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sábado, maio 30, 2026

ROSÁRIO SAGRADO

ROSÁRIO SAGRADO

No ano de 1859, quando o sino da capela ecoava entre os vales e colinas do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, uma pequena menina, chamada Luísa foi batizada, filha de Manuel, pardo e de Joanna, crioula, escravos.

O batismo de Luísa não foi apenas um ato religioso — foi um gesto de afirmação de vida.

A cena, registrada pelo padre João Batista de Miranda, revela mais do que um simples ato de fé: traz também o testemunho de um povo que, mesmo sob privações, mantinha viva sua ligação com o divino.

As mãos que seguraram Luísa sobre as águas batismais eram as mesmas que trabalhavam na terra, construíam paredes, entoavam cânticos e faziam do Morro do Rosário um altar invisível de resistência e esperança.

Naquela colina, onde hoje se ergue a Igreja do Rosário e onde ecoam as vozes do Reinado e do Congado, as lágrimas e as preces de tantas Joannas e Manueis transformaram o solo em território sagrado. O Morro do Rosário tornou-se, desde então, um portal entre o céu e a terra, entre o sofrimento e a liberdade, entre o cativeiro e a promessa de redenção.

As mãos negras entrelaçadas, como na imagem, representam os elos que atravessaram os séculos: mãos que batizaram, coroaram, construíram e rezaram. Cada toque, cada palma aberta sobre o chão, fincou a fé dos ancestrais que fizeram daquele morro um símbolo de comunhão espiritual e memória coletiva.

Hoje, Itaúna guarda no Morro do Rosário não apenas uma paisagem, mas um testamento de fé. Ali, a espiritualidade africana e cristã se fundiram em cânticos, tambores e promessas. E se o nome antigo, Sant’Ana do Rio São João Acima, designava o nascente de um povoado, o nome atual — Itaúna, Pedra Negra — parece carregar o mesmo destino: lembrar que da pedra e da negritude brotou a força da cidade e de sua história.

O Morro do Rosário é, portanto, mais do que um ponto geográfico. É um santuário ancestral, onde a história se ajoelha diante da fé, e onde o tempo se curva em reverência àqueles que, mesmo sem liberdade, jamais deixaram de acreditar.

BATISMO: LUISA

Aos vinte de Agosto de mil oitocentos e cinquenta e nove batizei solenemente a LUISA, filha legítima de MANUEL pardo e de JOANNA crioula, escravos do Alferes José Bernardes de Carvalho. Foram Padrinhos Ilídio Coelho Duarte, e sua cunhada Carlota Nogueira Duarte, e para constar faço este assento”. <O Pároco João Batista de Miranda>.


O texto 'ROSÁRIO SAGRADO' convida o leitor a adentrar uma narrativa construída a partir de vestígios documentais e sensibilidade histórica, na qual o registro de batismo de uma criança escravizada — Luísa — transcende sua dimensão burocrática para revelar camadas profundas de fé, resistência e memória coletiva no antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, atual Itaúna. 

Ao articular o dado arquivístico com uma interpretação simbólica, a narrativa ilumina o papel do Morro do Rosário como espaço de espiritualidade, onde práticas religiosas, ancestralidade africana e experiências do cativeiro se entrelaçam. 

Mais do que reconstituir um episódio, o texto propõe uma leitura sobre a permanência da fé como linguagem de afirmação da vida e como elemento estruturante das identidades sociais e culturais que moldaram a história local.

© ITAÚNA DÉCADAS
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG

 Referências:

História criada inspirada no registro de batismo de 20 de agosto de 1859, lavrado pelo pároco João Batista de Miranda, no antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima (atual Itaúna/MG).

Imagem e vídeo meramente ilustrativos, criados por Inteligência Artificial (IA), simbolizando união, ancestralidade e fé.

Fonte: Livro de Batismos – Arquivo Eclesiástico de Itaúna/MG. "Brasil, Minas Gerais, Registros da Igreja Católica, 1706-2018," database with images, FamilySearch (https://familysearch.org/ark:/61903/3:1:S3HY-6SPS-2TD?cc=2177275&wc=M5NZ-7MS%3A370027101%2C369941902%2C370591301): 23 February 2022), Divinópolis > Santana > Batismos 1858, Dez-1876, Nov > image 7 of 274; Paróquias Católicas (Catholic Church parishes), Minas Gerais. 

quinta-feira, julho 31, 2025

FRANCISCO 1884

HISTÓRIA ESCRAVIDÃO EM ITAÚNA MG

A narrativa a seguir é uma história inspirada em documentos históricos autênticos: os anúncios de jornais do século XIX que buscavam capturar pessoas escravizadas que haviam fugido.

Esses registros, como o publicado em 1884 sobre o jovem Francisco, detalhavam com minúcia impressionante as características físicas e comportamentais das pessoas, revelando não apenas o esforço dos senhores em recapturá-las, mas também as marcas físicas e simbólicas de uma sociedade marcada pela violência e pela desumanização.

Ao construir a história de Francisco, buscamos dar vida a essas linhas secas e burocráticas dos anúncios, imaginando as emoções, os medos, as estratégias de fuga e os encontros humanos que não aparecem nos registros oficiais. 

Não se trata de julgar com os olhos do presente, mas de fazer um exercício de empatia histórica: olhar para o passado com profundidade, entendendo o contexto e reconhecendo as resistências silenciosas e corajosas de tantos homens e mulheres.

Esta é, portanto, uma ficção baseada em vestígios reais. Um convite à memória, à escuta do que os arquivos não disseram por completo e à valorização da luta pela liberdade que moldou a história do Brasil.

 ESPERANÇA DE LIBERDADE

Em outubro de 1884, a Fazenda Medeiros, localizada em Sant’Anna de São João Acima, vivia dias de inquietação. Francisco, um jovem escravizado de 21 anos, tinha desaparecido na calada da noite, deixando para trás apenas um vazio e muitas perguntas. Pardo escuro, de estatura regular, cabelos anelados e uma expressão de determinação que desafiava o destino, ele já não podia mais suportar as correntes invisíveis que o prendiam àquela vida.

Desde cedo, Francisco era conhecido por sua inteligência e habilidade em aprender rapidamente. Apesar do trabalho árduo, ele tinha um espírito forte e alimentava um sonho proibido para muitos: a liberdade. Ele sabia que essa busca era perigosa, mas o desejo de ser dono de si mesmo superava o medo.

Na noite de sua fuga, Francisco aproveitou a escuridão para escapar pelos campos. Guiado pelas estrelas e pelo conhecimento que adquirira ao longo dos anos, ele traçou um caminho rumo às montanhas, onde esperava encontrar abrigo e talvez a ajuda de quilombos. Mas o perigo estava em todos os lugares. Os anúncios espalhados em jornais e a recompensa oferecida por José Ignácio de Mello eram um lembrete constante de que ele era caçado como um animal.

Francisco, porém, era astuto. Para confundir seus perseguidores, adotou o nome de Antônio Modesto e procurou se misturar entre os trabalhadores livres das pequenas vilas pelas quais passava. Sua capacidade de mudar de identidade, bem como sua descrição física marcante,  como a verruga em um dos lados do rosto, tornavam cada dia uma batalha para permanecer oculto.

Nessa jornada, Francisco encontrou aliados improváveis: pessoas comuns que, tocadas pela sua história e coragem, decidiram ajudá-lo. Uma dessas pessoas era Maria Clara, uma jovem viúva que, apesar dos riscos, ofereceu-lhe abrigo e informações sobre rotas seguras. Com o passar do tempo, Maria Clara e Francisco desenvolveram uma conexão profunda, unida pela esperança de um futuro melhor.

No entanto, a rede de caçadores de recompensas estava sempre um passo atrás. Em um momento de tensão, Francisco foi quase capturado ao atravessar uma pequena cidade. Foi salvo apenas graças a um grupo de quilombolas que interveio no momento certo, levando-o para um quilombo escondido nas profundezas da mata.

No quilombo denominado Catumba, Francisco encontrou mais do que proteção; encontrou uma comunidade de resistência, formada por pessoas que, como ele, tinham enfrentado o impensável em busca de liberdade. Lá, ele se tornou um líder, organizando ações para resgatar outros escravizados e lutar contra o sistema que tentava subjugá-los.

Apesar dos desafios, Francisco nunca esqueceu de onde veio nem o preço de sua liberdade. Sua história tornou-se uma lenda entre os quilombolas e as comunidades negras da região. Pouco anos depois, quando a abolição finalmente chegou, muitos se lembraram de Francisco como um símbolo de coragem e resiliência, um homem que enfrentou o impossível para conquistar aquilo que todos têm direito: a liberdade.

Ouro Preto, 27/11/1884

Elaboração: Charles  Galvão de Aquino -  Historiador

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

Ouro Preto, 27 de novembro, 1884 Santana de São João Acima (Itaúna/MG).



sábado, janeiro 12, 2019

MONUMENTO DA MATRIZ

Praça Dr. Augusto Gonçalves, Itaúna (MG)
CONSTRUTOR ITAUNENSE

Argemiro Ferreira da Silva, nasceu em Itaúna em 28 de junho de 1922, filho de Jacinto Ferreira da Silva e Maria Honória Ferreira. Teve cinco irmãos: José Ferreira da Silva; Maria Ferreira da Silva Franco; Vandeir Ferreira da Silva; Teodorico Ferreira da Silva (Sô Dorico); João Ferreira da Silva.

Sua vida profissional começou na construção civil, como aprendiz de seu pai, no soerguimento da atual Igreja Matriz, que teve a obra iniciada em 1934. Não demorou muito e se projetou na construção civil de capacidade e de muito profissionalismo devido ao seu trabalho honesto e de muita seriedade. Seus primeiros trabalhos foram a construção das casas da Vila Aurora na principal rua da cidade, o Colégio Sant’Ana e o Grande Hotel Itaúna.

Construiu também o Reservatório D’Água do alto do Cascalho, as casas populares da Reta de Santanense, o Clube União, o Orfanato de São Vicente de Paula e o monumento em homenagem ao Dr. Augusto Gonçalves de Souza, na Praça da Matriz. De suas mãos também saiu o primeiro prédio itaunense da época, onde fora instalada a Farmácia Nogueira, sendo muitos prédios construídos por ele em Itaúna.

Sua competência profissional o levou a ser conhecido fora dos limites itaunenses, sendo requisitado para trabalhar em Belo Horizonte e Brasília. Ergueu dezenas de prédios, ajudando a construir a bela e majestosa Brasília, nossa capital nacional. Pelo seu bom trabalho foi conduzido à política e se elegeu vereador e presidente da Câmara no mandato do prefeito Célio Soares de Oliveira
Argemiro foi um dos primeiros maçons de Itaúna, junto a grandes nomes de nossa cidade, vindo a falecer em 14 de dezembro de 1970. Nas suas horas vagas, era excelente músico, tocava instrumentos de sopro, sendo uma pessoa alegre e um verdadeiro brincalhão!


REFERÊNCIAS:
Organização e pesquisa: Charles Aquino