Em diferentes
momentos de sua história, Itaúna debateu maneiras de garantir ordem pública,
autoridade e segurança nas ruas.
Em meio às tensões políticas da Revolução de
1930, surgiam os chamados “bate-paus”, grupos associados aos conflitos e
disputas locais.
Em 2026, a
cidade volta a discutir a presença de uma força de atuação urbana, agora dentro
de uma estrutura institucional e jurídica distinta: a implantação da Guarda Municipal.
Embora separados por quase um século, esses dois momentos revelam
como o tema da segurança pública acompanha as transformações políticas,
administrativas e sociais do município.
Durante a
Revolução de 1930, Itaúna ainda conservava características típicas de uma
pequena cidade do interior mineiro, marcada por limitações estruturais, ruas
precárias e pela lenta circulação de informações. Enquanto os acontecimentos
políticos se expandiam pelo país, grande parte da população compreendia apenas
parcialmente a dimensão dos conflitos nacionais.
O destacamento
itaunense da Força Pública de Minas Gerais, corporação que posteriormente daria
origem à atual Polícia Militar, havia sido deslocado para Belo Horizonte para
reforçar as tropas mineiras diante da crise que se desenrolava na capital.
Com a ausência
do contingente policial local, o Coronel Arthur Contagem Vilaça, então chefe do
Executivo municipal e presidente da Câmara de Vereadores, organizou um
destacamento provisório formado por civis para auxiliar na manutenção da ordem
pública.
Sem armamento
adequado, esses homens utilizavam porretes de madeira, origem da expressão
“bate-paus”. Alguns também usavam lenços vermelhos ligados à adesão local ao
movimento revolucionário, elemento que se tornaria uma das marcas simbólicas
daquele contexto político em Itaúna.
A formação dos
bate-paus evidencia também os limites da presença estatal nas pequenas cidades
do interior brasileiro durante as primeiras décadas do século XX. Diante da
retirada do efetivo policial para a capital mineira, o próprio município
precisou improvisar formas locais de autoridade e vigilância.
Os relatos
preservados pela memória local demonstram que muitos desses homens não eram
policiais profissionais, mas funcionários e moradores convocados em caráter
emergencial. Um dos casos mais conhecidos foi o de Benevides Garcia, fotógrafo,
“chauffeur do carro de praça” e motorista da Câmara Municipal na época,
que anos depois seria lembrado como integrante do destacamento improvisado.
Segundo seu
próprio relato, Arthur Vilaça o teria nomeado “sargento” dos bate-paus.
Benevides afirmaria anos depois que entrou para o grupo “contra a própria
vontade”, evidenciando o caráter improvisado daquela mobilização civil durante
a Revolução de 1930.
Mais do que
uma força organizada de segurança, os bate-paus refletiam um período marcado
pela precariedade institucional e pela forte influência das lideranças locais
sobre a vida pública. Em cidades pequenas do interior brasileiro, as fronteiras
entre servidor público, cidadão comum e agente de autoridade ainda eram
bastante fluidas.
A ausência de
uma estrutura profissional de policiamento fazia com que o próprio poder
municipal assumisse funções de mediação da ordem urbana diante de situações
consideradas emergenciais.
A aproximação
entre os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal, entretanto, exige
cautela histórica. Não se trata de afirmar que ambos possuam a mesma natureza,
função ou legitimidade, mas de compreender como diferentes épocas produziram
distintos modos de atuação do poder público nas ruas da cidade.
Na década de
1930, a força política frequentemente se apoiava em relações pessoais,
influência local e demonstrações informais de poder. Em 2026, o debate ocorre
dentro de uma lógica burocrática e institucional, marcada por regulamentação
jurídica, profissionalização e controle administrativo.
A proposta
contemporânea surge associada ao crescimento urbano, à organização do trânsito,
à proteção patrimonial e às demandas por maior atuação do poder público nos
espaços urbanos.
Revisitar a
memória dos bate-paus, portanto, não significa estabelecer equivalências
simplistas entre passado e presente. O interesse histórico está em perceber
como diferentes períodos produziram respostas próprias para questões
relacionadas à ordem urbana, à autoridade pública e às percepções locais de
insegurança.
A distância
entre as formas improvisadas de vigilância de 1930 e os projetos institucionais
discutidos em 2026 revela não apenas mudanças nas estruturas de segurança
pública, mas também transformações na própria relação entre administração
municipal, autoridade e espaço urbano.
Entre
permanências e mudanças, os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal
evidenciam como diferentes épocas produziram distintas maneiras de estruturar a
autoridade, a segurança e a atuação do poder municipal na trajetória histórica,
política e urbana de Itaúna.
Elaborado a
partir de reportagens publicadas pelo extinto Jornal Panorama Itaunense na
década de 1980 e de relatos sobre os “bate-paus” durante a Revolução de 1930
preservados em acervos de memória local.
A
presença do Dr. Simonini nos informes, contudo, não se restringe à esfera
discursiva. Em diferentes registros, sua atuação é captada a partir de sua
circulação em espaços considerados politicamente sensíveis.
Em 1984, ele é
listado entre os participantes de eventos que reuniam representantes do PMDB,
do PT e do PDT, além de setores do movimento estudantil, em contextos marcados
por críticas ao regime e pela defesa de reformas políticas.
No
mesmo ano, sua presença é novamente registrada durante a IV Semana de Estudos
Jurídicos em Itaúna (MG), encontro que reuniu autoridades locais, acadêmicos e
representantes de diferentes correntes políticas em torno de debates marcados
pela crítica institucional e pela defesa da reorganização democrática.
Organizada
pela Diretoria Acadêmica da Faculdade de Direito da Universidade de Itaúna, em
parceria com a Prefeitura Municipal e a União Estadual dos Estudantes de Minas
Gerais (UEE/MG), a iniciativa configurou-se como espaço de convergência entre
poder público, meio universitário e movimentos estudantis, evidenciando a
intensidade das articulações políticas e intelectuais que marcavam o contexto
da abertura democrática.
À
luz desse cenário, a presença do Dr. Simonini, já identificado pelos órgãos de
informação, não apenas reafirma sua inserção em circuitos de debate
estratégico, mas também evidencia a atenção dispensada pelos aparelhos de
vigilância a ambientes de circulação de discursos críticos e articulações
políticas.
A
atuação do Dr. José Simonini Filho nesse encontro acadêmico, realizado em 1984,
deve ser compreendida à luz de sua posição institucional naquele momento,
quando exercia a presidência da Câmara Municipal de Itaúna (1983–1984).
Longe
de representar uma presença meramente protocolar, sua participação revela a
articulação entre o poder legislativo local e os espaços universitários de
debate político em um contexto de transição democrática.
Ao
integrar um fórum que reunia juristas, lideranças estudantis e agentes
políticos envolvidos nos debates sobre a Constituinte, reformas institucionais
e críticas à ideologia de segurança nacional, Dr. Simonini atuava
simultaneamente como representante institucional e participante de redes de
circulação política.
Em
um cenário marcado pela vigilância dos órgãos de informação, sua presença,
enquanto presidente do Legislativo municipal, ampliava o significado político
da iniciativa, indicando não apenas engajamento individual, mas também a
permeabilidade das instituições locais às pautas de redemocratização.
Assim,
sua atuação na Semana Jurídica pode ser interpretada como expressão da
convergência entre poder institucional, debate público e monitoramento estatal,
reforçando seu papel nos circuitos políticos observados pelo regime.
A
relevância desse episódio torna-se particularmente evidente na documentação
produzida pelos órgãos de informação acerca do evento, cujos registros revelam
um nível minucioso de acompanhamento, contemplando falas, participantes,
articulações políticas e diferentes momentos do encontro com riqueza de
detalhes.
O nível de detalhamento desses informes sugere a hipótese de
acompanhamento direto do evento, possivelmente por agentes ou colaboradores
vinculados aos órgãos de informação, interpretação reforçada pela precisão das
descrições presentes nos relatórios produzidos pelo SNI.
Para
além do acompanhamento de figuras específicas, os órgãos de vigilância buscavam
compreender dinâmicas de circulação política, redes de sociabilidade e espaços
de formação de discurso crítico no contexto da abertura democrática.
Diante
da densidade desse conjunto documental, a IV Semana de Estudos Jurídicos da
Universidade de Itaúna emerge como um importante espaço de observação das
relações entre circulação política, debate acadêmico e vigilância estatal nos
anos finais do regime militar, constituindo objeto que demandará análise
específica em estudo posterior.
A
atuação do Dr. Simonini no contexto da campanha pelas “Diretas Já” permite
observar, com especial nitidez, a articulação entre vigilância, circulação
política e controle estatal. Sob essa perspectiva, destaca-se sua participação
na organização de uma caravana de lideranças políticas de Itaúna com destino a
Brasília, com o objetivo de acompanhar a votação da “Emenda Dante de Oliveira”.
Entre
os participantes de Itaúna/MG, segundo registros do Serviço Nacional de
Informações (SNI), destacavam-se o vereador José Simonini Filho, associado ao
“PMDB/MG” e identificado pelo código “B1492809”, bem como o prefeito Francisco
Ramalho da Silva Filho, também vinculado ao “PMDB/MG” e mencionado em outro
documento sob o código “B1493565”. Também apareciam nos informes os vereadores
Walter Marques da Silva e João José Joaquim de Oliveira, igualmente
relacionados ao “PMDB/MG”.
Os
registros dos órgãos de informação mencionavam ainda o jornalista Célio Silva,
do Jornal Brexó, associado ao “PT/MG”. Em outros documentos relativos à
imprensa itaunense já analisados, Célio aparecia identificado pelo código
“B0783936”. Os informes consultados mencionavam também o Dr. Peri Tupinambás,
igualmente vinculado ao “PT/MG”.
A
relevância desse episódio reside não apenas no fato em si, mas na possibilidade
de sua apreensão a partir de diferentes registros documentais. Informes
produzidos pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) já indicavam previamente
a participação do Dr. Simonini e de outras lideranças locais nessa mobilização,
evidenciando que o deslocamento e a articulação política desses sujeitos eram
objeto de acompanhamento por parte dos órgãos de informação.
Essa
mesma mobilização é posteriormente registrada pelo Jornal Brexó, em
edição de 28 de abril de 1984, que relata a tentativa de deslocamento da
caravana e sua interrupção por forças de segurança ao longo do trajeto.
A
matéria descreve a presença de militares e policiais armados, a instalação de
barreiras nas estradas e a impossibilidade de prosseguimento da viagem,
corroborando, em chave narrativa e pública, um evento que já havia sido objeto
de registro pelos órgãos estatais (SNI).
A
dimensão concreta desse bloqueio é evidenciada de forma particularmente
expressiva no relato publicado pelo periódico, que descreve o episódio nos
seguintes termos:
“Essas
chapas cheias de pregos pontiagudos iam-se afunilando fazendo os motoristas
entrar num corredor e a cada metro, soldados do exército, policiais de Goiás e
Federal, todos armados de metralhadora e fuzil e outros aparatos militar. [...]
De posse dos nossos documentos, folheavam enorme lista à procura de nossos
nomes. Não encontrando-os na relação (lista de criminosos? subversivos?)
anotaram nossos nomes noutra folha especial com todos dados possíveis. Enquanto
isso um militar do exército chama Ramalho: Sinto muito, mas solicitamos que
todos retornem, não podem passar [...] éramos impedidos de ir à Brasília [...]
e tivemos que voltar.”
O
relato explicita, em linguagem direta, os mecanismos de controle empregados no
bloqueio da caravana, revelando não apenas a presença ostensiva de forças de
segurança, mas também práticas de identificação e registro dos indivíduos
presentes.
A
menção às listas de nomes e à classificação implícita dos participantes como
potenciais “subversivos” reforça a interpretação de que tais mobilizações eram
previamente monitoradas, articulando vigilância informacional e contenção
prática da ação política.
A
articulação entre essas duas fontes indica não apenas a ocorrência do episódio,
mas o modo como ele foi simultaneamente vivido, observado e registrado. De um
lado, a vigilância estatal, que antecede e acompanha a ação política; de outro,
a imprensa local, que transforma o acontecimento em narrativa pública. Tal
sobreposição demonstra que a vigilância não operava de forma posterior, mas
integrada ao próprio desenrolar dos eventos.
Desse
modo, o episódio da caravana evidencia que o aparato de vigilância não se
limitava à produção de informações, mas se articulava a práticas concretas de
contenção da ação política. Ao impedir o deslocamento de lideranças locais até
Brasília, o Estado não apenas monitorava, mas atuava diretamente na limitação
da participação política, demonstrando a continuidade de mecanismos de controle
mesmo no contexto de abertura.
Ao
mesmo tempo, a cobertura jornalística revela os efeitos concretos desse
monitoramento, tornando visíveis práticas de contenção que não aparecem de
forma explícita nos documentos de informação. O bloqueio da caravana, ao ser
narrado pela imprensa, torna visível a dimensão prática do controle estatal.
A
participação do Dr. Simonini nesse episódio reforça sua inserção em
articulações que extrapolavam o âmbito municipal, ao mesmo tempo em que indica
o acompanhamento dessas mobilizações pelos órgãos de informação.
A partir da
análise conjunta dessa documentação, torna-se possível compreendê-lo não como
um ator local isolado, mas como um agente inserido em múltiplas dimensões da
vida política durante a abertura democrática, incluindo aspectos discursivos,
institucionais, partidários e relacionais.
A
dimensão partidária de sua atuação torna-se evidente em documentação de 1986,
relativa à impugnação da chamada “Chapa Alternativa” do PMDB mineiro. Nesse
informe, Dr. Simonini figura entre os candidatos vinculados ao grupo cuja
candidatura foi contestada no âmbito do Tribunal Regional Eleitoral de Minas
Gerais.
Ainda
que o documento não atribua qualificações ideológicas diretas aos envolvidos,
sua inclusão nesse conjunto revela sua inserção em disputas internas do
partido, indicando que sua trajetória também se desenvolvia no interior das
dinâmicas de reorganização política que marcaram o período de transição.
A
análise conjunta dessa documentação permite ultrapassar a identificação de
ocorrências pontuais e indica a existência de um sistema estruturado de
produção, circulação e interpretação de informações que operava de forma
contínua ao longo do regime.
Mais
do que registrar fatos, os órgãos de informação construíam narrativas,
classificavam indivíduos e estabeleciam conexões que, muitas vezes, antecediam
a própria comprovação empírica das suspeitas levantadas, como evidenciado na
produção de registros que sistematizavam informações biográficas,
institucionais e discursivas na forma de perfis políticos organizados.
Nesse
contexto, a recorrente presença do Dr. José Simonini Filho nos registros do
DOPS e do SNI não deve ser interpretada como evidência de atuação clandestina
ou de centralidade “subversiva”, mas como indicativo de sua inserção em espaços
considerados politicamente relevantes pelos órgãos de informação.
Sua
trajetória evidencia a ampliação do monitoramento sobre sujeitos atuantes em
instituições públicas, universidades, imprensa local e circuitos legítimos de
participação política, revelando as ambiguidades da própria abertura
democrática brasileira, marcada pela coexistência entre ampliação do debate
público e permanência de mecanismos ativos de vigilância e controle.
Ao
longo do período analisado, observa-se que a vigilância não desaparece com a
abertura política, mas se reconfigura, adaptando suas formas de registro e
acompanhamento às novas condições do regime. A passagem de uma linguagem
explicitamente acusatória para descrições mais relacionais não implica a
redução do controle, mas sua reorganização em bases mais difusas e
sistemáticas.
Nesse
contexto, os documentos analisados não revelam apenas os indivíduos vigiados,
mas também o próprio funcionamento do aparato estatal durante a abertura
política. Ao produzir registros, estabelecer conexões e acompanhar práticas
sociais e políticas, os órgãos de informação construíam formas específicas de
leitura da realidade, evidenciando mecanismos de intervenção e controle que
continuaram operando mesmo em meio ao processo de redemocratização.
Nesse
sentido, os documentos produzidos pelo DOPS, pelo SNI e por outros órgãos de
informação não revelam apenas a trajetória do Dr. José Simonini Filho, mas
também as formas pelas quais o aparato estatal acompanhava a vida política em
cidades do interior durante os anos finais da ditadura.
Em
Itaúna, tal como em diversas cidades brasileiras, a vigilância não incidia
apenas sobre práticas clandestinas, mas alcançava espaços institucionais,
universidades, jornais, movimentos estudantis, discursos públicos e redes
locais de sociabilidade.
Décadas
depois, esses arquivos permanecem não apenas como vestígios da vigilância
estatal, mas como testemunhos das formas pelas quais o regime buscou
interpretar, acompanhar e administrar a vida política brasileira mesmo durante
o processo de abertura democrática.
Nota Documental:
Esta
reportagem foi elaborada a partir de documentos do DOPS/MG pertencentes ao
acervo do Arquivo Público Mineiro (APM), bem como de registros do Serviço
Nacional de Informações (SNI) consultados por meio do Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN), além de outras fontes documentais relacionadas ao
período da ditadura militar brasileira.
Os
termos e classificações reproduzidos refletem a linguagem e os enquadramentos
produzidos pelos próprios órgãos de vigilância da época, sendo analisados em
perspectiva histórica e documental.
A
pesquisa também contou com diálogo direto e levantamento de informações junto
ao Dr. José Simonini Filho, incluindo a apresentação da documentação utilizada
e a realização de questionário complementar sobre os episódios abordados.
Charles Galvão de Aquino — Historiador. Registro nº 343/MG.
REFERÊNCIAS
FONTES DOCUMENTAIS
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84009914. Conferência de José Maria Rabelo, presidente regional do PDT em Minas Gerais, em Itaúna (MG).
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83008922. José Simonini Filho, vereador eleito pelo PMDB, Itaúna (MG).
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83035633. Fundação de Ensino Superior de Itaúna (MG): posse dos diretórios estudantis.
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010383. IV Semana de Estudos Jurídicos em Itaúna (MG).
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 86012432. Impugnação da Chapa Alternativa do PMDB de Minas Gerais.
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010318. Campanha pelas eleições diretas para a Presidência da República em Minas Gerais. Arquivos: d0001de0003; d0002de0003; d0003de0003.
BRASIL. Ministério do Exército. I Exército. 4ª Região Militar/4ª Divisão de Infantaria. Estado-Maior – 2ª Seção. José Simonini Filho (médico e professor). Belo Horizonte, 28 jan. 1969. Documento confidencial. Arquivo Público Mineiro (APM), Pasta 4024, f. 239-240. Acesso em: 4 abr. 2026.
JORNAL BREXÓ. Itaúna, n. 201, 28 abr. 1984. p. 1 e 8.
Ao
longo das décadas da ditadura militar brasileira, diferentes cidadãos,
instituições e espaços de sociabilidade passaram a integrar os registros
produzidos pelos órgãos de vigilância e informação do Estado.
Nesse
contexto, a trajetória documental do médico e político Dr. José Simonini Filho
surge de forma recorrente nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação,
frequentemente articulada à atuação do padre holandês Antônio Wiemmers, de
setores estudantis e do próprio Jornal Brexó, cuja circulação e conteúdo também
passaram a integrar os mecanismos de observação estatal.
Mais
do que acompanhar indivíduos considerados “subversivos”, a vigilância avançava
sobre diferentes dimensões da vida social, produzindo relatórios, cruzando
informações e construindo perfis políticos ao longo do tempo.
Décadas
depois, a frase atribuída ao general Golbery do Couto e Silva — “criei um monstro” — permanece como uma das sínteses mais contundentes sobre a
dimensão alcançada pelos aparatos de informação durante o regime militar.
A
documentação analisada nesta reportagem especial permite observar como esse
sistema também se fazia presente em escala local, articulando vigilância
política, circulação de discursos públicos e acompanhamento contínuo de atores
sociais em cidades do interior mineiro.
A análise da trajetória do Dr. José Simonini Filho,
a partir da documentação produzida pelos órgãos de repressão e informação do
Estado brasileiro, permite identificar não apenas a recorrência de seu nome em
diferentes registros, mas, sobretudo, a continuidade de sua inserção nos
circuitos de vigilância ao longo de distintas fases do regime.
Ao articular documentos oriundos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), de setores do Exército e do Serviço Nacional deInformações (SNI), evidencia-se não apenas a permanência da vigilância, mas
também a transformação de suas formas, da suspeição ideologicamente orientada
ao monitoramento relacional e sistemático característico da abertura política.
Os primeiros
registros, datados de 1969 e produzidos no âmbito da 4ª Região Militar, já
indicam a inscrição do Dr. Simonini nos sistemas de vigilância estatal. Tal
caracterização revela não apenas a observação de suas práticas, mas sua
inserção em categorias ideológicas próprias do regime, nas quais a crítica
política era interpretada como desvio e potencial ameaça.
Essa lógica
torna-se ainda mais evidente na documentação produzida pelo DOPS em outubro de
1971. Em correspondência enviada ao delegado de polícia de Itaúna, o órgão
solicitava “investigações sigilosas” sobre supostas reuniões consideradas “suspeitas”
realizadas na residência do cirurgião-dentista Mário Alves de Souza, das quais
participariam, o “Dr. José Simonini Filho e o padre holandês Antônio Wiemmers e
outros”.
A resposta
encaminhada pela autoridade policial local revela aspectos significativos da
lógica de produção dessas informações. O teor do documento é revelador não
apenas pelo conteúdo, mas pelo nível de detalhamento mobilizado: são
mencionados endereço específico, identificação profissional dos envolvidos e a
possível recorrência temporal dos encontros.
Após comentar
a suposta realização de reuniões “comunistas” na cidade, o delegado passa a
apresentar uma espécie de perfil político do Dr. Simonini, estruturado em
tópicos numerados, nos quais se misturam dados profissionais, impressões
pessoais, rumores e interpretações ideológicas. O relatório registrava:
1.“O sr. Simonini é médico do INPS local e
exerce certa influência na classe operária desta cidade”;
2.“É professor no Ginásio Industrial e
Estadual ‘Dona Judith Gonçalves’, onde leciona ciências naturais”. Esse Ginásio
está localizado no Bairro Santanense, o principal da cidade;
3.“O Dr. Simonini é um antimilitarista por
excelência, perigosíssimo e, segundo ouvi dizer, costumava atacar a Revolução
de 1964”;
4.“No mesmo Ginásio do item 2º, leciona
também o holandês Padre Antônio Wiemmers, de que falarei posteriormente”;
5.“No Ginásio Industrial e Estadual “Dona
Judith Gonçalves” que tem como Diretor e Dr. Décio Gonçalves, nunca foi
hasteada a Bandeira do Brasil”.
Mais do que
comprovar práticas efetivamente subversivas, o documento evidencia a forma como
os órgãos de vigilância articulavam informações objetivas, comentários
pessoais, percepções cotidianas e elementos não verificados na construção de
perfis considerados politicamente sensíveis.
A própria
expressão “segundo ouvi dizer”, utilizada no relatório, revela que parte dessas
interpretações circulava em um terreno marcado por rumores e avaliações
subjetivas posteriormente incorporadas aos registros oficiais do aparato
repressivo.
Sob essa
perspectiva, a inclusão do Dr. José Simonini Filho nesses documentos não deve
ser interpretada como evidência automática de envolvimento em atividades
clandestinas, mas como parte de um processo mais amplo de enquadramento
político, no qual determinados indivíduos passavam a integrar circuitos
permanentes de observação estatal.
Mais do que
revelar exclusivamente o objeto vigiado, esses registros tornam visível o
próprio funcionamento da lógica repressiva, baseada na produção contínua de
suspeitas, classificações e conexões políticas.
Nesse
contexto, a vigilância não se dirigia exclusivamente a indivíduos isolados, mas
buscava mapear conexões entre diferentes atores sociais, incluindo
profissionais liberais, agentes educacionais e membros do clero.
A presença do
padre holandês Antônio Wiemmers, pároco do bairro Santanense, nos registros em
que também figura do Dr. José Simonini Filho, revela-se particularmente
significativa, na medida em que evidencia a ampliação do escopo da vigilância
para além do campo político formal e alcança também espaços religiosos,
educacionais e comunitários.
Sua
recorrência nos documentos, frequentemente associada a qualificações fortemente
negativas, nas quais é descrito como “elemento perigoso”, “subversivo” e
“antimilitarista”, evidencia que lideranças religiosas com inserção local
relevante eram percebidas pelos órgãos de segurança como potenciais focos de
influência e desestabilização.
Importa destacar que tais caracterizações emergem
de um enquadramento próprio da lógica repressiva, devendo, portanto, ser
analisadas com cautela metodológica. Cabe observar, que parte dos registros em
que Dr. Simonini é mencionado encontra-se articulada à atuação do referido
sacerdote, o que confere especial relevância a esse conjunto documental.
Por
essa razão, a análise mais aprofundada desse conjunto documental, especialmente
no que se refere à construção discursiva sobre o padre Antônio Wiemmers, será
retomada em seção específica.
Documentos
posteriores, como os de 1973, reiteram essas percepções, reforçando a
continuidade das interpretações construídas anteriormente. A repetição de
acusações e qualificações revela que a vigilância operava por acumulação e
sedimentação de informações, consolidando perfis políticos ao longo do tempo,
independentemente da produção de novas evidências.
Ao longo da
década de 1980, já no contexto da abertura política, observa-se uma inflexão
significativa nas formas de registro, sem que isso implique a interrupção da
vigilância. Os informes produzidos pelo SNI e pela Polícia Militar passam a
privilegiar o acompanhamento de atividades públicas, como discursos, eventos
acadêmicos e articulações partidárias, substituindo, em grande medida, a
linguagem explicitamente acusatória por uma descrição mais relacional.
Em 1983, por
exemplo, o Dr. Simonini, então vereador pelo PMDB em Itaúna e presidente da
Câmara Municipal, aparece em registros dos órgãos de informação durante sessão
legislativa na qual criticava a violência policial, associando-a ao cenário
político nacional sob a presidência do general João Figueiredo.
O episódio
repercutiu inclusive em meios de comunicação locais, evidenciando que seus
posicionamentos públicos continuavam a integrar os mecanismos de acompanhamento
estatal.
Outro elemento
particularmente relevante no documento é a incorporação, como anexo, de
recortes do jornal Brexó, veículo que já havia sido objeto de
monitoramento no contexto da imprensa itaunense. A presença desse material
indica que os órgãos de informação não apenas produziam seus próprios
registros, mas também integravam conteúdos da esfera pública à construção de
seus dossiês, ampliando o alcance da vigilância para além do campo
institucional.
Sob essa
perspectiva, o documento evidencia uma articulação entre vigilância estatal e
circulação de discursos públicos, na qual a imprensa local passa a ser não
apenas observada, mas também utilizada como fonte para a produção de
inteligibilidade sobre o cenário político.
Ainda que o
tom dos informes já se apresentasse menos explicitamente acusatório, a
recuperação de “antecedentes” demonstra a permanência de uma lógica de
interpretação que articulava passado e presente na construção de perfis
políticos.
Nesse
contexto, o documento produzido pelos órgãos de informação reunia dados
biográficos, trajetória profissional, atuação institucional e posicionamentos
públicos, articulando diferentes temporalidades na elaboração de uma narrativa
contínua sobre sua atuação.
Tal estrutura revela que a vigilância já não se
limitava à observação de eventos isolados, mas operava por meio da organização
sistemática de informações acumuladas, permitindo ao Estado produzir leituras
mais amplas e duradouras sobre determinados sujeitos.
Essa
continuidade também se expressa na recorrência de sua presença em eventos
considerados politicamente relevantes. Nesses registros, Dr. Simonini aparece
como agente inserido em múltiplos circuitos de sociabilidade, sendo acompanhado
não apenas por suas falas, mas por sua circulação em ambientes que reuniam
diferentes setores da oposição.
Um elemento
particularmente revelador dessa continuidade é a atribuição de identificadores
individuais, como o código “B1492809”, associado ao nome do Dr. Simonini em
diferentes documentos ao longo da década de 1980.
A manutenção desse código
indica a existência de sistemas estruturados de indexação no interior do
aparato de inteligência, permitindo o cruzamento de informações, a recuperação
de antecedentes e o acompanhamento contínuo de determinados indivíduos por
diferentes órgãos de segurança.
A recorrência
desse identificador sugere que Dr. Simonini não era apenas mencionado em
informes circunstanciais, mas integrava um universo de indivíduos cuja atuação
era objeto de registro sistemático, evidenciando uma dimensão mais estruturada
e duradoura da vigilância estatal.
Essa lógica de
enquadramento se manifesta também em outros registros do período. Em informe
referente à cerimônia de posse de diretórios estudantis da Fundação de Ensino
Superior de Itaúna (FENSUPI), Dr. Simonini aparece como autoridade presente e
orador, defendendo a estatização do ensino e a gratuidade universitária.
Nota Documental:
Esta
reportagem foi elaborada a partir de documentos do DOPS/MG pertencentes ao
acervo do Arquivo Público Mineiro (APM), bem como de registros do Serviço Nacional de Informações (SNI) consultados por meio do Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN), além de outras fontes documentais relacionadas ao
período da ditadura militar brasileira.
Os
termos e classificações reproduzidos refletem a linguagem e os enquadramentos
produzidos pelos próprios órgãos de vigilância da época, sendo analisados em
perspectiva histórica e documental.
A
pesquisa também contou com diálogo direto e levantamento de informações junto
ao Dr. José Simonini Filho, incluindo a apresentação da documentação utilizada
e a realização de questionário complementar sobre os episódios abordados.
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série
MIC/GNC/OOO. Dossiê 84009914. Conferência de José Maria Rabelo, presidente
regional do PDT em Minas Gerais, em Itaúna (MG).
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série
MIC/GNC/OOO. Dossiê 83008922. José Simonini Filho, vereador eleito pelo PMDB,
Itaúna (MG).
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série
MIC/GNC/OOO. Dossiê 83035633. Fundação de Ensino Superior de Itaúna (MG): posse
dos diretórios estudantis.
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série
MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010383. IV Semana de Estudos Jurídicos em Itaúna (MG).
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série
MIC/GNC/OOO. Dossiê 86012432. Impugnação da Chapa Alternativa do PMDB de Minas
Gerais.
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série
MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010318. Campanha pelas eleições diretas para a
Presidência da República em Minas Gerais. Arquivos: d0001de0003; d0002de0003; d0003de0003.
BRASIL. Ministério do Exército. I Exército. 4ª
Região Militar/4ª Divisão de Infantaria. Estado-Maior – 2ª Seção. José Simonini
Filho (médico e professor). Belo Horizonte, 28 jan. 1969. Documento
confidencial. Arquivo Público Mineiro (APM), Pasta 4024, f. 239-240. Acesso em:
4 abr. 2026.
JORNAL BREXÓ. Itaúna, n. 201, 28 abr. 1984. p. 1 e
8.
Opiniões rígidas.
Discursos inflamados. Certezas absolutas de todos os lados.
Mas antes de
achar que estamos vivendo algo inédito, vale uma pergunta incômoda:
isso é realmente novo… ou apenas mais um capítulo de uma velha história?
Em 1831, o país
já enfrentava um cenário de intensa divisão política. De um lado, os chamados
“corcundas”, defensores da ordem tradicional e da monarquia.
Do outro, os
“patriotas”, que questionavam esse modelo e defendiam mudanças profundas na
organização do país.
O texto do historiador itaunense João
Dornas Filho, ao apresentar esse embate em forma de diálogo popular, revela
algo que atravessa o tempo: a dificuldade de lidar com o diferente sem
transformá-lo em inimigo.
Ali, como agora,
não faltavam acusações, certezas morais e discursos carregados de verdade
absoluta.
Ali, como agora,
o debate muitas vezes dava lugar ao confronto.
Revisitar
“Corcundas x Patriotas” em 2026 não é apenas olhar para o passado.
É reconhecer padrões que insistem em se repetir.
Porque talvez o
problema nunca tenha sido apenas quem estava certo…
FILHO, João
Dornas: A abdicação e a musa popular em 1831 — CULTURA POLÍTICA — Revista
mensal de estudos brasileiros. - INVENTÁRIO - BN - Rio de Janeiro, Ano IV Nº
41- Junho de 1944, p.155-159.
A imagem
utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com
finalidade exclusivamente ilustrativa.
Dando continuidade à análise, esta segunda parte
explora como o sistema de informações não apenas registrava dados, mas
construía interpretações sobre a atuação da imprensa.
A partir de novos
documentos, é possível perceber que o monitoramento se estendia para além do
âmbito local, alcançando redes mais amplas, espaços institucionais e
articulações políticas.
Ele aparece como
jornalista responsável no Jornal Folha do Oeste (1987 e 1988), mas
também como radialista na Rádio Divinópolis (1988) e como jornalista no Jornal A
Semana, também em Divinópolis.
Esse monitoramento, no entanto, não se inicia nesse
momento. Já em 1981, o SNI havia realizado um “Levantamento de dados de
Jornais” em diversos estados, incluindo Minas Gerais. Nesse levantamento, o
Jornal Folha do Oeste já aparece registrado, tendo o próprio JoséWaldemar Teixeira de Melo como proprietário.
Para isso, foi utilizado um
questionário padronizado, o que indica que o acompanhamento da imprensa não era
pontual, mas integrava um processo sistemático anterior às fichas analisadas
neste estudo.
Além disso, a documentação produzida pelo SNI no
final da década de 1980 amplia significativamente o alcance desse
acompanhamento ao situar José Waldemar Teixeira de Melo também no circuito
nacional da imprensa política.
Em dossiê classificado
como “Confidencial”, com os informes dos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”,
voltado à atuação de jornalistas credenciados no Congresso Nacional e no
Palácio do Planalto, Waldemar aparece listado como repórter credenciado,
identificado pelo registro nº 264/87, vinculado ao jornal Diário da Tarde,
ao lado de profissionais provenientes de diferentes estados do país.
Mais do que ampliar a escala desse acompanhamento,
esse documento também evidencia uma mudança qualitativa importante. Se, nos
registros anteriores, o foco recaía sobre a organização técnica do sistema e o
acompanhamento dos profissionais, neste documento observa-se um deslocamento: a
incorporação de interpretações sobre o próprio papel da imprensa no cenário
político.
Nesse sentido, o documento não se limita a um
simples cadastro funcional. Ele se insere em uma narrativa produzida pelos
órgãos de informação que atribui à atuação da imprensa um papel ativo em
disputas ideológicas.
Ao afirmar, com base em “declarações de jornalistas
credenciados”, que “as esquerdas” exerceriam um suposto “controle das
comunicações” no interior do Congresso Nacional, influenciando a circulação das
notícias “do interesse de facções esquerdistas”, o registro evidencia não
apenas a coleta de informações, mas também a construção de uma leitura
específica sobre o campo jornalístico.
Essa formulação não deve ser tomada como descrição
neutra da realidade, mas como parte de um enquadramento discursivo próprio do
sistema de informações, que operava por meio da seleção, interpretação e
classificação dos dados coletados. Mais do que registrar, o documento
interpreta e, ao fazê-lo, revela as lentes através das quais a atividade
jornalística era observada pelos órgãos de inteligência.
Nesse contexto, a presença de Waldemar no conjunto
documental não apenas confirma a continuidade de sua vigilância, mas o
posiciona em um espaço considerado estratégico pelos órgãos de inteligência: o
da mediação entre informação jornalística e poder político.
Diferentemente dos registros anteriores, centrados
em sua atuação regional, este documento evidencia que seu acompanhamento se
estendia a instâncias centrais da vida política nacional, reforçando a hipótese
de que o monitoramento incidia prioritariamente sobre indivíduos capazes de
transitar entre diferentes escalas, local, regional e federal, no campo da
comunicação.
A documentação analisada revela ainda um elemento
que amplia significativamente a compreensão do alcance desse monitoramento: a
participação da imprensa regional em espaços coletivos de articulação, como o
5º Congresso de Jornais do Interior, realizado entre 30 de outubro e 2 de
novembro de 1986, em Caxambu (MG), com a participação de cerca de 500 pessoas e
representantes de diferentes estados brasileiros e países sul-americanos.
Esse evento também foi registrado pelo SNI como
“Confidencial” e identificado pelos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, o que amplia
significativamente a compreensão do alcance desse sistema de vigilância.
No caso de Minas Gerais, o evento reuniu diversos
veículos de comunicação do interior, entre os quais se destacam, no âmbito da
imprensa itaunense, os jornais Brexó, Ita Vox, Folha do
Centro-Oeste e Folha do Oeste. A esses somavam-se periódicos de
cidades vizinhas, como a Gazeta Paraminense, de Pará de Minas, e o
jornal Agora, de Divinópolis.
Outro
aspecto relevante presente na documentação é a indicação de apoio institucional
ao evento, registrado na programação oficial como “Apoio: Minas Gerais –
Governo Hélio Garcia”. A presença
do governo estadual como apoiador do congresso evidencia que a imprensa do
interior não operava à margem das estruturas institucionais, mas mantinha
relações diretas com o poder público.
No entanto, esse vínculo não pode ser interpretado
de forma linear: ao mesmo tempo em que eventos dessa natureza recebiam apoio
governamental, os documentos do SNI demonstram que esses mesmos espaços,
veículos e profissionais eram objeto de monitoramento sistemático pelos órgãos
de informação.
Nesse sentido, a manutenção do mesmo código em
todos esses registros indica que o acompanhamento não se restringia a um único
meio de atuação ou espaço geográfico, mas ocorria de forma contínua e integrada
ao sistema.
Como demonstrado em capítulos anteriores, cada indivíduo era
associado a um identificador, que permitia registrar, ao longo do tempo, suas
mudanças de função, inserção profissional e deslocamentos. Tal procedimento
evidencia que a vigilância não se vinculava apenas ao cargo ou ao órgão de imprensa,
mas à própria pessoa, integrando indivíduos e veículos de comunicação a uma
mesma lógica classificatória baseada em códigos específicos.
No caso da Rádio Clube de Itaúna, os documentos
revelam que o veículo também foi incluído nas chamadas “Fichas de Cadastro de
Veículo de Comunicação Social”, seguindo o mesmo padrão aplicado aos jornais da
cidade. Assim como nos demais registros, há a coleta detalhada de informações
institucionais, como endereço, estrutura administrativa e a identificação
nominal de seus integrantes, acompanhados de suas funções.
Entre os nomes registrados estão Guaracy de Castro Nogueira, diretor-presidente; Afonso Henrique da Silva Lima,
diretor-secretário; Ari Carvalho, diretor-tesoureiro; Arnaldo Gonçalves
Moreira, encarregado geral; Geraldo Lopes, locutor esportivo; Antônio Paulo
Nogueira, Danilo Lopes de Oliveira e José Coelho Neto, locutores; além de Cosme Caetano Silva, jornalista, e Marcelo Augusto de Faria Matos, locutor. Esse
conjunto de dados demonstra que o monitoramento não se limitava à imprensa
escrita, alcançando também a radiodifusão local.
Outro aspecto relevante surge ao cruzar essas
informações com diferentes fontes do Arquivo Nacional. Embora os registros
analisados pertençam ao fundo do SNI, a pesquisa sobre a Rádio Clube de Itaúna
também leva a documentos vinculados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM),
ambos disponíveis no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), ainda
que organizados em tipologias documentais distintas.
No acervo, destaca-se um dossiê da Cia. Industrial
Itaunense, com mais de 270 páginas, referente ao período de 1983 a 1987, que
reúne informações sobre a companhia e sua estrutura administrativa.
Nesse documento, aparecem nomes de integrantes da
Rádio Clube de Itaúna e suas funções, como Dr. Miguel Augusto Gonçalves de
Souza, presidente do Conselho de Administração; Dr. Affonso de Cerqueira Lima,
membro do Conselho; Dr. Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-gerente; e Jofre
Gonçalves de Souza, também ligado à presidência do Conselho, além de registros
detalhados das trajetórias e das atividades exercidas por todos os membros.
Esse cruzamento de fontes amplia a compreensão do funcionamento da rádio e
reforça a articulação entre diferentes esferas institucionais.
Na prática, esse sistema operava como um banco de
dados integrado, capaz de cruzar informações, identificar vínculos e mapear a
circulação de profissionais da comunicação em diferentes contextos. Mais do que
registros isolados, tratava-se de um mecanismo que permitia acompanhar
trajetórias completas e estabelecer conexões entre diferentes veículos.
Dessa forma, os documentos pesquisados no SIAN(Sistema de Informações do Arquivo Nacional) revelam que o SNI (Serviço Nacional de Informações) não apenas observava jornais e rádios como
instituições, mas também monitorava diretamente os profissionais da
comunicação, construindo um mapa detalhado das relações e redes de atuação da
imprensa em nível local e regional.
Mais do que vigilância pontual, os documentos
revelam um sistema contínuo de acompanhamento, evidenciando a profundidade e a
sofisticação do controle exercido sobre a imprensa nas barrancas do Rio São
João Acima — hoje Itaúna (MG), a histórica Pedra Negra.
Nota
final
Ao longo destes seis capítulos, publicados no
Jornal Folha do Povo, antigo Folha do Oeste, fundado em 1944, foi possível
apresentar uma análise da imprensa itaunense na década de 1980, com base na
documentação disponível.
Com a consolidação desta etapa, dedicada aos
veículos de comunicação da cidade, abre-se, em um futuro não muito distante,
uma nova fase de investigação: o aprofundamento da análise sobre indivíduos e
grupos específicos que também foram alvo de vigilância.
Entre eles, destacam-se
cidadãos identificados nominalmente, empresas, representantes do poder público
municipal, instituições de ensino, lideranças religiosas e outros espaços de
atuação social e intelectual.
Há ainda um aspecto simbólico que não pode ser
ignorado: o fato de que estes capítulos são publicados no Jornal Folha do Povo,
herdeiro do antigo Folha do Oeste, reforça a dimensão histórica do próprio
trabalho. Trata-se de um veículo que, no passado, esteve inserido nesse
contexto de vigilância e que, hoje, permanece ativo, não apenas como meio de
comunicação, mas como espaço de memória, reflexão e análise crítica sobre esses
mesmos processos.
A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por
meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa.
Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de
vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense
abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a
documentos históricos específicos.