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quarta-feira, maio 06, 2020

BARRAGEM DO BENFICA

Pequeno resumo de sua história


Fora eleito prefeito de Itaúna o ilustre médico, dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho, sendo que há 17 anos o povo não votava - Dr. Coutinho governou o município de 15 de dezembro de 1947 a 31 de janeiro de 1951.

Em 1948, ocorreu surpreendente enchente no rio São João, causando enormes danos à comunidade. Dr. Coutinho declarou o município em estado de calamidade pública e dirigiu um memorial ao Presidente da República, General Eurico Gaspar Dutra, solicitando providências relativas ao problema das inundações.

Dr. Camilo Menezes, diretor geral do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), veio a Itaúna, fez os estudos necessários e comunicou ao Ministro da Viação e Obras Públicas, General João Valdetaro de Amorim e Mello, que o problema se resolveria com a construção de um reservatório no rio São João, à montante da cidade, com o fim de controlar as enchentes e aumentar o potencial hidroelétrico do rio.

Dr. Camilo informou ainda ao ministro, que os estudos necessários deveriam ser executados sob o patrocínio da Companhia Industrial Itaunense, concessionária do serviço de força e luz no município e José de Cerqueira Lima, diretor da Itaunense, assumiu o compromisso de tomar as necessárias providências, serviço demorado, que implicava em profundos estudos para localizar o lago, levantamento topográfico de toda área com curvas de nível de metro em metro e, afinal, determinar com precisão onde construir a barragem.

Por sua vez, o prefeito, para cumprir dispositivo da nova constituição estadual, conseguiu com seu compadre dr. Pedro Aleixo, então secretário do Interior e Justiça, a elaboração de um Plano Diretor para a cidade. Exigiu-se da Prefeitura o levantamento topográfico de toda a área urbana e de expansão urbana do município o que se fez por uma equipe liderada pelo topógrafo Roberto Rodrigues do Vale ao longo de dois anos. Sobre este levantamento, o governo estadual elaborou a planta baixa para do plano diretor.

O dr. Osmário Soares Nogueira, engenheiro, itaunense, com grande espírito comunitário, colaborando, com o aval profissional da Companhia Imobiliária Construtora Belo Horizonte (CICOBE), indicou uma firma especializada para o estudo do sistema viário, construção de pontes, escoamento de águas pluviais, canalização de esgotos e abastecimento de água. Tudo ficou pronto e foi aprovado pela Câmara Municipal na sua última reunião de trabalho, realizada em 23 de dezembro de 1950.

O prefeito seguinte, Vítor Gonçalves de Souza (1951/1955), empossado em 1º de fevereiro do ano seguinte, não executou o plano por dois motivos: primeiro não havia verba para pagar os honorários da firma especializada, particular, que o projetou, por falta de previsão orçamentária; segundo, o plano jamais poderia ser executado sem a prévia construção da barragem.

Esta teve sua construção iniciada, depois de enfrentar um mundo de dificuldades, em 1954, na gestão do então prefeito dr. Milton de Oliveira Penido (1955/1959), que muito colaborou, decretando de utilidade pública os terrenos inundáveis e os necessários para a construção de novas estradas que desapareceram sob o lago artificial.

No Plano Diretor do dr. Coutinho a parte baixa da cidade, sujeita às enchentes, seria urbanizada, com a canalização do rio, uma avenida perimetral em torno da várzea, construção de uma dezena de pontes, e acesso ao centro justamente sob a ponte da estrada de ferro.

Acesso este com e abertura da avenida sobre a cobertura, ao meio, do córrego da praia e duas pistas laterais, que hoje é a Jove Soares, já prevista no Plano Diretor do dr. Coutinho. A Companhia Industrial Itaunense, através de seu diretor, José de Cerqueira Lima, ao ser informado pelo prefeito Lima Coutinho de que o Plano Diretor estava quase pronto, contratou em 1950, o engenheiro eletricista, dr. Nelson Faria de Toledo, para assessorar o engenheiro dr. Rubens Vaz de Mello, então gerente da empresa, no levantamento topográfico da área onde seria instalada a Barragem.

Adquiriu-se a fazenda de Henrique Alves de Magalhães, um dos filhos do famoso fazendeiro Benfica Alves de Magalhães, na certeza de que o bloco de concreto, barragem do lago artificial a ser construído, nela se localizaria. Ciente, Zezé Lima, hábil político, de que a maioria dos terrenos da área a ser inundada saíra, no passado, de ancestrais do velho Benfica e das mãos de seus herdeiros, determinou que o logradouro chamar-se-ia “Barragem do Benfica”, homenagem ao patriarca, querido e respeitado na comunidade.

A Itaunense, comprometida com o fornecimento de energia à cidade, desde 1911. Dr. Osmário, após tentativas, resolveu estudar a solução de regularizar a vazão do rio São João, aproveitando os estudos topográficos feitos pelos engenheiros eletricistas. A Barragem tornou-se necessária, imprescindível. Guardaríamos o excesso das águas das chuvas, para gastá-las parcimoniosamente nas secas, em típico regime de poupança.

Dr. Osmário Soares Nogueira, depois de decidir pela construção da barragem, certo de que a vazão do rio São João era de apenas um metro cúbico por segundo, na divisa do nosso município com Itatiaiuçu, onde começaria o represamento das águas, iniciou, com sua equipe, os cálculos para projetar o tamanho do lago e a dimensão do bloco de concreto da barragem propriamente dita.

Tecnicamente projetada, o problema era arranjar o dinheiro para construí-la. Uma obra que devia ser pública, seria construída pela iniciativa privada, sob responsabilidade da Companhia Industrial Itaunense, concessionária do serviço de força e luz no município.

Como a Santanense participava das mesmas dificuldades, com referência à energia elétrica, pois possuía também uma usina a jusante da cidade, dr. Osmário procurou o dr. Alcides Gonçalves de Sousa, no entender dele o mais sensível às dificuldades da época, e capaz de levar seus pares a um entendimento com a Itaunense.

Dr. Osmário levou-lhe a seguinte proposta, já que a barragem, no consenso das duas empresas tinha que ser construída de qualquer maneira: a Itaunense pagaria 60% e a Santanense 40% do ônus financeiro da obra, uma vez que a Itaunense possuía duas usinas e a Santanense somente uma.

Esta não havia ainda adquirido a Usina dos Britos. Vale dizer: a Barragem seria de propriedade da Itaunense e a Santanense pagaria 40% da obra para ganhar a metade da água na Usina do Cachão.
A Santanense não aceitou e fez uma contraproposta: a Itaunense pagaria 65%, ficaria com a usina no pé da barragem e a Santanense pagaria 35%, ficaria com a metade da água no cachão.

Nos dias de hoje, em que a Barragem é vista apenas como o bom lugar para se construir uma casa e passar horas de lazer, não se pode avaliar a gravidade do problema de Itaúna em 1954. Atualmente, a cidade desfruta de uma excelente qualidade de vida, com grande parte da várzea urbanizada, livre das enchentes, água corrente e tratada em todos os lares, graças ao nível praticamente fixo e permanente da barragem dr. Augusto, de baixo, alimentada constantemente pela do Benfica.

E mais: com o Projeto Soma e a ETE, estação de tratamento de efluentes líquidos, projeto também já aprovado, prestes a ser executado, Itaúna estará despoluindo o rio São João. Imensa dificuldade foi conseguir um engenheiro qualificado para fazer a planta da Barragem, de blocos de concreto, a ser erguida pelos responsáveis, a custa da Itaunense e da Santanense.

A Companhia Industrial Itaunense, como concessionária do serviço público de força e luz no município, tinha em seu poder um decreto do Prefeito Milton de Oliveira Penido que havia declarado de utilidade pública todos os terrenos inundáveis e os necessários para construir ou reconstruir estradas na mesma situação.

Ficaram debaixo d´água a que dava acesso a Serra Azul e às fazendas da margem direita do São João, nos Tabuões e Beira do Rio. Trechos da chamada estrada do minério, em direção a Itatiaiuçu, foram interrompidos.

No povoado da Beira do Rio a maioria dos moradores não tinha escritura, mas apenas posse em seus terrenos. Um salão comunitário que servia de local para as aulas da escola rural e capela para as missas e atos litúrgicos lá realizados, obrigou-nos a assumir o compromisso de, no futuro, oferecer-lhes uma capela e uma escola. Lá estão, no pé da Barragem a Escola Municipal “João Luís da Fonseca” e a Capela de “Santo Antônio da Barragem”. Todos os compromissos foram honrados.

Com a barragem inacabada, na cota 18, sem as comportas, tendo em seu lugar pranchões de madeira (stop-log), fez-se a primeira inundação da área, na tentativa de evitar os apagões na cidade na época da seca, liberando-se, aos poucos, água acumulada para a barragem de baixo.

Havia inclusive, à margem esquerda do São João, ao lado do povoado da Beira do Rio, uma considerável área de terra de cultura, cercada por um antigo muro de pedras, onde morava a família dos Rodrigues, todos da raça negra, um quilombo remanescente.

 Assim que a Barragem ficou pronta a população itaunense reagiu de duas maneiras: muitos acreditaram que jamais haveria enchentes na parte baixa da cidade. Entendiam que era possível segurá-las com o paredão construído.

A Barragem tem conseguido, de forma segura, controlar a vazão do rio na época de chuvas torrenciais, mas, estando cheia, como já aconteceram três vezes em 50 anos, ocorrendo uma “tromba d' água” à montante, nada se pode fazer.

Durante o período de chuvas, há que se acompanhar cautelosamente a precipitação pluviométrica, abrir e fechar as comportas, de forma a manter o rio, à jusante, dentro de seu leito, sem que provoque danos nas margens. Sabe-se, por exemplo, que as águas do Benfica gastam seis horas para chegar ao Cachão. Mas há que se ter uma ideia segura do comportamento dos córregos do Soldado, da Vargem da Olaria e dos Capotos.

Eis assim, uma pequena síntese dessa grande obra, que hoje assegura ao povo itaunense o abastecimento de água e ainda proporciona uma belíssima área de mata, esportes náuticos e o espelho d’água que reflete os sonhos e esperanças de nossa gente.

E como vale a pena desfrutar o lindo estoque de nascer e pôr do sol nas cercanias da Barragem do Benfica.


REFERÊNCIAS:

SÍNTESE DO FASCÍCULO: ITAÚNA EM DETALHES - Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa, 2003, p.33,34 -  Professor Luiz Mascarenhas.

ACERVO FAMILIAR:  Giancarlo Teles de Magalhães

ORGANIZAÇÃO: Charles Aquino 

sexta-feira, abril 03, 2020

BAR DO OTACÍLIO


“...no bar todo o mundo é igual/Meu caso é mais um é banal/Mas preste atenção por favor...”

Itaunices. Defino “itaunices” como aqueles traços de personalidade ou costumes ou manias ou ainda singularidades que identificam a nós – os nativos, os agregados, os honorários e os moradores da pedra negra, de Blackstone City ou das barrancas de Sant’Ana do São João Acima de Pitanguy.

Exemplificando, uma legítima itaunice seria o ter escorregado, quando criança, no monumento ao Dr. Augusto Gonçalves que existe na praça que leva o seu nome, mas que insistimos em chamar de “Praça da Matriz” (o escorregador da praça) ...

Ou ainda ter comprado pipoca do seu Dico no seu mini ônibus ou ter comido cocada no alto do Rosário nas festas do Reinado ou ainda ter forrado o estômago com um pf no Bar do Sandoval madrugada afora...

Falando em bar, a palavra "Bar" origina-se do inglês bar, que designa o mesmo tipo de estabelecimento. Originalmente, o termo significava "barra", aquela que fica na base do balcão e em que se apoiam os pés. 

Outra versão para o significado do nome é a barra (trave) de madeira em que se amarravam os cavalos nos saloons do Velho Oeste estadunidense.

Seja como for, na Babilônia, já existiam as chamadas tavernas em 1772 a.C., data do Código de Hamurábi, que previa pena capital para o dono do estabelecimento comercial que misturasse água na cerveja. 

As tavernas, inicialmente, eram pousadas para os viajantes, cujo serviço de bebidas era um complemento.

Com o passar dos anos, passou a servir também aos residentes locais, geralmente de classe baixa, passando a oferecer, também, música, prostitutas, jogo de dados e brigas de galo. 

O bar mais antigo ainda em funcionamento é o Ye Olde Fighting Cocks, na cidade de St. Albans, na Inglaterra, que foi fundado em 1539.

No Brasil, os bares surgiram com a chegada da Família Real em 1808, que trouxe os costumes da Europa. Eram destinados aos clientes de maior ascensão econômica. 

O boteco é um bar popular, seu nome vem de "bodega" (venda). Até a revolução dos costumes em meados do século XX, as "mulheres de família" não frequentavam bares, botecos ou tavernas.

Definidos, itaunices e bar, chegamos a um dos mais célebres bares da nossa Itaúna: O BAR DO OTACÍLIO. O Bar do Otacílio existiu por- salvo engano- quase 60 anos e mudou de paradeiro por diversas vezes.

E com o seu Otacílio à frente do mesmo. Fui habitué por anos a fio e posso testemunhar a fidelidade de sua clientela que se mudava junto com o estabelecimento.

O instituto “bar” é um patrimônio cultural, antropológico, etílico, diria quase essencial para a vida humana. É um universo paralelo. E no bar, encontra-se os tipos, estereótipos e as mais estranhas figuras da sociedade.

É verdade que – lamentavelmente- muitos dele utilizaram e utilizam para suas fugas da realidade que não querem ou não aguentam viver e se enveredam pelos tristes caminhos do alcoolismo e autodestruição. Contudo, essas linhas tem a licença poética para o romantizar do nosso duro cotidiano.

Mas, lá estavam, o seu Otacílio, a dona Maura e seus petiscos e iguarias das mais saborosas da cidade. O casal de enamorados, o casal de muitas bodas...

O primeiro se entreolha e se fita: contempla rostos, cabelos e traços e olhar fala muito. O segundo entreolha o relógio e fita os transeuntes, contempla a comida e boca mastiga raivosamente.

Existem os de passagem, que jamais retornarão; os habitués sempre nos mesmos lugares e no mesmo horário e com os costumeiros pedidos. Cheguei ao nível do garçom ao me ver estacionar, já arredava a cadeira, levava a cerveja e me informava que o tira gosto já estava a caminho...

Havia o solitário a beber e pensar com seus botões e o dos grupos...do trabalho, do futebol e da política. 

Esta última há milênios é resolvida em boa parte nas tavernas e botecos mundo afora. Afinal, nada como o ambiente do bar para traçar os conchavos e confabular as conspirações. 

Ah! O bar! O tempo do bar corre misteriosamente de modo peculiar: horas no bar não são sentidas. 

Quantos relacionamentos também não foram iniciados por aquele olhar soturno para a mesa do outro lado? Negócios fechados, mal-entendidos resolvidos ou começados. Enfim, o bar é o mundo. 

Pedidos estranhos, como colocar um cubo de gelo em um conhaque ou pedir uma cerveja sem gelo...

E o garçom? Os garçons são figuras míticas que sabem muito de todo mundo. Quem com quem, quem com dívidas, quem de bem, quem de mal, o proibido e o inusitado.

As orelhas dos garçons são como dos confessores, porém, aqui, sem penitências e por vezes com anuências.

Nunca destrate o garçom. Pode lhe ser prejudicial ao andamento dos pedidos ou até à sua saúde. O bar é o lugar dos poetas, escritores, artistas, notívagos e doutores.

Cada um vai ao bar para uma finalidade justa ou totalmente aluada. O bar é o bar e pronto. 

Música ao vivo? Não tinha e ainda bem.... Quando o artista é bom, que bom; quando é sofrível, o sofrimento é muito grande...

O que acontece no bar, fica no bar. Ou deveria. Geralmente, quando sai de lá, causa estragos de toda a ordem. 

O bar é o início dos sonhos e final das ilusões. No bar se chora de alegria, de embriaguez e de pouca ou muita lucidez. 

Bar do Otacílio...O Marinho de Faria. De boa prosa, de inteligência e sagacidade aguçadas. Sabia agradar. Comerciante. 

O tico-tico.... Dos temperos da dona Maura, a carne de panela, a moela ao molho, o frango com quiabo e as bolas de carne gigantescas: sabores de uma Itaúna que já se vai nas brumas da Jove Soares. 

Um bom tempo, boas páginas da nossa rica História barranqueira. Otacílio: muito obrigado pela boa prosa e essa você pendura.


Referências:

* Professor Luiz Mascarenhas / Colaborador para o Blog Itaúna em Décadas. 
Organização e Arte para o blog: Charles Aquino

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

O CARNAVAL ITAUNENSE


As festas e comemorações –sejam cívicas, sociais ou religiosas- fazem parte da existência humana. É necessário celebrar. É preciso comemorar- “co-memore”= com a memória, ou seja, trazer à lembrança ou simplesmente festejar.

 A vida humana é um sopro sobre a Terra e essa sensação de finitude leva-nos à entrega até mesmo irracional aos festins e bacanais. A quebra das rígidas regras e normas sociais se faz necessária para a loucura e o devaneio darem um pouco de sentido a tudo.
         E dentre tantas festas do calendário temos o Carnaval. O Carnaval é uma festa originária do cristianismo ocidental e que acontece antes da Quaresma. Normalmente envolve uma festa pública com desfiles combinando alguns elementos circenses, máscaras e até mesmo personagens do antigo teatro italiano, como pierrô, arlequim e colombina

As pessoas se fantasiam durante a festa, permitindo-lhes perder a sua individualidade cotidiana e experimentar um sentido elevado de unidade social.

A origem do Carnaval se perde no tempo. Entre os antigos egípcios havia as festas de Ísis e do boi Ápis; entre os hebreus, a festa das sortes; entre os gregos antigos, as bacanais; na Roma Antiga, as lupercais, as saturnais.  Na Idade Média, o Carnaval não durava apenas alguns dias, mas quase todo o período entre o Natal e o início da Quaresma. 

Nesses dois meses, as populações católicas usavam os muitos feriados dos santos como uma saída para suas frustrações diárias. No entanto, a Igreja Católica já condenava o que chamava de "devastação diabólica" e "rituais pagãos". No ano 325, o primeiro Concílio de Niceia tentou acabar com estas festas pagãs.

         O Carnaval moderno, feito de desfiles e fantasias, é produto da sociedade vitoriana do século XX e a cidade de Paris foi o principal modelo exportador da festa carnavalesca para o mundo.

 O Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa, em fevereiro, geralmente, ou em março, conforme o seu cálculo, próximo da lua nova. E não se trata de festa própria do Brasil: o carnaval acontece em diversos países do mundo, cada um conforme sua própria Cultura; como exemplo, o famoso e clássico Carnaval de Veneza, com máscaras e trajes luxuosos do séc. XVIII, como uma grande celebração barroca.

Na nossa ITAÚNA – outrora Sant’ana do Rio São João Acima de Pitanguy- o carnaval vem de longa data. Começou pela influência portuguesa do Entrudo (Entrudo era uma festa antiga, anterior ao atual Carnaval).

Segundo pesquisas do Historiador Charles Aquino, temos notícia do Entrudo do ano de1880. No dia 3 de fevereiro daquele ano, a comemoração do entrudo no arraial de Santana de São João Acima resultou em uma grande confusão. 

Aconteceu porque pretendendo José Manoel de Oliveira brincar de entrudo com a filha de Paulino Caetano Alves, a seguiu levando um limão de cheiro e jogou na moça.  O pai “indignado agrediu com uma faca e não podendo feri-lo com ela, armou uma espingarda e com esta disparou-lhe um tiro fazendo-lhe com ele ofensas constantes”.

A história transformou-se em um processo com de mais de 80 páginas. No ano de 1885, Paulino Caetano Alves, o pai da moça, respondia pelos atos praticados naquele dia de festa carnavalesca em Santana do São João Acima; tal procedimento resultou para o denunciado um processo que o torna réu. 

No dia 19 de novembro de 1885, depois de ouvirem 5 testemunhas e analisarem o caso, o julgamento foi a Júri Popular, tendo por unanimidade de votos a favor da absolvição do réu, Paulino Caetano Alves.

Bem distante deste imbróglio carnavalesco do Séc. XIX, encontramos nas páginas do Jornal “FOLHA DO OESTE” a reportagem de Cosme Silva, no ano de 1980: “A grata surpresa do carnaval itaunense.

O Bloco veio de Santanense, pela sua primeira vez, deu o seu recado, todo mundo cantou o seu samba, bem organizado na rua e não tenha dúvidas se os líderes de lá quiserem no próximo ano poderá surgir uma Escola de Samba que vai dar trabalho. ”

E no carnaval de Itaúna, aconteceram também os famosos bailes carnavalescos nos diversos clube: Automóvel Clube, União Operária e Flor do Momo..
Dividindo assim a Sociedade entre a elite, os trabalhadores e os “homens de cor” – expressão utilizada na época e eivada de racismo para se designar os então afrodescendentes.

E as névoas do Tempo nos fazem rever o desfile subindo a rua Silva Jardim, com os diversos blocos caricatos: o eterno Farrapos da Lagoinha – o mais irreverente bloco de “sujos” da cidade - Bloco da Saudade, Cuecões, Caveira, Bloco do Tutu, Demorô e o Alfaces com seu trio elétrico que causou grande sensação entre os jovens de outrora. A Banda Suja do Adelino e sua alegria contagiante.

E nossas antológicas Escolas de Samba (um capítulo à parte nessa História):  Unidos da Ponte, Império dos Castores, Os Pães e o Clube dos Zulus- exibindo as belas e encantadoras fantasias em negro e dourado e ricas plumagens e sambas enredo que fizeram história (leia-se Raimundo Rabello, o nosso ilustre Confrade Mundico e diversos outros).

E figuras singulares como o Miss Itaúna e o histórico “bloco do Eu Sozinho”, sempre em elaboradas e mágicas fantasias que o Newton Regal preparava com grande esmero e carinho, para o encanto de quem o via na avenida...Eterno o seu “Carlitos”.

Outros tempos, outros costumes. Foram-se as escolas de samba e os altos custos de um carnaval mais para ser admirado e assistido do que realmente aproveitado pelo povo. E a festa de Momo foi tomando outros formatos, conforme as intempéries do Tempo. Pelos bairros da cidade, um pré-carnaval que agitou as noites das barrancas. 

Como o “Babalu” de Santanense, “As Piedosas” no bairro da Piedade, “As Virgens” do Pe. Eustáquio com o Rosse Andrade e o “Pau de Gaiola” do Afonsinho (verdadeira apoteose carnavalesca e familiar que literalmente lota a Praça da Lagoinha e adjacências na quinta-feira que antecede a festança).  

Um “Esplendor e Glória” que vem com seu General da Banda Tadeu Nolasco repaginando nosso carnaval há alguns anos e resgatando a tradição das marchinhas com a Banda “Barril de Chope” (Walter Júnior e companheiros), sempre desfilando na contramão da avenida Jove Soares.

Por trás de cada agremiação, uma história de foliões abnegados que lutam para pôr o bloco na rua. Carnaval de rua, de foliões ou dos que preferem o sossego das cachoeiras, dos sítios e dos muitos retiros espirituais também. Vale tudo! Do axé, passando pelo samba, ao aleluia e as marchinhas (as de outrora; muitas censuras por este tempo de mimimis).

E aqui me despeço com o compositor Antônio dos Santos: “Você pensa que cachaça é água/cachaça não é água não/cachaça vem do alambique/e água vem do ribeirão. ”


Referências:

Texto:  Professor Luiz Mascarenhas

Organização e Arte: Charles Aquino

Acervo: Shorpy

terça-feira, outubro 29, 2019

LEMBRANÇAS BARRANQUEIRAS II

Prof. Barranqueiro

Falando de lembranças quem se lembra da placa de neon "Telefunken" no alto do prédio da Casa Adolfo Mendes? E o opala do Benevides Garcia? E a pequena estátua do Galo na sala da casa dele? E da placa na porta..."Benevides Garcia - Fotógrafo"? E da placa no sobrado do Prof. Wiliam Leão "cirurgião dentista"? Dos cartazes dos filmes que a gente via segurando as grades do portão do Cine Rex? Do Bar Azul...do velho casarão do Cel Arthur Vilaça, meio abandonado?

Dos laguinhos da praça com água e os engraxates nadando neles? Quem se lembra dos engraxates da praça? Do seu banco longo e torto de cimento? Da Loja Guigos, da Farmácia Nogueira, da lanchonete do Misirico....Do Fórum sem as grades, aonde a gente criança podia deitar na grama....do Bar do Cilico...da planta "unha de gato" dos jardins...

Do Opala do Baiano do táxi, que saia um canudo de fumaça? Do vemaguete do Dr William Leão? E da rural do Dr Zé de Campos? De subir a Silva Jardim e do seu Bené do Mundo Ótico....Meu papai! Zebra Lotérica do Major Rui...Do seu Avides da Loja Avides. Do seu Afonso da Loja Athayde...Do seu Levi Vargas do Banco...Do seu Jesus e do Toninho da Farmácia São Luiz? 

Do seu Mazico do frango assado. E do dogde Dart amarelo com capota de vinil do seu Athayde, eu ficava sentado na porta da loja pra vê lo passar....Do seu Chico Saldanha com uma leiteira na mão subindo a rua? Da bomboniere? Da loja Safira Presentes, seu Adalci e dona Marlene sempre muito chique e elegante? Idem a dona Bernardina da Sérgio Livraria. 

Dona Gilka Drumond passando na porta do Adolfo Mendes aonde eu trabalhava, sempre muito perfumada e bem vestida. O Euler Coutinho dentista...Do seu Guarany Nogueira sentado num banquinho redondo de cimento em frente seu escritório cheio de badulaques, de terno branco com uma flor vermelha na lapela...Dos velhos casarões da Silva Jardim....Nos fundos da ótica tinha um depósito de jornal e a contabilidade do Geraldinho.

O casarão dos Santiagos e um na esquina da Prof Francisco Santiago, com o seu Mauro Barbeiro ( tinha um carrinho que papai me colocava sentado). E subindo a rua lá vinha o Dr Coutinho e o Pe. Waldemar com sua surrada batina. E a fonte luminosa....pensava que tinha água colorida....E o seu Osvaldo fotógrafo e sua Kombi azul calcinha? Lembranças ...Minhas memórias e minha História. Valeu e vale a pena. Viver é muito lindo.

Arte e Organização: Charles Aquino
Acervo: Shorpy
Texto: Professor Luiz Mascarenhas

Nota: O autor é responsável pelos trabalhos aqui publicados, o qual, também ficará responsável pelas suas correções.

LEMBRANÇAS BARRANQUEIRAS I

Prof. Barranqueiro

Sábado à noitinha, logo após o Pe. Zé Netto terminar a Missa das 19 h na Matriz de Sant'Ana, na década de 70, meados de 80, as famílias saiam a passear pela praça. Papai, mamãe e eu também!

A praça ficava mesmo repleta de pessoas passeando por todos os cantos. Íamos olhar as vitrines das lojas. Quase todas as lojas possuíam vitrines que permaneciam abertas até as 22 h.

Havia um capricho, um esmero em se arrumar muito bem as vitrines de modo a encantar os transeuntes.

Recordo-me de algumas...Cinderela Calçados, Loja Avides, Loja Athayde, Athamar Eletro, Casa Áurea, Sapataria São Luiz, A Jóia...

A vitrine da Jóia então era muito chique e tinha uma sessão de carrinhos de ferro...
Meus olhos brilhavam e me detinha um tempo ali...

E meus pais encontravam com muitos amigos e conhecidos e havia sempre a troca afável de cumprimentos e conversas.

Ao atravessar a praça para ver a vitrine do Adolfo Mendes e da Casa das Roupas, era de lei eu parar no carrinho de pipocas do seu Dico, em forma de ônibus da Viação Itaúna...Morria de vergonha se encontrasse alguma professora pelo caminho.... 

Bons tempos!


Arte e Organização: Charles Aquino
Acervo: Shorpy

segunda-feira, junho 24, 2019

NOSSA SENHORA DE ITAÚNA

Itaúna sempre foi uma comunidade que cultivou, com muita devoção, a sua Fé. A cidade nasceu às margens do rio São João, à sombra de um velho cruzeiro plantado pelos pioneiros de nossa povoação, lá no longínquo séc. XVIII, no alto de um monte, hoje denominado Morro do Rosário.

O povoamento se deu, principalmente, devido ao fluxo entre dois grandes centros mercantis daquele tempo: Bonfim e Pitangui. E uma de nossas denominações mais antigas, remete-nos a esta Fé: “Sant’Anna do São João Acima de Pitanguy”.  O arraial desenvolveu-se até ser elevado à paróquia. Em meados do séc. XIX (1841) era criada a Paróquia de Sant’Ana – genitora da própria cidade de Itaúna e hoje desdobrada em outras cinco paróquias (Fátima, Coração de Jesus, Piedade, Nossa Senhora Aparecida e São José).

 Esta Fé, viva e muito presente no seio da sociedade itaunense foi produzindo seus frutos de esperança e de amor e transformando as realidades. Haja visto o significativo número de itaunenses que ao longo dos tempos tomou sacerdócio católico para suas vidas – em torno de trinta padres!

Entretanto, um fato assinala de maneira indelével, as páginas de nossa História.  Uma história de Fé, de conversões e de filial amor à Nossa Senhora.  O ocorrido deu-se no dia 27 de julho de 1955, um dia após a cidade comemorar sua excelsa padroeira a: Senhora Sant'Ana.  Naquele dia, a bucólica Itaúna, abalou-se com a notícia de uma possível aparição de Nossa Senhora a três garotos, em uma mata fechada próxima da antiga Vila Mozart, hoje Bairro de Lourdes.

Filhos das primeiras famílias a habitarem o local, Eduardo Vasconcelos, Antônio Nunes e José Rita eram amigos e gostavam de brincar na mata perto de suas casas. Tarzan era um dos personagens preferidos dos meninos, e a mata fechada era o cenário ideal para suas brincadeiras e estripulias. Em uma manhã, ao sair para procurar o cavalo do pai de Eduardinho, os três garotos se assustaram com um “macaco de aspecto tenebroso". Ao clamarem desesperados pela Mãe Santíssima, logo perceberam uma luz forte descendo do céu.

Na época com 8 anos, o bombeiro hidráulico aposentado Eduardo Vasconcelos lembra-se bem daquele dia. “Vimos descendo do céu uma nuvem branca brilhante, que foi parar sobre um cupinzeiro na mata. Apareceu Nossa Senhora, toda bonita, como se fosse um raio de luz. Ficamos assustados e fomos procurar o padre José Netto”, conta.

A notícia se espalhou rapidamente pela cidade e a Vila Mozart passou a ter um intenso movimento de curiosos e fiéis em busca das bênçãos da Virgem Maria. As pessoas foram abrindo caminho na mata para facilitar o acesso ao cupinzeiro e o local da aparição foi se transformando. Eduardinho, Totõe e José Rita continuaram a visitar o local por vários meses, e as aparições continuaram. Outros videntes surgiram, e a história foi ganhando força. De boca em boca, o fato extraordinário ganhou até mesmo as páginas de jornais da capital mineira, o que fez atrair fiéis e curiosos para o local durante muito tempo.

Sempre mantendo muita discrição sobre o acontecido, Eduardo Vasconcelos descreve com clareza a figura de Nossa Senhora: “Ela tinha a pele morena clara, cabelos pretos compridos caídos sobre os ombros, mãos e dedos compridos. Seu vestido era branco e brilhante e, sobre ele, havia um manto azul. Ela não usava véu. Na mão direita, sobre o peito, carregava um terço com contas que pareciam diamantes. Na mão esquerda, tinha uma flâmula branca em formato de triângulo”. Sua última visão da santa foi aos 18 anos.

Naquele tempo, sem acreditar muito no burburinho que acontecia na cidade, um farmacêutico de nome Ovídio Alves de Souza começou a fazer visitas ao local da aparição por curiosidade. No dia 2 de agosto de 1955, durante uma de suas visitas à gruta, surgiu em seu pensamento as palavras: “ó Virgem Maria Santíssima, em honra e glória ao Divino Espírito Santo, concedei-me uma graça. Fazei com que eu note a vossa presença, não só para aumentar a minha fé, mas também para a conversão dos que não creem”.

Poucos segundos depois de repetir algumas vezes a prece, para memorizá-la, ele vê a Virgem Maria ao lado do cupinzeiro. Achando que poderia ser uma ilusão de ótica, o farmacêutico mudou de posição diversas vezes, contudo continuou a ver-  estupefato- aquela figura feminina radiante como o sol.

 Ele, que chegou a considerar exagerada a reação das pessoas, acabou se tornando um dos mais importantes videntes das aparições em Itaúna. Portou-se como os outros; com delicada discrição – fato que marca muito toda essa história- e em contato constante com o padre José Ferreira Netto, então o pároco da Paróquia de Sant'Ana. Nos meses seguintes Ovídio seguiu visitando o local e tendo diversas visões. A última visão de Nossa Senhora que teve foi em 15 de agosto de 1961.

 Ovídio Alves de Souza – o farmacêutico - registrou toda a experiência em um diário. Em 27 de novembro de 1955, ele descreveu mais uma aparição, detalhando pela primeira vez a mensagem escrita na flâmula que Nossa Senhora trazia: “JESUS CHRISTO, ETERNO DEUS. O PAGANISMO AMEAÇA O MUNDO. ERGUEI O ALTAR, ORAI COM FÉ E VÓS VEREIS O MILAGRE DA CONVERSÃO”.

A atuação do farmacêutico nessa história não ficou restrita apenas a ter as visões, registrá-las e manter-se, até o fim da vida, frequentador assíduo do local. Ele ajudou a população e a Igreja a levantar o dinheiro para a aquisição do lote e construção e preservação da gruta.

As obras da Gruta de Nossa Senhora de Itaúna começaram em 1956, sendo concluídas no ano seguinte. Em 1958, foi entronizada no altar construído no mesmo local do cupinzeiro a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, e missas começaram a ser celebradas.

 “Quando das aparições, nosso padre era muito pragmático. Ele seguiu tudo de perto, mas pediu cautela e que não se explorasse comercialmente o acontecido”, recorda a Escritora Maria Lúcia Mendes, que publicou recentemente uma obra sobre o assunto. Todos os párocos que sucederam o venerando Cônego José Ferreira Netto, seguiram o seu exemplo pastoral. Um deles, hoje bispo auxiliar de Curitiba, Dom Francisco Cota, explicou o seu raciocínio: “Ainda é uma aclamação popular e respeitamos a fé do povo. ”

Já no ano de 2001, Dom José Belvino do Nascimento – de feliz e saudosa memória- então bispo de Divinópolis, deu autorização para a reprodução da imagem de Nossa Senhora de Itaúna – conforme descrita pelos videntes- mas a aparição e a imagem ainda não foram reconhecidas pela Santa Sé, mesmo preenchendo os requisitos necessários e se desenvolvendo de maneira muito espontânea”, explicou nosso então bispo diocesano.

Nossa Senhora pediu em sua mensagem:  ‘erguei o altar’; e construíram a gruta. Recomendou: ‘orai com fé’ e anos depois de tanta devoção, surgiu o grupo “Filhos de Maria”. E concluiu Maria Santíssima: “e vós vereis o milagre da conversão’. Penso que o terço dos homens é o cumprimento dessa profecia. Toda quarta-feira, às 20h, a Gruta de Nossa Senhora de Itaúna recebe o primeiro e um dos maiores grupos do terço dos homens do país.

A Gruta de Nossa Senhora de Itaúna – um oásis de Fé e de Esperança- no coração da cidade, continua aberta, a atrair as pessoas para o aconchego do colo da Mãe, entre o frescor das árvores, como um novo Éden, aonde Deus passeia no meio dos homens.

 SALVE MARIA!


Texto: Prof. Luiz MASCARENHAS
Arte: Avimar Meneses 
Organização e Arte: Charles Aquino