Doutor Simonini nos arquivos do DOPS
(Parte 1)
Ao longo das décadas da ditadura militar brasileira, diferentes cidadãos, instituições e espaços de sociabilidade passaram a integrar os registros produzidos pelos órgãos de vigilância e informação do Estado.
Em Itaúna (MG),
documentos do Serviço Nacional de Informações (SNI), do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e de setores militares revelam o monitoramento de
médicos, professores, religiosos, lideranças políticas, estudantes e até
veículos da imprensa local entre os anos de 1969 e 1986.
Nesse
contexto, a trajetória documental do médico e político Dr. José Simonini Filho
surge de forma recorrente nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação,
frequentemente articulada à atuação do padre holandês Antônio Wiemmers, de
setores estudantis e do próprio Jornal Brexó, cuja circulação e conteúdo também
passaram a integrar os mecanismos de observação estatal.
Mais
do que acompanhar indivíduos considerados “subversivos”, a vigilância avançava
sobre diferentes dimensões da vida social, produzindo relatórios, cruzando
informações e construindo perfis políticos ao longo do tempo.
Décadas
depois, a frase atribuída ao general Golbery do Couto e Silva — “criei um monstro” — permanece como uma das sínteses mais contundentes sobre a
dimensão alcançada pelos aparatos de informação durante o regime militar.
A
documentação analisada nesta reportagem especial permite observar como esse
sistema também se fazia presente em escala local, articulando vigilância
política, circulação de discursos públicos e acompanhamento contínuo de atores
sociais em cidades do interior mineiro.
A análise da trajetória do Dr. José Simonini Filho,
a partir da documentação produzida pelos órgãos de repressão e informação do
Estado brasileiro, permite identificar não apenas a recorrência de seu nome em
diferentes registros, mas, sobretudo, a continuidade de sua inserção nos
circuitos de vigilância ao longo de distintas fases do regime.
Ao articular documentos oriundos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), de setores do Exército e do Serviço Nacional deInformações (SNI), evidencia-se não apenas a permanência da vigilância, mas
também a transformação de suas formas, da suspeição ideologicamente orientada
ao monitoramento relacional e sistemático característico da abertura política.
Os primeiros
registros, datados de 1969 e produzidos no âmbito da 4ª Região Militar, já
indicam a inscrição do Dr. Simonini nos sistemas de vigilância estatal. Tal
caracterização revela não apenas a observação de suas práticas, mas sua
inserção em categorias ideológicas próprias do regime, nas quais a crítica
política era interpretada como desvio e potencial ameaça.
Essa lógica
torna-se ainda mais evidente na documentação produzida pelo DOPS em outubro de
1971. Em correspondência enviada ao delegado de polícia de Itaúna, o órgão
solicitava “investigações sigilosas” sobre supostas reuniões consideradas “suspeitas”
realizadas na residência do cirurgião-dentista Mário Alves de Souza, das quais
participariam, o “Dr. José Simonini Filho e o padre holandês Antônio Wiemmers e
outros”.
A resposta
encaminhada pela autoridade policial local revela aspectos significativos da
lógica de produção dessas informações. O teor do documento é revelador não
apenas pelo conteúdo, mas pelo nível de detalhamento mobilizado: são
mencionados endereço específico, identificação profissional dos envolvidos e a
possível recorrência temporal dos encontros.
Após comentar
a suposta realização de reuniões “comunistas” na cidade, o delegado passa a
apresentar uma espécie de perfil político do Dr. Simonini, estruturado em
tópicos numerados, nos quais se misturam dados profissionais, impressões
pessoais, rumores e interpretações ideológicas. O relatório registrava:
1.
“O sr. Simonini é médico do INPS local e
exerce certa influência na classe operária desta cidade”;
2.
“É professor no Ginásio Industrial e
Estadual ‘Dona Judith Gonçalves’, onde leciona ciências naturais”. Esse Ginásio
está localizado no Bairro Santanense, o principal da cidade;
3.
“O Dr. Simonini é um antimilitarista por
excelência, perigosíssimo e, segundo ouvi dizer, costumava atacar a Revolução
de 1964”;
4.
“No mesmo Ginásio do item 2º, leciona
também o holandês Padre Antônio Wiemmers, de que falarei posteriormente”;
5.
“No Ginásio Industrial e Estadual “Dona
Judith Gonçalves” que tem como Diretor e Dr. Décio Gonçalves, nunca foi
hasteada a Bandeira do Brasil”.
Mais do que
comprovar práticas efetivamente subversivas, o documento evidencia a forma como
os órgãos de vigilância articulavam informações objetivas, comentários
pessoais, percepções cotidianas e elementos não verificados na construção de
perfis considerados politicamente sensíveis.
A própria
expressão “segundo ouvi dizer”, utilizada no relatório, revela que parte dessas
interpretações circulava em um terreno marcado por rumores e avaliações
subjetivas posteriormente incorporadas aos registros oficiais do aparato
repressivo.
Sob essa
perspectiva, a inclusão do Dr. José Simonini Filho nesses documentos não deve
ser interpretada como evidência automática de envolvimento em atividades
clandestinas, mas como parte de um processo mais amplo de enquadramento
político, no qual determinados indivíduos passavam a integrar circuitos
permanentes de observação estatal.
Mais do que
revelar exclusivamente o objeto vigiado, esses registros tornam visível o
próprio funcionamento da lógica repressiva, baseada na produção contínua de
suspeitas, classificações e conexões políticas.
Nesse
contexto, a vigilância não se dirigia exclusivamente a indivíduos isolados, mas
buscava mapear conexões entre diferentes atores sociais, incluindo
profissionais liberais, agentes educacionais e membros do clero.
A presença do
padre holandês Antônio Wiemmers, pároco do bairro Santanense, nos registros em
que também figura do Dr. José Simonini Filho, revela-se particularmente
significativa, na medida em que evidencia a ampliação do escopo da vigilância
para além do campo político formal e alcança também espaços religiosos,
educacionais e comunitários.
Sua
recorrência nos documentos, frequentemente associada a qualificações fortemente
negativas, nas quais é descrito como “elemento perigoso”, “subversivo” e
“antimilitarista”, evidencia que lideranças religiosas com inserção local
relevante eram percebidas pelos órgãos de segurança como potenciais focos de
influência e desestabilização.
Importa destacar que tais caracterizações emergem
de um enquadramento próprio da lógica repressiva, devendo, portanto, ser
analisadas com cautela metodológica. Cabe observar, que parte dos registros em
que Dr. Simonini é mencionado encontra-se articulada à atuação do referido
sacerdote, o que confere especial relevância a esse conjunto documental.
Por
essa razão, a análise mais aprofundada desse conjunto documental, especialmente
no que se refere à construção discursiva sobre o padre Antônio Wiemmers, será
retomada em seção específica.
Documentos
posteriores, como os de 1973, reiteram essas percepções, reforçando a
continuidade das interpretações construídas anteriormente. A repetição de
acusações e qualificações revela que a vigilância operava por acumulação e
sedimentação de informações, consolidando perfis políticos ao longo do tempo,
independentemente da produção de novas evidências.
Ao longo da
década de 1980, já no contexto da abertura política, observa-se uma inflexão
significativa nas formas de registro, sem que isso implique a interrupção da
vigilância. Os informes produzidos pelo SNI e pela Polícia Militar passam a
privilegiar o acompanhamento de atividades públicas, como discursos, eventos
acadêmicos e articulações partidárias, substituindo, em grande medida, a
linguagem explicitamente acusatória por uma descrição mais relacional.
Em 1983, por exemplo, o Dr. Simonini, então vereador pelo PMDB em Itaúna e presidente da Câmara Municipal, aparece em registros dos órgãos de informação durante sessão legislativa na qual criticava a violência policial, associando-a ao cenário político nacional sob a presidência do general João Figueiredo.
O episódio
repercutiu inclusive em meios de comunicação locais, evidenciando que seus
posicionamentos públicos continuavam a integrar os mecanismos de acompanhamento
estatal.
Outro elemento
particularmente relevante no documento é a incorporação, como anexo, de
recortes do jornal Brexó, veículo que já havia sido objeto de
monitoramento no contexto da imprensa itaunense. A presença desse material
indica que os órgãos de informação não apenas produziam seus próprios
registros, mas também integravam conteúdos da esfera pública à construção de
seus dossiês, ampliando o alcance da vigilância para além do campo
institucional.
Sob essa
perspectiva, o documento evidencia uma articulação entre vigilância estatal e
circulação de discursos públicos, na qual a imprensa local passa a ser não
apenas observada, mas também utilizada como fonte para a produção de
inteligibilidade sobre o cenário político.
Ainda que o
tom dos informes já se apresentasse menos explicitamente acusatório, a
recuperação de “antecedentes” demonstra a permanência de uma lógica de
interpretação que articulava passado e presente na construção de perfis
políticos.
Nesse contexto, o documento produzido pelos órgãos de informação reunia dados biográficos, trajetória profissional, atuação institucional e posicionamentos públicos, articulando diferentes temporalidades na elaboração de uma narrativa contínua sobre sua atuação.
Tal estrutura revela que a vigilância já não se
limitava à observação de eventos isolados, mas operava por meio da organização
sistemática de informações acumuladas, permitindo ao Estado produzir leituras
mais amplas e duradouras sobre determinados sujeitos.
Essa
continuidade também se expressa na recorrência de sua presença em eventos
considerados politicamente relevantes. Nesses registros, Dr. Simonini aparece
como agente inserido em múltiplos circuitos de sociabilidade, sendo acompanhado
não apenas por suas falas, mas por sua circulação em ambientes que reuniam
diferentes setores da oposição.
Um elemento particularmente revelador dessa continuidade é a atribuição de identificadores individuais, como o código “B1492809”, associado ao nome do Dr. Simonini em diferentes documentos ao longo da década de 1980.
A manutenção desse código
indica a existência de sistemas estruturados de indexação no interior do
aparato de inteligência, permitindo o cruzamento de informações, a recuperação
de antecedentes e o acompanhamento contínuo de determinados indivíduos por
diferentes órgãos de segurança.
A recorrência
desse identificador sugere que Dr. Simonini não era apenas mencionado em
informes circunstanciais, mas integrava um universo de indivíduos cuja atuação
era objeto de registro sistemático, evidenciando uma dimensão mais estruturada
e duradoura da vigilância estatal.
Essa lógica de
enquadramento se manifesta também em outros registros do período. Em informe
referente à cerimônia de posse de diretórios estudantis da Fundação de Ensino
Superior de Itaúna (FENSUPI), Dr. Simonini aparece como autoridade presente e
orador, defendendo a estatização do ensino e a gratuidade universitária.
Esta
reportagem foi elaborada a partir de documentos do DOPS/MG pertencentes ao
acervo do Arquivo Público Mineiro (APM), bem como de registros do Serviço Nacional de Informações (SNI) consultados por meio do Sistema de Informações do
Arquivo Nacional (SIAN), além de outras fontes documentais relacionadas ao
período da ditadura militar brasileira.
Os
termos e classificações reproduzidos refletem a linguagem e os enquadramentos
produzidos pelos próprios órgãos de vigilância da época, sendo analisados em
perspectiva histórica e documental.
A
pesquisa também contou com diálogo direto e levantamento de informações junto
ao Dr. José Simonini Filho, incluindo a apresentação da documentação utilizada
e a realização de questionário complementar sobre os episódios abordados.
Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº343/MG)
REFERÊNCIAS:
FONTES DOCUMENTAIS
BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série:
MIC/GNC/OOO. Dossiê: 84009914. Título: Conferência de José Maria Rabelo,
presidente regional do PDT em Minas Gerais, em Itaúna/MG. Código de
referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.84009914. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/BR_DFANBSB_V8/MIC/GNC/OOO/84009914/BR_DFANBSB_V8_MIC_GNC_OOO_84009914_d0001de0001.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.
BRASIL. Ministério do Exército. I Exército. 4ª Região Militar/4ª Divisão
de Infantaria. Estado-Maior – 2ª Seção. Assunto: José Simonini Filho (médico
e professor). Belo Horizonte, 28 jan. 1969. Documento confidencial. ArquivoPúblico Mineiro (APM), Pasta 4024, f. 239-240.
REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES
A Gazeta. “Monstro”: SNI se espalhou por 249 ministérios e
órgãos durante a ditadura. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/es/politica/monstro--sni-se-espalhou-por-249-ministerios-e-orgaos-durante-a-ditadura-03I9 . Acesso em: 08 maio 2026.
BBC News Brasil. Como funcionava o SNI, o “monstro” da repressão criado pela ditadura militar há 60 anos. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cz77xg4zIrpo . Acesso em: 08 maio 2026.
CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA. Presidentes José SimoniniFilho. Disponível em: https://www.cmitauna.mg.gov.br/portal/presidentes.
Acesso em: 9 maio 2026.
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
