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quinta-feira, agosto 29, 2024

O MENDIGO

ANÁLISE DO POEMA

O poema "O Mendigo" de Nise Campos escrito em 1937, apresenta uma reflexão profunda sobre a condição humana, a passagem do tempo, e a fragilidade das conquistas materiais diante das incertezas da vida. 

Através da figura do mendigo, a poeta explora temas como o envelhecimento, a desilusão, a solidão, e a perda de tudo o que um dia foi importante.

O poema é estruturado em forma de diálogo, o que aumenta a carga emotiva da narrativa. A repetição do pedido de esmola pelo mendigo reforça sua situação desesperadora e a sua condição de desamparo. 

O uso de versos simples e diretos, em uma linguagem acessível, contribui para a identificação imediata com a dor e a miséria do personagem.

O mendigo é descrito como uma figura quase espectral, alguém que carrega no corpo e na voz os sinais do sofrimento prolongado. A "neve do tempo" que branqueara seus cabelos e a "espessa barba" que perdeu a cor são metáforas que sugerem não apenas a velhice, mas também a erosão da identidade e da vitalidade. Seus olhos são comparados a um "cofre aberto", uma imagem poderosa que sugere que tudo o que restou ao mendigo é a dor, que ele carrega como um tesouro sombrio.

O tema da perda é central no poema. O mendigo revela que já foi rico, poderoso, e amado, mas tudo isso foi destruído por um "falso amigo" e um "falso norte". Essas expressões sugerem traição e a escolha errada de caminhos, elementos que conduzem ao fracasso e à ruína. A queda do personagem de uma posição elevada para a mendicância é uma reflexão sobre a impermanência e a vulnerabilidade das conquistas humanas.

O contraste entre o passado glorioso do mendigo e sua presente miséria cria uma tensão trágica. A ironia está presente na transformação de alguém que um dia possuía "palácios" em alguém que agora depende da caridade para sobreviver. Esse contraste sublinha a ideia de que a fortuna é efêmera e que o destino pode ser cruelmente caprichoso.

O poema convida o leitor a refletir sobre o valor real das posses materiais e a transitoriedade da vida. A narrativa triste e melancólica do mendigo serve como um lembrete de que o orgulho, a riqueza e o poder são frágeis e podem desaparecer com a mesma facilidade com que surgem. Além disso, o poema sugere a importância da empatia e da compreensão para com aqueles que a sociedade muitas vezes marginaliza e esquece.

Assim, "O Mendigo" é uma meditação poética sobre a decadência humana e a necessidade de olhar além das aparências para reconhecer a dignidade e a história que cada indivíduo carrega, independentemente de sua condição atual.

 

O MENDIGO

Nise Campos — 1937

— Uma esmola, moça! Era tão velho o pobre,

Que se não podia calcular-lhe os anos ...

Trôpego e cansado pelo mundo andava,

Vítima da dor e dos desenganos ...

A neve do tempo branqueara seus cabelos bastos.

E a espessa barba lhe roubar à cor.

Seus olhos pareceram-me, ao fitá-los,

Um cofre aberto, onde guardara a dor.

— Uma esmola, moça! Repetiu-me ele.

Uma esmola do velho sem carinho e lar ...

E a voz tremia-lhe na garganta rouca,

Sendo ela triste como seu olhar.

Tinha nas faces o palor doentio.

Dos que não tem lume, dos que não tem pão.

De que lhe serviria a moeda avara

Que lhe lançasse na rugosa mão?

Sentei-me ao lado do velhinho pobre.

Ele contou-me o drama da existência sua.

Havia lágrimas nos seus olhos tristes

Que se alongavam pela extensão da rua.

— Fui rico, moça! Fui poderoso e forte!

— Tive palácios! Tive amor até!

Um falso amigo atrapalhou-me a sorte

E um falso norte amorteceu-me a fé!

Hoje, sou trapo, pelo chão jogado!

Nem o céu da Pátria me é dado ver!...

Tenha piedade deste desterrado,

Que a Pátria ama, como ao próprio ser!...

Enxuguei-lhe as lágrimas que caiam quentes,

E tão ardentes como o ardente amor,

E, compadecida desse desgraçado,

A vivei-lhe a fé e amorteci-lhe a dor ...

Filha querida, que agora achei!

—Que nunca seja por ninguém traída,

Dizendo isso, abençoou-me crente,

Com a fé ardente que ressuscitei.

Seguiu o velho o seu caminho certo.

Escutei, atenta, os rogativos seus

Estendendo a mão e para o algo olhando:

— Uma esmola, amigo, pelo amor de Deus!  

Aperte o play e se encante com a narrativa deste vídeo!

Edson D’Amato

Não irei levar ao conhecimento dos leitores desta “Polianteia”, os dados biográficos de uma vida dedicada quase que exclusivamente ao magistério, mas, sim, por em relevo as qualidades de espírito e de coração dessa incansável e modelar mestra. O magistério é um ideal, em que os espinhos são mais abundantes do que as flores. E somente os que estão marcados pela vocação para o ensino, abraçam esse ideal, com os olhos fixos na grandeza da Pátria.

Nise Campos é, antes e acima de tudo, professora dedicada, que não mede sacrifícios, no sentido de formar, intelectual e espiritualmente, os futuros responsáveis pelo destino deste País. Nessa missão árdua e espinhosa, que vem sendo realizada, desde longos anos, põe todo o seu entusiasmo, todo o seu devotamento e todas as energias latentes de sua inteligência aprimorada. Incansável no seu trabalho diuturno, não tem horário para lecionar. Se alguma criança a procura interessada em estudar, abre os seus braços e sempre, com sorriso aos lábios, procura encaminhá-la pelas sendas da virtude e da sabedoria.

No poema “O Mendigo” escrito em 1937, nota-se que a poetisa escolhera um tema, que comove a qualquer leitor. Entre os versos musicalmente cadenciados surge a figura daquele que perambula pelas ruas da cidade maltrapilho e esfomeado, à procura de uma esmola pelo amor de Deus.


Referências: 

Elaboração, arte e análise do poema: Charles Aquino

Poema: Professora Nise Álvares da Silva Campos  -  Nise Campos

Comentarista: Edson D'Amato

Revista Acaiaca: O Mendigo. Nise Campos, p. 127-128. Ano: 1954, Org. Celso Brant, Belo Horizonte/MG.

 

terça-feira, janeiro 30, 2024

segunda-feira, janeiro 01, 2024

TABLOIDE ITAÚNA DÉCADAS Nº 2

Convido todos os leitores a explorarem o fascinante tabloide Itaúna Décadas, que em sua edição traz uma emocionante homenagem à professora e escritora Nise Álvares da Silva Campos, mais conhecida como Nise Campos. Ela foi trineta de Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco Souto Mayor de Oliveira Campos, também chamada de Dona Joaquina do Pompéu, uma figura histórica de grande relevância.
Nise Campos, nascida em 1907 em Itapecerica, fez parte da primeira turma de professoras formadas na renomada Escola Normal de Itaúna. Ao longo de sua vida, dedicou-se à educação e ao espiritismo kardecista, sendo uma das fundadoras do Grupo Espírita Francisco de Assis em Itaúna. Seus textos, de grande sensibilidade poética, refletem sua profunda humanidade e reflexões espirituais. Entre suas obras, destaca-se a “Ode ao Tempo”, onde explora a força implacável do tempo e a natureza efêmera da vida.
O tabloide também apresenta detalhes sobre sua rica contribuição cultural e literária, além de sua dedicação filantrópica e religiosa. Venha conhecer mais sobre essa mulher extraordinária, que marcou a história de Itaúna com sua sabedoria, sensibilidade e serviço à comunidade.



Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino

NISE CAMPOS by Itaúna Décadas

sábado, dezembro 23, 2023

quinta-feira, novembro 07, 2019

BOAS FESTAS, COTINHA

Molhando a pena no poço de emoções que a tua trágica morte me causou, Cotinha, aqui estou a felicitar-te, sincera e calorosamente, trazendo-te as minhas “Boas Festas”, pelo novo ano que aí vem!

Nova vida novo ambiente! Novas paisagens para teus olhos deslumbrados! Novo mundo para teus sentidos! Alegrias novas para teu coração! Uma festa de luz para a tua sensibilidade!

Tu, que feriste os pés nas pedras da rua, encontrarás uma estrada luminosa e limpa nos caminhos da amplidão! As pedrinhas, que catavas pelas ruas da cidade, transformar-se-ão em diamantes e safiras para coroar-te a cabeça.

Terás rosas, aquelas rosas que tanto admiravas, a atapetar-te o caminho! Não mais precisarás colhê-las nos jardins da terra! Tê-las-ás em profusão nos vergéis do céu! Quando passavas desapercebida dos perigos que te rodeavam monologando, toda entregue às belezas do seu mundo interior, chamavam-te Coitada!

E tu te exaltavas em altos protestos! E que — mistérios da alma humana! — te julgavas nobre e te sentias feliz! Os farrapos que mal te cobriam o corpo eram mantos de rainha a cobrir-te os ombros!

Diziam que te faltara a razão, Cotinha! Mas, entre os loucos que contigo cruzaram nos caminhos do mundo, eras a mais inofensiva e feliz! Não fazias mal a ninguém. Vivias no teu mundo, à parte. E mostravas, também, uma faceta delicada de teu espírito, um vislumbre de estética espiritual, no teu amor às flores!

Quando as colhias nos jardins alheios, era com a maior naturalidade que o fazias! Pois não eram teus todos os jardins da terra? Que mal havia em colheres as rosas vermelhas que ali desabrochavam? E como apreciavas as cousas finas e agradáveis ao paladar mais requintado!

Gostavas do vinho! E como raramente te molhou ele os lábios! Pois é, Cotinha! Deves estar Feliz! Não mais os perigos da rua! Não mais te chamarão de coitada.

A ambrosia, néctar dos deuses, ao alcance de teus lábios! Rosas e mais rosas ao seu alcance de tua mão! Mas o que mais certamente te encantou foi a homenagem que te prestaram! O teu nome, antes tão pequenino, tão esquecido, falado aos quatro cantos do Brasil!

O teu nome, Cotinha, a embargar a voz dos locutores, a fazer chorar o povo que te queria! Já foste notícia na imprensa da cidade; o teu retrato já emoldurou os jornais da terra, uma vez!

Mas nem soubeste disso! Agora, tudo viste! Sabes que chorei a tua morte! Sabes que todos choraram! O teu caixão todo de branco e, tu toda de branco vestida! Os teus funerais! A emoção de tua gente! Talvez tivesses dito: Coitados deles!

Agora, Cotinha, me penitencio, arrependida de não te haver colocado à minha mesa para que comigo comesses do meu pão e bebesses comigo do meu vinho!

Felicidades, Cotinha!

E até lá!

Análise do texto"Boas Festas, Cotinha"

"Boas Festas, Cotinha", escrito por Nise Campos, é um texto que mergulha profundamente nas emoções e reflexões sobre a vida e a morte de Cotinha, uma figura aparentemente marginalizada pela sociedade.

O texto aborda temas de solidão, marginalização social, transcendência e redenção após a morte. Está estruturado em forma de uma carta ou mensagem dirigida diretamente a Cotinha, evocando uma atmosfera íntima e pessoal. O tom do texto é emotivo e contemplativo. A autora expressa sentimentos genuínos de pesar pela morte de Cotinha, ao mesmo tempo em que oferece votos de felicidade e redenção em sua nova jornada após a vida terrena. O estilo é marcado por uma linguagem poética e simbólica, com metáforas que ressaltam a beleza e a transformação.

Cotinha é retratada como uma figura incompreendida e marginalizada, mas também como alguém que encontrava beleza e felicidade em seu próprio mundo interior. Sua morte é celebrada como uma libertação dos perigos e do sofrimento terreno, enquanto sua jornada após a vida é imaginada como repleta de luz, beleza e reconhecimento.

O texto lança uma crítica implícita à maneira como a sociedade trata os marginalizados e os considera "coitados". Cotinha é apresentada como uma pessoa feliz e inofensiva em seu próprio mundo, apesar de ser rotulada como louca ou desafortunada pelos outros. Essa crítica social é intensificada pelo contraste entre a visão dos outros sobre Cotinha e a maneira como ela é descrita pela autora. O uso de símbolos, como as rosas, o vinho e a imagem de Cotinha vestida de branco em seu funeral, adiciona profundidade ao texto. As rosas representam a beleza e a fragilidade da vida, enquanto o vinho pode simbolizar tanto prazer quanto sofrimento. O branco pode evocar pureza, paz ou até mesmo uma nova vida após a morte.

A autora demonstra uma profunda empatia por Cotinha, reconhecendo sua humanidade e dignidade mesmo em meio à adversidade. As emoções sinceras expressas no texto, como o pesar pela morte de Cotinha e o arrependimento por não ter interagido mais com ela em vida, ressoam com o leitor e evocam reflexões sobre a natureza da compaixão e da conexão humana.

Em resumo, "Boas Festas, Cotinha" é um texto que transcende as barreiras da vida e da morte, oferecendo uma reflexão comovente sobre a dignidade e a beleza encontradas mesmo nas margens da sociedade. Através de uma linguagem poética e simbólica, a autora convida o leitor a contemplar a profundidade da experiência humana e a encontrar significado na redenção e na transcendência.

 


Cotinha sobre o olhar de Maria Lúcia Mendes


A ex-diretora do Museu Municipal Francisco Franco de Itaúna e escritora Maria Lúcia Mendes também nos deixa um texto sobre a Cotinha:

Cotinha ...
Em tamanha naturalidade que parece ter vida. Ah, se me lembro dela ... A Cotinha Pereira, como a chamávamos. Magrinha, estatura média, sempre descalça, era vista aqui e ali peregrinando pelas ruas, absorta em monólogos que ninguém entendia.

Quando alguém lhe dizia! “Coitadinha da Cotinha! Caiu no azeite”, ela contraía o rosto em enormes caretas e protestava: Coitadinha é ...

E a meninada corria assustada ante uma enxurrada de palavrões e pedras. Tinha a mania de andar beirando o meio-fio, revirando tudo que encontrasse pelo chão como que à procura de um objeto perdido.

Segundo diziam, Cotinha em verdes anos, perdera uma agulha com a qual sua mãe costurava e, por causa disso, recebera dela uma praga: haveria de procurar essa agulha, enquanto vivesse.

Verdade ou não, continuava sempre sua estranha procura, catando aqui e ali. Às vezes, parava em plena rua e, entregue àquele universo singular, que criara para si mesma, erguia os braços em gestos descompassados, falando sozinha.

Amante das flores, Cotinha as colhia nos jardins por onde passava e, sob uma chuva de pérolas, coroava-se toda dizendo: Sou moça donzela, sou rainha ...


Análise do texto “Cotinha

 Cotinha é apresentada como uma personagem singular, cujo comportamento excêntrico e aparência peculiar a tornam notável entre os habitantes da cidade. Ela é descrita como magra, de estatura média, frequentemente descalça e absorta em monólogos incompreensíveis para os outros.

A interação de Cotinha com os outros habitantes da cidade é marcada por momentos de estranheza e incompreensão. O diálogo relatado, onde ela protesta contra o apelido de "coitadinha", revela sua personalidade forte e a falta de conformidade com as expectativas sociais.

A história da maldição lançada pela mãe de Cotinha, relacionada à perda de uma agulha, adiciona um elemento de realismo fantástico à narrativa. Esse aspecto contribui para a construção da atmosfera misteriosa e folclórica em torno da personagem. Cotinha é retratada como uma pessoa imersa em sua própria realidade imaginativa. Seus gestos descompassados, a busca incessante por uma agulha perdida e sua declaração de ser uma "moça donzela, rainha", simbolizam sua fuga da realidade cotidiana para um mundo interior fantasioso e poético.

O texto sugere uma crítica implícita à forma como a sociedade lida com aqueles que são considerados diferentes ou excêntricos. Cotinha é marginalizada e até mesmo temida pela criançada, refletindo a intolerância e a falta de compreensão em relação às diferenças. A escrita de Maria Lúcia Mendes é direta e descritiva, utilizando uma linguagem acessível e vívida para retratar a vida de Cotinha. O uso de expressões regionais e a caracterização detalhada dos hábitos da personagem contribuem para a autenticidade e vivacidade da narrativa.

Em suma, "Tipos Populares" é mais do que uma simples descrição de um personagem excêntrico; é uma reflexão sobre a marginalização social, a imaginação e a singularidade humana, apresentada através de uma prosa envolvente e ricamente detalhada.

 


TIPOS POPULARES

O saudoso Osvaldo fotógrafo tinha um hobby de fotografá-los.... Assim, conseguiu uma galeria dos Tipos Populares de Itaúna, o qual se encontra nos registros do jornalista Hamilton quando visitou o Museu Municipal Francisco Franco em Itaúna/MG. 


Referências:
Organização, pesquisa e análise: Charles Aquino
Texto 1: Nise Campos 
Fonte impressa: Jornal Voz Operária, pág.6, Itaúna/MG.
Texto 2: CARVALHO, David de. Anuário dos Aspectos Históricos de Itaúna. Ano II. Vile editora e Escritório de Cultura. 2001, pá.61.
Vídeo: Registro do Museu Municipal Francisco Manoel Franco em Itaúna realizado por Hamilton Pereira.  Em 2014 o museu foi fechado para visitação e  somente em 2019 iniciou sua reforma. 
Acervo: Shorpy


segunda-feira, novembro 04, 2019

PROFESSORA NISE CAMPOS


Itaúna perdeu, nos derradeiros dias de 1987, uma figura de valor. A professora e escritora Nise Campos era uma personalidade cativante, pela riqueza interior que possuía e manifestava com simplicidade. Morreu esquecida.

A sociedade capitalista em que vivemos só se lembra das pessoas que tenham dinheiro e prestígio (enquanto os têm) ou estejam na idade de produzir e consumir.

Nise Álvares da Silva Campos nasceu em Itapecerica (MG), aos 6 de setembro de 1907. Seus pais foram Inácio Álvares da Silva Campos, membro da Guarda Nacional do Império, e Dona Luíza Álvares da Silva Contagem.

Fez o curso primário na cidade de Pompéu e veio prosseguir os estudos na famosa Escola Normal de Itaúna. Integrou a primeira turma de professoras aqui formadas, em 1925. O quadro, com os retratos das quatorze formandas, encontra-se no Colégio Estadual.

A jovem voltou a Pompéu, onde começou a lecionar, mas retornou a Itaúna, em 1930, ano em que a Escola Normal foi oficializada. Aqui exerceu o magistério até a aposentadoria no Grupo Escolar José Gonçalves de Melo. Ficou conhecida pela sua competência e dedicação.

Fora da escola, era muito procurada para aulas particulares, sobretudo de português. Possuía algum dom para a música. Tocava bandolim. Em religião, era adepta do espiritismo Kardecista. Participava com convicção das atividades filantrópicas e religiosas do seu Centro Espirita. Mas não era sectária, nem proselitista. Respeitava as opiniões diferentes da sua.

Desde cedo manifestou dotes literários. Seu irmão, José Maria Álvares da Silva Campos, farmacêutico, era também poeta. Muito nova ainda, Nise escreveu suas primeiras composições poéticas. Em seus escritos sempre transparecia um espírito muito humano meditativo e uma certa melancolia. Colaborou em diversos jornais itaunenses.

Por ocasião da morte de Cotinha, uma pobre louca que andava pelas ruas, Nise publicou uma crônica que bem representa o seu estilo. Tenho como seu mais belo poema a “Ode ao Tempo”.

Às vezes, aparecia uma outra face do seu espírito: uma moderada crença religiosa. Este ceticismo está presente nos versos que escreveu, em 1934, sobre a demolição da antiga Matriz de Sant’Ana de Itaúna. Eis a duas últimas estrofes:
“Espelho da vida! Imagem de minha alma, sem santo, sem sino, sem altar ...”

Retribuindo um cartão ao professor Márcio Auril, ela terminava assim:
“Sua velha e desiludida amiga, Nise”

E acostumava visitá-la. Aproximava - se o Natal e lembrei-me de que era preciso ir vê-la. Mas antes disso recebi a notícia de sua partida. Faleceu aos 18 de dezembro, depois de uma longa e penosa enfermidade, que suportou com resignação estoica.

Seus escritos permanecem dispersos.  





Referências:
Texto Professor Padre José Raimundo Batista Bechelaine. Data Nascimento: 12/02/1947, Local: Carmo do Cajuru – MG. Pais: Nagm Antônio Bechelaine e Maria Batista Bechelaine. Data Ordenação: 01/05/1974. Local: Matriz Sant’Ana – Itaúna – MG. Bispo Ordenante: Dom Cristiano Frederico Portela de Araújo Pena. 

FONTE IMPRESSA: Jornal Brexó, pág.2, 1988.

Organização: Charles Aquino

sexta-feira, abril 05, 2019

ANIVERSÁRIO NISE CAMPOS

Aniversário Nise Campos
06 de Setembro de 1980 - 73 anos

Sábado dia 5, transcorreu num ambiente saudável o aniversário da poetisa Nise Campos. A partir das 16 até 20 horas estiveram presentes Lauro de Faria matos, Francisquinho e seu violão, Antônio exímio violinista de Pará de Minas e, como cantora, Dona Maria Helena.

Variados números foram executados pelos instrumentistas e Maria Helena cantou lindas canções, numa manifestação espontânea dos presentes à aniversariante.

Os olhos da poetisa e ilustre professora Nise Campos marejaram de lágrimas da sua indivisível alegria, emoções e preciosas reminiscências.

A pedido, foram apresentados dois números de poesias do Lauro, tendo a aniversariante recitado também uma das lindas composições poéticas.

Francisquinho leu seu acróstico dedicado a aniversariante. Esperamos, com ajuda de Deus, que no próximo ano, Nise Campos, esteja bem forte e disposta, para outra passagem natalícia, porque Itaúna muito lhe deve por tantos anos de magistério.

Sua grande bagagem cultural serviu muitos itaunenses, em diversos concursos, vestibulares, visando somente praticar o bem, sem interesse pecuniário. Felicidades Dona Nise!







Referências:
Organização E Pesquisa: Charles Aquino
Fonte: Folha do Oeste, Itaúna/MG, 13 de setembro 1980, nº 1395, p.2
Texto: Cosme Silva
Fotografia: Nise Álvares da Silva Campos (In Memoriam)



AGONIA DAS ROSAS


Na mansuetude das tardes frias,
Sem gemido, sem dor e sem lamento,
Vejo que se desfolham, lentamente, as rosas,
Numa beatitude de sonho e de renúncia...

Longe. Longe, lá no céu distante,
Há nuvens cor das rosas que morreram...
E a voz das coisas que, no silêncio falam,
Têm pena das rosas que nasceram...

Rosas, que desabrochais ao raiar das alvoradas!
Rosas, que recebeis do sol beijo ardente!
A nossa vida, que só dura um instante,
É um poema que o vento canta e que a gente escuta...

Vejo-as se desfolharem à luz do acaso triste...
E as pétalas soltas, com perfume ainda,
Vão rolando, rolando, levadas pela brisa...
Cansaram-se de viver e, só viveram um dia,
Uma vida de amor e de beleza!

Eu descubro em vós, rosas em agonia,
Uma alma da mulher, chorando uma ilusão! ...
Eu sei que o último perfume, que no jardim deixais,
É uma prece de carinho e de perdão! ...


Análise do poema  -  Agonia das rosas

O poema "Agonia das Rosas" de Nise Campos, presente na obra "Antologia dos Poetas Itaunenses" de 1990, revela uma profunda reflexão sobre a efemeridade da vida e a beleza transitória das experiências humanas. O título, "Agonia das Rosas", evoca imediatamente uma imagem de fragilidade e decadência, sugerindo que as rosas estão sofrendo de alguma forma. Isso prepara o leitor para uma exploração mais profunda das metáforas e temas presentes no poema.

A primeira estrofe estabelece uma atmosfera de quietude e resignação, com as "tardes frias" evocando uma sensação de melancolia e contemplação. A descrição das rosas se desfolhando lentamente sugere não apenas um processo natural, mas também uma aceitação pacífica desse destino inevitável.

A segunda estrofe amplia a perspectiva, conectando a imagem das nuvens cor-de-rosa ao destino das rosas. As nuvens, associadas ao céu distante, assumem uma tonalidade semelhante às rosas que já morreram, implicando uma continuidade entre o ciclo da vida e a passagem do tempo.

A terceira estrofe introduz uma reflexão sobre a brevidade da existência humana, comparando-a a um poema que é recitado pelo vento. Essa analogia sugere que a vida é efêmera e transitória, mas também carrega uma beleza intrínseca que merece ser apreciada.

Na quarta estrofe, o poema retorna ao tema das rosas, agora personificadas como seres vivos que experimentam uma "agonia". Essa personificação destaca a empatia do eu lírico em relação ao sofrimento das rosas, e sugere uma identificação entre a fragilidade das flores e a fragilidade da experiência humana.

A conclusão do poema enfatiza a ideia de perdão e redenção, sugerindo que o último perfume deixado pelas rosas é uma expressão de amor e reconciliação. Isso implica uma visão positiva da mortalidade e da passagem do tempo, sugerindo que mesmo na morte há espaço para a beleza e o perdão. No geral, "Agonia das Rosas" é um poema que transcende a mera observação da natureza para explorar questões mais profundas sobre a vida, a morte e a beleza efêmera. Através de metáforas poderosas e uma linguagem evocativa, Nise Campos convida o leitor a contemplar a fragilidade e a beleza do mundo ao seu redor.


Referências:

Organização, pesquisa e análise: Charles Aquino

Fonte: Antologia dos Poetas Itaunenses. – BH – Lemi;/Itaúna Diretoria de Pesquisa e Extensão da Fundação Universidade de Itaúna, Nise Álvares da Silva Campos, 1990, p.103.

Acervo: Shorpy



quinta-feira, abril 04, 2019

MOMENTO DE CRIAÇÃO

Eis como se resume meu momento de criação:

O absoluto e o relativo.
O efêmero e o duradouro.
O improviso.
O riso da criança.
O pranto do velhinho.
O estado afetivo da alma.
A natureza.
A beleza do Evangelho.



Análise do Texto "MOMENTO DE CRIAÇÃO"

O título "MOMENTO DE CRIAÇÃO" sugere um instante específico em que ocorre um processo criativo. É um título evocativo que aponta para uma experiência única e pessoal do ato de criar. O texto é composto por uma série de frases curtas, quase aforísticas, que descrevem o que compõe o "momento de criação" da autora. Essa estrutura fragmentada e livre reflete a natureza multifacetada e espontânea do processo criativo.

O absoluto e o relativo — Esta frase sugere que o momento de criação abrange tanto verdades universais (absoluto) quanto percepções individuais (relativo). Isso indica que a criação é um ato que conecta o macro (o todo, o universal) ao micro (o individual, o particular).  A dualidade apresentada aqui é fundamental para entender a complexidade do processo criativo. A autora reconhece que criar é um ato que transita entre o objetivo e o subjetivo, o eterno e o transitório.

O efêmero e o duradouro — Novamente, há uma oposição entre dois conceitos, agora entre o passageiro (efêmero) e o permanente (duradouro).  Isso sugere que o ato de criação lida com elementos que podem ser momentâneos, mas também tem potencial para deixar um impacto duradouro. A criação é, portanto, uma forma de capturar a essência do momento e transformá-la em algo que perdura.

O improviso — A palavra "improviso" indica espontaneidade e liberdade na criação. O improviso é essencial no processo criativo, permitindo que a intuição e a inspiração fluam sem restrições. Aqui, a autora celebra a flexibilidade e a originalidade que o improviso traz.

O riso da criança — Simboliza pureza, alegria e espontaneidade. Este elemento sugere que o processo criativo é alimentado por uma fonte de energia pura e inocente. A criatividade, assim como o riso de uma criança, é genuína e não contaminada por preocupações externas.

O pranto do velhinho — Em contraste com o riso da criança, o pranto do velhinho representa a sabedoria, a experiência e talvez a melancolia.  Este contraste aponta para a profundidade emocional do processo criativo, que abarca tanto a leveza da infância quanto a gravidade da velhice. A criação é, portanto, um reflexo de toda a gama de emoções humanas. 

O estado afetivo da alma — Esta frase sugere que o processo criativo é profundamente influenciado pelo estado emocional e espiritual do indivíduo. O estado afetivo da alma é central para a criação, indicando que a autenticidade e a expressividade do trabalho criativo vêm do fundo do ser do artista.

A natureza — É uma fonte de inspiração e um modelo de beleza e harmonia. A conexão com a natureza sugere que a criação busca imitar ou dialogar com a perfeição e a complexidade do mundo natural. A natureza é tanto uma inspiração quanto um guia para o processo criativo.

A beleza do Evangelho — Aqui, o Evangelho é visto como uma fonte de beleza e talvez de moralidade ou espiritualidade. A inclusão do Evangelho indica que o processo criativo também tem uma dimensão espiritual ou transcendente. A beleza encontrada nos ensinamentos do Evangelho serve como inspiração e elevação do espírito.

O texto "MOMENTO DE CRIAÇÃO" de Nise Campos é uma reflexão poética sobre o processo criativo, destacando sua complexidade e riqueza. Através de uma série de oposições e imagens evocativas, a autora descreve o ato de criação como um fenômeno que integra elementos contraditórios e complementares, desde a espontaneidade do improviso até a profundidade das emoções humanas, passando pela inspiração na natureza e pela espiritualidade. Esta abordagem holística sublinha a ideia de que a criação é uma expressão multifacetada da experiência humana, que conecta o efêmero ao duradouro, o individual ao universal, e o terreno ao espiritual.

 

 Referências:

Organização, pesquisa e análise: Charles Aquino
Fonte/Texto: Antologia dos Poetas Itaunenses. – BH – Lemi;/Itaúna Diretoria de Pesquisa e Extensão da Fundação Universidade de Itaúna, Nise Álvares da Silva Campos, 1990, p.102.
Acervo: Shorpy