terça-feira, junho 27, 2017

PATACA, CAMELÔ E O OVO



Era conhecido por Pataca. Nunca soube o seu nome verdadeiro e tampouco lembro-me dele depois daqueles tempos. Era meio "apatetado", lerdo e prestava-se a pequenos mandados que não requeressem inteligência e ligeireza. Pressa com ele era mercadoria escassa.
Nos idos da década de cinquenta do século passado, havia em Itaúna um costume singular. Por ocasião dos bailes no Automóvel Clube, não eram aceitas a reserva de mesa com antecedência. Não existia telefone nas casas e tampouco no comércio. Somente o Posto Telefônico para interurbanos, do lado do Armazém do Zé Rosa. Uma ligação para Belo Horizonte demorava um dia inteiro. Isso se o cristão tivesse sorte.
No Clube a sistemática era a seguinte: na véspera do baile, normalmente em uma sexta-feira, a Diretoria abria para os sócios a escolha de mesas. Quem chegasse na frente, escolhia as melhores. As de pista, naturalmente. Uma boa chance de nós, adolescentes e pré-adolescentes ganharmos uns trocados. Dormíamos na fila, pagos pelos interessados nas mesas. Garantíamos o lugar na fila e em troca, éramos pagos.
Pataca era um habitual das filas. A vigília, que costumava acontecer na noite de quinta-feira, para ele começava na quarta. Era sempre o primeiro. Bem mais velho do que a maioria, já quase homem feito, vivia desses expedientes. Moleirão e preguiçoso até no falar. Era uma boa alma.
De vez em quando aparecia um camelô na cidade. Era itinerante e a sua estada era aguardada. A polícia não o perseguia. Fazia parte da rotina, de tempos em tempos.
Tinha uma jiboia acondicionada numa mala. Dona Catarina era o nome do réptil. Segundo ele, cobra de muitos dotes. Pulava, sapateava e fazia piruetas na ponta da cauda. Como companheiro, Dona Catarina tinha um teju. Um lagarto preguiçoso e bem taludo. De nome, atendia por Dom Pascoal de Bragança. Segundo seu dono, atravessara o Canal da Mancha a nado, com quinhentos mil reis de moedas no bolso da cueca. Um fenômeno.
O camelô era especializado em vender óleo de peixe elétrico, remédio milagroso que curava de espinhela caída a quebranto, passando por mau olhado e dores de cotovelo. Inigualável.
Vendia também correntes de pescoço, próprias para medalhas, confeccionadas com um metal de nome " plaquet americano", mais forte do que o aço, da cor do ouro e imune a corrosão. Para provar tal virtude, botava a correntinha numa colher de sopa, derramava algo que dizia ser ácido. A mistura fervia, a colher enegrecia e a corrente, depois de lavada se mostrava impávida. Brilhante como nova.
Fazia mágicas e prestidigitação. Rápido com os dedos, manuseava cartas de um baralho seboso e fazia adivinhações. Um sucesso de público, que comprava sua berberagem e suas correntinhas de alumínio colorido de amarelo.
Certa feita, resolveu inovar. Dizia ele que a renovação era a alma do negócio e a propaganda a alavanca da civilização. Resolvera fazer um truque diferente e para tanto contratara o Pataca para seu "partner".
Fora do ambiente, combinara com o indigitado. Dera a ele um belo ovo de galinha caipira e fizera a seguinte combinação: Pataca deveria ficar no meio da turma que estivesse assistindo o palavreado, com o ovo no bolso.
O aprendiz de Silvio Santos, colocaria outro ovo num saco de flanela, devidamente mostrado e manuseado pela plateia e após muita falação, faria o ovo desaparecer do saco. Mostraria o saco para o povo em volta e diria que o ovo iria aparecer no bolso do Pataca. Tudo bem combinado e apalavrado, seria um sucesso.
E dá-lhe cantilena, cobra tirada da mala e passada nas mãos dos moleques mais corajosos, lagarto com preguiça, pedindo a Deus somente sombra e muitos insetos para comer e a venda de bugigangas a todo vapor.
Chegou a hora do "gran finale". Pataca postado no meio da turba, a assuntar tudo. Ovo no saco, gestos rápidos de dedos e o ovo sumido. Saco revirado ao avesso e nada do ovo. O camelô, em triunfo, grita bem alto: "O ovo sumido vai aparecer no bolso de um de vocês.
Aliás, vai aparecer no bolso do Pataca. Dito isso, pergunta bem alto: Pataca, cadê o ovo?
E o Pataca, lerdo e bonachão:"lá em casa não tinha nada pra armocar, eu armocei ele!!!!!
Se a polícia não interviesse, o camelô seria linchado!!!!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 27/06/2017

Acervo: Shorpy


domingo, junho 25, 2017

ITAÚNA: RUA DO CASCALHO


*Maria Lúcia MENDES

Manhã, bem cedo, começa a labuta na rua do Cascalho. Das casinhas sem reboque, empilhadas morro a pique, as chaminés soltam uma fumaça cheirosa, sinal de que está pronto o café. E a lenha estala nos fogões, cozinhando o feijão do almoço.
Uma a uma, as janelas vão se abrindo. Surgem mulheres de lenço na cabeça, sacudindo colchas de retalhos coloridos e batendo os travesseiros para tirar a poeira. Logo depois, lá estarão elas à frente da casa empunhando enormes vassouras de coqueiros. Dá gosto vê-las alegres, varrendo o chão batido num trabalho de todas as manhãs. Vez em quando param e espicham conversa na lengalenga de sempre: Compadre, não te conto nada...
Quando o terreiro já está bem varrido, é a vez de aguar as plantas que, amontoadas aqui e ali, dão um toque de graça à rudeza das pedras. São latas de manjericão, malvinhas, plantas em pinicos, cravo-caboclo, queixo-caído, comigo-ninguém-pode e espadas-de-São Jorge.
Ao redor das casas, brotando dos alicerces, os pés de mulata-nasala vão colorindo a paisagem com suas florzinhas regateiras.
Uma velhinha espigada abre a porta da cozinha trazendo nas mãos uma cuia de milho: Tico, tico, tico! P’rrr!...
E bate na cuia chamando as aves que correm agitadas, bicando-lhe as chinelas e a saída de algodão. Depois, ela, pondo-se de cócoras, vai jogando punhadinhos de milho aqui e ali falando sozinha: este aqui é para o Natal, o carijó para o Ano Novo...
Enquanto isto, no quintal ao lado, as galinhas d’angola gritam encarapitadas no sabugueiro: Tô fraca! Tô fraca! Tô fraca!...
A dona da casa chega à porta da cozinha: Êta galinhada custosa!
E entra novamente comandando a filharada: Varra essa casa direito, Maria! Olhe a panela no fogo, Beré!
Lá no alto, num barraco pitando de azul, Aninha da Capela costura em sua máquina de mão. Ajeita os cabelos puxados num coquinho ralo e começa a cantoria: “Sete e sete são quatorze, com mais sete, vinte e um. Todo mundo tem amor, só eu não tenho nenhum”.
Um rapazinho magro, carregando às costas um enorme balaio vai subindo a rua devagarinho. Às vezes, para, descansa um pouco, e sua voz conhecida esparrama-se pela rua afora: Sooo... Vadinho! Pão de sal! Forrobodó! Ô de casa?! Ô de Casa?!
A freguesia acode: Ô de fora! E é um tal de mexe, remexe o fundo do balaio sob os protestos de sempre: Deram outro corte no pão!
Acostumado àquela cantilena, o padeiro sorri, põe o balaio às costas e segue seu caminho.
O sol começa a brilhar pelos telhados e quintais. A rua ganha movimento. É muita gente descendo com latas e rodilhas, rumo à torneira que serve aos moradores do Cascalho e que fica lá embaixo no começo da rua. Pelo caminho, ninguém despreza um dedo de prosa.
Oi, Zé Camilo! O remédio foi bom pra danar. Qual é o remédio? Não estou me lembrando não. E sem esperar resposta: Barbatimão, chapéu-de-couro, gravatá, mutamba, erva-cidreira, canelinha...
Esse tal de gravatá é um porrete pra tosse. E o velho cachimbando: Remédio das plantas é muito melhor. O povo é porque não sabe. A fileira das latas vai aumentando. E o vaivém prossegue animado.
Quem já encheu sua vasilha, sobe o morro com lata d’agua num equilíbrio que dá gosto.
Rua do Cascalho! A pureza e a simplicidade de sua gente, suas casinhas morro a pique, os pés de mulata-na-sala florindo nos alicerces. Eu também morei lá, sempre algumas horas por dia, quando ia catar umas pedras redondinhas para jogar nendes nas tardes calmas da infância. E. na roda-viva de hoje, ante os obstáculos da vida, relembro a fileira das latas, os moradores da rua e inconscientemente vou cantando: Nendes! Nendes! Um! Nendes! Nendes! Dois...
É a roda-viva que continua.   

* Escritora itaunense por herança e registro.

Fonte: MACEDO, Maria Lúcia mendes Vera. Pedra de Cetim, BH, Gráfica e Ed Cultura, 2001, p.26,27,28.
Organização e arte: Charles Aquino

VENDAS & ARMAZÉNS


Há tempos, escrevi neste espaço sobre os barbeiros da cidade, na minha época. O texto, suscitou polêmicas. Deixei de relacionar alguns e não foi de propósito. Escrevi sobre os barbeiros que cortaram meu cabelo e com os quais tive conhecimento. O titular do blog ficou de corrigir a falha, tendo inclusive, como bom historiador que é, feito uma gravação com dois dos esquecidos e publicar alguma coisa sobre eles. Escrevi também sobre os sapateiros. Nada de polêmica. O ofício, quase desaparecido, não deixou herdeiros no lugar.
Faço o preambulo, na quase certeza de esquecer alguma "Venda" e deixar o espaço para acréscimos, se necessário. Na época em que vivi na cidade, nos anos cinquenta e sessenta do século passado, Itaúna tinha quatro armazéns de secos e molhados, os quais passo a enumerar.
O principal e mais frequentado do lugar era o armazém do SEVERINO LARA. Ficava na travessa "Arthur Vilaça" bem próximo do sobrado de jardim e varanda do Coronel do mesmo nome e que deu batismo a pequenina rua. Severino era natural de Itaguara e comprara o "negocio" do Joaquim Português. Era genro de Seu Arthur e tinha dois filhos, Arthurzinho e Magda. O filho foi meu amigo. Grande ou até maior do que o pai, morreu de forma trágica. A filha, foi minha colega de ginásio. Casou-se com um militar de sobrenome Rocha. Nunca mais os vi. Severino, homem bom e prestativo também morreu prematuramente. Fui no velório e enterro.
Tinha também o armazém do ZÉ ROSA. Na rua Gonçalves da Guia, bem próximo do Grupo de Cima. Era atacadista e pouco vendia a varejo. Lembro-me do seu endereço telegráfico. JOROSAN - sigla tirada do nome do dono: José Rosa dos Santos.
Pelas bandas da Lagoinha, tinha o Armazém do ADOLFO MENDES. Negócio sortido e procurado. Adolfo Mendes era irmão do Sinho Mendes, padeiro e tio da escritora Maria Lúcia Mendes.
Quase na Praça da Estação, debaixo de um belo sobrado, tinha o Armazém do ATÍLIO PRADO. Acho que ele era português. Creio que vendeu o estabelecimento para o Messias Assis, que anos depois mudou de endereço e rebatizou o negócio para Armazém ASSIS.
As VENDAS eram mais numerosas. Bem na entrada da cidade ficava a venda do Serafim. Na rua Silva Jardim, logo abaixo do Grande Hotel. Era tradicional e vendia de quase tudo, incluindo carne de porco e toucinho.
No caminho da Casa de Caridade tinha uma Venda. Na beira da estrada de ferro, logo depois da travessia. Não sei e nunca soube quem era o dono. Na rua XV de Novembro, lembro-me de duas Vendas. A maior e mais sortida era a Venda do ZÉ JORNAL. Pai do Roberto Jornal e do Xele. Mais para frente, na esquina da rua João Dornas, em frente ao Campo vermelho, tinha a Venda do JUCA. Quando criança ia sempre lá, buscar cachaça para meu pai curtir pimenta.
Na rua direita, em frente à casa de meus pais, ficava a Venda do JOSIAS. Pai de muitos filhos e filhas. De poucas palavras, sempre ensimesmado. A Venda era na frente de sua residência. Vendia até nos domingos, mesmo com as portas fechadas. Bastava chama-lo, no alpendre. A exceção ficava para a sexta-feira da paixão. Não vendia nada, nem para a família. Não atendia nem caso de vida ou morte. Questão de princípios.
A outra venda ficava lá no caminho do MIRANTE. Não me lembro de quem era. Sei que existia porque bebi pinga por lá e também comprava foguetes.
Em Santanense, tinha a Venda da CASA DO POVO, do pai do Dinarte. Morreu cedo. Sua mãe, viúva, tocou o negócio durante muitos anos. Criou o filho e ajudava muita gente. Mulher trabalhadora e exemplar, travou amizade com minha mãe na época em que trabalhou no bairro.
De outras, não me lembro. Aliás, lembrei-me agora do Armazém do SAPS - Serviço de abastecimento da Previdência Social. Ficava debaixo do Automóvel Clube, já na rua Capitão Vicente. Coisa de governo, criação de Getúlio Vargas. Por lá trabalhou o Tiaca, excelente figura e bom amigo. Como sempre acontece com as coisas do governo, mudou de nome. Trocado para COBAl. Não demorou a fechar.


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. História enviada especialmente para o blog Itaúna Décadas em 25/06/2017.

Acervo fotográfico: Fabinho Augusto. Disponível em: http://historiaderolandia.blogspot.com.br/2013/12/vendas-antigas-do-norte-do-parana-n-3.html .

Fotografia meramente ilustrativa.

sábado, junho 24, 2017

VIRIATO & FIDÉLIS


José Batista Guimarães, filho do saudoso Delzir Batista sempre foi um gozador nato. Conhecido como Zé do Delzir, em certa quadra da vida dizia que dali por diante seria somente Zé. Segundo ele, comprara a parte do pai.
Éramos vizinhos na rua Direita. O pai, tinha uma fazenda lá pelos lados de Itatiaiuçu. Terra de minério, ruim de cultivo. No entanto, tratavam a gleba com todo carinho. Dava prejuízo.
Certa feita resolvera " terracear" uma encosta para plantar laranjas. Contrataram um trator de uma firma memorável. Os proprietários: Aldo "preto"Chaves, Plauto "escorpião"Machado e o Inacinho. Três sócios exemplares. Sem reparos.
Aprontados os terraços e prontas as covas, chegara a hora de plantar as mudas. Coisa fina, vindas de Lavras, compradas na Escola de Agronomia. Eu estava "flanando" quando Zé do Delzir me convidou. Ir com ele na Vila Mozart, acertar com dois conhecidos para plantarem as mudas na fazenda.
O primeiro deles, de nome Viriato, amigo dos Batista, acertou tudo com o Zé, que disse-lhe com seriedade: " Viriato, lá tem serviço pra uma semana. Você ficará hospedado por lá. Basta levar umas duas mudas de roupa. Tem cama e comida. Vou " palavrar" alguém para lhe ajudar. Você não o conhece. Trata-se do Fidélis, homem bom de serviço e compadre do meu pai. Gente boa. Só tem um senão: é surdo que nem uma porta de braúna, quando você conversar com ele, fale bem alto.
Isso feito, fomos a procura do Fidélis que morava na Vila Padre Eustáquio. Mesma conversa travada com o Viriato. No final, a advertência: estou levando para te ajudar lá, o Viriato. Homem sério e trabalhador. Só tem um reparo: é surdo que nem um teju. Quando, falar com ele, grite bem alto para ele ouvir.
No dia seguinte cedo, apanhamos os pseudo-surdos bem cedo. Aboletados na carroceria da caminhonete, travaram conhecimento por meio de uma gritaria infernal. Da cidade até a fazenda. Trocaram de roupa, apanharam os apetrechos para a lida e continuaram o berreiro. Afinal, para todos efeitos, eram surdos.
A "latomia" continuou por todo o dia. Da casa da fazenda, ouvíamos claramente o berreiro. O serviço rendia, os homens ficaram roucos e de cabeça doendo, tamanha era a gritaria. Na hora do jantar, pudemos constatar que os dois trabalhadores estavam à beira de um ataque. Caras fechadas. Não queriam conversa.
À mesa, infelizmente, tiveram de gritar um para o outro. " Me passa a carne, disse o Viriato"
"Já vai, retrucou o Fidélis". Aproveita e me passa o arroz. Gritos para pedir o feijão, o angu e o guisado. Zé do Delzir com as bochechas infladas para não gargalhar. Por fim, com os tímpanos a estourar, o Viriato virou-se para o Fidélis e gritou: " para com esse berreiro. Eu não surdo não, seu filho da mãe. Ao que o Fidélis retrucou de pronto: " e nem eu, seu f.d.p....
Foi a senha para os dois homens se atracarem. Com muito custo, e a intercessão de Delzir Batista, os dois trabalhadores se acalmaram. O Zé ria a mais não poder. Tinha feito a sua maldade do dia.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 23/06/2017.


sexta-feira, junho 23, 2017

TRAÍRAS, URUTU E TIC-TAC


A familia Corradi, de ascendência italiana foi a responsável pela introdução e desenvolvimento das técnicas de fundição de ferro em Itaúna. Fizeram muito pela cidade e creio, já estão na quarta ou quinta geração de itaunenses.
Quando minha família chegou na urbe, presumo, estavam na segunda turma, entrando na terceira. Nos idos de cinquenta do século passado, os Corradi tinham automóveis Ford modelo A, à exceção de um deles que possuía um Chevrolet 1926 com rodas de aro de madeira.
Um deles, do qual não revelo o nome, além de especialista nas artes de fundidor, era também pescador e bom benzedor. Foi uma vez na casa de meus pais, benzer uma erisipela na perna do "velho", a pedido de um vizinho nosso. Meu pai assentiu a contragosto. Católico, não acreditava em tais poderes. Concordou para não contrariar o vizinho prestativo. Na verdade, a cura veio de uma receita do dr. Oliveiros Rodrigues, aviada com maestria na farmácia do Seu Alfredo.
Diziam que o tal Corradi gostava de contar uma mentira. Nada que prejudicasse a outros. Digamos que era apenas exagerado. Na visita em minha casa, contou a seguinte história que passo a narrar "ipsis verbis": Numa ocasião foi pescar traíras na Barragem Velha, abaixo da Barragem do Benfica. Pesqueiro bom, antes de ser tomado pelos aguapés. Estacionou o "Fordeco" numa sombra, pescou uma meia dúzia de piabas para isca das traíras, iscou o anzol e pouco tempo depois já fisgava uma bem taluda.
Tirou do canivete, fez uma boa fieira com um galhinho de árvore, enfiou a traíra e continuou na colheita. Não sem antes de pendurar num arbusto o seu relógio de algibeira, marca Roskoff Patent, com gôndola de prata. Coisa fina, de precisão e muita estima.
A fieira de peixes foi de dependurada em outro arbusto. O dia estava bom pra peixe. Em pouco tempo, já contava com mais de meia dúzia de peixes enganchados. Um belo almoço no dia seguinte!!!!
Só não contava com um imprevisto. A fartura de peixes atraíra uma urutu cruzeiro, das bem grandes. A danada da cobra não conseguiu alcançar a fieira e não tendo o que picar, atacou dois pneus do carrinho.  Quando o nosso personagem deu fé, os dois pneus dianteiros estavam inchados e ardendo de febre. Uma suadeira danada.
De imediato, juntou as tralhas, colocou na "Furreca" e se mandou pra cidade, rezando pros pneus aguentarem. Com muita sorte, conseguiu chegar. Em casa, esvaziou os pneus e lavou bem com agua fria. No dia seguinte, iria enche-los. Acontece que na pressa de voltar, esquecera o relógio dependurado no arbusto. Não se lembrara mais de onde tinha deixado o cebolão.
Passaram-se cinco anos. Um belo dia, resolve ir pescar no mesmo local. No silêncio da beira d'agua, ouviu um " tic tac" Tirou o chapéu e apurou os ouvidos. Era mesmo o barulho de um relógio. Botou os óculos e foi procurar a origem do ruído. Enorme a agradável surpresa. O seu Roskoff Patent estava preso no alto de uma árvore de boa altura. O arbusto crescera e levara o relógio para as "grimpas". O vento se encarregara de dar corda no mesmo. Conferiu as horas: estava certinho!!!!. Eta relógio bom.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 08/06/2017.


quinta-feira, junho 08, 2017

BODOCADA E BICADA DE URUBU

HISTORIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

Há dias eu vi neste espaço uma postagem que traz informações acerca de um moinho de fubá que existia numa corredeira no rio São João, bem na entrada da cidade, ao lado do Matadouro Municipal. Do moinho eu não tenho lembrança. Do antigo matadouro, sim, lembro-me muito bem.
Éramos bem jovens, pré-adolescentes. Costumávamos ir até lá para ganharmos bexiga de boi. Bola de futebol era artigo caro e raríssimo. Uma bexiga de boi proporcionava uma bola razoável. Era forte e aguentava o tranco. Dava uma boa pelada. O lugar era muito precário. Instalações e higiene eram " manga de colete". Muita sujeira, sangue, vísceras e partes inaproveitáveis do " defunto" jogadas na correnteza do rio. Consequência: mau cheiro e muitos urubus.
A consciência ecológica que tínhamos era restrita aos abutres. Sabíamos que as aves eram protegidas por uma lei qualquer. Sempre soubemos que era proibido caçar os bichos. Proibição de caçar. Nada impedia a sua captura, se vivos. Bodocada não matava. Se bem aplicada, apenas tonteava a criatura e facilitava a apreensão.
Naquele tempo era muito comum as " perebas”. Feridas mal curadas na pele que desandavam e permaneciam por longo tempo. Talvez por infestação de bactérias e falta de higiene. Ou até os dois fatores combinados.
De nossa turma tinha um menino que tinha muitas perebas no braço. Deixo de dizer o seu nome em solidariedade. Deve estar vivo ainda e faço votos que esteja. Idade regulando com a minha. Bom amigo. Preservo a sua identidade.
Meu irmão Antônio de Pádua era um ás do estilingue. Pontaria certeira. Um bom seixo rolado na ferramenta e eis o urubu tonto da pedrada. Fácil de ser capturado sem muito esforço. Bicho tonto, bastava amarrar um barbante de " embira" na sua perna e dar para um da turma tomar conta. Depois de refeito da tonteira, uma nova diversão. Uma imitação mambembe de um falcão. Coisas de filme dos
Cavaleiros da Távola Redonda. Pegamos o urubu. Amarramos sua canela e demos ao " perebento" para tomar conta. Passados uns dez minutos a ave recobrou-se da zonzeira. De imediato tentou se soltar atacando o braço coberto de sarna e micoses do moleque. Bico forte acostumado a rasgar carnes. Arrancou um bom naco. O carcereiro assustado largou a embira. O bicho bateu asas e se mandou.
Nosso amigo carregou pela vida afora a cicatriz no braço. E o apelido de " comida de urubu”.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 05/06/2017. Organização e Arte: Charles Aquino 



terça-feira, junho 06, 2017

EDUCAÇÃO: POLÍTICA E CIDADANIA


Hoje, procuraremos imiscuir à ideia de Política, conceitos de Cidadania e de como a EDUCAÇÃO pode contribuir para a formação do Cidadão.
Ora, podemos pontuar Cidadania como o exercício dos direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos pela Constituição Federal. Os direitos e deveres de um cidadão devem andar sempre juntos, uma vez que ao cumprirmos nossas obrigações permitimos que o outro exerça também seus direitos.
O conceito de Cidadania tem origem também na Grécia Antiga; sendo usado então para designar os direitos relativos ao cidadão, ou seja, o indivíduo que vivia na cidade (civitas, em latim) e ali participava ativamente dos negócios e das decisões políticas. Cidadania, pressupunha, portanto, todas as implicações decorrentes de uma vida em sociedade.
                Porém, a título de curiosidade histórica,  faz-se  necessário esclarecer que a Grécia não se configurava  um país como hoje o compreendemos, mas, uma série de cidades-estados, independentes entre si, que compunham o chamado Mundo Grego ou a Civilização Helênica; particularmente no seu Período Clássico, do ano 500 ao ano 338 a.C., com a bipolarização do Mundo grego entre Esparta e Atenas...E o conceito grego para Cidadania implicava alguns privilégios, sendo certo que nem todos os indivíduos eram laureados como cidadãos.
         Ao longo da história, o conceito de cidadania evoluiu, passando a englobar um conjunto de valores sociais que determinam o conjunto de deveres e direitos de um cidadão "Cidadania: direito de ter direito".
A etimologia da palavra cidadania vem do latim civitas, cidade, tal como cidadão (ciudadano ou vecino no espanhol, ciutadan em provençal, citoyen em francês). Neste sentido, a palavra-raiz, cidade, diz muito sobre o verbete.
O habitante da cidade no cumprimento dos seus deveres é um sujeito da ação, em contraposição ao sujeito de contemplação, omisso e absorvido por si e para si mesmo, ou seja, não basta estar na cidade, mas agir na cidade.
A cidadania, neste contexto, refere-se à qualidade de cidadão, indivíduo de ação estabelecido na cidade moderna. A rigor, cidadania não combina com individualismo e com omissões individuais frente aos problemas da cidade; a cidade e os problemas da cidade dizem respeito a todos os cidadãos.
Assim colocado, percebemos que ambas as palavras, Política e Cidadania giram em torno da ideia de cidade...(pólis e civitas) e se complementam em seus exercícios.
A significação da Política em nossas vidas (e sobre esta já refletimos em outra oportunidade) está bem registrado em nosso cotidiano e em linguagens diferentes; afetando todos os aspectos da vida de uma pessoa e dos cidadãos.  E quanto mais o homem se politiza, mais humano ele se torna...
Em termos de Brasil, em se falando de Cidadania, e sobrevoando a nossa História, as primeiras tentativas de cidadania surgiram no contexto mercantil-colonial, com as chamadas rebeliões nativistas (Quilombo dos Palmares, Emboabas - aqui nas Minas-, Mascates, Beckman, Amador Bueno, Villa Rica) e depois as emancipacionistas (Inconfidentes, Alfaiates...), todas largamente reprimidas pelo Poder absoluto e colonialista. Já Império, os principais movimentos de Cidadania ficaram por conta das rebeliões regenciais, que não aceitavam os abusos do poder central e a indefinição do Estado monárquico após a independência.
Transportando o tema em questão para o nosso tempo; salta-nos aos olhos a incapacidade de muitos de exercer direitos e cumprir deveres; o que caracteriza a marginalização do sujeito do centro para a periferia da sociedade. É o deslocamento do centro para a margem e que geram todas as formas de desajuste.
E quem não é cidadão é marginal, ou seja, encontra-se excluído, à margem da sociedade; está deslocado e precisa ser reconduzido ao centro referencial da Sociedade, antes que outras forças, que não são o Estado de Direito o cooptem para seus guetos; como vemos acontecer nas grandes metrópoles brasileiras.
Tal processo, de reinserção do cidadão ou mesmo a construção de uma consciência política e de pleno exercício da cidadania é essencialmente educativo e não depende somente da disposição e da vontade individual. É preciso, na maioria dos casos, de uma base motivadora sólida de recursos morais e materiais. Tanto a socialização natural como a reinserção social são uma responsabilidade coletiva, uma ética do gênero e da condição humana.
No Mundo Contemporâneo esse conceito universal – meio utópico, meio legal – de Cidadania, pelas narrativas jurídicas liberais vêm se tornando gradualmente uma realidade social na maioria dos países, efeito da globalização da economia e dos intensos fluxos migratórios em todo o planeta. Surge a partir da década de 1990, com o fim da Guerra Fria, a ideia do Cidadão do Mundo. O predomínio do poder dos Estados e dos conglomerados financeiros cede lugar para o novo poder empresarial e pessoal do Homem.
As principais decisões mundiais não mais tomadas na ONU, mas no Fórum Mundial Econômico (Davos) e também no Fórum Social Mundial, que buscam e lutam por uma cidadania plena e pela politização dos conceitos de responsabilidade social de sustentabilidade.
Cultura plural, política correta, economia sustentável, empresa responsável e cidadã são alguns das principais ideias agregadas ao conceito tradicional de Cidadania.
Tudo isto posto, surge a pergunta óbvia:  como exercer então a Cidadania?
Bem, o modo clássico do exercício da Cidadania é através do voto. E é bom esclarecer aqui que embora muitas vezes utilizados como sinônimos; voto, sufrágio e escrutínio possuem significados diferentes. Sufrágio é o direito de votar e de ser votado; voto é a forma de exercer o direito ao sufrágio; e escrutínio é a forma como se pratica o voto, seu procedimento. Mas, no início destas linhas, mencionamos a palavra Educação.
Como professor que sou, eis um de nossos múltiplos desafios...
Porque precisamos educar para formar Cidadãos sim; porém, não somente. Não exclusivamente.
No nosso país, vamos colecionando muitos enganos nas Políticas Públicas.  Educar para a Cidadania. Sim! Lógico que sim! Mas…não se pode centralizar a Escola apenas nesta questão…é um tema transversal. E que deve ser trabalhado em todas, repito, em todas as disciplinas da grade curricular, que já vem pronta e acabada para ser adotada em todos os estabelecimentos de ensino; principalmente nos públicos.
No caso em particular deste articulista, com disciplinas como História e Sociologia é quase que inerente à própria matéria se falar, se demonstrar, se orientar para o exercício da Cidadania, afinal, foi através da História que todos esses direitos foram sendo conquistados e sedimentados no seio da sociedade.
Porém, pontuamos que, a Educação, tal qual a conhecemos, orientada para a formação técnico-profissional de indivíduos capacitados para atuar na reprodução do modelo econômico vigente, faz-se deficiente no que se refere à formação de cidadãos com capacidade de atuar na transformação da realidade socioambiental.
Se o modelo educacional tradicional valoriza a obediência, a decoreba de conteúdos, a imitação de antigos paradigmas, a mera repetição de papéis; ele não contribui para a formação de cidadãos críticos, autônomos, capazes de fazer suas próprias escolhas, e de atuar em um ambiente democrático de forma ativa, assumindo seu papel de ator social e político.
Neste ponto é fundamental o papel do professor: contribuir de modo eficaz para a formação de excelentes profissionais sim e igualmente de cidadãos críticos e atuantes, capazes de transformar as realidades sociais. Educar para conseguir alcançar o íntimo do aluno, despertando-o para o desejo e a busca do Conhecimento de si mesmo e da Vida, e fornecer-lhe os valores (honestidade, ética, coerência, etc.) que nortearão o seu caminho, bem como os meios necessários para que possa modelar o seu próprio destino e contribuir para uma Sociedade mais justa e igualitária para toda a Humanidade.
Precisamos, portanto, reitero, de uma Educação baseada em valores universais (honestidade, respeito à diversidade, tolerância, diálogo, democracia, ética, paz, cooperação, solidariedade, participação...) válidos para todos, não apenas para a minha própria nação. Estamos tratando aqui de uma Educação que contribua para uma cidadania completa e ativa: “A educação deve contribuir para a autoformarão da pessoa (ensinar a assumir a condição humana, ensinar a viver) e ensinar como se tornar cidadão. ” (MORIN, Edgard). E não uma Educação destituída dos valores que a Humanidade levou milênios para construir....
Temos, portanto, um tripé de instrumentação civilizatória que deve e precisa se complementar: Educação, Política e Cidadania. Através dos processos educacionais se constrói a consciência política que será levada a efeito através do exercício pleno da Cidadania.

*   Bacharel em Direito/ Licenciado em História pela Universidade de Itaúna
      Diretor da E.E.”Profa. Gilka Drumond de Faria”
        
 
          

segunda-feira, junho 05, 2017

ROUBO NA CASA SALDANHA


Sem desdouro para as demais, a Casa Saldanha era uma das melhores de Itaúna. Na rua Silva Jardim, ao lado da Farmácia do Ary Coutinho, quase na praça principal. Pertencia a Heli Saldanha.
Numa segunda feira, não sei precisar o ano, a cidade ficou estarrecida. A Casa Saldanha tinha sido roubada no fim de semana.
Notícia na Rádio Clube, entrevista ao vivo com o dono, entrevista com o delegado. Roubo profissional. Entraram pelo telhado e desceram pelo alçapão do forro de madeira. Usaram uma escada de corda de sisal. Sem bagunça, sem arrombamento. Sem barulho e sem sujeira. Naqueles tempos, até os ladrões eram educados.
A população ocorreu em massa para ver a cena do crime. A mando do delegado, o singular "Tiao Secreta", tudo foi preservado intacto. Os peritos criminais chegariam de Belo Horizonte para recolher digitais (se houvessem) , pistas, a escada de corda e tudo mais que pudesse levar ao destino dos larápios.
Heli Saldanha, gordinho e avermelhado, não se cansava de lamentar as perdas. Roubaram joias, relógios e aparelhos de rádio. Relógio era muito caro e radio idem. Joias nem se fala.
A porta da loja, fechada para vendas, mais parecia romaria na igrejinha do Bonfim no mês de maio. A entrada dos ladrões se dera por um alçapão bem na frente da casa de comércio. O forro aberto, a escada de corda de bacalhau dependurada e um cordão de isolamento em meia altura, isolando a entrada de curiosos.
A cena ficou em exposição dois ou três dias. Veio gente da roça para ver o inusitado. Venda recorde de pães doce e picolés de groselha. Feita a perícia, a cidade foi voltando ao normal. O roubo serviu de estratégia de marketing para a Casa Saldanha. Quem podia, corria para fazer compras na loja que fora roubada. Afinal, era primeira vez que algo tão importante ocorria em Itaúna. Comprar num lugar escolhido a dedo por ladrões refinados era sinônimo de bom gosto.
Em tempo: ainda não se em marketing. Usava-se falar propaganda. Uma evolução: anos antes era " reclame".

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 05/06/2017.
Acervo: Shorpy


OS UMBRAIS DO TEMPLO

Luiz Mascarenhas


Eia pois, ante meus olhos

Os umbrais do templo
Templo de templos 
Da minha Itaúna 

Transponha os umbrais do templo
Do venerando templo
E transporás o tempo
Tempo dos tempos
Da minha Itaúna

Do tempo sem tempo
Do  eterno tempo 
Dos sinos do templo 
Do toque das almas
Do toque das coisas
Do toque do vinho
Do toque da música
Do toque de Deus
Do toque do Amor...

Das janelas mudas do templo
Fitam-nos os tempos de outrora
Como olhos curiosos
Repostos sobre o tempo de agora

Outros sons
Outras gentes
No mesmo eterno
Na mesma Arte
Na mesma sede
Na mesma faina
No mesmo viço
É  Vida que se renova
É Vida que grita ao Eterno
Eterno da Fé

Transponha os umbrais do templo!
Vinde...veja...ouça...sinta!
O Tempo sem tempo 
Pelos umbrais do templo...
Do venerando templo...


*da Academia Itaunense de Letras






Fotografia: Adilson Nogueira



ITAÚNA: OUTRAS PALAVRAS NA INFÂNCIA


Xumbú, Catiterê, Lubaroso, Clif, são algumas palavras típicas inventadas na minha infância. E se eu disser que em tempo de frio o “xumbú” de seu cachorro ficará gelado, você pode acreditar! Xumbú foi uma palavra inventada pelo Dóse, meu irmão. Segundo ele xumbú é focinho de cachorro, ou gato, ou de outro mamífero. Não sei de onde ele tirou isto, mas é; então saiba que seu animalzinho de estimação é também portador de um xumbú.
         “Catiterê” é também uma palavra inventada pelo Dóse, e que às vezes eu ainda uso. Quase todos os gatos e cães têm um catiterê enorme. Adivinhou? Nunca né? Pois bem, catiterê é sobrancelha de cachorro, ou gato. São aqueles pelinhos, tipo sobrancelha, que ficam plantados em cima dos olhos dos bichos.
         O Dóse era criativo, não sei de onde ele tirava estas palavras. Outra que é de autoria dele é “Lubaroso”, quem conhece um? Nesta criação eu tive um pouco de participação, em sua formação e difusão.
         Havia um tio do meu pai, o Enéias, que a gente chamava de Tio Néia, ele era lubarosíssimo. Ele era daqueles lados da serra do minério, e às vezes dormia em nossa casa quando vinha à cidade. Usava sempre, pelo menos dois relógios em cada pulso, um chapelão, e roupas estampadas ou xadrez. Portava crucifixos, pulseiras, colares e um inseparável e sempre alto rádio de pilha, sintonizado nos piores programas sertanejos. Cinco da manhã, a gente era acordado pelo rádio do Tio Néia, com o locutor berrando num sotaque caipira.
         O Lubaroso é aquele sujeito, “Jeca aculturado”, que não se distanciou de suas raízes, mas que teve contato com a vida urbana, incorporando alguns de seus elementos (ufa!). O lubaroso ainda usa palavras do vocabulário Rocês, tais como: em riba, cacunda, antonti, nóis, osêis, isturdia, etc; porém, é metido a ser moderno e bonitão, e o bonzão do pedaço!
         Um bom lugar para encontrar lubarosos é em festa de rodeio. Mas lubaroso que é lubaroso tem que usar chapéu preto, à la Valdique Soriano – o rei dos lubarosos. Já o Falcão (cantor e apresentador), é um “Lugregoso” que é igual a lubaroso + brega; o “brega” todos já conhecem né? Em suma: o lubaroso é um “sub-brega”, o qual ouve somente música caipira ou sertaneja. Ainda hoje esta palavra faz parte do meu dicionário pessoal, porém abreviada para “luba”.
         O “Clif” também foi uma palavra inventada na Godofredo, acho que foi o Marco Túlio (Buzão) quem apareceu com ela. “Fulano é um clifador!!” “Clifaram meu melhor jogador de botão! ” “O juiz clifou o jogo do galo (pra variar) ”.
         A gente, quando criança, clifava muitos selos de chumbo dos relógios da Cemig, eram para fazer peso para nossos goleiros de jogo de botão, feitos de caixas de fósforo. Clif, segundo o dicionário da Godofredo, é o mesmo que roubo, afano; clifar é tomar o que não é seu. Então cuidado, não vá votar num político clifador!
         “Escrululufe”... Esta é muito boa! Esta nasceu não sei de quem, acho que te todos... Antes era “bululufe”, virou outras coisas até chegar em “escrululufe”. Se quisessem falar que você fez sexo com alguém diriam que vc “escrululufou”alguém. “Escrululufe”, é o mesmo que “fazer aquilo”, “Furunfar”, “Rala&rola”, etc.
         Havia, também palavras usadas na rua que eram do vocabulário de gírias faladas nos quatro cantos da cidade. Algumas em extinção hoje, mas com certeza você já ouviu falar, como por exemplo, “leiteiro”. O sujeito “leiteiro” é um puxa-saco de carteirinha. Então, se no meio da turma alguém puxava saco para um, os outros começavam o coro: “ao leite, ao leite, leite, leite”. Pessoalmente, sempre tive e tenho horror à “leiteiros”, principalmente os leiteiros que rodeiam políticos.
         E era assim, aquele pedaço era um caldeirão de criatividade e invenções linguísticas, onde brincar com as palavras e os costumes era normal e prazeroso.
         Enfim, todos inventavam e transformavam palavras que cada vez mais, procuravam traduzir a exatidão de atos e situações. Nesta de inventar, nasceram também muitos apelidos interessantes, mas isto é assunto para um outro capítulo...


Texto: Pepe Chaves — Desenhista, pesquisador, ufólogo, músico, documentarista e jornalista.
Digitação: Ana G. Gontijo e Ícaro N. Chaves
Organização: Charles Aquino
Acervo: Shorpy