Geralmente
se fala de alguém muito especial, quando ela parte para a eternidade. Meditando
um pouco sobre esta verdade, vi que não se deve deixar para essa ocasião,
quando se trata de alguém a quem muito devemos e amamos bastante. Em vida, ela precisa
saber que o seu trabalho foi maravilhoso, foi gratificante.
Quero falar
sobre a minha primeira mestra, Dona Nise Campos. Essa pessoa maravilhosa, a
professora modelo, mãe e amiga que sempre foi para seus alunos.
Sua capacidade
intelectual sem limites, facilmente aclarava a mente dos pequeninos que lhe
eram confiados. Ensinava tão bem que seus discípulos procuravam, imitá-la em
tudo.
Lembro-me
bem que em minhas brincadeiras de criança em que eu fazia o papel de mestra,
procurava cruzar as pernas como Dona Nise o fazia e coçava o nariz com as
costas da mão, mas não tão simpaticamente como Dona Nise. Esforçava-me o máximo
para imitá-la na pronúncia, na maneira de ser.
Pois bem,
Dona Nise, como a senhora foi para nós, eu também procurei ser para meus alunos,
só que não tão perfeitamente, pois a senhora foi a escolhida de Deus para
imitá-lo, em tudo, aqui na terra.
Temos prova disse hoje, na aceitação do
sofrimento.
Há seis
anos a senhora está enferma. Ultimamente, movimenta-se quase que somente com os
olhos. E com que resignação! Sem lamentos, sem mau humor, igualzinho como a
senhor toda vida foi.
Que estrada
maravilhosa a senhora percorreu e percorre, tão serenamente, que seus rastos
ficarão indelevelmente marcados para todo o sempre.
O texto
"GRATIDÃO", escrito por Maria Auxiliadora de Carvalho em 1984, é uma
homenagem à sua primeira professora, Dona Nise Campos. A autora reflete sobre a
importância de reconhecer e valorizar as contribuições significativas das
pessoas enquanto ainda estão vivas, em vez de esperar pela sua partida para a
eternidade. Este texto é um tributo sincero e emocional que celebra a
influência positiva de Dona Nise na vida de seus alunos.
O texto é
escrito em primeira pessoa, o que confere uma sensação de intimidade e
pessoalidade. Maria Auxiliadora adota um tom reflexivo e respeitoso, revelando
a profunda admiração e gratidão que sente por Dona Nise Campos. A linguagem é
simples e direta, mas carregada de emoção, o que torna a mensagem ainda mais
poderosa e comovente.
A temática
central do texto é a gratidão e o reconhecimento. A autora enfatiza a
importância de expressar esses sentimentos enquanto as pessoas ainda estão
vivas para que possam sentir-se valorizadas e apreciadas. Este é um tema
universal, que ressoa com qualquer leitor que já teve uma figura influente e
inspiradora em sua vida.
Dona Nise Campos
é retratada como uma figura quase idealizada, uma professora exemplar, mãe e
amiga para seus alunos. Sua capacidade intelectual e habilidades pedagógicas
são destacadas, assim como suas qualidades humanas, como a simpatia e a
paciência. A autora relembra com carinho os gestos e maneirismos de Dona Nise,
mostrando como ela deixou uma marca indelével em sua vida e na de muitos
outros.
O texto utiliza
poucas metáforas, mas é rico em simbolismo. A figura de Dona Nise é comparada a
um modelo a ser seguido, quase uma escolhida de Deus, o que eleva sua imagem a
um patamar quase sagrado. O sofrimento da professora nos últimos seis anos, enfrentado
com resignação e sem queixas, é apresentado como uma prova de seu caráter e
força interior.
A reflexão de
Maria Auxiliadora sobre a prática comum de só se valorizar alguém após sua
morte é um convite à ação para os leitores. A mensagem é clara: devemos
expressar nossa gratidão e reconhecimento às pessoas importantes em nossas
vidas enquanto ainda podemos. Este é um chamado à valorização do presente e à
apreciação das contribuições alheias.
"GRATIDÃO"
é um texto poderoso que celebra a vida e o legado de uma educadora exemplar.
Maria Auxiliadora de Carvalho captura a essência de Dona Nise Campos com uma
simplicidade tocante, ressaltando a importância de valorizar e expressar nossa gratidão
por aqueles que impactam positivamente nossas vidas. O texto serve como um
lembrete atemporal da necessidade de reconhecer e celebrar as pessoas especiais
enquanto ainda estão conosco.
O registro apresentado é a Lei Nº
775, sancionada em 6 de dezembro de 1965, que concede o título de cidadã
honorária de Itaúna à professora aposentadaNise Álvares da Silva Campos. O
documento reflete uma formalidade jurídica comum em legislações municipais,
expressando o reconhecimento oficial por parte das autoridades locais.
Nise Álvares da Silva Campos é
homenageada como cidadã itaunense devido ao seu legado significativo como
professora. Sua atuação na educação teria sido marcada pelo compromisso com o
desenvolvimento intelectual e moral dos alunos. Este reconhecimento público é
uma forma de valorizar sua dedicação e contribuição para a formação de
gerações, refletindo o impacto duradouro que ela teve na comunidade local.
Embora o texto da lei não
mencione diretamente seu trabalho como escritora, a homenagem pode ser
entendida como um reconhecimento abrangente de sua contribuição cultural. Como
escritora, Nise Campos teria utilizado suas habilidades literárias para promover
valores educativos e culturais, enriquecendo o patrimônio intelectual de
Itaúna.
A concessão do título de cidadã
honorária é uma das mais altas honrarias que um município pode conceder a um
indivíduo. Este reconhecimento não apenas celebra os feitos de Nise Campos, mas
também serve como inspiração para a comunidade, destacando a importância da
educação e da cultura no desenvolvimento social.
A lei de 1965 reflete um momento
em que a comunidade itaunense reconhece formalmente a importância dos
educadores e escritores no tecido social. A homenagem a Nise Campos simboliza o
apreço e a gratidão do município por aqueles que dedicam suas vidas ao ensino e
à disseminação do conhecimento, mostrando que esses profissionais são
fundamentais para o progresso e o bem-estar coletivo.
Este reconhecimento é uma
celebração do seu legado como educadora e escritora, ressaltando a importância
da educação e da cultura para a comunidade. A homenagem serve como um marco de
gratidão e admiração, inspirando futuras gerações a valorizar e seguir o
caminho do conhecimento e da dedicação ao bem comum.
LEI Nº 775, 06 DE DEZEMBRO DE 1965
O Povo do Município de Itaúna, por seus representantes, decreta e eu, em seu nome, sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º Concede o título de cidadã honorária de Itaúna à professora aposentada Nise Álvares da Silva Campos, de acordo com a Lei Municipal que regula a matéria.
Art. 2º Revogadas as disposições em contrário, esta Lei entrará em vigor, na data de sua publicação.
Mando, portanto, a todas autoridades, a quem o conhecimento desta Lei pertencer, que a cumpram e a façam cumprir tão inteiramente como nela se contém e declara.
Prefeitura Municipal de Itaúna, 06 de dezembro de 1965
A poesia "Maria Lúcia Mendes - Janeiro 1979" evoca uma sensação de serenidade e admiração pela natureza, simbolizada pelas rosas. A imagem das rosas como "espirais de silêncio" sugere uma beleza tranquila e misteriosa, enquanto a ideia de "encantar o mundo" implica em uma presença sutil, mas impactante. A utilização de "enoveladas em cheiro e matizes" realça a riqueza sensorial das rosas, não apenas visualmente, mas também através de seu perfume.
O poema então destaca a efemeridade da vida das rosas, comparando-as à brevidade das manhãs. A ideia de que elas "desabrocham pelas madrugadas" e "vivem o tempo das manhãs" evoca a transitoriedade e a beleza fugaz da vida. Ainda que as rosas sejam belas e encantadoras, o poema sugere que elas não se apegam ao passado ou ao futuro, mas simplesmente existem no presente, sem pedir nada em troca e sem sofrer. Essa mensagem pode ser interpretada como uma reflexão sobre a aceitação do momento presente e a transitoriedade da vida.
A simplicidade e a musicalidade das palavras escolhidas contribuem para a atmosfera serena e contemplativa do poema.
O poema aborda a temática do
retorno de um ente querido que faleceu, utilizando a figura da Parca, que na
mitologia grega representa o destino inevitável e a morte. A ideia de retorno depois do perecimento sugere uma crença na vida após a morte ou na reencarnação, onde a
filha retorna transformada em um "anjo sem asas".
O poema é curto e apresenta uma
estrutura simples, sem uma métrica rígida ou rimas predominantes, o que é comum
na poesia moderna. A estrutura é dividida em duas estrofes principais, com uma
quebra sutil no meio, indicando uma mudança de cenário do plano divino para o
plano humano.
Primeira Estrofe: "Em
breve, teremos de volta a filha querida que a Parca implacável para longe levou..."
— Aqui, a poeta estabelece a premissa do retorno. A "Parca
implacável" é uma personificação da morte, que é apresentada como algo
inevitável. A menção de "em breve" sugere uma esperança ou uma
certeza na iminência desse retorno. "E
agora, nos segredos dos mistérios divinos, em anjo sem asas se
transformou." — Nesta linha, há uma transição do plano físico para
o espiritual. A transformação em "anjo sem asas" indica uma mudança
para um estado celestial ou espiritual, mas a ausência das asas pode simbolizar
uma ligação ainda presente com o mundo humano, ou uma transformação incompleta.
Segunda Estrofe:"A
nossos braços, ansiosos, ela retorna, sorrindo, feliz."— Esta parte reforça a ideia de esperança e
felicidade no retorno. Os "braços ansiosos" mostram o desejo e a
expectativa dos que ficaram. O sorriso e a felicidade da filha indicam uma paz
ou uma aceitação do seu estado atual. "E todos, em torno do berço
dourado, desejamos ouvir o que ela nos diz ..." — O "berço
dourado" pode simbolizar um novo começo, um renascimento, ou um lugar de
honra e valor. O desejo de ouvir a filha sugere uma necessidade de comunicação,
de receber mensagens ou ensinamentos do além, reforçando a conexão emocional e
espiritual entre os vivos e os mortos.
A linguagem do poema é poética e
evocativa, utilizando termos e imagens que evocam o místico e o espiritual. A
escolha de palavras como "implacável", "mistérios divinos",
e "berço dourado" contribui para criar um tom reverente e
esperançoso. O poema pode ser interpretado como uma reflexão sobre a perda e a
esperança no reencontro com os entes queridos após a morte. Ele lida com a dor
da separação, mas também com a esperança e a crença em um retorno, seja através
da reencarnação ou de uma presença espiritual contínua. A imagem final de todos
em torno do berço ouvindo a filha sugere uma comunhão entre os mundos, onde o
amor e a conexão superam até mesmo a barreira da morte.
"A Filha que Volta" de
Nise Campos é um poema que aborda temas profundos de perda, esperança e
transformação. Através de uma linguagem poética e de imagens simbólicas, a
autora consegue transmitir uma mensagem de consolo e de continuidade da vida
após a morte, oferecendo uma perspectiva reconfortante sobre a separação e o
reencontro.
“Aos vinte e oito de Janeiro de mil novecentos e oito, na Matriz de Tamanduá, baptisei solenemente a NISE, nascida a seis de septembro do anno passado, filha de Ignacio Alvares da Silva Campos e Luisa Alvares da Silva Contagem, padrinhos José Maria Álvares da Silva Campos e Maria Carolina Ferreira da Silva. Padre Herculano Francisco da Silva Paz. Aos trinta de Janeiro de mil novecentos e oito na Matriz.”
O poema de Nise
Campos, escrito em 1934, reflete um lamento melancólico pela demolição da
Igreja Matriz de Itaúna, destacando-se por sua linguagem emotiva e rica em
imagens poéticas. Vamos fazer uma análise crítica deste texto, observando seus
aspectos temáticos, estilísticos e estruturais.
O poema trata da
demolição de um edifício religioso, um evento que é claramente pessoal e
emotivo para a autora. A Igreja Matriz não é apenas um prédio, mas um símbolo
de fé, história e identidade comunitária. A demolição é vista como uma perda
significativa, quase uma morte, que evoca um sentimento profundo de saudade e
abandono.
O poema é
composto por três estrofes de quatro versos cada uma (quadras), com uma métrica
e rima irregulares, que contribuem para o tom melancólico e introspectivo. A
estrutura reflete a fragmentação e a desordem que a demolição causa tanto
fisicamente quanto emocionalmente.
A igreja é
personificada como "velha e abandonada", o que sugere um estado de
decadência e desamparo. A ausência de elementos sacros ("santo, sino,
altar") enfatiza a desolação. "Imagem viva das cousas mortas" é
uma antítese poderosa que ressalta a contradição de algo que, apesar de ainda
existir, perdeu sua vitalidade. O desejo de rezar no local sublinha a conexão
espiritual e emocional da autora com a igreja.
As torres são
descritas com uma qualidade quase onírica, "parecem dormir e querem
sonhar", sugerindo que, mesmo em ruínas, há uma aspiração de
transcendência. A repetição do "foram-se" para os sinos e as
andorinhas simboliza a partida de elementos vitais, mas a "saudade"
permanece, encapsulando o sentimento de perda irreparável.
Aqui, o poema
atinge seu clímax emocional. As palavras "ruína", "tapera"
e "aniquilamento" reforçam a ideia de destruição total. No entanto, a
"velhice santa, que se deve amar" sugere um respeito e uma reverência
pela história e pela memória do lugar. A identificação da igreja como
"espelho da vida" e "imagem da minha alma" indica uma
profunda conexão pessoal da autora, culminando na repetição do refrão "Sem
santo, sem sino, sem altar", que reforça a sensação de vazio e perda.
Nise Campos
utiliza uma linguagem simples, mas carregada de simbolismo. O uso de antíteses
e metáforas, como "imagem viva das cousas mortas" e "espelho da
vida", confere profundidade ao poema. A repetição de palavras e frases
intensifica o sentimento de desolação e saudade.
O poema é uma
meditação melancólica sobre perda e memória, usando a demolição da Igreja
Matriz de Itaúna como símbolo de um vazio maior, tanto físico quanto
espiritual. Através de imagens vívidas e uma linguagem emotiva, Nise Campos
capta a essência da saudade e do lamento por um passado que não pode ser
recuperado. É um tributo tocante à resiliência da memória e à persistência do
sentimento humano diante da devastação.
Nise Campos, uma poeta brasileira, escreveu o poema "Santana" em 1934. Esse período
no Brasil foi marcado por intensas transformações econômicas e sociais, com um
foco crescente na industrialização e modernização das cidades. Este contexto é crucial
para compreender a temática do poema, que reflete sobre o impacto do progresso
e da industrialização sobre as tradições e a vida comunitária.
O poema é
composto por versos livres, sem uma métrica rígida ou rimas constantes, o que
confere uma sensação de fluidez e naturalidade, talvez espelhando o curso do
próprio rio mencionado nos primeiros versos. A estrutura do poema é linear,
seguindo uma progressão que vai do rio São João, símbolo das tradições antigas,
até a moderna Itaúna, onde o progresso se impõe.
O poema
contrasta de maneira clara dois mundos: o antigo e o novo. O rio São João,
descrito como correndo preguiçosamente e cantando suas tradições, representa a
antiga vida rural, marcada pela tranquilidade e pelas práticas tradicionais
como a pesca e o lavar de roupas. O rio é personificado, com o poeta
questionando seus pensamentos e emoções, indicando um profundo respeito e
conexão com a natureza e o passado.
No entanto, essa
vida tranquila e tradicional é perturbada pelo "eco do progresso". A
chegada da indústria e do comércio, simbolizada pelas máquinas e pela luz do
sol que ilumina a escola e aquece a oficina, transforma a alma da comunidade.
Há uma sensação de perda e nostalgia, expressa pela imagem do rio
"chorando a Sant’alma antiga". O progresso é visto como um despertar
forçado, um ruído que quebra o silêncio da tradição.
O poema
"Santana" de Nise Campos oferece uma meditação profunda sobre a
tensão entre tradição e progresso. Através de imagens vívidas e simbolismo,
Campos explora como a modernização altera a paisagem física e espiritual de uma
comunidade. A saudade e a nostalgia permeiam o poema, sugerindo que o
progresso, embora inevitável e em muitos aspectos positivo, também traz uma
perda irreparável das antigas formas de vida e das conexões comunitárias.
Campos não
condena explicitamente o progresso, mas apresenta uma visão ambígua e reflexiva
sobre suas consequências. A "alma" que vibra longe do rio e o
"espírito" que dorme na prece indicam um deslocamento espiritual, uma
desconexão entre o corpo físico da comunidade e seu núcleo espiritual. O poema
conclui com Itaúna dormindo como "Sant’Anna Velha", sugerindo que,
apesar das mudanças e do progresso, há uma continuidade e uma persistência das
memórias e das tradições, mesmo que adormecidas.
Em suma,
"Santana" é um poema que capta a complexidade das mudanças sociais e
culturais, convidando o leitor a refletir sobre o equilíbrio entre preservar o
passado e abraçar o futuro. Nise Campos, através de sua sensibilidade poética,
nos oferece uma janela para as dores e as esperanças de uma comunidade em
transição.
Saí do quarto agora, deixando minha doente
quase dormindo. A sala, fria e silenciosa, convida ao sonho ...
Nosso relógio centenário não trabalha mais e
parece guardar, em seu mutismo, a história de nossas vidas: as despedidas, as
chegadas, as núpcias e os funerais ...
Vou a à janela para continuar minhas
observações filosóficas. Nossa rua, antes tão quieta, tão sossegada, apresenta,
agora, um movimento inusitado.
Com as leis mutáveis de trânsito, ela mudou de
aspecto. Parece até que o mundo inteiro por ela transita.
A casa paroquial na esquina; um escritório de
contabilidade; o consultório médico-pediátrico do Dr. João; um atelier de
costura; uma república de estudantes; a oficina do Afonso; a vizinhança do INPS
e, mais além, o ginásio, uma fundição, os Correios, o Dr. Valter, tudo isso lhe
dá vida de cidade grande e oferece-me um largo campo de análise das relações
humanas.
Há também o tráfego barulhento de carros de
todas as marcas e de todos os veículos. Os caminhões, com grandes
carregamentos, atestam o movimento do Comércio e Indústria da cidade. O
caminhão de lixo aponta o cuidado da Prefeitura.
E as figuras humanas entram em cena ....
Passam, agora, as Professoras, essas heroínas anônimas, que vão colocar mais um
tijolo no edifício da civilização. Agora passam os escolares, as crianças que
vão mudar o mundo de amanhã ...
Mães aflitas, com filhos doentes ou
agonizantes[...], entram no consultório. Leprosos passam, estendendo os imundos
chapéus à espera das moedas que, raramente caem.
Associados do INPS apresentam os mais
diversificados tipos de transeuntes, com papéis à mão, discutem o andamento de
seus processos.
Vêm eles de outras cidades e são, para mim,
estranhos.
Passam os ricos e os pobres. Leio, em suas
fisionomias ou em seus olhares, a apatia, o desânimo, a euforia, o tédio, o
orgulho, a vaidade.
Passam os escravos do horário de trabalho que
conhecem a velha professora de outros tempos, que lhes falara de tantas coisas
e de muitos mistérios transcendentais.
Esses, para meu conforto, cumprimentam-me
amistosamente.
Vendo-me sempre à janela, reconheço os que
estranham isso e aparecem indagar: não terá ele* o que fazer?
Sai, agora, uma noiva do prédio vizinho. De
branco vestida, de véu e grinalda, na sua inocente candura parece sonha com as
preocupações de sua nova vida.
Talvez, por acaso, passa na rua uma pobre mãe
solteira, arrastando brutalmente pelas mãos, uma criança doente... Coisas da
vida.
Mais tarde, passa um enterro. Com passos
lentos, os acompanhantes parecem ter pena de levar o morto ao cemitério e vão
rezando baixinho suas orações.
São cenas do cotidiano. Por toda a parte, a
alegria e a dor, a miséria e a riqueza e a lágrima se encontram.
Allan Kardec ensinou-me a compreender essas
alternativas. São o determinismo [anêmico], as violações à lei do libre
arbítrio; as vidas sucessivas que a isso forçam.
Depois de analisar a alma do homem nos quadros
que presenciei, volto a meu livro, onde estudo a alma das plantas, a alma das
coisas e encanto-me com o comentário de um cientista poeta: “Ao vermos uma
mulher com flor, perguntar qual delas sofre mais” ...
Ouço a voz do Mineirinho, alegre e simpática,
que me tira do devaneio e espalha alegria no ambiente.
Volto, depois, ao leito da minha doente, que,
estranhando a ausência da enfermeira, indaga na expressão de seus olhos muito
azuis, onde eu estivera. E eu lhe respondo mentalmente: à janela, vendo a vida
passar ...
Referências: Texto: Nise Álvares da Silva Campos (In Memoriam)
Organização: Charles Aquino
Colaboradora: Cláudia Lage Colaboradora: Lindomar Batista Lage
Acervo: Shorpy
*Original: ela
Análise "Vendo
a Vida Passar" de Nise Campos
O
poema "Vendo a Vida Passar" de Nise Campos oferece uma profunda
reflexão sobre a vida e suas diversas facetas, a partir da perspectiva de
alguém que observa o mundo de uma janela. O texto é repleto de simbolismos e
descrições detalhadas que convidam o leitor a contemplar o cotidiano com um
olhar filosófico e empático. O poema é composto por uma série de observações
feitas pela narradora, que se encontram estruturadas em uma prosa poética. Este
estilo permite uma fluidez narrativa que facilita a imersão do leitor nas cenas
descritas. O uso de uma linguagem simples, mas rica em detalhes, contribui para
a construção de uma atmosfera introspectiva e reflexiva.
A
narradora inicia descrevendo a sala onde se encontra um "relógio
centenário" que não trabalha mais, simbolizando a passagem do tempo e a
memória das vidas que ali passaram. O relógio parado representa a pausa no
tempo, permitindo que a narradora contemple o presente e o passado sem pressa,
mergulhando na história que aquele espaço guarda.
Ao
se dirigir à janela, a narradora observa a rua movimentada, antes tranquila, e
reflete sobre as mudanças trazidas pelas "leis mutáveis de trânsito".
Este contraste entre o passado e o presente destaca a transformação social e
urbana, indicando como o ambiente e a sociedade estão em constante evolução.
A
narradora descreve uma série de personagens que passam pela rua, desde
professoras e escolares até mães aflitas e leprosos, refletindo sobre suas
condições e papeis na sociedade. Essa diversidade humana, capturada em suas
rotinas e expressões, oferece uma visão abrangente da condição humana, onde
riqueza e pobreza, alegria e dor coexistem.
Há
um senso de solidão na figura da narradora, que observa silenciosamente a vida
passar enquanto cuida de uma pessoa doente. Este isolamento físico e emocional
a leva a uma profunda reflexão filosófica sobre a existência, influenciada
pelos ensinamentos de Allan Kardec, mencionados no texto. A ideia de
"vidas sucessivas" e a relação entre o livre arbítrio e o
determinismo anímico permeiam sua análise das cenas cotidianas.
O
relógio centenário que não trabalha mais é um símbolo poderoso da suspensão do
tempo, sugerindo uma contemplação profunda e uma conexão com o passado. A
janela serve como uma metáfora para a perspectiva da narradora, uma barreira
física que a separa do mundo exterior, mas também um portal que lhe permite
observar e refletir sobre a vida. É um ponto de observação que lhe oferece uma
visão ampla e detalhada da sociedade e suas dinâmicas. A citação final sobre
"uma mulher com flor" e a pergunta sobre qual delas sofre mais, une a
beleza e a fragilidade da vida, ressaltando a presença constante do sofrimento
mesmo nas coisas aparentemente mais belas.
"Vendo
a Vida Passar" é um poema que convida o leitor a uma profunda meditação
sobre a vida e suas complexidades. Através de uma prosa poética rica em
detalhes e simbolismos, Nise Campos captura a essência das experiências
humanas, ressaltando a dualidade da existência onde alegria e tristeza, vida e
morte, convivem lado a lado. A observação atenta e filosófica da narradora
transforma cenas cotidianas em reflexões profundas sobre o ser humano e a
passagem do tempo, fazendo deste poema uma obra rica e multifacetada.