quinta-feira, novembro 16, 2017

HIDELBRANDO CANABRAVA RODRIGUES


DECRETO LEGISLATIVO/PROJETO DE LEI Nº 1/73
A mesa da Câmara Municipal de Itaúna, usando de atribuições legais, faz saber que a Câmara Municipal aprovou e promulga o seguinte:
·        Art. 1º Fica concedido o título de CIDADÃO HONORÁRIO DE ITAÚNA, ao Exmº Sr. Dr. Hidelbrando Canabrava Rodrigues pelos relevantes serviços prestados à comunidade itaunense.
·        Ar. 2º Revogadas as disposições em contrário este decreto legislativo entrará em vigor na data de sua publicação.

Sala das sessões em 21 de agosto de 1972
Wanda Nogueira Neto -  Vereadora


JUSTIFICATIVA
Hidelbrando Canabrava Rodrigues é filho de Humberto Rodrigues da Silva e de Dona Iracema Canabrava Rodrigues, nasceu e Curvelo (MG), em 2 de janeiro de 1935, onde permaneceu até a idade de 5 anos.
Mudou-se para Belo Horizonte tendo feito o pré-primário no Jardim de Infância Bueno Brandão e o primário no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Fez o Curso de Admissão ao Ginásio e o primeiro ano ginasial no Colégio Arnaldo. Os três últimos anos ginasiais estudou interno na cidade do Serro, no Ginásio Ministro Edmundo Lins, sendo o curo científico realizado no Colégio Afonso Celso e no Ginásio Anchieta, em Belo Horizonte, curo noturno.
Frequentou o curso vestibular na Escola de Engenharia de Minas Gerais, não tendo continuado os seus estudos por falta de tempo e recursos financeiros. Trabalhou em Belo Horizonte desde a idade de 14 anos nos seguintes lugares: Casa Arthur Hass, pelo período de 6 anos, tendo sido admitido como contínuo e seguidamente como auxiliar de escritório, sub-chefe d e contadoria da casa, sub-gerente do departamento de peças da matriz e gerente do departamento de pneumática, cargo onde saiu da Casa Arthur Hass e assumiu o cargo de inspetor da Pirelli S/A em Minas.
       No período de trabalho em Belo Horizonte, fez dois cursos de vendas e relações públicas, sendo um no Rio de Janeiro (GB), na Glabin S/A e o outro em São Paulo, na Pirelli. No ano de 1956 mudou-se para Itaúna como comerciante no ramo de bebidas. Posteriormente foi trabalhar no Cartório de 2º ofício desta Comarca, como escrevente juramentado. Após três ou quatro anos de trabalho no Cartório, fez concurso para o Banco do Brasil, tendo sido aprovado e admitido na Agência desta cidade. No Banco trabalhou por aproximadamente três anos tendo saído para ocupar o carto de titular do Cartório de Registro de Imóveis desta Comarca.
Radicado na cidade há mais de 17 anos, casou-se com Dona Vera Santiago Rodrigues, filha do Sr. José Edwars Santiago e Aurora Moreira Santiago, tendo quatro filhos: Vera Maria, Gláucia Maria, Tereza Cristina e José Humberto Santiago Rodrigues -  todos itaunenses.
Tem dado seu apoio a quase todas as modalidades esportivas e filantrópicas da cidade. Foi Presidente do Conselho Deliberativo do esporte Clube de Itaúna e Presidente do Imperial Futebol ClubeSócio Fundador do Lions Club de Itaúna, tendo sido por suas vezes secretário e posteriormente Presidente. Foi Presidente do Orfanato São Vicente de Paulo e Secretário do Lactário (Fundação de Proteção à Maternidade e Infância de Itaúna).
Foi Presidente do Serviço de Obras Sociais de Itaúna. Fez o abaixo assinado pedindo ao Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Sousa a instalação de uma Escola de Economia nesta cidade e que germinou a Universidade de Itaúna. Se formou Bacharel pela Faculdade de Direito da Universidade de Itaúna, onde foi um dos primeiros alunos matriculados e que atuou também para sua instalação.
Professor registrado de matemática para o segundo ciclo, tendo lecionado no Ginásio Sant'Ana durante muito tempo. Lecionou também por um ano no primeiro ano Científico da Escola Normal – Colégio Estadual de Itaúna.
Pelos seus méritos de jovem dinâmico, trabalhador e sua disposição para trabalho, foi escolhido pela Convenção da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), para candidato a Prefeito Municipal de Itaúna.
Testada a opinião pública, em 15 de novembro de 1972, Dr. Hidelbrando Canabrava Rodrigues, teve confirmada a simpatia que lhe depositava a população, com a expressiva votação que lhe conferiu a vitória sobre o seu adversário, também da ARENA e de grandes raízes políticas no município. Dos 12.741 votos aproveitados nas urnas de 15 de novembro passado 9.101 votos foram conferidos ao Dr. Hidelbrando Canabrava Rodrigues e proposto para Cidadão itaunense, o que atesta o reconhecimento do povo aos relevantes serviços prestados.
Por estes títulos e serviços prestados à nossa comunidade, merece ser agraciado com o diploma de CIDADÃO HONORÁRIO DE ITAÚNA.
Sala das Sessões, 21 de agosto de 1972
Wanda Nogueira Neto – Vereadora
Comissão de Justiça
Sala das Sessões 22 de agosto de 1972
O Projeto tem seu aspecto legal e merece a nossa aprovação.

Obs.: No ano de 1973 no dia 13 de dezembro, o vereador Nelson Ferreira da Silva entrou com o mesmo pedido, o qual, a Comissão de Justiça na Sala de Sessões registrou: “ O assunto é da competência da Câmara. De acordo legal manifesto. Existe projeto idêntico em tramitação na Casa, pelo que solicitamos do Presidente a aplicação do artigo 49, Parágrafo Único da Resolução Regimental nº1. ” 



REFERÊNCIAS:

Organização: Charles Aquino.
Pesquisa: Charles Aquino
Acervo Documental e logo: Câmara Municipal de Itaúna.
Acervo Fotográfico: Prof. Marco Elísio Coutinho.

quinta-feira, novembro 02, 2017

APELIDOS ITAUNENSE

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

No meu tempo em Itaúna na década de 50 não existia "bulling". Quem não se adaptasse com as gozações, ficava riscado do convívio na turma. Era pegar ou largar. Sem apelação.
Eu mesmo fui recordista de apelidos. Muito branco, quase leite, com uma pinta no queixo. Fui chamado de Zé Branco, Pinta Roxa e Zé Pampa. Dos sete aos onze anos carreguei os apelidos citados. 
Quando entrei no ginásio, me deram o apelido de Camelo. Hoje, com mais de setenta, ainda tem gente que me trata de Camelo. Nunca soube a razão de tal " apodo". Sempre soube o autor da façanha. Foi o Zé Dias, filho do Tenente Virgílio, ele mesmo apelidado de "Veio da Cuspida". Enquanto viveu na cidade, carregou tal apelido. Eu nunca liguei e se ligasse era pior.
Tempos depois, já estudante em Belo Horizonte, fui premiado com a alcunha de "Pinduca". O motivo é óbvio. Minha cabeça é igual a um antigo personagem de histórias em quadrinho.
Itaúna era pródiga em apelidos. O Gasolina, trabalhava no posto do Bossuet Guimarães. Boa figura. Tinha o Pataca, meio bobalhão, que sofria nas nossas mãos nas filas de marcação de mesas nos bailes do Automóvel Clube.
O delegado substituto era o Tião Secreta. Tinha ainda o Tião da Farmácia de apelido um tanto proibido para um blog de respeito. Todos os tipos populares, imortalizados nas fotos do Oswaldo, em memorável coleção tinham apelido.
A Cutinha, se dizia milionária e culpava os ricos da cidade de roubarem a sua grana. O Só Bicho, andava pelas ruas zuando tal qual um besouro. Apelido lógico. Entre os tipos, a Doneta, baixinha e raquítica, sorria pra todo mundo com seus dentes amarelos. O Doutor da Mula Ruça, de óculos, paletó surrado e gravata encardida, dava aulas de cultura inútil, para qualquer um que o interpelasse. Uma enciclopédia às avessas.
Outros não gostavam do apelido. O Zé Boneco, vendedor de pirulitos de mel, espetados numa tábua, tinha horror da alcunha. Alegria da molecada que gritava o apelido para vê-lo gritar impropérios. 
Terminando, lembro-me de um senhor gordo que trabalhava no Banco do Brasil. Apelidado de Mixirica, detestava ser chamado assim. Alegria da rapaziada, que fazia questão de desconhecer seu nome de batismo. Acho que era Genésio.
Em tempo: Urtigão era apelido de meu irmão. Com a idade, fiquei muito ranzinza. Adotei o pseudônimo.

Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 30/10/2017. Acervo: Shorpy

Organização: Charles Aquino

LEGADO ITAUNENSE

O LEGADO ITAUNENSE PARA AML

A Academia Mineira de Letras (AML) é um baluarte da cultura e do conhecimento em Minas Gerais, com uma história rica e uma missão dedicada à promoção das artes e literaturas do estado. Entre seus membros, destacam-se quatro notáveis escritores de Itaúna, cujas contribuições são cruciais para o legado literário e cultural mineiro: Mário Gonçalves de Mattos, João Dornas Filho, Oscar Dias Corrêa e Miguel Augusto Gonçalves de Sousa.

   Mário Gonçalves de Mattos é uma figura preeminente entre os intelectuais itaunenses, conhecido por sua produção em poesia e crítica literária. Seu trabalho, iniciado ainda nos tempos de estudante, permeia o jornalismo e as artes, consolidando-se na AML pela profundidade e rigor de suas análises. Mattos é celebrado por sua capacidade de dissecar e interpretar a literatura mineira e brasileira, tornando-se um farol para estudiosos e leitores.

   João Dornas Filho, historiador e escritor, é outro pilar da AML. Suas pesquisas detalhadas sobre a história de Minas Gerais e do Brasil são consideradas obras de referência, oferecendo uma compreensão profunda das raízes culturais do estado. Além de suas contribuições acadêmicas, Dornas Filho é reconhecido por seu compromisso com a inclusão das mulheres nas atividades da AML, refletindo uma visão progressista e inclusiva.

  Oscar Dias Corrêa trouxe à AML uma perspectiva multifacetada, combinando seu vasto conhecimento jurídico com uma sensibilidade literária única. Como professor, jurista, parlamentar e escritor, Corrêa contribuiu com análises críticas que interligam direito e literatura, enriquecendo o debate cultural e jurídico na academia. Sua abordagem interdisciplinar permanece uma fonte de inspiração para a AML e seus membros.

 Miguel Augusto Gonçalves de Sousa destaca-se pela sua linguagem lírica e introspectiva, que enriquece a literatura mineira. Na AML, Sousa é valorizado tanto por seu trabalho na promoção da cultura literária quanto por seus esforços em divulgar a história de Itaúna. Sua atuação reforça a missão da AML de ser um centro irradiador de cultura e conhecimento.

   Esses escritores itaunenses, ao integrarem a AML, não apenas enriqueceram o panorama literário e cultural de Minas Gerais, mas também fortaleceram o ambiente de diálogo e aprendizado contínuo. A academia honra seu legado promovendo eventos, publicações e iniciativas que incentivam a leitura, a escrita e a apreciação das artes, consolidando seu papel como um pilar fundamental da educação e cidadania em Minas Gerais e no Brasil.

   Os discursos de posse desses ilustres itaunenses revelam a profundidade de seu compromisso com a AML e a literatura. Mário Gonçalves de Mattos exaltou a academia como um centro de preservação da vida cultural e da tradição mineira, enquanto João Dornas Filho expressou seu desejo de ser um membro diligente e dedicado. Oscar Dias Corrêa destacou sua transparência e honestidade, e Miguel Augusto Gonçalves de Sousa enalteceu a honra de seguir os passos de seus predecessores, reconhecendo a importância de suas contribuições para a AML e para sua terra natal.

  A participação desses escritores na Academia Mineira de Letras reflete um compromisso profundo com a cultura, a educação e a cidadania, consolidando a AML como um bastião da cultura mineira e brasileira.

SAIBA MAIS:

Organização e elaboração: Charles Aquino
Logo: AML -  Academia Mineira de Letras - Brasão de Itaúna - Prefeitura Municipal de Itaúna

        

Academia Mineira de Letras by Itaúna Décadas

VACA ESTOURADA

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

Nos anos cinquenta do século passado, o matadouro municipal não existia. Havia sim, algo muito precário, bem na entrada da cidade, onde hoje existe uma ponte que cruza o rio São João, um pouco antes da passagem de nível e do começo da rua Silva Jardim.

Ali se matavam as reses destinadas aos açougues. As tripas e outras partes dos bovinos que não eram comerciais, eram jogadas na correnteza e o rio se encarregava de levar. Uma festa para os urubus e para nós, pré-adolescentes.

Era lá que buscávamos a bexigas. Ótimas bolas para o futebol.  Matava-se indiscriminadamente, tanto bois quanto vacas. Se as fêmeas fossem ruins de leite, o que acontecia com frequência, em virtude de gado " pé duro", faca nelas. Sem perdão.

Além das bexigas citadas, a localização do matadouro (sic) era uma benção. Tirante o gado proveniente daquelas area, a maioria vinha de outras bandas. Tocadas pelos vaqueiros, as reses tinham de atravessar a cidade. Diversão certa para a molecada. Diversão maior, quando uma vaca " estourava". Fora do controle dos vaqueiros, disparava pelas ruas, apavoradas com um ou outro carro ou caminhão e até mesmo com a presença de pedestres.

E toca a peãozada a correr atrás dos bichos, a cavalo ou a pé, com a cachorrada ajudando a campear as reses fugitivas. E junto, a molecada.

O aviso de " vaca estourada" corria cidade afora, tal qual rastilho de pólvora. Meninada saindo das casas e correndo para não perder o espetáculo. Com o alarido, os pobres bichos se assustavam mais. Raiva para os vaqueiros e alegria da molecada. Cachorrada a latir, mulheres a correr e o tropel dos cavalos no encalço das fugitivas. Quando alcançadas, às vezes extenuadas, empacavam e nada as fazia mover.

Os cachorros, treinados para tal, latiam em redor, mordiam as orelhas e o rabo do boi ou da vaca, até que se levantassem. Estocadas de ferrão era dada pelos peões e os bichos por fim pegavam a rota. Para os vaqueiros, apenas um aborrecimento a mais na lida diária. Para a cachorrada, parte do serviço de campear gado. 

Para a meninada, diversão grátis, sem gastar dinheiro. Não tínhamos pena dos pobres animais. Tudo aquilo fazia parte do nosso mundo e fomos acostumados assim. Não sabíamos avaliar o mau trato aos animais e os adultos nem ligavam. Muita coisa mudou daqueles tempos pra cá. Neste caso, para melhor. 

Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 26/10/2017.

Acervo: Shorpy 

Organização e arte: Charles Aquino

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG



terça-feira, outubro 24, 2017

NÃO VOU SAIR DAQUI NUNCA MAIS

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
Domingo pela manhã. Reunião na praça da Turma do Zulu. Motivo: iam jogar futebol no "Pasto das Éguas. Contra o time do Zico Pé de Chumbo, figura emblemática do lugarejo. Compadre do Athos Jove e dono da equipe.

Ser compadre do Athos era uma glória. Dava status, com direito a aprender algumas palavras em francês. Athos era cultor da língua de Racine e sempre que podia, se comunicava no idioma. Pra caboclada era a glória.

Zico Pé de Chumbo não " batia na pelota". Se intitulava "Capitão de Fora", misto de técnico e capitão reserva. O jogo tinha sido arranjado por intermédio do Jofre, nascido no lugar, sabedor de histórias e mestre em imitar o Zico e o "Dionísio Pretorias".
A turma do Zulu se aboletou na carroceria da "Jorgina", o velho caminhão Studbacker do Zé Eustáquio Paquinha. Na boléia, somente o Sérgio Lacel e um convidado ilustre. 

Cristhiano Barsante, colega de mestrado em oftalmologia do Marcos Lacel, namorado da filha do professor Ilton Rocha. Fora passar o fim de semana em Itaúna e o Sérgio o arrastou para a farra. Ele gostava de um gole.

Na carroceria iam os Zulus mais proeminentes e alguns agregados de estirpe. Entre eles Cassiano Dornas, o "Caxia", excelente figura, mecânico e bebedor como poucos. O povoado estava em festa. 

A caboclada reunida para torcer pelo time do Zico. As moças, de rouge nas bochechas, recendendo a perfume Royal Briar e a rapaziada com a cabeça emplastada de brilhantina Glostora. Um sucesso.

Um lugarzinho típico. O campo de futebol de terra batida, algumas casinhas na vizinhança uma capela e a indefectível vendinha, caiada de pouco, branca com as janelas azuis. 

Antes do jogo começar, Cassiano, de goela seca faz o convite:  "vamos na venda tomar um gole, pois assim que começar a peleja, só no intervalo". O sol de setembro arrebentava mamonas.

Foi seguido por Sérgio Lacel e Cristhiano. Na venda, bem ajeitadinha, rateleiras pequenas de madeira, com garrafas de cerveja e de cachaça. Nada de geladeira. Lacel pediu: " dá pra nós uma cerveja e três pingas."

O vendeiro de pronto respondeu: " cerveja não tem não senhor, só pinga".  Lacel retorquiu: " como não tem cerveja? E aquelas garrafas nas prateleiras?" O vendeiro: " estão cheias d'agua. É só pra enfeitar"

Em face a resposta Lacel assentiu e disse: " bota então três pingas no capricho". O vendeiro perguntou: de cinco, " de dez ou de quinze cruzeiros"?

Cassiano tomou a frente: "bota logo de quinze. Assim reforçamos o bucho". O dono da venda enfileirou três copos "lagoinha" no balcão e encheu todos até a boca.

Continuou com a garrafa na espera. Foi aí que Cassiano indagou:  " O senhor está esperando o que para guardar a garrafa"?

O comerciante solícito respondeu em seguida: " estou esperando vocês beber (sic). Pinga de quinze não cabe numa copada só. Falta ainda botar mais um bocado".  Diante de tanta fartura, Cassiano disse a Lacel e ao Cristhiano: "vocês podem ir para o jogo...  Isso é um céu!!!!!        Não vou sair daqui nunca mais!!!!      


Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 21/10/2017. Acervo: Shorpy
Organização: Charles Aquino

OS DIAS ERAM ASSIM...

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
Nos anos cinquenta do século passado, em Itaúna, a molecada de minha idade era desprovida de posses. Bola de futebol, nem pensar. Era cara e difícil.

Chamada de bola de " capota”. Câmara de ar de encher com a boca, esconder o bico dentro da pelota e fecha-la com uma cordinha de couro. As de válvula, apareceram depois.

Bola grande era de bexiga de boi, que arranjávamos no matadouro, na beira do São João. Bolas para "bente altas" eram de pano, bem costuradas com linha quarenta, dobrada e encerada. Não existia um calendário de brincadeiras.

Tempos de pouca chuva eram tempos de jogar pião. Com fieira tecida na Itaunense. Barbante comum não servia.

Tempo também de bolas de gude, compradas na Loja do Teco. Lá eram vendidas também armas e munições. Nossos olhos brilhavam.

Lá comprávamos também os anzóis. Chumbadas e engate, feitos por nós mesmos. Dentifrícios (creme dental) e pomadas eram embaladas em tubos de chumbo.

Derretidos na colher de ferro no braseiro do fogão de lenha, davam ótimas chumbadas. Linha de nylon não existia. Era linha de algodão, fina e forte. O engate tinha de ser mais comprido, para deixa-la longe da boca do peixe.

Fim de julho e todo agosto era tempo de papagaios. Taquaras tiradas no mato para fazer as varetas e papel de seda comprado na Papelaria do Carmelo. 

Tudo colado com grude feito com polvilho azedo, com gotas de limão para acola caseira durar mais. Armazenada num vidro de boca larga, servia por bom tempo.

Assim que começavam as chuvas, tempo de "finquete". Um pedaço de vergalhão e mãos a obra. Esquentar no braseiro do fogão até ficar vermelho. Malhar no " olho da enxada" até ir afinando.

Depois da ponta feita, esfregar em  uma pedra para afinar  mais. Depois, bastava arranjar o parceiro, riscar as casas no chão úmido e toca a jogar.

Pegando na ponta, fazendo pirueta. Se errasse, era a vez do adversário. Quem chegasse na casa do outro primeiro ganhava a partida. Eu tinha ótimos finquetes, feitos por mim na forja e na bigorna do velho e bom " João Coisa Boa".

Era vizinho da casa de meus pais. Depois de bem preparado, amolado no " rebojo", um esmeril tocado a pedal. Coisa boa, tal qual o dono.

Os papagaios também careciam de linha quarenta, marca corrente. Empinados com manivelas de madeira, de nossa produção. Não existia o tal "cerol" que transformou uma brincadeira sadia e comum no mundo todo, em arma mortífera. Os tempos eram outros.

Pescávamos com caniços de bambu, tirados no mato e curados com sebo de virilha de boi, moqueado no fogo brando, para dar elasticidade e rigidez ao bambu.

Uma beleza para lambaris. Trairas pediam varas de ponta grossa. Peixe sem sutileza, tirado d'água com um arranco. Lambari era tinhoso e sabia correr com a isca.

Íamos a escola, sem mochila e sem pastas. Nos bastava uma capanga feita de pano de saco de açúcar. Pendurado como um embornal. 

Lá dentro, um ou dois cadernos simples e baratos, o livro de leitura, lápis e borracha "capacete", enfiada na cabeça do lápis. Canetas, nem pensar. Eram muito caras.

Brincávamos de pique quadrilha e corríamos quarteirões a noite. Em festas da igreja, ajudávamos a bater os sinos e corríamos atrás das varas dos foguetes preparados e soltos pelo Parente. Fogueteiro e coveiro. Uma excelente alma.

Trabalhávamos em casa. Guardar a lenha, rachar se preciso, buscar leite na cooperativa velha, carne no açougue e gêneros no armazém. 

Fazer o " para casa" e estudar a lição. Vida ocupada, ainda com tempo de engraxar sapatos, fazer estilingues e catar sucata na descarga dos altos-fornos. Ajuntar um dinheirinho para a matinê de domingo.

Os dias eram assim!!!!


Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 16/10/2017.Acervo: Shorpy
Organização: Charles Aquino

ITAÚNA: NO TEMPO DAS BARATINHAS



Antigamente havia Patinete e Baratinha! São aqueles extintos carrinhos com rodas de rolamentos (rolimã), montados em uma estrutura de madeira que os meninos andavam por aí. A gente sobe em cima e sai descendo os morros.... Nas patinetes se anda de pé, segurando o guidão (tipo Walk Machine), um dos pés vai batendo no chão, para dar impulsão quando se anda em retas.
Mas eu gostava mesmo era das baratinhas, onde a gente assentava para dirigi-las. O eixo de direção ficava nos pés, o freio era um pedaço de pau, pregado do lado do corpo da baratinha (tipo alavanca), seu atrito com o chão parava o ‘veiculo’.
Teve uma época em minha infância que deu ‘crise de baratinha’! Eu lancei a mania, após meu pai cunhar uma linda baratinha a meu pedido. Ele pegou o formão, serrote e demais ferramentas e foi construindo-a no design que eu pedi: afinando, do assento para os pés. Ficou linda e diferente das tradicionais ‘quadradas’.
Eu e o Dóse meu irmão ficávamos revezando a baratinha, azucrinando os vizinhos com aquele barulho dos rolamentos em seus passeios. Minha mãe custava a deixar a gente andar, pois sabia que a gente acabava incomodando, mesmo sem haver reclamações.
Nesta época a prefeitura asfaltou as ruas do centro, com o novo asfalto nós deixamos os passeios e passamos a andar no meio das ruas, era uma maravilha! Eu me lembro que o Delmar Parreiras (que morava nas proximidades) apareceu com uma linda baratinha pintada de azul. Foram aparecendo outras baratinhas e foi virando uma festa!
Após o asfaltamento, organizamos várias corridas de baratinhas. A pista, era a rua Manoel Gonçalves, se iniciando atrás da igreja da matriz e acabando na linha férrea da avenida Dª Cota. Nos cruzamentos da Godofredo e Zezé Lima, ficava um de nós na esquina olhando para ver se vinha carro.
Nas competições eram comuns os capotamentos, raladas e trombadas naquele asfalto da rua Manoel Gonçalves. Algumas vezes, descíamos disparados, sem ninguém olhando na esquina. A adrenalina causada pelo risco de atropelamento era liberada e aquilo ficava emocionante! Para nós, passar num cruzamento ‘voando’ numa baratinha, era como brincar de roleta russa! Mas Deus protegeu!


Texto: Pepe Chaves — Desenhista, pesquisador, ufólogo, músico, documentarista e jornalista.
Digitação: Ana G. Gontijo e Ícaro N. Chaves
Organização: Charles Aquino




sexta-feira, outubro 13, 2017

BRIGAS DE GALO

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

Itaúna tinha " galistas" afamados. Nada a ver com o time de futebol. Naqueles tempos, o Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense tinham mais torcedores no interior. Reflexo da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, de muita potência, "cast" de artistas renomados e narradores de futebol que marcaram época.
 Isso é outra história. Torcida do Galo não existia. Só em Belo Horizonte e cidades próximas, nas quais tinham times que disputavam o campeonato mineiro.
Galista era o criador de galos de briga, preparados para rinha, tal e qual se prepara um lutador de boxe. 
As aves ficavam em cativeiro, em gaiolas de madeira, colocado lado a lado no criadouro. Serviam-se das galinhas com parcimônia, somente para reproduzir. Nada de galinheiro e tampouco quintal para ciscar. Vida de galo de briga era confinamento e treino duro.
Diariamente, o treinador, muitas vezes os próprios donos, tiravam os bichos da gaiola para a ginástica e tratamento. Eram depenados nas pernas, inclusive coxas, até o tronco. Depenados também no pescoço e região do papo e no peito e bucho. Restavam penas nas somente as asas e a parte superior do corpo. Passavam óleo nos animais, faziam massagens nas coxas e eram esfregados com diversas misturas líquidas, visando enrijecer as partes depenadas e o couro.
Diariamente havia uma sessão de ginástica. O galo era jogado para cima, a certa altura. Era para dar força nos músculos das pernas e das asas. Asas e coxas fortes eram requisitos básicos para um matador. As brigas em rinha eram longas e só terminavam com a morte de um dos contendores ou o seu "afinamento". Afinar era o ato de " correr do pau" - fugir da briga, tal qual uma galinha.
As brigas eram feitas na rinha, num círculo acolchoado e estofado, de nome tambor. Brigas com árbitro, tempo marcado para os " rounds" com relógio "timer", à guisa de gongo das lutas de boxe. 
Os proprietários ou os tratadores, nos intervalos de descanso dos bichos, entravam no tambor e recolhiam os galos para estancar sangrias, passar iodo e vaselina, água para refresco. Aliás, refresco era o nome dado aos intervalos.
Apostava-se muito. De saída, tinha a aposta entre os donos. O público, acomodado em arquibancadas de madeira, tipo circo também apostava. 
No desenrolar da refrega, as apostas iam acontecendo. Uma cantilena mais ou menos assim: "aposto um conto de reis no barrado" .Se alguém topasse, gritava: " topo e boto mais um conto!"
A troca de apostas continuava até o fim. Não tinha dinheiro "casado". Tudo feito de boca. Terminada a briga, os pagamentos eram efetuados. Nunca ouvi dizer que alguém desse " o cano". Os galistas e aficcionados eram honestos.

Brigas de galo (parte 02)

Meu irmão Antônio de Pádua era apaixonado por galos de briga. Desde adolescente acostumou-se a frequentar a casa do Zé do Gode, um Gonçalves Machado que morava pelas bandas da Lagoinha e tinha dois filhos:  Nilce que não era do ramo e Suer era fanático. Não trabalhava e dedicava a vida a cuidar dos bichos e prepara-los para a rinha. Meu irmão ajudava e dele às vezes ganhava um frango para ser tratado para a rinha.
Outro criador afamado era o Adelino Pereira Quadros. Dono de uma quitanda, apelidada de Mercadinho Quadros, era vizinho do Bazar Itaúna, perto da agência dos Correios. Criava galos e também frequentava rinhas. 
Morava pelos lados da Estação da Estrada de Ferro. Muitas filhas, todas bonitas. Uma delas foi minha colega no ginásio. O Bismarck barbeiro, também era galista. De menor porte do que os citados acima. Gostava de galos e serenatas.
Montaram certa vez uma rinha na Praça Augusto Gonçalves, numa casa velha, ao lado da Tipografia do Carmelo. Fui lá umas duas vezes. Numa delas, brigou um galo de meu irmão. Morreu no primeiro "round", vitimado por uma esporada mortal. 
O galo vencedor estava calçado com "arma três" e deu-lhe um golpe fatal. A decepção não serviu para fazer meu irmão perder o gosto pelas rinhas. Depois de formado em Agronomia, foi para o Mato Grosso, ganhou dinheiro e se ligou aos galistas de lá. 
Certa feita, veio em Itaúna de férias, comprou galos do Inhuca e levou o Suer, filho do Zé do Gode para tratar de seus galos. Não sei quanto tempo durou a aventura.  Era galista e passarinheiro. Acho que é até hoje, malgrado estar velho e cada vez mais mal-humorado. Gostava também de apostas. Em galos, canários chapinha e corrida de cavalo. Perdeu muita grana.

NOTAS
A casa velha, a qual me referi, situava-se onde hoje tem o prédio da Prefeitura. No tocante a " arma três" significa que o galo estava portando esporas artificiais, colocadas no animal, cobrindo a verdadeira, bem amarrada na canela do bicho. Podiam ser esporas de galos já mortos e tratadas para a função, de chifre de boi, de osso e até de aço. Armas mortais. O número três refere-se ao seu tamanho.

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
ILEGALIDADE DAS BRIGAS DE GALO

DÉCADA 30
Briga de galo no Brasil, assunto bastante complexo e polêmico no âmbito Jurídico. No Brasil, as brigas de galo estão proibidas desde 1934, com a edição do Decreto Federal 24.645 que proíbe "realizar ou promover lutas entre animais da mesma espécie ou de espécies diferentes, touradas e simulacro de touradas, ainda mesmo em lugar privado."

DÉCADA 60
Na década de 60 o presidente Jânio Quadros anunciava no Decreto nº 50.620 de 18 de maio de 1961:
Proíbe o funcionamento das rinhas de “brigas de galos” e dá outras providências. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando das atribuições que lhe confere o art. 87, nº I, da Constituição, CONSIDERANDO que todos os animais existentes no País são tutelados do Estado; CONSIDERANDO que a lei proíbe e pune os maus tratos infringidos a quaisquer animais, em lugar público ou privado; CONSIDERANDO que as lutas entre animais, estimuladas pelo homem, constituem maus tratos; CONSIDERANDO que os centros onde se realizam as competições denominadas “brigas de galos” converteram-se em locais públicos de apostas e jogos proibidos.
Art. 1º - Fica proibido em todo o território nacional, realizar ou promover “brigas de galo” ou quaisquer outras lutas entre animais da mesma espécie ou de espécies diferentes.
Art. 2º - Fica proibido, realizar ou promover espetáculos cuja atração constitua a luta de animais de qualquer espécie.
Art. 3º - As autoridades promoverão o imediato fechamento das “rinhas de galos” e de outros quaisquer locais onde se realizam espetáculos desta natureza, e cumprirão as disposições referentes à punição dos infratores, e demais medidas legais aplicáveis.
Art. 4º - O presente Decreto entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
Brasília, D.F., 18 de maio de 1961; 140º da Independência e 73º da República.
JÂNIO QUADROS

DÉCADA 90

Na década de 90 é sancionado na Lei de nº 9.605 de 12 de fevereiro de 1998, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências.
CAPÍTULO V:
DOS CRIMES CONTRA O MEIO AMBIENTE:
Dos Crimes contra a Fauna
Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal.
Obs.: O galo é considerado um animal doméstico.

DÉCADA 2000

No ano de 2004 o deputado do PFL da Bahia, Fernando de Fabinho propôs o Projeto de Lei para legalização de rinhas no Brasil:
Quem “cria galos ou canários para competição, na realidade, não causa ao animal nenhum maltrato. Pelo contrário, cria-o com todos os cuidados que um atleta merece”.
O assunto voltou à discussão depois da prisão do publicitário Duda Mendonça em um clube que organiza rinhas no Rio de Janeiro. Na ocasião, ele afirmou que não estava fazendo nada de errado.
O deputado propõe a modificação da Lei nº 9.605/98, que trata do assunto. De acordo com ele, “a lei deve andar em consonância com os hábitos do povo e não contra eles, pretendendo modificar uma realidade existente e enraizada na sociedade”. Para Fernando de Fabinho, “leis assim acabam por não serem cumpridas, sendo mais uma das leis que ‘não pegam’.

JUSTIFICAÇÃO
A proposição que ora apresento tem como objetivo descriminalizar uma conduta que faz parte da manifestação cultural de várias regiões. A lei 9.205/98, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, veda a prática de realização de competições entre animais. Ocorre que é tradicional, em várias partes do país, a realização de alguns tipos de competição entre animais, dentre eles a "briga de galos" e a "a briga de canários".
A lei deve andar em consonância com os hábitos do povo e não contra eles, pretendendo modificar uma realidade existente e enraizada na sociedade. Leis assim acabam por não serem cumpridas, sendo mais uma das leis que "não pegam".
Além do mais, aquele que cria galos ou canários para competição, na realidade, não causa ao animal nenhum maltrato. Pelo contrário, cria-o com todos os cuidados que um atleta merece.
Face ao exposto, conto com o apoio dos ilustres pares para a conversão deste projeto em lei. Sala das Sessões, em 27 de outubro de 2004.
Deputado FERNANDO DE FABINHO



REFERÊNCIAS:
PROJETO DE LEI Nº 4.340, DE 2004. Disponível em:  https://www.conjur.com.br/2004-out-29/projeto_preve_legalizacao_briga_galos_brasil
DECRETO N. 24.645 – DE 10 DE JULHO DE 1934. Disponível em:  http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=39567

Organização e Pesquisa: Charles Aquino
Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 13/10/2017.
Acervo: Shorpy

quinta-feira, outubro 12, 2017

MEMÓRIAS CINE REX PARTE V

HISTÓRIA, CINEMA E CRÔNICAS ITAUNA MG
MATINÊ NO CINE REX
Domingo às 10 horas. Dia de matinê no cine Rex. A missa das crianças e jovens era às 8:00. Depois do dever religioso devidamente cumprido, direto para o vetusto cinema à espera da matinê. Ingresso comprado e quando podíamos, os bolsos recheados de bala Chita, que aliás existe até hoje.
A molecada lotava o "poleiro". Um prosaico balcão de madeira, alcançável por um lance de uma escada rangedeira. Cadeiras de madeira e assoalho, idem . O melhor lugar da sala de espetáculos.
Dia de assistir Rocky Lane, Hoppalong Cassidy, Roy Rogers e Dale Evans, Búfalo Bill e outros menos cotados. Com direito a seriado do dr. Magoo e do Tarzan o homem macaco. Pendurado nos cipós, a berrar selva afora com a macaca Chita (que deu nome à bala) em busca de aventuras.
Sessão de cinema com direito a jornais. Sem cinejornal não tinha graça. Graça que por sinal estava na hora em que terminava. Hora de um gaiato gritar: " acabou o jornal!!!!!" E outro gaiato responder de pronto: " limpa com o dedo."
Tínhamos direito a trailers. De preferência, filmes da Condor. Pelos simples fatos de espantarmos a ave que mais se parecia um urubu, pousada em seu sossego. A sala inteira vinha abaixo: " shiii, shiii, shiiii, shiiii, até o bicho bater as asas e alçar voo. Era a glória.
Nos filmes, os melhores momentos eram aqueles de perseguição do bandido pelo mocinho. Batíamos os pés no assoalho e o velho "puleiro" quase vinha abaixo. Finda a perseguição, hora da luta. O mocinho tira as luvas (pretas de preferência) e esmurra o bandido. Luta limpa, sem pontapés e golpes baixos. Finda a refrega, bandido devidamente amarrado e jogado na cela, toca pra cidade entregar a encomenda para o Xerife. Serviço rápido e sem sangue. Com muita onomatopeia, simulação sonora de socos. Estrelas ao redor da cabeça de quem levava os sopapos. Uma beleza.
Domingo era um dia muito especial. Roupa de " ver Deus", matinê cine Rex e depois, picolé de groselha do Bar Azul.
Em casa já nos esperava o ajantarado. Frango assado ou lombo de porco, macarronada e arroz de forno. Nada de verduras e saladas. Dia de comida especial, com direito ainda a guaraná champagne Antártica e soda limonada Gato Preto. Bons tempos, nos quais nos contentávamos com pouco.


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 16/09/2017.
Organização Charles Aquino

SANTIAGO E OS CANÁRIOS

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAUNA MG

Itaúna era terra de Passarinheiros. Pássaros de rinha, tais como curiós, bicudos trinca-ferros, azulões e canários chapinha. Afrânio Santiago era entusiasta dos canários chapinha. Os canarinhos de Itaúna e redondezas eram muito bons de briga. Espécimes que viviam "escoteiros", donos de seus espaços e prontos a defendê-lo de qualquer invasor. Nas roças da cidade não apareciam canários de bando. Esses não se prestam para " arrelia". O bom canário vive só com sua fêmea. São fiéis no acasalamento e defendem com unha e bico o território onde vivem.
Presa fácil para os aficionados por brigas de rinha. Bastava levar um bom canário para o mato e deixa-lo na gaiola com alçapões armados. Assim que cantava, aparecia logo o dono do lugar. Engalfinhava com o forasteiro e logo caiam na armadilha. Da refrega, um dos dois saía lesado. Canário " afinado" na "chama" era difícil de ser recuperado. Precisava de boa fêmea e muito tempo para ser " esquentado". Alguns não se recuperavam nunca mais. Deixavam até de cantar.
Afrânio era solteirão e adorava “os chapinha”. Para quem não o conhecia, podia até ser tomado como maluco. Passava pelos conhecidos e resmungava: " botou!!!" Era sinal para os iniciados saberem que o casal de canários do viveiro tinha uma fêmea que botara ovos.
Dias depois, vinha novamente o Afrânio e dizia: " um ovo gorou, mas tirou dois filhotes. A fêmea está tratando direito. Vão vingar!!!.
Mais uma semana e lá vinha ele: " estão emplumando e não demoram a sair do ninho. Estou tratando com larvas de cupim. Estão sadios!!!!
Com um mês e novamente Afrânio Santiago: estão gurrichando. Tive sorte. Dois machos!!!
E assim ia levando a vida. Com sua linguagem peculiar de passarinheiro. Uma boa alma. Negociei muitos canários com ele. Inclusive um, corrido de briga que tinha bascuiado. Era bom cantador e cantava carretilha. Uma beleza.

Notas 

     Para quem não é daqueles tempos, um pequeno glossário: gurrichar: começar a ensaiar o canto. Típico de filhotes e fêmeas; bascuiar: diz-se do pássaro que não aguentou o canto do outro e perdeu o pique no duelo. O mesmo do que canário afinado.
A foto é meramente ilustrativa e os pássaros retratados são canários belga, roller, frisados parisienses e alguns psitacídeos, aves da família dos papagaios, araras e maritacas. Os da foto, inclusive o que está sendo acarinhado são exóticos, a maioria vindos da Austrália. Os canários retratados são de origem Europeia e aclimatados no Brasil há séculos. O chapinha, conhecido também como canário da terra ou canário cabeça de fogo são aves nativas no Brasil. Estiveram perto da extinção. Com a proibição das rinhas de briga e a vigilância do IBAMA, estão em franca recuperação. Para cria-los em cativeiro, faz-necessário a licença dos órgãos ambientais.


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 26/09/2017.
Acervo: Shorpy
Organização: Charles Aquino