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terça-feira, novembro 20, 2018

RÉQUIEM PARA UM ENCONTRO

Prof. Luiz MASCARENHAS*

         Caía uma chuva fininha quando eu deixei a Matriz de Sant’Ana. De guarda-chuvas aberto, passos reflexivos, demoradamente fitei o meu entorno, com o cenário banhado pela iluminação da praça sob a garoa noturna, desvelando uma cena que inspirava poesia e me remetia a introspeções.  Atrás de mim, o relógio da Matriz soou suas firmes badaladas... oito vezes; completando a cena.

         Estranha a Vida. O Urtigão havia me encomendado uma missa solene, que fosse cantada pelo nosso côro masculino, para a memória de sua mãe, dona Graciana Coura de Miranda, cuja biografia havia lançado há pouco na cidade. Obra que contou com minha participação na feitura de seu prefácio, pela generosidade do autor. E agora, eu estava deixando a igreja, após cantarmos a missa solene que ele desejava; mas não para a sua mãe e sim para o seu sétimo dia.   
 
Nunca senti tanto a morte de um amigo que – na verdade- havia conhecido há tão pouco tempo (uns dois anos).  Prova de que não é a duração e sim a qualidade de nossas relações que as graduam. O Zé Silvério foi um feliz achado! Dois sujeitos bem falantes e de personalidade forte, posso dizer. Perambulamos algumas vezes pelos meus habituais botecos e bares da cidade. Ao final dos colóquios – já beirando a madrugada-  deixava-o no Grande Hotel. Foram momentos prazerosos, interessantes, ricos, de muito aprendizado.

 Ali estava um camarada com uma memória brilhante e que desenhava para mim cenas bucólicas e saborosas da Itaúna das décadas de 50 e 60 do século passado, quando por aqui viveu.  Compartilhou comigo, sua fecunda experiência no ramo da hotelaria, quando conheceu ilustres personalidades que hoje figuram nos nossos livros de História; como Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, Milton Campos, Clóvis Salgado e tantos outros.

         Inteligente, culto, perspicaz, ácido, lúcido...algumas das características do nosso “Urtigão” ou “Camelo”, enfim, do Zé Silvério. Tinha nome de um quase-santo: Monsenhor Horta ou Monsenhor José Silvério Horta – tido como santo pelo povo de Mariana e arredores. Agradeço imensamente a outro bom amigo, o Historiador Charles Aquino (leia-se “Itaúna Décadas”) que teve a feliz iniciativa de me apresentar a ele. Costuramos uma boa e fecunda amizade.

 Vez por outra me telefonava e trocávamos figurinhas.  Impagável e deliciosa foi sua entrevista - que eu e o Confrade Jonas Vieira (escritor, psicólogo, teatrólogo, sexólogo, artista plástico, biógrafo de Pedro Malan e atirador de facas) tivemos a heroica iniciativa de fazer, em nosso programa “Sintonia Cultural” na Rádio Santana FM. Foi uma tarde hilariante e de preciosas informações!  

         Sinto que o Urtigão estava na verdade, fazendo o caminho inverso de sua feliz existência. O retorno às nossas barrancas, as crônicas e “causos” do passado, a homenagem à sua mãe, o levantar de suas memórias. Urtigão não estava aqui à toa. Ele estava – mesmo que de maneira inconsciente- preparando a sua volta. O seu retorno definitivo.

         Ao prestar a atenção na Liturgia de sua Missa de Réquiem (ou da Ressurreição ou do Sétimo Dia- como queiram) tudo me remetia à sua feliz memória. “...teu primeiro amor. Lembra-te de onde caíste! Converte-te e volta à tua prática inicial...” Trecho da leitura extraída do livro do Apocalipse: de fato, um Urtigão a converter-se, a retornar para as terras de Sant’ana, para suas raízes. Para o reencontro definitivo com o seu passado = seu primeiro amor! Vejamos o salmo do dia: “Eis que ele é semelhante a uma árvore, que à beira da torrente está plantada; ela sempre dá seus frutos a seu tempo, e jamais as suas folhas vão murchar. 

Eis que tudo o que ele faz vai prosperar”. Sim, nosso Urtigão deu bons e variados frutos e em muito prosperou. E na passagem do cego de Jericó, citado no evangelho de Lucas (o pai do Zé Silvério era cego); ouvi Nosso Senhor perguntando para o Urtigão: ”Que queres que eu faça por ti? ”  E como o cego de Jericó, nosso Zé Silvério respondeu: “Senhor, eu quero enxergar de novo”. E então, seus olhos se abriram para a Eternidade.

         Termino, com o responsório do salmo proclamado: “Ao vencedor concederei comer da Árvore da Vida”.


*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
  Historiador/ Escritor/ Membro Fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/ Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências”, “Olhares Múltiplos” e  “O que a vida quer da gente é coragem”/ Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria” Cidadão Honorário de Itaúna

Organização: Charles Aquino

domingo, novembro 18, 2018

UM TIPO INESQUECÍVEL

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
Chamava-se Nelsino. Negro, forte e de porte elegante. Devia ser descendente direto de algum rei ioruba ou de algum Soba africano. Casado, pai de dois ou três filhos. Não me lembro ao certo. Sua mulher, também negra, trazia uma elegância nata, herdada de alguma estirpe nobre de além do Atlântico.
Ele era motorista de caminhão. Um motorista diferente, de um caminhão inglês. Um caminhão de sangue azul para um motorista idem.
Lembro-me bem do Nelsino. Empregado da cooperativa velha, cabia a ele a tarefa diária de transportar o leite ordenhado em Itaúna para Belo Horizonte. Em um caminhão único. Lembro-me da marca: LEILAND.
Estampada no cofre do motor com os dizeres: "El Camion inglês LEILAND ". O veículo era da cor verde, um verde discreto como convinha a um caminhão parrudo e circunspecto. Súdito da rainha.
Nelsino não deixava por menos. Tinha o porte de um nobre Zulu. De jaqueta azul e calça cáqui, passava sempre na porta de nossa casa a caminho da sua. Para completar a nobreza de porte e a elegância, fumava cachimbo. Algo raro até entre muitos daquela época. Creio que era o único na cidade a degustar o tabaco dessa forma, em largas baforadas. Como um inglês.
Soube recentemente que os filhos herdaram a elegância tanto do pai quanto da mãe. Bem-postos na vida, honram a bela herança de caráter que receberam. Saibam que tive na figura do Nelsino, o meu tipo INESQUECÍVEL!

NOTA: Jussara, tomei a liberdade de enviar para o Charles para ele postar no blog. Abaixo, o recado que mandei para ele:
Charles, como eu suspeitei, a Jussara, diretora do Colégio Estadual em Itaúna é filha do Nelsino, uma figura inesquecível. Sobrinha do Joaquim Procópio, o maior Capitão de Congado que a cidade já teve. Recomendo a você bater um papo com ela. Tem uma história riquíssima. Vale a pena pesquisar. Se for necessário eu escrevo.
Um grande abraço e um beijo no Gabriel.
Urtigão*

 *Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 05/11/2017. Acervo: Shorpy
Organização: Charles Aquino

sexta-feira, novembro 16, 2018

ITAÚNA E SUA GENTE

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
Charmosa Rua Direita, hoje Avenida Getúlio Vargas

O grande escritor, dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues cunhou uma frase antológica: “ o mineiro só é solidário no câncer”. Tenho setenta e três anos vividos, vivi fora de Minas Gerais e concordo com ele quase na sua totalidade. Tive muitas decepções com mineiros.  
No entanto, tomo a liberdade de acrescentar o seguinte: mineiro só é solidário no câncer, exceto os mineiros de Itaúna. Acho difícil encontrar no Brasil povo mais solidário. Relato alguns exemplos: durante toda a vida de trabalho de minha mãe na cidade o pagamento de seus vencimentos saia direto da Coletoria Estadual. 
Graças às indústrias de tecidos, fundições e altos-fornos de gusa, a arrecadação de impostos no município era muito boa.
Resultado: não havia atraso de pagamento. Até aí, ótimo. Mas ficava melhor quando o coletor estadual, o saudoso Morzart Machado, adiantava o salário dos funcionários públicos mais precisados. Acontecia sempre com minha mãe. Ele sabia que dela dependia a manutenção da família.
Atos de pura e sincera solidariedade. Não existia nenhum outro motivo. Aliás, atos parecidos aconteciam através do seu Alfredo da Farmácia Nogueira, que além de debitar as contas na caderneta, algumas vezes emprestava dinheiro para ajudar-nos a chegar ao fim do mês. 
O mesmo se dava com o Messias, do Armazém Assis, e seu Armando Prado, dono da padaria. Atrasos no aluguel eram revelados pelo Djair Gonçalves, nosso senhorio na rua Cassiano Dornas, e o Severino Lara, homem grandalhão, agradável e prestativo.
Atos de pura solidariedade vinham também dos médicos Thomaz Andrade e José Campos. Atendiam em domicílio, nas urgências e só recebiam honorários quando o paciente pudesse pagar. 
Mais relevantes ainda se tornam tais atitudes se levarmos em conta que não tínhamos raízes na cidade. O mesmo pode-se dizer do padre José, eterno vigário, e o padre Waldemar, ensimesmado e resmungão.
Até nos inúmeros males feitos que marcaram a minha adolescência em Itaúna, houve compreensão e condescendência. Só num lugar de gente boa, ordeira e prestativa, tais gestos puderam ser observados. 
O que dizer do prefeito Milton Penido e dos políticos locais, que possibilitaram um enorme progresso na carreira de minha mãe. Em certa parte dessa narrativa eu disse que ao escolher Itaúna para trabalhar e morar, minha família tinha acertado na loteria e não percebeu. Nenhum dinheiro, nenhuma riqueza poderia se igualar com os ganhos que tivermos em Sant’Ana de São João Acima.

*Urtigão é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nos anos cinquenta e sessenta. 

REFERÊNCIA:
SILVÉRIO, José. Dona Graciana: biografia / José Silvério -  Itaúna/MG: Folha do Povo, 2018, p.106.
Organização: Charles Aquino
Acervo: José Silvério (In memoriam)

terça-feira, março 27, 2018

TURÍBULO

IGREJA MATRIZ DE ITAÚNA MG
Missa em Sant’Ana

Estive em Itaúna no último fim de semana. No sábado, 24/03/2018, recebi um convite para assistir à missa solene. Missa em português abrilhantada pelo Coro Santana, entoando Cantos Gregorianos acompanhados por um organista.
Confesso que tive uma grata surpresa. Os cânticos em latim, fizeram passar rapidamente o tempo, sem que eu me dessa conta das horas. Aliás, qual a urgência que eu tinha? Nenhuma. Passaria mais duas horas na igreja, enlevado pelo cantar de Belas e afinadas vozes e os acordes do órgão, entregue a um ótimo instrumentista.
Além da boa música, tive outras belas surpresas. Um grande número de coroinhas, crianças, incluindo meninas e adolescentes. O padre, apesar de jovem soube muito bem comandar a celebração, auxiliado por um acolito de competência.
Foi uma inesquecível volta no tempo. Imagens cobertas por panos roxos, a igreja bem pintada e conservada. O cheiro do incenso, emanado pelos turíbulos. O tilintar das sinetas e a missa retornando ao tempo em que fui jovem, bem solene e cerimoniosa, como nunca devia ter deixado de ser.
A matriz razoavelmente cheia. Não como antigamente, tempo no qual, além dos bancos e até os corredores e portas ficavam apinhados. Parece-me ser um bom começo. Gente de várias idades e não somente velhos como eu, maioria nas celebrações atuais.
Sou um católico pródigo e displicente. Não sou assíduo nas igrejas como já fui na infância e juventude. Acredito que se tivesse a oportunidade de assistir missas como a que presenciei em Itaúna, talvez eu deixasse a preguiça de lado e iria empregar meu ócio na igreja e nas cerimônias católicas. 
Louve-se o trabalho da paróquia, do pároco e dos paroquianos. Meus cumprimentos ao professor Luiz Mascarenhas, um dos responsáveis pelo coro. Música soberba. Grata surpresa e ótimas lembranças!!!

Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado.

Organização: Charles Aquino

sábado, março 24, 2018

ESPANTA-COIÓ

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
   Nos meus tempos de criança em Itaúna, a cidade tinha várias fábricas de foguetes. Uma ou duas ficavam na estrada para os Garcias. Se a memória não me trai, era  a fábrica de propriedade dos irmãos Mauro Soares Nogueira (Quincas do Jove), Joaquim Soares      Nogueira (Quincas do Jove) e Osmário Soares Nogueira. 
   No Campo Vermelho ficava somente a cartonagem dos fogos que eram produzidos na estrada para o bairro dos Garcias, sendo funcionário, Thales  Santos, cujo estabelecimento vendido posteriormente ao comerciante José Rosa dos Santos. 
   Negócio arriscado para quem trabalhava nele. Maioria de mulheres num ofício totalmente artesanal, lidando com pólvora e outros materiais explosivos e inflamáveis. Lembro-me ainda de um acidente numa das fábricas que ficava logo acima do bairro do Serrado, em direção aos Garcias. Matou quatro operárias de maneira brutal.
   Foguetes, bombas, escandalosas, traques, foguetes de vara, busca-pé, estrelas e outros artigos saídos da lavra dos fogueteiros da época eram imprescindíveis em festas de igreja, barraquinhas, inaugurações, comícios e sobretudo na chegada de autoridades no município.
   Em jogos de futebol os foguetes não eram muito encontradiços. O comércio de fogos vivia sem qualquer fiscalização e a compra dos artefatos ao alcance de qualquer um. Não havia restrições (salvo engano) e mesmo nós,menores de idade tínhamos acesso aos diversos produtos da pirotecnia.
   Preferíamos os busca-pés os traques e os espanta-coió. Menos perigosos e até mais divertidos, notadamente os primeiros. Soltados na praça, em dia de barraquinhas, eram um prato cheio de diversão. Corriam soltos no meio do povaréu, na altura dos joelhos, fazendo com que as moças levantassem as saias para se livrarem dos importunos busca-pés.
   Uma farra, num tempo no qual, avistar-se um joelho feminino era uma enorme proeza e gratificação.
   Foguetes de vara eram os preferidos da molecada. Soltados com maestria pelo " Parente", dublê de coveiro e fogueteiro, subiam com um assobio alto e depois explodiam com estampido, liberando a vara. Os moleques corriam para buscá-la, caísse onde caísse. Era quase uma competição.
   Melhor ainda, foguetório na chegada de autoridades. A cidade toda enfeitada e grande parte do povo na estação da Rede Mineira de Viação. Banda de música, trem de ferro e foguetório. Nada mais bonito e mais alegre. 
   Uma típica manifestação mineira que se perdeu no tempo como os foguetes, as bandas de música e os trens de ferro. Tenho imensa saudade, só igualável ao som do sino da estação e o apito solene do Chefe do Trem. Coisas do meu tempo!!!

Ps.: qualquer dia desses conta o episódio do maior foguetório da cidade . No dia em que o Brasil ganhou a primeira Copa do Mundo!!

Urtigão (desde 1943). Urtigão é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda que viveu em Itaúna nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado). Acervo: Shorpy


sábado, fevereiro 10, 2018

CUMPADRES DE PESCARIA

HISTÓRIAS E CAUSOS EM ITAÚNA MG
Quem viveu em Santanense nos anos sessenta e setenta do século passado, vai se lembrar deles. O Tinho era raspador de tacos e aplicador de Sinteco. Tinha um papo de dar inveja e não gostava de ser chamado de papudo. Seu compadre, Trumbica era seu fiel companheiro de pescaria. Era bom cozinheiro, apesar de inimigo da higiene. Tido e havido como o cozinheiro mais porco da cidade.
Bebiam muito. As cachaças daquela época eram boas. Princesinha, Cabecinha no ombro e Marieta. A melhor de todas.
A conselho médico, resolveram deixar a pinga. Era difícil largar a " marvada", principalmente nas pescarias. Passaram um mês sem pescar e sem beber. Extremo sacrifício!!! Em conversa de fim de tarde, matutaram e chegaram a uma conclusão: o médico mandara parar com a pinga. Não proibira as pescarias. Matutado e concluído. Iriam pescar no próximo feriado.
O Tinho ficou responsável pelas tralhas da pesca. Ao Trumbica coube a preparação dos " petrechos" da cozinha e o sortimento. No dia marcado, Tinho com a "trenhera" arrumada, foi se encontrar com o Trumbica. O cozinheiro estava com tudo ajeitado. Panela, caçarola, frigideira, facas, garfo faca, colher e canecas de folha. No meio das coisas, duas garrafas de Marieta.
Tinho estranhou as garrafas e indagou ao compadre: “está tudo muito bom. Arroz, feijão, farinha alho, sal cebola e farinha. Só não entendi a pinga. Nois num paramo de bebe?
Trumbica respondeu prontamente: paramo sim compadre. As pinga vão como remédio. Magina se uma cobra morde nois? Sem pinga pra derreter o veneno é morte certa.
Explicação dada, o Tinho teve sua atenção despertada para um balaio redondo bem tampado e amarrado com barbante.
Perguntou ao compadre: " é esse balaio pra que serve compadre?  Ao que o Trumbica respondeu prontamente: " é uma cobra cascavel. Pru mode nois num encontra nenhuma cobra por lá !!!!!!!

Para animar o carnaval! Um abraço, Urtigão.

Texto: Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 08/02/2018. Acervo: Shorpy

Organização: Charles Aquino 

terça-feira, fevereiro 06, 2018

ITAUNENSE PATRANHEIRO

HISTÓRIAS E CRÔNICAS EM ITAÚNA MG
Já contei uma história dele neste espaço. Era Corradi de nascimento. Só não digo o nome completo em razão de malquerenças. Ainda tem muitos parentes vivos.

Trabalhava no ofício que seus familiares trouxeram para Sant'Ana de São João Acima. Foram os pioneiros nas artes de fundição na cidade. Imigrantes italianos, deixaram um legado importante para o município. Gostava de pescar e de caçar. Principalmente se os apetrechos fossem bons. Não gostava de caniços ruins e espingardas mequetrefes. Tinha saído de casa para caçar trocais. Pombas grandes de peito carnudo. Bem preparadas na cozinha davam um belo petisco.

Estava sem sorte. Bateu pernas no mato, gastou munição atoa e nada de pombas. Resolveu voltar para casa quando percebeu que estava somente com um cartucho disponível no pau de fogo. Espingardinha de primeira. Trochado Damasco, fogo central, não esparrodava o chumbo. Tiro dela era ajuntadinho e não estragava caça miúda. Excelente para caçar aves.

No caminho de volta, finalmente avistou uma trocal. Peituda, bonita e sadia. Um pitéu !!!! Ao se aproximar, a ave fez menção de voar. Estava ainda meio longe. Não podia perder o tiro. Mirou bem e mandou fogo. Tiro certeiro, na cabeça do bicho.  De tão alegre, deixou cair a espingarda ao levantar as mãos e exclamar: "Graças a Deus".

Surpresa maior em seguida. Ao erguer as mãos e ajunta-las no ar, tinha apanhado outra gorda trocal voando. Apertou o bicho com as mãos para que não escapasse. Apertou tanto que parte do bucho da pomba saiu pelos anus e sujou suas mãos. O limpar a sujeira no "provisório", outra surpresa: pegou dois coelhos pelas orelhas!!!!!


POMBA-TROCAL

Nome Científico: Patagioenas picazuro

“Uma das maiores espécies da família no País. Cabeça e partes de baixo marrom vinho, barriga pálida. Penas da nuca branco-prateado com pontas pretas. Manto superior roxo metálico, pontas escuras.

Costas na maior parte cinza escuro. Asas marrom apagado, cobertura das asas cinza com pontas pálidas. Cauda preta. Pele orbital vermelha. A fêmea tem cor mais pálido. Mede cerca de 34 centímetros de comprimento. Canto baixo, profundo e rouco, de três a quatro sílabas: “gu-gu-gúu”, “gú-gu-gúu”, sendo que o macho emite quatro repetições e a fêmea três.

Vive nos campos com árvores, áreas urbanas, cerrados, caatingas e florestas de galeria. Frequentemente encontrada no solo. É migratória como outras pombas, estendendo seus domínios acompanhando o desmatamento, aparecendo em grande quantidade. Voa longas distâncias e a grandes altitudes, exibindo seu espelho alar branco; está aproveitando as áreas urbanas, é comum ser encontrada comendo milho em galinheiros. ” (Wiki Aves)

LEI N° 5.197, DE 3 DE JANEIRO DE 1967

Dispõe sobre a proteção à fauna e dá outras providências. O Presidente da República faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

        Art. 1º. Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais são propriedades do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha.

Referências:

BRASIL ESCOLA. Aves do Cerrado. Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/brasil/aves-cerrado.htm   

Texto: Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 06/02/2018.
Colaborador: Marcelo Vasconcelos / Acervo: Shorpy / Organização: Charles Aquino

quinta-feira, janeiro 18, 2018

PRISÃO NO NOTURNO

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
No meu tempo, no qual as pessoas viajavam de trem, tínhamos diversos tipos de trens, que variavam pela carga, horário, rapidez e conforto. Por Itaúna passavam o Subúrbio (esse exclusivo de Itaúna a BH e vice-versa) o Misto, que carregava passageiros e carga, o Expresso, trem diurno com carro restaurante, poucas paradas, para transporte exclusivo de passageiros e o Noturno. Este, mais sofisticado, tinha carro restaurante, cabines com leitos ou carros com poltronas leito e poucas paradas. Somente nas principais cidades. Assim como o Expresso, era mais rápido. Os dois destinavam-se a viagens mais longas.

 O Noturno, que possuía até camareiros, como o próprio nome indica, só viajava a noite. O carro restaurante era algo a parte. Tinha fogão tocado a lenha ou a carvão, cozinheiro e ajudantes, garçons fardados e às vezes " maitre d'hotel “. Cardápio " a la carte". Coisa chique para poucos.  A bordo do trem vendia-se bebidas. Normalmente, cerveja, vinho, vinho do Porto e conhaque. Servidas por garçons fardados e de gravatas borboleta.

Em Itaúna tínhamos dois Juízes de Direito. A comarca já era importante é somente um não era suficiente. Lembro-me bem de vários e a história que passo a narrar é verídica.

Um dos juízes, de nome Nabor, pai de dois grandes amigos meus, era baixinho, quase minúsculo. Empertigado, sempre de terno e gravata, sanguíneo, eternamente cor de rosa. Chegou em Itaúna em fins dos anos cinquenta e começo dos sessenta do século passado. Já chegou viúvo, com três filhos homens e três meninas. Todos bonitos, claros e rosados. Uma coleção de " biscuits". Miúdos como o pai.

O Doutor Nabor, parece-me que tinha uma namorada em Belo Horizonte e viajava sempre para vê-la. Ia e voltava de trem. A volta, sempre de Noturno. Ia me esquecendo. O magistrado era bom de copo e tinha uma voz tonitruante. Fazia inveja a qualquer locutor. Gostava de cerveja da marca "Portuguesa", fabricada pela Antártica em uma fábrica em Belo Horizonte, onde se localiza hoje o Shopping Oiapoque. Cerveja ruim, engarrafada em cascos verdes.

A preferência em Itaúna era da Brahma Chopp, casco escuro. Doutor Nabor ainda tinha uma preferência estranha. Gosta de cerveja sem gelo. Portuguesa quente, casco verde erapra poucos. O próprio " mijo de égua “.

Numa de suas viagens de volta para Itaúna, o magistrado aboletou-se no Noturno e logo que a composição da Rede arrancou, chamou o garçom e fez o pedido: " por favor, uma Portuguesa, casco verde, sem gelo". O serviçal argumentou que não tinha a cerveja. No entanto, se quisesse Brahma, tinha sem gelo, mas casco escuro. O baixinho era tinhoso e sabedor de suas virtudes como autoridade, pediu para falar com o Maitre. Na sua presença o chefe dos garçons usou dos mesmos argumentos e disse mais. A cerveja pedida vendia pouco e daí a falta dela no estoque. Pedia desculpas, mas nada mais poderia fazer.

Em vista do impasse, o Dr. Nabor mandou que viesse falar com ele, nada mais nada menos do que o Chefe do Trem, autoridade máxima do comboio. Na presença do Chefe, devidamente fardado de azul e apito pendurado no pescoço, o baixinho juiz, já alterado, recitou sua ladainha. Nada feito. A chefe nada podia fazer!!!

Doutor Nabor por fim aquiesceu em beber um conhaque. Bebeu vários e já nas imediações de Mateus Leme, estava vermelho como um peru é bem " tocado".

Pediu mais uma dose é o garçom resolveu dizer-lhe que não lhe serviria mais. Já bebera o bastante. O homenzinho virou um capeta. Proferiu impropérios, xingou a mãe do garçom e aprontou um carnaval. O pobre garçom, que teria uma longa noite pela frente, obrigado a equilibrar-se com o balanço do trem, perdeu a paciência e deu uma bofetada no magistrado. Uma só, o bastante para colocá-lo no devido. Com a esfrega, Dr. Nabor aquietou e recolheu-se ao carro de passageiros, depois de pagar a conta.

Surpresa maior, o baixinho reservou para a equipe do trem, assim que a composição estacionou em Itaúna. Investido de sua autoridade de Meritíssimo Juiz, deu voz de prisão ao Chefe do Trem, ao Maitre e ao Garçon. Reteve todo o Noturno da Rede Mineira de Viação em Itaúna, até que se resolvesse o impasse. Tinha sido desacatado e agredido. Queria e obteve lavratura de atos circunstanciais, boletim de ocorrência, coleta de provas e exame de corpo de delito. Atrasou o trem que ia para Cruzeiro/SP, por três horas.
Abuso de autoridade é coisa antiga no Brasil.

Texto: Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 03/01/2018.

Organização: Charles Aquino

quinta-feira, janeiro 04, 2018

BANANEIRA

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

CAUSOS DO URTIGÃO

Gosto de metáforas. Costumo comparar os homens e as famílias com as bananeiras. Não pensem que estou a chamar a espécie humana de " banana". É outra história.

A bananeira só dá frutos uma vez. Daí a expressão: " fulano é bananeira que já deu cacho". Vegetal razoavelmente simples, sem a nobreza de uma jabuticabeira ou qualquer árvore de porte, a bananeira, humilde e subalterna, se bem plantada em cova funda, produzirá um belo cacho de frutas, com muitas pencas. Não tem sementes. As mudas crescem ao redor da planta mãe, daí a necessidade de cova funda.

Cortada a primeira e colhidos os frutos, dentro de algum tempo teremos nova planta a produzir. É o ciclo da vida que se repete, perpetuando a espécie. Simples e inteligente. Não requer muitos cuidados. 

Somente boa terra, bom adubo e limpeza ao redor para afastar fungos e pragas. Frutos deliciosos, fartos e nutritivos. No quesito inteligência para ser comido, a banana é imbatível. Portátil, higiênica e bem embalada. Uma campeã.

Voltemos à comparação com os humanos. Em tempos de poucas famílias, de famílias múltiplas e de gêneros iguais, de famílias desfeitas e outras modernices que teimam em impingir aos tradicionais, a banana nos fornece um exemplo único. Produz em cachos, tal como os cocos e as uvas.

Comparemos o engaço do cacho aos chefes da família. Pai e mãe, a reunir a seu redor, filhos, noras, genros, netos, e bisnetos, para os mais longevos. Como acontece com as bananas, alguns frutos se deterioram mais rápido. Descartados, significam uma perda, que não chega a significar o fim da família.

Com o passar do tempo, os membros da família se reúnem de tempos em tempos em torno de pais e mães. São as bananas ao redor do engaço. Ao morrer um dos primitivos, o cacho passa a perder unidade. Com a morte de pai e mãe, a família não se une mais. Como nas bananas, é hora de descartar o engaço. Não serve para mais nada. É o fim de uma família tradicional, como a conhecemos e igual àquela em que fomos criados.

Pensei muito nesta metáfora, no último episódio de doença pelo qual passei. Durante todo tempo tive ao meu lado o núcleo familiar. Mulher, filhos, netos, sobrinhos, primos e até a única tia que tenho a graça de ainda ter.  A presença de entes queridos ao lado do doente o anima a reagir. Como já disse em escrito anterior, o meu filho é um craque. Senhor de todas as " expertises" para cuidar.

 Em tempos de famílias estranhas e esdrúxulas é sempre bom pensar como eu. Que bom ter nascido como as bananeiras. Simples, filho de família tradicional, capaz de render bons frutos e poder desfruta-los na necessidade.

Que Deus os mantenha unidos e me proporcione por mais algum tempo o papel de engaço.

 

Uma nota

O mundo de hoje seria uma refeição completa para Nelson Rodrigues. Uma multidão impensável de idiotas. Gente capaz de passar doze horas em um frio polar, espremido numa multidão, à espera de uma bola que desce num trilho, para marcar o início de um novo ano.

Multidões espremidas e afanadas na praia de Copacabana à espera da passagem do ano e do show de Anitta (com dois tts). Idem em São Paulo à espera do Latino. Em Belo Horizonte, uma multidão em torno da Pampulha, a esperar a chegada de 2018, na beira do Patrimônio Mundial da Unesco mais fedorento que existe. Trata-se do " efeito manada”. Se o vizinho vai, fulano também, sicrano, etc., por não eu? Um espanto!!! 

Texto: Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 02/01/2018.

Organização: Charles Aquino 


domingo, dezembro 31, 2017

ANO NOVO, VELHOS E NOVOS AMIGOS

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
URTIGÃO
Passei por um atropelo nos últimos dias. O meu coração, safenado, cheio de stents e outras maravilhas da moderna medicina, por pouco não me prega uma peça no dia de Natal. 
Tenho um axioma próprio que diz o seguinte: capeta só aparece para quem quer e dependendo do destinatário, o asmodeus aparece de forma mais branda. Foi o que me aconteceu.
Senti mal na casa de minha filha numa região mais próxima do Biocor. Chamaram a ambulância do condominio e em três tempos eu estava hospitalizado. Fui em companhia de meu filho, um craque em todas as expertises. 
É o próprio homem que sabia javanês, do insuperável conto de Lima Barreto. Mal-estar, sudorese e outros achaques. Nada que um bom hospital é uma bela equipe não resolvam. Eis- me hoje em casa, junto com filhos e netos. 
Deverei passar por outra cirurgia de peito aberto. Nada impossível para alguém que tem fôlego de vários gatos.
Farei a cirurgia ainda em janeiro, há tempo de terminar a biografia de minha mãe, que vou lançar com pompa e circunstância em Itaúna, no mês de março. Deus é grande e N.Sra. é uma baita.
Escrevo em louvor aos amigos novos e velhos. Os velhos certamente se reconhecerão. Os novos, cito de per si. Charles Aquino e Luiz Mascarenhas, que muito me ajudaram na pesquisa sobre d.Graciana. Agradeço a Patrícia Nogueira, amiga nova que ainda não conheço pessoalmente, mas como já disse, a conheci desde o flerte do Dr. Guaracy e a d.Ivete. Agradeço a velha amiga e colega, grande escritora Maria Lúcia Mendes, que não responde a e-mails .
Agradeço a Berenice, mulher do Tarefa, uma das componentes do grupo " As Graciosas da Graciana.  Agradeço ao Pedro Butão e a sua mulher, prima de meu amigo Pedro Edson. Ao Marcinho, de quem não tenho e-mail e todos os outros que de tempos em tempos se reúnem no Gula e Gole. 
Vocês e a cidade de Itaúna me ajudam a encarar nova cirurgia e tudo mais que vier. São amigos sinceros e desinteressados em um tempo de tanta deslealdade. Feliz ano novo a todos. Que Deus os abençoe e nos preserve para que possamos praticar o saudável exercício de jogar conversa fora. A melhor toilette mental em tempos de "Mal de Alzheimer".
Urtigão

Ps.: Em tempo: estava me esquecendo do Renilton e sua heroica Folha do Povo.

Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o  Itaúna Décadas em 31/12/2017.

Organização: Charles Aquino

segunda-feira, dezembro 25, 2017

DOCES DE NATAL

HISTÓRIAS E CRÔNICAS EM ITAÚNA MG

Os doces do Natal do meu tempo eram variados e feitos com fartura. Doces de frutas, seguiam mais ou menos a disponibilidade delas na época. Doces de figo em compota ou cristalizados, doces de mamão espelhado ou ralado, de laranja da terra, de cidra e compotas de goiaba. Goiabadas eram feitas para durar mais tempo. Embrulhadas na palha de banana, duravam por um bom período. O mesmo era feito com as bananadas e as marmeladas. Esse último, praticamente desapareceu. Resultado de pragas nos marmeleiros. Ensaiam uma volta tímida.
O doce de Natal, por excelência eram as rabanadas. Quase uma unanimidade, encontradiço em vários países do mundo, com nomes variados. No Brasil andou perdendo terreno para os panetones, moda importada da Itália. O panetone típico é uma espécie de pão doce, com uva passa e frutas cristalizadas. As vezes pode levar um pouco de licor, rum ou vermute. Os de chocolate, por sinal, muito doces, são tipicamente brasileiros.
A rabanada é um doce fácil de fazer e tem um sentido quase religioso. Aproveita as sobras do pão, um alimento ancestral, citado nas Escrituras e venerada antigamente como algo sagrado.
Conforme promessa, aí vai uma receita de rabanada, feita ao meu modo.
Ingredientes:  uma bisnaga " dormida " de mais ou menos 500 gramas; canela em pau e em pó e cravo da Índia; açúcar cristal açúcar de confeiteiro. Se não tiver, serve açúcar refinado; leite frio; quatro ovos; um cálice de conhaque, licor ou vinho do Porto.
Modo de fazer: corte o pão em rodelas de mais ou menos um dedo de largura. Embeba as rodelas no leite e na calda, preparada anteriormente com açúcar cristal, canela em pau e cinco dentes de cravo da Índia. Quando estiver em fervura, coloque o conhaque ou substituto. Depois de embeber as rodelas de leite, despeje um pouco de calda em cada uma delas e deixe descansar. Tomar cuidado para o pão não absorver muito leite ou calda. Não pode desmanchar. Bata os ovos, claras e gemas. Em seguida, mergulhe as rodelas de pão nos ovos batidos. Devem ser passadas no ovo dos dois lados.
Frite as rabanadas em óleo bem quente, tomando cuidado para não tostarem demais. Retire com a espumadeira e coloque na travessa forrada com papel absorvente. Polvilhe as rabanadas com açúcar de confeiteiro ou refinado, misturado com canela em pó.
O doce é muito bom e permanece delicioso até o dia seguinte. Sirva-se, ofereça aos convidados e um Feliz Natal.
Nota: aprendi fazer rabanadas com minha mãe, Graciana Coura de Miranda.


FONTE:
Shorpy Fotografia : Mulheres em uma aula de culinária no Hampton Institute em Hampton, Virginia. Fotografia de Frances Benjamin Johnston, c. 1899.
Rico em história, mergulhado na tradição, a Universidade de Hampton é uma instituição dinâmica e progressiva de ensino superior, que oferece uma ampla gama de programas técnicos, de artes liberais e de pós-graduação. Além de ser uma das melhores universidades historicamente negras no mundo, Hampton University é uma comunidade fortemente unido de alunos e educadores, que representam 49 estados e 35 territórios e nações.
A instituição historicamente negra, Hampton University é comprometida com o multiculturalismo. A Universidade atende alunos de diversas origens nacionais, culturais e económicas. Desde os seus primórdios até o presente, a instituição tem matriculados estudantes dos cinco continentes - América do Norte, América do Sul, África, Ásia e Europa - e muitos países, incluindo o Gabão, Quênia, Gana, Japão, China, Armênia, Grã-Bretanha e Rússia, bem como as ilhas havaianas e do Caribe e numerosas nações indígenas americanos. Colocando seus alunos no centro do seu planejamento, a Universidade oferece um ambiente educacional holística.


TEXTO: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 25/12/2017.
Organiação: Charles Aquino

quinta-feira, dezembro 21, 2017

CELEBRAÇÕES NATALINAS

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

Uma das maiores tradições do Natal desapareceu em decorrência da violência que assola o Brasil.

Era a Missa do Galo, celebrada do Oiapoque ao Chui, nas igrejas católicas do Brasil. Missa celebrada a meia noite, com frequência garantida de quase todos os habitantes.

As crianças ficavam em casa. Meia noite era muito tarde mesmo para adultos. Tão importante que dá causa e titulo a um dos melhores contos da língua portuguesa. Escrito por Machado de Assis, é uma obra prima.

As ceias eram esparsas. Importante mesmo era o almoço do Dia de Natal. Frango assado, leitão pernil e raramente, o peru. A ave era mais ou menos rara e poucas pessoas criavam o bicho em cativeiro.

Morto na cozinha da casa, carecia de uma dose de cachaça na véspera do abate. Diziam que era para amaciar a carne. Lembro-me do Rameh.

Machado conta a história de um peru degolado em sua casa. Atendendo ao pedido de sua mãe, dona Elza, foi dar a dose para a ave. Gostou da incumbência e deu uma dose e bebeu outra. 

Ao fim e ao cabo, quase esvaziaram a garrafa. Ele é o seu novo companheiro de gole. O peru " apagou”. Coma alcoólico. Morreu anestesiado.

Almoço de Natal tinha além das carnes, arroz de forno macarronada tutu de feijão com linguiça. Cada casa comia o que estivesse dentro de suas posses. Famílias grandes, todos ao redor da mesa, festejando o nascimento do Nazareno.

Vinho frisante Michelon ou Sangue de Boi, de garrafão. Cerveja preta, malzbier. Bebidas destiladas eram raras. Uísque, nem pensar.

Os presentes eram também escassos. O dinheiro era curto para a maioria. Quem ganhava uma bola de couro ou uma bicicleta Philips, inglesa, eram poucos. Coisa de gente rica. Carrinhos de lata ou de madeira. Os que andavam por conta própria eram movidos a corda, tal qual relógios.

O Papai Noel era lenda pagã, desaconselhada pela Santa Madre Igreja. Árvores de Natal também eram raras. Abundância de presépios, inclusive nas igrejas.

Grutas feitas de pano, engomado com grude de polvilho azedo e polvilhadas de pó de pedra e malacacheta. Uma belezura. O Deus menino deitado numa caminha de serragem.

José e Maria ajoelhados em torno da manjedoura e os três reis magos mais afastados. Um deles era negro. Sinal que naqueles tempos, nada de racismo.

Carneiros, bois e os camelos dos magos que atravessaram o deserto para render homenagem ao judeu recém-nascido.

O Natal era uma festa da família, de confraternização em torno de valores cristãos.

As sobremesas eram um caso à parte. Num próximo texto descrevo algumas e passo uma receita de doces natalinos. Prometo.


Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 21/12/2017.Acervo: Shorpy

Organização: Charles Aquino