excludentes de acesso à educação no início do século XX, essa defesa do ensino como um valor supremo ganha contornos progressistas.

O poema culmina em um chamado simbólico para a transmutação da violência em amizade:

"Abatei o fuzil, destruí a lança!
Fazei de ambos o escudo da amizade!
Pois se a paz é irmã gêmea da Esperança,
Irmã gêmea de Deus é a Humanidade!"

Aqui, Dornas Filho emprega um tom quase messiânico, evocando imagens bíblicas de redenção e reconciliação. O uso de verbos imperativos ("abatei", "destruí") sugere uma ação concreta e imediata: as armas devem ser convertidas em instrumentos de proteção e amizade.

A relação metafórica entre a Paz e a Esperança e, posteriormente, entre a Humanidade e Deus, atribui um caráter divino ao ideal pacifista. Essa perspectiva se alinha a discursos humanistas e cristãos, aproximando-se de conceitos presentes no Sermão da Montanha, onde os pacificadores são chamados de "filhos de Deus".

O poema "OUVI..." de João Dornas Filho é um forte manifesto contra a guerra e um apelo à transformação social através da educação e da fraternidade. Sua estrutura, baseada em quadras de versos decassílabos, confere musicalidade e força ao discurso, enquanto seu tom imperativo incita uma mudança de mentalidade.

Ao destacar a efemeridade da glória militar, Dornas Filho se alinha a um pensamento progressista que valoriza a cultura e o conhecimento como verdadeiros pilares da civilização. Sua mensagem ressoa com as ideias de pacifistas e educadores como Paulo Freire, que, décadas depois, reforçaria a educação como um meio de libertação.

Embora escrito há mais de um século, o poema mantém uma atualidade impressionante. Em tempos de conflitos geopolíticos persistentes e desafios globais, sua mensagem nos recorda que o verdadeiro heroísmo não está no campo de batalha, mas sim nas páginas dos livros e no compromisso com a paz.

Aceite esse convite. Leia "OUVI..." e descubra como a palavra pode ser a maior arma da humanidade.

OUVI...

Pugillo heroico de guerreiros fortes!
Vós que lutaes pela sangrenta gloria,
Mudae vossos destinos, vossos nortes;
De outro modo encarae vossa victoria!

Que vale o sangue vosso derramado,
Em pró da primazia transitória;
Se o vencedor se assenta fatigado
E sobre as ruinas de sua propria gloria?

Que vale a vossa indomita coragem,
A batalhar pela ambição funesta,
Se esta, em verdade, é putrida voragem,
Que cem mil guerras num momento apresta?

Lutae, lutae pela fraternidade!
Pugnae pelo alphabeto, que constróe!
Se é fortaleza uma universidade,
Cada estudante é um desestimido herói!

Abatei o fuzil, destruí a lança!
Fazei de ambos o escudo da amizade!
Pois se a paz é irmã gêmea da Esperança,
Irmã gêmea de Deus é a Humanidade!


JOÃO DORNAS FILHO (1922)

  

Referências:

Poema: FILHO, João Dornas. Poema Ouvi, Revista o Malho, 1922, s/n.

Elaboração e arte: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

domingo, setembro 08, 2024

CORCUNDAS X PATRIOTAS

A obra do historiador itaunense João Dornas Filho oferece um retrato incisivo dos conflitos ideológicos que marcaram o Brasil em 1831, particularmente no contexto da abdicação de D. Pedro I. Através do diálogo entre o “Corcunda” e o “Patriota”, o autor consegue explorar temas profundos como o embate entre tradição e modernidade, a hipocrisia política e religiosa, e a divisão interna entre os brasileiros. O uso de uma linguagem popular em forma de versos reforça a crítica social, tornando o texto um importante documento histórico e literário, que ajuda a entender as complexidades do período pós-independência no Brasil.

A análise do texto "A Abdicação e a Musa Popular em 1831", de João Dornas Filho, revela uma rica crítica social e política do Brasil no contexto da abdicação de D. Pedro I, “após o 7 de abril”. A obra utiliza uma forma popular, o diálogo em versos entre dois personagens — o “Corcunda” e o “Patriota” —, representando facções opostas da época: os “corcundas”, que defendiam o retorno do imperador, e os “patriotas”, que lutavam pela independência e pela formação de uma república.

O texto está inserido em um período de instabilidade política no Brasil, onde dois partidos principais surgem com visões antagônicas sobre o futuro do país. De um lado, os “corcundas”, nome pejorativo dado aos defensores da monarquia e da volta de D. Pedro I, e de outro, os “patriotas”, que defendiam a continuidade da independência e o afastamento da figura imperial. A luta ideológica desses dois grupos é retratada de forma alegórica, com um “Corcunda” e um “Patriota” debatendo sobre os valores que acreditam ser corretos para a nação.

O “Corcunda” representa a defesa do status quo, com uma visão conservadora e centralizadora, muitas vezes associada ao despotismo. Ele se mostra fiel a um ideal de monarquia como instituição sacralizada e vinculada ao direito divino, como se observa na referência ao rei Davi, comparando D. Pedro I a uma “figura ungida por Deus”. Ao longo do diálogo, ele usa a tradição e a fé como argumentos para justificar a necessidade de um governo monárquico forte, resistente às mudanças propostas pelos patriotas.

O “Patriota”, por sua vez, simboliza a contestação dessa ordem e a busca por novas soluções, questionando o valor da monarquia e defendendo o progresso republicano. Ele desdenha o romantismo de seu oponente, associando os "corcundas" a figuras ultrapassadas e obsoletas, comparando o rei Davi a um "pobre coitado" e criticando o que considera ser uma era de tiranos.

Dornas Filho usa a “musa popular” para refletir a opinião pública da época. Ao recorrer a versos e formas de expressão acessíveis, ele traz para o texto a voz do povo, que, de maneira crítica, usava essas representações para satirizar a situação política do país. Esse recurso literário é valioso, pois preserva as nuances das opiniões populares, muitas vezes marginalizadas pela história oficial. A utilização de um formato popular torna o texto mais próximo das práticas culturais de resistência e debate que aconteciam fora dos círculos do poder. 

Dornas ressalta a definição de “Corcunda” da época, conforme descrita no dicionário “Carcundático” ou na explicação das expressões dos “Carcundas” por José Joaquim Lopes de Lima, de 1821, informando que: “Homem que, feito, e satisfeito com a carga do despotismo, se curva, como o dromedário, para recebê-la; e trazendo esculpido no dorso o indelével ferrete do servilismo, tem contraído o hábito de não erguer mais a cabeça, recheada das estonteantes ideias de uma sórdida cobiça.”   

 

Temas Principais através do diálogo entre o “Corcunda” e o “Patriota”

O diálogo entre o “Corcunda” e o “Patriota” reflete uma disputa entre a manutenção das estruturas tradicionais e a busca por novas formas de governo. A argumentação do “Corcunda” se baseia na preservação da ordem monárquica, enquanto o “Patriota” anseia por uma transformação que rompa com os resquícios coloniais. Um tema recorrente é a desunião entre os próprios brasileiros. O “Patriota” acusa o “Corcunda” dissipar e perseguir seus próprios compatriotas, com a metáfora de lobos que devoram cordeiros. Isso ilustra a violência e a repressão que acompanhou os conflitos internos do Brasil nesse período, refletindo as dificuldades de consolidação da independência.

A religião é um tema subjacente nas falas do “Corcunda”, que constantemente evoca Deus para justificar suas posições. O “Patriota”, no entanto, desmascara a hipocrisia dessas argumentações, associando-as à defesa de interesses egoístas. A referência ao rei Davi é um exemplo dessa desconstrução: o “Patriota” lembra que, embora ungido por Deus, era um simples pastor, questionando a idealização da figura monárquica.

O diálogo também revela as tensões sociais latentes no Brasil do século XIX, com o “Patriota” denunciando a opressão exercida pelos poderosos sobre os mais fracos, simbolizada na metáfora dos lobos. As menções a "carbonários" e "pedreiros" por parte do “Corcunda” indicam uma crítica às forças revolucionárias e republicanas que estavam ganhando força naquele período. Esse texto é uma crítica expressa em tom sarcástico e satírico contra os movimentos políticos e sociais que desafiaram a monarquia e a Igreja Católica em Portugal, especialmente durante o período de D. João VI, rei de Portugal, que governou durante um período tumultuado marcado por tensões entre monarquistas e liberais.

O Movimentos Liberais dos “pedreiros” e “carbonários” mencionados são referências aos maçons, grupos secretos que eram vistos como subversivos pelos monarquistas e católicos, pois defendiam ideias liberais e republicanas. O autor critica a Constituição e a anarquia, associando-as à desordem e à falta de moralidade, em contraste com a ordem e a religiosidade defendidas pelos monarquistas.

Os opositores são retratados como inimigos da religião, que “não querem saber de missa” e “mofam de tudo o que diz o novo Testamento”. Isso sugere que o autor vê os liberais como anticristãos — descrença religiosa. Os “infames patriotas” são acusados de desrespeitar a nobreza e as tradições, o que para o autor é um sinal de decadência moral. O texto exalta a família real, particularmente D. João VI, como “pio e santo”, e expressa a visão de que a monarquia foi instituída por Deus para governar com justiça e piedade. O autor valoriza a nobreza de sangue e de comportamento, criticando a falta de respeito que os “patriotas” têm por essas tradições. No entanto, ao longo do texto, fica evidente que, apesar desse reconhecimento, ele continua comprometido com a defesa de uma ordem antiga, com medo das mudanças representadas pelos “patriotas”.

O texto utiliza estereótipos para ridicularizar os liberais, pintando-os como ímpios, desorganizados e inimigos da ordem social. O trecho, que fala sobre estar “contente de ver tudo acabado”, sugere uma ironia amarga, possivelmente expressando uma frustração pela situação política. O texto reflete o pensamento conservador e monarquista da época, defendendo a tradição, a religiosidade, e a hierarquia social, enquanto critica os movimentos liberais que ameaçavam essas estruturas. É um exemplo da retórica polarizadora e do conflito ideológico que marcou o período. O texto segue com ambos discutindo o estado político e social do Brasil no período pós-abdicação de D. Pedro I, refletindo sobre traições, revoltas e o destino do país.

A retórica satírica e polarizadora revela o conflito ideológico da época. O “Patriota” usa uma linguagem crítica e sarcástica para ridicularizar a monarquia e expor as injustiças sociais, enquanto o “Corcunda” tenta justificar suas crenças com argumentos religiosos, eventualmente se resignando diante das críticas.

Os textos de que fazem parte esse diálogo refletem as tensões políticas e sociais do Brasil pós-abdicação de D. Pedro I, marcadas pela disputa entre conservadores e liberais. O uso de trocadilhos, rimas e figuras de linguagem sugere que esses textos foram pensados para um público popular, talvez circulando em panfletos ou discussões públicas, com o objetivo de difundir ideias e criticar o status quo.

Esses diálogos, ao incorporar personagens simbolicamente nomeados como “Patriota” e “Corcunda”, personificam o embate entre os defensores da monarquia e os partidários de uma sociedade mais igualitária. A crítica ao regime monárquico e à hierarquia social é clara, e a narrativa expõe as injustiças e a opressão das classes mais baixas.

O uso de figuras bíblicas e metáforas religiosas pelos dois personagens reflete a importância da religião nos debates políticos da época, e a linguagem acessível e popular sugere um apelo direto ao público. Esses textos, marcados pela sátira e pela crítica política, são testemunhos das lutas simbólicas que precederam as mudanças sociais no Brasil do século XIX.

 

A ABDICAÇÃO E A MUSA POPULAR EM 1831

CORCUNDA X PATRIOTA

Por João Dornas Filho

 “Logo após o 7 de abril, a política brasileira entrava em ebulição tumultuosa, devida ao aparecimento de dois partidos que pugnavam, cada qual com mais calor e veemência, pela vitória das suas ideias. Eram os “corcundas”, que se batiam pela volta de D. Pedro I, e os “patriotas”, figadalmente adversários desta solução, não repugnando alargar os seus princípios até à implantação da república. Dessa época tormentosa da nossa história ficaram inúmeros documentos em que aparece a “musa popular” criticando os homens e os fatos, como este curioso diálogo entre dois adversários:”

 

CORCUNDA — Deus lhe guarde, meu senhor. 

 

PATRIOTA — Venha com Deus, cavalheiro, 

venha logo me dizendo 

se é "corcunda" ou "brasileiro". 

Vejo-lhe bem divisado 

na cabeça um grande galho, 

bem me parece ser 

da vazante o espantalho.

 

CORCUNDA — Sim, senhor, eu sou corcunda 

e morro pelo meu rei; 

esta divisa que trago 

é da sua real lei; 

se o senhor é patriota, 

provisório cidadão, 

se fala contra o meu rei, 

é judeu, não é cristão. 

E com isto já me vou, 

não quero mais esperar. 

O senhor é jacobino 

pelo modo de falar.

 

PATRIOTA — Dê-me atenção, senhor, 

não se faça esforicido; 

um homem apaixonado 

não dá prova de entendido. 

Eu conheço o seu caráter, 

não é de tolo e vário, 

mostra ser de um pensante 

ou de um escriturário. 

Faça-me a honra apear, 

venha me dar um clarão; 

só o senhor pode dizer-me 

o que é a constituição, 

e também da independência 

de D. Pedro imperador: 

tudo me explique agora, 

eu lhe peço por favor.

 

CORCUNDA — Se o senhor fala-me sério, 

se não é adulação, 

eu lhe direi de que consta 

a nova constituição.

 

PATRIOTA — O senhor creia em mim, 

muito sério lhe falo; 

eu sou um homem néscio, 

não sei onde canta o galo.

 

CORCUNDA — Estes malvados pedreiros, 

carbonários da nação, 

que por serem carvalhistas 

detestam serem cristãos, 

nem querem ter rei nem roque, 

e menos religião, 

por isso desprezaram 

o nosso rei D. João.

A lei deles é anarquia

da tal constituição,

cativando desumanos

sem ter quem lhes vá à mão;

não querem saber de missa,

menos do sacramento,

mofam de tudo o que diz

o novo Testamento.

Veja, pois, por que rigor

chamam a nós marinheiros,

arrocham de pau e peia,

morram todos ao chumbeiro.

Uns homens nobres em tudo,

no sangue e no proceder,

de famílias ilustradas,

muitos deles veem a ser

filhos de duques, marqueses,

de condes e de morgados.

Dos infames patriotas

têm sido desfeiteados...

Estas feras de ora avante

só em si maldade encerram,

desprezam o nosso rei,

que Deus nos deu na terra,

um homem pio e santo,

um refúgio e esperança,

o nosso D. João Sexto,

filho da Real Bragança.

Esta família ilustrada

que o mesmo Deus destinou

pra seus filhos governarem,

serem de nós supriu...

Mas agora estou contente

de ver tudo acabado,

uns mortos e outros presos.

Adeus, tenha saúde,

creia nisso que lhe digo,

fuja dos patriotas,

que são nossos inimigos.

Já estão se acabando

as malditas rebeliões,

ficando só no Brasil

a fé pura de cristões.

 

PATRIOTA — Tratemos da independência. 

 

CORCUNDA — Isso é um passo muito errante, 

Dom Pedro no Brasil 

não pode ser imperante.

 

PATRIOTA — Porque? Ele não é Bragança?

 

CORCUNDA — Se o rei ainda é vivo,

não pode haver herança.

 

PATRIOTA — Já não posso, seu corcunda, 

suas loucuras calar; 

quer por gosto, quer por força, 

ouça-me agora a falar. 

Diga-me, homem sem brio, 

amante do cativeiro, 

somos terra, somos gados 

que D. Pedro seja herdeiro? 

Quando Deus formou o mundo, 

qual foi o rei que deixou? 

Não deixou só um Adão 

de todos progenitor? 

Deste mesmo Adão não fez 

Deus do céu por seu mando 

uma mulher para ele 

produzir o gênero humano? 

Desses pobres camponeses 

produziu todas nações, 

algum dia eles tiveram 

fidalguia ou brasões? 

Onde foi Bragança haver 

esse sangue ilustrado? 

Só se foi por outro Adão 

que por Deus não foi deixado; 

só dessa descendência 

de gentes que Deus não fez 

saiu toda a jerarquia, 

condes, duques e marquês. 

Abre os olhos, homem tolo, 

adora o Deus verdadeiro, 

aquele que por nós morreu 

como inocente cordeiro. 

Se um rei é tão real, 

como adular a D. João, 

é baixeza no morrer 

se formar em podridão. 

Ressuscitar aos três dias 

assim como ressuscitou 

o rei filho de Maria.

 

CORCUNDA — Eu já digo o rei Davi, 

que o mesmo Deus consagrou.

 

PATRIOTA — Isto eu não duvido, 

e também por isto estou; 

mas quem era o rei Davi? 

Era um pobre coitado, 

era um simples pastorzinho 

do rebanho do seu gado. 

Que é do nosso rei Davi? 

Agora só há tiranos, 

dissolutos, incivis, 

de vaidades profanos.

 

CORCUNDA — Já é tarde, vou andando,

tenha mão, seu papagaio.

Você diz: cadê as tropas

do coitado do Pinheiro?

É certo que lá andei,

e que dele sou soldado...

 

PATRIOTA — Perseguiste os teus patrícios

como lobos defamados;

nas casas que cercaste

também, forte carniceiro,

ajudaste a tirar

vida, honra e dinheiro;

ajudaste a matar

teus irmãos, mansos cordeiros.

Que desgraça, seu corcunda,

entre os mesmos brasileiros!

Desprezar os seus irmãos,

como lobos carniceiros.

Esta injustiça, seu corcunda,

reclamam os céus inteiros...

 

CORCUNDA — Meu amigo, estou certo

do quanto me tem narrado,

já me pesa de ter sido

dos meus irmãos o malvado.

Roto o véu do engano,

nova vida eu terei,

constante patriota serei;

podem contar comigo:

— Defender a nossa pátria

e morra o nosso inimigo!

 

“Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro existem centenas de folhetos que guardam a vasta produção de versos como estes, denunciadores do ardor das paixões que crepitaram durante todo aquele movimentado decênio da nossa História”.

Referência:

Organização, arte, pesquisa e análise: Charles Aquino

FILHO, João Dornas: A abdicação e a musa popular em 1831 — CULTURA POLÍTICA — Revista mensal de estudos brasileiros. - INVENTÁRIO - BN - Rio de Janeiro, Ano IV  Nº 41- Junho de 1944 , p.155-159.