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sábado, setembro 20, 2025

SALVE ME

ESCRITORAS EM ITAÚNA MG

Um grito que atravessa a letra

A canção “Save Me ecoa como uma janela (talvez a mais fiel) para aquilo que muitas pessoas hoje sentem: asas quebradas nas mãos de outrem, sonhos espalhados pelo chão, uma espera que se arrasta enquanto o mundo parece afundar.

Não é só uma letra impactante ... é, sobretudo, uma cartografia da fragilidade humana: imagens de queda, de silêncio e de súplica.

Quando alguém canta “Somebody save me / I don't care how you do it / Just stay”, o que ouvimos, em termos humanos, é um pedido de presença,  mais do que soluções, mais do que conselhos: presença, reconhecimento, um toque que atravesse o gelo do desespero.

Hoje, em escolas, nas redes, nas ruas e nos quartos, pessoas dão sinais parecidos. Nem todo pedido de ajuda vem em palavras diretas; às vezes é um recuo, um riso sem brilho, uma desistência de projetos, ou comportamentos que mudam de repente. Mas o que une esses sinais é a mesma coisa que pulsa na letra: cansar de carregar o peso sozinho e a necessidade  urgente de que alguém responda com cuidado e sem julgamento.

A letra constrói imagens repetidas: asas quebradas, palavras não ditas, sonhos no chão, ser puxado para baixo pelas ondas. Esses elementos funcionam como metáforas de estados emocionais reais: perda de autonomia (asas quebradas), isolamento (palavras não ditas), desilusão (sonhos caídos) e sobrecarga (ser puxado para baixo).

O refrão "alguém, salve me", um pedido simples e direto por socorro e por permanência,  revela algo essencial: muitas vezes o que salva é menos um plano e mais um outro humano que fica.

Precisamos falar com clareza: muitos neste exato momento estão clamando por ajuda. Não porque querem ser um fardo, mas porque chegaram a um limite. É papel da comunidade,  família, escola, amigos, vizinhos, líderes religiosos e educadores,  escutar esses sinais respondendo com acolhimento prático.

Dizer “estamos aqui” é fazer com que a letra deixe de ser só um lamento e vire compromisso.  “Você importa. Sua vida tem valor. E não está só. "

Salve Me

Eu sinto minhas asas quebrarem em suas mãos

Sinto as palavras não ditas dentro de você

e isso te deprime

Eu lhe daria qualquer coisa que você quisesse, mas saiba

Você era tudo o que eu quis

Todos os meus sonhos estão mortos

Rastejando por ai

 

Alguém, salve me

Deixe sua mão sob minha fratura

Alguém, salve me

Eu não me preocupo como você faz isto

mas fique, fique

venha, eu tenho esperado por você

 

Eu vejo que o mundo dobrou em seu coração

Sinto as ondas chocarem em meu peito

e isso me deprime

Eu lhe daria qualquer coisa que você quisesse, mas saiba

Você era tudo o que eu quis

Todos os meus sonhos estão mortos

rastejando por aí

 

Alguém, salve me

Deixe sua mão sob minha fratura

Alguém, salve me

Eu não me preocupo como você faz isto

Fique mais um pouco

Eu tenho esperado por você

 

Todos os meus sonhos estão no solo

Rastejando ao redor, ao redor

 

Alguém, salve me

Deixe sua mão sob minha fratura

Alguém, salve me

Eu não me preocupo como você faz isto

Fique mais um pouco comigo

Eu fiz este mundo inteiro brilhar pra você

Fique mais um pouco

Venha, eu ainda estou esperando por você

 

Escritoras Contemporâneas em Itaúna: Lótus Negra

Elaboração: Charles Aquino

Música e Letra: Remy Zero -  Save me

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

sábado, abril 05, 2025

CANSADA

ESCRITORAS EM ITAÚNA MG

Vivemos num tempo em que parecer forte é mais importante do que ser verdadeiro. Ser cansado virou fraqueza. Pedir ajuda virou drama. Mas e quando o silêncio grita por dentro?

Este poema é sobre isso: sobre o peso de ser forte o tempo todo. Sobre fingir que dá conta, enquanto desmorona por dentro.

Sobre uma sociedade que exige produtividade, mas nega cuidado, escuta e humanidade. 

"Cansada" é um poema que não pede licença. Ele chega como um grito abafado, uma lágrima escondida,

uma verdade que muita gente sente, mas não consegue dizer.

 Ler este poema é também fazer uma escolha: de não romantizar a resistência, e de lembrar que sentir também é uma forma de existir.

Charles Aquino


CANSADA

Cansada de ouvir discursos prontos,

E de responder com educação.

Cansada de calar diante da injustiça,

E de gritar no vazio da multidão.

 

Cansada de fingir que está tudo bem,

Enquanto o mundo pesa sobre os ombros.

Cansada de sorrir para agradar,

E de engolir a própria dor pra não incomodar.

 

Cansada de esperar que algo mude,

Enquanto tudo exige que eu mude primeiro.

Cansada de agir como se tivesse forças,

Quando já me roubaram até o suspiro.

 

Cansada da esperança que vendem,

Como se fosse moeda de troca.

Cansada do trabalho que me suga,

E do retorno que nunca vem.

 

Cansada de sonhar com justiça,

E acordar com a mesma miséria de sempre.

Cansada das promessas dos que mandam,

E da apatia dos que seguem.

 

Cansada de andar com passos firmes,

Só porque esperam firmeza de mim.

Cansada de seguir, sem saber pra onde,

Porque parar virou sinônimo de fraqueza.


Cansada da dor disfarçada em produtividade,

Do alívio vendido em gotas e frases feitas.

Cansada de continuar,

Porque desistir não é uma opção permitida.

 

Cansada de acreditar que mudar depende só de mim,

Quando tudo está armado contra quem nasce com menos.

Cansada da pobreza romantizada,

E da abundância que se gaba de ser meritocrática.

 

Cansada da guerra diária por dignidade,

E da paz que só chega nos discursos de campanha.

Cansada de ser forte todos os dias,

Quando o mundo nunca foi gentil com os fracos.

 

Cansada, sim.

Mas não vencida.

A verdade é:

ninguém deveria precisar ser tão forte assim.

E isso… isso não é só cansaço.

É denúncia.

 

Escritoras Contemporâneas em Itaúna: Lótus Negra

 Elaboração: Charles Galvão de Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto. 

sexta-feira, março 14, 2025

MAIS OU MENOS DIAS?

"Hoje seria mais um, ou menos um dia em nossas vidas?"—tal indagação, revestida de aparente simplicidade, encerra uma profunda inquietude acerca da própria existência. 

Ao questionar se cada dia transcorrido representa uma soma ou uma subtração em nossa trajetória, a frase lança-nos em um labirinto de reflexões sobre a temporalidade, a finitude e o valor que atribuímos ao decurso das horas. 

A resposta, contudo, não se encontra na matemática impassível dos calendários, mas na maneira como optamos por habitar o presente.

Sob a ótica da vida como acréscimo, cada dia se revela como uma oportunidade singular: um novo ensejo para aprender, amar, criar ou transformar. 

Nesta perspectiva, o tempo desponta como um aliado generoso, um solo fértil onde semeamos memórias e colhemos experiências. A cada alvorecer, somos presenteados com a consciência de estarmos vivos, celebrando a existência como uma jornada de expansão, em que cada instante se converte em semente do porvir.

Em contrapartida, se concebermos a vida como uma subtração, cada dia constitui um degrau a menos na ascensão rumo ao inexorável final. Nesse cenário, a morte transforma o tempo em uma ampulheta implacável, e cada grão de areia que se esvai reitera a efemeridade de todas as coisas. 

Ainda que essa visão se apresente carregada de uma melancolia sombria, ela não precisa semear o desespero; pelo contrário, pode instigar-nos a viver com um propósito, recordando as palavras de Sêneca: "Não é que temos pouco tempo, mas que desperdiçamos muito." Aqui, o "menos um" emerge não como derrota, mas como um alerta para que não deixemos os dias escaparem desprovidos de significado.

A dualidade entre "mais um" e "menos um" evidencia, pois, que o tempo transcende sua mera quantificação objetiva, constituindo uma experiência eminentemente subjetiva. Para Henri Bergson, o tempo cronológico—rigorosamente medido pelos relógios—distingue-se radicalmente do tempo vivido, a chamada duração, que se modula conforme a intensidade e o peso emocional de cada momento. 

Assim, um único dia pode revelar-se uma eternidade quando permeado pela paixão, pela dor ou pela descoberta, ou dissipar-se como um breve sopro se atravessado pela indiferença. Dessa forma, a indagação inicial desdobra-se: o que importa não é a contagem dos dias, mas a forma como os tornamos dignos de serem lembrados.

No âmago desta reflexão está o "hoje", termo que ancorou a pergunta e sublinha a urgência do presente. O pretérito já se converteu em história, o futuro se apresenta como uma promessa incerta, mas o presente é o único território onde a vida se desvela em sua plenitude. 

É nele que decidimos se este dia se transmutará em "mais um" na rotina da repetição, em "menos um" na contagem regressiva da ansiedade, ou se, quiçá, transcenderá a lógica numérica, assumindo a singularidade de um instante inefável. Conforme preconizava o existencialismo, o sentido não está predeterminado: somos nós os artífices do significado por meio das escolhas que fazemos no agora.

Em última análise, a pergunta não demanda uma resposta definitiva, mas um posicionamento existencial. Ela convoca-nos a renunciar à ilusão de domínio sobre o tempo e a abraçar a ambiguidade inerente à existência. 

Se um dia é ganho ou perdido, tal veredicto depende menos do destino e mais da profundidade com que o vivenciamos. Como asseverou Fernando Pessoa, "tudo vale a pena se a alma não é pequena." Assim, a verdadeira medida de um dia talvez não resida na aritmética das adições e subtrações, mas na audácia de transmutá-lo em algo que desafie qualquer quantificação—um instante, por ter sido vivido em sua totalidade, que se eterniza no tempo."

"Escritoras Contemporâneas" ✅

Lótus Negra

Arte e design: Charles Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.  

 

segunda-feira, dezembro 02, 2024

SUÍTE 10

A chuva escorria preguiçosa pelas janelas do Hotel Esplendor. Lá dentro, no silêncio opressivo da suíte 10, uma cadeira antiga, de madeira desgastada, parecia fora de lugar. No entanto, ela era o ponto central, um objeto que carregava mais histórias do que seus ocupantes poderiam imaginar. O ar parecia pesado, como se as paredes daquele quarto guardassem segredos que o tempo não ousava revelar.

Ele era um viajante silencioso, carregando em si histórias e lembranças de anos. Ela, uma mulher de passos calculados, havia cruzado oceanos em busca de algo que nem sabia definir. Encontraram-se ao acaso — ou assim acreditaram — no saguão do hotel, trocando olhares carregados de mistério e perguntas. A atração era inevitável, como dois polos magnéticos incapazes de resistir.

Na suíte 10, sentados frente a frente, a cadeira parecia pulsar com uma energia invisível. Era mais do que um móvel: um ponto de convergência. Não era apenas a eletricidade estática de um toque acidental; era como se o tempo parasse, o espaço se curvasse, e eles compartilhassem um pensamento, um único desejo.

Eles não precisavam de palavras. Um eco interno os conectava, fazendo o silêncio vibrar com um peso surreal. Sentiam o universo os pressionando, forças avassaladoras tentando sufocar aquele momento. As paredes da suíte 10 pareciam tremer com sussurros, vozes distantes que os incitavam a desistir, a voltar ao caos do mundo lá fora. Mas a cadeira... a cadeira era diferente.

Sentados nela, a energia os envolvia, como se fossem duas partes de uma mesma alma perdida tentando se encontrar novamente. Eles sentiam o peso do universo ao seu redor, mas também a luz crescente que emanava de si mesmos. Era uma batalha entre o que podiam ser e o que o mundo insistia em dizer que eram.

Quando ele segurou as mãos dela, o quarto inteiro pareceu respirar. Era como se tudo tivesse vida: as paredes, o chão, a cadeira. O passado e o futuro se dobravam, e, naquele instante, eles entenderam algo fundamental: precisavam gritar. Precisavam viver. Precisavam deixar a máscara cair e abraçar a verdade do que eram.

A cadeira, agora iluminada por uma luz que parecia vir de lugar nenhum, sussurrava algo incompreensível, mas não para eles. Era um abastecimento de energia, um recomeço. E ali, naquele instante, souberam que nada poderia detê-los. O desejo de vida, de amor, de plenitude, era avassalador demais para ser sufocado.

De pé, abraçados, lançaram um grito primal, libertador. Não era apenas um som; era a vida rasgando o silêncio. O hotel tremeu, as luzes piscaram, e tudo ficou quieto novamente. A cadeira da suíte 10 estava lá, como sempre, mas agora parecia vazia. Eles tinham sido preenchidos com algo maior do que poderiam compreender. E, enquanto caminhavam pelo corredor do hotel, sabiam que nunca mais seriam os mesmos. A cadeira havia feito sua parte: eles haviam renascido.

 

 "Escritoras Contemporâneas em Itaúna"

História narrativa: Lótus Negra

Arte e design: Charles Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.  

segunda-feira, novembro 18, 2024

NOS CONFINS DA MEMÓRIA

Mary caminhava sozinha pela estrada deserta, o som de seus passos ecoando nas ruas vazias. A noite estava calma, mas algo em seu interior a inquietava. Ela sentia que havia algo a ser desvendado, algo a ser encontrado. Ouvia vozes que a chamavam para além do alcance da luz da cidade, vozes que a conduziam para o desconhecido. Não era apenas a curiosidade que a motivava, mas um pressentimento de que algo importante estava prestes a acontecer.

Ao longe, ela avistou a entrada da floresta. As árvores, altas e imponentes, formavam uma cortina de sombras densas que escondiam os mistérios por trás delas. Mary sabia que não devia entrar, mas seus pés a conduziram, e as vozes insistiam para que ela entrasse: "Venha, Mary", diziam as vozes. Ela estava com medo, mas continuou caminhando.

Quando entrou na floresta, o silêncio tomou conta de seu ser. Era um silêncio pesado, que parecia pesar sobre seus ombros e penetrar seus ouvidos como um pano escuro. Ela sentiu o ar fresco da noite, carregado de odores terrosos e de algo inusitado que não sabia definir. A vegetação ao redor estava densa, mas o caminho à frente parecia aberto, como se estivesse sendo preparado para ela, um convite sutil para seguir em frente.

Ela deu o primeiro passo, depois outro, e logo percebeu que estava imersa na escuridão suave da floresta. Cada folha farfalhava com o vento, mas, no fundo, ela sabia que não estava sozinha. De repente, as vozes voltaram, e a cada passo que ela dava ficavam ainda mais altas. Algo a observava, algo que parecia conhecê-la mais do que ela mesma. Assustada, Mary olhou para frente.

Uma figura apareceu diante dela. Era uma presença inconfundível, misteriosa e intensa, com olhos que brilhavam como estrelas na noite. Ela não sabia o que era, mas sentiu uma força indescritível emanando daquela figura, e percebeu que as vozes vinham dela.

A figura falou com uma voz suave, mas firme:

— Você chegou, Mary. Eu sabia que viria. O que a trouxe até aqui?

Embora assustada, Mary não conseguiu recuar. Algo dentro dela dizia que precisava ficar. Havia uma urgência em sua alma que a impedia de ir embora.

— Eu... não sei exatamente — disse Mary, a voz tremendo levemente. — Algo me trouxe aqui. Algo que não consigo explicar.

A figura sorriu levemente, mas seus olhos permaneciam fixos, como se observassem todos os detalhes da alma de Mary.

— Você pensa que não sabe, mas sempre soube. Cada passo que deu até aqui foi guiado por algo que você não entende. Já se perguntou por que a vida parece sempre desviar-se para este ponto? Está à procura de respostas, não está?

Mary engoliu em seco. As palavras da figura eram como flechas acertando seu coração, atingindo pontos vulneráveis. Ela sempre buscou respostas sobre sua própria vida, sobre a perda de seu pai, Gael, e as questões que envolviam sua mãe, Estela. Sentia que algo estava escondido delas, algo que nunca havia sido dito, algo que ainda precisava ser revelado.

— O que você sabe sobre mim? — Mary perguntou, a voz quase inaudível.

A figura não respondeu de imediato. Apenas olhou profundamente nos olhos de Mary, como se lesse cada pensamento, cada emoção. Então, falou quase num sussurro:

— Sei o que você guarda dentro de si. Vejo o que não diz, o que esconde até de si mesma. Pensa em seu pai, Gael, com tanta saudade... Sente a falta dele todos os dias, não é? Mas há algo mais, Mary. Você carrega a dor da perda, o peso da ausência. Cada vez que fecha os olhos, ainda sente a presença dele, mas como se fosse uma ilusão. E sua mãe, Estela... você a observa, tentando entender os segredos que ela guarda. Ela é forte, mas você sente que há algo que nunca compartilhou. Algo do passado, que a consome e a afasta de você. E você quer saber o que é, não quer? Quer respostas, mas quanto mais busca, mais se perde.

Mary sentiu um frio percorrer sua espinha. Era impossível negar o que a figura dizia. Cada palavra atingia seus sentimentos mais profundos, suas inseguranças, seus medos.

— Como sabe disso? — Mary perguntou, agora sentindo um calafrio mais forte. — Como sabe tudo isso sobre mim?

A figura sorriu, a expressão mais enigmática.

— Não preciso de respostas, Mary. Vejo tudo. Vejo o que você não consegue ver, o que está oculto dentro de você. Sou as árvores, o vento, o chão sob seus pés. Sou a memória das coisas que foram perdidas, das coisas que deixou de lado.

Mary sentiu a pressão aumentar. O medo tomava conta dela, mas algo dentro dela parecia despertar. Sabia que não podia permitir que aquela figura invadisse ainda mais sua mente. Precisava ser forte.

Respirou fundo e, com firmeza, disse:

— Saia da minha cabeça! Não aceito que vasculhe minha mente! Eu sou a dona dos meus pensamentos! Você não tem acesso a mim! Saia agora!

Os olhos da figura se estreitaram, cheios de uma fúria silenciosa. O ar ao redor de Mary parecia vibrar com a intensidade de suas palavras, como se a própria floresta reagisse à sua determinação. As vozes vindas da floresta aumentaram, agora parecendo um apoio à sua coragem.

— Continue, Mary! — diziam as vozes. — Continue assim!

Mary não hesitou. Deu um passo à frente e, com um grito firme, disse:

— Saia agora! Acha que tenho medo de você? Não tenho! Só sei que você está nos meus pensamentos, e meus pensamentos quem controla sou eu. Eu te expulso agora!

A figura, antes tão poderosa, começou a recuar. Seus olhos estavam cheios de surpresa e fúria, mas, conforme Mary continuava a gritar, sua silhueta começou a se desfazer, como se estivesse perdendo a força que a sustentava, sendo empurrada para longe pela mente de Mary.

Com um último grito, a figura desapareceu completamente, deixando Mary sozinha na floresta. O silêncio tomou conta novamente, mas desta vez era acolhedor, como se a floresta permitisse que ela se restabelecesse.

Mary ficou ali por um momento, respirando pesadamente. Sentia a presença da figura desaparecer, mas também sentia que algo dentro dela havia mudado. Uma sensação de clareza, de liberdade, tomou conta de seu ser. Olhou ao redor e viu que o caminho à sua frente estava mais claro. As árvores pareciam afastar-se, dando-lhe passagem. Era como se a floresta estivesse esperando por ela para tomar a próxima decisão.

Mary começou a caminhar, os passos agora mais firmes. Sabia que sua jornada não havia terminado. Estava pronta para descobrir mais, para enfrentar o que fosse necessário e, talvez, finalmente encontrar as respostas que tanto procurava.

A história termina aqui, mas a jornada de Mary continua. A floresta tem muitos segredos a revelar, e Mary está pronta para desvendar cada um deles.


"Escritoras Contemporâneas em Itaúna"

História e direção narrativa: Josyane Mara

Arte e design: Charles Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

terça-feira, novembro 12, 2024

FRAGMENTOS DE UM ENCONTRO

Charo era uma jovem mexicana de sorriso sereno e olhar profundo, sempre à procura de encantos escondidos nos cantos mais inesperados do mundo. Sua busca a levou a Ouro Preto, essa cidade brasileira esculpida em história e encanto, onde as ladeiras contavam segredos, e cada pedra parecia sussurrar as lembranças de quem já havia passado por ali.

Ao caminhar por Ouro Preto, Charo se perdia nas ruas estreitas e íngremes, ladeadas por casarões antigos que pareciam guardar, em suas paredes, o peso de séculos de história. A cidade pulsava uma beleza singular, onde o antigo e o novo coexistiam em harmonia, criando um universo onde o tempo parecia suspenso. Charo pensava nas ruas de Ouro Preto como fragmentos de um passado que, de alguma forma, sobrevivera e ainda estava vivo ali, resistindo, florescendo em meio ao presente.

Numa dessas caminhadas, numa noite estrelada, Charo chegou à Praça Tiradentes, onde a iluminação fazia brilhar o cenário com um toque quase mágico. A praça estava cheia de vida e de um silêncio profundo ao mesmo tempo. Foi então que ela encontrou um jovem que também parecia encantado pelo cenário ao redor. Ele era um estudante de Pedagogia, e seus olhos brilhavam com a mesma curiosidade que ela sentia. Ele se aproximou e, com um sorriso tímido, ofereceu-lhe uma flor e perguntou: De onde você é? A moça, com um sorriso, respondeu: ¡Soy de México!

— Esta flor me recuerda los colores de tu tierra — disse, com um suave acento-¿Aceptado?

Charo aceitou a flor, e ali, sentados na calçada da praça, trocaram histórias sobre suas terras, suas vidas e o que os havia levado até aquele lugar mágico. Ele falava sobre como o estudo e a preservação da memória cultural podiam fazer com que a história de um povo nunca se perdesse. Cada palavra reforçava a crença de Charo de que ela estava em um lugar onde o tempo era um guardião cuidadoso, sempre atento ao passado e acolhendo o presente com afeto.

No dia seguinte, o jovem estudante a levou para conhecer os tesouros de Ouro Preto. Começaram pelo Mirante do Morro São Sebastião, de onde puderam ver a cidade inteira em seu esplendor, cercada pelas montanhas verdes e banhada pela luz suave da manhã. Charo sentiu ali uma paz indescritível, como se pudesse enxergar sua própria alma refletida naquela paisagem imensa. 

Visitando o Museu da Inconfidência, ela conheceu as histórias dos que lutaram pela liberdade, e a Igreja São Francisco de Assis a envolveu com sua arquitetura barroca, cheia de detalhes e com o toque de um Brasil antigo, que Charo sentia em cada esquina. No topo do Pico do Itacolomi, ela encontrou algo mais que uma paisagem: encontrou um pedaço de si mesma, uma certeza de que ali sempre haveria um lugar onde o tempo, o passado e o presente, poderiam conviver.

Quando chegou a hora de retornar ao México, Charo levou consigo muito mais do que apenas lembranças. Ouro Preto havia lhe mostrado o valor de preservar, não apenas as coisas materiais, mas também as histórias, as pessoas e as emoções. Ela compreendeu que o verdadeiro legado de um lugar não são apenas suas construções ou suas paisagens, mas a memória de um povo que luta para manter sua identidade viva, mesmo com o passar dos anos.

De volta à sua terra natal, Charo mantinha viva em sua mente, coração e alma os detalhes daquela viagem. Em suas lembranças, Ouro Preto sempre seria um pedaço de eternidade, uma cidade onde o tempo se tornou aliado da história, guardando os sonhos e as lutas de quem ali viveu. E, de uma maneira mágica, Charo soube que um pouco dela também ficara naquela cidade, nos fragmentos de histórias que ela agora conhecia e carregava consigo, com a promessa de que, onde quer que estivesse, preservaria a memória e a beleza de um povo.


"Escritoras Contemporâneas em Itaúna"

História narrativa: Lótus Negra

Arte e design: Charles Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.  

sábado, novembro 02, 2024

EMILY EM UM MUNDO PARALELO

ESCRITORAS PRETAS

Era uma noite fria e silenciosa. Emily andava por uma rua estreita, cercada por prédios antigos que pareciam se inclinar sobre ela. A iluminação era fraca, e as sombras dançavam sob os poucos postes de luz. O coração dela batia acelerado; algo naquela rua parecia errado, como se ela não estivesse mais em seu mundo.

De repente, Emily parou. Diante dela, algo inexplicável: um muro invisível bloqueava sua passagem. Ela estendeu a mão para frente e sentiu uma resistência firme, como se houvesse vidro ali, mas nada visível estava entre ela e o resto da rua. Emily pressionou o muro, empurrando com força, mas ele não cedia.

Curiosa, ela tentou ver o que havia do outro lado. Ali, a paisagem era dividida em duas metades distintas: à sua esquerda, um lado negro, profundo e sombrio, onde tudo parecia distorcido, como se a escuridão tivesse vida própria. Do outro lado, um clarão branco, quase ofuscante, emanava uma sensação de calma e tranquilidade. Era como se dois mundos opostos coexistissem, separados apenas pelo misterioso muro.

Emily sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela sabia que precisava descobrir o que aquilo significava e por que esse muro a impedia de seguir adiante. Mas uma pergunta insistente ecoava em sua mente: para qual lado ela deveria ir?

Emily ouviu um sussurro em sua mente, suave como uma brisa, que a chamava para o lado claro. Era uma voz familiar, quase maternal, que parecia envolver seu coração com uma sensação de paz. "Venha... aqui é seguro, Emily. Você encontrará respostas, luz e o caminho de volta", dizia a voz, insistente e acolhedora, como se o lado claro a esperasse há muito tempo.

Mas, então, outra sensação tomou conta dela. Uma atração sombria e poderosa a puxava para o lado negro, como se algo invisível estivesse tentando envolvê-la. "Não confie na luz", uma voz profunda sussurrava. Era enigmática e um tanto sedutora, prometendo respostas que Emily sabia que não encontraria em nenhum outro lugar. "Aqui está a verdade... o que você realmente precisa ver."

O coração de Emily batia mais rápido; a cabeça girava entre os chamados opostos. Ela sentia-se dividida, incapaz de resistir à força que cada lado exercia sobre ela. A atração para o lado escuro era quase irresistível, intensa e misteriosa, mas o lado claro oferecia a paz que tanto desejava. Ela sabia que a escolha que faria poderia mudar tudo — e não apenas para ela.

Ali, diante daquele muro invisível e de um mundo dividido, Emily percebeu que essa decisão não era só sua. Era como se algo a esperasse dos dois lados, algo que conhecia seus medos, seus desejos e que estava pronto para testá-la.

Emily respirou fundo, sentindo a tensão se acumular em seu peito. A luz suave emanava calor e esperança, enquanto a sombra pulsava com promessas de poder e conhecimento. Ela fechou os olhos por um momento, tentando se conectar com seu verdadeiro eu, com o que realmente desejava.

"Eu não posso ser consumida pela escuridão", sussurrou para si mesma. A voz da luz era um farol em meio à tempestade e, apesar do medo e da dúvida, ela sabia que a escuridão apenas a atraía com ilusões.

Abrindo os olhos, Emily dirigiu-se para a luz, permitindo que a sensação de paz a envolvesse completamente. A cada passo que dava, as sombras começavam a recuar, e a voz profunda tornava-se cada vez mais distante, como um eco que perdia força.

Quando finalmente cruzou o limite entre os dois mundos, a luz a envolveu, e ela sentiu uma conexão renovada com tudo ao seu redor. Era como se amor e sabedoria lhe fossem concedidos, com a verdade se desdobrando diante de seus olhos. Ela percebeu que não estava sozinha nessa jornada; outros estavam lá, prontos para apoiá-la.

Emily, agora cercada pela luz, virou-se para encarar as sombras que a perseguiam. "Eu não tenho medo de você", disse, com uma nova confiança. "Eu escolho a luz e a verdade que ela traz." As sombras hesitaram e, então, lentamente começaram a dissipar-se, como névoa ao amanhecer.

Com o coração leve, Emily sentiu que, ao escolher a luz, também estava se escolhendo. Ela sabia que a jornada estava apenas começando, mas estava pronta para enfrentar o que viesse, guiada pela força que havia encontrado em si mesma. Afinal, a verdadeira luz não apenas iluminava o caminho; também ajudava a encontrar a coragem necessária para caminhar.

E assim, Emily seguiu adiante, não apenas como uma viajante, mas como uma guerreira da luz, pronta para enfrentar o mundo com um novo propósito e clareza.


"Escritoras Contemporâneas em Itaúna"

História e direção narrativa: Mary J.

Arte e design: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Apoio à leitura e inspiração para novos escritores: Professora Camila Queiroz

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.