quarta-feira, maio 20, 2026

BATE-PAUS À GUARDA MUNICIPAL

ITAÚNA: tensões políticas Revolução de 1930

Em diferentes momentos de sua história, Itaúna debateu maneiras de garantir ordem pública, autoridade e segurança nas ruas. 

Em meio às tensões políticas da Revolução de 1930, surgiam os chamados “bate-paus”, grupos associados aos conflitos e disputas locais.

Em 2026, a cidade volta a discutir a presença de uma força de atuação urbana, agora dentro de uma estrutura institucional e jurídica distinta: a implantação da Guarda Municipal

Embora separados por quase um século, esses dois momentos revelam como o tema da segurança pública acompanha as transformações políticas, administrativas e sociais do município.

Durante a Revolução de 1930, Itaúna ainda conservava características típicas de uma pequena cidade do interior mineiro, marcada por limitações estruturais, ruas precárias e pela lenta circulação de informações. Enquanto os acontecimentos políticos se expandiam pelo país, grande parte da população compreendia apenas parcialmente a dimensão dos conflitos nacionais.

O destacamento itaunense da Força Pública de Minas Gerais, corporação que posteriormente daria origem à atual Polícia Militar, havia sido deslocado para Belo Horizonte para reforçar as tropas mineiras diante da crise que se desenrolava na capital.

Com a ausência do contingente policial local, o Coronel Arthur Contagem Vilaça, então chefe do Executivo municipal e presidente da Câmara de Vereadores, organizou um destacamento provisório formado por civis para auxiliar na manutenção da ordem pública.

Sem armamento adequado, esses homens utilizavam porretes de madeira, origem da expressão “bate-paus”. Alguns também usavam lenços vermelhos ligados à adesão local ao movimento revolucionário, elemento que se tornaria uma das marcas simbólicas daquele contexto político em Itaúna.

A formação dos bate-paus evidencia também os limites da presença estatal nas pequenas cidades do interior brasileiro durante as primeiras décadas do século XX. Diante da retirada do efetivo policial para a capital mineira, o próprio município precisou improvisar formas locais de autoridade e vigilância.

Os relatos preservados pela memória local demonstram que muitos desses homens não eram policiais profissionais, mas funcionários e moradores convocados em caráter emergencial. Um dos casos mais conhecidos foi o de Benevides Garcia, fotógrafo, “chauffeur do carro de praça” e motorista da Câmara Municipal na época, que anos depois seria lembrado como integrante do destacamento improvisado.

Segundo seu próprio relato, Arthur Vilaça o teria nomeado “sargento” dos bate-paus. Benevides afirmaria anos depois que entrou para o grupo “contra a própria vontade”, evidenciando o caráter improvisado daquela mobilização civil durante a Revolução de 1930.

Mais do que uma força organizada de segurança, os bate-paus refletiam um período marcado pela precariedade institucional e pela forte influência das lideranças locais sobre a vida pública. Em cidades pequenas do interior brasileiro, as fronteiras entre servidor público, cidadão comum e agente de autoridade ainda eram bastante fluidas.

A ausência de uma estrutura profissional de policiamento fazia com que o próprio poder municipal assumisse funções de mediação da ordem urbana diante de situações consideradas emergenciais.

A aproximação entre os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal, entretanto, exige cautela histórica. Não se trata de afirmar que ambos possuam a mesma natureza, função ou legitimidade, mas de compreender como diferentes épocas produziram distintos modos de atuação do poder público nas ruas da cidade.

Na década de 1930, a força política frequentemente se apoiava em relações pessoais, influência local e demonstrações informais de poder. Em 2026, o debate ocorre dentro de uma lógica burocrática e institucional, marcada por regulamentação jurídica, profissionalização e controle administrativo.

A proposta contemporânea surge associada ao crescimento urbano, à organização do trânsito, à proteção patrimonial e às demandas por maior atuação do poder público nos espaços urbanos.

Revisitar a memória dos bate-paus, portanto, não significa estabelecer equivalências simplistas entre passado e presente. O interesse histórico está em perceber como diferentes períodos produziram respostas próprias para questões relacionadas à ordem urbana, à autoridade pública e às percepções locais de insegurança.

A distância entre as formas improvisadas de vigilância de 1930 e os projetos institucionais discutidos em 2026 revela não apenas mudanças nas estruturas de segurança pública, mas também transformações na própria relação entre administração municipal, autoridade e espaço urbano.

Entre permanências e mudanças, os bate-paus e o atual debate sobre a Guarda Municipal evidenciam como diferentes épocas produziram distintas maneiras de estruturar a autoridade, a segurança e a atuação do poder municipal na trajetória histórica, política e urbana de Itaúna.

Elaborado a partir de reportagens publicadas pelo extinto Jornal Panorama Itaunense na década de 1980 e de relatos sobre os “bate-paus” durante a Revolução de 1930 preservados em acervos de memória local.

  

© ITAÚNA DÉCADAS
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG

 

 Fonte: Jornal Panorama Itaunense, pág. 9 (Década 80)

Acervo: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC

Imagem: Meramente ilustrativa, criada por Inteligência Artificial (IA).