sábado, agosto 29, 2026

DORNAS & MATTOS

Um Retrato de João Dornas Filho e o Brasil de Sua Época

Itaúna, cidade mineira de rica tradição cultural, tem entre seus filhos dois nomes ilustres que se destacaram não apenas em Minas Gerais, mas no cenário literário e intelectual do Brasil: João Dornas Filho e Mário Gonçalves de Matos.

Ambos foram membros da Academia Mineira de Letras, homens notáveis em seu tempo, que honraram com palavras e ações o ofício da escrita e o compromisso com a cultura.

Dois itaunenses notáveis  que são nomes que honram a memória intelectual de Itaúna e de Minas Gerais. Ambos membros da Academia Mineira de Letras, deixaram contribuições significativas para a história, a literatura e o pensamento político do Brasil. 

Essa carta, que reúne lembranças pessoais, crítica literária e observações sociais, é um documento valioso para conhecermos não apenas Silva Jardim, mas também o modo como Minas pensava, escrevia e se via no espelho de sua história.

A carta que aqui apresentamos é um verdadeiro tesouro histórico e literário: trata-se de uma correspondência escrita por Mário Matos a João Dornas Filho, que revela não só a admiração mútua entre dois grandes intelectuais itaunenses, mas também o reconhecimento do valor literário e humano de Dornas Filho, especialmente por sua obra dedicada ao revolucionário republicano Silva Jardim (temos a Rua Silva Jardim em Itaúna).

A carta é também um retrato de uma época, de um tempo em que a palavra era a maior arma dos homens públicos e em que a literatura e o jornalismo andavam lado a lado com a política e a história. Ao mesmo tempo em que Mário Mattos celebra a grandeza intelectual de Dornas, também relembra seus passos incertos e suas “faltas”, sem deixar de reconhecer o brilho incomum de sua escrita, sua vocação para a verdade e seu compromisso com a República.

Convidamos você a mergulhar nessa leitura e conhecer essa página tocante de nossa história. Uma carta que é mais que correspondência: é documento, é literatura, é memória viva de Itaúna. Descubra como a amizade, a palavra e a paixão pelas ideias uniram dois gigantes da cultura mineira.

Venha conhecer a carta de Mário Matos a João Dornas Filho — um tributo entre gigantes da nossa história!

 A CARTA  DE MÁRIO MATOS

Essa carta (escrita por Mário Matos como prefácio ou comentário ao livro sobre Silva Jardim, de autoria de João Dornas Filho) é uma peça literária e histórica de grande valor. Mais que um simples elogio à obra, a carta traça um duplo retrato: o de Silva Jardim, personagem central da biografia, e o do próprio autor João Dornas, então emergente na cena intelectual mineira.

Dito com lirismo e crítica sutil, a carta relembra os tempos iniciais de Dornas Filho como tipógrafo autodidata em Itaúna, destacando sua inteligência precoce, sua sede de leitura e seu talento para a escrita, características que, embora ignoradas pelas “sumidades locais”, já anunciavam sua vocação de escritor. É também um raro testemunho da vida intelectual do interior mineiro no início do século XX, onde a escassez de recursos era vencida com perseverança e amizade.

Ao comentar o livro Silva Jardim, Mário Matos não apenas exalta a escolha do tema e a qualidade do estilo, mas também ressalta a importância do gesto: escrever sobre uma figura política como Silva Jardim era, naquele tempo, um ato de justiça e memória. 

A carta faz paralelos entre a intensidade do biografado ( cuja trajetória foi "um caminho de fogo entre os combates e o Vesúvio" ) e a capacidade do autor em captar essa chama. Mais do que isso, o autor valoriza o esforço de Dornas em apresentar não só o político, mas o homem: idealista, íntegro, inquieto e, por isso mesmo, trágico.

Contudo, é impossível ignorar os traços de seu tempo: a carta carrega uma visão paternalista sobre a mulher, reduzida a uma “clareira de doçura e paz” na vida do homem público. Anna Margarida, esposa de Silva Jardim, é apresentada como a “redenção do sexo feminino”, em uma construção que espelha os valores patriarcais e moralistas da época. 

Essa visão, que hoje soaria ofensiva ou ultrapassada, serve de chave de leitura para compreendermos não apenas os limites individuais, mas a mentalidade de uma geração inteira de intelectuais brasileiros.

Por fim, Mário Matos lança um comentário perspicaz sobre a política brasileira "então e agora" ao citar uma das ideias de Silva Jardim:

“O homem não deve aparecer em público senão em determinadas ocasiões e sempre com um fim nobre e elevado.”

Com ironia refinada, Matos diz que, se essa máxima fosse levada a sério, muitos políticos deveriam se recolher à vida privada — uma crítica que atravessa o tempo.

 

CARTA RESERVADA  A JOÃO DORNAS FILHO

Logo que acabei a leitura do seu livro a respeito de Silva Jardim, feita de assentada, pus-me a rememorar a parábola de sua vida, João Dornas. Lembrei-me do seu tempo de typógrapho sem emprego na redação de pequenos jornais em Itaúna — “Centro de Minas” e “Tribuna” — onde você acumulava todos os cargos, fazendo quase sozinho, o jornal todo.

Em mangas de camisa, você trabalhava o dia inteiro e, à noite, lia devoradamente não só livros comprados por você, como emprestados por mim. Estes livros eram entregues honestamente e, percorrendo-os, eu via, pelos sinais, que os lera e dormira sobre eles.

Você aparecia naquelas manhãs brumosas nossa erra, à porta do meu escritório, chamando-me de modo invariável:

— Deputado?

— Entre, Záu...

Você entrava. Em duas ou três palavras, explicava-me, com penetração a inteligência do que meditara. Você era menino e moço, mais menino ainda do que moço. Frequentara a escola pública, em que deixara impressão oficial de crença vadia. Inteligente, mas vadia. Muitos o elogiavam pela única maneira porque as sumidades locais enaltecem os homens diferentes. Que pena João Dornas não querer estudar! 

Para essa gente, estudar é seguir carreira liberal, afim de que se possa, mais tarde, à sombra da lei, exercer a falta de talento e de caráter.  Recordo-me de que você se mostrava lisonjeado com a minha defesa constante, prevendo o que hoje é realidade: quando ninguém, se apercebe de muitos, seu nome já está na admiração dos homens cultos de Minas.

Bem sei que você cometeu faltas que francamente lhe reprovava, não havendo sido das menores alguns discursos proferidos sobre o túmulo raso de certos defuntos explicáveis, mas inteiramente municipais. Nesses momentos, era tomado a sério, porque parecia ter criado juízo. Mas não criava nada.

As coisas continuaram assim, até um dia que você me surgiu, novo e feliz, para despedir-se. Fora nomeado funcionário público em Belo Horizonte. O resto, que é tudo, pode ser totalizado no resumo de sua vitória. “Silva Jardim”.

Este livro, para mim, já é senáculo de uma vocação que venho acompanhando com simpatia desde os primeiros estampas lactentes. As virtudes de um escritor apuram-se em um cadinho: o estilo, exteriorização gráfica da personalidade. É com o escritor que se deixa ler por todo homem inteligente.

 O estilo de “Silva Jardim” em está apropriado ao assumpto. Nele se refletem movimento, eloquência, calor, vida, tudo isso compondo a existência progressiva de um homem, cuja atividade catapultosa “foi um caminho de fogo entre os combates e o Vesúvio.

  “A Idea republicana incidiu-lhe a vida inteira. A impressão singular que deixou foi a do movimento. Teve uma passagem entre os homens meteórica. Isto você fixou no livro de modo exato e humano, convindo dizer que a sua capitulação coincide com a realidade teatral da ação pública de Silva Jardim.

E’ também um ato de justiça retardatária. Não se continha noção certa da sua figura excepcional, a não ser por episódios salteados, os quais, muitas vezes, costumam desfigurar os homens. Você veio mostrar a força e o ímpeto com que Silva Jardim sempre gravitou no sentido de implantar a Republica no Brasil.

É o desenho do político. Não esqueceu, porém, o indivíduo. Para Silva Jardim era tudo difícil, como para os que tem escrúpulos morais. Seu temperamento proceloso era agravado pela integridade de caráter.

O homem de fé, de caráter e de coração vive mal e perigosamente, mas entra de pé na História. Querem os céticos que tal compensação seja precária. Não sei ...

Outros aspectos, inéditos por assim dizer, são expostos com espontaneidade, nessa biografia semeada em crônicas. Foi novidade para mim verificar em Silva Jardim a capacidade de pensar. Ha aqui algumas ideias dele, que me ficaram. Parecem simples, mas, a meu ver, têm um grande alcance. 

Citarei unicamente uma: “O homem não deve aparecer em público; senão em determinadas ocasiões e sempre com um fim nobre e elevado.” Se este pensamento for invertido em norma de conduta, número apreciável de políticos no Brasil recolher-se-á à vida privada.

Na carreira de todo homem agitador existe, quase sempre, uma clareira de doçura e paz. Na de Silva Jardim foi Anna Margarida, sua esposa. Este destino da mulher é a coisa mais consoladora deste mundo. Só isso redime o sexo de suas falhas, cuja designação peço licença para não declinar... 

Chama você atenção do leitor para esse fato: a campanha republicana teve, em Minas, decidido apoio dos médicos ao contrário do que se narrou com os bacharéis. Não há estranhável no caso. Os médicos atuam clinicamente, o bacharel é de sua própria natureza profissional um tanto oportunista e suspicaz


Elaboração: Charles Aquino

Revista Belo Horizonte/MG 1933 

Imagem meramente ilustrativa 

Veja mais em: Rua Silva Jardim - Itaúna/MG


domingo, agosto 23, 2026

NORMALISTAS 1928


Escola Estadual em Itaúna

Você conhece as normalistas de 1928?

Em 1928, jovens de Itaúna e de diversas cidades mineiras e até do Espírito Santo estudavam na antiga Escola Normal “Manoel Gonçalves”, instituição que já havia conquistado importante reconhecimento no cenário educacional de Minas Gerais.

Quase um século depois, seus rostos permanecem registrados em fotografias que nos permitem reencontrar uma geração de jovens que se preparava para uma profissão que transformaria a educação de diferentes regiões: o magistério.

Quem eram essas normalistas? De onde vieram? Quem eram seus professores? 

O Sertões de Minas convida você a conhecer essa história e a olhar para uma fotografia de 1928 não apenas como uma imagem antiga, mas como um documento de uma época e da trajetória de mulheres que participaram da expansão da educação em Minas Gerais.

Venha conhecer as Normalistas de 1928 e descobrir um pouco mais dessa história.

Acesse a história completa no Portal Sertões de Minas.

História, memória e patrimônio dos nossos lugares.

 Sertão de Minas gerais
 
Charles Aquino – Historiador


quinta-feira, agosto 20, 2026

ANA CINTRA: OURO PRETO A ITAÚNA

Escola Ana Cintra Itaúna Minas Gerais

Educação e alfabetização de uma pioneira entre o Império e a República

Anna Cintra de Carvalho (1868–1944) ocupa um lugar significativo na história da educação de Minas Gerais.

Professora, diretora escolar e autora de material destinado ao ensino da leitura, sua trajetória atravessou diferentes momentos da educação mineira entre o final do Império e as primeiras décadas da República.

Sua carreira esteve ligada à formação de professores, à direção de grupos escolares, às experiências de renovação dos métodos de ensino e à produção de materiais destinados à alfabetização. 

Em 1928, depois de mais de quatro décadas dedicadas ao magistério, foi homenageada na II Conferência Nacional de Educação, realizada em Belo Horizonte, como representação do mestre brasileiro.

Décadas depois de sua morte, seu nome seria oficialmente atribuído a um jardim de infância em Itaúna, estabelecendo uma ligação entre sua trajetória na educação mineira e a história da educação infantil do município.

Segundo a documentação publicada por ocasião da II Conferência Nacional de Educação de 1928, Ana Cintra diplomou-se pela Escola Normal de Ouro Preto em 1882, aos 14 anos de idade. Como ainda não atingira a idade mínima prevista pelo regulamento, seu título foi concedido mediante uma lei aprovada pela Assembleia Provincial.

O episódio é significativo porque situa Ana Cintra em um momento em que a formação profissional do magistério estava sendo institucionalizada em Minas Gerais. Sua entrada precoce na profissão não foi apenas uma particularidade pessoal: sua formação ocorreu dentro de uma estrutura educacional que começava a definir normas específicas para a preparação dos professores.

No ano seguinte, em 1883, abriu um curso particular, que funcionou até 1889. Nesse último ano, foi nomeada para uma cadeira de ensino misto criada na freguesia de Antônio Dias. Entre 1887 e 1888, havia substituído professoras que se encontravam licenciadas. Em 1891, foi removida para a aula prática anexa à Escola Normal.

Sua trajetória inicial já revela uma característica que permaneceria ao longo de sua carreira: Ana Cintra transitou por diferentes espaços de ensino, combinando experiência como professora, atuação institucional e práticas relacionadas à formação docente. 

Em 1904, com a supressão das Escolas Normais, Ana Cintra voltou a abrir seu curso particular. Dois anos depois, em agosto de 1906, transferiu sua residência para Belo Horizonte. A mudança ocorreu em um momento importante da educação mineira.

Durante o governo de João Pinheiro, Ana Cintra foi chamada pelo secretário do Interior para participar de experiências relacionadas aos novos métodos e programas de ensino que acompanhavam a reforma educacional então em curso. 

A documentação da II Conferência Nacional de Educação de 1928 apresenta sua atuação como parte das experiências ligadas à renovação do ensino mineiro. Estudos posteriores sobre a história da alfabetização também relacionam a produção de Ana Cintra às transformações metodológicas associadas à reforma de João Pinheiro.

É importante, entretanto, não atribuir a Ana Cintra responsabilidades que as fontes atualmente reunidas não comprovam. Podemos afirmar que ela participou de experiências com novos métodos e programas de ensino e que foi posteriormente reconhecida como colaboradora da reforma.  Não temos, neste conjunto documental, elementos suficientes para reconstruir toda a extensão de sua participação na formulação da reforma.

A partir de 1907, Ana Cintra passou a ocupar posições de direção na estrutura dos grupos escolares da capital. Em 5 de agosto do mesmo ano, assumiu a direção do 2º Grupo Escolar da capital, como substituta da diretora Maria Guilhermina de Loureiro Andrade. Em 30 de março de 1910, foi nomeada diretora do 3º Grupo Escolar, posteriormente denominado Grupo Escolar Cesário Alvim, criado pelo Decreto nº 2.613, de 17 de agosto de 1909.

Os documentos relacionados aos grupos escolares revelam uma preocupação com diferentes aspectos da organização da escola. Entre essas experiências esteve a Escola Noturna Feminina da Capital, instalada em 1913 nas dependências do 3º Grupo Escolar, então dirigido por Ana Cintra. A escola funcionou entre 1913 e 1917.

Essa experiência é particularmente relevante porque demonstra que a educação desenvolvida naquele espaço não estava limitada às crianças em idade escolar regular. Sua atuação nesse período ultrapassou as funções administrativas, havia também uma iniciativa destinada à escolarização de mulheres adultas.

Ana Cintra e o ensino da leitura

Uma das dimensões mais importantes de sua trajetória está relacionada ao ensino da leitura.

Em 1917, quando dirigia o Grupo Escolar Cesário Alvim, Ana Cintra relatou às autoridades educacionais a aplicação de lições de leitura que ela própria havia organizado.

Segundo o registro de sua experiência, suas lições procuravam ser simples e acessíveis às crianças e pretendiam evitar aquilo que ela considerava um problema dos livros então utilizados: a aprendizagem baseada na decoração.

Esse episódio é fundamental para compreender Ana Cintra como educadora.

Ela não se limitava a utilizar os materiais disponíveis. A experiência acumulada em sala de aula e na direção escolar levou-a a organizar suas próprias lições e submetê-las à apreciação das autoridades educacionais. A experiência posteriormente transformou-se em livro.

A obra de Ana Cintra intitulada Lições para o ensino completo da leitura teve sua 3ª edição publicada em 1922, pela Imprensa Oficial de Minas Gerais.

Pesquisas sobre a história da alfabetização identificam na obra a combinação dos métodos analítico e sintético, característica que permite classificá-la como uma proposta eclética. A organização das lições partia de sentenças que posteriormente eram analisadas em sílabas e relacionadas a vocábulos contendo a letra ou consoante trabalhada.

A proposta buscava fazer com que a criança pudesse decompor pequenos vocábulos em seus elementos sonoros e posteriormente utilizar esses elementos para formar novas palavras. A cartilha também apresentava desenhos e fotografias, em número relativamente reduzido, utilizados em associação com as palavras e os elementos trabalhados nas lições.

Estudos posteriores apontam ainda que a obra combinava leitura e escrita e organizava os vocábulos em uma sequência progressiva. (Repositório da UFMG)

A cartilha passou a ser conhecida não apenas pelo título, mas também pelo nome da autora. Pesquisas sobre sua circulação registram expressões como “Cartilha da Ana Cintra” e “Processo de Ana Cintra”. (Repositório da UFMG)

Isso é um indicador importante da repercussão alcançada por seu trabalho: o nome da professora passou a identificar o próprio processo de ensino. A publicação de Lições para o ensino completo da leitura não ficou restrita à experiência individual de sua autora.

Pesquisas sobre os livros escolares mineiros mostram que a obra teve circulação em escolas do estado. A terceira edição foi publicada pela Imprensa Oficial em 1922 e, no ano seguinte, a obra passou à Livraria Francisco Alves. Os estudos identificam pedidos e registros que demonstram sua presença no circuito de livros escolares de Minas Gerais. (Portcom)

Outro estudo sobre a distribuição das cartilhas mineiras identifica as “Lições de Ana Cintra” entre as obras de maior repercussão e registra que o livro foi aprovado pelo Conselho Superior de Instrução e adotado em escolas do estado. (Repositório da UFMG)

A documentação sobre os processos educativos de leitura registra ainda que as lições de Ana Cintra foram publicadas em livro e adotadas pelo Conselho Superior em 1924 para uso no primeiro semestre do 1º ano.

Portanto, sua contribuição não deve ser reduzida ao fato de ter escrito uma cartilha. Sua experiência pedagógica transformou-se em material impresso e passou a integrar o universo oficial dos livros destinados ao ensino da leitura em Minas Gerais.

 Em 17 de junho de 1925, Ana Cintra foi nomeada para o Grupo Escolar Olegário Maciel. Permaneceu trabalhando até 17 de setembro de 1926, quando obteve sua aposentadoria. Naquele momento, contabilizava 36 anos, dois meses e 19 dias de serviço público.

Sua aposentadoria encerrou uma longa carreira no serviço público, mas não significou o desaparecimento de seu nome da história da educação mineira. Pouco tempo depois, Ana Cintra seria novamente colocada no centro de uma importante cerimônia.

A homenagem de 1928

Entre 4 e 11 de novembro de 1928, Belo Horizonte sediou a II Conferência Nacional de Educação da Associação Brasileira de Educação. Na ocasião, Ana Cintra recebeu uma homenagem especial.

A documentação oficial da Conferência registra que ela foi escolhida como representação do mestre brasileiro, destacando sua longa dedicação à instrução pública e sua atuação durante a reforma do ensino mineiro. A homenagem possui grande significado histórico.

Ana Cintra não estava sendo reconhecida simplesmente como uma professora aposentada. Sua trajetória estava sendo utilizada como representação de uma determinada concepção do magistério: a do professor que dedicara grande parte da vida à educação.

No discurso pronunciado durante a homenagem, Ana Cintra recordou sua entrada na profissão e falou sobre as dificuldades encontradas no caminho, a necessidade de compreender os alunos e o dever do mestre.

A documentação contemporânea apresenta, assim, uma imagem bastante clara de como Ana Cintra era percebida no final de sua carreira: uma professora experiente, diretora escolar, autora e participante das transformações educacionais de Minas Gerais. 

Sabemos que Ana Cintra faleceu em 1944. A documentação atualmente reunida, porém, não nos permite reconstruir com segurança os seus últimos anos entre a homenagem de 1928 e sua morte. Por isso, não é adequado preencher esse período com informações não documentadas. 

O que podemos afirmar é que, em 1928, sua trajetória profissional já havia recebido um reconhecimento público de grande importância e que seu nome permaneceu ligado à história da educação mineira. 

O Jardim de Infância Ana Cintra em Itaúna

A história de Ana Cintra ganha uma nova dimensão em 1956, doze anos após sua morte. Aqui possuímos agora uma documentação oficial particularmente importante.

Em 10 de janeiro de 1956, o Governo de Minas Gerais publicou o Decreto nº 4.890, determinando:

“Cria um jardim de infância na Cidade de Itaúna.”

O decreto criou a instituição, mas não lhe atribuiu naquele momento o nome de Ana Cintra.

Quatro meses depois, ocorreu a denominação.

Em 17 de maio de 1956, o Governo de Minas Gerais publicou o Decreto nº 5.017, cujo título é:

“Dá a denominação de ‘Ana Cintra’ ao Jardim de Infância de Itaúna.”

O próprio decreto determina que fosse dada a denominação “Ana Cintra” ao Jardim de Infância de Itaúna.

Temos, portanto, uma sequência documental precisa:

10 de janeiro de 1956 — criação do Jardim de Infância de Itaúna.

17 de maio de 1956 — atribuição oficial do nome Ana Cintra.

Essa distinção é importante porque o decreto de maio não explica a razão da escolha do nome.

A documentação oficial comprova a denominação, mas não informa, no texto do decreto, quem propôs o nome ou quais foram os motivos específicos que levaram o Governo de Minas Gerais a escolher Ana Cintra.

Há uma explicação registrada posteriormente na memória local, segundo a qual a denominação constituiu uma homenagem à educadora mineira. Essa informação deve ser tratada como memória histórica, e não confundida com o conteúdo do decreto. Essa distinção será importante para pesquisas futuras. 

Os testemunhos de antigos alunos permitem reconstruir parte da trajetória da instituição.

Vicentina Brant afirma ter sido aluna da primeira turma do Jardim de Infância Ana Cintra e identifica Graciana Coura de Miranda como a primeira diretora. Em seu depoimento, recorda também as professoras Noêmia Delgado e Terezinha Lara e descreve a escola como um espaço profundamente presente em sua memória de infância.

Outro testemunho, de Angélica de Aquino, registra sua passagem pela escola em 1968, quando o Jardim de Infância ainda funcionava na Avenida Getúlio Vargas. Ela recorda o casarão, o pátio, as grandes gangorras e as atividades realizadas com argila. Também identifica Graciana Coura de Miranda como diretora naquele período.

Anos depois, o antigo aluno Prof. Luiz Mascarenhas recordaria o Jardim de Infância Ana Cintra funcionando na Rua Professor Francisco Santiago, em um antigo casarão. Seu testemunho descreve o portão, o alpendre, o pátio, os brinquedos, as salas e as atividades escolares realizadas com mimeógrafo, massa de modelar e peças de madeira.

Esses testemunhos não servem para reconstruir a biografia de Ana Cintra. Eles possuem outra função: registrar a permanência de seu nome na experiência educacional de sucessivas gerações de crianças de Itaúna. 

A história de Ana Cintra pode ser observada em três momentos distintos.

O primeiro está em Ouro Preto, onde se formou e iniciou sua carreira ainda no século XIX.

O segundo está em Belo Horizonte, onde participou das experiências relacionadas à renovação do ensino, dirigiu grupos escolares e desenvolveu suas experiências com o ensino da leitura.

O terceiro aparece em Itaúna, décadas depois de sua morte, quando seu nome foi oficialmente atribuído a um jardim de infância.

Essa última etapa é especialmente significativa porque não devemos confundir a trajetória da educadora com a história posterior da instituição. Ana Cintra não atuou no Jardim de Infância de Itaúna — ela havia falecido em 1944, enquanto a instituição foi criada em 1956. O que existe é uma continuidade da memória por meio do nome. É justamente essa permanência que torna a história interessante.

Uma educadora que começou sua carreira ainda no século XIX, participou da transformação do ensino mineiro, dirigiu grupos escolares, produziu material para alfabetização e foi homenageada em 1928 como representação do magistério passou, após sua morte, a identificar uma instituição destinada à educação das crianças pequenas em Itaúna.

A trajetória documentada de Ana Cintra permite compreendê-la como uma educadora que atuou em diferentes dimensões da escola.

Foi professora, porque dedicou décadas ao ensino.

Foi diretora, porque esteve à frente de importantes grupos escolares de Belo Horizonte.

Foi autora, porque transformou sua experiência pedagógica em uma obra destinada ao ensino da leitura.

Foi também uma experimentadora de práticas de alfabetização, pois suas próprias lições nasceram de sua experiência escolar e posteriormente foram publicadas e incorporadas ao circuito educacional mineiro.

Sua importância histórica não depende de transformá-la em uma figura excepcional em todos os aspectos da educação brasileira. As fontes permitem uma afirmação mais precisa e, justamente por isso, mais forte:

Ana Cintra foi uma educadora mineira que participou de importantes processos de renovação do ensino, dirigiu grupos escolares, produziu material próprio para alfabetização e alcançou reconhecimento público no campo educacional de seu tempo.

Em Itaúna, seu nome adquiriu uma segunda vida.

O Decreto nº 5.017, de 17 de maio de 1956, transformou oficialmente “Ana Cintra” no nome do Jardim de Infância de Itaúna. A partir daí, sua memória passou a fazer parte da história educacional do município.

E é nessa passagem — de uma professora da educação mineira a um nome preservado por uma escola itaunense — que sua história ganha uma dimensão que ultrapassa sua própria vida.  

Ana Cintra de Carvalho — síntese cronológica

1868 — Nascimento de Anna Cintra de Carvalho.

1882 — Diploma-se pela Escola Normal de Ouro Preto, aos 14 anos.

1883 — Inicia curso particular.

1887–1888 — Substitui professoras licenciadas.

1889 — Nomeada para cadeira de ensino misto em Antônio Dias.

1891 — Passa à aula prática anexa à Escola Normal.

1904 — Retoma o curso particular após a supressão das Escolas Normais.

1906 — Muda-se para Belo Horizonte e participa de experiências relacionadas aos novos métodos e programas de ensino.

1907 — Assume a direção do 2º Grupo Escolar da capital.

1910 — Torna-se diretora do 3º Grupo Escolar, posteriormente Cesário Alvim.

1913–1917 — Funciona a Escola Noturna Feminina da Capital nas dependências do grupo escolar.

1917 — Apresenta experiências com lições de leitura organizadas por ela.

1922 — Publicada a 3ª edição de Lições para o ensino completo da leitura.

1923 — A obra passa à Livraria Francisco Alves.

1924 — Suas lições são adotadas pelo Conselho Superior para o primeiro semestre do 1º ano.

1925 — Nomeada para o Grupo Escolar Olegário Maciel.

1926 — Aposenta-se, após 36 anos, 2 meses e 19 dias de serviço público.

1928 — Homenageada na II Conferência Nacional de Educação como representação do mestre brasileiro.

1944 — Falecimento.

10 de janeiro de 1956 — Criado oficialmente um jardim de infância na cidade de Itaúna pelo Decreto nº 4.890.

17 de maio de 1956 — Decreto nº 5.017 dá oficialmente a denominação “Ana Cintra” ao Jardim de Infância de Itaúna.

Décadas seguintes — O nome permanece na memória de sucessivas gerações de alunos itaunenses. 

 

FONTES E REFERÊNCIAS

1. Fontes primárias e documentação oficial

MINAS GERAIS. Coleção dos Decretos de 1956. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.

MINAS GERAIS. Decreto nº 4.890, de 10 de janeiro de 1956. Cria um jardim de infância na Cidade de Itaúna. In: MINAS GERAIS. Coleção dos Decretos de 1956. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.

MINAS GERAIS. Decreto nº 5.017, de 17 de maio de 1956. Dá a denominação de “Ana Cintra” ao Jardim de Infância de Itaúna. In: MINAS GERAIS. Coleção dos Decretos de 1956. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.

SILVA, Arlette Pinto de Oliveira e (org.). Páginas da história: notícias da II Conferência Nacional de Educação da ABE: Belo Horizonte, 4 a 11 de novembro de 1928. Brasília, DF: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2004. Publicação do INEP 

2. Estudos acadêmicos

FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva; MACIEL, Francisca Izabel Pereira. A história da alfabetização: contribuições para o estudo das fontes. In: REUNIÃO ANUAL DA ANPEd, 29., 2006, Caxambu. Anais... Caxambu: ANPEd, 2006.

FRADE, Isabel Cristina Alves da Silva; LANA, Priscila Maria de. Imagens em livros escolares denominados cartilhas. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 3., 2004, Curitiba. Anais... Curitiba: Sociedade Brasileira de História da Educação, 2004.

KLINKE, Karina. Processos educativos de leitura nos grupos escolares de Minas Gerais. In: CONGRESSO DE PESQUISA E ENSINO EM HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS, 2., 2008, Uberlândia. Anais... Uberlândia: EDUFU, 2008.

MACIEL, Francisca Izabel Pereira. Lúcia Casasanta e o método global de contos: uma contribuição à história da alfabetização em Minas Gerais. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 2001. (Repositório da UFMG)

NOGUEIRA, Vera Lúcia. A cultura material da escola noturna de Minas Gerais nas primeiras décadas da República. EDUCA – Revista Multidisciplinar em Educação, v. 5, n. 10, p. 183-204, 2018. DOI: 10.26568/2359-2087.2018.3225. 

3. Fontes de memória e história local

AQUINO, Angélica de. “Ana Cintra”: gangorras tocavam o céu. Itaúna em Décadas, 23 maio 2017. Depoimento de ex-aluna.

BRANT, Vicentina. Escola de criança feliz. Itaúna em Décadas, 25 maio 2017. Depoimento de ex-aluna da primeira turma do Jardim de Infância Ana Cintra.

MASCARENHAS, Luiz. Meu Jardim de Infância “Ana Cintra”. Itaúna em Décadas, 23 maio 2017. Depoimento memorialístico.

MASCARENHAS, Luiz. Que saudade da professorinha. Santana FM, 1 ago. 2020. Memória sobre a história da educação infantil em Itaúna. 

4. Documento de pesquisa local

AQUINO, Charles. História da Escola Ana Cintra. Itaúna, 2016. Documento de pesquisa não publicado. 

5. Imagem

PENIDO, Angela. Publicação sobre Ana Cintra de Carvalho. Facebook, 22 maio 2017. Fotografia e depoimento pessoal sobre sua bisavó materna. Acervo digital. 

Nota do autor: Esta biografia foi elaborada a partir do cruzamento de documentação oficial, estudos acadêmicos e fontes de memória local. As informações sobre a trajetória de Ana Cintra foram diferenciadas das memórias posteriores sobre o Jardim de Infância Ana Cintra, em Itaúna.

Fonte da imagem: fotografia de Ana Cintra publicada por Ângela Penido em sua página no Facebook, em 22 de maio de 2017. A imagem acima foi recriada digitalmente, tendo a fotografia como referência visual.

Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

@ITAÚNA DÉCADAS - HISTÓRIA & MEMÓRIA