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quarta-feira, maio 20, 2026

BATE-PAUS À GUARDA MUNICIPAL

ITAÚNA: tensões políticas Revolução de 1930

Em diferentes momentos de sua história, Itaúna debateu maneiras de garantir ordem pública, autoridade e segurança nas ruas. 

Em meio às tensões políticas da Revolução de 1930, surgiam os chamados “bate-paus”, grupos associados aos conflitos e disputas locais.

Em 2026, a cidade volta a discutir a presença de uma força de atuação urbana, agora dentro de uma estrutura institucional e jurídica distinta: a implantação da Guarda Municipal

Embora separados por quase um século, esses dois momentos revelam como o tema da segurança pública acompanha as transformações políticas, administrativas e sociais do município.

Durante a Revolução de 1930, Itaúna ainda conservava características típicas de uma pequena cidade do interior mineiro, marcada por limitações estruturais, ruas precárias e pela lenta circulação de informações. Enquanto os acontecimentos políticos se expandiam pelo país, grande parte da população compreendia apenas parcialmente a dimensão dos conflitos nacionais.

O destacamento itaunense da Força Pública de Minas Gerais, corporação que posteriormente daria origem à atual Polícia Militar, havia sido deslocado para Belo Horizonte para reforçar as tropas mineiras diante da crise que se desenrolava na capital.

Com a ausência do contingente policial local, o Coronel Arthur Contagem Vilaça, então chefe do Executivo municipal e presidente da Câmara de Vereadores, organizou um destacamento provisório formado por civis para auxiliar na manutenção da ordem pública.

Sem armamento adequado, esses homens utilizavam porretes de madeira, origem da expressão “bate-paus”. Alguns também usavam lenços vermelhos ligados à adesão local ao movimento revolucionário, elemento que se tornaria uma das marcas simbólicas daquele contexto político em Itaúna.

A formação dos bate-paus evidencia também os limites da presença estatal nas pequenas cidades do interior brasileiro durante as primeiras décadas do século XX. Diante da retirada do efetivo policial para a capital mineira, o próprio município precisou improvisar formas locais de autoridade e vigilância.

Os relatos preservados pela memória local demonstram que muitos desses homens não eram policiais profissionais, mas funcionários e moradores convocados em caráter emergencial. Um dos casos mais conhecidos foi o de Benevides Garcia, fotógrafo, “chauffeur do carro de praça” e motorista da Câmara Municipal na época, que anos depois seria lembrado como integrante do destacamento improvisado.

Segundo seu próprio relato, Arthur Vilaça o teria nomeado “sargento” dos bate-paus. Benevides afirmaria anos depois que entrou para o grupo “contra a própria vontade”, evidenciando o caráter improvisado daquela mobilização civil durante a Revolução de 1930.

Mais do que uma força organizada de segurança, os bate-paus refletiam um período marcado pela precariedade institucional e pela forte influência das lideranças locais sobre a vida pública. Em cidades pequenas do interior brasileiro, as fronteiras entre servidor público, cidadão comum e agente de autoridade ainda eram bastante fluidas.

A ausência de uma estrutura profissional de policiamento fazia com que o próprio poder municipal assumisse funções de mediação da ordem urbana diante de situações consideradas emergenciais.

A aproximação entre os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal, entretanto, exige cautela histórica. Não se trata de afirmar que ambos possuam a mesma natureza, função ou legitimidade, mas de compreender como diferentes épocas produziram distintos modos de atuação do poder público nas ruas da cidade.

Na década de 1930, a força política frequentemente se apoiava em relações pessoais, influência local e demonstrações informais de poder. Em 2026, o debate ocorre dentro de uma lógica burocrática e institucional, marcada por regulamentação jurídica, profissionalização e controle administrativo.

A proposta contemporânea surge associada ao crescimento urbano, à organização do trânsito, à proteção patrimonial e às demandas por maior atuação do poder público nos espaços urbanos.

Revisitar a memória dos bate-paus, portanto, não significa estabelecer equivalências simplistas entre passado e presente. O interesse histórico está em perceber como diferentes períodos produziram respostas próprias para questões relacionadas à ordem urbana, à autoridade pública e às percepções locais de insegurança.

A distância entre as formas improvisadas de vigilância de 1930 e os projetos institucionais discutidos em 2026 revela não apenas mudanças nas estruturas de segurança pública, mas também transformações na própria relação entre administração municipal, autoridade e espaço urbano.

Entre permanências e mudanças, os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal evidenciam como diferentes épocas produziram distintas maneiras de estruturar a autoridade, a segurança e a atuação do poder municipal na trajetória histórica, política e urbana de Itaúna.

Elaborado a partir de reportagens publicadas pelo extinto Jornal Panorama Itaunense na década de 1980 e de relatos sobre os “bate-paus” durante a Revolução de 1930 preservados em acervos de memória local.

  

© ITAÚNA DÉCADAS
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG

 

 Fonte: Jornal Panorama Itaunense, pág. 9 (Década 80)

Acervo: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC

Imagem: Meramente ilustrativa.

sábado, maio 16, 2026

O “MONSTRO” EM ITAÚNA (P2)

VIGILÂNCIA E DITADURA ITAÚNA MG

Doutor Simonini nos arquivos do DOPS

(Parte 2)

A presença do Dr. Simonini nos informes, contudo, não se restringe à esfera discursiva. Em diferentes registros, sua atuação é captada a partir de sua circulação em espaços considerados politicamente sensíveis.

Em 1984, ele é listado entre os participantes de eventos que reuniam representantes do PMDB, do PT e do PDT, além de setores do movimento estudantil, em contextos marcados por críticas ao regime e pela defesa de reformas políticas.

No mesmo ano, sua presença é novamente registrada durante a IV Semana de Estudos Jurídicos em Itaúna (MG), encontro que reuniu autoridades locais, acadêmicos e representantes de diferentes correntes políticas em torno de debates marcados pela crítica institucional e pela defesa da reorganização democrática.

Organizada pela Diretoria Acadêmica da Faculdade de Direito da Universidade de Itaúna, em parceria com a Prefeitura Municipal e a União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE/MG), a iniciativa configurou-se como espaço de convergência entre poder público, meio universitário e movimentos estudantis, evidenciando a intensidade das articulações políticas e intelectuais que marcavam o contexto da abertura democrática.

À luz desse cenário, a presença do Dr. Simonini, já identificado pelos órgãos de informação, não apenas reafirma sua inserção em circuitos de debate estratégico, mas também evidencia a atenção dispensada pelos aparelhos de vigilância a ambientes de circulação de discursos críticos e articulações políticas.

A atuação do Dr. José Simonini Filho nesse encontro acadêmico, realizado em 1984, deve ser compreendida à luz de sua posição institucional naquele momento, quando exercia a presidência da Câmara Municipal de Itaúna (1983–1984).

Longe de representar uma presença meramente protocolar, sua participação revela a articulação entre o poder legislativo local e os espaços universitários de debate político em um contexto de transição democrática.

Ao integrar um fórum que reunia juristas, lideranças estudantis e agentes políticos envolvidos nos debates sobre a Constituinte, reformas institucionais e críticas à ideologia de segurança nacional, Dr. Simonini atuava simultaneamente como representante institucional e participante de redes de circulação política.

Em um cenário marcado pela vigilância dos órgãos de informação, sua presença, enquanto presidente do Legislativo municipal, ampliava o significado político da iniciativa, indicando não apenas engajamento individual, mas também a permeabilidade das instituições locais às pautas de redemocratização. 

Assim, sua atuação na Semana Jurídica pode ser interpretada como expressão da convergência entre poder institucional, debate público e monitoramento estatal, reforçando seu papel nos circuitos políticos observados pelo regime.

A relevância desse episódio torna-se particularmente evidente na documentação produzida pelos órgãos de informação acerca do evento, cujos registros revelam um nível minucioso de acompanhamento, contemplando falas, participantes, articulações políticas e diferentes momentos do encontro com riqueza de detalhes. 

O nível de detalhamento desses informes sugere a hipótese de acompanhamento direto do evento, possivelmente por agentes ou colaboradores vinculados aos órgãos de informação, interpretação reforçada pela precisão das descrições presentes nos relatórios produzidos pelo SNI.

Para além do acompanhamento de figuras específicas, os órgãos de vigilância buscavam compreender dinâmicas de circulação política, redes de sociabilidade e espaços de formação de discurso crítico no contexto da abertura democrática.

Diante da densidade desse conjunto documental, a IV Semana de Estudos Jurídicos da Universidade de Itaúna emerge como um importante espaço de observação das relações entre circulação política, debate acadêmico e vigilância estatal nos anos finais do regime militar, constituindo objeto que demandará análise específica em estudo posterior.

A atuação do Dr. Simonini no contexto da campanha pelas “Diretas Já” permite observar, com especial nitidez, a articulação entre vigilância, circulação política e controle estatal. Sob essa perspectiva, destaca-se sua participação na organização de uma caravana de lideranças políticas de Itaúna com destino a Brasília, com o objetivo de acompanhar a votação da “Emenda Dante de Oliveira”.

Entre os participantes de Itaúna/MG, segundo registros do Serviço Nacional de Informações (SNI), destacavam-se o vereador José Simonini Filho, associado ao “PMDB/MG” e identificado pelo código “B1492809”, bem como o prefeito Francisco Ramalho da Silva Filho, também vinculado ao “PMDB/MG” e mencionado em outro documento sob o código “B1493565”. Também apareciam nos informes os vereadores Walter Marques da Silva e João José Joaquim de Oliveira, igualmente relacionados ao “PMDB/MG”.

Os registros dos órgãos de informação mencionavam ainda o jornalista Célio Silva, do Jornal Brexó, associado ao “PT/MG”. Em outros documentos relativos à imprensa itaunense já analisados, Célio aparecia identificado pelo código “B0783936”. Os informes consultados mencionavam também o Dr. Peri Tupinambás, igualmente vinculado ao “PT/MG”.

A relevância desse episódio reside não apenas no fato em si, mas na possibilidade de sua apreensão a partir de diferentes registros documentais. Informes produzidos pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) já indicavam previamente a participação do Dr. Simonini e de outras lideranças locais nessa mobilização, evidenciando que o deslocamento e a articulação política desses sujeitos eram objeto de acompanhamento por parte dos órgãos de informação.

Essa mesma mobilização é posteriormente registrada pelo Jornal Brexó, em edição de 28 de abril de 1984, que relata a tentativa de deslocamento da caravana e sua interrupção por forças de segurança ao longo do trajeto.

A matéria descreve a presença de militares e policiais armados, a instalação de barreiras nas estradas e a impossibilidade de prosseguimento da viagem, corroborando, em chave narrativa e pública, um evento que já havia sido objeto de registro pelos órgãos estatais (SNI).

A dimensão concreta desse bloqueio é evidenciada de forma particularmente expressiva no relato publicado pelo periódico, que descreve o episódio nos seguintes termos:

“Essas chapas cheias de pregos pontiagudos iam-se afunilando fazendo os motoristas entrar num corredor e a cada metro, soldados do exército, policiais de Goiás e Federal, todos armados de metralhadora e fuzil e outros aparatos militar. [...] De posse dos nossos documentos, folheavam enorme lista à procura de nossos nomes. Não encontrando-os na relação (lista de criminosos? subversivos?) anotaram nossos nomes noutra folha especial com todos dados possíveis. Enquanto isso um militar do exército chama Ramalho: Sinto muito, mas solicitamos que todos retornem, não podem passar [...] éramos impedidos de ir à Brasília [...] e tivemos que voltar.”

O relato explicita, em linguagem direta, os mecanismos de controle empregados no bloqueio da caravana, revelando não apenas a presença ostensiva de forças de segurança, mas também práticas de identificação e registro dos indivíduos presentes.

A menção às listas de nomes e à classificação implícita dos participantes como potenciais “subversivos” reforça a interpretação de que tais mobilizações eram previamente monitoradas, articulando vigilância informacional e contenção prática da ação política.

A articulação entre essas duas fontes indica não apenas a ocorrência do episódio, mas o modo como ele foi simultaneamente vivido, observado e registrado. De um lado, a vigilância estatal, que antecede e acompanha a ação política; de outro, a imprensa local, que transforma o acontecimento em narrativa pública. Tal sobreposição demonstra que a vigilância não operava de forma posterior, mas integrada ao próprio desenrolar dos eventos.

Desse modo, o episódio da caravana evidencia que o aparato de vigilância não se limitava à produção de informações, mas se articulava a práticas concretas de contenção da ação política. Ao impedir o deslocamento de lideranças locais até Brasília, o Estado não apenas monitorava, mas atuava diretamente na limitação da participação política, demonstrando a continuidade de mecanismos de controle mesmo no contexto de abertura.

Ao mesmo tempo, a cobertura jornalística revela os efeitos concretos desse monitoramento, tornando visíveis práticas de contenção que não aparecem de forma explícita nos documentos de informação. O bloqueio da caravana, ao ser narrado pela imprensa, torna visível a dimensão prática do controle estatal.

A participação do Dr. Simonini nesse episódio reforça sua inserção em articulações que extrapolavam o âmbito municipal, ao mesmo tempo em que indica o acompanhamento dessas mobilizações pelos órgãos de informação. 

A partir da análise conjunta dessa documentação, torna-se possível compreendê-lo não como um ator local isolado, mas como um agente inserido em múltiplas dimensões da vida política durante a abertura democrática, incluindo aspectos discursivos, institucionais, partidários e relacionais.

A dimensão partidária de sua atuação torna-se evidente em documentação de 1986, relativa à impugnação da chamada “Chapa Alternativa” do PMDB mineiro. Nesse informe, Dr. Simonini figura entre os candidatos vinculados ao grupo cuja candidatura foi contestada no âmbito do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais.

Ainda que o documento não atribua qualificações ideológicas diretas aos envolvidos, sua inclusão nesse conjunto revela sua inserção em disputas internas do partido, indicando que sua trajetória também se desenvolvia no interior das dinâmicas de reorganização política que marcaram o período de transição.

A análise conjunta dessa documentação permite ultrapassar a identificação de ocorrências pontuais e indica a existência de um sistema estruturado de produção, circulação e interpretação de informações que operava de forma contínua ao longo do regime.

Mais do que registrar fatos, os órgãos de informação construíam narrativas, classificavam indivíduos e estabeleciam conexões que, muitas vezes, antecediam a própria comprovação empírica das suspeitas levantadas, como evidenciado na produção de registros que sistematizavam informações biográficas, institucionais e discursivas na forma de perfis políticos organizados.

Nesse contexto, a recorrente presença do Dr. José Simonini Filho nos registros do DOPS e do SNI não deve ser interpretada como evidência de atuação clandestina ou de centralidade “subversiva”, mas como indicativo de sua inserção em espaços considerados politicamente relevantes pelos órgãos de informação.

Sua trajetória evidencia a ampliação do monitoramento sobre sujeitos atuantes em instituições públicas, universidades, imprensa local e circuitos legítimos de participação política, revelando as ambiguidades da própria abertura democrática brasileira, marcada pela coexistência entre ampliação do debate público e permanência de mecanismos ativos de vigilância e controle.

Ao longo do período analisado, observa-se que a vigilância não desaparece com a abertura política, mas se reconfigura, adaptando suas formas de registro e acompanhamento às novas condições do regime. A passagem de uma linguagem explicitamente acusatória para descrições mais relacionais não implica a redução do controle, mas sua reorganização em bases mais difusas e sistemáticas.

Nesse contexto, os documentos analisados não revelam apenas os indivíduos vigiados, mas também o próprio funcionamento do aparato estatal durante a abertura política. Ao produzir registros, estabelecer conexões e acompanhar práticas sociais e políticas, os órgãos de informação construíam formas específicas de leitura da realidade, evidenciando mecanismos de intervenção e controle que continuaram operando mesmo em meio ao processo de redemocratização.

Nesse sentido, os documentos produzidos pelo DOPS, pelo SNI e por outros órgãos de informação não revelam apenas a trajetória do Dr. José Simonini Filho, mas também as formas pelas quais o aparato estatal acompanhava a vida política em cidades do interior durante os anos finais da ditadura.

Em Itaúna, tal como em diversas cidades brasileiras, a vigilância não incidia apenas sobre práticas clandestinas, mas alcançava espaços institucionais, universidades, jornais, movimentos estudantis, discursos públicos e redes locais de sociabilidade.

Décadas depois, esses arquivos permanecem não apenas como vestígios da vigilância estatal, mas como testemunhos das formas pelas quais o regime buscou interpretar, acompanhar e administrar a vida política brasileira mesmo durante o processo de abertura democrática.

 

Nota Documental:

Esta reportagem foi elaborada a partir de documentos do DOPS/MG pertencentes ao acervo do Arquivo Público Mineiro (APM), bem como de registros do Serviço Nacional de Informações (SNI) consultados por meio do Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), além de outras fontes documentais relacionadas ao período da ditadura militar brasileira.

Os termos e classificações reproduzidos refletem a linguagem e os enquadramentos produzidos pelos próprios órgãos de vigilância da época, sendo analisados em perspectiva histórica e documental.

A pesquisa também contou com diálogo direto e levantamento de informações junto ao Dr. José Simonini Filho, incluindo a apresentação da documentação utilizada e a realização de questionário complementar sobre os episódios abordados.

Charles Galvão de Aquino — Historiador. Registro nº 343/MG.


REFERÊNCIAS

FONTES DOCUMENTAIS

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84009914. Conferência de José Maria Rabelo, presidente regional do PDT em Minas Gerais, em Itaúna (MG)

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83008922. José Simonini Filho, vereador eleito pelo PMDB, Itaúna (MG). 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83035633. Fundação de Ensino Superior de Itaúna (MG): posse dos diretórios estudantis.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010383. IV Semana de Estudos Jurídicos em Itaúna (MG). 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 86012432. Impugnação da Chapa Alternativa do PMDB de Minas Gerais. 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010318. Campanha pelas eleições diretas para a Presidência da República em Minas Gerais. Arquivos: d0001de0003; d0002de0003; d0003de0003. 

BRASIL. Ministério do Exército. I Exército. 4ª Região Militar/4ª Divisão de Infantaria. Estado-Maior – 2ª Seção. José Simonini Filho (médico e professor). Belo Horizonte, 28 jan. 1969. Documento confidencial. Arquivo Público Mineiro (APM), Pasta 4024, f. 239-240. Acesso em: 4 abr. 2026.

JORNAL BREXÓ. Itaúna, n. 201, 28 abr. 1984. p. 1 e 8.

REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES

A GAZETA. “Monstro”: SNI se espalhou por 249 ministérios e órgãos durante a ditadura. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/es/politica/monstro--sni-se-espalhou-por-249-ministerios-e-orgaos-durante-a-ditadura-03I9. Acesso em: 8 maio 2026.

BBC NEWS BRASIL. Como funcionava o SNI, o “monstro” da repressão criado pela ditadura militar há 60 anos. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz77xg4zIrpo. Acesso em: 8 maio 2026.

CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Presidentes: José Simonini Filho. Disponível em: https://www.cmitauna.mg.gov.br/portal/presidentes. Acesso em: 9 maio 2026.

 

sábado, maio 09, 2026

O “MONSTRO” EM ITAÚNA (P1)

Itaúna sob Vigilância: os documentos secretos do DOPS e SNI

Doutor Simonini nos arquivos do DOPS

(Parte 1)

Ao longo das décadas da ditadura militar brasileira, diferentes cidadãos, instituições e espaços de sociabilidade passaram a integrar os registros produzidos pelos órgãos de vigilância e informação do Estado. 

Em Itaúna (MG), documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e de setores militares revelam o monitoramento de médicos, professores, religiosos, lideranças políticas, estudantes e até veículos da imprensa local entre os anos de 1969 e 1986.

Nesse contexto, a trajetória documental do médico e político Dr. José Simonini Filho surge de forma recorrente nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação, frequentemente articulada à atuação do padre holandês Antônio Wiemmers, de setores estudantis e do próprio Jornal Brexó, cuja circulação e conteúdo também passaram a integrar os mecanismos de observação estatal.

Mais do que acompanhar indivíduos considerados “subversivos”, a vigilância avançava sobre diferentes dimensões da vida social, produzindo relatórios, cruzando informações e construindo perfis políticos ao longo do tempo.

Décadas depois, a frase atribuída ao general Golbery do Couto e Silvacriei um monstro — permanece como uma das sínteses mais contundentes sobre a dimensão alcançada pelos aparatos de informação durante o regime militar.

A documentação analisada nesta reportagem especial permite observar como esse sistema também se fazia presente em escala local, articulando vigilância política, circulação de discursos públicos e acompanhamento contínuo de atores sociais em cidades do interior mineiro.

A análise da trajetória do Dr. José Simonini Filho, a partir da documentação produzida pelos órgãos de repressão e informação do Estado brasileiro, permite identificar não apenas a recorrência de seu nome em diferentes registros, mas, sobretudo, a continuidade de sua inserção nos circuitos de vigilância ao longo de distintas fases do regime.

Ao articular documentos oriundos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), de setores do Exército e do Serviço Nacional deInformações (SNI), evidencia-se não apenas a permanência da vigilância, mas também a transformação de suas formas, da suspeição ideologicamente orientada ao monitoramento relacional e sistemático característico da abertura política.

Os primeiros registros, datados de 1969 e produzidos no âmbito da 4ª Região Militar, já indicam a inscrição do Dr. Simonini nos sistemas de vigilância estatal. Tal caracterização revela não apenas a observação de suas práticas, mas sua inserção em categorias ideológicas próprias do regime, nas quais a crítica política era interpretada como desvio e potencial ameaça.

Essa lógica torna-se ainda mais evidente na documentação produzida pelo DOPS em outubro de 1971. Em correspondência enviada ao delegado de polícia de Itaúna, o órgão solicitava “investigações sigilosas” sobre supostas reuniões consideradas “suspeitas” realizadas na residência do cirurgião-dentista Mário Alves de Souza, das quais participariam, o “Dr. José Simonini Filho e o padre holandês Antônio Wiemmers e outros”.

A resposta encaminhada pela autoridade policial local revela aspectos significativos da lógica de produção dessas informações. O teor do documento é revelador não apenas pelo conteúdo, mas pelo nível de detalhamento mobilizado: são mencionados endereço específico, identificação profissional dos envolvidos e a possível recorrência temporal dos encontros.

Após comentar a suposta realização de reuniões “comunistas” na cidade, o delegado passa a apresentar uma espécie de perfil político do Dr. Simonini, estruturado em tópicos numerados, nos quais se misturam dados profissionais, impressões pessoais, rumores e interpretações ideológicas. O relatório registrava:

1.    “O sr. Simonini é médico do INPS local e exerce certa influência na classe operária desta cidade”;

2.    “É professor no Ginásio Industrial e Estadual ‘Dona Judith Gonçalves’, onde leciona ciências naturais”. Esse Ginásio está localizado no Bairro Santanense, o principal da cidade;

3.    “O Dr. Simonini é um antimilitarista por excelência, perigosíssimo e, segundo ouvi dizer, costumava atacar a Revolução de 1964”;

4.    “No mesmo Ginásio do item 2º, leciona também o holandês Padre Antônio Wiemmers, de que falarei posteriormente”;

5.    “No Ginásio Industrial e Estadual “Dona Judith Gonçalves” que tem como Diretor e Dr. Décio Gonçalves, nunca foi hasteada a Bandeira do Brasil”.

Mais do que comprovar práticas efetivamente subversivas, o documento evidencia a forma como os órgãos de vigilância articulavam informações objetivas, comentários pessoais, percepções cotidianas e elementos não verificados na construção de perfis considerados politicamente sensíveis.

A própria expressão “segundo ouvi dizer”, utilizada no relatório, revela que parte dessas interpretações circulava em um terreno marcado por rumores e avaliações subjetivas posteriormente incorporadas aos registros oficiais do aparato repressivo.

Sob essa perspectiva, a inclusão do Dr. José Simonini Filho nesses documentos não deve ser interpretada como evidência automática de envolvimento em atividades clandestinas, mas como parte de um processo mais amplo de enquadramento político, no qual determinados indivíduos passavam a integrar circuitos permanentes de observação estatal.

Mais do que revelar exclusivamente o objeto vigiado, esses registros tornam visível o próprio funcionamento da lógica repressiva, baseada na produção contínua de suspeitas, classificações e conexões políticas.

Nesse contexto, a vigilância não se dirigia exclusivamente a indivíduos isolados, mas buscava mapear conexões entre diferentes atores sociais, incluindo profissionais liberais, agentes educacionais e membros do clero.

A presença do padre holandês Antônio Wiemmers, pároco do bairro Santanense, nos registros em que também figura do Dr. José Simonini Filho, revela-se particularmente significativa, na medida em que evidencia a ampliação do escopo da vigilância para além do campo político formal e alcança também espaços religiosos, educacionais e comunitários.

Sua recorrência nos documentos, frequentemente associada a qualificações fortemente negativas, nas quais é descrito como “elemento perigoso”, “subversivo” e “antimilitarista”, evidencia que lideranças religiosas com inserção local relevante eram percebidas pelos órgãos de segurança como potenciais focos de influência e desestabilização.

Importa destacar que tais caracterizações emergem de um enquadramento próprio da lógica repressiva, devendo, portanto, ser analisadas com cautela metodológica. Cabe observar, que parte dos registros em que Dr. Simonini é mencionado encontra-se articulada à atuação do referido sacerdote, o que confere especial relevância a esse conjunto documental.

Por essa razão, a análise mais aprofundada desse conjunto documental, especialmente no que se refere à construção discursiva sobre o padre Antônio Wiemmers, será retomada em seção específica.

Documentos posteriores, como os de 1973, reiteram essas percepções, reforçando a continuidade das interpretações construídas anteriormente. A repetição de acusações e qualificações revela que a vigilância operava por acumulação e sedimentação de informações, consolidando perfis políticos ao longo do tempo, independentemente da produção de novas evidências.

Ao longo da década de 1980, já no contexto da abertura política, observa-se uma inflexão significativa nas formas de registro, sem que isso implique a interrupção da vigilância. Os informes produzidos pelo SNI e pela Polícia Militar passam a privilegiar o acompanhamento de atividades públicas, como discursos, eventos acadêmicos e articulações partidárias, substituindo, em grande medida, a linguagem explicitamente acusatória por uma descrição mais relacional.

Em 1983, por exemplo, o Dr. Simonini, então vereador pelo PMDB em Itaúna e presidente da Câmara Municipal, aparece em registros dos órgãos de informação durante sessão legislativa na qual criticava a violência policial, associando-a ao cenário político nacional sob a presidência do general João Figueiredo

O episódio repercutiu inclusive em meios de comunicação locais, evidenciando que seus posicionamentos públicos continuavam a integrar os mecanismos de acompanhamento estatal.

Outro elemento particularmente relevante no documento é a incorporação, como anexo, de recortes do jornal Brexó, veículo que já havia sido objeto de monitoramento no contexto da imprensa itaunense. A presença desse material indica que os órgãos de informação não apenas produziam seus próprios registros, mas também integravam conteúdos da esfera pública à construção de seus dossiês, ampliando o alcance da vigilância para além do campo institucional.

Sob essa perspectiva, o documento evidencia uma articulação entre vigilância estatal e circulação de discursos públicos, na qual a imprensa local passa a ser não apenas observada, mas também utilizada como fonte para a produção de inteligibilidade sobre o cenário político.

Ainda que o tom dos informes já se apresentasse menos explicitamente acusatório, a recuperação de “antecedentes” demonstra a permanência de uma lógica de interpretação que articulava passado e presente na construção de perfis políticos.

Nesse contexto, o documento produzido pelos órgãos de informação reunia dados biográficos, trajetória profissional, atuação institucional e posicionamentos públicos, articulando diferentes temporalidades na elaboração de uma narrativa contínua sobre sua atuação. 

Tal estrutura revela que a vigilância já não se limitava à observação de eventos isolados, mas operava por meio da organização sistemática de informações acumuladas, permitindo ao Estado produzir leituras mais amplas e duradouras sobre determinados sujeitos.

Essa continuidade também se expressa na recorrência de sua presença em eventos considerados politicamente relevantes. Nesses registros, Dr. Simonini aparece como agente inserido em múltiplos circuitos de sociabilidade, sendo acompanhado não apenas por suas falas, mas por sua circulação em ambientes que reuniam diferentes setores da oposição.

Um elemento particularmente revelador dessa continuidade é a atribuição de identificadores individuais, como o código “B1492809”, associado ao nome do Dr. Simonini em diferentes documentos ao longo da década de 1980. 

A manutenção desse código indica a existência de sistemas estruturados de indexação no interior do aparato de inteligência, permitindo o cruzamento de informações, a recuperação de antecedentes e o acompanhamento contínuo de determinados indivíduos por diferentes órgãos de segurança.

A recorrência desse identificador sugere que Dr. Simonini não era apenas mencionado em informes circunstanciais, mas integrava um universo de indivíduos cuja atuação era objeto de registro sistemático, evidenciando uma dimensão mais estruturada e duradoura da vigilância estatal.

Essa lógica de enquadramento se manifesta também em outros registros do período. Em informe referente à cerimônia de posse de diretórios estudantis da Fundação de Ensino Superior de Itaúna (FENSUPI), Dr. Simonini aparece como autoridade presente e orador, defendendo a estatização do ensino e a gratuidade universitária.

 Nota Documental:

Esta reportagem foi elaborada a partir de documentos do DOPS/MG pertencentes ao acervo do Arquivo Público Mineiro (APM), bem como de registros do Serviço Nacional de Informações (SNI) consultados por meio do Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), além de outras fontes documentais relacionadas ao período da ditadura militar brasileira.

Os termos e classificações reproduzidos refletem a linguagem e os enquadramentos produzidos pelos próprios órgãos de vigilância da época, sendo analisados em perspectiva histórica e documental.

A pesquisa também contou com diálogo direto e levantamento de informações junto ao Dr. José Simonini Filho, incluindo a apresentação da documentação utilizada e a realização de questionário complementar sobre os episódios abordados.

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº343/MG)

 

REFERÊNCIAS

FONTES DOCUMENTAIS

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84009914. Conferência de José Maria Rabelo, presidente regional do PDT em Minas Gerais, em Itaúna (MG)

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83008922. José Simonini Filho, vereador eleito pelo PMDB, Itaúna (MG). 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 83035633. Fundação de Ensino Superior de Itaúna (MG): posse dos diretórios estudantis.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010383. IV Semana de Estudos Jurídicos em Itaúna (MG). 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 86012432. Impugnação da Chapa Alternativa do PMDB de Minas Gerais. 

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo Serviço Nacional de Informações (SNI). Série MIC/GNC/OOO. Dossiê 84010318. Campanha pelas eleições diretas para a Presidência da República em Minas Gerais. Arquivos: d0001de0003; d0002de0003; d0003de0003. 

BRASIL. Ministério do Exército. I Exército. 4ª Região Militar/4ª Divisão de Infantaria. Estado-Maior – 2ª Seção. José Simonini Filho (médico e professor). Belo Horizonte, 28 jan. 1969. Documento confidencial. Arquivo Público Mineiro (APM), Pasta 4024, f. 239-240. Acesso em: 4 abr. 2026.

JORNAL BREXÓ. Itaúna, n. 201, 28 abr. 1984. p. 1 e 8.

REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES

A GAZETA. “Monstro”: SNI se espalhou por 249 ministérios e órgãos durante a ditadura. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/es/politica/monstro--sni-se-espalhou-por-249-ministerios-e-orgaos-durante-a-ditadura-03I9. Acesso em: 8 maio 2026.

BBC NEWS BRASIL. Como funcionava o SNI, o “monstro” da repressão criado pela ditadura militar há 60 anos. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz77xg4zIrpo. Acesso em: 8 maio 2026.

CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Presidentes: José Simonini Filho. Disponível em: https://www.cmitauna.mg.gov.br/portal/presidentes. Acesso em: 9 maio 2026.

 

quarta-feira, abril 22, 2026

O BRASIL EM XEQUE (1831)

CORCUNDAS X PATRIOTAS

O Brasil volta a ferver...

Opiniões rígidas. Discursos inflamados. Certezas absolutas de todos os lados.

Mas antes de achar que estamos vivendo algo inédito, vale uma pergunta incômoda:
isso é realmente novo… ou apenas mais um capítulo de uma velha história?

Em 1831, o país já enfrentava um cenário de intensa divisão política. De um lado, os chamados “corcundas”, defensores da ordem tradicional e da monarquia.

Do outro, os “patriotas”, que questionavam esse modelo e defendiam mudanças profundas na organização do país.

O texto do historiador itaunense João Dornas Filho, ao apresentar esse embate em forma de diálogo popular, revela algo que atravessa o tempo: a dificuldade de lidar com o diferente sem transformá-lo em inimigo.

Ali, como agora, não faltavam acusações, certezas morais e discursos carregados de verdade absoluta.

Ali, como agora, o debate muitas vezes dava lugar ao confronto.

Revisitar “Corcundas x Patriotas” em 2026 não é apenas olhar para o passado.
É reconhecer padrões que insistem em se repetir.

Porque talvez o problema nunca tenha sido apenas quem estava certo…

mas a forma como escolhemos discordar.

Leia o texto completo:

CORCUNDAS X PATRIOTAS

E depois reflita:

Mudaram os nomes… ou continuamos vivendo o mesmo conflito?

Referência:

AQUINO, CharlesGalvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

FILHO, João Dornas: A abdicação e a musa popular em 1831 — CULTURA POLÍTICA — Revista mensal de estudos brasileiros. - INVENTÁRIO - BN - Rio de Janeiro, Ano IV Nº 41- Junho de 1944, p.155-159.

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. 



sexta-feira, abril 17, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (6) P2

VIGILÂNCIA NA IMPRENSA EM ITAÚNA MG

CAPÍTULO 6 (Parte 2)

Mapeando jornalistas: redes,

vigilância e o alcance do sistema de informações

 Dando continuidade à análise, esta segunda parte explora como o sistema de informações não apenas registrava dados, mas construía interpretações sobre a atuação da imprensa. 

A partir de novos documentos, é possível perceber que o monitoramento se estendia para além do âmbito local, alcançando redes mais amplas, espaços institucionais e articulações políticas.

No caso de José Waldemar Teixeira de Melo(B1354048), o nível de circulação é ainda mais amplo. 

Ele aparece como jornalista responsável no Jornal Folha do Oeste (1987 e 1988), mas também como radialista na Rádio Divinópolis (1988) e como jornalista no Jornal A Semana, também em Divinópolis.

Esse monitoramento, no entanto, não se inicia nesse momento. Já em 1981, o SNI havia realizado um “Levantamento de dados de Jornais” em diversos estados, incluindo Minas Gerais. Nesse levantamento, o Jornal Folha do Oeste já aparece registrado, tendo o próprio JoséWaldemar Teixeira de Melo como proprietário. 

Para isso, foi utilizado um questionário padronizado, o que indica que o acompanhamento da imprensa não era pontual, mas integrava um processo sistemático anterior às fichas analisadas neste estudo.

Além disso, a documentação produzida pelo SNI no final da década de 1980 amplia significativamente o alcance desse acompanhamento ao situar José Waldemar Teixeira de Melo também no circuito nacional da imprensa política. 

Em dossiê classificado como “Confidencial”, com os informes dos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, voltado à atuação de jornalistas credenciados no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto, Waldemar aparece listado como repórter credenciado, identificado pelo registro nº 264/87, vinculado ao jornal Diário da Tarde, ao lado de profissionais provenientes de diferentes estados do país.

Mais do que ampliar a escala desse acompanhamento, esse documento também evidencia uma mudança qualitativa importante. Se, nos registros anteriores, o foco recaía sobre a organização técnica do sistema e o acompanhamento dos profissionais, neste documento observa-se um deslocamento: a incorporação de interpretações sobre o próprio papel da imprensa no cenário político.

Nesse sentido, o documento não se limita a um simples cadastro funcional. Ele se insere em uma narrativa produzida pelos órgãos de informação que atribui à atuação da imprensa um papel ativo em disputas ideológicas.

Ao afirmar, com base em “declarações de jornalistas credenciados”, que “as esquerdas” exerceriam um suposto “controle das comunicações” no interior do Congresso Nacional, influenciando a circulação das notícias “do interesse de facções esquerdistas”, o registro evidencia não apenas a coleta de informações, mas também a construção de uma leitura específica sobre o campo jornalístico.

Essa formulação não deve ser tomada como descrição neutra da realidade, mas como parte de um enquadramento discursivo próprio do sistema de informações, que operava por meio da seleção, interpretação e classificação dos dados coletados. Mais do que registrar, o documento interpreta e, ao fazê-lo, revela as lentes através das quais a atividade jornalística era observada pelos órgãos de inteligência.

Nesse contexto, a presença de Waldemar no conjunto documental não apenas confirma a continuidade de sua vigilância, mas o posiciona em um espaço considerado estratégico pelos órgãos de inteligência: o da mediação entre informação jornalística e poder político.

Diferentemente dos registros anteriores, centrados em sua atuação regional, este documento evidencia que seu acompanhamento se estendia a instâncias centrais da vida política nacional, reforçando a hipótese de que o monitoramento incidia prioritariamente sobre indivíduos capazes de transitar entre diferentes escalas, local, regional e federal, no campo da comunicação.

A documentação analisada revela ainda um elemento que amplia significativamente a compreensão do alcance desse monitoramento: a participação da imprensa regional em espaços coletivos de articulação, como o 5º Congresso de Jornais do Interior, realizado entre 30 de outubro e 2 de novembro de 1986, em Caxambu (MG), com a participação de cerca de 500 pessoas e representantes de diferentes estados brasileiros e países sul-americanos.

Esse evento também foi registrado pelo SNI como “Confidencial” e identificado pelos códigos “B1C”, “RR1”, Z7 “A” e “W”, o que amplia significativamente a compreensão do alcance desse sistema de vigilância.

No caso de Minas Gerais, o evento reuniu diversos veículos de comunicação do interior, entre os quais se destacam, no âmbito da imprensa itaunense, os jornais Brexó, Ita Vox, Folha do Centro-Oeste e Folha do Oeste. A esses somavam-se periódicos de cidades vizinhas, como a Gazeta Paraminense, de Pará de Minas, e o jornal Agora, de Divinópolis.

Outro aspecto relevante presente na documentação é a indicação de apoio institucional ao evento, registrado na programação oficial como “Apoio: Minas Gerais – Governo Hélio Garcia”. A presença do governo estadual como apoiador do congresso evidencia que a imprensa do interior não operava à margem das estruturas institucionais, mas mantinha relações diretas com o poder público.

No entanto, esse vínculo não pode ser interpretado de forma linear: ao mesmo tempo em que eventos dessa natureza recebiam apoio governamental, os documentos do SNI demonstram que esses mesmos espaços, veículos e profissionais eram objeto de monitoramento sistemático pelos órgãos de informação.

Nesse sentido, a manutenção do mesmo código em todos esses registros indica que o acompanhamento não se restringia a um único meio de atuação ou espaço geográfico, mas ocorria de forma contínua e integrada ao sistema. 

Como demonstrado em capítulos anteriores, cada indivíduo era associado a um identificador, que permitia registrar, ao longo do tempo, suas mudanças de função, inserção profissional e deslocamentos. Tal procedimento evidencia que a vigilância não se vinculava apenas ao cargo ou ao órgão de imprensa, mas à própria pessoa, integrando indivíduos e veículos de comunicação a uma mesma lógica classificatória baseada em códigos específicos.

No caso da Rádio Clube de Itaúna, os documentos revelam que o veículo também foi incluído nas chamadas “Fichas de Cadastro de Veículo de Comunicação Social”, seguindo o mesmo padrão aplicado aos jornais da cidade. Assim como nos demais registros, há a coleta detalhada de informações institucionais, como endereço, estrutura administrativa e a identificação nominal de seus integrantes, acompanhados de suas funções.

Entre os nomes registrados estão Guaracy de Castro Nogueira, diretor-presidente; Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-secretário; Ari Carvalho, diretor-tesoureiro; Arnaldo Gonçalves Moreira, encarregado geral; Geraldo Lopes, locutor esportivo; Antônio Paulo Nogueira, Danilo Lopes de Oliveira e José Coelho Neto, locutores; além de Cosme Caetano Silva, jornalista, e Marcelo Augusto de Faria Matos, locutor. Esse conjunto de dados demonstra que o monitoramento não se limitava à imprensa escrita, alcançando também a radiodifusão local.

Outro aspecto relevante surge ao cruzar essas informações com diferentes fontes do Arquivo Nacional. Embora os registros analisados pertençam ao fundo do SNI, a pesquisa sobre a Rádio Clube de Itaúna também leva a documentos vinculados à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), ambos disponíveis no Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), ainda que organizados em tipologias documentais distintas.

No acervo, destaca-se um dossiê da Cia. Industrial Itaunense, com mais de 270 páginas, referente ao período de 1983 a 1987, que reúne informações sobre a companhia e sua estrutura administrativa.

Nesse documento, aparecem nomes de integrantes da Rádio Clube de Itaúna e suas funções, como Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza, presidente do Conselho de Administração; Dr. Affonso de Cerqueira Lima, membro do Conselho; Dr. Afonso Henrique da Silva Lima, diretor-gerente; e Jofre Gonçalves de Souza, também ligado à presidência do Conselho, além de registros detalhados das trajetórias e das atividades exercidas por todos os membros. Esse cruzamento de fontes amplia a compreensão do funcionamento da rádio e reforça a articulação entre diferentes esferas institucionais.

Na prática, esse sistema operava como um banco de dados integrado, capaz de cruzar informações, identificar vínculos e mapear a circulação de profissionais da comunicação em diferentes contextos. Mais do que registros isolados, tratava-se de um mecanismo que permitia acompanhar trajetórias completas e estabelecer conexões entre diferentes veículos.

Dessa forma, os documentos pesquisados no SIAN(Sistema de Informações do Arquivo Nacional) revelam que o SNI (Serviço Nacional de Informações) não apenas observava jornais e rádios como instituições, mas também monitorava diretamente os profissionais da comunicação, construindo um mapa detalhado das relações e redes de atuação da imprensa em nível local e regional.

Mais do que vigilância pontual, os documentos revelam um sistema contínuo de acompanhamento, evidenciando a profundidade e a sofisticação do controle exercido sobre a imprensa nas barrancas do Rio São João Acima — hoje Itaúna (MG), a histórica Pedra Negra.

Nota final

Ao longo destes seis capítulos, publicados no Jornal Folha do Povo, antigo Folha do Oeste, fundado em 1944, foi possível apresentar uma análise da imprensa itaunense na década de 1980, com base na documentação disponível.

Com a consolidação desta etapa, dedicada aos veículos de comunicação da cidade, abre-se, em um futuro não muito distante, uma nova fase de investigação: o aprofundamento da análise sobre indivíduos e grupos específicos que também foram alvo de vigilância. 

Entre eles, destacam-se cidadãos identificados nominalmente, empresas, representantes do poder público municipal, instituições de ensino, lideranças religiosas e outros espaços de atuação social e intelectual.

Há ainda um aspecto simbólico que não pode ser ignorado: o fato de que estes capítulos são publicados no Jornal Folha do Povo, herdeiro do antigo Folha do Oeste, reforça a dimensão histórica do próprio trabalho. Trata-se de um veículo que, no passado, esteve inserido nesse contexto de vigilância e que, hoje, permanece ativo, não apenas como meio de comunicação, mas como espaço de memória, reflexão e análise crítica sobre esses mesmos processos.  


Referências:

AQUINO,Charles Galvão de. Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

SÁ, Laís Nóbrega Gabetto de. “SNI 2ª fase”: o Serviço Nacional de Informações no processo constituinte brasileiro (1985–1988). 2024. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Rio de Janeiro, 2024. p. 95–102. Disponível em: https://www.unirio.br/cchs/ppgh/producao-academica/dissertacoes-de-mestrado-e-egressos-pasta/201csni-2a-fase201d-o-servico-nacional-de-informacoes-no-processo-constituinte-brasileiro-1985-1988. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.84009714. Título: Publicações de órgãos da imprensa. Descrição: Dossiê. p. 1–4. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/84009714/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_84009714_d0001de0001.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013583. Título: Cadastros de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. p. 1–2, 19–20v. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.89014611. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. p. 1–2, 29–30. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/89014611/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_89014611_d0001de0003.pdf. Acesso em: 16 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88014600. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Descrição: Dossiê. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88014600/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88014600_d0001de0003.pdf. Acesso em: 11 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013700. Título: Cadastro de veículos de comunicação – Rádio Clube de Itaúna (MG). Descrição: Dossiê. p. 45–65. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013700/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013700_d0002de0007.pdf. Acesso em: 13 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.86012625. Título: Congressos de jornais do interior. Descrição: Dossiê. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/86012625/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_86012625_d0001de0001.pdf. Acesso em: 2 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.AAA.89072766. Título: Jornalistas credenciados no Congresso Nacional. Descrição: Dossiê. p. 1–3, 23. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/aaa/89072766/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_89072766_d0001de0001.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013700. Título: Cadastros de veículos de comunicação – Rádio Divinópolis. Descrição: Dossiê. p. 127–128. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013700/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013700_d0003de0007.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88014600. Título: Cadastro de veículos de comunicação – Jornal A Semana, Divinópolis. Descrição: Dossiê. p. 5–6. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88014600/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88014600_d0001de0003.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo: Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Referência: BR RJANRIO T2.0.IFP.PR1.392. Título: Cia Industrial Itaunense. Descrição: Dossiê. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_T2/0/IFP/PR1/0392/BR_RJANRIO_T2_0_IFP_PR1_0392_d0001de0002.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Fundo: Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Referência: BR RJANRIO T2.0.IFP.PR1.392. Título: Cia Industrial Itaunense. Descrição: Dossiê (continuação). Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_RJANRIO_T2/0/IFP/PR1/0392/BR_RJANRIO_T2_0_IFP_PR1_0392_d0002de0002.pdf. Acesso em: 1 abr. 2026.

 Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos.  


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