Rumo aos 60 anos
de um marco, o registro intitulado “Primeira Exposição Agropecuária – 1967”,
redigido pelo vigário Cônego José Ferreira Netto, constitui uma fonte primária
de grande relevância para a compreensão das dinâmicas sociais, econômicas e
simbólicas de Itaúna na segunda metade do século XX.
À frente da
Paróquia de Santana por mais de quatro décadas, o sacerdote não apenas exerceu
funções religiosas, mas também se afirmou como um agente ativo na construção da
memória local, registrando eventos que extrapolavam o campo estritamente
eclesiástico.
Inserido no Livro
Tombo II (1948–1992), o texto revela a centralidade da Igreja na
organização e legitimação de iniciativas públicas, como a realização da
primeira exposição agropecuária do município. A abertura do evento com uma
missa campal, assistida por autoridades, organizadores e uma expressiva
multidão, evidencia a intersecção entre religiosidade, poder institucional e
vida comunitária, característica marcante de cidades do interior brasileiro no
período.
O relato também
destaca elementos que permitem observar práticas culturais e representações
sociais da época, como o cortejo até o Campo da Vargem, a valorização da
pecuária como eixo econômico e, de maneira particular, a presença das chamadas
“amazonas”— jovens mulheres montadas, cuja participação sugere tanto um
componente festivo quanto uma dimensão simbólica de distinção social e
estética.
Ao registrar os
nomes dos organizadores e enfatizar o sucesso do evento, o texto assume um tom
celebrativo, próprio da escrita paroquial, que tende a valorizar a ordem, a
participação coletiva e os êxitos da comunidade. Nesse sentido, mais do que uma
simples descrição factual, o documento deve ser lido criticamente, como uma
narrativa que constrói memória, seleciona protagonistas e reforça determinadas
visões sobre o desenvolvimento local.
Assim, o escrito
de José Ferreira Netto não apenas documenta a realização da primeira exposição
agropecuária de Itaúna, mas também ilumina o papel da Igreja como mediadora
entre tradição, progresso e identidade social, oferecendo ao pesquisador uma
janela privilegiada para a compreensão das relações entre fé, economia e
sociabilidade no contexto itaunense.
"Teve
seu início com uma missa campal em frente a matriz, assistida por todas as
autoridades e organizadores proprietários dos animais e uma grande multidão,
apesar de ter sido em dia útil em 25 de agosto.
Formou-se
em seguida grande cortejo, para o local da exposição Campo da Vargem. Aí foram erguidos
diversos galpões, neles belos tipos de gado.
O
que mais se destacou foi o grupo das amazonas, jovens moças tipicamente
vestidas, montadas em seus vistosos cavalos, perto de umas cinquentas. Foram três dias de grande movimento em Itaúna.
Foi encerrada a exposição no dia 28 de agosto com a entrega dos valiosos
prêmios.
Foram
os grandes batalhadores desta exposição os senhores Ibsen Drumond e Dr. Oscar".
Vigário Cônego José Ferreira Netto
Referências:
Livro Tombo II (1948-1992), página 84, 1967. Paróquia Santana de Itaúna/MG
Imagem:
Reconstituição
visual ilustrativa inspirada no registro da
Primeira Exposição Agropecuária de Itaúna (1967), descrita pelo vigário
Cônego José Ferreira Netto no Livro Tombo II (1948–1992), página 84.
A composição não
corresponde a um registro fotográfico do evento, mas a uma interpretação
artística baseada na narrativa paroquial, buscando representar o contexto
social da época, a centralidade da Igreja na abertura da exposição, marcada
pela missa campal em frente à matriz , o cortejo até o Campo da Vargem e a
dinâmica rural evidenciada pela presença de carros de bois, criadores e
público.
Destaca-se,
ainda, a inclusão das chamadas “amazonas”, jovens montadas que participaram do
evento, elemento mencionado na fonte e que revela aspectos simbólicos, sociais
e culturais da celebração.
A imagem, portanto, deve ser compreendida como uma construção visual interpretativa, orientada pela fonte escrita, com o objetivo de evocar a ambiência, os agentes envolvidos e as práticas coletivas associadas à realização da primeira exposição agropecuária do município.
Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
