Em diferentes momentos de sua história, Itaúna debateu maneiras de garantir ordem pública, autoridade e segurança nas ruas.
Em meio às tensões políticas da Revolução de
1930, surgiam os chamados “bate-paus”, grupos associados aos conflitos e
disputas locais.
Em 2026, a cidade volta a discutir a presença de uma força de atuação urbana, agora dentro de uma estrutura institucional e jurídica distinta: a implantação da Guarda Municipal.
Embora separados por quase um século, esses dois momentos revelam
como o tema da segurança pública acompanha as transformações políticas,
administrativas e sociais do município.
Durante a
Revolução de 1930, Itaúna ainda conservava características típicas de uma
pequena cidade do interior mineiro, marcada por limitações estruturais, ruas
precárias e pela lenta circulação de informações. Enquanto os acontecimentos
políticos se expandiam pelo país, grande parte da população compreendia apenas
parcialmente a dimensão dos conflitos nacionais.
O destacamento
itaunense da Força Pública de Minas Gerais, corporação que posteriormente daria
origem à atual Polícia Militar, havia sido deslocado para Belo Horizonte para
reforçar as tropas mineiras diante da crise que se desenrolava na capital.
Com a ausência
do contingente policial local, o Coronel Arthur Contagem Vilaça, então chefe do
Executivo municipal e presidente da Câmara de Vereadores, organizou um
destacamento provisório formado por civis para auxiliar na manutenção da ordem
pública.
Sem armamento
adequado, esses homens utilizavam porretes de madeira, origem da expressão
“bate-paus”. Alguns também usavam lenços vermelhos ligados à adesão local ao
movimento revolucionário, elemento que se tornaria uma das marcas simbólicas
daquele contexto político em Itaúna.
A formação dos
bate-paus evidencia também os limites da presença estatal nas pequenas cidades
do interior brasileiro durante as primeiras décadas do século XX. Diante da
retirada do efetivo policial para a capital mineira, o próprio município
precisou improvisar formas locais de autoridade e vigilância.
Os relatos
preservados pela memória local demonstram que muitos desses homens não eram
policiais profissionais, mas funcionários e moradores convocados em caráter
emergencial. Um dos casos mais conhecidos foi o de Benevides Garcia, fotógrafo,
“chauffeur do carro de praça” e motorista da Câmara Municipal na época,
que anos depois seria lembrado como integrante do destacamento improvisado.
Segundo seu
próprio relato, Arthur Vilaça o teria nomeado “sargento” dos bate-paus.
Benevides afirmaria anos depois que entrou para o grupo “contra a própria
vontade”, evidenciando o caráter improvisado daquela mobilização civil durante
a Revolução de 1930.
Mais do que
uma força organizada de segurança, os bate-paus refletiam um período marcado
pela precariedade institucional e pela forte influência das lideranças locais
sobre a vida pública. Em cidades pequenas do interior brasileiro, as fronteiras
entre servidor público, cidadão comum e agente de autoridade ainda eram
bastante fluidas.
A ausência de
uma estrutura profissional de policiamento fazia com que o próprio poder
municipal assumisse funções de mediação da ordem urbana diante de situações
consideradas emergenciais.
A aproximação
entre os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal, entretanto, exige
cautela histórica. Não se trata de afirmar que ambos possuam a mesma natureza,
função ou legitimidade, mas de compreender como diferentes épocas produziram
distintos modos de atuação do poder público nas ruas da cidade.
Na década de
1930, a força política frequentemente se apoiava em relações pessoais,
influência local e demonstrações informais de poder. Em 2026, o debate ocorre
dentro de uma lógica burocrática e institucional, marcada por regulamentação
jurídica, profissionalização e controle administrativo.
A proposta
contemporânea surge associada ao crescimento urbano, à organização do trânsito,
à proteção patrimonial e às demandas por maior atuação do poder público nos
espaços urbanos.
Revisitar a
memória dos bate-paus, portanto, não significa estabelecer equivalências
simplistas entre passado e presente. O interesse histórico está em perceber
como diferentes períodos produziram respostas próprias para questões
relacionadas à ordem urbana, à autoridade pública e às percepções locais de
insegurança.
A distância
entre as formas improvisadas de vigilância de 1930 e os projetos institucionais
discutidos em 2026 revela não apenas mudanças nas estruturas de segurança
pública, mas também transformações na própria relação entre administração
municipal, autoridade e espaço urbano.
Entre
permanências e mudanças, os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal
evidenciam como diferentes épocas produziram distintas maneiras de estruturar a
autoridade, a segurança e a atuação do poder municipal na trajetória histórica,
política e urbana de Itaúna.
Elaborado a
partir de reportagens publicadas pelo extinto Jornal Panorama Itaunense na
década de 1980 e de relatos sobre os “bate-paus” durante a Revolução de 1930
preservados em acervos de memória local.
© ITAÚNA DÉCADAS
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.
Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG
Acervo: Instituto
Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC
Imagem: Meramente ilustrativa, criada por Inteligência Artificial (IA).
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
