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terça-feira, fevereiro 03, 2026

VILA ITAÚNA 1913

VILA DE ITAÚNA MG
Conheça um raro registro sobre a Vila de Itaúna em 1913. Pouco mais de uma década após sua emancipação, em 1901, a então Vila de Itaúna já se destacava como um território de grande dinamismo econômico, social e territorial. 
Um documento histórico raro, publicado pelo jornal O Paiz em 1º de outubro de 1913, revela detalhes surpreendentes da vida cotidiana, das riquezas naturais e das iniciativas pioneiras que moldaram os primeiros anos dessa jovem vila mineira.

Terras férteis, produção agrícola em expansão, um rebanho de mais de 35 mil cabeças de gado, fábricas de manteiga e laticínios modernos, ferrovia cortando o território, e uma população rural ativa e empreendedora fazem parte deste retrato impressionante de uma Itaúna em plena construção de sua identidade.

Este inquérito econômico, produzido pela Inspetoria Agrícola, não apenas enumera dados: ele nos transporta para um tempo em que o progresso se fazia com o esforço das mãos, a força da terra e o espírito coletivo de uma gente determinada.

Convidamos você a explorar esse valioso registro e descobrir como Itaúna, em apenas onze anos de existência como município, já demonstrava sinais claros de modernização, organização econômica e visão de futuro.

Este é um convite à memória, ao orgulho local e ao reconhecimento da trajetória que construiu a cidade que hoje conhecemos. O texto revela uma rica análise do panorama abrangente da estrutura territorial, da economia agrícola e pastoril, da incipiente industrialização e da organização social da vila de Itaúna em 1913.

A elevação do antigo distrito de Sant’Ana do Rio São João Acima à condição de Vila, por meio da Lei Mineira nº 319 de 16 de setembro de 1901, representa um marco da afirmação político-administrativa de Itaúna como unidade autônoma dentro da divisão territorial de Minas Gerais. Em 1913, o município já se encontrava bem delineado, com área de 3.774 km², fazendo limite com importantes municípios da região central mineira, como Pará de Minas, Bonfim, Entre Rios (atual Pará de Minas), Divinópolis e Cláudio.

A composição interna incluía cinco distritos de paz: Cajuru, Conquista, Itatiaiuçu, Serra Azul, além da sede (a própria Vila de Itaúna), bem como diversos povoados rurais e núcleos de ocupação. Essa malha territorial reforça a existência de uma dinâmica populacional dispersa, com pequenos aglomerados que provavelmente giravam em torno da agricultura de subsistência, do extrativismo e do pastoreio.

O documento estima a população total em cerca de 22.000 habitantes, sendo 4.000 residentes na sede da Vila, o que indica que aproximadamente 18% da população se concentrava em ambiente urbano, enquanto a maioria permanecia na zona rural, refletindo o caráter predominantemente agrário da região.

Em termos de infraestrutura, destaca-se a presença do ramal ferroviário (Ramal de Minas) que conectava Divinópolis a Belo Horizonte, passando por Cajuru, o que conferia à Vila de Itaúna uma vantagem logística relevante para o escoamento de produtos agrícolas e industriais. A menção a estradas de rodagem que cortavam o município “em todas as direções” revela a importância das rotas terrestres para a integração interna e com os municípios vizinhos.

Na agricultura,  a descrição da terra como “argilosa e próxima da afamada terra roxa” ressalta o potencial produtivo do solo, associado à fertilidade e adaptabilidade a diferentes cultivos. Apesar do relevo acidentado e das condições secas, a fertilidade permitia um bom desempenho agrícola, especialmente de cereais, café, algodão e cana-de-açúcar.

Embora os “modernos processos de cultura” começassem a ser introduzidos (com uso de arados e maquinário agrário), a maioria dos agricultores ainda se utilizava de técnicas rudimentares (como a enxada). Isso indica uma agricultura em transição, marcada pelo início da mecanização, mas ainda profundamente enraizada nas práticas coloniais.

Os proprietários rurais destacados, Josias Nogueira Machado, Luiz Ribeiro de Oliveira e Joaquim Nogueira Penido, representam a elite agrária local, controlando grandes propriedades no distrito sede, provavelmente com influência sobre decisões econômicas e políticas locais.

A pomicultura também é referida como um setor em ascensão, com destaque para frutas tropicais como laranja, jaboticaba, abacate, manga, abacaxi e banana — esta última já sendo uma fonte de renda e objeto de exportação para Belo Horizonte. A diversificação produtiva revela tanto adaptação climática quanto um olhar voltado para o comércio regional, sinalizando o surgimento de excedentes agrícolas.

A pecuária aparece como o eixo central da economia local, com cerca de 35.000 cabeças de gado bovino, incluindo raças caracu, curraleira, indiana, holandesa e suíça. A criação era subdividida entre gado leiteiro e de corte, com manejo eficiente entre pastagens e invernadas. A menção às feiras de “Sítio” e “Benfica” como destinos do gado sugere circuitos comerciais locais bem estabelecidos.

A produção anual de 25.000 kg de manteiga e volumes significativos de queijo evidenciam o protagonismo da indústria de laticínios, reforçada pela fundação da Cooperativa de Laticínios Itaunense, empreendimento coletivo de grande porte, que contou com capital de 50 contos de réis, um valor expressivo para a época. Essa iniciativa indica uma mentalidade empresarial já estruturada entre os fazendeiros da região.

A economia local não se restringia à produção primária. Havia também fábricas com tecnologia relativamente moderna, com uso de turbinas hidráulicas e motores para movimentar máquinas de beneficiamento de arroz, café, enlatamento de produtos e fabricação de gelo. Destaques incluem: Usina Nogueira (30 kg diários de manteiga, além de fábrica de gelo e beneficiamento de arroz); Fábrica do Calambau (20 kg diários de manteiga e beneficiamento de café); Usina Quintão (preparo de peles e arroz).

Esses dados mostram que, já em 1913, Itaúna reunia as condições para um processo de industrialização artesanal e descentralizada, impulsionada por agentes privados e ligada à agropecuária. Essa industrialização era regional, voltada principalmente para o consumo interno e mercados próximos. O retrato de Itaúna neste período permite concluir que, em apenas 11 anos após sua instalação como Vila, o município apresentava: Estrutura administrativa consolidada; População expressiva com forte base rural; Integração ferroviária e rodoviária relevante; Solo fértil e clima propício; Diversificação agrícola crescente; Potente economia pastoril com industrialização acoplada; Adoção gradual de tecnologias agrícolas e industriais.

A combinação entre iniciativa privada, organização cooperativa e recursos naturais abundantes foi determinante para o desenvolvimento rápido da Vila, consolidando-a como polo produtivo regional. Em síntese, Itaúna emergia, em 1913, como um exemplo de progresso interiorano mineiro, ainda ligado às tradições agrárias, mas já conectado às dinâmicas da modernização econômica.


VILA DE ITAÚNA 1913

Inquérito econômico (Segundo dados da Inspetoria Agrícola) — Pertencente a zona Central do Estado, o município de Itaúna deve a sua criação a Lei Mineira nº 319 de 16 de setembro, que elevou à categoria de Vila o antigo distrito de Santana do Rio São João Acima em 1901, dando-se a sua instalação a 2 de janeiro de 1902.

Tem 3.774 km quadrados o seu território e limita-se com os municípios do Pará, Bonfim, Entre Rios, Divinópolis e Cláudio. Compõe-se de cinco distritos de paz que são: a vila de Cajuru; Conquista, Itatiaiuçu e Serra Azul; e conta ainda os seguintes povoados: Olaria, Pedra, Garcias, Tabuões, Domingues, Campos, Angu Seco, Cruz das Almas, Medeiros, Retiros dos Pintos, Córregos das Pedras, Conceição, Agrilho, Salgado, Ribeiro, Cunha e Empaturrado.

Sua população é calculada em 22.000 almas, sendo que só a vila conta com 4.000 habitantes. Além do Rio São João que atravessa o município do sul a norte, tendo como afluentes os ribeirões Capotos, Olaria, Angu Seco, Jacuba e Pintos, pelo Pará, que a divide com o município do mesmo nome, e pelos ribeirões Conquista e Vermelho tributários dos rios Pará e Paraopeba.  

O ramal de Minas, que liga Divinópolis a Belo Horizonte, atravessa o município, passando pelos distritos de vila de Cajuru, em cujas sedes tem estações. Várias estradas de rodagem cortam o município em todas as direções ligando a sua sede aos distritos e aos municípios vizinhos. Possui o município jazidas de ferro e manganês, ainda não exploradas; encontram-se estas no distrito de Serra Azul. O clima é quente, seco e saudável em todo o município. 

Os terrenos de Itaúna, são geralmente acidentados, secos e reconhecidos como de muita fertilidade, atestando isso as vegetações que revestem o município e o resultado das colheitas de cereais, etc. A terra argilosa que muito se aproxima da afamada terra roxa, oferece ali grande porcentagem, encontrando-se também muita terra misturada e alguma arenosa. Tem o município 10% de terrenos em matas virgens, 25% em capoeiras de muito valor, 5% em cerrados e 64% em campos naturais e pastagens artificiais de capim gordura, roxo e provisório.

É muito importante a vida agrícola e industrial do município, habitado por um povo inteligente e empreendedor, notando-se mesmo, na sua população rural, grande animação pelos magníficos resultados da colheita de cereais e do desenvolvimento das criações.

Na agricultura, só agora vão sendo introduzidos os modernos processos de cultura, por meio do arado e outros instrumentos agrários. Todos plantam em larga escala pelos primitivos sistemas do emprego da enxada, etc., e consideram compensadores os resultados das colheitas. A principal cultura é a dos cereais, vindo, em seguida, as do café, do algodão e da cana-de-açúcar.

Os agricultores do município, em geral, encontram-se em prósperas condições, existindo avultado número de importantes propriedades rurais. Dentre estas, destacam-se as dos senhores Josias Nogueira Machado, Luiz Ribeiro de Oliveira e Joaquim Nogueira Penido, todas no distrito da vila.

A pomicultura está bastante desenvolvida no município, não pela variedade de frutas raras próprias do clima frio, mas pela quantidade de frutas de clima quente, que ali são cultivadas, tais como a laranja, muito variada e de excelente sabor; a jaboticaba, o abacate, a manga, o abacaxi e a banana, que já constitui fonte de renda, havendo grande exportação para Belo Horizonte, tendo boa aceitação.

A indústria pastoril, explorada em grande escala no município, apresenta-se como sua principal fonte de renda. Realmente fazendeiros há, possuidores e largas áreas, divididas em seções, onde, desfalcada a parte destinadas às culturas, mantém um efetivo anual de 1.200 bovinos, das raças caracu e curraleira, encontrando-se também, em número avultado, belíssimos exemplares da indiana, holandesa e suíça, já muito propagadas.

Além das pastagens destinadas ao gado leiteiro, há também grandes invernadas para o de talho, que, depois de gordo, é levado às feiras do Sítio e Benfica, para ser vendido.    Existem atualmente no município cerca de 35.000 cabeças de gado bovino. A produção anual de manteiga é de 25.000 kg, sendo muito considerável também a do queijo, que como a primeira, encontra franca aceitação, não só no mercado desta capital, como nos demais Estados.

É tal o desenvolvimento da indústria pastoril no município, que os senhores João Gonçalves de Souza, Luiz Ribeiro de Oliveira e João Rodrigues Nogueira Penido montaram, com o capital de 50 contos de reis, todo subscrito por fazendeiros do distrito da vila, a Cooperativa de Laticínios Itaunense.

O prédio construído especialmente para esse estabelecimento, montado com todo o gosto e capricho, está situado nas proximidades da estação, que serve a vila, funcionando os modernos machinismos dessa poderosa empresa com a maior regularidade. Além da Cooperativa de Laticínios Itaunense, existem no município muitas fábricas de manteiga, como sejam, entre as mesmas, as seguintes: Usina Nogueira de propriedade do senhor Josias Nogueira Machado, que mantém a 6 km da vila, uma importante fábrica de manteiga com a produção diária de 30 kg. Anexas à fábrica de manteiga funcionam as machinas para enlatamento e fabrico de gelo. Mantém ainda a Usina uma aperfeiçoada machina de beneficiar arroz. Todos os machinismos da Usina são movimentados por uma turbina com força de 40 cavalos.

Fábrica de manteiga do Calambau, pertencente ao senhor Luiz Ribeiro de Oliveira, que se acha situada na propriedade agrícola desse nome, a 6 km da vila. É de 20 kg diários de manteiga a produção desse importante estabelecimento industrial, que tem anexa uma poderosa machina para beneficiar café. Todos os seus machinismos são movidos por um motor hidráulico.

Oriunda ainda do desenvolvimento da indústria pastoril no município, existe no distrito da vila, a Usina Quintão, destinada ao preparo de peles. Dista este estabelecimento 2 km da vila e é seu proprietário o senhor Washington Alves da Cunha Quintão, vendo-se junto ao curtume uma bem instalada machina de beneficiar arroz.

Referências:

Elaboração e pesquisa: Charles Galvão de Aquino

Fonte:  Jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, quarta-feira, 1 de outubro de 1913, p. 6.

Hemeroteca Digital Brasileira

quinta-feira, setembro 12, 2024

DESEJO DE EMANCIPAÇÃO

HISTÓRIA DA EMANCIPAÇÃO ITAÚNA MG
O desejo de emancipação do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, hoje, município de Itaúna, Minas Gerais, percorreu um longo e árduo caminho, marcado por diversas tentativas ao longo dos anos, que culminaram em seu sucesso no início do século XX. A trajetória rumo à emancipação municipal pode ser dividida em diversos marcos significativos ao longo das décadas, com destaque para os anos de 1856, 1874, 1877, 1879, 1890, 1901 e 1902.

1856 — Primeiras Sementes do Desejo de Emancipação: Neste ano surgiram as primeiras discussões sobre a necessidade de emancipação do distrito de Sant’Ana do São João Acima, que então pertencia ao município de Pará de Minas. Esse período foi caracterizado pelo início das articulações políticas locais, onde lideranças começaram a reconhecer a importância de se ter uma administração própria para atender às demandas crescentes da região. Contudo, a falta de estrutura política e a pouca influência dos líderes locais na política provincial impediram que os esforços resultassem em sucesso imediato.

1874 — Reforço no Movimento Emancipacionista: Neste período, novas movimentações foram feitas para impulsionar a emancipação. O crescimento econômico da região, com a agricultura e a pecuária se expandindo, criou um cenário propício para a renovação das tentativas de separação. Porém, mais uma vez, as barreiras políticas e a resistência de figuras influentes no município de Pará de Minas frustraram os esforços dos emancipacionistas.

1877 — Persistência nas tentativas:  A perseverança das lideranças locais foi novamente testada em 1877, quando se intensificaram os movimentos políticos em prol da emancipação. Nessa época, figuras influentes do arraial de Santana começaram a se destacar na luta, promovendo reuniões e debates entre os habitantes locais. Apesar das dificuldades, a mobilização popular cresceu, plantando as bases para as futuras tentativas.

1879 — Avanços Políticos: Dois anos depois, as discussões sobre a emancipação ganharam mais força. As dificuldades vividas pela população local, que enfrentava longas distâncias para resolver questões administrativas em Pará de Minas, tornaram a emancipação um clamor popular. A pressão exercida pelos moradores e líderes locais, intensificou-se, ainda que os resultados práticos só fossem aparecer anos depois.

1890 — Ventos Republicanos:  Ainda em 1890, aproveitando os "ventos republicanos", os líderes de Sant’Ana do Rio São João Acima intensificaram seus esforços pela emancipação do município. Antes mesmo da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o arraial de Sant’Ana já demonstrava um forte alinhamento com os ideais republicanos. Um marco desse pioneirismo foi a fundação do Clube Republicano 21 de Abril, em 1889, sendo um dos primeiros movimentos republicanos em Minas Gerais. Liderado por figuras proeminentes da região, o clube foi fundamental para mobilizar a população em torno das ideias republicanas. No entanto, a instabilidade política do novo regime dificultou a aprovação das demandas locais, tornando o processo mais desafiador do que o esperado.


1901 — Progresso e Conquista da Emancipação Política: Após décadas de tentativas frustradas, a tão esperada emancipação de Itaúna finalmente se concretizou em 16 de setembro de 1901. Nesse contexto, lideranças locais de destaque, como Josias Nogueira Machado, Major Senócrit Nogueira, Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira e Padre Antônio Maximiano de Campos, intensificaram seus esforços, conseguindo com sucesso a autonomia política da região.

1902 — Consolidação da Emancipação: Em 2 de janeiro de 1902, a emancipação de Itaúna foi consolidada com a instalação da Câmara Municipal. A nomeação do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira como o primeiro prefeito marcou o início da administração municipal própria, estabelecendo as bases políticas e administrativas do novo município. Seu papel foi fundamental não apenas na gestão inicial, mas também no fortalecimento das bases, contribuindo significativamente para o desenvolvimento do município.

Longa Jornada: A história da emancipação de Itaúna é marcada por uma longa jornada de pertencimento a diferentes municípios, refletindo as transformações políticas e administrativas que moldaram a região ao longo de décadas. Antes de alcançar sua autonomia, a área que hoje compreende o município de Itaúna passou por várias mudanças de jurisdição, pertencendo a diferentes municípios em momentos distintos: Sabará: 1711, Pitangui: 1715, Bonfim: 1847, Pará de Minas: 1848, Pitangui: 1850, Pará de Minas: 1858, Pitangui: 1872, Pará de Minas: 1874 e finalmente, em 1901, Itaúna se tornou um município autônomo.

Inicialmente, em 1711, a área fazia parte do município de Sabará, um dos primeiros centros administrativos da Capitania de Minas Gerais. Poucos anos depois, em 1715, Itaúna foi incorporada ao vasto território de Pitangui, que na época era um dos principais núcleos urbanos da região. Pitangui manteve sua influência sobre a área até a metade do século XIX. 

Em 3 de abril de 1847, por meio da Lei nº 334, a Paróquia de Santana de São João Acima foi incorporada ao Município de Bonfim. Com o passar do tempo e o desenvolvimento econômico da região, a necessidade de uma administração mais próxima se fez sentir, em 1848, Itaúna foi desmembrada e passou a pertencer a Pará de Minas. Este vínculo durou por alguns anos, mas em 1850, o território de Itaúna voltou a ser parte de Pitangui, refletindo as mudanças nas delimitações municipais que ocorriam na época.

Novamente, em 1858, Itaúna foi incorporada ao município de Pará de Minas, onde permaneceu até 1872, quando mais uma vez voltou a integrar Pitangui. Essas constantes mudanças de jurisdição foram um reflexo das complexas dinâmicas políticas e econômicas que caracterizavam a região naquele período. Finalmente, em 1874, Itaúna foi novamente colocada sob a administração de Pará de Minas.

Já em 1901, após sua emancipação pela Lei nº 319, a vila de Itaúna começou a se consolidar como um importante centro regional. O progresso da vila foi reconhecido pelo governo do Estado de Minas Gerais, e esse reconhecimento foi oficializado pela Lei nº 663, de 18 de setembro de 1915, que alterou a divisão judiciária do estado e conferiu à vila de Itaúna o status de cidade. Em 24 de janeiro de 1925, pela Lei nº 879, Itaúna foi elevada à categoria de comarca.

Esse processo de evolução administrativa reflete o crescimento e a importância que o município adquiriu ao longo do tempo, impulsionado pelo desejo de suas lideranças e pela perseverança de seu povo em alcançar autonomia e desenvolvimento. A elevação do antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, à condição de cidade e comarca marcou o início de uma nova era, consolidando o município como um polo regional de progresso e prosperidade.


Disponível em:

REFERÊNCIAS:

Organização, pesquisa e arteCharles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Acervo: Instituto Cultural Maria Castro Nogueira – Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam)

APM — Arquivo Público Mineiro — Fundo Assembleia Legislativa Provincial 1835-1891 — Cx. 40

Coleção das Leis e Decretos do Estado de Minas Gerais 1915, pg. 32, 41.

FILHO, João Dornas. Efemérides Itaunenses, Coleção Vila Rica, 1951, págs. 111, 112, 113, 166, 179, 206, 207, 208.

Itaúna em Detalhes - Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa, 2003, NOGUEIRA, Guaracy de Castro [et al], pg. 20, 21.

Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1879, nº 324

O Bom Senso, 30 de abril de 1856, nº 406

O Estado de Minas Gerais, Ouro Preto, 11 de outubro de 1890, nº 94, 105

O Estado de Minas Gerais, Ouro Preto, 3 de outubro de 1893, nº 298

Revista Acaiaça nº 56, org. Celso Brant, 1952, p. 72, 73, 74.

Leis e Decretos do Estado de Minas Gerais - Ano 1901 - pág. 26.

Prefeitura Municipal de Itaúna História de Itaúna XIX e XX

SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, p.

MINAS GERAIS. Tribunal de Justiça. Memória do Judiciário Mineiro. Comarcas de Minas. Organizadores: Desembargador Lúcio Urbano Silva Martins e Rosane Vianna Soares. Coordenação: Andréa Vanessa da Costa Val. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 2016. v. I, p. 576-578. 

segunda-feira, junho 13, 2022

EMANCIPAÇÃO SANTANENSE


   Os temas dos textos, registrados por Miguel Augusto de Souza em sua obra e pelo jornalista Sebastião Nogueira Gomide do Jornal Folha do Oeste, giram em torno da polêmica questão da candidatura de emancipação do bairro Santanense, que é de competência do município de Itaúna. Isto resultou num conflito entre diferentes figuras políticas e comunitárias que defendem pontos de vista opostos. Um movimento, liderado pelos líderes locais e pelo deputado Alvimar Mourão, defende a emancipação, enfatizando o apoio da população local e afirmando que a integração dos bairros de Santanense e Garcias em Itaúna foi uma decisão artificial. Afirmam que a oposição é movida por agendas ocultas e exortam os deputados a avaliar imparcialmente a situação.

   Por outro lado, o deputado João Gomes Moreira e outros políticos, incluindo o prefeito de Itaúna, criticam a proposta, afirmando que Santanense não atende aos requisitos legais para se tornar um município e que a maioria da população local é contrária à separação. Eles destacam a unidade histórica e cultural entre Itaúna e Santanense e alertam para os prejuízos que a divisão causaria.

   A "Folha do Oeste" desempenha um papel e ativo na oposição à emancipação, organizando campanhas e mobilizando a comunidade contra o projeto de Mourão. A resistência culmina na rejeição oficial do pedido de emancipação pelo CEDAJE em 1963, após uma análise detalhada dos requisitos legais não atendidos.

   Embora o deputado Mourão tenha feito esforços significativos e tenha havido tensão inicial, a unidade de Itaúna ainda permanece forte. A comunidade e os líderes locais continuam a sublinhar a importância de permanecerem coesos para impulsionar o progresso na região. A história final ressalta os desafios políticos, a mobilização comunitária e o papel crucial da integridade territorial no avanço contínuo de Itaúna.

   Este movimento ocorre em um contexto histórico onde o gentílico "Santanense" deriva do antigo nome do município de Itaúna, que era "Santana do Rio São João Acima". Assim, os nascidos naquela época eram chamados de santanenses, nome que persiste no bairro em questão.



EMANCIPAÇÃO SANTANENSE PARTE II

EMANCIPAÇÃO SANTANENSE PARTE III

EMANCIPAÇÃO SANTANENSE PARTE IV 

EMANCIPAÇÃO SANTANENSE PARTE V 

EMANCIPAÇÃO SANTANENSE PARTE VI 




REFERÊNCIA:

Pesquisa e organização para o blog: Charles Aquino

TEXTO: Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza

TEXTO: Sebastião Nogueira Gomide - PIU - Jornalista itaunense

FONTE IMPRESSA: SOUZA, Miguel Augusto de. Capítulos da história itaunense/Miguel Augusto de Souza – Itaúna: Universidade de Itaúna, 2001.Ed. Impressa Oficial de Minas.


EMANCIPAÇÃO SANTANENSE PARTE VI

Aproveitamos o ensejo para levar ao conhecimento de V. Exa. alguns reparos à margem do que vem acontecendo nesse tão falado caso de Santanense. Nossa formal repulsa ao movimento suspeito partido de descontentes e agitadores que em Itaúna chegaram até a promover o enterro simbólico de V.Exa. num evidente desrespeito à sua pessoa de homem de bem e trabalhador. E essa repulsa ganha mais campo e evidência, quando sabemos quanto o ilustre deputado tem feito para amparar e ajudar as indústrias siderúrgicas daquele município, quer pleiteando melhores preços para seus produtos, quer conseguindo melhoria através da concessão e amparo de crédito para as mesmas.

Bem sabemos que, passados os movimentos de agitações, aqueles círculos responsáveis vão saber quão erradas e injustamente agiram em relação à pessoa de V.Exa. que tem pautado a sua vida apenas em fazer o bem. Ademais, não podemos concordar em absoluto e protestamos energicamente contra os insultos e injúrias lançados contra as pessoas dos eminentes e ilustres colegas de V.Exa. que aqui vieram para conhecer Santanense naquele memorável domingo.

De fato a visita da caravana de deputados naquele domingo foi a maior honra que se poderia prestar ao humilde povo de Santanense e a todos nós foi dado presenciar talvez um dos maiores acontecimentos democráticos de todos os tempos. Estavam ali o prestígio e a independência do Poder Legislativo verificando “in loco” as condições para a prática de um ato de sua exclusiva competência e soberania. Por isso mesmo deixamos aqui bem claro o nosso protesto contra o modo descortês e desrespeitoso com que foram tratados pelos agitadores em Itaúna que, em praça pública, lançaram toda a sua ira contra o Poder Legislativo mineiro, na pessoa daqueles eminentes deputados.

Senhor deputado, os interesses de nossos opositores são inconfessáveis. Daí a violência de seus ataques injustos. Na realidade, queremos uma coisa muito simples: o direito de um governo municipal próprio. Essa oposição violenta tem origem na nossa capacidade tributária e no aspecto evidente de nossa prosperidade. V.Exa. tem nos ajudado e muito. Mas, enganam-se aqueles que julgam ter nascido o movimento por injunção pessoal de V.Exa. Esse movimento é legitimamente popular e nasceu de nossas próprias condições geográficas e sociais.

Não somos bairro de Itaúna, nem o é também a vizinha localidade de Garcias. Se estamos assim classificados é por artificialismo de uma lei municipal votada em Itaúna que assim nos considerou antes do último recenseamento. Talvez tal lei visasse a tola finalidade de demonstrar o progresso de Itaúna que assim apareceu com porcentagem enorme de crescimento demográfico.

Mas, na verdade não somos de fato bairro de Itaúna, como podem os senhores deputados verificar, somos sim um próspero povoado próximo de Itaúna e claro, cerca de quatro quilômetros, mas não ligado é à mesma como acontece com os bairros.

Outrossim, passamos às mãos de V. Exa. a transcrição de um editorial publicado em O Diário, edição de 13.9.63, relativo à rebelião dos sargentos, acontecimento semelhante ao verificado em Itaúna, quando da sabida agitação social. Pedimos a V.Exa. a divulgação do - mesmo relacionando-o com o nosso movimento pela emancipação.

Ao terminar, fazemos aqui um apelo a V.Exa. para ser transmitido aos ilustres deputados: “Conheçam a Santanense, antes do pronunciamento final dessa egrégia Assembleia”.

Com os nossos cumprimentos.

(a) Pe. Antônio João Maria Wiemers, Vigário.

(a) João de Souza Barbosa, escriturário.

(a) Geraldo Lopes de Magalhães, jornalista.

(a) Dorvil Rocha, técnico em contabilidade e professor.

(a) Pedro de Magalhães, comerciante.

(a) Dorvil Rocha, membro do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis.

(a) Atacílio Henriques, vereador pelo PTB.

(a) Nivaldo José da Silva, industriário.

(a) Aníbal Nogueira dos Santos, comerciante.

(a) Herzaide de Souza Franco, industriário.

(a) Antônio Gonzaga da Rocha, vereador pela UDN.

(a) Vicente Amâncio de Oliveira, industriário.

(a) Nilo Magalhães, técnico em contabilidade.

P.S.: Já tendo assinado várias listas de adesões encaminhadas à Cedaje e à Assembleia Legislativa praticamente toda a população de Santanense, somente assinaram a presente os coordenadores do movimento.

(a.) João de Sousa Barbosa, escriturário.”

O debate, na segunda e decisiva votação do Projeto de nova divisão administrativa do Estado, atingiria o seu clímax. Ergueu-se, na Assembleia Legislativa, em oposição à do deputado Alvimar Mourão, a voz do parlamentar natural de. Itaúna, João Gomes Moreira, cuja personalidade já tivemos oportunidade de analisar. O Diário da Assembleia, de 14 de setembro de 1963, publica o seu discurso de seguinte teor:

“O sr. Gomes Moreira — Sr. Presidente e srs. Deputados. Ocupamos esta Tribuna para encaminhar a votação do Requerimento do nobre Deputado Cícero Dumont, no qual S. Excia. solicita rito periódico para a tramitação da proposição que trata da emancipação dos novos distritos de Minas Gerais.

Nesse instante, Sr. Presidente, em que assumamos a Tribuna desta Casa, levamos a nossa modesta palavra ao povo mineiro, lamentando profundamente que nestes últimos anos nosso País tenha vivido momentos tão tumultuados. Ainda para agravar a situação, lamentamos também profundamente o que vem ocorrendo no Estado do Paraná, onde terríveis incêndios têm levado o luto, a orfandade, a viuvez, a miséria a muitos lares dos nossos patrícios paranaenses.

Julgamos, sr. Presidente, de nosso dever, da nossa obrigação, como lídimo representante do povo mineiro nesta Assembleia, estarmos na obrigação de procurar e envidar esforços no sentido de que a paz, a tranquilidade e o sossego público, possam voltar a reinar no seio da família mineira, no seio da família brasileira. Infelizmente, sr. Presidente, há certos problemas que surgem da parte, muitas vezes, de uma minoria absoluta que não representa a vontade da maioria, que procura dividir a opinião pública, concorrendo, ainda mais para proporcionar mais intranquilidade, maior desassossego, e afastar o espírito de fraternidade que deve ser mantido entre todos nós mineiros e todos nós brasileiros.

Refiro-me, Sr. Presidente, à emancipação proposta a esta Assembleia de um dos bairros de minha terra natal; refiro-me ao Bairro Santanense, que fora criado pela Câmara Municipal de Itaúna, lei essa que recebeu o número 169, cujo texto diz: “O povo do Município de Itaúna, por seus representantes decreta e em seu nome sanciona a seguinte lei:

“Art. 1º - Fica a sede do município de Itaúna, além da zona urbana já limitada em lei, dividida em sete (7) bairros, a saber: - Lourdes, Vargem da Olaria, Graça, Santanense, Serrado, Mirante e Garcia.”

Este é o texto da lei, sr. Presidente, subdividindo o município de Itaúna em 7 bairros. O único distrito que Itaúna possuía emancipou-se recentemente — Distrito de Itatiauçú. — Hoje, o município de Itaúna tem um território restrito e, ainda mais, para se emancipar é condição “sine qua non” que tenha, primeiro, a condição de Distrito, para depois poder pleitear a sua emancipação. Esta qualidade, Santanenses não a têm, porque ela é apenas um bairro, criado pela Lei 169. Outro dispositivo inconstitucional, é a população que consta, apenas, de dois mil novecentos e doze habitantes e, sobretudo, sr. Presidente e srs. Deputados, destes 2.912 habitantes que constituem a honrada e progressista classe operária de Santanense, 95% é constituída de operários daquele bairro que não têm, absolutamente, o mínimo interesse de emancipação, porque Itaúna começou, exatamente, em Santanense. O povo de Santanense e de Itaúna estão absolutamente unidos pelo laço de fraternidade e não desejam, constitucional, nova discussão da matéria, no segundo semestre de 1964 ou no ano de 1965.

5.5 - Itaúna, na luta pela preservação da integridade física de seu território, para usar expressão popular, havia ganho duas importantes batalhas, na CEDAJE, órgão presidido pelo Secretário de Estado do Interior, e no Plenário da Assembleia Legislativa, com a não aprovação do Projeto nº 324/63, mas ainda não havia vencido a guerra, pois restavam a ameaça da Emenda Constitucional proposta pelo deputado Jorge Vargas, transferindo a revisão administrativa para o segundo semestre de 1964 ou o ano de 1965, e o forte ressentimento existente entre as ativas lideranças do bairro da Santanense que contavam com majoritário apoiamento dos deputados que compunham a Legislatura a encerrar-se em dezembro de 1966, sob o comando de Alvimar Mourão.

Ao ser convidado, pelo eminente Governador Magalhães Pinto, para a missão de Secretário do Estado a Fazenda, em momento dos mais difíceis da vida nacional, dissemos que aceitaríamos, honrados, o encargo, mas em nenhuma circunstância poderíamos concordar com a criação do município de Santanense, pretensão ilegal, que mutilaria nossa terra natal de Itaúna, e para isso, usaríamos de todos os poderes legítimos que o cargo colocaria à nossa disposição, para o que pedíamos a prévia aprovação. O Governador, após dizer-nos que o homem político tem o dever de colaborar para o progresso de sua cidade natal, aprovou nossa atitude e recomendou-nos agir com discrição, pois grandes eram os interesses políticos envolvidos na questão, como já lhe fora dito por influentes deputados, seus amigos e correligionários.

Coube-nos, como Secretário de Estado da Fazenda e Secretário de Estado de Governo e Coordenação Política, no segundo semestre de 1964 e ano de 1965, superar estes dois obstáculos e encerrar, em definitivo, o litígio, com a eliminação das tensões e da ameaça à integridade física do município, tarefa que o destino nos reservara, obtendo-se o consenso e a paz, tão necessários ao desenvolvimento de Itaúna, e afastando-se, para sempre, o sombrio amanhã anunciado pelo deputado Alvimar Mourão. Relataremos, a seguir, como isto foi alcançado.

Ficara evidente, em meados de março de 1964, que não haveria tempo hábil para aprovação da projetada Revisão Administrativa, tema apaixonadamente discutido na Assembleia. As Reuniões Extraordinárias se sucediam, pela manhã e à noite, improficuamente, e com negativas repercussões perante a opinião pública, tendo-se em vista o ônus financeiro acarretado para os cofres estaduais. A situação nacional, por outro lado, se agravava e estávamos na antevéspera do movimento revolucionário que se iniciaria exatamente em Minas Gerais, na madrugada do dia 31 de março. O Parlamento mineiro necessitava de tempo para se concentrar no debate dos grandes temas nacionais. Surgiu, então, como fórmula para adiar o debate da Revisão Administrativa, conforme já exposto, a Emenda Constitucional de autoria do deputado Jorge Vargas, apoiada por todas as principais lideranças do Legislativo mineiro, independentemente de coloração partidária. Esta Emenda Constitucional foi apresentada na 66º Reunião Extraordinária, realizada em 18 de março de 1964, e era do seguinte teor:

Emenda Constitucional.

Artigo 1º - O artigo 80 da Constituição do Estado de Minas Gerais passa a ter a seguinte redação "Artigo 80 — São condições essenciais para a criação do município:

I - população mínima de dez mil habitantes;

II - renda anual mínima de trezentos mil cruzeiros;

III- existência, na sede, de, pelo menos, duzentos moradores, edifícios com capacidade e condições para o Governo Municipal, instrução pública, posto sanitário e matadouro, bem como terreno para cemitério.

Artigo 2º - O artigo 81 da Constituição do Estado de Minas Gerais passa a ter a seguinte redação: “ Artigo 81 — São condições essenciais para a criação do Distrito:

I - População mínima de três mil habitantes;

II - renda anual mínima de cinquenta mil cruzeiros;

III - existência, na sede, de, pelo menos, cinquenta moradores, edifícios para instrução pública e terreno para cemitério para 27 de fevereiro de 1.985.

Permanecemos, por todo dia, no aeroporto de Amsterdam, pois ali chegamos pela manhã, aguardando o avião da Varig que nos conduziria, á noite, para o Brasil. Recordamo-nos do Padre Antônio Wemers e, realmente, tivemos desejo de visitá-lo, mas não nos foi possível, pois não localizamos o seu endereço, que imaginávamos constar de nossas anotações. Teria sido boa oportunidade de debater, com ele, os angustiantes problemas do mundo moderno, que se refletem sobre a Igreja de Cristo, sobretudo para quem retornava, como era o nosso caso, deste país-mártir que é a Polônia.

Julgamos, ademais, ser de justiça, escrevermos algumas palavras sobre a personalidade do Deputado Alvimar Mourão, também figura central deste dramático episódio da moderna história itaunense. Trata-se de cidadão de grandes méritos, empresário vitorioso, chefe de família exemplar é uma das riais expressivas lideranças divinopolitanas, nas últimas décadas.

Somos testemunhas, como ex-Secretário de Estado e ex-Presidente de importantes Empresas Públicas, que ele, como Deputado Estadual, por várias legislaturas, prestou, a Divinópolis e ao Estado de Minas Gerais, relevantes serviços. No caso específico da tentativa malograda de emancipação, do bairro de Santanense, todavia, agiu, com a sua inata sagacidade, induzido por razões político eleitorais e informações deformadas que “lhe foram transmitidas. Foi combatido, frontalmente, como não poderia deixar de acontecer, por lideranças itaunenses e, assim, não poderia obter êxito, como, de fato, aconteceu. A vida pública é assim mesmo: uma sucessão de vitórias e derrotas, razão pela qual ela é tão atraente. Alvimar Mourão soube assimilar, com elegância, o insucesso inevitável da tese separatista. Manteve seu habitual “sense of humor”, sua maneira cavalheiresca de tratar indistintamente todas as pessoas e soube preservar, no plano pessoal, as suas amizades itaunenses, entre as quais honrosamente nós incluímos.

Consideramos nossa viril ação, nos anos de 1.963, 1.964 e 1.965, com o objetivo de manter a integridade física da cidade de Itaúna, decisiva em decorrência das altas missões que exercíamos, muito embora nossas limitações humanas, a segunda maior contribuição que, através dos tempos, nos foi possível prestar á nossa terra natal, precedida, em importância, tão somente, pela criação da Universidade de Itaúna, obra de inigualável significação.

O Governo do Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, a partir de 1.966, adotou diversas medidas centralizadoras, em detrimento dos Estados da Federação e respectivas Assembleias Legislativas, e a capacidade de legislar em matéria de revisões administrativas, tendo-se em vista abusos e condenáveis atos de liberalidade praticados, foi, praticamente, eliminada, razão pela qual não se realizou qualquer revisão administrativa até o ano de 2.000, como aquela prevista para 1.965. Hoje, ao lermos, no noticiário da imprensa itaunense, notícias como as da inauguração da Avenida Albino Santos, ligando Santanense e Garcias, bem como os demais bairros que inevitavelmente surgiram, na região, ao longo dos últimos vinte anos, no natural processo de crescimento urbano da cidade, sentimo-nos extremamente felizes com a cordialidade reinante entre os habitantes dos dois bairros citados, pois ela contrasta, felizmente, com o espírito de animosidade suscitado, há trinta e cinco anos atrás, pelo lamentável movimento separatista que, em boa hora, superamos. (Vide, edição de 21 de setembro de 1963, do jornal “Folha do Oeste”).

O Congresso Nacional, recentemente, revogou a legislação originária do presidente Castelo Branco, permitindo, às Assembleias Legislativas Estaduais, com facilidades, criar novos municípios, no ano de 2000. Estes, com o acontecido, se elevaram para o número de 813, e, em sua maioria, no Estado de Minas Gerais, não dispõem condições de autossustentação.

Quanto à Itaúna, definitivamente continuará a progredir e, no máximo dentro de 15 anos, superará o número de 100.000 habitantes, enquadrando-se, como cidade de médio porte, mesmo em termos nacionais, em harmonia com os ditames dos planejadores federais, fato que, em muito lhe facilitará a obtenção de recursos para áreas clássicas, com prioridade para o saneamento básico, saúde, educação e segurança.

 

REFERÊNCIA:

Pesquisa e organização para o blog: Charles Aquino

TEXTO: Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza

FONTE IMPRESSA: SOUZA, Miguel Augusto de. Capítulos da história itaunense/Miguel Augusto de Souza – Itaúna: Universidade de Itaúna, 2001.Ed. Impressa Oficial de Minas, p.408-411,420-421, 440-441. 

EMANCIPAÇÃO SANTANENSE PARTE V

Iniciavam-se, pois, os preparativos para a decisiva 2º Votação do importante Projeto nº 324/63, sendo que, a ele, foram apresentadas 279 emendas.

Solicitamos, ao prefeito Milton de Oliveira Penido, que fizesse gentileza de procurar-nos, em Belo Horizonte, em nosso gabinete da Presidência da Associação Comercial de Minas, no qual ele foi fidalgamente atendido.

Expusemos, a ele, os contatos mantidos e lhe transmitimos as nossas preocupações quanto à tramitação, do projeto, visto que, tradicionalmente, semelhantes pleitos eram tratados, na Assembleia Legislativa, em termos político emocionais, nunca prevalecendo os critérios técnicos e a tendência predominante era no sentido, em tese, de atender-se aos pleitos emancipacionistas.

O projeto separatista da Santanense, muito embora manifestamente ilegal, poderia, eventualmente, ser aprovado, o que nos conduziria a longo debate judiciário.

Dissemos-lhes, em síntese, pois que a nossa velha e consolidada amizade nos permitiria fazê-lo, o que se segue: a) era de seu dever, como prefeito Municipal, tudo fazer, e já sabíamos de sua enérgica ação neste sentido para que o projeto não fosse aprovado, na Assembleia Legislativa, sendo que ele, supúnhamos, contaria, nesta ação, com o apoiamento de pelo menos 90% da população municipal.

b)-ele deveria procurar manter contato pessoal com as principais lideranças, do bairro da Santanense, que lutavam em favor da separação, com o propósito de, eventualmente, atender alguns dos pleitos administrativos santanenses, os quais nos pareciam justos, com o que ele esvaziaria, necessariamente, o movimento emancipacionista que nos parecia, no fundo, artificial.

Dissemos-lhes que, em qualquer circunstância, poderia contar com o nosso modesto e discreto apoiamento, especialmente junto ao Governador Magalhães Pinto, com o qual mantínhamos boas relações pessoais e nos encontrávamos, com razoável frequência, em decorrência de nossos encargos públicos e classistas.

Milton de Oliveira Penido disse-nos que continuaria a lutar, no limite extremo de suas possibilidades, contra o projeto, para o que procuraria mobilizar toda a população itaunense, independentemente de conotações político-partidárias e que, também, contava com o nosso apoiamento junto ao Governo do Estado e deputados amigos na Assembleia Legislativa. Informou-nos, também, e a ausência de adequada dose de flexibilidade política era uma das características de sua personalidade, de que em nenhuma hipótese teria a iniciativa de manter contatos com os principais líderes separatistas do bairro Santanense, citando, nominalmente, os do padre Antônio João Maria Wiemers e do sr. Pedro de Magalhães, com os quais se demonstrava profundamente ressentido. Viemos a manter, antes de nossa posse na Secretaria da Fazenda, novos contatos pessoais, em Belo Horizonte, ao longo do debate legislativo do projeto 324/63.

É dever do historiador registrar que Milton de Oliveira Penido, como prefeito, foi combatente valoroso e incansável na luta pela preservação da integridade física da cidade. Os debates, ao ensejo da segunda votação do projeto, na Assembleia Legislativa, foram ainda mais acalorados e passionais do que imaginávamos e havíamos comunicado ao prefeito Milton de Oliveira Penido. Os separatistas Santanenses encontraram, na pessoa do ilustre deputado Alvimar Mourão, líder udenista de Divinópolis, e amigo particular das principais lideranças udenistas itaunenses, valioso apoio, fato que deixou, de início, o diretório udenista local dominado pelo sentimento da perplexidade. Alvimar Mourão, tipo clássico do self-made-man, empresário bem sucedido, simpático, inteligente, dotado de excelente poder de comunicação, além de ser, na luta política, obstinado e pragmático, “desenvolveu extraordinário trabalho em favor da emancipação do bairro da Santanense. Ele se utilizou de tática -bastante eficiente, pois que convidou praticamente todos os deputados estaduais para visitarem Santanense. Ele os conduzia, através da rodovia MG-050, até o trevo de entrada do bairro, recentemente construído, e os conduzia através de via pavimentada, construída no Governo Magalhães Pinto, até a praça Juvenal Pereira, a principal do bairro, e com excelente aspecto, onde os deputados eram fidalgamente recebidos pelo padre Antônio Wiermers e, frequentemente, visitavam as instalações industriais da Companhia de Tecidos Santanense, das mais modernas do Estado.

O deputado Alvimar Mourão os conduzia até a estação ferroviária do bairro com o objetivo de demonstrar, através de um marco da R.M.V., que o espaço entre Santanense e Itaúna era de exatamente quatro quilômetros, realmente a distância existente, por via férrea, entre as duas estações ferroviárias. Existiria, ainda, segundo mostrava, à distância, aos ilustres visitantes, a separar os dois núcleos urbanos, “uma mata virgem de eucaliptos”. O eminente deputado Cícero Dumont, parlamentar dos mais dignos do Estado, tradicional líder emancipacionista, apresentou em setembro de 1963, com o propósito de apressar a sua tramitação, propostas requerendo, na forma do disposto no artigo 150 do Regimento Interno, que o projeto nº 324/63, que dispunha sobre a revisão administrativa, viesse a ser disciplinado pelas “mesmas normas e prazos a que estão sujeitos os projetos periódicos”. Esta proposição, do preclaro parlamentar, demonstrando a tendência da Assembleia, foi aprovado, em 25 de setembro de 19683, por 50 votos contra 10.

O deputado Alvimar Mourão, ao discursar, na reunião de 11-9-1863, para encaminhar a votação da proposta Cícero Dumont, pronunciou o seguinte discurso, que nos permitimos transcrever, na íntegra:

“O sr. Alvimar Mourão - (para encaminhar a votação).

Sr. Presidente, Srs. Deputados.

Ao apreciar o requerimento do Deputado Cícero Dumont, quero dizer que estou a favor do mesmo por achá-lo oportuno. Nesta oportunidade, em que pese a consideração que tenho para com os meus correligionários de Itaúna, para com o Presidente e demais membros do P.S.D., quero discordar do Sr. Deputado Hermelindo Paixão e pedir vênia a S. Excia, para discordar de suas alegações, porquanto é preciso que todos os srs. Deputados ajam com serenidade, em relação ao caso de Santanense. Foi distribuído convite a todos os deputados, desta Casa, para: que comparecessem à localidade de Santanense, e verificar “in loco”; se tinham ou não razão as seiscentas assinaturas arquivadas no processo de emancipação daquela localidade, pedido de um povo aflito que deseja a emancipação. Não somos contra Itaúna, mas somos a favor daqueles que, dentro de uma prerrogativa, que dentro do direito, estão pedindo a emancipação. Itaúna está distante de Santanense, como muito bem demonstra um marco da R.M.V. - da estação de Itaúna à estação de Santanense - 4 quilômetros. Aquele bairro está separado de Itaúna por uma mata virgem de eucaliptos. Pelo simples fato de a Comissão ter apresentado um croqui, onde as divisas chegam até o centro de Itaúna, não quer dizer que não podemos apresentar emendas, modificando esta divisa. Quem pede a emancipação é o povo de Santanense: é um pedido justo, pois Santanense dispõe de todos os recursos para tornar-se uma cidade. Somente peço aos srs. Deputados que visitem Santanense e procurem conhecer a questão dos dois lados, e se faça justiça àquele povo. Qualquer que seja o veredicto desta Casa, ficarei satisfeito, porque sei que todos os srs. Deputados são justos e saberão fazer justiça aqueles que merecem (Discurso publicado no Diário da Assembleia de 17-9-1963. Os grifos são do autor desta obra).

O ilustre deputado Alvimar Mourão, no ardor do embate político desconhecia que quase todo o trecho ferroviário entre as duas estações era habitado e, sobretudo, sofismava ao dizer da existência de “uma mata virgem de eucaliptos”, pois já existia, em 1963, uma estreita estrada de “terra batida” ligando o bairro da Santanense ao centro da cidade de Itaúna.

Como explicar a ação política, no episódio, do digno deputado Alvimar Mourão, sabidamente parlamentar sensato e equilibrado? Acreditamos que seu comportamento político, voluntária ou involuntariamente, foi ditado pelas razões que se seguem: I) Ele sempre obteve, nas eleições que disputou, razoável, ainda que não expressivo número de votos, no bairro da Santanense, onde possuía alguns amigos sinceros e devotados, II) ele, ao longo de todo o episódio, foi duramente atacado por jornalistas e lideranças

municipais itaunenses e, como homem combativo, reagiu vigorosamente; III) e, finalmente, como líder representativo de Divinópolis, interessava-lhe, politicamente, a divisão urbana de Itaúna, com o seu consequente enfraquecimento, em termos político-econômicos, pois a cidade de Santanense, a ser criada, passaria, necessariamente, a gravitar em torno de Divinópolis, naturalmente sob a sua liderança política.

Escreva-se, a bem da verdade histórica, que o deputado Alvimar Mourão, ao longo de todo o complexo debate, se portou com esmerada educação, não se excedeu em seu linguajar e, deveras, defendeu, com muita competência política, a posição que lhe parecia mais correta e em harmonia com os interesses da região por ele representada, no parlamento estadual, por delegação de seus eleitores, aos quais sempre foi absolutamente fiel. Está claro, todavia, que este posicionamento, correto em termos de seu projeto político pessoal, contrariava, frontalmente, os mais legítimos e históricos interesses itaunenses, cuja comunidade haveria de reagir, como de fato aconteceu, com a altivez, sob a liderança natural de seu prefeito Milton de Oliveira Penido. Os partidos políticos itaunenses, e as principais lideranças municipais, compreendendo a gravidade da ameaça ao futuro de Itaúna, se uniram na defesa do patrimônio comum, inclusive algumas personalidades que, na fase inicial de pugna cívica, pretenderam se manter na inadmissível posição de neutralidade.

É de se destacar, ademais, a valiosa ação do jornal “Folha do Oeste”, sob a direção do jornalista Sebastião Gomide, hoje substituído pelo também combativo jornal, Brexó; dirigido pelo jornalista Célio Silva que, com o seu temperamento, não se limitava, apenas, em defender a causa itaunense, mas, também, investia fortemente contra os principais líderes separatistas. No ardor destes debates é de se mencionar, também, a ação ativa e radical do jornalista José Waldemar Teixeira de Mello. Os ânimos se exaltaram. Promoveu-se o enterro simbólico do deputado Alvimar Mourão e a cidade, por um dia, em sinal de protesto, paralisou todas as suas atividades. Os líderes separatistas, em número reduzido, eram, todavia, portadores de grande espírito de luta. Encaminharam, em 16 de setembro de 1963, memorial, ao deputado Alvimar Mourão, que foi, por ele, lido da tribuna da Assembleia Legislativa, na 120º reunião ordinária, e publicado no Diário da Assembleia de 21 do mesmo mês e ano, o qual reproduzimos a seguir:

“O sr. Alvimar Mourão — Sr. Presidente e srs. Deputados. Acabo de receber um ofício de comissão representando a população de Santanense pedindo que se dê ciência a esta Casa de seu conteúdo, o que ora faço:

“Santanense, 16 de setembro de 1963.

Exmo. Sr. deputado Alvimar Mourão — Assembleia Legislativa — Belo Horizonte. Nesta oportunidade, temos o prazer de passar às mãos de V.Exa. cópia do memorial que os coordenadores do Movimento Pró Emancipação de Santanense endereçaram às altas autoridades do Estado e do município de Itaúna.

EMANCIPAÇÃO SANTANENSE PARTE VI

REFERÊNCIA:

Pesquisa e organização para o blog: Charles Aquino

TEXTO: Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza

FONTE IMPRESSA: SOUZA, Miguel Augusto de. Capítulos da história itaunense/Miguel Augusto de Souza – Itaúna: Universidade de Itaúna, 2001.Ed. Impressa Oficial de Minas, p.398 – 402-407.