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quarta-feira, novembro 12, 2025

PRESERVAR X DEMOLIR (VIII)

O texto assinado pelo engenheiro Hudson Santos revela um momento decisivo no debate sobre a preservação da memória urbana de Itaúna, no final da década de 1970 — discussão que se intensificaria ao longo da década de 1980.

 Trata-se de um documento que expressa, com clareza e urgência, a preocupação com o risco de perda definitiva do antigo hospital, edifício que, para além de sua função original, cristalizou valores identitários, afetivos e culturais de gerações itaunenses.

O autor situa o hospital como símbolo do passado arquitetônico local e, sobretudo, como um marco da construção coletiva da cidade. 

Ao enfatizar que “o hospital velho é memória”, ele reconhece o patrimônio não apenas como matéria — tijolos, paredes, telhado — mas como expressão viva da história social, das práticas assistenciais e filantrópicas e da formação da identidade comunitária.

Em seu apelo ao poder público, o texto demarca um período em que Itaúna enfrentava dilemas comuns às cidades brasileiras de média dimensão nas décadas finais do século XX: modernização urbana acelerada, especulação imobiliária e abandono de edificações históricas. Esse cenário muitas vezes colocava o passado em confronto com o presente e a memória coletiva em posição vulnerável.

A narrativa enfatiza a ação destrutiva do tempo sobre os edifícios históricos. Tal leitura ecoa as discussões contemporâneas de preservação, que reconhecem que o maior inimigo do patrimônio cultural nem sempre é a demolição direta, mas o abandono silencioso e progressivo, capaz de transformar bens materiais em ruínas. 

Cada dia de “descuido”, afirma Hudson, é uma agressão à memória, uma frase que sintetiza o drama do patrimônio em cidades que naturalizam o esquecimento.

Essa visão coincide com princípios defendidos pela UNESCO e por intelectuais como Alois Riegl e Pierre Nora, para quem monumentos, lugares de memória e testemunhos arquitetônicos são pilares da memória social e da consciência histórica.

Ao afirmar que “é no passado cultural de uma civilização que encontramos a chave para o futuro”, o autor se posiciona contra uma ideia de modernidade que rompe com suas próprias raízes. O apelo ultrapassa a preservação física do edifício e atinge uma dimensão simbólica: restaurar é também restaurar o elo social com a história.

Essa perspectiva é fundamental para a compreensão do patrimônio como recurso de identidade, pertencimento e educação histórica, valores que hoje pautam políticas culturais em nível nacional e internacional.

O texto demonstra que a defesa do hospital não era isolada, mas compartilhada por outros moradores atentos ao destino da cidade. A carta assume tom de manifesto: convoca autoridades e sociedade à responsabilidade coletiva sobre o bem cultural.

Essa postura reforça a importância da participação social nos processos de preservação e antecipa debates atuais sobre patrimônio participativo, memória democrática e cidadania patrimonial.

A carta de Hudson Santos é, por si só, documento histórico de grande relevância. Ela representa não apenas a defesa de um edifício, mas a reivindicação do direito à memória, ao legado cultural e à história compartilhada dos itaunenses.

Hoje, diante do processo de restauração em curso do "Hospital Velho" (Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira), o texto ganha novo significado: torna-se testemunho da resistência da memória frente ao abandono, e símbolo da vitória da preservação sobre o esquecimento.

A permanência, mesmo após anos de espera, confirma o que o engenheiro antecipava: salvar o patrimônio não é um capricho nostálgico, mas um dever para com a cidade e suas gerações futuras.

PATRIMÔNIO CULTURAL X RESTAURAÇÃO

A restauração do hospital velho é viável e possível, mas qualquer trabalho de restauração é um empreendimento de alto custo e de grande morosidade. No entanto, é um trabalho que precisa ser feito. O tempo, nas velhas construções, age como mortal inimigo, destruindo-as totalmente ou reduzindo-as a um monte irreconhecível de escombros. 

Cada dia de descuido — ou mesmo de descaso — pode ser fatal ao patrimônio ou implicará em aumento no custo da restauração. Cada dia de descuido, ou mesmo de descaso — é um crime contra a mesma memória histórica e cultural.

Desta forma, apresento ao prefeito municipal e aos senhores vereadores, o meu apelo (e de tantos outros itaunenses), para que nossa jovem e já fraca memória municipal, não sofra mais uma perda. Não deixem que escombros venham a ocupar o lugar de uma possível casa de cultura ou mesmo uma faculdade.

O hospital velho é memória. É o passado arquitetônico itaunense, grande referência de nossa história. É no passado cultural de uma civilização que encontramos a chave para o futuro.

HUDSON SANTOS

Engenheiro Geólogo 

 

 Referência:

Pesquisa, elaboração e arte: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Fonte:  Jornal ITA VOX - 1979/1980  

terça-feira, outubro 21, 2025

PRESERVAR X DEMOLIR (VII)

HOSPITAL DE ITAÚNA MG

Das Ruínas à Forma dia após dia, o renascer de uma história!

Por muitos anos, o antigo prédio da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira foi lembrado apenas como “as ruínas do hospital”. Paredes abertas, janelas vazias e o silêncio de um tempo que parecia ter se encerrado marcaram por décadas a paisagem do local.

Mas hoje, esse cenário mudou. O que antes simbolizava o abandono, agora revela um novo tempo: o tempo da reconstrução, da esperança e do renascimento da memória.

Dia após dia, o antigo hospital vai tomando forma. É o labor das mãos trabalhadoras que substitui o eco do esquecimento por sons de reconstrução.

Em cada marco de porta ou janela, assentado cuidadosamente pelas mãos dos operários e sob o olhar atento dos responsáveis pela obra, a restauração vai dando forma e robustez ao edifício. Cada detalhe recuperado é mais do que uma ação técnica é um gesto de respeito à memória e à história do município de Itaúna.

Um patrimônio que volta a respirar. As obras de revitalização seguem em ritmo acelerado e já alcançaram importantes etapas. A parte interna do prédio histórico foi totalmente recuperada, incluindo laterais e fundos, e as equipes agora concentram esforços na recuperação da fachada frontal, que começa a revelar, novamente, o traçado original do edifício.

A próxima fase será a instalação do novo telhado, devolvendo ao prédio a proteção e a imponência que o tempo havia levado. O projeto respeita cada linha e proporção da construção original, mantendo intactas as estruturas principais um testemunho da qualidade e da solidez da obra erguida há mais de um século.

O objetivo é que o edifício, antes tomado pelas ruínas, abrigue o novo centro administrativo do Hospital Manoel Gonçalves, devolvendo-lhe função, vida e relevância comunitária. Mais que uma restauração arquitetônica, trata-se de um ato de reverência à história da saúde e da caridade em Itaúna e respeito à origem e à fé.

O altar centenário da antiga capela, que está aos cuidados do museu do município, retornará ao local, compondo a nova capela que será erguida no interior do prédio restaurado.
Será, ao mesmo tempo, um retorno físico e simbólico o reencontro entre o espaço e a fé que lhe deu origem.

 Guardiões da memória — por trás das paredes recompostas, há rostos e mãos que trabalham com devoção. Cada registro fotográfico, cada pedra recolocada, cada traço de tinta que devolve cor ao reboco é testemunha viva desse novo tempo. Os restauradores, o arquiteto, historiadores, parlamentares colaboradores e gestores que acompanham a obra tornam-se, assim, guardiões da história fiéis à missão de preservar o que o tempo tentou apagar.

O símbolo que se recusa a desaparecer — o antigo hospital foi, por muitos anos, o coração da solidariedade itaunense. Agora, ele volta a pulsar, não mais como ruína, mas como símbolo de continuidade e de esperança. A cada novo dia, o passado se reconcilia com o presente; e a paisagem que um dia foi de abandono, hoje é de reconstrução.

O tempo das ruínas ficou para trás, o tempo agora é outro: tempo de forma, de fé e de futuro. E no horizonte de Itaúna das Minas Gerais, entre andaimes e fachadas recompostas, o velho hospital se ergue novamente como quem volta a respirar depois de um longo silêncio.

PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE VIII)

VEJA MAIS: FOTOGRAFIAS DO HOSPITAL ANTIGO



Referência:

Organização e arte: Charles Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto. 

quinta-feira, março 27, 2025

PRESERVAR X DEMOLIR (VI)

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA MG
 

Temos diante de nós uma chance especial de preservar um marco da nossa história: o Antigo Hospital, a Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, também conhecida como Santa Casa de Itaúna, em Minas Gerais.

Este prédio, que por tantos anos foi sinônimo de cuidado e acolhimento para nossa comunidade, hoje necessita de nossa atenção/participação para ser restaurado e continuar vivo, contando as histórias de gerações passadas e inspirando as futuras.

A restauração do Antigo Hospital vai além de uma simples obra. É um resgate do nosso patrimônio material e imaterial, uma forma de manter viva a memória de quem somos como povo. 

Imagine caminhar pelas ruas de Itaúna, passar em frente a esse edifício restaurado e sentir o orgulho de saber que você fez parte dessa transformação. Cada pessoa que contribui, independentemente do valor, torna-se peça essencial nessa missão histórica.

A obra de restauração do Antigo Hospital está sendo realizada com verba específica do Patrimônio Histórico Tombado, direcionada pelo Ministério Público, por parlamentares e empresários comprometidos com a preservação desse importante patrimônio. 

No entanto, para que possamos concluir esse grande feito, garantindo um legado para a saúde de Itaúna e região, toda ajuda é bem-vinda!

Qualquer quantia importa! Seja um real ou mais, cada doação é um passo adiante na reconstrução deste símbolo da nossa cidade. Não é o tamanho do gesto que conta, mas o coração colocado nele. 

Juntos, com a soma de pequenas e grandes contribuições, podemos devolver ao Antigo Hospital sua dignidade e garantir que ele continue sendo um orgulho para todos nós.

Para facilitar sua participação, aqui estão os dados para doação:

Banco Sicoob: 4101 -  Conta: 5588001-0

Chave PIX: CNPJ Hospital Manoel Gonçalves 2125450570001-97

Doe hoje e seja parte deste resgate histórico. Vamos unir forças para transformar o Antigo Hospital em um legado renovado, um testemunho do amor e da união da nossa comunidade.

 Com gratidão,

Charles Aquino  — Historiador - Registro Nº 343/MG

PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE VII)




quinta-feira, fevereiro 06, 2025

PRESERVAR X DEMOLIR (IV)

A restauração do antigo prédio da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, em Itaúna/MG, representa um marco na valorização histórica e na revitalização institucional. 

O projeto, conduzido pelo arquiteto Samuel Nicomedes, conta com o apoio da equipe diretiva do Hospital Manoel Gonçalves, o provedor Antônio Guerra e o vice-provedor, Francisco Mourão, do Ministério Público, parlamentares e empresários, visando não apenas a recuperação do patrimônio histórico, mas também a adaptação do espaço às necessidades contemporâneas da instituição.

A decisão de iniciar as obras, que incluem a preservação da fachada tombada, a recomposição do telhado, a construção de um novo hall de entrada e salas administrativas, reflete uma postura audaciosa diante dos desafios impostos pela conservação patrimonial. 

Além disso, a transferência do Centro Administrativo para o local permitirá a ampliação do Centro Oncológico do Hospital, garantindo maior conforto aos pacientes.

Sob a supervisão de Samuel Nicomedes, a restauração não apenas resgata a estrutura do hospital, mas também busca devolver ao prédio seu valor simbólico e espiritual. Entre as iniciativas conduzidas está a criação da futura Capela da Casa de Caridade, cuja fundação já está concluída. No passado, essa área correspondia à enfermaria, dividida entre os setores masculino e feminino. 

O projeto prevê que a capela será erguida no andar inferior, enquanto o pavimento superior será destinado a uma sala de treinamento e reuniões para o conselho e equipes de trabalho. Além disso, um dos desafios do arquiteto é a reintegração do altar original da antiga capela, atualmente resguardado no Museu Francisco Manoel Franco. Sua reinstalação na nova capela reforça o vínculo entre passado e presente, simbolizando a harmonização entre fé e ciência no processo de cura.

O envolvimento de Samuel Nicomedes nessa restauração transcende a responsabilidade profissional. Desde a infância, ele nutria fascínio pelo hospital e sua arquitetura, chegando a desenhar sua fachada ainda criança. 

Agora, adulto, conduz essa obra com um olhar de respeito e devoção, assegurando que cada detalhe seja preservado entre as ruínas. Com um olhar minucioso e apaixonado, ele faz toda a diferença, permitindo que o antigo hospital renasça sem perder sua essência e importância histórica para a cidade.

Na década de 1980, seu pai, Vandeir José Nicomedes, e o professor Marco Elísio Chaves Coutinho acompanharam uma equipe de televisão interessada na produção de um documentário sobre o hospital, então já em estado de degradação. Esse fato demonstra que a preocupação com a preservação desse patrimônio não é recente, mas sim uma demanda histórica da cidade.

De certo, o destino entreteceu seus desígnios para que um arquiteto audaz assumisse essa nobre incumbência ao lado dos provedores do Hospital. Tal empreitada transcende a mera preservação material, configurando-se como um elo inquebrantável entre o passado e o futuro de Itaúna

Ao salvaguardar a memória e a identidade da cidade, essa missão perpetua, simultaneamente, o legado humanitário da Casa de Caridade, assegurando a continuidade de seu compromisso com o bem-estar da comunidade.

PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE V) ✅


Pesquisa e elaboração: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

terça-feira, janeiro 14, 2025

PRESERVAR X DEMOLIR (III)

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA MG
O CAMINHO DA RESTAURAÇÃO

Ao longo das décadas, o edifício da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, conhecido como "Hospital Velho", permaneceu no centro de debates que refletiram o embate entre memória e modernidade.

Este capítulo aborda as principais etapas dessa jornada, documentadas pela imprensa local, que culminaram na retomada de seu valor histórico e na revitalização do prédio.

Desde os anos 1980, quando a possibilidade de demolição do “Hospital Velho” foi discutida publicamente, o imóvel enfrentou períodos de abandono e degradação.

Reportagens destacaram o prédio como um "fantasma" que assombrava Itaúna, com ruínas pichadas e riscos à segurança​.​ 

Apesar disso, os esforços de preservação nunca cessaram completamente. Em 2021, iniciativas começaram a tomar forma com a apresentação de um projeto de revitalização, que buscava equilibrar memória e funcionalidade​.

Entre 2023 e 2024, uma série de articulações administrativas e políticas marcaram a retomada efetiva do projeto de revitalização. Após longas negociações, o Codempace (Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio). Cultural Artístico e Ecológico de Itaúna) aprovou as obras, permitindo que o Ministério Público e outros parceiros direcionassem recursos para o início das reformas​. A imprensa noticiou atrasos causados por entraves burocráticos, que retardaram o avanço das intervenções, mas também destacou o crescente apoio de empresários e representantes locais​.

A partir de setembro de 2024, reuniões com empresários, engenheiros, agentes políticos e representantes do Hospital culminaram na aprovação final do projeto e na alocação de recursos para o início das obras. Com a fachada tombada e protegida pelo patrimônio histórico, as intervenções planejadas incluíram reforços estruturais, a reconstrução do telhado e a adaptação do interior para abrigar o setor administrativo​.

Em dezembro de 2024, as obras finalmente, começaram trazendo esperança à comunidade e resgatando o simbolismo do edifício como uma obra coletiva de caridade e memória. Jornalistas locais destacaram o impacto histórico desse momento, que não apenas reconstrói um prédio, mas reafirma valores comunitários e o legado de Manoel Gonçalves​.​

A restauração do “Hospital Velho” representa mais do que a recuperação de um patrimônio arquitetônico; é a preservação de uma identidade cultural que une gerações. Apesar das décadas de desafios, o esforço conjunto da sociedade itaunense triunfou sobre as adversidades, transformando o que antes era ruína em um símbolo de resistência e renovação. A trajetória de recuperação deste prédio histórico nos convida a refletir sobre a importância de preservar nossa memória coletiva, mesmo em face das complexidades do progresso.

PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE IV) ✅


Referências:

Pesquisa e organização: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Fontes:

JORNAL FOLHA DO POVO:

Se pode atrapalhar, Por que ajudar? 1 julho 2023.  Disponível em:  https://www.folhapovoitauna.com.br/se-pode-atrapalhar-por-que-ajudar

Aprovada obra no Prédio do Hospital Velho, 19 agosto 2023.Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/aprovada-obra-no-predio-do-hospital-velho

Vai começar a revitalização no Hospital, 19 outubro 2024. Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/vai-comecar-a-revitalizacao-no-hospital

Reconstruindo a História de Itaúna, 28 dezembro 2024. Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/reconstruindo-a-historia-de-itauna

 

JORNAL S’PASSO:

Prefeito e empresários firmam parceria para recuperação do prédio do antigo Hospital Manoel Gonçalves, 29, julho 2021. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/prefeito-e-empresarios-firmam-parceria-para-recuperacao-do-predio-do-antigo-hospital-manoel-goncalves/

Prédios fantasmas assombram Itaúna, 28 agosto 2023. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/predios-fantasmas-assombram-itauna/

Projeto de revitalização do antigo prédio da Casa de Caridade Manoel Gonçalves é retomado, 21 setembro 2024. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/projeto-de-revitalizacao-do-antigo-predio-da-casa-de-caridade-manoel-goncalves-e-retomado/

Hospital anuncia obras em prédio antigo da instituição para ampliação do Centro Oncológico, 25 novembro 2024. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/hospital-anuncia-obras-em-predio-antigo-da-instituicao-para-ampliacao-do-centro-oncologico/

Hospital Manoel Gonçalves inicia obras das ruínas do prédio antigo, 4 janeiro 2025. Disponível em: https://jornalspasso.com.br/hospital-manoel-goncalves-inicia-obras-das-ruinas-do-predio-antigo/

 

sexta-feira, novembro 01, 2024

PRESERVAR X DEMOLIR (II)

O texto oferece um recorte detalhado de uma reunião sobre o destino do antigo hospital de Itaúna/MG. A reportagem é do jornal Ita Vox, publicada entre 29 de dezembro de 1987 e 5 de janeiro de 1988, com uma manchete que destaca a ameaça de demolição do imóvel então conhecido como Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira

O título impactante "HOSPITAL SERÁ “TOMBADO” A PICARETA" transmite a ideia de uma destruição iminente, em vez de um "tombamento" que garantiria sua preservação histórica.

A reportagem tem como pauta principal “o destino do prédio velho do Hospital, a seção examinou duas propostas: A demolição até o limite de segurança e a interdição até realização das obras, mas somente da fachada”. 

Essa análise apresenta argumentos e posições dos participantes, que variam entre a demolição completa e a preservação parcial do prédio, destacando as complexidades técnicas e financeiras envolvidas.

 Participantes e suas Posições

Antônio Peres Guerra - Provedor da Fundação Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira decidiu pela demolição do "Hospital Velho". Ele argumenta que o edifício ficou inativo por mais de 50 anos, o que torna inviável a restauração completa. Segundo Guerra, o prédio se encontra em condições estruturais insustentáveis, e os recursos financeiros disponíveis são insuficientes para um projeto de preservação. Ele sugere que a verba existente seja direcionada para a expansão do "Hospital Novo", enfatizando uma visão pragmática, onde a funcionalidade e segurança são prioridades sobre a preservação histórica.

Irdevan Nogueira Júnior - Arquiteto presente na reunião, que sugere uma solução intermediária: manter a fachada do prédio e reconstruir o restante. Ele defende a ideia de preservar ao menos uma parte do patrimônio, conciliando a preservação histórica com a necessidade de modernização e uso prático. Sua sugestão representa um ponto de equilíbrio, tentando atender tanto às demandas dos defensores do patrimônio quanto às limitações financeiras.

Doutor José Campos: Médico que também contribuiu com um ponto de vista prático, afirmando que o problema é "técnico, embora de ligações afetivas". Ele reconhece o valor afetivo do hospital, especialmente para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA), mas coloca a questão estrutural como prioridade. Sua posição sugere uma preocupação com a segurança, embora reconheça a importância simbólica do prédio.

Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA): Embora não tenha sido representado diretamente na reunião, o IEPHA é mencionado pelo Dr. Campos como uma entidade que vê o prédio como patrimônio de “muito valor”. Isso reflete o interesse do instituto em preservar a estrutura como parte da memória cultural de Itaúna, contrastando com a posição dos gestores locais que priorizam a viabilidade técnica e financeira.

Juarez Campos (Diretor do ITA VOX): Como diretor do jornal que publicou a matéria, sua presença pode indicar um interesse em documentar e divulgar o debate sobre o destino do hospital. A cobertura jornalística enfatiza a importância do hospital para a comunidade e pode refletir uma visão crítica à falta de políticas de preservação do patrimônio histórico da cidade.

Dr. Peri Tupinambás, médico, se posiciona firmemente contra a demolição do antigo hospital Manoel Gonçalves em Itaúna, fazendo uma crítica incisiva às decisões que, segundo ele, refletem uma falta de respeito pela história e memória da cidade. Ele considera a demolição como uma "profanização" da história de Itaúna, enfatizando a importância de manter o prédio como um símbolo da identidade e do passado coletivo dos itaunenses.

Principais Pontos da Crítica de Peri Tupinambás:

Desvalorização da História: Peri Tupinambás destaca que a decisão de demolir o hospital é uma violação ao patrimônio cultural de Itaúna. Para ele, o hospital não é apenas um edifício antigo, mas uma peça fundamental da história da cidade, construída com propósito e valor emocional. A ideia de "profanizar" a história ao demolir o prédio demonstra a sua visão de que esse ato representa um desrespeito aos valores e tradições locais.

Crítica ao Abandono e às Decisões do Passado: Peri afirma que o "erro começou quando resolveram tirar de lá o hospital" e transferi-lo para outro edifício, deixando o antigo hospital ao abandono. Segundo ele, a decisão de construir um novo prédio e deixar o anterior à própria sorte foi um sinal claro da falta de compromisso dos governantes com o patrimônio e a história. Essa crítica revela sua visão de que, se o antigo hospital tivesse sido mantido em funcionamento ou restaurado na época, a discussão sobre demolição não estaria ocorrendo.

Ausência de Cidadania e Participação Popular: Tupinambás destaca a falta de envolvimento da população nas decisões sobre o hospital, sugerindo que a demolição foi decidida de maneira arbitrária, sem ouvir a voz dos cidadãos. Ele acredita que o poder público deveria ter consultado a comunidade e promovido um debate mais amplo, ao invés de impor uma decisão sem levar em conta o desejo coletivo de preservação histórica.

Potencial de Restauração: Ao declarar que “ainda poderia se fazer de novo o que era, bastando que houvesse a vontade de executar”, Tupinambás deixa claro que ele acredita na viabilidade de restaurar o edifício. Ele indica que, com empenho e investimento adequado, o prédio poderia ser revitalizado, preservando sua importância histórica e cultural.

Críticas à Administração Local: Peri critica a atitude das autoridades municipais da época, acusando-as de "calhordas" e de falta de comprometimento com Itaúna. Ele vai além e critica a "classe dominante e intelectualidade" que, segundo ele, apoiavam a demolição, questionando seu compromisso com os interesses culturais e patrimoniais da cidade.

Menção a Outros Defensores do Tombamento: No final, Peri menciona o professor Marco Elísio e Dona Arthurina como vozes que também defendem o tombamento e preservação do hospital. Isso indica que ele não está sozinho em sua posição e que há outros cidadãos influentes que compartilham a mesma visão de proteção ao patrimônio histórico.

Crítica ao Conselho do Hospital: Tupinambás também se refere de forma crítica ao conselho do hospital, que teria mantido uma postura inflexível contra o tombamento, evidenciando que a batalha pela preservação do prédio envolvia conflitos não apenas de opinião, mas de status e poder na cidade.

No encerramento dos debates, os participantes concluíram que a recuperação do edifício já deveria ter ocorrido há cerca de 30 anos. Estiveram presentes na sessão: o médico Helênio Eustáquio, o vice-provedor Dalmo Coutinho, o membro do Conselho Consultivo Waldemar Gonçalves de Souza e os conselheiros Ary Carvalho, Petrônio Nogueira Guimarães, José Joarez Silva, Afonso Henrique Silva Lima, Roberto Soares Nogueira, Affonso Cerqueira Lima, Mério Alves de Souza, Délcio Drummond, Elisa Tarabal, João Afonso Guimarães, Sebastião Miamoto, Professor Marco Elias, Augusto Machado, Luiz Guimarães, Meroveu Camargos e Geraldo Augusto Silveira.

Ao que tudo indica, a decisão de não demolir o antigo Hospital Velho prevaleceu. Passados aproximadamente 37 anos desde a publicação da matéria, o edifício permanece de pé, embora não tenha recebido nenhuma intervenção de restauração até o presente momento. Sua permanência sugere um compromisso com a preservação do patrimônio, mesmo que ainda não tenha se concretizado em ações de revitalização.

Aparentemente, a comunidade e os administradores da época reconheceram a importância cultural do prédio, ainda que a restauração tenham sido indefinidamente adiados. A estrutura permanece até hoje como testemunho do patrimônio histórico de Itaúna e de seu fundador, Manoel Gonçalves de Souza Moreira, carregando consigo um valor simbólico de resistência e memória para as gerações presentes e futuras.

PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE III) ✅


Referências:

Organização e pesquisa: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Fonte impressa: Jornal Ita Vox, 29 de dezembro de 1987 a 05 de janeiro de 1988

Reportagem original disponível no blog: Casa de Caridade Manoel Gonçalves

Imagem: Meramente ilustrativa 

segunda-feira, outubro 14, 2024

PRESERVAR X DEMOLIR (I)

1982

Convido você a analisar a reportagem publicada no jornal Estado de Minas em 14 de julho de 1982, escrita pelo jornalista João Gabriel, que aborda um importante dilema enfrentado pela cidade de Itaúna/MG na época: a preservação ou a demolição da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, o prédio mais antigo da cidade.

A discussão é enriquecida com diferentes pontos de vista, envolvendo várias figuras influentes como um promotor, um arquiteto, um escritor, médicos e professores, que expuseram suas opiniões sobre o valor histórico e cultural do edifício, em contraste com a necessidade urgente de modernizar as instalações hospitalares para melhor atender à população.

Solicito você a refletir sobre esse episódio histórico e se colocar no lugar das pessoas envolvidas no debate: se fosse sua decisão, você optaria por preservar o edifício histórico, com seu valor simbólico e cultural, ou priorizaria a demolição, visando o desenvolvimento e a modernização das instalações hospitalares, essenciais para a comunidade? Agora, você tem a oportunidade de revisitar essa discussão, refletindo sobre como esses diferentes pontos de vista moldaram o embate entre memória e progresso. Vamos analisar as posições dos principais personagens mencionados.

1. Médico José Juarez Silva (Provedor da Casa de Caridade):

José Juarez Silva, que estava à frente da Casa de Caridade, adota uma postura pragmática quanto à preservação do prédio. Ele acredita que, se os recursos estivessem disponíveis para restaurar o edifício, essa seria a solução ideal. No entanto, após consultar engenheiros, ficou claro que a restauração não era economicamente viável, levando-o a sugerir a demolição. Sua preocupação maior está em otimizar os recursos para melhorar as condições do hospital e adquirir novos equipamentos para a cidade, como um CTI e raios-X, que são necessidades mais urgentes para o atendimento à população.

2. Promotor Faiçal David Freire Chequer (Representante do Ministério Público):

O promotor Faiçal David Freire Chequer adota uma posição realista. Essa visão reflete sua preocupação em equilibrar passado e futuro: ele defende a preservação do patrimônio, mas dentro de um contexto onde o avanço do hospital e o bem-estar social não sejam prejudicados. Contudo, ele considera essa preservação válida "desde que não implique em barrar o desenvolvimento do hospital". Ou seja, ele vê a preservação do patrimônio como relevante, mas subordinada às necessidades práticas e funcionais do hospital. Ao propor que o laudo técnico sobre o prédio inclua uma análise de viabilidade, Chequer demonstra sua intenção de aguardar uma avaliação detalhada antes de tomar uma decisão final.

3. Médico Peri Tupinambás:

Peri Tupinambás tem uma postura clara em defesa da preservação do prédio. Ele acredita que o prédio da Casa de Caridade é um marco histórico de Itaúna e, portanto, deve ser restaurado para preservar a memória da cidade. Como candidato à prefeitura, seu posicionamento parece refletir um respeito pelo patrimônio histórico, e ele argumenta que o valor simbólico do edifício transcende seu estado atual de ruínas.

4. Escritor e Pesquisador David de Carvalho:

David de Carvalho é outro defensor da preservação, argumentando que não se pode permitir que a cidade perca um prédio tão carregado de ideais e história. Ele vê na recuperação do prédio uma oportunidade para atender a comunidade em diferentes aspectos, inclusive como espaço cultural, fortalecendo assim o espírito de pertencimento da população com seu passado.

5. Professor Guaracy de Castro Nogueira (Reitor da Universidade de Itaúna e Ex-Provedor da Casa de Caridade):

O professor Guaracy de Castro Nogueira adota uma postura mais técnica. Ele considera o prédio irrecuperável devido ao seu estado avançado de deterioração. Para ele, a prioridade deve ser dada a investimentos na infraestrutura educacional e hospitalar da cidade, como a expansão do atual hospital e a criação de novas instalações acadêmicas na Universidade de Itaúna. Ele se opõe ao uso de recursos públicos para tentar salvar o prédio, que, segundo ele, está muito danificado para justificar sua restauração.

 6. Arquiteto Hélio Ferreira Pinto:

O arquiteto Hélio Ferreira Pinto, uma autoridade no estilo neoclássico no Brasil, defende que o prédio é perfeitamente recuperável. Ele valoriza a história arquitetônica da Casa de Caridade, destacando o estilo neoclássico da construção e sua importância para a memória coletiva. Para ele, destruir o prédio seria um grande erro, e ele defende a restauração como algo não apenas possível, mas também necessário.

7. Professor Marco Elísio Chaves Coutinho:

Professor Marcos Elísio Coutinho, ligado à área de cultura e turismo de Itaúna, também advoga pela recuperação do prédio. Para ele, a restauração é urgente para que a cidade preserve sua memória e identidade cultural. Ele argumenta que, além de ser um bem arquitetônico, a Casa de Caridade representa a herança de Manoel Gonçalves, um importante benfeitor da cidade, cuja memória deve ser preservada.

Comparação das Posições:

As opiniões variam bastante entre os personagens. De um lado, temos os que defendem ativamente a preservação do prédio, que ressaltam a importância histórica, arquitetônica e cultural do edifício. Esses personagens acreditam que a recuperação é viável e essencial para a preservação da memória de Itaúna.

Por outro lado, temos aqueles que, embora reconheçam a importância histórica do prédio, priorizam questões práticas e de desenvolvimento da cidade. Eles consideram que a prioridade deve ser o investimento em novas estruturas que atendam melhor às necessidades da população, como a ampliação do hospital e novas instalações universitárias. Para eles, o estado avançado de deterioração do prédio e a falta de recursos disponíveis tornam sua preservação inviável.

A reportagem ilustra um dilema comum em muitas cidades: o equilíbrio entre a preservação do patrimônio histórico e o desenvolvimento urbano. Em Itaúna, o debate de 1982 sobre a Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira mostra as tensões entre memória, cultura e progresso, refletidas nas diferentes visões dos personagens envolvidos.

Nota

Agora, em 2024, mais de quarenta anos após o embate sobre a preservação e demolição da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira, o edifício ainda "permanece de pé", mesmo com avisos de “risco iminente de desabamento”. Até o presente momento, o monumento histórico não foi demolido, o que sugere que, na época, a preocupação com a preservação prevaleceu. Acredita-se que, naquela ocasião, tenha surgido um sentimento coletivo de esperança de que, em algum momento, o prédio fosse restaurado, mantendo viva a memória e a história que ele representa para a cidade de Itaúna.

 PRESERVAR X DEMOLIR (PARTE II) ✅


Referências:

Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino

Fonte impressa: Jornal Estado de Minas, 1982.

Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira: Disponível em:

https://itaunacaridade.blogspot.com/2014/12/dilema-preservar.html  

https://itaunacaridade.blogspot.com/2014/12/blog-post_17.html

Risco iminente: 

https://itaunaemdecadas.blogspot.com/2024/01/risco-iminente.html

Imagem: Meramente ilustrativa