O poema
"Canção para Itaúna", de Maria Lúcia Mendes, é uma expressão clara do
amor profundo que a poeta nutre por sua terra natal, Itaúna, celebrando suas
paisagens, história e cultura.
Através de versos que evocam imagens como
"terra dos quintais maduros" e "crepúsculo no Bonfim",
Maria Lúcia nos transporta para uma Itaúna rica em memórias e significados.
As
referências ao Rosário e ao Bonfim revelam uma conexão espiritual com a cidade,
onde o sagrado e o cotidiano se entrelaçam.
No verso "A
seiva minando do chão bruto", a poeta sugere a força e a riqueza de
Itaúna, tanto em termos naturais quanto humanos. O minério e os teares
simbolizam o trabalho e a história industrial da cidade, enquanto o "riso
e suor" remetem ao esforço coletivo de seus habitantes ao longo do tempo.
Ao
declarar "amo tuas virtudes, teus pecados", Maria Lúcia nos mostra
uma relação sincera e completa com Itaúna, reconhecendo tanto os aspectos
positivos quanto os desafios da cidade.
O poema culmina
com a afirmação "Sou tua filha, a pedra negra eu beijo", uma metáfora
poderosa que remete às raízes históricas de Itaúna, antigamente conhecida como
Santana do Rio São João Acima, associada à famosa "Pedra Negra".
Esse
poema, apresentado como uma homenagem em comemoração à emancipação de Itaúna em
16 de setembro, nos
brinda, assim, com uma celebração poética que reforça o orgulho e a ligação
afetiva com a cidade.
CANÇÃO PARA
ITAÚNA
Eu te amo, terra
dos quintais maduros
Do Rosário na
laje, onde pastam sonhos ...
Crepúsculo no
Bonfim, como não vê-los ?
A seiva minando
do chão bruto
É minério que
engendras, são teares
Riso e suor no
tempo emoldurados.
A tempo de viçar
toa uma história
Terra que se
soprou ventos viários
Fome, razão,
cicatriz, desejo
Amo tuas
virtudes, teus pecados
Sou tua filha, a
pedra negra eu beijo.
Prepare-se para uma viagem emocionante no tempo e no coração! Agora, essa experiência está disponível também em vídeo! Não perca essa oportunidade imperdível de celebrar a essência de Itaúna de uma forma única e tocante. Venha viver essa poesia com a gente!"
Poema: Escritora
Maria Lúcia Mendes
Organização e
arte: Charles Aquino.
Santana do Rio
São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais: Pedra Negra.
Que à noite há
fadas de longos vestidos brancos, chapéu em cone e varinha de condão ...
E há cogumelos
redondos e encantados onde vivem joaninhas e anões.
Que a bruxa de
nariz com verruga, vestida de preto, voa todas as noites sobre o telhado,
rodando o sono das crianças.
Mas não vou
dizer-lhe nada. Não tenho o direito de penetrar neste seu mundo encantado, hoje
bem diferente da meninice que vivi. Vou retratar apenas dentro de minha alma,
este seu rostinho tão lindo, este cabelo encaracolado a roçar-lhe os ombros,
esta vivacidade que me encanta.
E, perpetuando
este momento, você será sempre menina para mim. Sua vida, esta ventura, este
milagre de ter apenas nove anos.
Sua mãe, aos
dezoito de janeiro de mil novecentos e setenta e nove... Santana do Rio São
João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais - Pedra Negra
"Minha
Menina"
O texto
"Minha Menina" é uma tocante declaração de amor de uma mãe para sua
filha em seu nono aniversário. Através de uma narrativa nostálgica e poética, a
autora expressa o desejo de eternizar a infância da filha, relembrando a
simplicidade e a magia de sua própria meninice. O texto é escrito em um tom
pessoal e íntimo, com uma linguagem que mistura simplicidade e lirismo. A
estrutura é composta por frases curtas e parágrafos que refletem uma conversa
direta com a filha. A mãe descreve suas memórias de infância com detalhes
vívidos e poéticos, criando uma atmosfera encantadora e quase mágica.
A linguagem do
texto é altamente evocativa, utilizando metáforas e imagens para pintar um
quadro vívido da infância. Frases como "flor que desabrocha" e
"minha esperança, menina — ternura, amor em forma de paz" demonstram
a habilidade da autora em capturar emoções profundas e complexas em palavras
simples. A riqueza das descrições sensoriais, como o "estalinho
gostoso" da castanha-do-pará, transporta o leitor para o mundo descrito.
Há uma reflexão
melancólica sobre o passar do tempo e a impossibilidade de deter o crescimento
da filha. A mãe reconhece que não tem o direito de "penetrar neste seu
mundo encantado", aceitando que a infância da filha é distinta da sua.
Este reconhecimento adiciona uma camada de resignação ao texto, equilibrando a
nostalgia com a aceitação.
"Minha
Menina" é uma carta que ressoa com amor, nostalgia e a beleza efêmera da
infância. Através de uma narrativa poética e envolvente, a autora captura o
desejo universal de preservar momentos preciosos e a inevitável aceitação da
passagem do tempo. O texto é um tributo à inocência e à magia da infância,
celebrando a alegria simples e a imaginação vívida que caracterizam essa fase
da vida. Em suma, o texto é um exemplo comovente de como a literatura pode
eternizar sentimentos e momentos, oferecendo ao leitor uma janela para as
profundezas das emoções humanas.
Nos idos das
décadas de 1956 e 1957, a jovem Vicentina Brant vivia uma infância cheia de
sonhos e realizações na encantadora cidade de Santana do Rio São João Acima,
hoje conhecida como Itaúna, Minas Gerais. Com apenas dez anos, Vicentina já era
uma pequena estrela em ascensão, cativando a todos com sua voz doce e sua
presença marcante.
Vicentina
estudava no Jardim de Infância Ana Cintra, onde era conhecida não apenas por
sua inteligência, mas também por sua alegria contagiante. Seus dias eram uma
mistura vibrante de atividades: ora estava na escola, ora brincando em casa,
ora no Salão de Beleza com sua mãe. A praça da matriz era seu palco de
brincadeiras, sempre sob o olhar atento e amoroso de sua mãe.
Toda quarta-feira
à tarde e sábado pela manhã, Vicentina se encontrava com o Sr. Antônio
Alexandre, um talentoso acordeonista, para ensaiar para o programa
"Garotas em Desfile" de Cosme Silva. Esses ensaios eram momentos de
intensa dedicação e aprendizado. Sr. Antônio Alexandre era mais do que um
mentor; ele era um amigo querido, quase um segundo pai. Quando Vicentina
errava, as lágrimas vinham rápido, mas seu perfeccionismo e a falta de pressão
da mãe a motivavam a continuar. Sr. Cosme Silva, com sua paciência e palavras
de incentivo, sempre conseguia acalmá-la e ajudá-la a retomar os ensaios com
confiança renovada.
Os domingos eram
especiais. A apresentação no Cine Bagdá, transmitida pela ZYZ4 Rádio Clube de
Itaúna, era o ponto alto da semana. Vicentina, com seu figurino impecável
preparado por sua mãe e pelas talentosas costureiras Dona Naná e Dona Bela
Corradi, encantava a todos. Seus calçados, feitos com carinho pelo Sr.
Palomínio, completavam o visual perfeito.
Ao caminhar pelas
ruas com sua mãe, Vicentina era frequentemente abordada por admiradores que a
reconheciam do programa. "Esta é a sua filha que canta no programa do
Cosme?" As pessoas perguntavam, e o coração de Vicentina se enchia de
orgulho ao ouvir a resposta afirmativa de sua mãe. Sentia-se uma verdadeira
cantora, vaidosa e importante.
Vicentina recebia
elogios de todos os lados. Sua professora, Dona Terezinha Lara, sempre acenava
do sobrado onde morava quando Vicentina passava de volta para casa. Seu
padrasto, Antônio Vilaça, patrocinava suas apresentações e sintonizava no
programa para prestigiá-la, aumentando ainda mais seu sentimento de vaidade e
importância. Ele também cuidava de seus penteados e da base incolor em suas
unhas, garantindo que ela estivesse sempre impecável.
O repertório de
Vicentina incluía canções de grandes nomes da música, como Cauby Peixoto,
Elizeth Cardoso e Maysa. A cada apresentação, ela se sentia mais segura e
preparada, graças aos ensaios cuidadosos com sua mãe. As músicas românticas
eram suas favoritas, especialmente "Prece de Amor" de Cauby Peixoto.
A emoção de começar a canção como uma oração, com as mãos postas na altura do
peito e um olhar rápido para o céu, era um momento mágico que encantava a
plateia.
Vicentina Brant
cresceu para se tornar uma mulher forte e talentosa, carregando consigo as
memórias preciosas de uma infância repleta de música, amor e dedicação. Suas
lembranças de Santana do Rio São João Acima, do Jardim de Infância Ana Cintra,
do Cine Bagdá e das pessoas queridas que a apoiaram são um testemunho de uma
época dourada que moldou sua vida para sempre.
A crônica
"O VESTIDO" escrita pela escritora Maria Lúcia Mendes oferece um
vislumbre encantador e nostálgico da infância, capturando a magia e a inocência
desse período através de uma narrativa simples e evocativa.
O tema central da
crônica é a relação afetiva da narradora com um vestido especial, representando
a valorização das pequenas coisas e a importância dos símbolos de infância. O
vestido não é apenas uma peça de roupa; ele se torna um objeto de desejo, um símbolo
de status entre as amigas e, mais profundamente, um guardião de segredos e
sonhos.
A narrativa é em
primeira pessoa, o que proporciona uma visão íntima e pessoal dos sentimentos
da personagem. A autora utiliza uma linguagem simples e direta, refletindo a
perspectiva infantil e a pureza das emoções descritas. A repetição de ações e o
desejo constante de vestir o vestido acentuam a obsessão e o encanto que a peça
exerce sobre a menina.
O vestido branco
bordado carrega um simbolismo profundo, enquanto os personagens de contos de
fadas remetem ao mundo da fantasia e da imaginação infantil. A imposição de que
o vestido é "só pra ir à missa e aniversário" sublinha a importância
de ocasiões especiais na vida da criança e a distinção entre o cotidiano e o
extraordinário.
O príncipe
escondido na costura da manga representa os sonhos e segredos que a criança
guarda, uma metáfora para as fantasias e expectativas que a infância carrega.
Este detalhe quase invisível simboliza o valor subjetivo e emocional que as
crianças atribuem aos seus objetos queridos, muitas vezes imperceptível aos
olhos dos adultos.
O conflito
principal gira em torno do desejo incessante de vestir o vestido e a proibição
imposta pelos adultos. Este conflito se intensifica quando a criança descobre
que o vestido não lhe serve mais, provocando uma reação intensa de frustração.
A tentativa dos adultos de "engabelar" a menina com uma bainha
postiça é vista como uma solução paliativa e insatisfatória, que não apazigua a
dor da perda.
A resolução, com
o vestido sendo eventualmente relegado ao fundo da mala, simboliza o inevitável
crescimento e as transições da infância para a adolescência. A perda do vestido
é, portanto, uma metáfora para a perda de uma parte da inocência e da magia da
infância.
A linguagem
poética e as descrições vívidas contribuem para criar uma atmosfera nostálgica
e envolvente. A escolha de palavras e as frases curtas e emotivas capturam
perfeitamente a voz e os sentimentos da criança. O uso do tempo presente em
"Todo dia era sagrado" e "Só hoje: eu pedia sempre"
transmite a sensação de um desejo contínuo e persistente, enquanto o tempo
passado em "sapateei, ralei o calcanhar no chão e veio o um choro
espichado" enfatiza a intensidade da reação emocional.
Situada em
Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais, a crônica também
oferece um pano de fundo cultural específico. Reflete a vida em uma cidade
pequena e a importância de eventos comunitários como missas e aniversários.
Este contexto adiciona uma camada de autenticidade e regionalismo à narrativa,
permitindo que os leitores se conectem com a cultura local e o ambiente
descrito.
A crônica
"VESTIDO" de Maria Lúcia Mendes é uma obra sensível e tocante que
captura a essência da infância com sua simplicidade e profundidade. Através de
uma narrativa evocativa e personagens simbolicamente ricos, a autora nos leva a
refletir sobre a importância das pequenas coisas e as transições inevitáveis da
vida. A crônica nos lembra que, por mais efêmeros que sejam os objetos da nossa
infância, os sentimentos e memórias que eles evocam permanecem profundamente
enraizados em nossas lembranças.
História narrada em áudio! Imperdível!
Referência: Organização, arte e análise: Charles Aquino
No texto
"Rua do Cascalho", Maria Lúcia Mendes oferece uma visão rica e
detalhada da vida cotidiana em uma comunidade simples, mas vibrante. Desde o
amanhecer, as casinhas sem reboque começam a liberar o cheiro do café e da
lenha queimando, criando uma atmosfera acolhedora e familiar. As mulheres
surgem como figuras centrais, cuidando das tarefas domésticas com alegria e
interagindo umas com as outras, trazendo vida e energia à rua.
As descrições
poéticas de Mendes capturam a beleza nas pequenas coisas: as plantas que
adornam os arredores das casas, os sons das aves e o cantarolar de Aninha da
Capela enquanto costura. Esses detalhes constroem um cenário nostálgico e
encantador, refletindo a pureza e a autenticidade da vida na Rua do Cascalho.
O padeiro
Vadinho, com seu enorme balaio e seus chamados matinais, representa a
continuidade e a tradição em meio à mudança. Sua interação bem-humorada com os
moradores, que reclamam do tamanho do pão, ilustra a convivência comunitária e
a aceitação das imperfeições cotidianas.
À medida que o
dia avança, a rua ganha vida com moradores descendo em direção à torneira
comum, compartilhando receitas de remédios caseiros e histórias. A imagem das
latas d’água equilibradas na subida do morro serve como uma metáfora para a
resistência e a habilidade dos moradores em manter o equilíbrio, mesmo nas
condições mais desafiadoras.
Mendes, através
de sua narrativa sensível e detalhada, consegue não apenas descrever uma manhã
típica na Rua do Cascalho, mas também capturar a essência de uma comunidade que
valoriza a simplicidade, a interação humana e a continuidade das tradições. A nostalgia
que permeia o texto é reforçada pela voz narrativa que relembra a própria
infância na rua, adicionando uma camada pessoal à observação da vida cotidiana.
"Rua do
Cascalho" é um tributo à resiliência, à beleza nas pequenas coisas e à
pureza das relações humanas. Cada detalhe contribui para um retrato vibrante e
memorável de uma comunidade que, apesar de simples, é rica em cultura e
humanidade.
O vídeo que narra o texto de
Vicentina Brant, "Amor em Pedra Negra", é uma comovente narrativa
familiar que abrange três gerações de uma família mineira, destacando suas
origens, desafios e resiliência. A autora inicia detalhando a genealogia de sua
família, situando-os no Retiro dos Pinto, uma localidade histórica com
significados profundos e conexões ancestrais.
A narrativa é
centrada em Maria Martins Vilaça, mãe da autora, que, aos 17 anos, casa-se com
Mário de Queiróz. A felicidade inicial do casal é abruptamente interrompida
quando Mário falece tragicamente após uma picada de cobra, deixando Maria viúva
aos 19 anos com dois filhos pequenos. A jovem viúva, com o apoio do pai,
Ulisses, e da mãe, Verônica, enfrenta as adversidades, incluindo a doença
terminal do pai.
Em meio às
dificuldades, Maria conhece Antônio Vilaça, um cabeleireiro que, tocado pela
tristeza de Maria, se empenha em encontrá-la e oferecer seu amor e suporte.
Este encontro marca um ponto de virada na vida de Maria, culminando em um
casamento que não apenas solidifica a estabilidade emocional e financeira da
família, mas também proporciona a Maria uma nova profissão.
A história é rica
em detalhes sobre a vida rural e urbana, as relações familiares e a luta
constante contra as adversidades. A narrativa de Brant é entremeada por
descrições vívidas de lugares e personagens, criando uma atmosfera de nostalgia
e reverência pelas raízes familiares.
A história apresentada é um tributo ao poder do amor e da resiliência diante das
dificuldades. A forma como Brant tece a história demonstra não apenas a
importância das conexões familiares, mas também a capacidade de superação e
adaptação às mudanças. "Amor em
Pedra Negra" permanece uma tocante celebração da vida e da perseverança
humana.
Minha mãe Maria Martins Vilaça,
eu e meu irmão Mário, nascemos no Retiro dos Pinto, na fazenda de nossos avós
maternos, onde se encontra a nascente dos Pinto, localizado em Itatiaiuçu, que
na época era distrito de Itaúna. A Nascente, forma o Ribeirão dos Pinto, a
Cachoeira dos Pinto e o Córrego dos Pinto, que por sua vez, forma a Cachoeira
dos Chaves e deságua no Rio São João.
A minha mãe, era a penúltima filha de meus avós Ulisses Martins Pinto (família
Martins Fonseca Pinto, todos dessa região, mas de origem portuguesa que se
instalaram em Itatiaiuçu, nesse lugar, que veio a ganhar o nome de Retiro dos
Pinto). A mãe, Verônica, nasceu em Itaguara, da família Antunes Vilela e
Ferreira Teles, que mudou – se para o nosso Retiro, quando casou-se com
Ulisses. Tiveram 7 filhos (4 homens e 3mulheres).
Maria, com apenas 17
anos de idade casou – se com Mário de Queiróz em junho/50, filho de João Batista de Queiroz (família Batista
Guimarães e Queiroz) e Alvina Marques Pereira (os Marques de Itaúna), ela
também de Itatiaiuçu.
Quando todos nós
nascemos, Itatiaiuçu, era distrito da Comarca de Itaúna, que depois mais tarde
veio a emancipar-se. O meu pai, nasceu na fazenda de meu avô (aquela área toda
que envolve a barragem do Iate Clube e todo ao redor, inclusive toda parte de
cima da rodovia, era herança de sua família. Quase um latifúndio, mas foi
desapropriado em todo seu terreno para fazer a usina, recebeu na época, uns
trocados apenas!
O ano de 1952 para nós
foi muito difícil. Meu pai após ser picado por uma cascavel na Ponta da Serra
em agosto, falecia aos 22 anos de idade, deixando minha mãe viúva com apenas 19
anos de idade, eu com um ano e quatro meses e meu irmão Mário, com apenas 4
dias de vida.
Em dezembro 1952, após o
trágico acidente com o meu pai, fomos eu, aminha mãe e o meu avô materno para
Itaúna, onde alugou-se uma casa na rua Dr. Dorinato Lima, para hospedarmos
sempre que vínhamos a essa Cidade, para fazer o tratamento médico do câncer em
meu avô Ulisses.
Assim, continuamos
indo/vindo de Itaúna ao Retiro, permanentemente. Nessa época, eu tinha apenas
um ano e oito meses de idade, mas já servia de companhia para a minha mãe. O
tratamento durou cerca de um ano, até o seu falecimento em sua casa no Retiro
em dezembro 1952. Nesse período ficou
somente a minha avó Verônica, zelando dos serviços e trabalhadores da fazenda e
cuidando de meu irmão Mário que tinha no início da enfermidade do avô, apenas 4 meses de idade.
Dias depois a minha mãe
voltou em Itaúna, para fazer compras indo em direção ao centro da cidade.
Caminhando em direção a Rodoviária que era ao lado do Automóvel Clube, para
embarcar na “Jardineira” que fazia o transporte de Itaúna a Itatiaiuçu, avistou
um salão de beleza que ficava ao lado do Cine
Rex e resolveu entrar para fazer um corte em seus cabelos.
O proprietário, muito
educadamente indagou porque a jovem mulher se vestia toda de preto, Maria
informou que seu marido havia falecido e que o seu pai também a poucos dias os
deixara. Feito o corte do cabelo, a jovem mulher despediu-se do proprietário,
Antônio Vilaça e retirou-se do local, mas aquele olhar triste e inconsolável de
Maria, ficou nas lembranças daquele
homem.
Quinze dias se passaram
e Antônio resolveu fazer uma visita àquela jovem vestida de preto que havia
feito um corte de cabelo em seu salão. O cabeleireiro havia se encantado com
Maria e no fim de semana foi ao Retiro,
procurar a sua casa. Chamou em várias casas que também haviam marias. Mas
nenhuma delas, era a Maria que esperava encontrar.
Antônio retornou ao
Retiro na semana seguinte, disposto a encontrar a Maria que procurava e, que
não saía de seu pensamento. O acesso a casa de Maria, era somente a pé, por
carro de boi ou a cavalo, mas Antônio não se importou com as dificuldades e conseguiu chegar até o local a ele informado
pelo último fazendeiro vizinho e compadre de meus avós.
Antônio ao ver Maria,
logo lhe disse que sua intenção de estar lá, seria de torná-la a sua esposa.
Com o sim de Maria, Antônio fez o pedido de sua “mão” à sua mãe Verônica,
porque apesar de viúva, Maria ainda era menor. E disse também, que a sua
intenção, era de assumir os filhos
dela, que precisavam de amparo.
O pedido foi aceito.
Ele com 49 anos de idade e ela com 19 anos – assim, o amor em PEDRA NEGRA
acontecia entre Antônio e Maria. No ano de 1954 no dia dezessete de abril, Maria
Martins e Antônio Vilaça se casaram e fomos todos morar em Itaúna. Logo depois,
a minha avó Verônica também foi convidada a ir, por Antônio.
Minha mãe se profissionalizou em eximia cabeleireira, com seu
esposo Antônio Vilaça, que lhe ensinou tudo. Ao seu lado, ela trabalhou no
Salão de Beleza Santo Antônio de propriedade dele, localizado no Largo da Matriz,
hoje, Praça Dr. Augusto Gonçalves, que ficava ao lado do Cine Rex Atualmente, com a nova edificação, o espaço se tornou o edifício Benfica.
Em 1959, após 5 anos de
casados, Maria Martins Vilaça, ficou
viúva inesperadamente de Antônio Vilaça. Continuamos a morar em Itaúna até 1968,
quando anos depois, mudamos para a Capital e por último a cidade de Contagem.
Mas com muita frequência, passando fins de semana e férias em Itaúna. Depois das perdas que ocorreram
em nossa família, minha mãe, levou-me ao pediatra porque estava tristinha. O
saudoso e querido Dr. José Drumond que passou a acompanhar-me em check-up e emergências
infantis, depois de nos mudarmos para Itaúna. Antes de nos mudarmos, ainda lá
na roça, éramos cuidados pelo grande e saudoso Raimundo Faria (compadre de meu
avô Ulisses).
Nota:
Em 2008 no dia 6 de
agosto, minha mãe seguiu nova jornada, sendo velada e sepultada no Cemitério
Central de Itaúna. Minha mãe amou profundamente Itaúna. Em seu livro de poesias
“Folhas na Cama” – página27, publicou os seguintes versos:
HOMENAGEM (Maria
Martins Vilaça)
Itaúna terra querida,
Não posso te esquecer,
Os contratempos da vida
Roubaram-me de você.
Hoje tenho saudades
De suas tradições,
Seresteiros nas
madrugadas
Nas janelas dos
barracões
Suas ruas antigas
Becos de ilusões,
A igreja do Bonfim
Os velhos casarões.
Suas festas religiosas
Seu grande animador,
Mineirinho das
barraquinhas
Cantando coisas de
amor.
A praça da matriz
Aquele gramado em flor,
A fonte luminosa,
Com seus raios
multicores,
Um ritmo de valsas
Testemunham grandes
amores.
Itaúna, terra querida,
Não te esquecerei
jamais.
Terra de gente boa,
Rainha de Minas Gerais.
Agora, toda história narrada…… imperdível!!!
Água
“Isso é que é exemplo
da “verdadeira democracia, a da Natureza! ”: – A Água nasce em terreno dos
Pinto, percorre e serve vários outros terrenos, o terreno dos amigos
Chaves, oferecendo-lhes a sua bela Cachoeira dos Chaves, e segue depois,
abastecendo o nosso querido Rio São João! Salve a Natureza!”
Acervo: Fotografia de família registrada pelo saudoso fotógrafo
Osvaldo. Esta foto foi feita, no dia da inauguração da Praça de Esportes
Juscelino Kubitschek – Itaúna. Foi um dia muito festivo com a presença do homenageado,
comitiva, convidados de fora e o ilustre povo itaunense.
E lá estávamos nós
participando também das festividades. Na época, éramos vizinhos da Praça. Vê –
se da direita para a esquerda da foto: Sra. Mariazinha – RJ (prima de meu
padrasto); Sr. Antônio Vilaça (meu saudoso e queridíssimo padrasto); Maria
Martins Vilaça, minha Mãe, saudosa poeta e esposa de Antônio Vilaça; Nélia – RJ
(amiga de Mariazinha); as saudosas irmãs Aidée e Terezinha Vilaça (sobrinhas de
meu Padrasto); Maria Verônica (minha saudosa e querida avó materna); ao colo de
sua mãe, a Erlane e a sua irmã, saudosa Edna, na frente de Nelia. Eu, Vicentina
Brant, na frente de meu padrasto!
O Sr. Antônio Vilaça,
foi o fundador – proprietário do Salão de Beleza Santo Antônio, situado na
Praça da Matriz, ao lado do Cine Rex. Até 27/04/59, data de seu falecimento,
era o único e exclusivo Salão de Beleza dessa Cidade. O Sr. Antônio, era um
homem íntegro e respeitado pela sociedade itaunense. Era um exímio
cabeleireiro. Atualizado e comprometido com sua profissão, com o seu negócio e com o seu público.
Naquela época, o Sr.Antônio com o seu espirito empreendedor, já trabalhava com
foco na qualidade do atendimento, dos serviços prestados e a satisfação de seu enorme
público! Quanto orgulho tenho de ser sua enteada!
*Vicentina Brant
estudou no Jardim de Infância Ana Cintra, nos anos de1956 e 1957. Trabalhou na
CFLMG e depois foi transferida para a CEMIG, onde trabalhou no Serviço Social
até aposentar-se por tempo de serviço.
Não teve a oportunidade
de prosseguir na música, mas nunca a abandonou. Cantou por todas as escolas que
passou e entre amigos da música. Para a sua mãe, sempre cantou músicas de
recordações dela e de ambas.
Era uma questão de
honra, pelo carinho e apreço de uma para com a outra, afagando assim, o sonho
de cantar… Sonho que foi realizado com agravação do CD: “Que Bem me Faz – Um
sonho de menina”, lançado na Matriz de Itaúna em 15/09/2016, à véspera do
aniversário desta Cidade.
Fez na UFMG um ano e
meio de Canto e hoje faz aulas com Eladio Pérez, profissional do Canto, um talento paraguaio, de 90
anos de idade. Nos ensaios, gravações, apresentações e no violão, está sob a
maestria do professor, compositor, instrumentista e criador do Grupo “Quinto do
Choro”, André Oliveira.
Referências:
*Mineira de Retiro dos
Pinto (Serra de Itatiaiuçu) e apaixonada pela música desde criança, canta pelo
prazer de viver. Começou os estudos musicais quando se mudou para Contagem,
aonde conheceu outros artistas, que possibilitaram um contato ainda maior com a
música. Disponível em:https://tratore.com.br/um_cd.php?id=21410
Manhã,
bem cedo, começa a labuta na rua do Cascalho. Das casinhas sem reboque, empilhadas
morro a pique, as chaminés soltam uma fumaça cheirosa, sinal de que está pronto
o café. E a lenha estala nos fogões, cozinhando o feijão do almoço.
Uma
a uma, as janelas vão se abrindo. Surgem mulheres de lenço na cabeça, sacudindo
colchas de retalhos coloridos e batendo os travesseiros para tirar a poeira.
Logo depois, lá estarão elas à frente da casa empunhando enormes vassouras de
coqueiros. Dá gosto vê-las alegres, varrendo o chão batido num trabalho de
todas as manhãs. Vez em quando param e espicham conversa na lengalenga de
sempre: Compadre, não te conto nada...
Quando
o terreiro já está bem varrido, é a vez de aguar as plantas que, amontoadas
aqui e ali, dão um toque de graça à rudeza das pedras. São latas de manjericão,
malvinhas, plantas em pinicos, cravo-caboclo, queixo-caído, comigo-ninguém-pode
e espadas-de-São Jorge.
Ao
redor das casas, brotando dos alicerces, os pés de mulata-nasala vão colorindo
a paisagem com suas florzinhas regateiras.
Uma
velhinha espigada abre a porta da cozinha trazendo nas mãos uma cuia de milho:
Tico, tico, tico! P’rrr!...
E
bate na cuia chamando as aves que correm agitadas, bicando-lhe as chinelas e a saída
de algodão. Depois, ela, pondo-se de cócoras, vai jogando punhadinhos de milho
aqui e ali falando sozinha: este aqui é para o Natal, o carijó para o Ano
Novo...
Enquanto
isto, no quintal ao lado, as galinhas d’angola gritam encarapitadas no
sabugueiro: Tô fraca! Tô fraca! Tô fraca!...
A
dona da casa chega à porta da cozinha: Êta galinhada custosa!
E
entra novamente comandando a filharada: Varra essa casa direito, Maria! Olhe a panela
no fogo, Beré!
Lá
no alto, num barraco pitando de azul, Aninha da Capela costura em sua máquina
de mão. Ajeita os cabelos puxados num coquinho ralo e começa a cantoria: “Sete
e sete são quatorze, com mais sete, vinte e um. Todo mundo tem amor, só eu não
tenho nenhum”.
Um
rapazinho magro, carregando às costas um enorme balaio vai subindo a rua
devagarinho. Às vezes, para, descansa um pouco, e sua voz conhecida esparrama-se
pela rua afora: Sooo... Vadinho! Pão de sal! Forrobodó! Ô de casa?! Ô de Casa?!
A
freguesia acode: Ô de fora! E é um tal de mexe, remexe o fundo do balaio sob os
protestos de sempre: Deram outro corte no pão!
Acostumado
àquela cantilena, o padeiro sorri, põe o balaio às costas e segue seu caminho.
O
sol começa a brilhar pelos telhados e quintais. A rua ganha movimento. É muita
gente descendo com latas e rodilhas, rumo à torneira que serve aos moradores do
Cascalho e que fica lá embaixo no começo da rua. Pelo caminho, ninguém despreza
um dedo de prosa.
Oi,
Zé Camilo! O remédio foi bom pra danar. Qual é o remédio? Não estou me
lembrando não. E sem esperar resposta: Barbatimão, chapéu-de-couro, gravatá,
mutamba, erva-cidreira, canelinha...
Esse
tal de gravatá é um porrete pra tosse. E o velho cachimbando: Remédio das
plantas é muito melhor. O povo é porque não sabe. A fileira das latas vai
aumentando. E o vaivém prossegue animado.
Quem
já encheu sua vasilha, sobe o morro com lata d’agua num equilíbrio que dá
gosto.
Rua
do Cascalho! A pureza e a simplicidade de sua gente, suas casinhas morro a
pique, os pés de mulata-na-sala florindo nos alicerces. Eu também morei lá,
sempre algumas horas por dia, quando ia catar umas pedras redondinhas para jogar
nendes nas tardes calmas da infância. E. na roda-viva de hoje, ante os
obstáculos da vida, relembro a fileira das latas, os moradores da rua e inconscientemente
vou cantando: Nendes! Nendes! Um! Nendes! Nendes! Dois...
É
a roda-viva que continua.
* Escritora itaunense por herança e registro.
Fonte:
MACEDO, Maria Lúcia mendes Vera. Pedra de Cetim, BH, Gráfica e Ed Cultura,
2001, p.26,27,28.