Caía
uma chuva fininha quando eu deixei a Matriz de Sant’Ana. De guarda-chuvas aberto,
passos reflexivos, demoradamente fitei o meu entorno, com o cenário banhado pela
iluminação da praça sob a garoa noturna, desvelando uma cena que inspirava
poesia e me remetia a introspeções. Atrás
de mim, o relógio da Matriz soou suas firmes badaladas... oito vezes;
completando a cena.
Estranha
a Vida. O Urtigão havia me encomendado uma missa solene, que fosse cantada pelo
nosso côro masculino, para a memória de sua mãe, dona Graciana Coura de
Miranda, cuja biografia havia lançado há pouco na cidade. Obra que contou com
minha participação na feitura de seu prefácio, pela generosidade do autor. E agora,
eu estava deixando a igreja, após cantarmos a missa solene que ele desejava;
mas não para a sua mãe e sim para o seu sétimo dia.
Nunca senti tanto a morte
de um amigo que – na verdade- havia conhecido há tão pouco tempo (uns dois anos).
Prova de que não é a duração e sim a
qualidade de nossas relações que as graduam. O Zé Silvério foi um feliz achado!
Dois sujeitos bem falantes e de personalidade forte, posso dizer. Perambulamos algumas
vezes pelos meus habituais botecos e bares da cidade. Ao final dos colóquios –
já beirando a madrugada- deixava-o no
Grande Hotel. Foram momentos prazerosos, interessantes, ricos, de muito
aprendizado. Ali estava um camarada com uma memória brilhante e que desenhava
para mim cenas bucólicas e saborosas da Itaúna das décadas de 50 e 60 do século
passado, quando por aqui viveu. Compartilhou
comigo, sua fecunda experiência no ramo da hotelaria, quando conheceu ilustres
personalidades que hoje figuram nos nossos livros de História; como Tancredo
Neves, Juscelino Kubitschek, Milton
Campos, Clóvis Salgado e tantos outros.
Inteligente, culto, perspicaz, ácido,
lúcido...algumas das características do nosso “Urtigão” ou “Camelo”, enfim, do
Zé Silvério. Tinha nome de um quase-santo: Monsenhor Horta ou Monsenhor José
Silvério Horta – tido como santo pelo povo de Mariana e arredores. Agradeço
imensamente a outro bom amigo, o Historiador Charles Aquino (leia-se “Itaúna
Décadas”) que teve a feliz iniciativa de me apresentar a ele. Costuramos uma
boa e fecunda amizade. Vez por outra me telefonava e trocávamos figurinhas. Impagável e deliciosa foi sua entrevista - que
eu e o Confrade Jonas Vieira (escritor, psicólogo, teatrólogo, sexólogo,
artista plástico, biógrafo de Pedro Malan e atirador de facas) tivemos a
heroica iniciativa de fazer, em nosso programa “Sintonia Cultural” na Rádio
Santana FM. Foi uma tarde hilariante e de preciosas informações!
Sinto que o Urtigão estava na verdade,
fazendo o caminho inverso de sua feliz existência. O retorno às nossas
barrancas, as crônicas e “causos” do passado, a homenagem à sua mãe, o levantar
de suas memórias. Urtigão não estava aqui à toa. Ele estava – mesmo que de
maneira inconsciente- preparando a sua volta. O seu retorno definitivo.
Ao prestar a atenção na Liturgia de sua
Missa de Réquiem (ou da Ressurreição ou do Sétimo Dia- como queiram) tudo me remetia
à sua feliz memória. “...teu primeiro amor. Lembra-te de onde caíste!
Converte-te e volta à tua prática inicial...” Trecho da leitura extraída do
livro do Apocalipse: de fato, um Urtigão a converter-se, a retornar para as
terras de Sant’ana, para suas raízes. Para o reencontro definitivo com o seu
passado = seu primeiro amor! Vejamos o salmo do dia: “Eis que ele é semelhante
a uma árvore, que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos
a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar. Eis que tudo o que ele faz
vai prosperar”. Sim, nosso Urtigão deu bons e variados frutos e em muito
prosperou. E na passagem do cego de Jericó, citado no evangelho de Lucas (o pai
do Zé Silvério era cego); ouvi Nosso Senhor perguntando para o Urtigão: ”Que
queres que eu faça por ti? ” E como o cego
de Jericó, nosso Zé Silvério respondeu: “Senhor, eu quero enxergar de novo”. E
então, seus olhos se abriram para a Eternidade.
Termino, com o responsório do salmo
proclamado: “Ao vencedor concederei comer da Árvore da Vida”.
*Bacharel em Direito / Licenciado em
História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
Historiador/ Escritor/ Membro Fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/ Autor de “Crônicas Barranqueiras” e
coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e “O
que a vida quer da gente é coragem”/ Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de
Faria” Cidadão Honorário de Itaúna
Chamava-se
Nelsino. Negro, forte e de porte elegante. Devia ser descendente direto de
algum rei ioruba ou de algum Soba africano. Casado, pai de dois ou três filhos.
Não me lembro ao certo. Sua mulher, também negra, trazia uma elegância nata,
herdada de alguma estirpe nobre de além do Atlântico.
Ele
era motorista de caminhão. Um motorista diferente, de um caminhão inglês. Um
caminhão de sangue azul para um motorista idem.
Lembro-me
bem do Nelsino. Empregado da cooperativa velha, cabia a ele a tarefa diária de
transportar o leite ordenhado em Itaúna para Belo Horizonte. Em um caminhão
único. Lembro-me da marca: LEILAND.
Estampada
no cofre do motor com os dizeres: "El
Camion inglês LEILAND ". O veículo era da cor verde, um verde discreto
como convinha a um caminhão parrudo e circunspecto. Súdito da rainha.
Nelsino
não deixava por menos. Tinha o porte de um nobre Zulu. De jaqueta azul e calça
cáqui, passava sempre na porta de nossa casa a caminho da sua. Para completar a
nobreza de porte e a elegância, fumava cachimbo. Algo raro até entre muitos daquela
época. Creio que era o único na cidade a degustar o tabaco dessa forma, em
largas baforadas. Como um inglês.
Soube
recentemente que os filhos herdaram a elegância tanto do pai quanto da mãe. Bem-postos
na vida, honram a bela herança de caráter que receberam. Saibam que tive na
figura do Nelsino, o meu tipo INESQUECÍVEL!
NOTA:
Jussara, tomei a liberdade de enviar para o Charles para ele postar no blog.
Abaixo, o recado que mandei para ele:
Charles,
como eu suspeitei, a Jussara, diretora do Colégio Estadual em Itaúna é filha do
Nelsino, uma figura inesquecível. Sobrinha do Joaquim Procópio, o maior Capitão
de Congado que a cidade já teve. Recomendo a você bater um papo com ela. Tem
uma história riquíssima. Vale a pena pesquisar. Se for necessário eu escrevo.
Um
grande abraço e um beijo no Gabriel.
Urtigão*
*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José
Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Enviado
especialmente para o Itaúna Décadas em 05/11/2017. Acervo: Shorpy
O
grande escritor, dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues cunhou uma frase
antológica: “ o mineiro só é solidário no câncer”. Tenho setenta e três anos
vividos, vivi fora de Minas Gerais e concordo com ele quase na sua totalidade.
Tive muitas decepções com mineiros.
No
entanto, tomo a liberdade de acrescentar o seguinte: mineiro só é solidário no
câncer, exceto os mineiros de Itaúna. Acho difícil encontrar no Brasil povo
mais solidário. Relato alguns exemplos: durante toda a vida de trabalho de
minha mãe na cidade o pagamento de seus vencimentos saia direto da Coletoria
Estadual.
Graças às indústrias de tecidos, fundições e altos-fornos de gusa, a
arrecadação de impostos no município era muito boa.
Resultado:
não havia atraso de pagamento. Até aí, ótimo. Mas ficava melhor quando o
coletor estadual, o saudoso Morzart Machado, adiantava o salário dos
funcionários públicos mais precisados. Acontecia sempre com minha mãe. Ele
sabia que dela dependia a manutenção da família.
Atos
de pura e sincera solidariedade. Não existia nenhum outro motivo. Aliás, atos
parecidos aconteciam através do seu Alfredo da Farmácia Nogueira, que além de
debitar as contas na caderneta, algumas vezes emprestava dinheiro para ajudar-nos
a chegar ao fim do mês.
O mesmo se dava com o Messias, do Armazém Assis, e seu
Armando Prado, dono da padaria. Atrasos no aluguel eram revelados pelo Djair
Gonçalves, nosso senhorio na rua Cassiano Dornas, e o Severino Lara, homem
grandalhão, agradável e prestativo.
Atos
de pura solidariedade vinham também dos médicos Thomaz Andrade e José Campos.
Atendiam em domicílio, nas urgências e só recebiam honorários quando o paciente
pudesse pagar.
Mais relevantes ainda se tornam tais atitudes se levarmos em
conta que não tínhamos raízes na cidade. O mesmo pode-se dizer do padre José,
eterno vigário, e o padre Waldemar, ensimesmado e resmungão.
Até
nos inúmeros males feitos que marcaram a minha adolescência em Itaúna, houve
compreensão e condescendência. Só num lugar de gente boa, ordeira e prestativa,
tais gestos puderam ser observados.
O que dizer do prefeito Milton Penido e dos
políticos locais, que possibilitaram um enorme progresso na carreira de minha
mãe. Em certa parte dessa narrativa eu disse que ao escolher Itaúna para
trabalhar e morar, minha família tinha acertado na loteria e não percebeu.
Nenhum dinheiro, nenhuma riqueza poderia se igualar com os ganhos que tivermos
em Sant’Ana de São João Acima.
*Urtigão é pseudônimo de José Silvério
Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nos anos cinquenta e sessenta.
REFERÊNCIA:
SILVÉRIO, José. Dona Graciana: biografia / José
Silvério - Itaúna/MG: Folha do Povo,
2018, p.106.
Organização: Charles Aquino Acervo: José Silvério (In memoriam)
Estive
em Itaúna no último fim de semana. No sábado, 24/03/2018, recebi um convite
para assistir à missa solene. Missa em português abrilhantada pelo Coro
Santana, entoando Cantos Gregorianos acompanhados por um organista.
Confesso
que tive uma grata surpresa. Os cânticos em latim, fizeram passar rapidamente o
tempo, sem que eu me dessa conta das horas. Aliás, qual a urgência que eu
tinha? Nenhuma. Passaria mais duas horas na igreja, enlevado pelo cantar de
Belas e afinadas vozes e os acordes do órgão, entregue a um ótimo
instrumentista.
Além
da boa música, tive outras belas surpresas. Um grande número de coroinhas,
crianças, incluindo meninas e adolescentes. O padre, apesar de jovem soube
muito bem comandar a celebração, auxiliado por um acolito de competência.
Foi
uma inesquecível volta no tempo. Imagens cobertas por panos roxos, a igreja bem
pintada e conservada. O cheiro do incenso, emanado pelos turíbulos. O tilintar
das sinetas e a missa retornando ao tempo em que fui jovem, bem solene e
cerimoniosa, como nunca devia ter deixado de ser.
A
matriz razoavelmente cheia. Não como antigamente, tempo no qual, além dos
bancos e até os corredores e portas ficavam apinhados. Parece-me ser um bom
começo. Gente de várias idades e não somente velhos como eu, maioria nas
celebrações atuais.
Sou
um católico pródigo e displicente. Não sou assíduo nas igrejas como já fui na
infância e juventude. Acredito que se tivesse a oportunidade de assistir missas
como a que presenciei em Itaúna, talvez eu deixasse a preguiça de lado e iria
empregar meu ócio na igreja e nas cerimônias católicas.
Louve-se o trabalho da
paróquia, do pároco e dos paroquianos. Meus cumprimentos ao professor Luiz
Mascarenhas, um dos responsáveis pelo coro. Música soberba. Grata surpresa e
ótimas lembranças!!!
Urtigão
(desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em
Itaúna nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado.
Nos
meus tempos de criança em Itaúna, a cidade tinha várias fábricas de foguetes.
Uma ou duas ficavam na estrada para os Garcias. Se a memória não me
trai, era a fábrica de propriedade dos irmãos Mauro Soares Nogueira (Quincas do Jove), Joaquim Soares Nogueira (Quincas do Jove) e Osmário Soares Nogueira. No Campo Vermelho ficava somente a cartonagem dos fogos que eram produzidos na estrada para o bairro dos Garcias, sendo funcionário, Thales Santos, cujo estabelecimento vendido posteriormente ao comerciante José Rosa dos Santos.
Negócio
arriscado para quem trabalhava nele. Maioria de mulheres num ofício totalmente
artesanal, lidando com pólvora e outros materiais explosivos e inflamáveis.
Lembro-me ainda de um acidente numa das fábricas que ficava logo acima do
bairro do Serrado, em direção aos Garcias. Matou quatro operárias de maneira
brutal.
Foguetes,
bombas, escandalosas, traques, foguetes de vara, busca-pé, estrelas e outros
artigos saídos da lavra dos fogueteiros da época eram imprescindíveis em festas
de igreja, barraquinhas, inaugurações, comícios e sobretudo na chegada de
autoridades no município.
Em
jogos de futebol os foguetes não eram muito encontradiços. O comércio de fogos
vivia sem qualquer fiscalização e a compra dos artefatos ao alcance de qualquer
um. Não havia restrições (salvo engano) e mesmo nós,menores de idade tínhamos
acesso aos diversos produtos da pirotecnia.
Preferíamos
os busca-pés os traques e os espanta-coió. Menos perigosos e até mais
divertidos, notadamente os primeiros. Soltados na praça, em dia de
barraquinhas, eram um prato cheio de diversão. Corriam soltos no meio do povaréu,
na altura dos joelhos, fazendo com que as moças levantassem as saias para se
livrarem dos importunos busca-pés.
Uma
farra, num tempo no qual, avistar-se um joelho feminino era uma enorme proeza e
gratificação.
Foguetes
de vara eram os preferidos da molecada. Soltados com maestria pelo "
Parente", dublê de coveiro e fogueteiro, subiam com um assobio alto e
depois explodiam com estampido, liberando a vara. Os moleques corriam para
buscá-la, caísse onde caísse. Era quase uma competição.
Melhor
ainda, foguetório na chegada de autoridades. A cidade toda enfeitada e grande
parte do povo na estação da Rede Mineira de Viação. Banda de música, trem de
ferro e foguetório. Nada mais bonito e mais alegre.
Uma típica manifestação
mineira que se perdeu no tempo como os foguetes, as bandas de música e os trens
de ferro. Tenho imensa saudade, só igualável ao som do sino da estação e o
apito solene do Chefe do Trem. Coisas do meu tempo!!!
Ps.:
qualquer dia desses conta o episódio do maior foguetório da cidade . No dia em
que o Brasil ganhou a primeira Copa do Mundo!!
Urtigão
(desde 1943). Urtigão é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda que
viveu em Itaúna nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado). Acervo:
Shorpy
Quem
viveu em Santanense nos anos sessenta e setenta do século passado, vai se
lembrar deles. O Tinho era raspador de tacos e aplicador de Sinteco. Tinha um
papo de dar inveja e não gostava de ser chamado de papudo. Seu compadre, Trumbica
era seu fiel companheiro de pescaria. Era bom cozinheiro, apesar de inimigo da higiene.
Tido e havido como o cozinheiro mais porco da cidade.
Bebiam
muito. As cachaças daquela época eram boas. Princesinha, Cabecinha no ombro e
Marieta. A melhor de todas.
A
conselho médico, resolveram deixar a pinga. Era difícil largar a "
marvada", principalmente nas pescarias. Passaram um mês sem pescar e sem
beber. Extremo sacrifício!!! Em conversa de fim de tarde, matutaram e chegaram
a uma conclusão: o médico mandara parar com a pinga. Não proibira as pescarias.
Matutado e concluído. Iriam pescar no próximo feriado.
O
Tinho ficou responsável pelas tralhas da pesca. Ao Trumbica coube a preparação
dos " petrechos" da cozinha e o sortimento. No dia marcado, Tinho com
a "trenhera" arrumada, foi se encontrar com o Trumbica. O cozinheiro
estava com tudo ajeitado. Panela, caçarola, frigideira, facas, garfo faca,
colher e canecas de folha. No meio das coisas, duas garrafas de Marieta.
Tinho
estranhou as garrafas e indagou ao compadre: “está tudo muito bom. Arroz,
feijão, farinha alho, sal cebola e farinha. Só não entendi a pinga. Nois num
paramo de bebe?
Trumbica
respondeu prontamente: paramo sim compadre. As pinga vão como remédio. Magina
se uma cobra morde nois? Sem pinga pra derreter o veneno é morte certa.
Explicação
dada, o Tinho teve sua atenção despertada para um balaio redondo bem tampado e
amarrado com barbante.
Perguntou
ao compadre: " é esse balaio pra que serve compadre? Ao que o Trumbica respondeu prontamente: "
é uma cobra cascavel. Pru mode nois num encontra nenhuma cobra por lá !!!!!!!
Para animar o carnaval! Um abraço, Urtigão.
Texto:
Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério
Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico
enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 08/02/2018. Acervo:
Shorpy
Já
contei uma história dele neste espaço. Era Corradi de nascimento. Só não digo o
nome completo em razão de malquerenças. Ainda tem muitos parentes vivos.
Trabalhava
no ofício que seus familiares trouxeram para Sant'Ana de São João Acima. Foram os
pioneiros nas artes de fundição na cidade. Imigrantes italianos, deixaram um
legado importante para o município. Gostava de pescar e de caçar.
Principalmente se os apetrechos fossem bons. Não gostava de caniços ruins e
espingardas mequetrefes. Tinha saído de casa para caçar trocais. Pombas grandes
de peito carnudo. Bem preparadas na cozinha davam um belo petisco.
Estava
sem sorte. Bateu pernas no mato, gastou munição atoa e nada de pombas. Resolveu
voltar para casa quando percebeu que estava somente com um cartucho disponível
no pau de fogo. Espingardinha de primeira. Trochado Damasco, fogo central, não
esparrodava o chumbo. Tiro dela era ajuntadinho e não estragava caça miúda.
Excelente para caçar aves.
No
caminho de volta, finalmente avistou uma trocal. Peituda, bonita e sadia. Um
pitéu !!!! Ao se aproximar, a ave fez menção de voar. Estava ainda meio longe.
Não podia perder o tiro. Mirou bem e mandou fogo. Tiro certeiro, na cabeça do
bicho. De tão alegre, deixou cair a espingarda ao levantar as mãos e exclamar:
"Graças a Deus".
Surpresa
maior em seguida. Ao erguer as mãos e ajunta-las no ar, tinha apanhado outra
gorda trocal voando. Apertou o bicho com as mãos para que não escapasse.
Apertou tanto que parte do bucho da pomba saiu pelos anus e sujou suas mãos. O
limpar a sujeira no "provisório", outra surpresa: pegou dois coelhos
pelas orelhas!!!!!
POMBA-TROCAL
Nome
Científico: Patagioenas picazuro
“Uma das maiores espécies da família
no País. Cabeça e partes de baixo marrom vinho, barriga pálida. Penas da nuca
branco-prateado com pontas pretas. Manto superior roxo metálico, pontas
escuras. Costas na maior parte cinza escuro. Asas marrom apagado, cobertura das
asas cinza com pontas pálidas. Cauda preta. Pele orbital vermelha. A fêmea tem
cor mais pálido. Mede cerca de 34 centímetros de comprimento. Canto baixo,
profundo e rouco, de três a quatro sílabas: “gu-gu-gúu”, “gú-gu-gúu”, sendo que
o macho emite quatro repetições e a fêmea três.
Vive nos campos com árvores, áreas
urbanas, cerrados, caatingas e florestas de galeria. Frequentemente encontrada
no solo. É migratória como outras pombas, estendendo seus domínios acompanhando
o desmatamento, aparecendo em grande quantidade. Voa longas distâncias e a
grandes altitudes, exibindo seu espelho alar branco; está aproveitando as áreas
urbanas, é comum ser encontrada comendo milho em galinheiros. ” (Wiki Aves)
LEI N° 5.197, DE 3 DE JANEIRO DE 1967
Dispõe sobre a proteção à fauna e dá
outras providências. O Presidente da República faço saber que o Congresso
Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º. Os animais de quaisquer
espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora
do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e
criadouros naturais são propriedades do Estado, sendo proibida a sua
utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha.
Texto:
Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério
Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico
enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 06/02/2018.
No
meu tempo, no qual as pessoas viajavam de trem, tínhamos diversos tipos de
trens, que variavam pela carga, horário, rapidez e conforto. Por Itaúna
passavam o Subúrbio (esse exclusivo de Itaúna a BH e vice-versa) o Misto, que
carregava passageiros e carga, o Expresso, trem diurno com carro restaurante,
poucas paradas, para transporte exclusivo de passageiros e o Noturno. Este,
mais sofisticado, tinha carro restaurante, cabines com leitos ou carros com
poltronas leito e poucas paradas. Somente nas principais cidades. Assim como o
Expresso, era mais rápido. Os dois destinavam-se a viagens mais longas.
O Noturno, que possuía até camareiros, como o
próprio nome indica, só viajava a noite. O carro restaurante era algo a parte.
Tinha fogão tocado a lenha ou a carvão, cozinheiro e ajudantes, garçons
fardados e às vezes " maitre d'hotel “. Cardápio " a la carte". Coisa chique para
poucos. A bordo do trem vendia-se
bebidas. Normalmente, cerveja, vinho, vinho do Porto e conhaque. Servidas por
garçons fardados e de gravatas borboleta.
Em
Itaúna tínhamos dois Juízes de Direito. A comarca já era importante é somente
um não era suficiente. Lembro-me bem de vários e a história que passo a narrar
é verídica.
Um
dos juízes, de nome Nabor, pai de dois grandes amigos meus, era baixinho, quase
minúsculo. Empertigado, sempre de terno e gravata, sanguíneo, eternamente cor
de rosa. Chegou em Itaúna em fins dos anos cinquenta e começo dos sessenta do
século passado. Já chegou viúvo, com três filhos homens e três meninas. Todos
bonitos, claros e rosados. Uma coleção de " biscuits". Miúdos como o pai.
O
Doutor Nabor, parece-me que tinha uma namorada em Belo Horizonte e viajava
sempre para vê-la. Ia e voltava de trem. A volta, sempre de Noturno. Ia me
esquecendo. O magistrado era bom de copo e tinha uma voz tonitruante. Fazia
inveja a qualquer locutor. Gostava de cerveja da marca "Portuguesa",
fabricada pela Antártica em uma fábrica em Belo Horizonte, onde se localiza
hoje o Shopping Oiapoque. Cerveja ruim, engarrafada em cascos verdes.
A
preferência em Itaúna era da Brahma Chopp, casco escuro. Doutor Nabor ainda
tinha uma preferência estranha. Gosta de cerveja sem gelo. Portuguesa quente,
casco verde erapra poucos. O próprio " mijo de égua “.
Numa
de suas viagens de volta para Itaúna, o magistrado aboletou-se no Noturno e logo
que a composição da Rede arrancou, chamou o garçom e fez o pedido: " por
favor, uma Portuguesa, casco verde, sem gelo". O serviçal argumentou que
não tinha a cerveja. No entanto, se quisesse Brahma, tinha sem gelo, mas casco
escuro. O baixinho era tinhoso e sabedor de suas virtudes como autoridade,
pediu para falar com o Maitre. Na sua presença o chefe dos garçons usou dos
mesmos argumentos e disse mais. A cerveja pedida vendia pouco e daí a falta
dela no estoque. Pedia desculpas, mas nada mais poderia fazer.
Em
vista do impasse, o Dr. Nabor mandou que viesse falar com ele, nada mais nada
menos do que o Chefe do Trem, autoridade máxima do comboio. Na presença do
Chefe, devidamente fardado de azul e apito pendurado no pescoço, o baixinho
juiz, já alterado, recitou sua ladainha. Nada feito. A chefe nada podia
fazer!!!
Doutor
Nabor por fim aquiesceu em beber um conhaque. Bebeu vários e já nas imediações
de Mateus Leme, estava vermelho como um peru é bem " tocado".
Pediu
mais uma dose é o garçom resolveu dizer-lhe que não lhe serviria mais. Já
bebera o bastante. O homenzinho virou um capeta. Proferiu impropérios, xingou a
mãe do garçom e aprontou um carnaval. O pobre garçom, que teria uma longa noite
pela frente, obrigado a equilibrar-se com o balanço do trem, perdeu a paciência
e deu uma bofetada no magistrado. Uma só, o bastante para colocá-lo no devido.
Com a esfrega, Dr. Nabor aquietou e recolheu-se ao carro de passageiros, depois
de pagar a conta.
Surpresa
maior, o baixinho reservou para a equipe do trem, assim que a composição
estacionou em Itaúna. Investido de sua autoridade de Meritíssimo Juiz, deu voz
de prisão ao Chefe do Trem, ao Maitre e ao Garçon. Reteve todo o Noturno da
Rede Mineira de Viação em Itaúna, até que se resolvesse o impasse. Tinha sido
desacatado e agredido. Queria e obteve lavratura de atos circunstanciais,
boletim de ocorrência, coleta de provas e exame de corpo de delito. Atrasou o
trem que ia para Cruzeiro/SP, por três horas.
Abuso
de autoridade é coisa antiga no Brasil.
Texto:
Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério
Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente
para o blog Itaúna Décadas em 03/01/2018.
Gosto de
metáforas. Costumo comparar os homens e as famílias com as bananeiras. Não
pensem que estou a chamar a espécie humana de " banana". É outra
história.
A bananeira só dá
frutos uma vez. Daí a expressão: " fulano é bananeira que já deu
cacho". Vegetal razoavelmente simples, sem a nobreza de uma jabuticabeira
ou qualquer árvore de porte, a bananeira, humilde e subalterna, se bem plantada
em cova funda, produzirá um belo cacho de frutas, com muitas pencas. Não tem
sementes. As mudas crescem ao redor da planta mãe, daí a necessidade de cova
funda.
Cortada a
primeira e colhidos os frutos, dentro de algum tempo teremos nova planta a
produzir. É o ciclo da vida que se repete, perpetuando a espécie. Simples e
inteligente. Não requer muitos cuidados.
Somente boa terra, bom adubo e limpeza
ao redor para afastar fungos e pragas. Frutos deliciosos, fartos e nutritivos.
No quesito inteligência para ser comido, a banana é imbatível. Portátil,
higiênica e bem embalada. Uma campeã.
Voltemos à
comparação com os humanos. Em tempos de poucas famílias, de famílias múltiplas
e de gêneros iguais, de famílias desfeitas e outras modernices que teimam em
impingir aos tradicionais, a banana nos fornece um exemplo único. Produz em
cachos, tal como os cocos e as uvas.
Comparemos o
engaço do cacho aos chefes da família. Pai e mãe, a reunir a seu redor, filhos,
noras, genros, netos, e bisnetos, para os mais longevos. Como acontece com as
bananas, alguns frutos se deterioram mais rápido. Descartados, significam uma
perda, que não chega a significar o fim da família.
Com o passar do
tempo, os membros da família se reúnem de tempos em tempos em torno de pais e
mães. São as bananas ao redor do engaço. Ao morrer um dos primitivos, o cacho
passa a perder unidade. Com a morte de pai e mãe, a família não se une mais.
Como nas bananas, é hora de descartar o engaço. Não serve para mais nada. É o
fim de uma família tradicional, como a conhecemos e igual àquela em que fomos
criados.
Pensei muito
nesta metáfora, no último episódio de doença pelo qual passei. Durante todo
tempo tive ao meu lado o núcleo familiar. Mulher, filhos, netos, sobrinhos,
primos e até a única tia que tenho a graça de ainda ter. A presença de entes queridos ao lado do
doente o anima a reagir. Como já disse em escrito anterior, o meu filho é um
craque. Senhor de todas as " expertises" para cuidar.
Em tempos de
famílias estranhas e esdrúxulas é sempre bom pensar como eu. Que bom ter
nascido como as bananeiras. Simples, filho de família tradicional, capaz de
render bons frutos e poder desfruta-los na necessidade.
Que Deus os
mantenha unidos e me proporcione por mais algum tempo o papel de engaço.
Uma nota
O mundo de hoje
seria uma refeição completa para Nelson Rodrigues. Uma multidão impensável de
idiotas. Gente capaz de passar doze horas em um frio polar, espremido numa
multidão, à espera de uma bola que desce num trilho, para marcar o início de um
novo ano.
Multidões
espremidas e afanadas na praia de Copacabana à espera da passagem do ano e do
show de Anitta (com dois tts). Idem em São Paulo à espera do Latino. Em Belo
Horizonte, uma multidão em torno da Pampulha, a esperar a chegada de 2018, na
beira do Patrimônio Mundial da Unesco mais fedorento que existe. Trata-se do
" efeito manada”. Se o vizinho vai, fulano também, sicrano, etc., por não
eu? Um espanto!!!
Texto: Urtigão
(nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério
Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico
enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 02/01/2018.
Passei
por um atropelo nos últimos dias. O meu coração, safenado, cheio de stents e
outras maravilhas da moderna medicina, por pouco não me prega uma peça no dia
de Natal.
Tenho um axioma próprio que diz o seguinte: capeta só aparece para
quem quer e dependendo do destinatário, o asmodeus aparece de forma mais
branda. Foi o que me aconteceu.
Senti
mal na casa de minha filha numa região mais próxima do Biocor. Chamaram a
ambulância do condominio e em três tempos eu estava hospitalizado. Fui em
companhia de meu filho, um craque em todas as expertises.
É o próprio homem que
sabia javanês, do insuperável conto de Lima Barreto. Mal-estar, sudorese e
outros achaques. Nada que um bom hospital é uma bela equipe não resolvam. Eis-
me hoje em casa, junto com filhos e netos.
Deverei passar por outra cirurgia de
peito aberto. Nada impossível para alguém que tem fôlego de vários gatos.
Farei
a cirurgia ainda em janeiro, há tempo de terminar a biografia de minha mãe, que
vou lançar com pompa e circunstância em Itaúna, no mês de março. Deus é grande
e N.Sra. é uma baita.
Escrevo
em louvor aos amigos novos e velhos. Os velhos certamente se reconhecerão. Os
novos, cito de per si. Charles Aquino e Luiz Mascarenhas, que muito me ajudaram
na pesquisa sobre d.Graciana. Agradeço a Patrícia Nogueira, amiga nova que
ainda não conheço pessoalmente, mas como já disse, a conheci desde o flerte do
Dr. Guaracy e a d.Ivete. Agradeço a velha amiga e colega, grande escritora
Maria Lúcia Mendes, que não responde a e-mails .
Agradeço
a Berenice, mulher do Tarefa, uma das componentes do grupo " As Graciosas
da Graciana. Agradeço ao Pedro Butão e a
sua mulher, prima de meu amigo Pedro Edson. Ao Marcinho, de quem não tenho e-mail
e todos os outros que de tempos em tempos se reúnem no Gula e Gole.
Vocês e a
cidade de Itaúna me ajudam a encarar nova cirurgia e tudo mais que vier. São
amigos sinceros e desinteressados em um tempo de tanta deslealdade. Feliz ano
novo a todos. Que Deus os abençoe e nos preserve para que possamos praticar o
saudável exercício de jogar conversa fora. A melhor toilette mental em tempos de "Mal de Alzheimer".
Urtigão
Ps.:
Em tempo: estava me esquecendo do Renilton e sua heroica Folha do Povo.
Urtigão
(desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em
Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 31/12/2017.
Os
doces do Natal do meu tempo eram variados e feitos com fartura. Doces de
frutas, seguiam mais ou menos a disponibilidade delas na época. Doces de figo
em compota ou cristalizados, doces de mamão espelhado ou ralado, de laranja da
terra, de cidra e compotas de goiaba. Goiabadas eram feitas para durar mais
tempo. Embrulhadas na palha de banana, duravam por um bom período. O mesmo era
feito com as bananadas e as marmeladas. Esse último, praticamente desapareceu.
Resultado de pragas nos marmeleiros. Ensaiam uma volta tímida.
O
doce de Natal, por excelência eram as rabanadas. Quase uma unanimidade,
encontradiço em vários países do mundo, com nomes variados. No Brasil andou
perdendo terreno para os panetones,
moda importada da Itália. O panetone típico
é uma espécie de pão doce, com uva passa e frutas cristalizadas. As vezes pode
levar um pouco de licor, rum ou vermute. Os de chocolate, por sinal, muito
doces, são tipicamente brasileiros.
A
rabanada é um doce fácil de fazer e tem um sentido quase religioso. Aproveita
as sobras do pão, um alimento ancestral, citado nas Escrituras e venerada
antigamente como algo sagrado.
Conforme
promessa, aí vai uma receita de rabanada, feita ao meu modo.
Ingredientes: uma bisnaga " dormida " de mais ou
menos 500 gramas; canela em pau e em pó e cravo da Índia; açúcar cristal açúcar
de confeiteiro. Se não tiver, serve açúcar refinado; leite frio; quatro ovos;
um cálice de conhaque, licor ou vinho do Porto.
Modo de fazer:
corte o pão em rodelas de mais ou menos um dedo de largura. Embeba as rodelas
no leite e na calda, preparada anteriormente com açúcar cristal, canela em pau
e cinco dentes de cravo da Índia. Quando estiver em fervura, coloque o conhaque
ou substituto. Depois de embeber as rodelas de leite, despeje um pouco de calda
em cada uma delas e deixe descansar. Tomar cuidado para o pão não absorver
muito leite ou calda. Não pode desmanchar. Bata os ovos, claras e gemas. Em
seguida, mergulhe as rodelas de pão nos ovos batidos. Devem ser passadas no ovo
dos dois lados.
Frite as rabanadas em óleo bem quente,
tomando cuidado para não tostarem demais. Retire com a espumadeira e coloque na
travessa forrada com papel absorvente. Polvilhe as rabanadas com açúcar de
confeiteiro ou refinado, misturado com canela em pó.
O
doce é muito bom e permanece delicioso até o dia seguinte. Sirva-se, ofereça
aos convidados e um Feliz Natal.
Nota:
aprendi fazer rabanadas com minha mãe, Graciana Coura de Miranda.
FONTE:
Shorpy
Fotografia : Mulheres em uma aula de culinária no Hampton Institute em Hampton,
Virginia. Fotografia de Frances Benjamin Johnston, c. 1899.
Rico
em história, mergulhado na tradição, a Universidade de Hampton é uma
instituição dinâmica e progressiva de ensino superior, que oferece uma ampla
gama de programas técnicos, de artes liberais e de pós-graduação. Além de ser
uma das melhores universidades historicamente negras no mundo, Hampton
University é uma comunidade fortemente unido de alunos e educadores, que
representam 49 estados e 35 territórios e nações.
A
instituição historicamente negra, Hampton University é comprometida com o
multiculturalismo. A Universidade atende alunos de diversas origens nacionais,
culturais e económicas. Desde os seus primórdios até o presente, a instituição
tem matriculados estudantes dos cinco continentes - América do Norte, América
do Sul, África, Ásia e Europa - e muitos países, incluindo o Gabão, Quênia,
Gana, Japão, China, Armênia, Grã-Bretanha e Rússia, bem como as ilhas havaianas
e do Caribe e numerosas nações indígenas americanos. Colocando seus alunos no
centro do seu planejamento, a Universidade oferece um ambiente educacional
holística.
TEXTO: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 25/12/2017.
Uma
das maiores tradições do Natal desapareceu em decorrência da violência que
assola o Brasil. Era a Missa do Galo, celebrada do Oiapoque ao Chui, nas
igrejas católicas do Brasil. Missa celebrada a meia noite, com frequência
garantida de quase todos os habitantes.
As
crianças ficavam em casa. Meia noite era muito tarde mesmo para adultos. Tão
importante que dá causa e titulo a um dos melhores contos da língua portuguesa.
Escrito por Machado de Assis, é uma obra prima.
As
ceias eram esparsas. Importante mesmo era o almoço do Dia de Natal. Frango
assado, leitão pernil e raramente, o peru. A ave era mais ou menos rara e
poucas pessoas criavam o bicho em cativeiro. Morto na cozinha da casa, carecia
de uma dose de cachaça na véspera do abate. Diziam que era para amaciar a
carne. Lembro-me do Rameh.
Machado
conta a história de um peru degolado em sua casa. Atendendo ao pedido de sua
mãe, dona Elza, foi dar a dose para a ave. Gostou da incumbência e deu uma dose
e bebeu outra. Ao fim e ao cabo, quase esvaziaram a garrafa. Ele é o seu novo
companheiro de gole. O peru " apagou”. Coma alcoólico. Morreu anestesiado.
Almoço
de Natal tinha além das carnes, arroz de forno macarronada tutu de feijão com
linguiça. Cada casa comia o que estivesse dentro de suas posses. Famílias
grandes, todos ao redor da mesa, festejando o nascimento do Nazareno.
Vinho
frisante Michelon ou Sangue de Boi, de garrafão. Cerveja preta, malzbier.
Bebidas destiladas eram raras. Uísque, nem pensar.
Os
presentes eram também escassos. O dinheiro era curto para a maioria. Quem
ganhava uma bola de couro ou uma bicicleta Philips, inglesa, eram poucos. Coisa
de gente rica. Carrinhos de lata ou de madeira. Os que andavam por conta
própria eram movidos a corda, tal qual relógios.
O
Papai Noel era lenda pagã, desaconselhada pela Santa Madre Igreja. Árvores de
Natal também eram raras. Abundância de presépios, inclusive nas igrejas. Grutas
feitas de pano, engomado com grude de polvilho azedo e polvilhadas de pó de
pedra e malacacheta. Uma belezura. O Deus menino deitado numa caminha de
serragem.
José
e Maria ajoelhados em torno da manjedoura e os três reis magos mais afastados.
Um deles era negro. Sinal que naqueles tempos, nada de racismo. Carneiros, bois
e os camelos dos magos que atravessaram o deserto para render homenagem ao
judeu recém-nascido. O Natal era uma festa da família, de confraternização em
torno de valores cristãos.
As
sobremesas eram um caso à parte. Num próximo texto descrevo algumas e passo uma
receita de doces natalinos. Prometo.
Texto:
Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que
viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente
para o Itaúna Décadas em 21/12/2017.Acervo: Shorpy