terça-feira, abril 02, 2019

GRATIDÃO


Julho — 1984


Geralmente se fala de alguém muito especial, quando ela parte para a eternidade. Meditando um pouco sobre esta verdade, vi que não se deve deixar para essa ocasião, quando se trata de alguém a quem muito devemos e amamos bastante. Em vida, ela precisa saber que o seu trabalho foi maravilhoso, foi gratificante.

Quero falar sobre a minha primeira mestra, Dona Nise Campos. Essa pessoa maravilhosa, a professora modelo, mãe e amiga que sempre foi para seus alunos.

Sua capacidade intelectual sem limites, facilmente aclarava a mente dos pequeninos que lhe eram confiados. Ensinava tão bem que seus discípulos procuravam, imitá-la em tudo.

Lembro-me bem que em minhas brincadeiras de criança em que eu fazia o papel de mestra, procurava cruzar as pernas como Dona Nise o fazia e coçava o nariz com as costas da mão, mas não tão simpaticamente como Dona Nise. Esforçava-me o máximo para imitá-la na pronúncia, na maneira de ser.

Pois bem, Dona Nise, como a senhora foi para nós, eu também procurei ser para meus alunos, só que não tão perfeitamente, pois a senhora foi a escolhida de Deus para imitá-lo, em tudo, aqui na terra. 

Temos prova disse hoje, na aceitação do sofrimento.
Há seis anos a senhora está enferma. Ultimamente, movimenta-se quase que somente com os olhos. E com que resignação! Sem lamentos, sem mau humor, igualzinho como a senhor toda vida foi.

Que estrada maravilhosa a senhora percorreu e percorre, tão serenamente, que seus rastos ficarão indelevelmente marcados para todo o sempre. 


Análise do Texto "GRATIDÃO

O texto "GRATIDÃO", escrito por Maria Auxiliadora de Carvalho em 1984, é uma homenagem à sua primeira professora, Dona Nise Campos. A autora reflete sobre a importância de reconhecer e valorizar as contribuições significativas das pessoas enquanto ainda estão vivas, em vez de esperar pela sua partida para a eternidade. Este texto é um tributo sincero e emocional que celebra a influência positiva de Dona Nise na vida de seus alunos.

O texto é escrito em primeira pessoa, o que confere uma sensação de intimidade e pessoalidade. Maria Auxiliadora adota um tom reflexivo e respeitoso, revelando a profunda admiração e gratidão que sente por Dona Nise Campos. A linguagem é simples e direta, mas carregada de emoção, o que torna a mensagem ainda mais poderosa e comovente.

A temática central do texto é a gratidão e o reconhecimento. A autora enfatiza a importância de expressar esses sentimentos enquanto as pessoas ainda estão vivas para que possam sentir-se valorizadas e apreciadas. Este é um tema universal, que ressoa com qualquer leitor que já teve uma figura influente e inspiradora em sua vida.

Dona Nise Campos é retratada como uma figura quase idealizada, uma professora exemplar, mãe e amiga para seus alunos. Sua capacidade intelectual e habilidades pedagógicas são destacadas, assim como suas qualidades humanas, como a simpatia e a paciência. A autora relembra com carinho os gestos e maneirismos de Dona Nise, mostrando como ela deixou uma marca indelével em sua vida e na de muitos outros.

O texto utiliza poucas metáforas, mas é rico em simbolismo. A figura de Dona Nise é comparada a um modelo a ser seguido, quase uma escolhida de Deus, o que eleva sua imagem a um patamar quase sagrado. O sofrimento da professora nos últimos seis anos, enfrentado com resignação e sem queixas, é apresentado como uma prova de seu caráter e força interior.

A reflexão de Maria Auxiliadora sobre a prática comum de só se valorizar alguém após sua morte é um convite à ação para os leitores. A mensagem é clara: devemos expressar nossa gratidão e reconhecimento às pessoas importantes em nossas vidas enquanto ainda podemos. Este é um chamado à valorização do presente e à apreciação das contribuições alheias. 

"GRATIDÃO" é um texto poderoso que celebra a vida e o legado de uma educadora exemplar. Maria Auxiliadora de Carvalho captura a essência de Dona Nise Campos com uma simplicidade tocante, ressaltando a importância de valorizar e expressar nossa gratidão por aqueles que impactam positivamente nossas vidas. O texto serve como um lembrete atemporal da necessidade de reconhecer e celebrar as pessoas especiais enquanto ainda estão conosco.


Referências:
Organização, Arte e análise: Charles Aquino
Texto: Maria Auxiliadora de Carvalho

CIDADÃ HONORÁRIA

O registro apresentado é a Lei Nº 775, sancionada em 6 de dezembro de 1965, que concede o título de cidadã honorária de Itaúna à professora aposentada Nise Álvares da Silva Campos. O documento reflete uma formalidade jurídica comum em legislações municipais, expressando o reconhecimento oficial por parte das autoridades locais.

Nise Álvares da Silva Campos é homenageada como cidadã itaunense devido ao seu legado significativo como professora. Sua atuação na educação teria sido marcada pelo compromisso com o desenvolvimento intelectual e moral dos alunos. Este reconhecimento público é uma forma de valorizar sua dedicação e contribuição para a formação de gerações, refletindo o impacto duradouro que ela teve na comunidade local.

Embora o texto da lei não mencione diretamente seu trabalho como escritora, a homenagem pode ser entendida como um reconhecimento abrangente de sua contribuição cultural. Como escritora, Nise Campos teria utilizado suas habilidades literárias para promover valores educativos e culturais, enriquecendo o patrimônio intelectual de Itaúna.

A concessão do título de cidadã honorária é uma das mais altas honrarias que um município pode conceder a um indivíduo. Este reconhecimento não apenas celebra os feitos de Nise Campos, mas também serve como inspiração para a comunidade, destacando a importância da educação e da cultura no desenvolvimento social.

A lei de 1965 reflete um momento em que a comunidade itaunense reconhece formalmente a importância dos educadores e escritores no tecido social. A homenagem a Nise Campos simboliza o apreço e a gratidão do município por aqueles que dedicam suas vidas ao ensino e à disseminação do conhecimento, mostrando que esses profissionais são fundamentais para o progresso e o bem-estar coletivo. 

Este reconhecimento é uma celebração do seu legado como educadora e escritora, ressaltando a importância da educação e da cultura para a comunidade. A homenagem serve como um marco de gratidão e admiração, inspirando futuras gerações a valorizar e seguir o caminho do conhecimento e da dedicação ao bem comum.

LEI Nº 775, 06 DE DEZEMBRO DE 1965
O Povo do Município de Itaúna, por seus representantes, decreta e eu, em seu nome, sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º Concede o título de cidadã honorária de Itaúna à professora aposentada Nise Álvares da Silva Campos, de acordo com a Lei Municipal que regula a matéria.
Art. 2º Revogadas as disposições em contrário, esta Lei entrará em vigor, na data de sua publicação.
Mando, portanto, a todas autoridades, a quem o conhecimento desta Lei pertencer, que a cumpram e a façam cumprir tão inteiramente como nela se contém e declara.

Prefeitura Municipal de Itaúna, 06 de dezembro de 1965
Milton de Oliveira Penido — Prefeito Municipal
Nise Álvares da Silva Campos

Referências:
Organização e Pesquisa: Charles Aquino
Acervo e Colaboração: Lindomar Batista Lage, Jornal Ita Vox/1987
Lei Municipal: Câmara e Prefeitura Municipal de Itaúna



CANÇÃO PARA NISE CAMPOS

Maria Lúcia mendes
Janeiro — 1979


Felizes as rosas
Que nascem – espirais de silêncio
enoveladas em cheiro e matizes.
Felizes as rosas,
que desabrocham pelas madrugadas
e vivem o tempo das manhãs;
não pedem, não sofrem e passam.


Referências:
Organização: Charles Aquino
Colaboradora: Cláudia Lage
Colaboradora: Lindomar Batista Lage
Acervo: Shorpy

Análise

A poesia "Maria Lúcia Mendes - Janeiro 1979" evoca uma sensação de serenidade e admiração pela natureza, simbolizada pelas rosas. A imagem das rosas como "espirais de silêncio" sugere uma beleza tranquila e misteriosa, enquanto a ideia de "encantar o mundo" implica em uma presença sutil, mas impactante. A utilização de "enoveladas em cheiro e matizes" realça a riqueza sensorial das rosas, não apenas visualmente, mas também através de seu perfume. 

O poema então destaca a efemeridade da vida das rosas, comparando-as à brevidade das manhãs. A ideia de que elas "desabrocham pelas madrugadas" e "vivem o tempo das manhãs" evoca a transitoriedade e a beleza fugaz da vida. Ainda que as rosas sejam belas e encantadoras, o poema sugere que elas não se apegam ao passado ou ao futuro, mas simplesmente existem no presente, sem pedir nada em troca e sem sofrer. Essa mensagem pode ser interpretada como uma reflexão sobre a aceitação do momento presente e a transitoriedade da vida.

A simplicidade e a musicalidade das palavras escolhidas contribuem para a atmosfera serena e contemplativa do poema. 

Análise: Charles Aquino



A FILHA QUE VOLTA

Em breve, teremos de volta

a filha querida que a Parca implacável

para longe levou...

 

E agora, nos segredos dos mistérios divinos,

em anjo sem asas se transformou.

 

A nossos braços, ansiosos, ela retorna,

sorrindo, feliz.

 

E todos, em torno do berço dourado,

desejamos ouvir o que ela no diz ...

 

Nise Campos, 1980

   

Análise do poema

 O poema aborda a temática do retorno de um ente querido que faleceu, utilizando a figura da Parca, que na mitologia grega representa o destino inevitável e a morte. A ideia de retorno depois do perecimento sugere uma crença na vida após a morte ou na reencarnação, onde a filha retorna transformada em um "anjo sem asas".

O poema é curto e apresenta uma estrutura simples, sem uma métrica rígida ou rimas predominantes, o que é comum na poesia moderna. A estrutura é dividida em duas estrofes principais, com uma quebra sutil no meio, indicando uma mudança de cenário do plano divino para o plano humano.

Primeira Estrofe: "Em breve, teremos de volta a filha querida que a Parca implacável para longe levou..." — Aqui, a poeta estabelece a premissa do retorno. A "Parca implacável" é uma personificação da morte, que é apresentada como algo inevitável. A menção de "em breve" sugere uma esperança ou uma certeza na iminência desse retorno.  "E agora, nos segredos dos mistérios divinos, em anjo sem asas se transformou." — Nesta linha, há uma transição do plano físico para o espiritual. A transformação em "anjo sem asas" indica uma mudança para um estado celestial ou espiritual, mas a ausência das asas pode simbolizar uma ligação ainda presente com o mundo humano, ou uma transformação incompleta.

Segunda Estrofe: "A nossos braços, ansiosos, ela retorna, sorrindo, feliz."  — Esta parte reforça a ideia de esperança e felicidade no retorno. Os "braços ansiosos" mostram o desejo e a expectativa dos que ficaram. O sorriso e a felicidade da filha indicam uma paz ou uma aceitação do seu estado atual. "E todos, em torno do berço dourado, desejamos ouvir o que ela nos diz ..." — O "berço dourado" pode simbolizar um novo começo, um renascimento, ou um lugar de honra e valor. O desejo de ouvir a filha sugere uma necessidade de comunicação, de receber mensagens ou ensinamentos do além, reforçando a conexão emocional e espiritual entre os vivos e os mortos.

A linguagem do poema é poética e evocativa, utilizando termos e imagens que evocam o místico e o espiritual. A escolha de palavras como "implacável", "mistérios divinos", e "berço dourado" contribui para criar um tom reverente e esperançoso. O poema pode ser interpretado como uma reflexão sobre a perda e a esperança no reencontro com os entes queridos após a morte. Ele lida com a dor da separação, mas também com a esperança e a crença em um retorno, seja através da reencarnação ou de uma presença espiritual contínua. A imagem final de todos em torno do berço ouvindo a filha sugere uma comunhão entre os mundos, onde o amor e a conexão superam até mesmo a barreira da morte.

"A Filha que Volta" de Nise Campos é um poema que aborda temas profundos de perda, esperança e transformação. Através de uma linguagem poética e de imagens simbólicas, a autora consegue transmitir uma mensagem de consolo e de continuidade da vida após a morte, oferecendo uma perspectiva reconfortante sobre a separação e o reencontro.

 

Referências:

Organização e análise do texto: Charles Aquino

Acervo: Cláudia Lage e Lindomar Batista Lage

Texto: Nise Álvares da Silva Campos (In Memoriam)

Fonte: Folha do Oeste, Itaúna 23/02/1980

Imagem:  A young mother Gerrit (Gerard) Dow Painting, 1658.



BATISMO NISE CAMPOS

SÃO BENTO DO TAMANDUÁ -  MINAS GERAES, 6 DE SETEMBRO DE 1907

NISE

“Aos vinte e oito de Janeiro de mil novecentos e oito, na Matriz de Tamanduá, baptisei solenemente a NISE, nascida a seis de septembro do anno passado, filha de Ignacio Alvares da Silva Campos e Luisa Alvares da Silva Contagem, padrinhos José Maria Álvares da Silva Campos e Maria Carolina Ferreira da Silva. Padre Herculano Francisco da Silva Paz. Aos trinta de Janeiro de mil novecentos e oito na Matriz.”


(Clicar na imagem para ampliar)



Organização: Charles Aquino


segunda-feira, abril 01, 2019

DEMOLIÇÃO: MATRIZ DE ITAÚNA



Pobre matriz, velha e abandonada!
Sem santo, sem sino, sem altar ...
Imagem viva das cousas mortas ...
Que vontade tenho de ainda aí rezar ...

A vossas torres, que para o azul subiram,
Parecem dormir e querem sonhar ...
Foram-se os sinos .... As andorinhas foram ...
Mas a saudade ficou. Só saudade! ...

Ruína! Tapera! Aniquilamento!
Velhice santa, que se deve amar!
Espelho da vida! Imagem da minha alma,
Sem santo, sem sino, sem altar ...


Referências:

Organização e Arte: Charles Aquino
Colaboradora: Lindomar Batista Lage
Colaboradora: Cláudia Lage
Texto: Nise Álvares da Silva Campos (In Memoriam)
Acervo: Charles Aquino, Prefeitura Municipal de Itaúna
Fotografia: Benevides Garcia 


ANÁLISE DO POEMA

O poema de Nise Campos, escrito em 1934, reflete um lamento melancólico pela demolição da Igreja Matriz de Itaúna, destacando-se por sua linguagem emotiva e rica em imagens poéticas. Vamos fazer uma análise crítica deste texto, observando seus aspectos temáticos, estilísticos e estruturais.

O poema trata da demolição de um edifício religioso, um evento que é claramente pessoal e emotivo para a autora. A Igreja Matriz não é apenas um prédio, mas um símbolo de fé, história e identidade comunitária. A demolição é vista como uma perda significativa, quase uma morte, que evoca um sentimento profundo de saudade e abandono.

O poema é composto por três estrofes de quatro versos cada uma (quadras), com uma métrica e rima irregulares, que contribuem para o tom melancólico e introspectivo. A estrutura reflete a fragmentação e a desordem que a demolição causa tanto fisicamente quanto emocionalmente.

A igreja é personificada como "velha e abandonada", o que sugere um estado de decadência e desamparo. A ausência de elementos sacros ("santo, sino, altar") enfatiza a desolação. "Imagem viva das cousas mortas" é uma antítese poderosa que ressalta a contradição de algo que, apesar de ainda existir, perdeu sua vitalidade. O desejo de rezar no local sublinha a conexão espiritual e emocional da autora com a igreja.

As torres são descritas com uma qualidade quase onírica, "parecem dormir e querem sonhar", sugerindo que, mesmo em ruínas, há uma aspiração de transcendência. A repetição do "foram-se" para os sinos e as andorinhas simboliza a partida de elementos vitais, mas a "saudade" permanece, encapsulando o sentimento de perda irreparável.

Aqui, o poema atinge seu clímax emocional. As palavras "ruína", "tapera" e "aniquilamento" reforçam a ideia de destruição total. No entanto, a "velhice santa, que se deve amar" sugere um respeito e uma reverência pela história e pela memória do lugar. A identificação da igreja como "espelho da vida" e "imagem da minha alma" indica uma profunda conexão pessoal da autora, culminando na repetição do refrão "Sem santo, sem sino, sem altar", que reforça a sensação de vazio e perda.

Nise Campos utiliza uma linguagem simples, mas carregada de simbolismo. O uso de antíteses e metáforas, como "imagem viva das cousas mortas" e "espelho da vida", confere profundidade ao poema. A repetição de palavras e frases intensifica o sentimento de desolação e saudade.

O poema é uma meditação melancólica sobre perda e memória, usando a demolição da Igreja Matriz de Itaúna como símbolo de um vazio maior, tanto físico quanto espiritual. Através de imagens vívidas e uma linguagem emotiva, Nise Campos capta a essência da saudade e do lamento por um passado que não pode ser recuperado. É um tributo tocante à resiliência da memória e à persistência do sentimento humano diante da devastação.

Charles Aquino



SANT'ANNA


Corre o São João, ao longe, preguiçosamente,
Talvez as suas tradições cantando ...
Como soberano, corta a várzea ao meio
E segue o seu caminho ...

— Que será que esse rio pensa?
— Nem um pescador na praia! ...
— Nem uma morena a lavar cantando! ...

Deixemos que ele chore a Sant’alma antiga,
Pois que o eco do progresso nos acorda ...
Canta a indústria e o comércio canta...
E a alma vibra longe do rio ...

Itaúna vive à luz de um claro sol,
Que ilumina a escola e a oficina aquece...
A alma se levanta com o fragor das máquinas.

E o espírito dorme no fervor da prece!
Olho o poente, onde a cor deslumbra,
Irisando o céu onde as nuvens erram...
Rogam numa saudade as águas do rio...
E Itaúna dorme como Sant’Anna Velha...

Referências:

Organização: Charles Aquino
Colaboradora: Lindomar Batista Lage
Texto: Nise Álvares da Silva Campos (In Memoriam)
Acervo: Professor Marco Elísio Chaves Coutinho(In Memoriam), Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira, Charles Aquino.


Análise do Poema "Santana" de Nise Campos - 1934

 Nise Campos, uma poeta brasileira, escreveu o poema "Santana" em 1934. Esse período no Brasil foi marcado por intensas transformações econômicas e sociais, com um foco crescente na industrialização e modernização das cidades. Este contexto é crucial para compreender a temática do poema, que reflete sobre o impacto do progresso e da industrialização sobre as tradições e a vida comunitária.

O poema é composto por versos livres, sem uma métrica rígida ou rimas constantes, o que confere uma sensação de fluidez e naturalidade, talvez espelhando o curso do próprio rio mencionado nos primeiros versos. A estrutura do poema é linear, seguindo uma progressão que vai do rio São João, símbolo das tradições antigas, até a moderna Itaúna, onde o progresso se impõe.

O poema contrasta de maneira clara dois mundos: o antigo e o novo. O rio São João, descrito como correndo preguiçosamente e cantando suas tradições, representa a antiga vida rural, marcada pela tranquilidade e pelas práticas tradicionais como a pesca e o lavar de roupas. O rio é personificado, com o poeta questionando seus pensamentos e emoções, indicando um profundo respeito e conexão com a natureza e o passado.

No entanto, essa vida tranquila e tradicional é perturbada pelo "eco do progresso". A chegada da indústria e do comércio, simbolizada pelas máquinas e pela luz do sol que ilumina a escola e aquece a oficina, transforma a alma da comunidade. Há uma sensação de perda e nostalgia, expressa pela imagem do rio "chorando a Sant’alma antiga". O progresso é visto como um despertar forçado, um ruído que quebra o silêncio da tradição.

O poema "Santana" de Nise Campos oferece uma meditação profunda sobre a tensão entre tradição e progresso. Através de imagens vívidas e simbolismo, Campos explora como a modernização altera a paisagem física e espiritual de uma comunidade. A saudade e a nostalgia permeiam o poema, sugerindo que o progresso, embora inevitável e em muitos aspectos positivo, também traz uma perda irreparável das antigas formas de vida e das conexões comunitárias.

Campos não condena explicitamente o progresso, mas apresenta uma visão ambígua e reflexiva sobre suas consequências. A "alma" que vibra longe do rio e o "espírito" que dorme na prece indicam um deslocamento espiritual, uma desconexão entre o corpo físico da comunidade e seu núcleo espiritual. O poema conclui com Itaúna dormindo como "Sant’Anna Velha", sugerindo que, apesar das mudanças e do progresso, há uma continuidade e uma persistência das memórias e das tradições, mesmo que adormecidas.

Em suma, "Santana" é um poema que capta a complexidade das mudanças sociais e culturais, convidando o leitor a refletir sobre o equilíbrio entre preservar o passado e abraçar o futuro. Nise Campos, através de sua sensibilidade poética, nos oferece uma janela para as dores e as esperanças de uma comunidade em transição.

Charles Aquino




VENDO A VIDA PASSAR


Saí do quarto agora, deixando minha doente quase dormindo. A sala, fria e silenciosa, convida ao sonho ...

Nosso relógio centenário não trabalha mais e parece guardar, em seu mutismo, a história de nossas vidas: as despedidas, as chegadas, as núpcias e os funerais ...

Vou a à janela para continuar minhas observações filosóficas. Nossa rua, antes tão quieta, tão sossegada, apresenta, agora, um movimento inusitado.

Com as leis mutáveis de trânsito, ela mudou de aspecto. Parece até que o mundo inteiro por ela transita.

A casa paroquial na esquina; um escritório de contabilidade; o consultório médico-pediátrico do Dr. João; um atelier de costura; uma república de estudantes; a oficina do Afonso; a vizinhança do INPS e, mais além, o ginásio, uma fundição, os Correios, o Dr. Valter, tudo isso lhe dá vida de cidade grande e oferece-me um largo campo de análise das relações humanas.

Há também o tráfego barulhento de carros de todas as marcas e de todos os veículos. Os caminhões, com grandes carregamentos, atestam o movimento do Comércio e Indústria da cidade. O caminhão de lixo aponta o cuidado da Prefeitura.

E as figuras humanas entram em cena .... Passam, agora, as Professoras, essas heroínas anônimas, que vão colocar mais um tijolo no edifício da civilização. Agora passam os escolares, as crianças que vão mudar o mundo de amanhã ...

Mães aflitas, com filhos doentes ou agonizantes[...], entram no consultório. Leprosos passam, estendendo os imundos chapéus à espera das moedas que, raramente caem.

Associados do INPS apresentam os mais diversificados tipos de transeuntes, com papéis à mão, discutem o andamento de seus processos.
Vêm eles de outras cidades e são, para mim, estranhos.

Passam os ricos e os pobres. Leio, em suas fisionomias ou em seus olhares, a apatia, o desânimo, a euforia, o tédio, o orgulho, a vaidade.

Passam os escravos do horário de trabalho que conhecem a velha professora de outros tempos, que lhes falara de tantas coisas e de muitos mistérios transcendentais.

Esses, para meu conforto, cumprimentam-me amistosamente.

Vendo-me sempre à janela, reconheço os que estranham isso e aparecem indagar: não terá ele* o que fazer?

Sai, agora, uma noiva do prédio vizinho. De branco vestida, de véu e grinalda, na sua inocente candura parece sonha com as preocupações de sua nova vida.

Talvez, por acaso, passa na rua uma pobre mãe solteira, arrastando brutalmente pelas mãos, uma criança doente... Coisas da vida.

Mais tarde, passa um enterro. Com passos lentos, os acompanhantes parecem ter pena de levar o morto ao cemitério e vão rezando baixinho suas orações.

São cenas do cotidiano. Por toda a parte, a alegria e a dor, a miséria e a riqueza e a lágrima se encontram.

Allan Kardec ensinou-me a compreender essas alternativas. São o determinismo [anêmico], as violações à lei do libre arbítrio; as vidas sucessivas que a isso forçam.

Depois de analisar a alma do homem nos quadros que presenciei, volto a meu livro, onde estudo a alma das plantas, a alma das coisas e encanto-me com o comentário de um cientista poeta: “Ao vermos uma mulher com flor, perguntar qual delas sofre mais” ...

Ouço a voz do Mineirinho, alegre e simpática, que me tira do devaneio e espalha alegria no ambiente.

Volto, depois, ao leito da minha doente, que, estranhando a ausência da enfermeira, indaga na expressão de seus olhos muito azuis, onde eu estivera. E eu lhe respondo mentalmente: à janela, vendo a vida passar ...        


Referências:
Texto: Nise Álvares da Silva Campos (In Memoriam)
Organização: Charles Aquino
Colaboradora: Cláudia Lage
Colaboradora: Lindomar Batista Lage
Acervo: Shorpy
*Original: ela


Análise "Vendo a Vida Passar" de Nise Campos

 

O poema "Vendo a Vida Passar" de Nise Campos oferece uma profunda reflexão sobre a vida e suas diversas facetas, a partir da perspectiva de alguém que observa o mundo de uma janela. O texto é repleto de simbolismos e descrições detalhadas que convidam o leitor a contemplar o cotidiano com um olhar filosófico e empático. O poema é composto por uma série de observações feitas pela narradora, que se encontram estruturadas em uma prosa poética. Este estilo permite uma fluidez narrativa que facilita a imersão do leitor nas cenas descritas. O uso de uma linguagem simples, mas rica em detalhes, contribui para a construção de uma atmosfera introspectiva e reflexiva.

A narradora inicia descrevendo a sala onde se encontra um "relógio centenário" que não trabalha mais, simbolizando a passagem do tempo e a memória das vidas que ali passaram. O relógio parado representa a pausa no tempo, permitindo que a narradora contemple o presente e o passado sem pressa, mergulhando na história que aquele espaço guarda.

Ao se dirigir à janela, a narradora observa a rua movimentada, antes tranquila, e reflete sobre as mudanças trazidas pelas "leis mutáveis de trânsito". Este contraste entre o passado e o presente destaca a transformação social e urbana, indicando como o ambiente e a sociedade estão em constante evolução.

A narradora descreve uma série de personagens que passam pela rua, desde professoras e escolares até mães aflitas e leprosos, refletindo sobre suas condições e papeis na sociedade. Essa diversidade humana, capturada em suas rotinas e expressões, oferece uma visão abrangente da condição humana, onde riqueza e pobreza, alegria e dor coexistem.

Há um senso de solidão na figura da narradora, que observa silenciosamente a vida passar enquanto cuida de uma pessoa doente. Este isolamento físico e emocional a leva a uma profunda reflexão filosófica sobre a existência, influenciada pelos ensinamentos de Allan Kardec, mencionados no texto. A ideia de "vidas sucessivas" e a relação entre o livre arbítrio e o determinismo anímico permeiam sua análise das cenas cotidianas.

O relógio centenário que não trabalha mais é um símbolo poderoso da suspensão do tempo, sugerindo uma contemplação profunda e uma conexão com o passado. A janela serve como uma metáfora para a perspectiva da narradora, uma barreira física que a separa do mundo exterior, mas também um portal que lhe permite observar e refletir sobre a vida. É um ponto de observação que lhe oferece uma visão ampla e detalhada da sociedade e suas dinâmicas. A citação final sobre "uma mulher com flor" e a pergunta sobre qual delas sofre mais, une a beleza e a fragilidade da vida, ressaltando a presença constante do sofrimento mesmo nas coisas aparentemente mais belas.

"Vendo a Vida Passar" é um poema que convida o leitor a uma profunda meditação sobre a vida e suas complexidades. Através de uma prosa poética rica em detalhes e simbolismos, Nise Campos captura a essência das experiências humanas, ressaltando a dualidade da existência onde alegria e tristeza, vida e morte, convivem lado a lado. A observação atenta e filosófica da narradora transforma cenas cotidianas em reflexões profundas sobre o ser humano e a passagem do tempo, fazendo deste poema uma obra rica e multifacetada.

Charles Aquino