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segunda-feira, setembro 07, 2026

SANTANA 1831

História de Itaúna Minas Gerais - censo

As Mãos que construíram Sant'Ana 

Em 1831, Sant'Ana do Rio São João Acima era uma freguesia em transformação.

Pequena em suas dimensões, mas muito mais complexa do que uma simples descrição de seus moradores poderia sugerir.

Naquele ano, homens, mulheres, crianças, trabalhadores livres, pessoas escravizadas e libertas viviam em diferentes núcleos familiares registrados nas chamadas listas nominativas de habitantes.

Esses documentos, produzidos para recensear a população, acabaram preservando algo ainda mais valioso: fragmentos da vida cotidiana de uma sociedade do século XIX.

Entre nomes, idades, cores, condições jurídicas e relações familiares, aparecem também os ofícios.

E são eles que permitem enxergar uma Sant'Ana que muitas vezes permanece escondida quando olhamos apenas para os nomes de proprietários, autoridades e personagens considerados importantes pela memória tradicional.

Havia quem trabalhasse na terra. Havia quem construísse casas, produzisse ferramentas, fabricasse calçados e preparasse roupas.

Havia também mulheres que, dentro de suas próprias casas ou em pequenos espaços de produção, transformavam fibras em fios e fios em tecidos. Eram as mãos que faziam a freguesia funcionar.

Entre os registros ocupacionais, um número chama especialmente a atenção: 284 mulheres aparecem como fiadeiras na amostragem analisada. O dado é extraordinário não apenas pela quantidade, mas pelo que ele revela.

A fiação era uma atividade fundamental para a produção de tecidos e vestimentas. Preparar o fio exigia conhecimento, habilidade manual, tempo e experiência. 

Embora muitas vezes realizado no espaço doméstico, esse trabalho possuía importância econômica e fazia parte de uma cadeia produtiva muito maior.

Essas mulheres não aparecem apenas como integrantes de suas famílias, elas aparecem como trabalhadoras.

Muitas eram negras ou pardas e viviam em diferentes condições jurídicas e familiares. Entre elas estavam mulheres solteiras, casadas e viúvas. Seus registros ajudam a perceber que o trabalho feminino estava profundamente integrado à economia cotidiana da freguesia.

Ao lado das fiadeiras, aparecem também tecedeiras, costureiras, rendeiras e parteiras. São ocupações diferentes, mas que possuem algo em comum: estavam diretamente relacionadas à produção, ao cuidado e à manutenção da vida comunitária. 

A história econômica de Sant'Ana também passava pelas mãos dessas mulheres.

Os registros masculinos revelam outro conjunto de atividades indispensáveis. Havia lavradores, responsáveis pelo trabalho agrícola; jornaleiros, que ofereciam sua força de trabalho em troca de pagamento por jornada; carpinteiros, responsáveis por construir e reparar estruturas de madeira; ferreiros, cuja atividade era fundamental para produzir e consertar ferramentas e objetos de metal; e sapateiros, responsáveis por um dos elementos básicos da vestimenta.

Também encontramos alfaiates, carreiros de bois, pedreiros, oleiros, paneleiros, telheiros, entalhadores, sacristães e mestres de primeiras letras, entre outras atividades.

Cada profissão revela uma necessidade.

O lavrador produzia.

O carreiro transportava.

O ferreiro fabricava e reparava instrumentos.

O carpinteiro construía.

O pedreiro levantava paredes.

O sapateiro produzia calçados.

O alfaiate confeccionava roupas.

A fiadeira preparava o fio.

A tecedeira transformava o fio em tecido.

A costureira dava forma às vestimentas.

A parteira ajudava a trazer novas vidas ao mundo.

Assim, quando reunimos esses ofícios, percebemos uma economia muito mais diversificada do que a imagem de uma pequena freguesia rural poderia fazer imaginar. 

Grande parte desses trabalhadores era formada por pessoas classificadas nos documentos como pretas, pardas, crioulas ou africanas.

Isso é especialmente importante para compreender a formação histórica de Sant'Ana do Rio São João Acima.

A população negra e mestiça não estava presente apenas como força de trabalho nas atividades agrícolas. Ela também participava de diferentes ofícios especializados, da produção artesanal, dos serviços, do transporte e das atividades que sustentavam o cotidiano da comunidade.

Esses registros ajudam, portanto, a superar uma visão simplificada segundo a qual a população negra estaria restrita às atividades mais pesadas ou exclusivamente ao trabalho rural. Os documentos mostram outra realidade.

Mostram saberes.

Mostram profissões.

Mostram especializações.

E mostram pessoas que dominavam técnicas indispensáveis à vida econômica e social da freguesia.

Existe uma dificuldade para quem pesquisa a história do cotidiano: grande parte do trabalho realizado por essas pessoas não deixou monumentos.

Uma igreja pode permanecer de pé durante séculos.

Uma casa antiga pode conservar suas paredes.

Um documento pode preservar o nome de um proprietário.

Mas quem produziu os tijolos? Quem trabalhou a madeira? Quem forjou as ferramentas? Quem costurou as roupas? Quem preparou os fios? Quem conduziu os animais? Quem plantou e colheu? Quem ajudou mulheres durante o parto?

Essas pessoas também construíram Sant'Ana.

Suas obras, entretanto, muitas vezes desapareceram junto com o uso cotidiano.

O que permanece são pequenos vestígios documentais: um nome, uma profissão, uma idade, uma condição jurídica, uma anotação feita há quase dois séculos.

É justamente nesses fragmentos que o historiador pode reencontrar parte dessas trajetórias. As listas nominativas em 1831 não foram produzidas para contar histórias individuais. Seu objetivo era administrativo e estatístico. Mas, quase duzentos anos depois, elas permitem outra leitura.

Quando observamos uma fiadeira, um lavrador, um ferreiro, uma costureira ou um carreiro de bois, não estamos diante de uma simples profissão registrada em uma tabela.

Estamos diante de uma pessoa que possuía conhecimentos, relações familiares, necessidades, estratégias de sobrevivência e um lugar dentro daquela sociedade. Por isso, olhar para Sant'Ana em 1831 significa também olhar para suas mãos.

Mãos negras.

Mãos pardas.

Mãos livres.

 Mãos escravizadas.

Mãos de mulheres e homens.

Mãos que fiavam.

Mãos que teciam.

Mãos que plantavam.

Mãos que forjavam o ferro.

Mãos que trabalhavam a madeira.

Mãos que costuravam.

Mãos que faziam sapatos.

Mãos que conduziam carros de bois.

Mãos que carregavam.

Mãos que construíam.

Mãos que cuidavam.

Eram essas mãos que, todos os dias, davam forma à vida de Sant'Ana do Rio São João Acima. Muito antes de existir a Itaúna que conhecemos hoje, havia uma comunidade sendo construída pelo trabalho cotidiano de milhares de pessoas. 

Conhecer essas histórias é também reconhecer que a formação de nossa terra não foi obra de poucos. Foi uma construção coletiva. E algumas das mãos que a construíram ainda podem ser encontradas, quase dois séculos depois, nas páginas das listas nominativas de 1831.

 

CENSO 1831

@CAMI – COLEÇÃO AFRO MEMÓRIA ITAUNENSE

Pesquisa: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Fonte: Reinado, folclore e cultura popular em Itaúna: o adro do Rosário como território sagrado da memória afrodescendente (2025), p 18-43.

Premiação: Monografia classificada em 1ª Menção Honrosa no Concurso Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular, ano de 2025, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, por meio do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP/IPHAN.


Nota: Imagem meramente ilustrativa, produzida como representação artística inspirada nos trabalhadores, trabalhadoras e ofícios registrados nas listas nominativas de 1831. A composição não representa uma cena histórica específica, mas busca evocar a diversidade do trabalho e a participação da população negra e parda na formação econômica e social da antiga freguesia de Sant'Ana do Rio São João Acima.

 

domingo, março 24, 2024

COMÉRCIO TRANSATLÂNTICO

Censo em 1831 Sant'Ana do Rio São João Acima (Itaúna/MG)


Dia 25 de março — "Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos" é reconhecido pelas Nações Unidas. Esta data significativa serve como um lembrete dos esforços globais em curso para erradicar as injustiças enraizadas no comércio de escravos. Enfatiza também o papel crucial da educação no reconhecimento do profundo impacto deste acontecimento histórico na nossa sociedade moderna e na abordagem das suas consequências duradouras. Ao longo da história, mais de 15 milhões de indivíduos, incluindo homens, mulheres e crianças, foram transportados à força através do Atlântico.
    Numa mensagem de vídeo, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, enfatizou a importância de honrar a memória dos milhões de indivíduos afrodescendentes que suportaram as atrocidades da escravatura e do comércio transatlântico de escravos. Salientou ainda que este comércio estabeleceu e perpetuou um sistema mundial de exploração que persistiu durante mais de quatro séculos, devastando profundamente famílias, comunidades e economias.
    Ao refletir sobre a resiliência daqueles que sofreram sob a crueldade dos traficantes e proprietários de escravos, Guterres reconhece as contribuições significativas feitas pelos indivíduos escravizados para a cultura, o conhecimento e as economias dos países para os quais foram transportados à força. Embora o comércio transatlântico de escravos tenha terminado há mais de dois séculos, o chefe da ONU reconhece que as ideologias prejudiciais da supremacia branca que o alimentaram ainda persistem hoje.
    Guterres sublinha a necessidade urgente de desmantelar as consequências duradouras da escravatura e do comércio transatlântico de escravos, combatendo ativamente o racismo, a injustiça e as desigualdades, e promovendo comunidades e economias inclusivas que proporcionem oportunidades iguais para todos viverem em paz e dignidade.

Secretário-geral da ONU, António Guterres


"Os compartimentos de um navio negreiro. Gravura publicada em 1830 no livro Notices of Brazil in 1828 and 1829, de R. Washl. Domínio público, Arquivo Nacional – Ministério da Justiça".


Saiba mais em: PEDRA NEGRA


Referências:
Organização, texto e arte: Charles Aquino

ONU News: https://news.un.org/pt/story/2021/03/1745582

UFMG Cedeplar - Poplin-Minas

Imagens ilustrativa: Johann Moritz Rugendas

Imagem Ilustrativa: MultiRio – História do Brasil, O tráfico negreiro. 

quarta-feira, abril 13, 2022

CENSO 1831


Em Sant’Ana de São João Acima (Itaúna/MG), freguesia foi dividida em 16 quarteirões, cada um com 25 fogos, totalizando 400 fogos. Em cada fogo[1] fazia-se o levantamento de todos residentes, inclusive filhos casados e escravos.


O recenseamento buscava conseguir os seguintes dados: número de quarteirões em cada freguesia; 25 fogos em cada quarteirão; nome dos habitantes de cada fogo; a qualidade do habitante, se era branco, pardo, preto, africano, crioulo ou cabra; sua condição, se era livre ou escravo; legítimo ou exposto[2]; idade, estado, se casado ou solteiro e ocupação.


A (Brancos), B (Pardos), C (Crioulos), D (Africanos/Pretos):

A: Descendentes de portugueses;

B: Miscigenação brancos/africanos;

C: Filhos de africanos/ pretos nascidos no Brasil;

D: Africanos/pretos nascidos no continente africano e trazidos (à força) em navios negreiros

[1] Casa de residência ou que pertencia à casa ou família, lareira, fogão e por extensão, lar ou domicílio.

[2] Recém-nascido abandonado pela mãe em outra casa; enjeitado. Geralmente eram colocados nas portas das casas, entregues a orfanatos administrados por freiras.  

 

Referências: 

Pesquisa, Organização e Arte: Charles Aquino

Imagens ilustrativas: Johann Moritz Rugendas

Poplin-Minas - UFMG Cedeplarhttp://www.nphed.cedeplar.ufmg.br/poplin-minas-1830/



segunda-feira, maio 10, 2021

CENSO ITAÚNA 1920





FONTE:

 

Nºde chamada:058.7:631(815.1) -R382r Complemento 1: OR ISBN: Obra rara. ID:16312

Título: Relação dos proprietarios dos estabelecimentos ruraes recenseados no Estado de Minas Geraes / Ministerio da Agricultura, Industria e Commercio, Directoria Geral de Estatistica. Local: Rio de Janeiro. Editor: Typ. da Estatística. Ano: 1924. Descrição física: 3v. Notas: GE00004913-8.

Resumo: Coletânea de resultados do censo de 1920, contendo número de estabelecimentos, nome do proprietário e do estabelecimento, por município. Obra em quatro volumes, a Biblioteca possui os volumes 1, 2 e 3. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=216312


Pesquisa: Charles Galvão Aquino




quinta-feira, novembro 21, 2019

CENSO 1831



A freguesia foi dividida em 16 quarteirões, cada um com 25 fogos, totalizando 400 fogos. Em cada fogo[1] fazia-se o levantamento de todos residentes, inclusive filhos casados e escravos.

O recenseamento buscava conseguir os seguintes dados:

Número de quarteirões em cada freguesia; 25 fogos em cada quarteirão; nome dos habitantes de cada fogo; a qualidade do habitante, se era branco, pardo, preto, africano, crioulo ou cabra; sua condição, se era livre ou escravo; legítimo ou exposto[2]; idade, estado, se casado ou solteiro e ocupação.

BRANCOSA
843
MULATOSB
869
CRIOULOSC
552
PRETOSD
448
AFRICANOSE
45

TOTAL

2.757

A: Descendentes de portugueses;
BMiscigenação brancos/africanos;
CFilhos de africanos ou pretos nascidos no Brasil;
D: Africanos trazidos em navios negreiros contrabandeados;
E: Nascidos no continente africano trazidos em navios e registrados.



[1] Casa de residência ou que pertencia à casa ou família, lareira, fogão e por extensão, lar ou domicílio.

[2] Recém-nascido abandonado pela mãe em outra casa; enjeitado. Geralmente eram colocados na portas das casas, entregues a orfanatos administrados por freiras.  


Referências:

Fonte/texto impresso: ITAÚNA: Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa: Itaúna em Detalhes. 2003, p.22.

Fonte: http://www.nphed.cedeplar.ufmg.br/

Acervo: Shorpy ( Fotografia meramente ilustrativa)

Pesquisa & Organização: Charles Aquino

sexta-feira, outubro 25, 2013

ITAÚNA: CENSO 1831

Mapas de População
Santana do Rio de São João Acima 
( Itaúna MG )


BRANCO
AFRICANO/PRETO
CRIOULO
PARDO
SEM INFOR.
HOMEM
425
353
281
420
0






MULHER
419
135
274
450
4






TOTAL
844
488
555
870
4







(Clicar na imagem para ampliar)



Referências: 

Fonte : Cedeplar - UFMG  

Pesquisa e Organização: Charles Aquino