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quarta-feira, setembro 11, 2024

CANÇÃO PARA ITAÚNA

O poema "Canção para Itaúna", de Maria Lúcia Mendes, é uma expressão clara do amor profundo que a poeta nutre por sua terra natal, Itaúna, celebrando suas paisagens, história e cultura. 
Através de versos que evocam imagens como "terra dos quintais maduros" e "crepúsculo no Bonfim", Maria Lúcia nos transporta para uma Itaúna rica em memórias e significados. 
As referências ao Rosário e ao Bonfim revelam uma conexão espiritual com a cidade, onde o sagrado e o cotidiano se entrelaçam.
No verso "A seiva minando do chão bruto", a poeta sugere a força e a riqueza de Itaúna, tanto em termos naturais quanto humanos. O minério e os teares simbolizam o trabalho e a história industrial da cidade, enquanto o "riso e suor" remetem ao esforço coletivo de seus habitantes ao longo do tempo. 
Ao declarar "amo tuas virtudes, teus pecados", Maria Lúcia nos mostra uma relação sincera e completa com Itaúna, reconhecendo tanto os aspectos positivos quanto os desafios da cidade.

O poema culmina com a afirmação "Sou tua filha, a pedra negra eu beijo", uma metáfora poderosa que remete às raízes históricas de Itaúna, antigamente conhecida como Santana do Rio São João Acima, associada à famosa "Pedra Negra". 

Esse poema, apresentado como uma homenagem em comemoração à emancipação de Itaúna em 16 de setembro, nos brinda, assim, com uma celebração poética que reforça o orgulho e a ligação afetiva com a cidade.


CANÇÃO PARA ITAÚNA

Eu te amo, terra dos quintais maduros

Do Rosário na laje, onde pastam sonhos ...

Crepúsculo no Bonfim, como não vê-los ?

A seiva minando do chão bruto

É minério que engendras, são teares

Riso e suor no tempo emoldurados.

A tempo de viçar toa uma história

Terra que se soprou ventos viários

Fome, razão, cicatriz, desejo

Amo tuas virtudes, teus pecados

Sou tua filha, a pedra negra eu beijo.


Prepare-se para uma viagem emocionante no tempo e no coração!  Agora, essa experiência está disponível também em vídeo! Não perca essa oportunidade imperdível de celebrar a essência de Itaúna de uma forma única e tocante. Venha viver essa poesia com a gente!"


Poema: Escritora Maria Lúcia Mendes 

Organização e arte: Charles Aquino. 

Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais: Pedra Negra.

terça-feira, julho 16, 2024

MINHA MENINA

Hoje, que você completa nove anos, gostaria muito de eternizar este dia e parar a corrida do tempo para conservá-la sempre criança.

Vendo-a tão meiga, flor que desabrocha, você é, filha amada, minha esperança, menina — ternura, amor em forma de paz.

Hoje, tenho vontade de contar-lhe que casinha de brinquedos, cacos de vidro, colo de árvore baixa e enxurrada deveriam ser o seu mundo.

Que eu brincava assim com meus irmãos, no inesquecível quintal de minha avó.

Que castanha-do-pará, caída do pé, num estalinho gostoso, é prato de festa em batizado de bonecas.

Que sobre os muros lodados, há um, mundo de ovos dourados de borboletas azuis, vermelhas e amarelas...

Que à noite há fadas de longos vestidos brancos, chapéu em cone e varinha de condão ...

E há cogumelos redondos e encantados onde vivem joaninhas e anões.

Que a bruxa de nariz com verruga, vestida de preto, voa todas as noites sobre o telhado, rodando o sono das crianças.

Mas não vou dizer-lhe nada. Não tenho o direito de penetrar neste seu mundo encantado, hoje bem diferente da meninice que vivi. Vou retratar apenas dentro de minha alma, este seu rostinho tão lindo, este cabelo encaracolado a roçar-lhe os ombros, esta vivacidade que me encanta.

E, perpetuando este momento, você será sempre menina para mim. Sua vida, esta ventura, este milagre de ter apenas nove anos.

Sua mãe, aos dezoito de janeiro de mil novecentos e setenta e nove... Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais - Pedra Negra 


"Minha Menina"

O texto "Minha Menina" é uma tocante declaração de amor de uma mãe para sua filha em seu nono aniversário. Através de uma narrativa nostálgica e poética, a autora expressa o desejo de eternizar a infância da filha, relembrando a simplicidade e a magia de sua própria meninice. O texto é escrito em um tom pessoal e íntimo, com uma linguagem que mistura simplicidade e lirismo. A estrutura é composta por frases curtas e parágrafos que refletem uma conversa direta com a filha. A mãe descreve suas memórias de infância com detalhes vívidos e poéticos, criando uma atmosfera encantadora e quase mágica.

A linguagem do texto é altamente evocativa, utilizando metáforas e imagens para pintar um quadro vívido da infância. Frases como "flor que desabrocha" e "minha esperança, menina — ternura, amor em forma de paz" demonstram a habilidade da autora em capturar emoções profundas e complexas em palavras simples. A riqueza das descrições sensoriais, como o "estalinho gostoso" da castanha-do-pará, transporta o leitor para o mundo descrito.

Há uma reflexão melancólica sobre o passar do tempo e a impossibilidade de deter o crescimento da filha. A mãe reconhece que não tem o direito de "penetrar neste seu mundo encantado", aceitando que a infância da filha é distinta da sua. Este reconhecimento adiciona uma camada de resignação ao texto, equilibrando a nostalgia com a aceitação.

"Minha Menina" é uma carta que ressoa com amor, nostalgia e a beleza efêmera da infância. Através de uma narrativa poética e envolvente, a autora captura o desejo universal de preservar momentos preciosos e a inevitável aceitação da passagem do tempo. O texto é um tributo à inocência e à magia da infância, celebrando a alegria simples e a imaginação vívida que caracterizam essa fase da vida. Em suma, o texto é um exemplo comovente de como a literatura pode eternizar sentimentos e momentos, oferecendo ao leitor uma janela para as profundezas das emoções humanas.



Referência:

Organização, arte e análise: Charles Aquino 

OLIVEIRA. Maria Lúcia Mendes. Recado (em pedra e pétalas). Luciana Menina, p.49-50.

sexta-feira, julho 05, 2024

DÉCADAS VIBRANTES

Nos idos das décadas de 1956 e 1957, a jovem Vicentina Brant vivia uma infância cheia de sonhos e realizações na encantadora cidade de Santana do Rio São João Acima, hoje conhecida como Itaúna, Minas Gerais. Com apenas dez anos, Vicentina já era uma pequena estrela em ascensão, cativando a todos com sua voz doce e sua presença marcante.

Vicentina estudava no Jardim de Infância Ana Cintra, onde era conhecida não apenas por sua inteligência, mas também por sua alegria contagiante. Seus dias eram uma mistura vibrante de atividades: ora estava na escola, ora brincando em casa, ora no Salão de Beleza com sua mãe. A praça da matriz era seu palco de brincadeiras, sempre sob o olhar atento e amoroso de sua mãe.

Toda quarta-feira à tarde e sábado pela manhã, Vicentina se encontrava com o Sr. Antônio Alexandre, um talentoso acordeonista, para ensaiar para o programa "Garotas em Desfile" de Cosme Silva. Esses ensaios eram momentos de intensa dedicação e aprendizado. Sr. Antônio Alexandre era mais do que um mentor; ele era um amigo querido, quase um segundo pai. Quando Vicentina errava, as lágrimas vinham rápido, mas seu perfeccionismo e a falta de pressão da mãe a motivavam a continuar. Sr. Cosme Silva, com sua paciência e palavras de incentivo, sempre conseguia acalmá-la e ajudá-la a retomar os ensaios com confiança renovada.

Os domingos eram especiais. A apresentação no Cine Bagdá, transmitida pela ZYZ4 Rádio Clube de Itaúna, era o ponto alto da semana. Vicentina, com seu figurino impecável preparado por sua mãe e pelas talentosas costureiras Dona Naná e Dona Bela Corradi, encantava a todos. Seus calçados, feitos com carinho pelo Sr. Palomínio, completavam o visual perfeito.

Ao caminhar pelas ruas com sua mãe, Vicentina era frequentemente abordada por admiradores que a reconheciam do programa. "Esta é a sua filha que canta no programa do Cosme?" As pessoas perguntavam, e o coração de Vicentina se enchia de orgulho ao ouvir a resposta afirmativa de sua mãe. Sentia-se uma verdadeira cantora, vaidosa e importante.

Vicentina recebia elogios de todos os lados. Sua professora, Dona Terezinha Lara, sempre acenava do sobrado onde morava quando Vicentina passava de volta para casa. Seu padrasto, Antônio Vilaça, patrocinava suas apresentações e sintonizava no programa para prestigiá-la, aumentando ainda mais seu sentimento de vaidade e importância. Ele também cuidava de seus penteados e da base incolor em suas unhas, garantindo que ela estivesse sempre impecável.

O repertório de Vicentina incluía canções de grandes nomes da música, como Cauby Peixoto, Elizeth Cardoso e Maysa. A cada apresentação, ela se sentia mais segura e preparada, graças aos ensaios cuidadosos com sua mãe. As músicas românticas eram suas favoritas, especialmente "Prece de Amor" de Cauby Peixoto. A emoção de começar a canção como uma oração, com as mãos postas na altura do peito e um olhar rápido para o céu, era um momento mágico que encantava a plateia.

Vicentina Brant cresceu para se tornar uma mulher forte e talentosa, carregando consigo as memórias preciosas de uma infância repleta de música, amor e dedicação. Suas lembranças de Santana do Rio São João Acima, do Jardim de Infância Ana Cintra, do Cine Bagdá e das pessoas queridas que a apoiaram são um testemunho de uma época dourada que moldou sua vida para sempre.

História narrada em áudio! Imperdível!


Referências:

Organização, arte e elaboração: Charles Aquino

Texto: Vicente Brant  

quinta-feira, julho 04, 2024

O VESTIDO

A crônica "O VESTIDO" escrita pela escritora Maria Lúcia Mendes oferece um vislumbre encantador e nostálgico da infância, capturando a magia e a inocência desse período através de uma narrativa simples e evocativa.

O tema central da crônica é a relação afetiva da narradora com um vestido especial, representando a valorização das pequenas coisas e a importância dos símbolos de infância. O vestido não é apenas uma peça de roupa; ele se torna um objeto de desejo, um símbolo de status entre as amigas e, mais profundamente, um guardião de segredos e sonhos.

A narrativa é em primeira pessoa, o que proporciona uma visão íntima e pessoal dos sentimentos da personagem. A autora utiliza uma linguagem simples e direta, refletindo a perspectiva infantil e a pureza das emoções descritas. A repetição de ações e o desejo constante de vestir o vestido acentuam a obsessão e o encanto que a peça exerce sobre a menina.

O vestido branco bordado carrega um simbolismo profundo, enquanto os personagens de contos de fadas remetem ao mundo da fantasia e da imaginação infantil. A imposição de que o vestido é "só pra ir à missa e aniversário" sublinha a importância de ocasiões especiais na vida da criança e a distinção entre o cotidiano e o extraordinário.

O príncipe escondido na costura da manga representa os sonhos e segredos que a criança guarda, uma metáfora para as fantasias e expectativas que a infância carrega. Este detalhe quase invisível simboliza o valor subjetivo e emocional que as crianças atribuem aos seus objetos queridos, muitas vezes imperceptível aos olhos dos adultos.

O conflito principal gira em torno do desejo incessante de vestir o vestido e a proibição imposta pelos adultos. Este conflito se intensifica quando a criança descobre que o vestido não lhe serve mais, provocando uma reação intensa de frustração. A tentativa dos adultos de "engabelar" a menina com uma bainha postiça é vista como uma solução paliativa e insatisfatória, que não apazigua a dor da perda.

A resolução, com o vestido sendo eventualmente relegado ao fundo da mala, simboliza o inevitável crescimento e as transições da infância para a adolescência. A perda do vestido é, portanto, uma metáfora para a perda de uma parte da inocência e da magia da infância.

A linguagem poética e as descrições vívidas contribuem para criar uma atmosfera nostálgica e envolvente. A escolha de palavras e as frases curtas e emotivas capturam perfeitamente a voz e os sentimentos da criança. O uso do tempo presente em "Todo dia era sagrado" e "Só hoje: eu pedia sempre" transmite a sensação de um desejo contínuo e persistente, enquanto o tempo passado em "sapateei, ralei o calcanhar no chão e veio o um choro espichado" enfatiza a intensidade da reação emocional.

Situada em Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais, a crônica também oferece um pano de fundo cultural específico. Reflete a vida em uma cidade pequena e a importância de eventos comunitários como missas e aniversários. Este contexto adiciona uma camada de autenticidade e regionalismo à narrativa, permitindo que os leitores se conectem com a cultura local e o ambiente descrito.

A crônica "VESTIDO" de Maria Lúcia Mendes é uma obra sensível e tocante que captura a essência da infância com sua simplicidade e profundidade. Através de uma narrativa evocativa e personagens simbolicamente ricos, a autora nos leva a refletir sobre a importância das pequenas coisas e as transições inevitáveis da vida. A crônica nos lembra que, por mais efêmeros que sejam os objetos da nossa infância, os sentimentos e memórias que eles evocam permanecem profundamente enraizados em nossas lembranças.


História narrada em áudio! Imperdível!



Referência: Organização, arte e análise: Charles Aquino 



sexta-feira, junho 28, 2024

RUA DO CASCALHO

No texto "Rua do Cascalho", Maria Lúcia Mendes oferece uma visão rica e detalhada da vida cotidiana em uma comunidade simples, mas vibrante. Desde o amanhecer, as casinhas sem reboque começam a liberar o cheiro do café e da lenha queimando, criando uma atmosfera acolhedora e familiar. As mulheres surgem como figuras centrais, cuidando das tarefas domésticas com alegria e interagindo umas com as outras, trazendo vida e energia à rua.

As descrições poéticas de Mendes capturam a beleza nas pequenas coisas: as plantas que adornam os arredores das casas, os sons das aves e o cantarolar de Aninha da Capela enquanto costura. Esses detalhes constroem um cenário nostálgico e encantador, refletindo a pureza e a autenticidade da vida na Rua do Cascalho.

O padeiro Vadinho, com seu enorme balaio e seus chamados matinais, representa a continuidade e a tradição em meio à mudança. Sua interação bem-humorada com os moradores, que reclamam do tamanho do pão, ilustra a convivência comunitária e a aceitação das imperfeições cotidianas.

À medida que o dia avança, a rua ganha vida com moradores descendo em direção à torneira comum, compartilhando receitas de remédios caseiros e histórias. A imagem das latas d’água equilibradas na subida do morro serve como uma metáfora para a resistência e a habilidade dos moradores em manter o equilíbrio, mesmo nas condições mais desafiadoras.

Mendes, através de sua narrativa sensível e detalhada, consegue não apenas descrever uma manhã típica na Rua do Cascalho, mas também capturar a essência de uma comunidade que valoriza a simplicidade, a interação humana e a continuidade das tradições. A nostalgia que permeia o texto é reforçada pela voz narrativa que relembra a própria infância na rua, adicionando uma camada pessoal à observação da vida cotidiana.

"Rua do Cascalho" é um tributo à resiliência, à beleza nas pequenas coisas e à pureza das relações humanas. Cada detalhe contribui para um retrato vibrante e memorável de uma comunidade que, apesar de simples, é rica em cultura e humanidade.

Veja mais: História narrada em áudio 


Organização e arte: Charles Aquino

Texto: Maria Lúcia Mendes

 

AMOR EM PEDRA NEGRA

   O vídeo que narra o texto de Vicentina Brant, "Amor em Pedra Negra", é uma comovente narrativa familiar que abrange três gerações de uma família mineira, destacando suas origens, desafios e resiliência. A autora inicia detalhando a genealogia de sua família, situando-os no Retiro dos Pinto, uma localidade histórica com significados profundos e conexões ancestrais.

   A narrativa é centrada em Maria Martins Vilaça, mãe da autora, que, aos 17 anos, casa-se com Mário de Queiróz. A felicidade inicial do casal é abruptamente interrompida quando Mário falece tragicamente após uma picada de cobra, deixando Maria viúva aos 19 anos com dois filhos pequenos. A jovem viúva, com o apoio do pai, Ulisses, e da mãe, Verônica, enfrenta as adversidades, incluindo a doença terminal do pai.

   Em meio às dificuldades, Maria conhece Antônio Vilaça, um cabeleireiro que, tocado pela tristeza de Maria, se empenha em encontrá-la e oferecer seu amor e suporte. Este encontro marca um ponto de virada na vida de Maria, culminando em um casamento que não apenas solidifica a estabilidade emocional e financeira da família, mas também proporciona a Maria uma nova profissão.

   A história é rica em detalhes sobre a vida rural e urbana, as relações familiares e a luta constante contra as adversidades. A narrativa de Brant é entremeada por descrições vívidas de lugares e personagens, criando uma atmosfera de nostalgia e reverência pelas raízes familiares.

  A história apresentada é um tributo ao poder do amor e da resiliência diante das dificuldades. A forma como Brant tece a história demonstra não apenas a importância das conexões familiares, mas também a capacidade de superação e adaptação às mudanças. "Amor em Pedra Negra" permanece uma tocante celebração da vida e da perseverança humana.

Veja mais: História narrada em áudio 


Referências:

Texto: Vicentina Brant

Organização, produção e arte: Charles Aquino


domingo, abril 24, 2022

AMOR EM PEDRA NEGRA

Vicentina BRANT*

Minha mãe Maria Martins Vilaça, eu e meu irmão Mário, nascemos no Retiro dos Pinto, na fazenda de nossos avós maternos, onde se encontra a nascente dos Pinto, localizado em Itatiaiuçu, que na época era distrito de Itaúna. A Nascente, forma o Ribeirão dos Pinto, a Cachoeira dos Pinto e o Córrego dos Pinto, que por sua vez, forma a Cachoeira dos Chaves e deságua no Rio São João.

A minha mãe, era a penúltima filha de meus avós Ulisses Martins Pinto (família Martins Fonseca Pinto, todos dessa região, mas de origem portuguesa que se instalaram em Itatiaiuçu, nesse lugar, que veio a ganhar o nome de Retiro dos Pinto). A mãe, Verônica, nasceu em Itaguara, da família Antunes Vilela e Ferreira Teles, que mudou – se para o nosso Retiro, quando casou-se com Ulisses. Tiveram 7 filhos (4 homens e 3mulheres).

Maria, com apenas 17 anos de idade casou – se com Mário de Queiróz em junho/50, filho de João Batista de Queiroz (família Batista Guimarães e Queiroz) e Alvina Marques Pereira (os Marques de Itaúna), ela também de Itatiaiuçu.

Quando todos nós nascemos, Itatiaiuçu, era distrito da Comarca de Itaúna, que depois mais tarde veio a emancipar-se. O meu pai, nasceu na fazenda de meu avô (aquela área toda que envolve a barragem do Iate Clube e todo ao redor, inclusive toda parte de cima da rodovia, era herança de sua família. Quase um latifúndio, mas foi desapropriado em todo seu terreno para fazer a usina, recebeu na época, uns trocados apenas!

O ano de 1952 para nós foi muito difícil. Meu pai após ser picado por uma cascavel na Ponta da Serra em agosto, falecia aos 22 anos de idade, deixando minha mãe viúva com apenas 19 anos de idade, eu com um ano e quatro meses e meu irmão Mário, com apenas 4 dias de vida.

Em dezembro 1952, após o trágico acidente com o meu pai, fomos eu, aminha mãe e o meu avô materno para Itaúna, onde alugou-se uma casa na rua Dr. Dorinato Lima, para hospedarmos sempre que vínhamos a essa Cidade, para fazer o tratamento médico do câncer em meu avô Ulisses.

Assim, continuamos indo/vindo de Itaúna ao Retiro, permanentemente. Nessa época, eu tinha apenas um ano e oito meses de idade, mas já servia de companhia para a minha mãe. O tratamento durou cerca de um ano, até o seu falecimento em sua casa no Retiro em dezembro 1952. Nesse período ficou somente a minha avó Verônica, zelando dos serviços e trabalhadores da fazenda e cuidando de meu irmão Mário que tinha no início da enfermidade do avô, apenas 4 meses de idade.

Dias depois a minha mãe voltou em Itaúna, para fazer compras indo em direção ao centro da cidade. Caminhando em direção a Rodoviária que era ao lado do Automóvel Clube, para embarcar na “Jardineira” que fazia o transporte de Itaúna a Itatiaiuçu, avistou um salão de beleza que ficava ao lado do Cine Rex e resolveu entrar para fazer um corte em seus cabelos.

O proprietário, muito educadamente indagou porque a jovem mulher se vestia toda de preto, Maria informou que seu marido havia falecido e que o seu pai também a poucos dias os deixara. Feito o corte do cabelo, a jovem mulher despediu-se do proprietário, Antônio Vilaça e retirou-se do local, mas aquele olhar triste e inconsolável de Maria, ficou nas lembranças daquele homem.

Quinze dias se passaram e Antônio resolveu fazer uma visita àquela jovem vestida de preto que havia feito um corte de cabelo em seu salão. O cabeleireiro havia se encantado com Maria e no fim de semana foi ao Retiro, procurar a sua casa. Chamou em várias casas que também haviam marias. Mas nenhuma delas, era a Maria que esperava encontrar.

Antônio retornou ao Retiro na semana seguinte, disposto a encontrar a Maria que procurava e, que não saía de seu pensamento. O acesso a casa de Maria, era somente a pé, por carro de boi ou a cavalo, mas Antônio não se importou com as dificuldades e conseguiu chegar até o local a ele informado pelo último fazendeiro vizinho e compadre de meus avós.

Antônio ao ver Maria, logo lhe disse que sua intenção de estar lá, seria de torná-la a sua esposa. Com o sim de Maria, Antônio fez o pedido de sua “mão” à sua mãe Verônica, porque apesar de viúva, Maria ainda era menor. E disse também, que a sua intenção, era de assumir os filhos dela, que precisavam de amparo.

O pedido foi aceito. Ele com 49 anos de idade e ela com 19 anos – assim, o amor em PEDRA NEGRA acontecia entre Antônio e Maria. No ano de 1954 no dia dezessete de abril, Maria Martins e Antônio Vilaça se casaram e fomos todos morar em Itaúna. Logo depois, a minha avó Verônica também foi convidada a ir, por Antônio.

Minha mãe se profissionalizou em eximia cabeleireira, com seu esposo Antônio Vilaça, que lhe ensinou tudo. Ao seu lado, ela trabalhou no Salão de Beleza Santo Antônio de propriedade dele, localizado no Largo da Matriz, hoje, Praça Dr. Augusto Gonçalves, que ficava ao lado do Cine Rex Atualmente, com a nova edificação, o espaço se tornou o edifício Benfica.

Em 1959, após 5 anos de casados, Maria Martins Vilaça, ficou viúva inesperadamente de Antônio Vilaça. Continuamos a morar em Itaúna até 1968, quando anos depois, mudamos para a Capital e por último a cidade de Contagem. Mas com muita frequência, passando fins de semana e férias em Itaúna. Depois das perdas que ocorreram em nossa família, minha mãe, levou-me ao pediatra porque estava tristinha. O saudoso e querido Dr. José Drumond que passou a acompanhar-me em check-up e emergências infantis, depois de nos mudarmos para Itaúna. Antes de nos mudarmos, ainda lá na roça, éramos cuidados pelo grande e saudoso Raimundo Faria (compadre de meu avô Ulisses).

Nota:

Em 2008 no dia 6 de agosto, minha mãe seguiu nova jornada, sendo velada e sepultada no Cemitério Central de Itaúna. Minha mãe amou profundamente Itaúna. Em seu livro de poesias “Folhas na Cama” – página27, publicou os seguintes versos:

HOMENAGEM (Maria Martins Vilaça)

Itaúna terra querida,

Não posso te esquecer,

Os contratempos da vida

Roubaram-me de você.

Hoje tenho saudades

De suas tradições,

Seresteiros nas madrugadas

Nas janelas dos barracões

Suas ruas antigas

Becos de ilusões,

A igreja do Bonfim

Os velhos casarões.

Suas festas religiosas

Seu grande animador,

Mineirinho das barraquinhas

Cantando coisas de amor.

A praça da matriz

Aquele gramado em flor,

A fonte luminosa,

Com seus raios multicores,

Um ritmo de valsas

Testemunham grandes amores.

Itaúna, terra querida,

Não te esquecerei jamais.

Terra de gente boa,

Rainha de Minas Gerais.

Agora, toda história narrada…… imperdível!!!


Água

“Isso é que é exemplo da “verdadeira democracia, a da Natureza! ”: – A Água nasce em terreno dos Pinto, percorre e serve vários outros terrenos, o terreno dos amigos Chaves, oferecendo-lhes a sua bela Cachoeira dos Chaves, e segue depois, abastecendo o nosso querido Rio São João! Salve a Natureza!”

Acervo: Fotografia de família registrada pelo saudoso fotógrafo Osvaldo. Esta foto foi feita, no dia da inauguração da Praça de Esportes Juscelino Kubitschek – Itaúna. Foi um dia muito festivo com a presença do homenageado, comitiva, convidados de fora e o ilustre povo itaunense.

E lá estávamos nós participando também das festividades. Na época, éramos vizinhos da Praça. Vê – se da direita para a esquerda da foto: Sra. Mariazinha – RJ (prima de meu padrasto); Sr. Antônio Vilaça (meu saudoso e queridíssimo padrasto); Maria Martins Vilaça, minha Mãe, saudosa poeta e esposa de Antônio Vilaça; Nélia – RJ (amiga de Mariazinha); as saudosas irmãs Aidée e Terezinha Vilaça (sobrinhas de meu Padrasto); Maria Verônica (minha saudosa e querida avó materna); ao colo de sua mãe, a Erlane e a sua irmã, saudosa Edna, na frente de Nelia. Eu, Vicentina Brant, na frente de meu padrasto! 

O Sr. Antônio Vilaça, foi o fundador – proprietário do Salão de Beleza Santo Antônio, situado na Praça da Matriz, ao lado do Cine Rex. Até 27/04/59, data de seu falecimento, era o único e exclusivo Salão de Beleza dessa Cidade. O Sr. Antônio, era um homem íntegro e respeitado pela sociedade itaunense. Era um exímio cabeleireiro. Atualizado e comprometido com sua profissão, com o seu negócio e com o seu público. Naquela época, o Sr.Antônio com o seu espirito empreendedor, já trabalhava com foco na qualidade do atendimento, dos serviços prestados e a satisfação de seu enorme público! Quanto orgulho tenho de ser sua enteada!

*Vicentina Brant estudou no Jardim de Infância Ana Cintra, nos anos de1956 e 1957. Trabalhou na CFLMG e depois foi transferida para a CEMIG, onde trabalhou no Serviço Social até aposentar-se por tempo de serviço.

Não teve a oportunidade de prosseguir na música, mas nunca a abandonou. Cantou por todas as escolas que passou e entre amigos da música. Para a sua mãe, sempre cantou músicas de recordações dela e de ambas.

Era uma questão de honra, pelo carinho e apreço de uma para com a outra, afagando assim, o sonho de cantar… Sonho que foi realizado com agravação do CD: “Que Bem me Faz – Um sonho de menina”, lançado na Matriz de Itaúna em 15/09/2016, à véspera do aniversário desta Cidade.

Fez na UFMG um ano e meio de Canto e hoje faz aulas com Eladio Pérez, profissional do Canto, um talento paraguaio, de 90 anos de idade. Nos ensaios, gravações, apresentações e no violão, está sob a maestria do professor, compositor, instrumentista e criador do Grupo “Quinto do Choro”, André Oliveira. 

Referências:

*Mineira de Retiro dos Pinto (Serra de Itatiaiuçu) e apaixonada pela música desde criança, canta pelo prazer de viver. Começou os estudos musicais quando se mudou para Contagem, aonde conheceu outros artistas, que possibilitaram um contato ainda maior com a música. Disponível em: https://tratore.com.br/um_cd.php?id=21410

Organização para o Blog: Charles Aquino 

domingo, junho 25, 2017

ITAÚNA: RUA DO CASCALHO


*Maria Lúcia MENDES

Manhã, bem cedo, começa a labuta na rua do Cascalho. Das casinhas sem reboque, empilhadas morro a pique, as chaminés soltam uma fumaça cheirosa, sinal de que está pronto o café. E a lenha estala nos fogões, cozinhando o feijão do almoço.
Uma a uma, as janelas vão se abrindo. Surgem mulheres de lenço na cabeça, sacudindo colchas de retalhos coloridos e batendo os travesseiros para tirar a poeira. Logo depois, lá estarão elas à frente da casa empunhando enormes vassouras de coqueiros. Dá gosto vê-las alegres, varrendo o chão batido num trabalho de todas as manhãs. Vez em quando param e espicham conversa na lengalenga de sempre: Compadre, não te conto nada...
Quando o terreiro já está bem varrido, é a vez de aguar as plantas que, amontoadas aqui e ali, dão um toque de graça à rudeza das pedras. São latas de manjericão, malvinhas, plantas em pinicos, cravo-caboclo, queixo-caído, comigo-ninguém-pode e espadas-de-São Jorge.
Ao redor das casas, brotando dos alicerces, os pés de mulata-nasala vão colorindo a paisagem com suas florzinhas regateiras.
Uma velhinha espigada abre a porta da cozinha trazendo nas mãos uma cuia de milho: Tico, tico, tico! P’rrr!...
E bate na cuia chamando as aves que correm agitadas, bicando-lhe as chinelas e a saída de algodão. Depois, ela, pondo-se de cócoras, vai jogando punhadinhos de milho aqui e ali falando sozinha: este aqui é para o Natal, o carijó para o Ano Novo...
Enquanto isto, no quintal ao lado, as galinhas d’angola gritam encarapitadas no sabugueiro: Tô fraca! Tô fraca! Tô fraca!...
A dona da casa chega à porta da cozinha: Êta galinhada custosa!
E entra novamente comandando a filharada: Varra essa casa direito, Maria! Olhe a panela no fogo, Beré!
Lá no alto, num barraco pitando de azul, Aninha da Capela costura em sua máquina de mão. Ajeita os cabelos puxados num coquinho ralo e começa a cantoria: “Sete e sete são quatorze, com mais sete, vinte e um. Todo mundo tem amor, só eu não tenho nenhum”.
Um rapazinho magro, carregando às costas um enorme balaio vai subindo a rua devagarinho. Às vezes, para, descansa um pouco, e sua voz conhecida esparrama-se pela rua afora: Sooo... Vadinho! Pão de sal! Forrobodó! Ô de casa?! Ô de Casa?!
A freguesia acode: Ô de fora! E é um tal de mexe, remexe o fundo do balaio sob os protestos de sempre: Deram outro corte no pão!
Acostumado àquela cantilena, o padeiro sorri, põe o balaio às costas e segue seu caminho.
O sol começa a brilhar pelos telhados e quintais. A rua ganha movimento. É muita gente descendo com latas e rodilhas, rumo à torneira que serve aos moradores do Cascalho e que fica lá embaixo no começo da rua. Pelo caminho, ninguém despreza um dedo de prosa.
Oi, Zé Camilo! O remédio foi bom pra danar. Qual é o remédio? Não estou me lembrando não. E sem esperar resposta: Barbatimão, chapéu-de-couro, gravatá, mutamba, erva-cidreira, canelinha...
Esse tal de gravatá é um porrete pra tosse. E o velho cachimbando: Remédio das plantas é muito melhor. O povo é porque não sabe. A fileira das latas vai aumentando. E o vaivém prossegue animado.
Quem já encheu sua vasilha, sobe o morro com lata d’agua num equilíbrio que dá gosto.
Rua do Cascalho! A pureza e a simplicidade de sua gente, suas casinhas morro a pique, os pés de mulata-na-sala florindo nos alicerces. Eu também morei lá, sempre algumas horas por dia, quando ia catar umas pedras redondinhas para jogar nendes nas tardes calmas da infância. E. na roda-viva de hoje, ante os obstáculos da vida, relembro a fileira das latas, os moradores da rua e inconscientemente vou cantando: Nendes! Nendes! Um! Nendes! Nendes! Dois...
É a roda-viva que continua.   

* Escritora itaunense por herança e registro.

Fonte: MACEDO, Maria Lúcia mendes Vera. Pedra de Cetim, BH, Gráfica e Ed Cultura, 2001, p.26,27,28.
Organização e arte: Charles Aquino