A análise do
documento revela questões centrais que sugerem possíveis restrições e um foco
exclusivo na proteção de uma única fé, a cristã, dentro do município.
Isso
levanta sérias preocupações sobre a imparcialidade religiosa, uma vez que o
texto não menciona a proteção equivalente para outras religiões ou crenças, o
que pode ser interpretado como uma violação do princípio da laicidade do
Estado.
O Estado laico
deve garantir a igualdade de tratamento a todas as religiões, sem favorecer
nenhuma em detrimento das outras. No entanto, o projeto em questão parece ter
como objetivo a proteção exclusiva da fé cristã, desconsiderando a necessidade
de assegurar proteção equivalente a outras crenças religiosas.
Isso pode ser
interpretado como uma tentativa de impor a supremacia cultural de uma religião
específica. Além disso, a justificativa do projeto parece estar baseada em
incidentes recentes envolvendo a fé cristã, o que sugere que a proposta é uma
reação a eventos específicos, e não uma política abrangente de respeito à
diversidade religiosa.
Importante
destacar que, no mesmo dia da votação do Projeto de Lei, uma vereadora propôs "fazer uma emenda modificativa" no projeto, sugerindo a inclusão de todas as
religiões, ao invés de focar exclusivamente na religião cristã.
A intenção era
garantir que o projeto protegesse as manifestações religiosas de todas as
crenças, refletindo a diversidade religiosa presente tanto na cidade quanto no
mundo. A vereadora questionou a possibilidade de manter a expressão "religião cristã" juntamente com "demais religiões" no texto do projeto,
mas foi informada que isso não seria possível.
Diante dessas
considerações, é fundamental que os responsáveis pela aprovação deste projeto
de lei reconsiderem sua redação, buscando garantir uma verdadeira igualdade
para todas as crenças religiosas. A laicidade do Estado deve ser reafirmada,
assegurando de forma equânime a proteção de todas as religiões, sem qualquer
percepção de favorecimento ou discriminação.
O projeto poderia ser aprimorado
para garantir que todas as crenças sejam protegidas igualmente, promovendo o
respeito e a convivência pacífica entre as diversas manifestações de fé, sem
comprometer a liberdade de expressão e a neutralidade estatal.
Em 1890, o
espiritismo foi criminalizado pelo Código Penal Republicano, em particular
pelas interpretações relativas ao artigo 157. Isto resultou em restrições à
liberdade religiosa dos espíritas. No que diz respeito aos crimes contra a
saúde pública, no artigo 157 delineou que “praticar o espiritismo, a magia e
seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de
ódio ou amor, inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para
fascinar e subjugar a credulidade pública” seria punido a uma multa pecuniária
entre 100$000 e 500$000 réis e prisão de até seis meses.
Apesar do anúncio da
Constituição de 1891 de que a nação era agora um Estado Laico, a prática do
espiritismo ainda enfrentava obstáculos. Portanto, o Código Penal não
reconheceu o espiritismo como uma fé legítima e caracterizou-o como uma
violação da lei. Os relatórios indicam que antes do estabelecimento da
República, os espíritas sofreram uma enxurrada de críticas por parte dos meios
de comunicação, encontraram oposição religiosa e enfrentaram objecções de
profissionais médicos. No entanto, a aplicação da Constituição Republicana
exacerbou as suas circunstâncias problemáticas.
As advertências
contra o espiritismo eram comuns nas publicações locais e também nos jornais
regionais e nacionais que chegavam aos municípios. Essas críticas eram muitas
vezes enfatizadas com slogans que chamavam a atenção, como “Cuidado com
o Espiritismo!” Os responsáveis por essas publicações pretendiam justificar sua
condenação relatando supostas verdadeiras tragédias que se abateram sobre os
envolvidos na prática. A intenção era desencorajar a crença na doutrina
espírita através do uso de táticas alarmistas.
Além disso, essas publicações
incluíam opiniões de especialistas, principalmente médicos, que denunciavam o
espiritismo como prejudicial à saúde física e mental. Esses especialistas
também criticaram o espiritismo por suas doutrinas, ensinamentos e visão de
mundo, muitas vezes desconsiderando as práticas de assistência social. Um tema
particularmente angustiante coberto pelos jornais foram as manchetes que
detalhavam as “tragédias familiares causadas pelo espiritismo”, retratando a
destruição de famílias de forma dramática.
Como por
exemplo, a morte do professor Plácido Teixeira Coutinho no arraial Sant'Ana do
Rio São João Acima, hoje Itaúna/MG, foi registrada em 17 de dezembro de 1899,
no jornal “Gazeta de Minas” de Oliveira/MG. Relatos de “noticiaristas” enviados ao
jornal, afirmaram que o professor que lecionava publicamente durante cerca de
uma década, começou a organizar sessões espíritas em sua residência há cerca de
seis meses.
Isso fez com que sua filha de vinte anos enlouquecesse e o
professor fosse dominado por pensamentos e alucinações mortais, o que o levou
ao suicídio com um tiro no ouvido, dentro do cemitério do arraial. O incidente
abalou a sociedade e deixou uma marca duradoura no dia 7 de dezembro daquele
ano. Os “noticiaristas” do arraial especularam que o espiritismo foi causa
deste infortúnio devastador.
Plácido Teixeira Coutinho, renomado educador natural de Trás-os-Montes, região norte de
Portugal, era filho de José Teixeira Coutinho e Emília Magalhães Coutinho,
casado com Antônia Teodora de Oliveira e teve oito filhos (5 mulheres e 3
homens). No dia 8 de dezembro de 1873, os irmãos da Ordem de São Francisco de
Assis se reuniram em Ouro Preto para realizar um encontro dedicado a homenagear
Nossa Senhora da Conceição, padroeira de sua ordem.
Esta ocasião especial
incluiu uma exposição ampla e abrangente, cujos rendimentos foram destinados ao
financiamento da construção da capela. O professor jovem de ascendência
portuguesa e devoto da ordem, esteve entre os que arrecadaram subscrições para
ajudar nos esforços da capela. Em 1877, recebeu a notícia do sucesso da
aprovação de sua cidadania brasileira através do Ministério do Império.
Em 1881, Plácido
trabalhou como professor público de instrução primária na freguesia de São
Gonçalo do Ibituruna, termo de São João Del Rei, sendo transferido no mesmo ano
para a freguesia de Mateus Leme, termo do Pará. Ao longo da década de 80
ministrou em outras cidades mineiras.
No início da década de 90, ao chegar ao
arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima (hoje
Itaúna/MG), o professor Plácido iniciou aulas noturnas gratuitas para os alunos
do primeiro ano do ensino fundamental. Isso ocorreu no início de 1893, quando
Sant'Anna do Rio São João Acima se caracterizava por um conjunto de escolas
isoladas, criadas por iniciativa privada, e uma escola estadual. Essas escolas
gozavam de grandes vantagens educacionais.
A bisneta do
professor Plácido, a professora e escritora Maria Lúcia Mendes, residente em Itaúna, lembra
que sua avó, Angelina de Oliveira Coutinho, falava frequentemente dos livros
espíritas, que eram enviados da Europa para o professor no Brasil. Diz-se que
ele organizava reuniões em casa para discutir esses assuntos.
A notável atuação
do professor Plácido na área da educação certamente influenciou as futuras
gerações de sua família, que se tornaram profissionais de destaque e educadores
respeitados na cidade. Há fortes indícios de que o professor Plácido teve papel
fundamental na organização dos primeiros encontros espíritas em Itaúna, no
final do século XIX.
Já na década de
1945, o jornalista, colunista e membro do Instituto Histórico de Ouro Preto,
Antônio Caetano de Azeredo, radicado em Belo Horizonte, escreveu uma crônica
sobre a cidade de Itaúna intitulada “Terra Abençoada”, que acreditamos ter
escrito após visitar a cidade. Curiosamente, ele cedeu a crônica sobre a cidade
de Itaúna para dois jornais da região de Minas Gerais - Correio de
Uberlândia e A Estrela Polar (Diamantina).
O jornalista colaborou regularmente
com diversos jornais da região mineira (incluindo Divinópolis, Uberlândia,
Diamantina, Paraopeba, Baependi, Santos Dumont, Conselheiro Lafaiete, Ouro
Preto, entre outros). Azeredo Neto (como assinava em suas crônicas), era
conhecido na imprensa pela profundidade e perspicácia evidentes nas suas obras
escritas. Em um de seus escritos sobre o município de Itaúna, ele mencionou o
tema do espiritismo e compartilhou o seguinte pensamento:
Itaúna,
outrora simples arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, é hoje, uma cidade
progressista, com intensa vida industrial e privilegiada por excelente clima,
qualificado pelo sábio dinamarquês, dr. Lund, como dos melhores de Minas
Gerais; e, mais ainda, por vir se mantendo incólume em meio da derrocada de
licenciosidade de costumes em que o mundo se debate, como no domínio de novo
paganismo. É uma terra abençoada, onde todos se prezam, estimam e respeitam.
É
que nela impera, soberana e excelsa, a sublime religião do Mártir do Gólgota,
não existindo, no seio de sua honesta e operosa sociedade, nenhuma seita, nem
mesmo o espiritismo, que qual árvore daninha, vai estendendo raízes por outros
rincões mineiros, esquecidos de sua bem cuidada formação religiosa, plasmada
por eruditos sacerdotes de vida ilibada, cuja voz ali foi ouvida e acatada,
traduzindo-se na fidelidade conjugal e na piedade filial reinantes como
estimáveis dons da graça divina.
A CÉLEBRE FAMÍLIA CAMPOS
No período de 1923 a 1937, José Maria Álvares da Silva Campos,
farmacêutico formado em Ouro Preto, assumiu a função de vereador distrital do
Carmo do Cajurú no sétimo mandato da Câmara Municipal de Itaúna. Em 1928, após
a inauguração do Grupo Escolar Princesa Isabel no distrito, foi o primeiro
diretor até o início da década de 1931.
Apesar de possuir a Farmácia Campos
também no distrito de Cajuru, suas crenças espirituais levaram a um boicote
orquestrado. Esse infeliz incidente exemplificou o preconceito religioso da
época, levando-o a se mudar com a família para o município de Divinópolis no
início da década de 1940. Ao chegar na cidade, abriu uma farmácia de mesmo nome
e manteve a carreira de farmacêutico.
Fundado com o
apoio de José Maria Campos na década de 1947, um grupo de estudiosos do
espiritismo em Divinópolis formou o Centro Espírita Estudantes do Evangelho. A
Farmácia Campos serviu de ponto de encontro para a comunidade literária da
cidade.
Isto inspirou José Maria Campos e Sebastião Benfica Milagre a
conceberem a ideia de criar uma academia dedicada à literatura na década de
1961. No dia 21 de junho daquele ano, ao lado de personalidades conceituadas,
deram origem à ADL - Academia Divinopolitana de Letras. A primeira reunião foi
presidida por José Maria Campos, então com 72 anos. Uma rua do município, Rua
José Maria Campos, lhe serve de homenagem, através da Lei Municipal nº 1.404 de
12 de junho de 1978.
Nascido em 7 de
dezembro de 1889, em Pitangui, José Maria Álvares da Silva Campos, mais
conhecido como José Maria Campos, teve sete filhos com a esposa Mariana Fornero
de Campos. Foi também trineto de Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo
Branco Souto Mayor de Oliveira Campos ou também conhecida como Dona Joaquina do
Pompéu.
Em 1975, ele faleceu. Segundo pesquisas genealógicas dos historiadores Coriolano
e Jacinto registradas na obra “Dona Joaquina do Pompéu” de 1956, seus pais
foram Inácio Álvares da Silva Campos e Luíza Álvares da Silva. Juntos, o casal
teve um total de dez filhos — o farmacêutico José Maria Álvares da Silva Campos
(1888-1975), a professora Maria José Álvares da Silva Campos (1890), Maria
Carolina Álvares da Silva Campos (1892-1977), José Luís Álvares da Silva Campos
(1894), o tabelião Raul Álvares da Silva Campos (1895-1949), Martinho Álvares
da Silva Contagem (1897-1956), Iara Álvares da Silva Campos (1902), Jupira
Álvares da Silva Bicalho (1905), a professora Nise Álvares da Silva Campos
(1907-1987) e Jandira Álvares da Silva Campos (1910-1991).
CASAS ESPÍRITAS EM ITAÚNA
Desses dez
irmãos, três irmãs se estabeleceram em Itaúna. Uma delas foi Maria Carolina,
também conhecida como Carola, que ocupava cargo na Escola Normal, hoje Escola
Estadual de Itaúna. Outra irmã, Nise Campos, seguiu carreira como professora e escritora, enquanto Jandira trabalhava na agência do correio local. No início
da década de 60, as irmãs Campos se uniram com o propósito de se aprofundar nos
ensinamentos do Evangelho Segundo o Espiritismo.
Assim, em 8 de julho de 1963, na
residência da rua Melo Viana, centro da cidade, Ferdinando Suppa, Jandira
Campos e Nise Campos realizaram “a primeira reunião de preces” registrado em ata
oficial em 14 de setembro de 1964 a criação do GEFA – Grupo Espírita Francisco de Assis – no município de Itaúna/MG.
Após
estabelecido um número considerável de participantes regulares, a casa atingiu
sua capacidade e não tinha mais como acomodar pessoas adicionais. Como solução,
conseguiram um terreno no bairro das Graças, justamente no cruzamento das ruas
Santana e Bonfim.
Neste terreno construíram um humilde estabelecimento que
acabou por se transformar num amplo e acolhedor centro religioso dedicado à
difusão dos ensinamentos da doutrina Espírita. Neste centro foram viabilizados vários
programas e iniciativas educativas centradas na assistência social e apoio aos
necessitados.
Pela Lei Municipal de número 2.990 de 6 de outubro de 1995, que alterou o artigo primeiro da Lei
de número 1.569 de 21 de maio de 1981 e passou a ter a seguinte redação: “Fica
declarado de utilidade pública o Grupo Espírita Francisco de Assis, entidade
sem fins lucrativos, com sede e foro nesta cidade de Itaúna.” Prefeitura
Municipal de Itaúna, Prefeito Hidelbrando Canabrava Rodrigues.
Pela Lei Estadual de número 8.110, de 1 de dezembro de 1981 do artigo primeiro declara
que “Fica declarado de utilidade pública o Centro Espírita Francisco de Assis –
Fé – luz – Amor – Caridade, com sede na cidade de Itaúna”. Palácio da
Liberdade, Vice-Governador de Minas Gerais João Marques de Vasconcelos.
Pela Lei Federal
Portaria nº 1.588, de 19 de agosto de 2005. O Ministro de Estado e da Justiça,
usando da competência que lhe foi delegada pelo art. 1º do Decreto no 3.415, de
19 de abril de 2000, e com base no disposto na Lei nº 91, de 28 de agosto de
1935, regulamentada pelo Decreto nº 50.517, de 2 de maio de 1961, resolve: “Declarar
de Utilidade Pública Federal as seguintes instituições: Grupo Espírita Francisco de Assis - GEFA, com sede na cidade de Itaúna, Estado de Minas Gerais”.
Segundo o
historiadorGuaracy de Castro Nogueira, relata que foi uma imensa honra e privilégio ter a
oportunidade de conviver com as irmãs Campos que se dedicaram de todo o coração
a esta crença religiosa específica. Ele destaca que durante uma época em que
prevaleciam os preconceitos sociais em torno das afiliações religiosas, as
irmãs inspiravam grande respeito e admiração. O conceito de ecumenismo, ainda
não era abraçado naquela época, mas mesmo assim elas foram aceitas e
respeitadas na comunidade de Itaúna — “chegaram, viram e venceram”.
Já o professor e
padre José Bechelaine destaca que a professora e escritora Nise Campos, possuía
uma riqueza interior que expressava com notável simplicidade, tornando-a uma
figura cativante. Sua trajetória educacional começou na cidade de Pompéu, onde
cursou o ensino fundamental antes de continuar seus estudos na renomada Escola
Normal de Itaúna. Em 1925, ela fez parte do primeiro grupo de professores
formados nesta instituição.
Após iniciar a carreira docente em Pompéu, Nise
retornou a Itaúna em 1930, quando a Escola Normal foi oficialmente reconhecida.
Dedicou-se à docência no Grupo Escolar José Gonçalves de Melo até à sua
aposentadoria, ganhando reputação pela sua competência e empenho inabalável.
Fora do trabalho na escola, Nise era muito procurada para aulas particulares,
principalmente na disciplina de português. Além disso, ela possuía talento para
a música e tocava bandolim. Em questões de fé, Nise foi defensora do
espiritismo kardecista e participou ativamente dos esforços filantrópicos e
religiosos do seu Centro Espirita.
No entanto, ela não tinha uma mentalidade
sectária, nem procurou ativamente converter outras pessoas às suas crenças. Ela
tinha um profundo respeito pelas opiniões divergentes. Ainda tenra idade, Nise
escreveu suas primeiras obras poéticas demonstrando talento para a literatura.
Seus escritos exibiam consistentemente uma natureza contemplativa e
introspectiva, com um toque de melancolia. Além disso, ela fez contribuições
valiosas para vários jornais itaunenses.
Em 1965, através
da Lei Municipal de nº 775, a Professora Nise Campos foi agraciada com o título
de Cidadania Honorária em Itaúna — O Povo do Município de Itaúna, por seus
representantes, decreta e eu, em seu nome, sanciono a seguinte Lei: Art. 1º
Concede o título de cidadã honorária de Itaúna à professora aposentada Nise
Álvares da Silva Campos, de acordo com a Lei Municipal que regula a matéria. Prefeitura
Municipal de Itaúna, 6 de dezembro de 1965 — pelo Prefeito Municipal Milton de
Oliveira Penido.
Com o passar dos
anos, foram inauguradas mais duas Casas Espíritas no município de Itaúna. O
Núcleo Espírita Nosso Larque surgiu em 3 de outubro de 1983, como uma
organização sem fins lucrativos movida pela filantropia. Começou a funcionar
oficialmente em 27 de outubro de 1994, ocupando a atual localização à rua
Professora Maria Linda, no Bairro Residencial São Geraldo, município de
Itaúna/MG.
Os fundadores guiaram-se por uma sugestão inspirada na escolha do
nome, que se alinha com o seu objetivo principal de criar um espaço acolhedor
como um verdadeiro “Lar”. Assim, através da Lei Municipal de nº 1740 de 31 de
maio de 1984 do artigo primeiro foi “declarado de utilidade pública o Núcleo
Espírita "Nosso Lar", sociedade civil, sem fins lucrativos, com sede
e foro em Itaúna. Prefeitura Municipal de Itaúna, Prefeito Municipal Francisco
Ramalho da Silva Filho.
Uma informação relevante,
apesar da escassez de documentação histórica, é o relato da trajetória de Irma de Castro Rocha em Itaúna, desde a infância até a idade adulta.A biografia de Irma conduz inevitavelmente ao
município, pois este local significava a região geográfica predominante onde
viveu a grande parte de seus dias. Embora suas origens sejam de Mateus Leme/MG,
remontando à década de 1920, a família mudou-se para Itaúna/MG, quando Irma
tinha apenas dois anos.
Seu pai, Adolfo Castro, trabalhava como agente
ferroviário, e o nome de sua mãe era Mariana Castro. Ela cresceu com outros
quatro irmãos. E no dia 5 de março de 1927, um infortúnio se abateu sobre a
família quando seu pai faleceu e foi sepultado no cemitério local. Sua morte
foi oficialmente registrada no Livro de Óbitos da igreja (1901-1928) na página
de número 184r, marcando-o como a 21ª pessoa a ser sepultada naquele ano sendo
então devidamente registrado pelo Padre Cornélio Pinto.
A renomada Escola Normal, hoje Escola Estadual de Itaúna, proporcionou-lhe educação durante sua
passagem pela cidade. Já adulta, Irma mudou-se para a capital mineira ao lado
da irmã. Em 1946 faleceu aos 24 anos, apenas dois anos após seu casamento com
Arnaldo Rocha. Irma de Castro Rocha foi postumamente referida como Meimei, o
que mais tarde, segundo registros, se manifestou através da mediunidade de
diversas cartas psicográficas de Francisco Cândido Xavier, popularmente chamado
de Chico Xavier, mas também por outros médiuns.
O desejo de
promover mudanças e transformar o ambiente local é o que leva os agentes
sociais a realizar mudanças duradouras e significativas. Estas mudanças são
mais impactantes quando resultam da capacidade de fazer escolhas e agir de
forma consciente. É por meio dessa lente que embarcamos em nossa jornada para pesquisar
a relação entre os atores sociais e suas convicções religiosas, reveladas por
meio das reminiscências históricas do espiritismo em Itaúna.
Referências:
Pesquisa e organização: Charles Galvão de Aquino: Mestre pelo programa de Pós-Graduação em História (PGHIS) da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Graduado em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) - Divinópolis MG, com Projetos em Iniciação Científica de Pesquisa e Extensão. Tem experiência na área de História na conservação, tratamento, organização e divulgação do Arquivo Histórico de Pitangui (IHP) nos séculos XVIII, XIX e XX. Genealogista e pesquisador em arquivos Coloniais com leitura paleográfica. Pesquisa nas seguintes áreas: História do Integralismo em Minas Gerais, História dos Ciganos em Minas Gerais, História de famílias em Pitangui descendentes dos Judeus Sefarditas da Península Ibérica do século XV e Cultura Afrodescendente no Centro-Oeste Mineiro.
Academia Divinopolitana de Letras. Prefeitura de Divinópolis. Disponível em: https://www.divinopolis.mg.gov.br/portal/noticias/0/3/7042/academia-divinopolitana-de--letras-inaugura-sede-propria
Associação Beneficente Cantinho da Meimei. Disponível em: https://cantinhomeimei.org.br/meimei.html
ARRIBAS, Celia da Graça. Afinal, espiritismo é religião? A doutrina espírita na formação da diversidade religiosa brasileira, p. 88-92, 2008. Dissertação (Mestrado em Sociologia) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. doi:10.11606/D.8.2008.tde-05012009-171347. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-05012009-171347/pt-br.php
Assembleia Legislativa de Minas Gerais – ALMG. LEI 8110, DE 01/12/1981. Disponível em: https://www.almg.gov.br/legislacao-mineira/texto/LEI/8110/1981/
BATISTA, Márcia Helena. A Restauração Católica no cotidiano da cidade: círculo operário, imprensa e obras sociais em Divinópolis entre os anos 30 e 50. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) Pontifícia Universidade Católica, Belo Horizonte, p. 31, 197, 2002. Disponível em: http://www.biblioteca.pucminas.br/teses/CiencSociais_BatistaMH_1.pdf
BECHELAINE, Maria Batista. Traços de giz em quadro negro: Memórias de uma estudante que se tornou professora. Belo Horizonte, ed, O Lutador, 1999, p.19-20.
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Câmara Municipal de Itaúna. LEI Nº 5.988, de 03 de outubro de 2023. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/media/sapl/public/normajuridica/2023/10704/lei_5988-2023_-_declaracao_de_utilidade_publica_grupo_espirita_euripedes_barsanulfo.pdf
Câmara Municipal de Itaúna. LEI Nº 775, de 06 de dezembro de 1965. Disponível em: https://sapl.itauna.mg.leg.br/media/sapl/public/normajuridica/1965/8739/2734_texto_integral.pdf
COELHO. José Demétrio. Emancipação de Carmo do Cajuru: Relato histórico. Organização e compilação Flávio Floral, 1ª ed., Divinópolis, 2020, p.29.
CORGOZINHO, Batistina M. S. Nas linhas da modernidade: continuidade e ruptura. Divinópolis, MG, 2003, p.145-146.
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Entrevista com, Guaracy de Castro Nogueira - GEFA ITAÚNA - História Espiritismo em Itaúna Documentário. Produção Naron Tabajara. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=76eDyPLJG8A&t=497s
Entrevista oral com a professora Maria Lúcia Mendes em 29/11/2023.
Grupo Espírita Eurípedes Barsanulfo GEEB. Itaúna/MG. Disponível em: https://www.youtube.com/@grupoespiritaeuripedesbars3318/videos
Grupo Espírita Francisco de Assis – GEFA. Disponível em: https://gefaitauna.net/site/sobre/
Inauguração da Casa Espírita em 1994. “Núcleo Espirita Nosso Lar. Produção Naron Tabajara. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RpgTe-KUQAY&t=4261s
Itaúna em Décadas. Professor Plácido Teixeira Coutinho: Atitude educativa e falência da esperança. Disponível em: https://itaunaemdecadas.blogspot.com/2016/07/o-suicidio-de-um-professor-em-itauna-no.html
Jornal A Estrela Polar nº 40, Diamantina, 7 de outubro de 1945, p.2. HDB, Hemeroteca Digital Brasileira, Fundo BNDB, Biblioteca Nacional Digital Brasil.
Jornal Brexó. 1988, p.2 Itaúna, J.R. Bachelaine. Acervo: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira.
Jornal Correio de Uberlândia nº 1760, 4 de novembro de 1945, p.3. HDB, Hemeroteca Digital Brasileira, Fundo BNDB, Biblioteca Nacional Digital Brasil.
Paróquia Santana de Itaúna – Family Search. Óbitos 1901, Jan-1928, Imagem 189. Disponível em: https://www.familysearch.org/ark:/61903/3:1:939N-D79T-YW?i=188&wc=M5FD-K68%3A370882003%2C369941902%2C370953901&cc=2177275
Revista Vida Doméstica: revista do lar e da mulher, nº 143, 1930, p. 8. HDB, Hemeroteca Digital Brasileira, Fundo BNDB, Biblioteca Nacional Digital Brasil.
RIBEIRO, Coriolano Pinto; GUIMARÃES, Jacinto; Dona Joaquina do Pompéu. Imprensa Oficial, Belo Horizonte, 1956, p.526-528.
SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, Vol.1, p. 209.
Sumário Atos do Poder Judiciário Atos do Poder: Lei Federal Utilidade Pública: Diário oficial da união – Seção 1.
Spiritism, Law and Social Conflict: Religious Practices in Early Republican Brazil
At the end of the nineteenth century, the emergence and expansion of Spiritism in Brazil generated intense debates and conflicts involving the State, the Catholic Church, and the medical community. In the early years of the Republic, these tensions became institutionalized through legal measures that sought to regulate and restrict spiritual practices.
The Brazilian Penal Code of 1890 classified Spiritism alongside practices such as magic and healing rituals, framing it as a threat to public health and social order. This legal categorization did not recognize Spiritism as a legitimate religion, but rather as a form of deception or manipulation of public belief.
This context reveals broader dynamics of control and legitimacy. At a time when the Republic sought to consolidate a secular state, it simultaneously attempted to define which forms of belief and knowledge would be considered acceptable. Spiritism, with its emphasis on mediumship, healing, and communication with the spiritual world, challenged both religious orthodoxy and emerging scientific authority.
In regions such as Minas Gerais, including the town of Itaúna, these tensions were reflected in local experiences. Spiritist practitioners faced criticism in the press, opposition from religious institutions, and skepticism from medical professionals.
Despite these challenges, Spiritism continued to expand throughout the twentieth century, often associated with charitable work, education, and community support. Local groups played a significant role in maintaining and disseminating its practices, contributing to its gradual social acceptance.
The study of Spiritism in Itaúna thus provides insight into broader processes of religious negotiation and social transformation in Brazil. It highlights how marginalized belief systems navigated legal restrictions and social prejudice, eventually becoming part of the country’s diverse religious landscape.
Rather than viewing Spiritism solely as a local phenomenon, it can be understood as part of a wider historical process in which different forms of knowledge—religious, scientific, and popular—competed for legitimacy in modern society.
As origens da Egreja Baptista de
Itaúna remontam a 1903, quando o Sr. João Antônio Soares, membro da igreja de
Bello Horizonte, se transferiu para esta cidade, reunindo em torno de si os
primeiros adeptos, que foram os fundadores da igreja local e cujos nomes são os
seguintes:
Daniel
F.
Crosland
Messias
Nogueira Soares
Joaquim
Alves Pinheiro
Francisco
Canuto da Silva
Archimedes
Caire de Roure
Theophilo
Amâncio das Chagas
Florentino
Ferreira de Sousa
Carlos
Alves
Galdino
Antônio
José
Rodrigues
Americo
Lopes
Francisco
Manoel de Abreu
João
Evangelista dos Reis
Antônio
Querino
Soares
Abel
João da Cruz e Sousa
Castorina
Ferreira de Abreu
Maria
do Carmo Moreira
Em 1913, a igreja já estava consolidada e realizava suas reuniões na residência de João Antônio Soares por falta de um templo dedicado. Porém, à medida que o número de seguidores crescia, um templo batista foi construído em 1915. João Antônio Soares generosamente cedeu o terreno para este templo, que fica na Rua da Alegria, hoje Melo Viana.
"Produto de grande
esforço e fé profunda, esse templo representa para os batistas de Itaúna um
atestado de alta significação espiritual e moral, pois é fácil de avaliar-se a
dificuldade que venceram para lançar uma religião combatida por todos os meios
num centro de baixo nível mental que era Itaúna daquele tempo" (FILHO, p.56-57).
Os obstáculos chegaram ao ponto em que o vigário da freguesia se recusou a autorizar o sepultamento de Américo Lopes Dias e João Antônio Soares no cemitério. A inflexibilidade do vigário provocou uma resposta hostil da população local, que considerou a decisão desumana e insuportável, fazendo com que os corpos permanecessem insepultos durante dias.
Consequentemente, as autoridades permitiram que os sepultamentos ocorressem no terreno da igreja batista, sendo o sepultamento de Américo Lopes no jardim e o de João Antônio Soares seu repouso final no interior do templo. A Igreja Batista continuou ocupando um lugar especial no coração dos cidadãos de Itaúna, com um número significativo de seguidores e conquistas impressionantes.
TEMPLO
Na escritura pública do cartório do 2º OFÍCIO do Tabelião José Edwards Santiago, às fls. 53 a 55 do LIVRO DE NOTAS Nº 32 (documento disponível no Cartório de Registro de Imóveis de Itaúna), consta a venda de uma
casa coberta de telhas, sem divisão interna, construída no ano de 1912, situada à Rua Afonso Pena (hoje
Rua Zezé Lima) em Itaúna MG. O primeiro proprietário do imóvel foi João Antônio
Soares, que vendeu à Associação Evangélica Batista do
Rio de Janeiro. Em 08 de Outubro de 1943, representando a Associação, o missionário norte-americano, Rev. Otis Pendleton Maddox, batista e residente em Belo Horizonte,
vendeu o imóvel para o senhor Augusto Alves de Souza, casado, maquinista,
residente em Itaúna, pelo valor de Cr$ 9.500,00 (nove mil e quinhentos
cruzeiros). Diante do exposto, o primeiro endereço do templo da Igreja Batista de Itaúna, foi à Rua da Alegria, hoje rua Melo Viana, e o segundo, à Rua Afonso Pena, hoje Rua Zezé Lima, nº 77 (fotografia do templo acima).
ANÁLISE
A análise do texto sobre as origens da Igreja Batista de Itaúna revela vários aspectos importantes que podem ser destacados, divididos em contexto histórico, aspectos socioculturais, resistência enfrentada e a evolução da comunidade.
O texto começa ao situar a origem da Igreja Batista de Itaúna no início do século XX, especificamente em 1903, quando João Antônio Soares, um membro da igreja batista de Belo Horizonte, se muda para Itaúna. Sua chegada marca o início da congregação local, que começa a se formar em torno dele.
A lista de nomes mencionados como fundadores reflete a diversidade dos primeiros membros, incluindo figuras notáveis como Daniel F. Crosland e Joaquim Alves Pinheiro. Este início ressalta a natureza missionária e o esforço coletivo para estabelecer uma nova igreja em um ambiente onde o protestantismo ainda era visto com desconfiança.
A narrativa enfatiza as dificuldades enfrentadas pela igreja em um contexto de "baixo nível mental", como descrito no texto, referindo-se à resistência cultural e religiosa presente na época. A frase "religião combatida por todos os meios" ilustra a hostilidade enfrentada pelos batistas, o que é evidenciado pelo episódio relacionado aos sepultamentos de Américo Lopes Dias e João Antônio Soares.
A recusa do vigário em permitir o enterro desses indivíduos no cemitério local reflete a forte oposição da Igreja Católica, então predominante, contra novas denominações religiosas.
Este confronto religioso culminou em uma resposta da comunidade local, que, apesar de inicialmente oposta, mostrou solidariedade diante da "decisão desumana e insuportável" do vigário. Essa solidariedade pode ser vista como um indicador da complexidade das relações sociais em Itaúna, onde, apesar das divisões religiosas, havia um senso de humanidade que prevaleceu sobre as doutrinas eclesiásticas.
O texto documenta a evolução da Igreja Batista em Itaúna, desde as primeiras reuniões na casa de João Antônio Soares até a construção de um templo próprio em 1915. A doação do terreno por Soares é um gesto significativo, simbolizando o compromisso e a generosidade dos primeiros membros da igreja. O templo na Rua da Alegria (hoje Melo Viana) não só representa um espaço físico de culto, mas também um marco de resistência e afirmação da identidade batista em Itaúna.
A transição do templo para um novo endereço na Rua Afonso Pena (atual Rua Zezé Lima) em 1943 marca outra fase de desenvolvimento. A venda do imóvel pelo missionário norte-americano Rev. Otis Pendleton Maddox para Augusto Alves de Souza é um detalhe importante, mostrando o envolvimento de figuras internacionais na história da igreja e a continuidade da comunidade batista ao longo das décadas.
O texto sugere que o templo batista em Itaúna possui um profundo significado espiritual e moral para seus seguidores. Esse significado não é apenas religioso, mas também cultural, refletindo a perseverança de uma comunidade que enfrentou oposição e conseguiu se estabelecer e crescer.
O fato de a igreja continuar a ocupar "um lugar especial no coração dos cidadãos de Itaúna" reforça a ideia de que a fé batista foi capaz de se enraizar profundamente na cidade, influenciando não apenas seus membros, mas também a sociedade em geral.
Por fim, o legado deixado pela Igreja Batista de Itaúna é destacado pela continuidade de suas conquistas e pelo número significativo de seguidores. A transformação do espaço físico da igreja, desde sua fundação até os dias atuais, simboliza a resistência e adaptação da comunidade batista às mudanças sociais e culturais, enquanto mantém suas raízes e valores.
O texto examinado é uma rica narrativa que documenta não apenas a história de uma igreja, mas também o desenvolvimento social e cultural de Itaúna no início do século XX. A trajetória da Igreja Batista de Itaúna é marcada por desafios e conquistas que refletem a dinâmica de um grupo religioso determinado a afirmar sua identidade e contribuir para o tecido social da cidade.
Com o passar dos anos, prevaleceu a resiliência, determinação e, sobretudo, a fé dos membros da comunidade batista, permitindo que a laicidade e o equilíbrio neste município de Itaúna se estabelecessem. A análise minuciosa do texto permite compreender melhor o impacto da fé batista na cidade e o legado duradouro de seus primeiros membros.
REFERÊNCIAS:
FILHO, João Dornas. Itaúna Contribuição
Para História do Município 1936 págs. 56 , 57.