O título “Santanense: Estórias
Quase Avacalhadas” convoca um conjunto vívido de estórias e causos que aos poucos foram
se enraizando no imaginário dos moradores do bairro Santanense.
Estas
narrativas, transmitidas através dos tempos, retratam um elenco multifacetado
de personagens intrinsecamente entrelaçados no tecido cultural dos habitantes.
O título sugere uma mistura de humor e nostalgia, refletindo como essas
histórias se fundiram perfeitamente com a identidade e o legado intangível.
No bairro, segundo um artista local, destaca que existe uma colaboração cósmica
constante: "aqui, o universo sempre está
conspirando a favor, resultando no surgimento espontâneo de
diferentes estórias".
Os
habitantes santanenses possuem uma identidade única, definida por uma ligação
profunda e uma riqueza de tradições culturais, ainda reforçada pelas narrativas
apaixonantes que moldam a essência vibrante e quase lendária do bairro.
Estas estórias e causos cativantes, impregnadas no delicioso “humor dos
santanenses”, já estão acessíveis, salvaguardando a essência da
cultura local e garantindo a sua apreciação duradoura pelas gerações vindouras.
IRMÃ
BENIGNA: O LEGADO DAS IRMÃS AUXILIARES EM ITAÚNA
Em 7 de junho de 1916, foi
lançada “a pedra basilar” de um hospital, Casa de Caridade Manoel Gonçalves de
Souza Moreira, na cidade de Itaúna/MG, em homenagem ao seu fundador. Em 14 de
novembro de 1919 a “bênção do prédio” foi presidida por Dom Silvério Gomes
Pimenta, professor, poeta e arcebispo de Mariana com um grande “número de
pessoas gradas” e autoridades. O primeiro Conselho deliberativo reuniu-se em 14
de dezembro de 1920. Este ato transformou a “Santa Casa de Itaúna” em um
importante centro médico da região. O estabelecimento contava com uma equipe
qualificada de médicos e cirurgiões, além de uma farmácia abastecida com
diversos insumos, o que atraiu muitos pacientes que o consideravam de fácil
acesso devido à proximidade com a linha férrea.
O Pároco da cidade era o Padre
João Ferreira Álvares da Silva, “amigo sincero” de Monsenhor Domingos
Evangelista Pinheiro, fundador da CIANSP — Congregação das Irmãs Auxiliares de
Nossa Senhora da Piedade — em Caeté/MG em 1892. E “pela sua intervenção
consegui e foram contratadas as Irmãs Auxiliares da Piedade para administração
interna, no dia 21 de fevereiro de 1921 com todo o conforto espiritual e
material”.
Segundo os estatutos da Casa de
Caridade de Itaúna, a partir desta data, foram designadas para trabalhar no
hospital as primeiras irmãs — Irmã Superiora Natividade e suas auxiliares: Irmã
Dolores, Irmã Inácia, Irmã Margarida e Irmã Nazareth. Aproximadamente em 1922,
foi construída uma capela no interior do hospital. Nesta Capela da Casa de
Caridade, meticulosamente ornada pelas devotas Irmãs Auxiliares da Piedade, era
celebrado todos os dias com alegria o Santo Sacrifício da Missa. Os fiéis se
reuniam para rezar o terço, e receber a benção do S.S. Sacramento aos domingos,
quintas-feiras, primeira sexta-feira de cada mês e nos dias santos de guarda.
Diariamente, as Irmãs, juntamente com os doentes e todos os membros do pessoal
interno e externo, participavam na distribuição da “Santa Comunhão”.
Foi instituída a adoração mensal do S.S.
Sacramento, durante a qual as Irmãs se uniam aos enfermos e aos devotos em uma
hora solene de oração. Neste momento sagrado, era dirigido as súplicas ao santo
Padre, ao estimado Dom Antônio dos Santos Cabral, ao Monsenhor Domingos
Evangelista Pinheiro, a todas as ordens religiosas, ao fundador Manoel
Gonçalves de Souza Moreira e a todos aqueles que governavam e trabalhavam na
Casa de Caridade. Para garantir a lembrança eterna do sacrifício do Redentor,
as Irmãs ministravam diligentemente o catecismo, preparando os enfermos para a
primeira comunhão, ao mesmo tempo que expressavam gratidão ao Altíssimo, à S.S.
Virgem da Piedade e ao glorioso São José. Todos os indivíduos que morreram na Santa
Casa de Itaúna, receberam o sacramento da Sagrada Comunhão e a unção
reconfortante da Unção Eterna, acompanhados de orações e apoio compassivo.
Já final de 1923, a primeira
administração foi substituída pela Irmã Superiora Vicência e suas auxiliares: Irmãs
Isabel, Celeste e Inácia. Em 1925, como Irmã Superiora Cândida e suas
auxiliares: Irmãs Mercês, Natividade, Isabel, Inácia e Celeste. Em 1932, como Irmã
Superiora Dolores e suas auxiliares: Irmãs Celeste, Cecília, Marta e
Josefa.
As Irmãs Auxiliares da Piedade
passaram a desempenhar na Casa de Caridade um importante papel na promoção da
saúde e do bem-estar da comunidade itaunense e cidades adjacentes. O
comprometimento e a competência das irmãs na gestão das atividades do hospital
e no cuidado aos pacientes conquistaram grande reconhecimento e eterna gratidão
por parte dos enfermos e necessitados. Em 1939, as irmãs assumiram a liderança de
uma escola, promovendo a formação moral e acadêmica dos alunos. Paralelamente,
a congregação assumiu o controle do internato vinculado à Escola Normal Manoel
Gonçalves de Souza Moreira, uma instituição importante para a educação da
região, fundada pela Casa de Caridade — hoje conhecida como Escola Estadual de
Itaúna.
Em 24 de maio de 1942, foram
registradas informações sobre os trabalhos realizados ao longo dos 21 anos de
serviços prestados no Hospital de Itaúna — o estabelecimento atendeu um total
de 7.409 pacientes, dos quais 6.917 tiveram alta após recuperação total. Esses
dados servem como evidência para enfatizar a eficácia e o significado dos
esforços realizados pelo corpo clínico em conjunto com as Irmãs Auxiliares da Piedade. Além disso, ocorreram 492
mortes de pacientes, sublinhando a gravidade das condições abordadas.
A prestação de serviços externos
gratuitos pela policlínica também desempenhou um papel crucial, pois houve um
aumento substancial do atendimento. Os procedimentos ambulatoriais dignos de
nota incluíram 46.628 curativos, 48.910 injeções e 38.912 consultas, além de
outros serviços essenciais, como 9.112 pequenas cirurgias, 10.590
radiações-ultra-violeta, 12.997 exames de urina e 8.267 lavagens vaginais.
Em termos de serviços internos da
enfermaria os números foram igualmente impressionantes, com 62.240 injeções,
50.108 curativos, 10.201 pequenas cirurgias, 12.000 cirurgias de grande porte,
11.212 lavagens vaginais, 13.402 exames de urina e 1.190 radiações-ultra-violeta,
entre outros procedimentos. Estas estatísticas demonstram não só o volume de
trabalho realizado, mas também a natureza abrangente e complexa dos cuidados de
saúde prestados.
Ao todo, durante 21 anos, 40
irmãs se dedicaram às suas nobres funções na Santa Casa de Itaúna. A partir de
1942, a Irmã Superiora Delfina (falecida em julho de 1944) e suas competentes Auxiliares,
Irmãs Josefa, Benigna, Noême e Ubaldina, estiveram envolvidas no serviço e no
cumprimento destas funções. Ao lado das Irmãs, os Revs. Capelães desempenharam
um papel crucial no fornecimento de conforto espiritual. O Reverendo Padre João
Ferreira Álvares da Silva serviu como o primeiro capelão, e foi graças à sua presença
que as Irmãs Auxiliares da Piedade “devem a sua existência nesta digna
Casa de Caridade”, o que garantiu que a congregação continuasse a experimentar
o conforto ilimitado dos atos de beneficência.
Irmã Dolores: Um Legado de Fé e
Sacrifício
O relato detalhado deste momento
final da vida de sacrifício e devoção de Irmã Dolores, foi cuidadosamente registrado
pelo Padre José Netto em 1946:
“Confortada com os sacramentos da Igreja, e
assistida nos seus últimos momentos por quatro sacerdotes, deu a alma a Deus,
numa morte tranquila e santa, a Reverenda Irmã Dolores da Congregação das Irmãs
Auxiliares da Piedade, falecida na Santa Casa, onde estava num leito e dores
havia mais de 10 anos. Foi resignada em seus padecimentos, oferecendo tudo pela
conversão dos pecadores, pela santificação dos sacerdotes. [...] Seu corpo
tomara-se em ferida viva. Foi solenemente encomendada na capela da Santa Casa pelo
Capelão Revmo. Pe. Ubaldo Silveira, na matriz pelo vigário e no cemitério pelo
vigário cooperador. Foram celebradas 4 missas de corpo presente. Seu
falecimento se verificou no dia 12 de dezembro deste ano, as 6h da tarde,
quando os sinos anunciavam a hora de Ângelus.”
A dedicação da Irmã Dolores,
mesmo diante do sofrimento excruciante, serviu como um testemunho de sua
devoção e sacrifício, servindo de inspiração e exemplo para todos que a
conheceram.
Irmã Benigna: Devoção e Liderança de
uma mulher negra
Negra e pobre enfrentou a
rejeição da congregação inicial à qual procurou ingressar. Porém, uma virada
ocorreu quando Dom Carlos de Carmelo Mota, nomeado Bispo Auxiliar em
Diamantina, estabeleceu um vínculo com sua família. Reconhecendo a sua vocação,
ligou-a às Irmãs Auxiliares de Nossa Senhora da Piedade, onde encontrou o seu
lugar e se dedicou a uma vida de santidade. Em 1935, Maria da Conceição Santos,
devota de Nossa Senhora de Lourdes, tornou-se membro da Congregação. Em 1936,
abraçou formalmente a obediência ao fazer seus votos religiosos iniciais. A
partir desse momento, adquiriu o nome de Irmã Benigna Víctima de Jesus,
marcando o início de sua jornada missionária ao se dedicar à prestação de
serviços espirituais em áreas designadas pela Congregação.
Em 1941, participando de
cerimônia em Itaúna, fez os votos perpétuos. Durante este significativo evento,
a Superiora da Congregação e outras religiosas, estiveram presentes para
testemunhar o seu compromisso. A partir de uma investigação realizada neste
ano, com considerável abrangência, é altamente provável que tenha concluído com
êxito um curso de três anos na "Escola de Enfermagem do Estado de São
Paulo", obtendo o prestigiado título de "Enfermeiro Prático
Licenciado". A conceituada instituição era conhecida pela adesão aos
padrões de ensino europeus e norte-americanos, e havia uma lista de formandos
daquele ano que incluía seu nome.
Em 1943, foi nomeada Irmã Superiora,
onde atendeu diligentemente às necessidades de suas irmãs. Irmã Benigna, na
qualidade de diretora da Santa Casa em Itaúna, criou uma maternidade dedicada a
prestar assistência às mães desfavorecidas. Ela não apenas ofereceu apoio
durante o parto, mas também transmitiu conhecimentos valiosos sobre a educação
dos filhos, abrangendo aspectos como saúde, higiene, nutrição e cuidados
emocionais. Em 1946, participou ativamente na cerimônia de lançamento da pedra
fundamental do recém-construído edifício hospitalar em Itaúna, atualmente
reconhecido como Hospital Manoel Gonçalves, abençoado pelo padre Waldemar
Antônio de Pádua Teixeira e pelo padre José Ferreira Netto.
Em 1947, Irmã Benigna concluiu
seu mandato como superiora do hospital, deixando uma profunda
influência na comunidade itaunense e um legado duradouro de melhores serviços
de saúde. Ao lado das Irmãs Auxiliares da Piedade, o seu compromisso compassivo
em prestar cuidados humanos e eficazes contribuiu grandemente para o bem-estar
dos doentes e desfavorecidos. No mesmo ano, em de 16 de novembro, registrou
informações sobre os serviços prestados no Hospital de Itaúna ao longo dos anos
— em 1943, o movimento do estabelecimento incluía 62 cirurgias de grande porte,
6.558 consultas, 7.861 curativos, 2.207 injeções, 366 pequenas cirurgias e
5.138 receitas. Em 1944 foram 8.376 consultas, 84 cirurgias de grande porte,
8.146 curativos, 6.796 injeções, 482 pequenas cirurgias, 8.167 prescrições. Em
1945 foram 7.849 consultas, 76 cirurgias de grande porte, 7.842 curativos,
6.425 injeções, 436 pequenas cirurgias, 7.948 prescrições. De 1946 até outubro
de 1947 foram 8.264 consultas, 69 grandes cirurgias, 7.896 curativos, 5.904
injeções, 392 pequenas cirurgias, 6.948 prescrições.
Em 1948, Irmã Benigna Víctima de
Jesus completou sua missão em Itaúna. Seu legado é definido pelo amor, fé e
compaixão, que ela demonstrou através de dedicação inabalável e altruísmo. Uma
das observações finais da Irmã capta o seu compromisso — “procurei cumprir o
dever que me foi imposto como também na medida de minhas forças, mantive como
foi possível a minha capacidade, a ordem e o respeito dentro do Hospital”.
Sua passagem por Itaúna foi
marcada por um profundo impacto, consolidando-se como um período de
significativa evolução e humanização no atendimento à saúde da comunidade. Os
efeitos das ações caritativas estenderam-se além dos cuidados médicos para
abranger a espiritualidade, atraindo inúmeras pessoas a procurarem consolo em
Deus. No hospital, desempenhou com diligência todos os trabalhos essenciais,
auxiliando os pacientes e seus entes queridos, oferecendo acomodações, sustento
e encorajamento. Através da sua organização nas tarefas cotidianas juntamente
com as orações, bem como da sua abordagem compassiva para com os pacientes,
familiares e funcionários, ela irradiava a sua santidade, resultando numa
multidão de conversões e num aumento de pedidos de orientação e intercessão.
Na prática de enfermagem,
demonstrou também um compromisso inabalável com o bem-estar dos familiares dos
pacientes, garantindo-lhes muitas vezes auxílio no hospital ou na comunidade
local, assegurando a sua proximidade durante o tratamento. Ela não apenas
ofereceu provisões como alimentos, roupas e remédios, mas também deu
orientações valiosas sobre como manter os cuidados adequados em casa.
Irmã Benigna, uma líder negra e
resiliente, transcendeu as dificuldades impostas pela pobreza para se tornar
uma figura de grande impacto na sociedade. Desde jovem, demonstrou uma fé
profunda e um desejo intenso de ajudar os mais necessitados, onde se dedicou a
cuidar de doentes, idosos, órfãos e marginalizados. Ao enfrentar inúmeras
adversidades com resiliência, nunca permitindo que as barreiras sociais a
impedissem de cumprir sua vocação. Sua determinação em servir aos outros se
manifestava em atos concretos de amor e caridade, evidenciando uma
espiritualidade enraizada no serviço ao próximo. Ela não apenas atendia às
necessidades físicas das pessoas, mas também oferecia conforto espiritual,
promovendo a dignidade humana e a esperança.
Nos registros oficiais do
hospital de Itaúna, a dedicação da Irmã Benigna em manter a disciplina e a
reverência dentro da instituição é expressa de forma eloquente, destacando a sua
devoção, liderança e compromisso em cumprir diligentemente as suas responsabilidades.
Nas décadas de 1930 e 1940, Irmã Benigna – uma mulher negra – deixou um legado
imensurável de liderança e comprometimento não só na Santa Casa, mas no
Município de Itaúna (MG).
A Saúde, o Espírito e a Educação: O
legado das Irmãs Auxiliares
O legado de caridade deixado
pelas Irmãs Auxiliares da Piedade em Itaúna é profundo, abrangendo tanto a área
da saúde quanto o conforto espiritual. Durante anos, as Irmãs da Piedade
demonstraram notável competência na gestão dos assuntos internos do Hospital —
Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira — estendendo assistência
médica e apoio emocional a inúmeros pacientes. A dedicação não teve limites,
pois realizavam incansavelmente uma infinidade de procedimentos, desde cuidar
de pacientes até auxiliar os médicos em cirurgias, entre outras aplicações.
Em 1923, como por exemplo, uma
paciente chegou à Santa Casa de Itaúna após suportar seis dias de trabalho de
parto em casa. Apesar de uma noite repleta de tentativas frustradas, uma
cesariana foi realizada no outro dia às 7h pelo Dr. Dorinato de Oliveira Lima,
cirurgião do hospital, com auxílio do Dr. Antônio de Lima Coutinho e do Dr.
Dario Gonçalves. Desempenhando um papel crucial no procedimento, Irmã Vicência
administrou habilmente “anestesia clorofórmica”. A correta aplicação da
anestesia foi fundamental para garantir a segurança da paciente e evitar dores
adicionais durante a operação, permitindo aos cirurgiões realizar a cesariana
com eficiência e segurança. Suas ações não apenas aliviaram o sofrimento da
paciente, mas também contribuíram muito para o sucesso do procedimento
cirúrgico. Este compromisso contínuo com o bem-estar da comunidade é uma prova
dos extraordinários serviços prestados pelas irmãs.
A comunidade de Itaúna foi
profundamente influenciada pelas contribuições duradouras das Irmãs Auxiliares
da Piedade. Os seus esforços foram fundamentais para melhorar não só o
bem-estar físico dos indivíduos, mas também para oferecer consolo e orientação
àqueles que enfrentavam adversidades. Além de suas responsabilidades na área da
saúde, as irmãs também fizeram uma contribuição integrando cuidados médicos de
excelência e educação de qualidade. Elas ajudaram a transformar o hospital em
um centro de referência na saúde, enquanto contribuíam significativamente para
a educação e o bem-estar social da comunidade, refletindo seu compromisso
humanitário e espiritual.
O resultado duradouro da sua
devoção e cuidado inabaláveis no cumprimento das suas responsabilidades
hospitalares sublinha a importância de um sistema de saúde compassivo e eficaz.
O seu notável legado serve como testemunho da sua compaixão, compromisso e
experiência, e ainda é apreciado pela comunidade com profundo apreço.
História narrada em vídeo. Imperdível!
Referências:
Organização, arte
e pesquisa: Charles Aquino - Historiador Registro nº 343/MG
COUTINHO. Antônio
Augusto de Lima. A mésse de um decênio. Algumas observações clínico
cirúrgicas em dez anos de atividades profissional. Tip. São João, Itaúna,
MG, 1932, p.12-15.
Ata da Casa de
Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira — Itaúna/MG. Registrado sob nº
16.539 às fls 272 vº do Livro A-XI, p.5-15.
Jornal Correio
Paulistano, 15 de junho de 1941, Ed. 26.158, p.25. Hemeroteca Digital.
Jornal Correio
Paulistano, 02 de fevereiro de 1941, Ed. 26.047, p.11. Hemeroteca Digital.
Jornal A Noite,
Rio de Janeiro, 16 de outubro de 1925, Ed.4.994, p.7. Hemeroteca Digital.
Jornal Lar
Católico, Minas Gerais, 30 de julho de 1944, Ed.31, p. 11. Hemeroteca Digital.
Jornal O
Apostolo, Rio de Janeiro, 6 de dezembro, 1895, Ed.139, p.3. Hemeroteca Digital.
Livro Tombo I:
Paróquia de Sant’Ana de Itaúna — 1902 a 1947, p. 94.
A Associação Santa Zita, formada
entre as décadas de 1950 e 1970 na cidade de Itaúna, Minas Gerais, representou
um marco de solidariedade e resistência para um grupo de mulheres
predominantemente afrodescendentes que trabalhavam como empregadas domésticas.
Inspiradas por Santa Zita, padroeira das empregadas domésticas, essas mulheres
encontraram na associação um espaço para crescimento espiritual e apoio mútuo,
demonstrando notável altruísmo e resiliência.
Santa Zita, nascida em 1218 na
Toscana, Itália, simboliza a devoção e a caridade cristã. Sua vida de dedicação
ao serviço dos outros, mesmo sob condições de trabalho duras e análogas à
servidão, ecoou através dos séculos, chegando ao Brasil e inspirando a criação
da associação em Itaúna. Este coletivo não só representava um suporte
espiritual, mas também um movimento de resistência contra as adversidades
enfrentadas pelas trabalhadoras domésticas, uma categoria historicamente
marginalizada e desprotegida.
Através das entrevistas
realizadas com ex-integrantes da Associação Santa Zita, como Dona Edite Marques
de Oliveira Melo, Dona Geni Ferreira Pinto, Dona Vicência Maria de Jesus e Dona
Custódia Maria da Cruz Santos, é evidente o impacto transformador que a
associação teve em suas vidas. Elas relataram como a participação no grupo
proporcionou não apenas crescimento espiritual, mas também desenvolvimento
profissional, fortalecendo suas capacidades e autoestima.
O papel do Padre José Ferreira
Neto foi crucial neste contexto. Descrito com carinho pelas ex-integrantes, ele
atuou como um verdadeiro guardião da associação, proporcionando liderança e
apoio emocional. Sua capacidade de equilibrar rigor com afeto permitiu que
essas mulheres se sentissem valorizadas e protegidas, criando um ambiente de respeito
e solidariedade.
A associação não se limitou a
aspectos espirituais. Em 1960, a aprovação da Lei nº 509 pelo prefeito Dr.
Célio Soares de Oliveira, que doou um terreno para a construção de uma
residência para domésticas idosas e desamparadas, representou um avanço significativo.
Entretanto, a alteração da lei em 1963 e a eventual dispersão do grupo após a
morte da coordenadora Dona Ivolina Gonçalves em 1977, destacam os desafios
enfrentados pelo coletivo para se manter ativo e estruturado.
Além disso, a promulgação da Lei
5.859/1972, que definiu os direitos dos trabalhadores domésticos, foi um marco
histórico. As trabalhadoras de Itaúna, informadas sobre seus novos direitos
através do rádio, começaram a ver mudanças concretas em suas condições de
trabalho, um reflexo direto de suas lutas e da influência da Associação Santa
Zita.
O legado da Associação Santa Zita
perdura até hoje. A instituição do "Dia Municipal da Empregada
Doméstica" em 27 de abril, através da Lei nº 4.545 de 2011, reforça o
reconhecimento oficial do papel crucial dessas mulheres na sociedade de Itaúna.
A preservação de artefatos e a veneração da imagem de Santa Zita na Igreja
Matriz de Sant'Ana simbolizam a importância cultural e espiritual da
associação.
A história da Associação Santa
Zita em Itaúna é um testemunho poderoso da capacidade de organização e
resiliência das trabalhadoras domésticas. Seu compromisso com a caridade,
espiritualidade e apoio mútuo não só melhorou suas próprias vidas, mas também contribuiu
para a construção de uma comunidade mais justa e solidária. É essencial
reconhecer e valorizar esse legado, que continua a inspirar gerações futuras na
luta por direitos e dignidade.
Você está convidado a ler a mais recente edição do Tabloide Pedra Negra, que destaca a rica história da Associação Santa Zita de Itaúna. Nesta edição, são explorados os valiosos testemunhos das ex-integrantes dessa importante associação, que prestou apoio espiritual e profissional às empregadas domésticas da cidade entre as décadas de 50 e 70.
A história de Santa Zita, padroeira das empregadas domésticas, inspira a narrativa, que também relembra a dedicação do Padre José Ferreira Neto e o impacto da legislação em favor dos trabalhadores domésticos. Leia o tabloide e conheça mais sobre este notável legado de fé, solidariedade e trabalho comunitário que moldou parte da história de Itaúna. Não perca a oportunidade de mergulhar nesse capítulo essencial da nossa memória coletiva.
Abrangendo um
período substancial que vai de 1925 a 1972, o Fundo João Dornas Filho (FJD),
salvaguardado pelo Arquivo Público Mineiro (APM), abriga um rico acervo textual
e visual. Dornas Filho, figura versátil no âmbito da política, da história, do
folclore e da literatura, fez contribuições significativas para diversos
jornais e revistas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Além disso, foi
membro de organizações conceituadas como o Instituto Histórico e Geográfico de
Minas Gerais e a Academia Mineira de Letras.
João Dornas
Filho, autor prolífico, contribuiu para a reforma das artes e da literatura em
Minas Gerais através de seu envolvimento no renomado periódico "Leite
Criôlo". Ao lado de Aquiles Viváqua e Guilhermino César, liderou um
movimento que buscava revitalizar o cenário cultural e literário da região.
Além de suas
atividades literárias, Dornas Filho mergulhou em extensas pesquisas sobre
questões étnicas e culturais, com foco especial nas comunidades negra, indígena
e cigana. Sua dedicação a esses tópicos demonstrou seu profundo interesse em
explorar e compreender diferentes etnias e culturas.
A extensa
compilação de materiais escritos do Fundo João Dornas Filho abrange uma ampla
gama de conteúdos, como entrevistas, folhetos de propaganda política, poemas,
recortes de jornais e correspondências. Essa correspondência inclui
intercâmbios com editores, revistas e diversas pessoas sobre assuntos
literários, bem como materiais de pesquisa, expressões de felicitações,
convites e mensagens de condolências. Coletivamente, esses documentos oferecem
uma perspectiva abrangente sobre os esforços e conexões de Dornas Filho ao
longo de sua vida.
O acervo de
materiais iconográficos é extenso, abrangendo um total de 409 fotografias, 52
desenhos, 24 cartões postais e um mapa. Dentro desse vasto acervo de
documentação visual, é possível encontrar diversos assuntos, incluindo
políticos, artistas, intelectuais, povos indígenas, criações artísticas e
diversos aspectos do interior de Minas Gerais, como rios, pontes, praças e
monumentos.
Ao lado das
fotografias, o acervo também conta com pinturas, cartões postais, desenhos,
litografias e mapas, que proporcionam um vislumbre visual cativante do cenário
cultural e histórico da vida de Dornas Filho.
A organização do
acervo está dividida em nove séries distintas: Documentos Pessoais, Trajetória
Intelectual (que inclui tanto os Escritos do Autor quanto os Escritos de Outros
Autores), Correspondência, Recortes de Jornais, Folhetos, Periódicos, Volantes,
Iconográfico (que consiste em Desenhos, fotografias e cartões postais) e
documentos diversos. Para auxiliar no processo de pesquisa, estão disponíveis
recursos úteis, como o inventário do Fundo João Dornas Filho e um sistema
informatizado de acesso ao acervo fotográfico. Os próprios documentos originais
são utilizados para fins de consulta, garantindo a preservação e autenticidade
do material.
Além disso, fazem
parte do sortimento registros que vão além do falecimento de João Dornas Filho,
servindo como prova do impacto duradouro que ele deixou. Em 1959, sob a
liderança de João Gomes Teixeira, o acervo foi generosamente contribuído para o
Arquivo Público de Minas Gerais, transformando-se em um recurso precioso para
estudiosos intrigados com a existência e realizações de João Dornas Filho, bem
como com a narrativa cultural e política de Minas Gerais durante o século XX.
Após o seu
falecimento, a família Dornas contribuiu generosamente com numerosos documentos
inéditos para o Instituto Maria de Castro Nogueira (ICMCI) em Itaúna/MG,
ampliando assim a disponibilidade da sua obra e salvaguardando ativamente o seu
legado duradouro.
O estudo é visto como um trabalho fundamental para compreender a teia entrelaçada do poder religioso e do poder político no Brasil, uma visão de como essas forças teceram a estrutura da sociedade brasileira ao longo dos tempos. Dornas Filho investiga o impacto do clientelismo na composição estrutural do catolicismo no Brasil – ponderando sobre suas repercussões para a autonomia institucional sem marginalizá-lo das influências políticas que o elaboram.
Um ensaio que discute a divisão entre assuntos da Igreja e do Estado remonta às origens do que é conhecido como regime do Padroado, iniciado pela Bula Inter Coetera em 1455. Durante um período em que a influência e o poder da Igreja eram sinônimos de autoridade temporal, o Padroado surgiu como uma contrapartida ao “regalismo” – uma ideologia que concede aos reis a autoridade para se envolverem em assuntos eclesiásticos internos. O ápice desse conflito ocorreu no início da década de 1870, quando bispos de Pernambuco e do Pará foram presos, solidificando ainda mais o impasse em relação às questões relacionadas à soberania e à autonomia entre essas duas entidades na sociedade brasileira.
Padroado é o termo introduzido para explicar um sistema em que a Coroa Portuguesa recebia autoridade para administrar e financiar a Igreja Católica no Brasil e, em troca desse ato, era obrigada a nomear clérigos, bem como providenciar para que igrejas fossem construídas. Este sistema surgiu com base num acordo conhecido como Tratado de Patronato, celebrado entre a Santa Sé e a monarquia portuguesa. Dornas Filho pinta um quadro vívido de como o clientelismo foi colocado em prática no Brasil colonial, ilustrando como a administração eclesiástica entrelaçou estreitamente seus fios com os da governança colonial. Através do seu domínio sobre a Igreja, a Coroa podia agora ditar termos não apenas sobre questões religiosas, mas também sobre questões políticas e sociais.
O estudo investiga a relação entre Igreja e Estado, com foco específico na Igreja Católica e no Estado brasileiro. Ele retrata como a Igreja atuou como uma ferramenta política para a Coroa, ilustrando casos em que os bispos entraram em conflito ou conspiraram com os governadores coloniais e discutindo os efeitos em cascata dessas dinâmicas na estrutura da sociedade brasileira.
Em seu estudo sobre o padroado, o autor investiga seus efeitos na autonomia da Igreja no Brasil. Ele postula que, apesar dos benefícios – tanto econômicos como logísticos – que o sistema concedeu, a independência eclesiástica foi de facto dificultada em grande medida. Este compromisso levou a conflitos internos e lutas pelo poder dentro da instituição que são vividamente delineados por Dornas após o declínio do clientelismo após a conquista da independência do Brasil e a subsequente metamorfose sócio-política.
O texto discute as reformas do século XIX que conduziram a uma separação entre a Igreja e o Estado, posteriormente declarada na proclamação da República, encerrando assim oficialmente o padroado. Ao longo de sua obra, o autor faz uma crítica ao padroado valorizando os aspectos positivos e condenando os negativos, sem esquecer como ele impactou a história eclesiástica e política do Brasil. O legado resultou desta formação mesmo depois de ter cessado oficialmente: retransmitindo complexidades formadas durante aqueles períodos cujos ecos ainda eram sentidos muito além do seu encerramento.
João Dornas Filho foi um intelectual e historiador de Minas Gerais, tendo um impacto significativo na literatura. Além deste trabalho, foi autor de muitos outros livros que destacaram sua profunda pesquisa e grande interesse pelas questões históricas e sociais do Brasil.
A síntese resume a essência dos principais tópicos e controvérsias apresentadas em "O padroado e a igreja brasileira". Se desejar fazer uma leitura completa com todas as complexidades intactas, recomendamos que você acesse os links abaixo.
FILHO, João Dornas. O padroado e a igreja brasileira. Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Disponível em: https://bdor.sibi.ufrj.br/handle/doc/207 . Acesso em: 25/05/2024.
Numa plataforma musical, duas
almas contemplando a imagem de uma fotografia relatam as suas perspectivas
opostas ao som de uma música intensamente profunda:
Primeira alma - O vento é forte,
fazendo as árvores tremerem e a grama mergulhar em um oceano de incertezas. Enquanto
isso, um homem, perdido em seus pensamentos, atravessa campos, montanhas e
pequenas aldeias, mergulhando em narrativas de solidão e tristeza. Ele se move
lentamente, oprimido pelo peso do mundo, o olhar fixo para baixo, como se
buscasse uma pausa em seus pensamentos. Seus olhos, claros e inabaláveis,
examinam o chão, como se este fosse a chave para restaurar sua tranquilidade
interior. Suas roupas tremulam ao vento, refletindo a turbulência que parece
engolir sua própria alma.
Segunda alma - Nesta manhã de
domingo, enquanto o final do outono se funde com o início do inverno, o homem
acorda ansioso. Ele acorda cedo e embarca em uma viagem pela estrada que o
levará até a fazenda de seus pais, localizada a pouca distância de sua casa.
Hoje, ele pretende passar o dia inteiro com eles, valorizando sua companhia.
Apesar do vento cortante que sopra em seus ombros e da umidade da grama sob
seus pés, ele permanece inalterado. A expectativa de ver os rostos amados que
aguardam ansiosamente sua chegada lança um brilho caloroso no horizonte,
proporcionando-lhe uma força inabalável.
Duas almas apresentam duas
narrativas diferentes sobre um homem enfrentando a natureza e suas emoções
internas. No primeiro texto, o homem caminha lentamente, carregado por uma
profunda melancolia e introspecção. Ele atravessa paisagens, lidando com um
sentimento de solidão e tristeza, enquanto seu olhar fixo no chão sugere uma
busca constante por paz interior. O vento que faz as árvores tremerem e a grama
mergulhar em incertezas parece ecoar a turbulência interna do homem, refletindo
uma alma em conflito e um espírito opresso.
No segundo texto, o mesmo homem,
em uma manhã de outono que se funde com o início do inverno, embarca em uma
jornada até a fazenda de seus pais. Apesar das adversidades climáticas, ele é
impulsionado pela expectativa de encontrar seus entes queridos, que lhe
conferem uma força e determinação inabaláveis. A presença de seus pais e a
antecipação de passar o dia com eles iluminam seu caminho e proporcionam-lhe
uma resistência notável contra os elementos naturais.
O pensamento filosófico que
emerge dessas duas perspectivas revela uma dicotomia interessante: enquanto no
primeiro texto o homem é retratado como um ser introspectivo, imerso em seus
pensamentos e sofrendo sob o peso do mundo, no segundo ele encontra motivação e
vigor na expectativa de reconectar-se com sua família. Essa dualidade sugere
que a experiência humana pode oscilar entre a introspecção solitária e a busca
de consolo nas relações interpessoais.
De uma perspectiva
existencialista, o primeiro texto ilustra a luta do indivíduo contra a própria
angústia e o sentimento de desamparo, onde o homem busca significado em sua
solidão. Já o segundo texto, de forma quase contrária, destaca a importância
das conexões humanas e como elas podem proporcionar um sentido de propósito e
resiliência. Assim, essas duas narrativas paralelas enfatizam que, embora a
existência humana possa ser marcada por momentos de profunda solidão e
introspecção, ela também pode ser iluminada pelo calor das relações e do afeto,
fornecendo um contraste filosófico sobre a complexidade das experiências
humanas.
Irmãs Auxiliares da Piedade em
Itaúna/MG: além de suas responsabilidades na área da saúde, as irmãs também
fizeram uma contribuição integrando cuidados médicos de excelência e educação
de qualidade. Elas transformaram o hospital em um centro de referência na
saúde, enquanto contribuíam significativamente para a educação e o bem-estar
social da comunidade, refletindo seu compromisso humanitário e espiritual.
Organização, arte e pesquisa: Charles Aquino - Historiador Registro nº 343/MG
A Academia Mineira de Letras (AML) é uma instituição literária que desempenha um papel crucial na preservação, estudo e divulgação das línguas, literaturas, culturas e artes em Minas Gerais. Ao longo dos anos, notáveis escritores de Itaúna fizeram parte dessa prestigiosa academia, contribuindo significativamente para o enriquecimento cultural e literário da região e do estado. Entre eles destacam-se:
Mário Gonçalves de Mattos — é um nome de destaque entre os intelectuais itaunenses. Sua obra abrange diversos gêneros literários, incluindo poesia e crítica literária. Durante os tempos de estudante, começou a trabalhar e atuar nas áreas de jornalismo e arte. Mattos é reconhecido por sua contribuição para a compreensão da literatura mineira e brasileira, tendo participado ativamente da AML, onde suas obras são celebradas pelo rigor e profundidade analítica.
João Dornas Filho — foi um historiador e escritor que deixou uma marca indelével na literatura mineira. Sua pesquisa e escrita sobre a história de Minas Gerais e do Brasil são consideradas referências importantes. Dornas Filho é valorizado na AML por suas obras que oferecem uma compreensão rica e detalhada do passado mineiro, promovendo uma conexão mais profunda com as raízes culturais do estado. Dornas Filho se destacou não apenas por suas contribuições literárias e históricas, mas também por seu empenho em promover a inclusão das mulheres nas atividades acadêmicas da AML.
Oscar Dias Corrêa — foi um professor, jurista, ministro de Estado, parlamentar, magistrado e escritor cujo trabalho abrangia tanto o direito quanto a literatura. Sua abordagem multidisciplinar trouxe uma perspectiva única à AML, onde suas contribuições são lembradas tanto pela erudição jurídica quanto pela sensibilidade literária. Corrêa é celebrado por suas análises críticas e sua habilidade em entrelaçar as complexidades do direito com as sutilezas da literatura.
Miguel Augusto Gonçalves de Sousa —também é um personagem presente na literatura mineira. Sua obra se caracteriza por uma linguagem lírica e introspectiva, trazendo contribuições significativas. Na AML, Sousa é apreciado não só pelo seu empenho na promoção da cultura literária, mas também por participar ativamente na divulgação da história itaunense.
A participação desses escritores itaunenses na Academia Mineira de Letras reforça a missão da instituição de ser um polo irradiador de educação, inclusão e cidadania. Eles não apenas enriqueceram o panorama literário e cultural, mas também ajudaram a fomentar um ambiente de diálogo e aprendizado contínuo. A AML continua a honrar o legado desses autores, promovendo eventos, publicações e iniciativas que incentivam a leitura, a escrita e a apreciação das artes, fortalecendo assim o tecido cultural e educacional de Minas Gerais e do Brasil.
Mário Gonçalves de Mattos (1891-1966)
“ A Academia vale como uma das instituições fundamentais de Minas, porque existirá enquanto houver na nossa gente o culto da literatura, o amor da arte e o valor do pensamento. Centro de estudo e preservação da vida cultural, aqui se apurará com o tempo a tradição mineira pelo cuidado da língua, pela nossa vocação humanista, pela poesia da terra, pela função mediadora de minas em relação a unidade da Pátria”. (Discurso 13/05/1950)
João Dornas Filho (1902 - 1962
“Aqui estou para integrar-me na fortuna do vosso convívio, as mãos vazias de merecimento, mas repleta a alma do desejo de ser, entre os menores, o mais diligente dos confrades.” (Discurso: 31/05/1952)
Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza (1926 - 2010)
".... Sou o quarto itaunense, por ordem cronológica, a chegar aos umbrais desta Casa, precedido e seguindo os ilustrados passos de João Dornas Filho, Mário Gonçalves de Mattos e Oscar Dias Corrêa, seguramente as mais altas expressões intelectuais de minha terra natal, fato de que confessadamente me ufano. ” (Discurso: 22/10/1991)
Um trem da RMV — Rede Mineira de
Viação — descarrilou entre as estações de Angicos e Santanense, resultando na
morte de oito pessoas e deixando mais de cinquenta feridos.
O acidente ocorreu
devido ao excesso de velocidade, com três vagões descarrilados. O maquinista
fugiu após o ocorrido. O resgate dos corpos durou doze horas, com algumas
vítimas presas entre as ferragens. A maioria dos passageiros estava a caminho
de assistir a um jogo de futebol em Itaúna.
Parentes das vítimas acenderam
fogueiras nas proximidades enquanto aguardavam o reconhecimento dos corpos. A
RMV atribuiu a principal causa do acidente à inadaptação dos velhos carros ao
novo traçado da linha.
O desastre aconteceu quando o
trem entrou em alta velocidade numa curva. O acesso ao local era difícil, o que
complicou os esforços de resgate. O pânico se espalhou entre os passageiros
após o descarrilamento, com muitos tentando fugir.
Oito pessoas foram
identificadas como mortas, incluindo funcionários da RMV, um gerente de banco e
um jogador de futebol juvenil. Alguns passageiros deixaram familiares,
incluindo crianças órfãs. Os feridos foram levados para o hospital de Itaúna,
incluindo um menino chamado Gerson, cujos pais não foram encontrados.
O prefeito de Carmo do Cajurú
prestou homenagem a um amigo falecido, enquanto uma mulher que estava no trem
foi recebida pelo marido na estação com o corpo da esposa. Um conferente da RMV
e um jovem jogador de futebol estavam entre os mortos. Um relatório sobre as
causas do desastre foi preparado, mas não divulgado. O fiscal que estava no
trem escapou ileso e planeja relatar o incidente à direção da empresa.
*Nota: Este resumo é baseado no
texto original do trágico acidente, onde os leitores podem verificar com mais
detalhes a reportagem feita na época.
BELO HORIZONTE, 21 (UH) — Oito
pessoas morreram, e mais de cinquenta ficaram feridas, no desastre ocorrido na
tarde de domingo, entre as estações de Angicos e Santanense, quando o trem
elétrico da RMV — Rede Mineira de Viação — de prefixo PB-3, que saiu de
Divinópolis às 13:30h com destino a Belo Horizonte, teve três vagões
descarrilados, por excesso de velocidade. O maquinista, L.H. fugiu, ao
flagrante.
Só na madrugada de ontem — doze horas
depois do desastre — a turma do socorro conseguiu retirar os cadáveres que estavam
imprensados entre as ferragens. Um casal morreu abraçado, deixando órfãos um menino
de quatro anos e uma menina de dois. Uma criança, de 4 anos, está internada no
Hospital de Itaúna, mas não sabe dizer os nomes de seus pais que estavam no
trem PB-3. Algumas enfermeiras já querem criá-lo, caso seus pais não apareçam.
A maioria dos passageiros ia de
Divinópolis para Itaúna, assistir ao jogo de futebol do Guarani contra o
campeão da 1ª Divisão. Enquanto esperavam o guindaste suspender o vagão onde
estavam imprensados os mortos, parentes das vítimas acendiam fogueiras nas
proximidades, aguardando o momento do reconhecimento dos corpos. A direção da RMV
— Rede Mineira de Viação — diz que a causa principal do desastre é a inadaptação
dos velhos carros ao novo traçado da linha.
O DESASTRE — O desastre
ocorreu às 14:20h, quando um trem elétrico, de prefixo PB-3, entrou em alta
velocidade numa curva disfarçada. Pessoas que viajavam no elétrico afirmam que,
desde a estação de Divinópolis, o trem PB-3 estava em alta velocidade. O local
é de difícil acesso, pois não possui estrada de rodagem, o que prejudicou muito
a ida da turma de socorro. Depois do descarrilamento do primeiro vagão, o
pânico se estabeleceu dentro dos outros, levando muitos passageiros a pularem
fora. O choro de algumas crianças contrastava com os pedidos de socorro dos
mais velhos, que se encontravam imprensados, entre as ferragens.
DESTINO — O prefeito de
Carmo do Cajurú, Sr. João da Mata Nogueira, oi ver o cadáver de seu amigo de
infância Elísio Guimarães, que era gerente do Banco da Lavoura em Passa Tempo.
Não resistiu e lágrimas desceram de seus olhos, quando se aproximou do corpo de
Teresa Guimarães de Oliveria, esposa de seu amigo Elísio. O casal deixa dois
filhos menores, ainda não sabem da morte de seus pais e acreditam que eles
estão fazendo uma longa viagem. Elísio Guimarães tinha 36 anos, e vinha a Belo
Horizonte para uma consulta médica.
Uma visita de consolo à uma
comadre foi o que levou dona Maria José de Carvalho, a Divinópolis. Lá ficou um
dia e, na estação daquela cidade, despediu-se dizendo “até a próxima semana”.
Seu marido, o operário Francisco Pereira de Carvalho, esperou-a na estação de
Bernardo Monteiro, recebendo o cadáver sob os olhares curiosos de alguns
desconhecidos. Sua vizinha, mulher do Sr. José Diniz, viajava ao lado de dona
Maria José, e diz que ela foi valente até na hora da morte: Pedia que seus
filhos fossem amparados, e gritava para ser retirada dali.
MÉDICO
— Olavo dos Santos era conferente da RMV, e queria chegar domingo à noite a
Belo Horizonte. Quando os gritos e choro das mulheres e crianças, saltou do
trem em busca da salvação, e isso para ele significou a morte. Sua morte foi
sentida por todos os ferroviários da região, pois Olavo dos Santos era muito
estimado pelos colegas.
O SONHO — No caminho, o
jovem de 20 anos, Dionísio ia contado ao seu companheiro de poltrona alguns dos
seus sonhos: queria servir ao Exército e depois ser jogador profissional do
Guarani, time de futebol que defendia como juvenil. Seu irmão, José Pedro da
Silva foi busca-lo, depois de morto, chorando. Como torcedor do Guarani,
Dionísio viajava para assistir ao jogo com o time de Itaúna. Já o sr. Joaquim
Lopes Goulart, não teve parentes para chorar sua morte. Não sabiam que ele era
um dos passageiros do PB-3. A polícia tirou de seus bolsos uma carteira contendo
Cr$ 1.500,00 cruzeiros, um relógio que marcava a hora do desastre — 14h 20m —
uma penca de chaves e uma caneta.
INQUÉRITO — A Rede Mineira
mandou transportar os corpos para as casas de seus parentes, e deu toda a
assistência às famílias das vítimas. O delegado de Itaúna, Afonso de Figueiredo
Murta, acompanhado do Sargento Antônio Ferreira e de dois soldados, permaneceu
no local até às 3 horas da madrugada, quando os trabalhos foram suspensos. O
engenheiro Jôfre Loureiro ali esteve durante o dia e a noite, dirigindo os
trabalhos de remoção dos cadáveres e concerto da linha. O diretor da RMV, o sr.
Roberto Carneiro, compareceu ao local do desastre, e disse que o inquérito vai
mostrar quais foram as causas do acidente, para que os responsáveis sejam
punidos.
O MENINO GERSON — Um
menino pretinho, com aparência de quatro anos, chorava muito no hospital de
Itaúna, chamando por seus pais. Os médicos e as enfermeiras, não sabem explicar
como o menino Gerson foi parar sozinho no Hospital. Apresenta queimaduras na
cabeça e num dos braços. O menino não diz os nomes de seus pais, e grita sempre
por “mamãe”. As enfermeiras já gostam dele, e muitas já querem criá-lo caso
seus pais não apareçam.
RELATÓRIO — O fiscal
Cincinato Alves, que viajava no trem PB-3, já preparou um relatório para a
direção da Rede Mineira de Viação, mostrando quais foram as causas do desastre.
Embora nada queira adiantar, o fiscal Cincinato diz que escapou por milagre e
que o trem viajava cheio. Conta que há 38 anos viaja nos trens da RMV, e que
tem três filhos menores.
Referências:
Pesquisa, arte e elaboração: Charles Aquino - Historiador nº 343/MG