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quinta-feira, dezembro 28, 2023

PARQUE DAS ÁGUAS

A Prefeitura de Itaúna, através de uma nova legislação, criou três Parques das Águas, cada um com uma denominação especial: o parque na Chácara da Prefeitura chamou de "Dr. Lima Coutinho" (13º mandato como prefeito 1947-1951), o parque na Vila Mozart denominou "Dr. Lincoln Nogueira Machado" (10º mandato como prefeito 1936-1947), e o parque nas margens do Ribeirão dos Capotos entre Santanense e Garcias designou "Victor Gonçalves de Sousa" (14º mandato como prefeito 1951-1955).

Criou um cargo de "Fiscal dos Parques das Águas" para garantir a supervisão direta do prefeito sobre essas áreas. Proibiu expressamente o corte de árvores nas imediações dos parques e estabeleceu multas que variavam de Cr$ 1.000,00 (Mil cruzeiros) a Cr$ 10.000,00 (Dez mil cruzeiros) para quem violasse essa proibição. A partir de 1956, incluiu nos orçamentos municipais verbas específicas para a manutenção e serviços relacionados aos parques. A administração definiu as áreas protegidas, após consulta com o engenheiro responsável pela perfuração de poços artesianos.

As denominações dos parques homenagearam figuras importantes para o desenvolvimento do sistema de abastecimento de água de Itaúna. Dr. Lima Coutinho foi um prefeito pioneiro nesse setor, e Victor Gonçalves de Sousa contribuiu significativamente para a pesquisa e perfuração de novos mananciais. Dr. Lincoln Nogueira Machado, homenageado no parque da Vila Mozart, foi reconhecido por seu trabalho contínuo em benefício do município.

A proposta inicial de regulamentar a perfuração de poços artesianos e o uso das águas subterrâneas considerou inconstitucional, pois a matéria ultrapassava a jurisdição municipal, sendo de competência da União.  Aprovou-se esta proposta da lei pela Comissão de Legislação e Justiça e ela passou por três discussões na sala das sessões, sendo finalmente aprovada em 28 de julho de 1955. O prefeito autorizou a criar regulamentos para assegurar o cumprimento desta lei. Revogou qualquer disposição em contrário, e a lei entrou em vigor na data de sua publicação. Assim, entrou em contato com o Ministério da Agricultura para buscar uma autorização que permitisse a fiscalização do uso das águas subterrâneas em Itaúna, aguardando resposta para firmar um convênio nesse sentido.


A PREFEITURA MUNICIPAL DE ITAÚNA

Cria Parques das Águas na cidade de Itaúna, da denominação aos mesmos e indica providências para sua conservação e proteção. O povo do Município de Itaúna, por seus representantes, decreta e eu, em seu nome, sanciono a seguinte lei:
Art. 1º Ficam criado em Itaúna três Parques das Águas: Chácara da Prefeitura, com denominação de “Dr. Lima Coutinho”; Vila Mozart, com o nome de “Dr. Lincoln Nogueira Machado”; Margens do Ribeirão dos Capotosentre Santanense e Garcias, com a designação de “Victor Gonçalves de Sousa”.
Art. 2º Fica criado, também, o cargo de “Fiscal dos Parques das Águas”, diretamente subordinado ao senhor Prefeito.
Art. 3º Proíbe-se, expressamente, o corte de qualquer árvore, nas imediações destes Parques.
Art. 4º A partir de 1956, dos Orçamentos constará verba própria para o custeio dos serviços previstos nesta lei.
Art. 5º Aquele que, sem licença, cortar árvores nas imediações dos Parques das Águas,  cará sujeito a multa de Cr$ 1.000,00 a Cr$ 10.000,00.
Art. 6º As imediações dos Parques das Águas, em que se proíbe o corte de árvores, serão delimitadas pelo senhor Prefeito, depois de ouvido o engenheiro encarregado da perfuração de poços artesianos em Itaúna.
Art. 7º Fica o senhor Prefeito autorizado a baixar regulamento para o cumprimento desta lei.
Art. 8º Revogam-se as disposições em contrário.
Art. 9º Esta lei entrará em vigor, na data de sua publicação.

   A denominação que propomos traduz uma justa homenagem aos batalhadores do povo de novo serviço em Itaúna. Realmente, o Dr. Lima Coutinho merece esta homenagem por ter sido o Prefeito que abriu, no meio de muitas incompreensões, o caminho do novo sistema de abastecimento de água da cidade. Inegável também é a contribuição dada a este serviço pelo sr. Victor Gonçalves de Sousa, em cuja gestão teve prosseguimento os trabalhos de pesquisa e perfuração de novos mananciais, estes que serão colocados a serviço do povo o mais brevemente possível.
   E ocorreu-nos o nome do Dr. Lincoln Nogueira Machado para patrono do Parque da Vila Mozart, a ser constituído dentro de dois anos, pois, sabemos que estamos prestando com esta medida merecida homenagem ao ex-prefeito que muito trabalhou pelo município e que continua prestando assinalados serviços ao povo como vereador.
   Era nosso intento regular, também, nesta lei a perfuração de poços artesianos e aproveitamento das águas subterrâneas, em Itaúna. Consultado o senhor Advogado da Prefeitura, opinou ele no sentido da impossibilidade de tal regulamentação, pois o assunto foge a alçada dos poderes municipais.
Em seu parecer assinalou o Dr. Hélio Gonçalves de Sousa que a proibição para perfuração de poços artesianos em terrenos particulares pelos seus respectivos proprietários, corresponderia a uma restrição ao direito de propriedade e, por isso mesmo, a Lei municipal, seria frontalmente contra a Constituição e o Código Civil.
   Como, entretanto, o subsolo e consequentemente as águas subterrâneas pertencem à União e não aos particulares, em vista do que preceitua o Código de Minas, sugeriu aquele advogado e entrasse esta Prefeitura em entendimentos com o Ministério da Agricultura – Serviço da Produção Mineral – a de que fosse proibida a utilização das águas subterrâneas, por particulares, em Itaúna, sem prévio entendimento com a Prefeitura. Neste sentido, nos dirigimos, em ofício, ao Ministério citado, estando esta Prefeitura aguardando resposta. Sendo a União a pessoa capaz de legislar sobre o assunto, medida que adotamos é a mais prudente. Acreditamos que conseguiremos pela autorização em convênio, fiscalizar o uso das águas subterrâneas em Itaúna.

Itaúna, 19 de julho de 1955 Milton de Oliveira Penido Prefeito Municipal
 
Comissão de Legislação e Justiça
A Comissão opina por aprovação a proposta Aprovado em 1ª discussão: Sala das sessões, 26/07/1955 Aprovado em 2ª discussão: Sala das sessões, 27/07/1955 Aprovado em 3ª discussão: Sala das sessões, 28/07/1955.

Referências:
Fonte e Texto: Câmara Municipal de Itaúna / Projetos de Lei nº 5/1955
Vídeo da cidade de Itaúna/Acervo Itaúna Bons Temos: 70,80,90 
Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino. 

sexta-feira, outubro 15, 2021

ITAÚNA PERÍODO IMPERIAL


O valor de quatro contos de réis, para a construção de um chafariz em Sant’ Anna de São João Acima naquele período, seria uma quantia muito expressiva e opulenta.  

O papel social e urbano dos chafarizes em Minas Gerais no final do século XVIII e início do XIX, destacando o chafariz como um símbolo não apenas de abundância de água, mas também como um espaço de convivência social e desenvolvimento urbano. Em locais como Vila Rica (atual Ouro Preto) e o arraial de Sant'Anna de São João Acima (atual Itaúna), essas estruturas desempenhavam funções vitais, tanto práticas quanto simbólicas.

A importância do chafariz ia além de sua função de fornecimento de água. Esses locais eram pontos de encontro onde diferentes classes sociais se reuniam para buscar água e, ao mesmo tempo, interagir. Pessoas conversavam e até colocavam as notícias em dia fazendo seus "fuxicos". Assim, os chafarizes desempenhavam um papel de comunicação informal, sendo centros de sociabilidade e troca de informações. Esse aspecto mostra que, além de resolver uma necessidade básica da população, eles eram fundamentais para a formação de laços sociais nas comunidades.

A comparação entre Vila Rica e a cidade do Rio de Janeiro no final do século XVIII ressalta o contraste no número de chafarizes entre as duas regiões, evidenciando o avanço de Minas Gerais em termos de abastecimento de água pública. Enquanto Vila Rica, com uma população de 8 mil habitantes, tinha dezoito chafarizes, a capital da Colônia, com cerca de 30 mil habitantes, possuía apenas onze. 

Isso mostra como o planejamento urbano e o investimento em infraestrutura em Minas Gerais eram mais desenvolvidos em relação ao Rio de Janeiro. O chafariz também fomentava o desenvolvimento de profissões relacionadas ao abastecimento e uso de água, como aguadeiros e lavadeiras. Isso transformava esses monumentos em pontos estratégicos de atividades econômicas urbanas, servindo para além de um simples abastecimento de água, mas também para sustentar práticas cotidianas e artesanais que estruturavam a vida da cidade.

De acordo com a classificação de Claudia Lopes, os chafarizes podiam ser funcionais, decorativos ou monumentais. Os funcionais eram utilitários e simples, localizados fora dos centros comerciais e administrativos. Já os decorativos tinham elementos ornamentais que valorizavam a paisagem urbana. Por fim, os monumentais eram grandes obras de arte, com complexos elementos barrocos e localizados em pontos de destaque das cidades.

Em Sant'Anna de São João Acima, a construção de um chafariz em 1880, autorizada pela Assembleia Legislativa Provincial de Minas Gerais, demonstra o empenho da administração pública em melhorar o abastecimento de água e, ao mesmo tempo, em valorizar o espaço urbano. O valor de quatro contos de réis destinado a essa construção revela o grande investimento financeiro necessário para essas obras de infraestrutura, o que indica a importância que esse tipo de empreendimento tinha para as autoridades da época.

Expandindo essa análise, podemos refletir sobre a relevância dos chafarizes não apenas como fontes de água, mas também como símbolos de poder público e de urbanização. Eles eram um marco de desenvolvimento e civilidade, demonstrando como o espaço público era pensado e utilizado em sociedades do passado. A presença de monumentos como esses reafirma a centralidade da água na organização da vida cotidiana, não apenas como recurso, mas como elemento de articulação social, política e cultural.

Ao considerar a construção de um chafariz em Sant'Anna de São João Acima, é possível perceber que a obra pública transcende o simples objetivo de fornecer água. Ela se insere em um contexto mais amplo de desenvolvimento urbano e social, refletindo o papel das infraestruturas públicas na promoção do bem-estar coletivo e na construção da identidade das cidades. O investimento em chafarizes demonstra o reconhecimento da água como um recurso vital e estratégico para a vida urbana, mas também como um meio de promover a coesão social, a estética urbana e o desenvolvimento econômico.

Em suma, os chafarizes eram mais do que estruturas utilitárias; eles eram elementos integradores do espaço público, promovendo tanto a funcionalidade quanto a beleza e a sociabilidade nas cidades. Eles simbolizavam a interseção entre o cotidiano e o extraordinário, entre o pragmático e o ornamental, moldando a paisagem urbana e as relações humanas em torno de um recurso essencial: a água.


Saiba mais em:  Chafariz em Itaúna

Organização pesquisa e arte: Charles Aquino


sábado, fevereiro 10, 2018

SÃO JOÃO: NÃO ME DEIXEM MORRER!

Não me deixem morrer!...

Poema dedicado ao Rio São João, que foi, outrora, uma dádiva de Deus.
Hoje, um castigo dos homens.


Diz o rio – beira à morte.
Num canto tão lutuoso:
“– Já fui belo, já fui forte,
“Tive um passado formoso!...

“As minhas águas são turvas,
 “As minhas orlas – imundas...
“Vou correndo pelas curvas
“Em sensações moribundas!...

“Minha Mãe, a Natureza,
“Gerou-me rio – alegria...
“Ninguém viu minha tristeza,
“Ninguém viu minha agonia!...

“Quanta aflição já me invade,
“Quanto sofrer me destrói,
“Saber que minha cidade
“Não me fez seu grande herói!...

“O que já fora beleza,
“O que já fora esplendor,
“Foi morto, ó Deus co’aspereza,
“Por mãos de um poluidor!...

“Que me responde o Prefeito,
“Que me responda o Vigário:
“Sou rio, acaso, imperfeito?!
“Sou rio desnecessário?!

“Crianças, puras crianças,
“Se pudéreis me escutar,
“Doai-me amor, esperanças!...
“Quero viver pr’ajudar!...

“E vós, ó jovens, guerreiros,
“Não tendes pena de mim?!...
“Eu fico entre dois outeiros:
“O do Rosário e Bonfim!

“Tive a mais sã mocidade,
“Em minha cor cristalina...
“Ontem me amaram...Verdade!....
“Hoje me matam! Que sina!...


“Depois de tanto pedir,
“Depois de tanto querer,
“Eu peço a quem puder vir,
“Que venha para me ver!”



Wandick Robson PINCER




Para mim Itaúna tem dois patrimônios que salvaram vidas e que todos nós deveríamos preservá-los incessantemente: o nosso Rio São João e a nossa Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza!
Das 11 cidades que compõem a sua sub-bacia, Itaúna é a única que depende dele como fonte de água!
O projeto Rio São João catalogou por GPS quase mil nascentes, desde Itaguara (nascente principal) até Carmo do Cajuru 40% delas estão impactadas, ou seja, bem degradadas. Precisamos criar consciência coletiva a esse respeito.
Wandick





Referência: Antologia dos Poetas Itaunense. BH- Lemi/Itaúna. Diretoria de Pesquisa e Extensão da Fundação Universidade de Itaúna, 1990. p.127.

Poema: PINCER, Wandick Robson

Acervo: Shorpy

Organização: Charles Aquino


domingo, agosto 07, 2016

CHAFARIZ DE ITAÚNA

ÁGUAS DO CHAFARIZ DE ITAÚNA

1880

Símbolo de abundância de água, o chafariz era local também de sociabilidade e pessoas a parolar. Frequentado por vários tipos de classes, além de buscar água, o local servia para colocar a conversa em dia, enquanto esperavam que seus tonéis fossem enchidos, os responsáveis aproveitavam para “espalhar notícias e principalmente as difamações sobre seus patrões ”.

Segundo nos informa Marjolaine Carles, Vila Rica (hoje Ouro Preto) “dava um banho´d’agua” no Rio de Janeiro. Em Minas Gerais final do século XVIII, a capital tinha dezoito chafarizes mais tantos outros espalhados pelas redondezas da sede do governo, o qual contava com uma população de 8 mil habitantes.  Neste ponto, o Rio de Janeiro, Capital da Colônia, perdia de muito longe para Minas Gerais, tinha somente apenas onze chafarizes para cerca de 30 mil habitantes. 

Nestes chafarizes, além de ofertas de abundantes águas e boas prozas, eram locais de grande proliferação de atividades urbanas – domésticas, artesanais, industriais, sustentando profissões de aguadeiros e lavadeiras.  A isto, segundo nos informa Claudia Lopes, o chafariz era uma obra pública e tinha a importância e caráter, sendo classificados em três grupos: funcionais, decorativos e monumentais[1].

    Em Sant’Anna de São João Acima (hoje Itaúna), a Assembleia Legislativa Provincial de Minas Geraes, autorizava o projeto de nº 181  para construção de um chafariz:

Art. Único. Fica o governo autorizado a despender a quantia de 4:000$000 (quatro contos de réis) com a construção de um chafariz no arraial de Sant’ Anna de São João Acima, pertencente ao município do Pará, comarca de Sete Lagoas; revogadas as disposições.
Sala das sessões, 22 de outubro de 1880 -  Costa Sena, Amaro, José Rufino, Ferras Junior, Ovídio de Andrade, Drummond.

O valor de quatro contos de reis, para a construção de um chafariz em Sant’ Anna de São João Acima naquele período, seria uma quantia muito expressiva e opulenta.  

O papel social e urbano dos chafarizes em Minas Gerais no final do século XVIII e início do XIX, destacando o chafariz como um símbolo não apenas de abundância de água, mas também como um espaço de convivência social e desenvolvimento urbano. Em locais como Vila Rica (atual Ouro Preto) e o arraial de Sant'Anna de São João Acima (atual Itaúna), essas estruturas desempenhavam funções vitais, tanto práticas quanto simbólicas.

A importância do chafariz ia além de sua função de fornecimento de água. Esses locais eram pontos de encontro onde diferentes classes sociais se reuniam para buscar água e, ao mesmo tempo, interagir. Pessoas conversavam e até colocavam as notícias em dia fazendo seus "fuxicos". Assim, os chafarizes desempenhavam um papel de comunicação informal, sendo centros de sociabilidade e troca de informações. Esse aspecto mostra que, além de resolver uma necessidade básica da população, eles eram fundamentais para a formação de laços sociais nas comunidades.

A comparação entre Vila Rica e a cidade do Rio de Janeiro no final do século XVIII ressalta o contraste no número de chafarizes entre as duas regiões, evidenciando o avanço de Minas Gerais em termos de abastecimento de água pública. Enquanto Vila Rica, com uma população de 8 mil habitantes, tinha dezoito chafarizes, a capital da Colônia, com cerca de 30 mil habitantes, possuía apenas onze. 

Isso mostra como o planejamento urbano e o investimento em infraestrutura em Minas Gerais eram mais desenvolvidos em relação ao Rio de Janeiro. O chafariz também fomentava o desenvolvimento de profissões relacionadas ao abastecimento e uso de água, como aguadeiros e lavadeiras. Isso transformava esses monumentos em pontos estratégicos de atividades econômicas urbanas, servindo para além de um simples abastecimento de água, mas também para sustentar práticas cotidianas e artesanais que estruturavam a vida da cidade.

De acordo com a classificação de Claudia Lopes, os chafarizes podiam ser funcionais, decorativos ou monumentais. Os funcionais eram utilitários e simples, localizados fora dos centros comerciais e administrativos. Já os decorativos tinham elementos ornamentais que valorizavam a paisagem urbana. Por fim, os monumentais eram grandes obras de arte, com complexos elementos barrocos e localizados em pontos de destaque das cidades.

Em Sant'Anna de São João Acima, a construção de um chafariz em 1880, autorizada pela Assembleia Legislativa Provincial de Minas Gerais, demonstra o empenho da administração pública em melhorar o abastecimento de água e, ao mesmo tempo, em valorizar o espaço urbano. O valor de quatro contos de réis destinado a essa construção revela o grande investimento financeiro necessário para essas obras de infraestrutura, o que indica a importância que esse tipo de empreendimento tinha para as autoridades da época.

Expandindo essa análise, podemos refletir sobre a relevância dos chafarizes não apenas como fontes de água, mas também como símbolos de poder público e de urbanização. Eles eram um marco de desenvolvimento e civilidade, demonstrando como o espaço público era pensado e utilizado em sociedades do passado. A presença de monumentos como esses reafirma a centralidade da água na organização da vida cotidiana, não apenas como recurso, mas como elemento de articulação social, política e cultural.

Ao considerar a construção de um chafariz em Sant'Anna de São João Acima, é possível perceber que a obra pública transcende o simples objetivo de fornecer água. Ela se insere em um contexto mais amplo de desenvolvimento urbano e social, refletindo o papel das infraestruturas públicas na promoção do bem-estar coletivo e na construção da identidade das cidades. O investimento em chafarizes demonstra o reconhecimento da água como um recurso vital e estratégico para a vida urbana, mas também como um meio de promover a coesão social, a estética urbana e o desenvolvimento econômico.

Em suma, os chafarizes eram mais do que estruturas utilitárias; eles eram elementos integradores do espaço público, promovendo tanto a funcionalidade quanto a beleza e a sociabilidade nas cidades. Eles simbolizavam a interseção entre o cotidiano e o extraordinário, entre o pragmático e o ornamental, moldando a paisagem urbana e as relações humanas em torno de um recurso essencial: a água.




[1] - Funcionais: monumentos utilitários com pouquíssima ornamentação e quase nenhuma preocupação estética, geralmente afastados dos centros administrativo e comercial da vila. Exemplos: ponte do padre faria e chafariz da rua das cabeças
- Decorativos: começa a haver uma maior preocupação com a ornamentação das ruas, sendo que nesses monumentos já aparecem elementos em cantaria, ainda que pequenos. Exemplos: ponte do pilar, chafariz do rosário e chafariz da rua barão de ouro branco.
- Monumentais: obras que ocupavam posição de destaque na paisagem da cidade,sendo de grandes proporções e merecendo extremo cuidado no desenho e execução. Apresentamse bem ornamentados, dotando de diversos elementos barrocos. Exemplos: ponte de antônio dias, chafariz de marília e chafariz dos contos.


Referências:

CARLES, Marjolaine.  Fontes sob controle: Revista de História, 2013.

LOPES, Claudia. Arquitetura oficial no período colonial: um estudo sobre as pontes e chafarizes de Ouro Preto. 

Fotografia ilustrativa.

Jornal: A Actualidade -  Ouro Preto, 1880. n° 127 p.3.

Elaboração e Pesquisa: Charles Aquino, graduando em História pela UEMG/Divinópolis 6º período.


segunda-feira, novembro 10, 2014

GUARDIÕES DO MEIO AMBIENTE

A preservação e o interesse pelo meio ambiente não são cuidados recentes; o Imperador do Brasil D. Pedro I decretou, por meio da Carta de Lei de 15 de outubro de 1827, que em cada uma das freguesias e capelas haveria um Juiz de Paz e um suplente, conforme estipulado no Artigo 5º:

§12 Vigiar sobre a conservação das matas e florestas públicas, onde as houver, e obstar nas particulares o corte de madeiras reservadas por Lei.

§14 Procurar a composição de todas as contendas e dúvidas que se suscitarem entre moradores do seu distrito, acerca de caminhos particulares, atravessadouros e passagens de rios e ribeiros, acerca do uso das águas empregadas na agricultura ou mineração; dos pastos, pescas e caçadas; dos limites, tapagens e cercados das fazendas e campos; e acerca finalmente dos danos feitos por escravos, familiares, ou animais domésticos.


Entre os períodos de 1892 a 1903 com a função de descentralizar o poder político, outorgando autonomia aos lugarejos através de minicâmaras constituídas de conselheiros que deliberavam sobre os problemas de suas comunidades, foi criado o Conselho Distrital que era uma instituição política em Minas Gerais. O Conselho também era responsável pela limpeza e conservação de água potável, fazendo o esgotamento e o escoamento das águas paradas em terrenos do distrito e de particulares.

Em Sant'Anna de São João Acima, em 1892 era criado o Conselho Distrital para a proteção do Meio Ambiente com suas proibições seguida de multa com os seguintes casos:
Entulhar as ruas, becos e praças com materiais, executando-se os para construção;
Lançar animais mortos ou moribundos nos mesmos lugares;
Fincar estacas, esteios que excedessem de um metro do alinhamento das casas;
Lavar roupas e barrigadas de animais nos chafarizes públicos ou em lugares acima deles, ofendendo a pureza da água;
Criar ou cevar porcos em chiqueiro e cercadão de madeiras, que estivessem no alinhamento das frentes de serventia pública;
Os moradores das casas eram obrigados a extrair ervas e formigueiros de seus domicílios, já em lugares públicos o mesmo eram extraídos à custa do cofre distrital.  Era proibido deixar animais soltos em praças ou ruas, que pudessem vir a agredir pessoas que estivessem transitando no local. 

Após as dez da noite era proibido correr a galope com animais nas ruas, dançar com algazarra ou qualquer outro tipo de barulho que viesse perturbar a ordem do local; nos muros caiados era proibido riscar ou sujar; era proibido danificar as grades de amparo às plantas; cortar árvores de aformoseamento das ruas, largos, praças e logradouros públicos; matar rês magra ou doente sem que o fiscal examinasse; proibido a construções de valos nos perímetros da sede do distrito e zelar pela limpeza e manutenção dos mesmos.
No ano de 1864 o empresário Tenente Coronel Manoel José de Souza Moreira exercia o cargo de 1º Juiz de Paz na freguesia de Sant'Anna do Rio de São João Acima, hoje Itauna, e zelava pela execução destes preceitos legais de cuidados ao meio ambiente.



Juiz de Paz
1º Manoel José de Souza Moreira
2º Justino José Machado
3º Vicente Gonçalves de Souza
 Zacharias Ribeiro de Camargos

Subdelegado
Vago

Primeiro Suplente
1º Francisco Alves da Costa

Inspetor Paroquial
Rev º João Batista de Miranda

Professor de primeiras letras
Lourenço Justiniano Ribeiro

Vigário Colado
João Batista de Miranda

Negociantes
Custódia Maria da Silva
Daniel José Soares
Francisco da Costa Borges
Francisco Gomes Barboza
Francisco Gonçalves de Souza
Francisco Lopes Cançado
Jerônimo José dos Santos
João Antônio da Fonseca
João Lucas Dias Azêdo
João Paulo de Camargos
Joaquim Fernandes de Souza
José Joaquim da Silva
Justino José Machado
Manoel André de Siqueira
Manoel Caetano Alves
Manoel José de Souza Moreira
Maria Felizarda
Rufino Rodrigues Rabelo
Vicente Gonçalves de Souza
Zacharias Ribeiro de Camargos

Fazendeiros que cultivam cana
Felizardo Gonçalves Cançado
Francisco Nunes da Costa
João Francisco da Silva
José Bernardes de Carvalho
Dona Luiza Maria de Jesus
Manoel Gonçalves Cançado
Manoel Lopes da Silva
Salviano José da Silva
Dona Umbelina Nogueira Duarte




Referências:
Câmara dos Deputados. Legislação Informatizada: Lei de 15 de Outubro de 1827. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei_sn/1824-1899/lei-38396-15-outubro-1827-566688-publicacaooriginal-90219-pl.html >. Acesso em: 11 nov. 2014.
Hemeroteca Digital Brasileira. Almanak Administrativo, Civil e Industrial - 1864 a 1874: Freguezia e Districto de Santo Anna Do Rio de S. João Acima, p.303. Disponível em http://hemerotecadigital.bn.br/acervo-digital/almanak-administrativo-civil-industrial/393428 > Acesso em: 11 nov.2014.
CARVALHO, David de. A revitalização de um rio. Itaúna: Vile, 2001.

sexta-feira, outubro 26, 2012

ÁGUA ITAÚNA (PARTE I)

Século XX

Vejamos o que nos diz nosso conterrâneo e Historiador João Dornas Filho em seu livro "Efemérides Itaunenses".

A Lei Municipal nº 311 desapropria por utilidade pública as nascentes da fazenda do Descoberto para o abastecimento d'água à cidade. O abastecimento d'água potável à cidade tem a sua origem numa festa do Divino, em 1884. É que, sendo festeiro ou imperador da festividade o capitão Custódio Coelho Duarte, este fez com que a água do Descoberto (depois fazenda de Alfredo Gonçalves) viesse ter ao Largo da Matriz em rêgo aberto pelos seus escravos.

 A água se destinava ao povo que concorresse às festas, pois até essa data não havia água na Praça da Matriz. Mais tarde, em cumprimento a uma promessa feita aos eleitores de Santana pelo deputado geral Dr. Antônio Felício dos Santos, uma lei da Província, de 1887, concedia nove contos de réis para a canalização dessa água, que feita em madeira pelo carpinteiro Antônio Joaquim Marques, e por muitos anos serviu à população.
Sant'Ana 31 de janeiro de 1918


Minha avó materna Avantjour Nogueira, falecida há 42 anos e aos 85 de idade, já nas décadas de 60 e 70 contou-me várias vezes que, quando se mudou para o casarão onde criou os filhos e viveu o restante de sua vida, à Avenida Getúlio Vargas (já foi assunto deste site), ainda havia restos do "rego" acima descrito por João Dornas e com um filete d'água ainda passando. Pessoalmente conheci o rego, já sem a madeira, destruída pelo tempo e seco atravessando o quintal de um lado a outro em direção ao centro da cidade. Esta água, canalizada por rego, era do Córrego do Sumidouro.

Análise do texto

O texto "Século XX", extraído do livro "Efemérides Itaunenses" de João Dornas Filho, oferece uma rica descrição histórica da evolução do abastecimento de água na cidade de Itaúna, revelando a importância das iniciativas comunitárias e políticas na melhoria das infraestruturas locais. A análise crítica deste texto pode ser dividida em várias vertentes: a narrativa histórica, o impacto social, a memória familiar e a transformação urbana.

A descrição de Dornas Filho começa com a Lei Municipal nº 311, que desapropriou as nascentes da fazenda do Descoberto para o abastecimento de água na cidade. Esta iniciativa é contextualizada dentro de um evento religioso, a festa do Divino de 1884, quando o capitão Custódio Coelho Duarte utilizou seus escravos para trazer água da fazenda ao Largo da Matriz. Este fato mostra a conexão entre as festividades religiosas e as melhorias urbanas, destacando o papel dos líderes comunitários na implementação de infraestruturas essenciais.

A narrativa prossegue com a concessão de recursos pela Província, através do deputado Dr. Antônio Felício dos Santos, para a canalização da água. Esta etapa, realizada em 1887, é um marco significativo, pois ilustra o envolvimento das autoridades políticas na solução de problemas comunitários, assegurando o abastecimento de água à população.

A obra de Dornas Filho expõe a relação entre os eventos culturais e o desenvolvimento urbano, ressaltando como as festividades religiosas podem influenciar diretamente as melhorias na infraestrutura pública. A iniciativa de canalizar a água para a cidade não apenas atendeu a uma necessidade básica da população, mas também promoveu o bem-estar coletivo durante eventos de grande congregação, como a festa do Divino.

 

Memória Familiar

O relato da avó materna do autor, Avantjour Nogueira, adiciona uma camada pessoal e emocional ao texto. As memórias de Avantjour, que viveu nas décadas de 60 e 70, servem como um testemunho vívido das mudanças que ocorreram na cidade ao longo dos anos. Ela recorda a presença do rêgo, mesmo que já deteriorado, como um vestígio palpável da história e da transformação urbana de Itaúna. Esta memória familiar não só enriquece a narrativa histórica, mas também conecta o passado ao presente de forma tangível e emocional.

A destruição gradual do rêgo de madeira, observada pelo autor durante sua infância, simboliza a transição de métodos rudimentares para técnicas mais avançadas de abastecimento de água. A persistência do filete d'água remanescente atesta a durabilidade e a importância do sistema original, mesmo com o avanço do tempo e das tecnologias.

O texto de João Dornas Filho, complementado pelas memórias familiares, oferece uma visão detalhada e multifacetada da evolução do abastecimento de água em Itaúna. Ele ilustra como a união de esforços comunitários, religiosos e políticos pode resultar em melhorias significativas para a infraestrutura urbana. A inclusão de memórias pessoais adiciona profundidade e humanidade à narrativa, ressaltando a importância de preservar e valorizar os testemunhos históricos individuais como parte integrante da memória coletiva de uma comunidade.

Esta análise evidencia a relevância de estudos históricos locais para compreender melhor a evolução das infraestruturas e o impacto das ações comunitárias no desenvolvimento urbano. Além disso, destaca a importância de documentar e compartilhar memórias familiares, que enriquecem e humanizam as grandes narrativas históricas.







Referências:
Texto: Juarez Nogueira Franco
Organização, Análise e pesquisa: Charles Aquino
FILHO, João Dornas. Efemérides Itaunenses João Dornas Filho, p.26, 1951, ed. Calazans
Revisão e Arquivo: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho

terça-feira, outubro 02, 2012

ÁGUA ITAÚNA (PARTE II)


Nos anos de 1925 e 1926 foi construído o primeiro reservatório da cidade, localizado na antiga Rua das Viúvas, hoje Agripino Lima, esquina com Rua São Vicente. Os responsáveis pela construção foram ISAURINO DO VALE e Dr. ALCINDO VIEIRA.

Pela Portaria nº 137 de 1928 o Sr. Isaurino do Vale foi nomeado Fiscal de Obras Públicas Municipais. Além de trabalhar na Prefeitura o Sr. Isaurino fazia projetos. Dezenas de casas em Itaúna, inclusive duas para meu pai, foram projetadas pelo mesmo. Isaurino é sogro do Sr. Walter Antunes, proprietário da Granja Maçaranduba.

Embora ainda muito criança, lembro-me com clareza de tal reservatório na década de 50, pois nasci e cresci naquela rua, especialmente depois que vi a foto. Logo acima do Bairro Nogueirinha, na estrada para o Córrego do Soldado, há ainda hoje, os restos de uma pequena barragem que servia para captação das águas do Ribeirão do Sumidouro donde vinha por gravidade, em grossos tubos de ferro até o Reservatório da Rua das Viúvas.


Análise do Contexto Histórico e Infraestrutura

O período de 1925 a 1926 foi crucial para o desenvolvimento urbano em muitas cidades brasileiras, que estavam se modernizando e buscando melhorar a infraestrutura pública. A construção do primeiro reservatório de Itaúna se insere nesse contexto de urbanização e necessidade de abastecimento de água, uma obra essencial para garantir o crescimento sustentável da cidade. Este período marca um momento em que a infraestrutura de saneamento básico começava a ser reconhecida como fundamental para a saúde pública e o desenvolvimento econômico.

O texto destaca figuras importantes na execução do reservatório, especificamente Isaurino do Vale e Dr. Alcindo Vieira. Isaurino do Vale, além de ser o Fiscal de Obras Públicas Municipais, atuava como projetista, influenciando a arquitetura residencial de Itaúna. Esse papel duplo reflete a realidade das cidades menores, onde os profissionais frequentemente assumiam múltiplas responsabilidades devido à escassez de especialistas. Dr. Alcindo Vieira, por sua vez, representava a expertise técnica e médica necessária para projetos de infraestrutura de saúde pública.

A nomeação de Isaurino do Vale como Fiscal de Obras Públicas em 1928 pela Portaria nº 137 atesta seu reconhecimento oficial e destaca sua contribuição ao serviço público. A construção de dezenas de casas projetadas por ele, incluindo as casas para o pai do narrador, sublinha seu impacto duradouro na paisagem urbana de Itaúna. A memória familiar do autor, que cresceu próximo ao reservatório, reforça a importância dessas figuras e de suas obras na formação da identidade local.

O impacto social do reservatório é evidenciado pela memória clara do autor sobre a infraestrutura na década de 1950. A menção ao Sr. Walter Antunes, genro de Isaurino e proprietário da Granja Maçaranduba, mostra como as obras públicas estão interligadas com as histórias familiares e empresariais locais. Estas conexões ilustram como as infraestruturas urbanas podem influenciar e ser influenciadas pelas dinâmicas familiares e comunitárias.

A descrição técnica do sistema de captação de água do Ribeirão do Sumidouro até o reservatório, utilizando a gravidade, revela a engenhosidade e a sustentabilidade dos projetos de infraestrutura da época. Estes detalhes técnicos demonstram como os engenheiros da época equilibravam recursos limitados com soluções práticas e eficientes, refletindo uma abordagem sustentável e inovadora para a época.

O texto oferece uma valiosa narrativa histórica sobre a construção do primeiro reservatório de Itaúna, destacando a importância das figuras locais e o impacto duradouro dessas obras na memória coletiva da cidade. Para uma análise mais completa e crítica, seria benéfico incorporar uma maior diversidade de fontes e perspectivas, além de mais detalhes técnicos sobre o projeto e sua execução. Isso ajudaria a formar um quadro mais completo do impacto dessa infraestrutura na cidade e em seus habitantes, permitindo uma compreensão mais rica e detalhada da história urbana de Itaúna.






Referências:
Texto: Juarez Nogueira Franco
Pesquisa e Análise: Charles Aquino
FILHO, João Dornas. Efemérides Itaunenses João Dornas Filho, p.26, 1951, ed. Calazans
Revisão e Arquivo: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho
Organização: Charles Aquino