domingo, abril 09, 2017

NECA FISCAL

FAMÍLIA EM ITAÚNA -  FERROVIA
 Neca Fiscal...
era um senhor singular. Poucas pessoas sabiam seu nome. A maioria desconhecia a sua atividade. Era fiscal. Despachava em um escritório debaixo do Automóvel Clube. Era o bastante.
Muitos o conheciam como Sô Neca. Extrema ironia. Desculpem-me o trocadilho. Um Sô Neca casado com D. Syrene. Um paradoxo.
Ao que tudo indica, viviam felizes. Tinham três filhos. Dois homens — Roberto o mais velho. Oto foi meu colega de curso primário. Tinham também uma filha, Nicéia. D. Sirene, se a memória não me falha era professora de piano. Coisa fina. Para moças prendadas.
Neca Fiscal foi o introdutor do basquete em Itaúna. Tão logo terminada a quadra polivalente na Escola Normal, obra do dr. Guaracy, coube ao Sô Neca ensinar a arte da bola ao cesto aos jovens de Itaúna. Seu filho Oto era um atleta nato. Não do basquete. Foi campeão mineiro de vôlei. Pelo Minas Tênis Clube.
Outra singularidade de Neca Fiscal — tinha cachorros de raça. Bem diferentes. Num tempo no qual na cidade só se via os cachorros chamados "cabeçudos", que deram origem posteriormente ao Fila Brasileiro, os chamados veadeiros, cães magros e velozes, usados nas caça de veados e os vira-latas. 
Sô Neca tinha cachorros da raça boxer. Como o desconhecimento era geral, todo mundo dizia que ele criava buldogues. Objeto de admiração. Morava num casarão na rua Direita, na boca do beco da Caridade. Quem passava por lá, espreitava para conseguir divisar os tais cachorros.
A vida corria tranquila até que um dos cães apareceu doente. Neca Fiscal deu remédio e nada. Botou o cachorro no carro do Chico do Vítor e tocou para Belo Horizonte atrás do dr. Giovane, veterinário de fama, apesar de paraguaio de nascimento.
Sem chance. Sem diagnóstico e sem tratamento. Sô Neca voltou para Itaúna e na viagem ouviu o conselho do Chico do Vitor, chofer de praça muito rodado, conhecedor de Itaúna e redondezas.  —" O Neca: prás bandas do Córrego do Soldado, tem um curandeiro que é tiro e queda. Se quiser, antes de te levar em casa, te levo até lá. Quem sabe? 
Revigorado com a sugestão do motorista, Neca Fiscal ficou aliviado. Mal entraram em Itaúna, rumaram para a estrada de Itatiaiuçu, no caminho da casa do curandeiro. Em pouco tempo, a Chevrolet 1950 do Chico já estava na porta do casebre do benzedor. Desceram os dois. Chico do Vitor se encarregou da apresentação do visitante e do problema. 
O velho benzedor não se fez de rogado. — De imediato disse: "pode trazer o bicho." Ao ver o cão disse : "Cachorro fromoso, deferente. Num vai sê difici cura. "
Pegou de um ramo de arruda, benzeu o cão, mastigou algumas rezas entre os dentes e disse ao aflito Neca Fiscal: "O bichinho tá sem cume, quando chega em casa e de fome, da cumida e coloca esse pozinho. Na hora que coloca, fala o nome de dois preguiçoso de Itaúna."
Neca Fiscal respirou aliviado. Quis saber quanto era o trabalho. O benzedor disse-lhe para dar uma esmola bem boa para Nossa Sra. do Rosário dos Pretos. Sô Neca agradeceu, pediu benção ao curandeiro e se arrumou no banco do Chevrolet, junto com seu cachorro. 
Chegando em casa botou o cão na casinha, arrumou a comida do bicho, colocou o pozinho e falou bem alto: " Wilson Alemão e Jorge Turquinho." 
De imediato o pobre bicho esticou as canelas. Enfarte fulminante. Neca Fiscal ficou desolado. No dia seguinte bem cedo, procurou Chico do Vítor, contou-lhe o ocorrido e tocaram para o Córrego do Soldado a procura do benzedor.
Lá chegando Sô Neca esbaforido contou para o curandeiro a morte do cachorro e pediu explicações. Sem se alterar, o benzedor lhe perguntou: "Vosmecê fez tudo cumo falei? Deu cumida. Deu pozinho? Qual nomes de mintiroso vosmice falo?
Neca Fiscal repetiu os nomes: "Wilson Alemão e Jorge Turquinho". Daí que o curandeiro exclamou: " Vosmice mato o cachorro. Isso é remédio prá cavalo, num é pra cachorro!!!

 A história do basquete é verídica. Dos cachorros também. Do curandeiro é mentira!!!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 03/04/2017. Organização: Charles Aquino


BIOGRAFIAS: NECA FISCAL & DONA CYRENE

Manoel Gonçalves de Carvalho: Nasceu em BH no dia 15 de fevereiro de 1907 e faleceu em 30 de novembro de 2000, em Itaúna. Ele era conhecido como Neca Fiscal, devido ao cargo de Fiscal de Rendas. Foi um dos fundadores da Loja Maçônica Itaúna Livre. Construiu, quase que sozinho, o campo do Esporte, hoje Estádio “Manoel Gonçalves de Carvalho”, que pertence à Universidade de Itaúna. 
Foi treinador de basquete e vôlei, e o filho Oto se destacou na Seleção Juvenil Brasileira de Voleibol. Foi o primeiro itaunense criador de cães de raça, proprietário do Canil Pedra Negra. Seus cães eram admirados em todo Brasil.

Cyrene Morávia de Carvalho: Muito contribuiu com a educação musical de Itaúna pois foi a primeira mulher a tocar piano em bailes, no Clube que ficava na casa de Luiz Fagundes, na Rua Silva Jardim. Também foi a primeira professora de piano de Itaúna, ensinando sua arte para centenas de itauneneses. 
Fazia parte de um Coro que cantava nas de igreja e casamentos, com um instrumento que era conhecido como Harmônio, junto com Zezé Dornas, Hermínio Corradi, Duzolina Corradi e tantos outros. Como professora de piano organizava audições em casa e no Clube União.

BIOGRAFIAS: Revista Cidade de Itaúna.
Cidade de Itaúna - Edição III / Personalidades de Itaúna, Vile Ed, 2003., p.21.
Redação: Guaracy de Castro Nogueira / Geovane Vilela
Coordenação Editorial e de Pesquisa: Conceição Lopes
Revisão: Guaracy , Professor Miranda e Geovane Vilela

Mais sobre a vida de Dona Cyrene: As organistas da Matriz de Sant’Ana - < http://itaunaemdecadas.blogspot.com.br/2016/08/as-organistas-da-matriz-de-santana.html >.

Pesquisa e Organização: Charles Aquino

SANTANENSE x ITAUNENSES

FUTEBOL - BAIRRO SANTANENSE-ITAÚNA/MG
Clube Atlético Souza Moreira 1961


EM PÉ: Zagalo, Xavante, (nome), Eurípedes, Mário da Cica, Zé dos Lima e Romeu.

AGACHADOS: Luizinho, Zé Boneco, Zuis, Nelson do Lico e Dalzinho. 

 ORIGEM: Bairro Santanense / Cidade Itaúna MG

Acervo Fotográfico: Dimas, Willian Douglas


A rivalidade dos naturais de Santanense com os itaunenses era quase centenária. Afinal, o bairro Santanense tinha vida própria. A fábrica de tecidos era pioneira. A luz elétrica também. Tinha Grupo Escolar, Campo Futebol, Igreja e empregos. Promovia seus bailes nos quais as moças do lugar definitivamente não dançavam com os rapazes de Itaúna. Aliás, era temerário os moços da sede irem à noite em Santanense. Se ficassem muito "aprumados", era briga e surra.
Pior era com o futebol. Se havia jogo da "matriz" com a " filial", podia apostar: briga na certa!!!
Dia de domingo. Jogo em Itaúna, no campo do Zé Flávio. Chamado pomposamente de Estádio. Naqueles tempos, não tinha sequer alambrado. A torcida assistia ao jogo em pé, nas beiradas do campo. Também não tinha vestiário. Os atletas já vinham "montados", prontos para a peleja. Todo mundo aboletado na carroceria de caminhões. Time e torcida. Uma festa.
O jogo transcorreu sem muitos incidentes. Caneladas de lado a lado. Campo sem grama. Uma poeira danada. Um baita calor e as torcidas cada vez mais acaloradas. Jogo empatado até quase o final. O time do Zé Flávio era aguerrido e o de Santanense não menos. Até que um beque (naquele tempo zagueiro tinha esse nome) aprumou o atacante do Zé Flávio em plena área.
Pênalti, sem apelação. Confusão. Empurra, empurra, palavrões, torcida exaltada e briga generalizada. No meio da confusão, uma facada e um morto.
De imediato a briga parou. Os de Santanense apanharam o defunto, botaram ele deitado na carroceria de um dos caminhões e subiram no veículo, prontos para irem embora com o enorme prejuízo. Levavam um morto, mas, não perderam o jogo.
Antes de se mandarem, eis que surge o Delegado. Figura ímpar. De nome Sebastião Dias Duarte, apelidado " Tiao Secreta ". Bebia muito. Sempre de terno escuro era delegado de "calça curta" denominação que se dava aos delegados que não eram bacharéis e supriam a falta desses em caso de vacância. O seu efetivo policial era minúsculo. Um cabo e dois praças. O cabo era o "Pedro Soldado", que foi promovido e passou a ser chamado de Cabo Pedro Soldado. O outro, magro e desajeitado tinha o apelido de Pluto. Lembrava bem o cachorro do Pateta. Do terceiro não me lembro o nome. Sei que era um baixinho invocado.
O delegado, bem cheio de cana, mandou o cabo parar o caminhão e disse com autoridade, segurando a dentadura: "Cabo: você e os praças vão apontar quem estava na briga. Eu vou mandar descer do caminhão. Depois de identificados, vamos tocar pra delegacia, lavrar a ocorrência, já com todos os quesitos formulados. Entendido? "
O diminuto contingente assentiu às ordens do chefe e começou a ladainha — "Aquele lá tava na briga"; O delegado dizia: "Desce ". E um a um iam descendo os de Santanense.
Tudo ia muito bem e a turma de brigões já somava uns vinte, quando o cabo apontou para o Tinho, exímio raspador de tacos e aplicador de sinteco, dono de um papo de fazer inveja. — "Delegado: aquele papudo lá também tava na briga"
De imediato, antes do delegado manda-lo descer o Tinho respondeu: " Na briga eu tava, mas papudo é a P.Q.P.!!!!
Foi a senha para a briga começar de novo. Por pouco não morre mais um!!!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 04/04/2017. Organização: Charles Aquino


CACHAÇAS ITAUNENSE

CRÔNIAS E HISTÓRIAS EM ITAÚNA MG
CACHAÇAS ITAUNENSE E UMA BEBIDA SINGULAR

Na minha juventude bebi muito. Mais do que devia. Se não deixasse a "marvada" ela teria me consumido. Acordei a tempo. Outros amigos não fizeram o mesmo. "Viajaram antes do combinado". Uma pena.
Na nossa época bebia-se muito. Uisque era coisa muito rara. Comum mesmo era vinho vagabundo, de marca "Vênus", vermutes e cachaça. Era " amansada " com limão, fernet, groselha, vermute ou coca cola. Todas as combinações eram péssimas.
Itaúna, se bem me lembro existiram três boas cachaças — A cachaça Cabecinha no Ombro, produzida na Fazenda dos Chaves, um pouco acima da Barragem do Benfica. Tinha uma bela cachoeira na qual se apanhava lambaris com a mão. 
Engenho e alambique. Garapa e cachaça quente para quem se arriscasse. Dava uma lombeira!!!; A cachaça Princesinha era engarrafada na beira da linha num prédio que ainda existe. Dos irmãos Batista. Hélio e Jairo. 
Infelizmente, já se foram; A cachaça Marieta, era a melhor de todas. Pinga afamada, feita pelo Lázaro Coutinho lá pelas bandas da nascente do córrego da Praia. Pinga cara e rara. Bebi dela poucas vezes.
No título, mencionei uma Bebida Singular. Quando criança, via falar dela e a vi algumas vezes nas prateleiras da Petisqueira, do Bar Azul e do Bar Sant'Ana. Garrafas quadradas, iguais às do uísque Johnnie Walker
No rótulo amarelo, um cachorro São Bernardo. Chamava-se Água Vida. Diziam que era feita por um suíço, numa destilaria de nome São Bernardo. Uma alusão ao cão que salva pessoas na neve e a terra natal do homem.
Tempos depois, parece-me que o homem parou a produção. Não sei se morreu ou se mudou da cidade. A bebida era na realidade uma acquavit, uma espécie, de gin ou vodka, dupla ou triplamente destilada, sem cheiro e sem cor. 
Diziam que era muito forte. Muitos a bebiam misturada com guaraná ou soda limonada. A destilaria era num prédio onde funcionou posteriormente, muitos anos depois a Rádio Clube de Itaúna. Por ser sem gosto e sem cheiro, a tal Água Vida caiu nas graças de muitos. Dizem as más línguas que a danada vitimou uma geração. A ser comprovado!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 08/04/2017. Organização: Charles AquinoAcervo: Shorpy

OLHA O PAU BENEVIDES!!!

TAXI EM ITAÚNA MG -  HISTÓRIA E MEMÓRIA
Benevides Garcia era fotógrafo e chofer de praça de Itaúna. Naquele tempo não se usava falar em taxista. Não existia o tal taxímetro nem em cidade grande. 
Tampouco se nomeava alguém de motorista. Chofer era mais chique. Vinha do francês, Chauffer, língua mais elegante.
Tinha um carro de marca Ford e modelo Mercury — preto. Estacionava quase na saída da Travessa Arthur Vilaça, localizado na praça, a poucos metros de sua casa e de seu estúdio de retratista. 
Fazia corridas para as redondezas e as vezes, lotações para Belo Horizonte.
Em uma dessas ocasiões eu esperava o ônibus dos irmãos Lara para a Capital, quando estacionou do meu lado o Benevides com três matutos dentro do Mercury. Indagou-me: O rapaz, vai pra Belo Horizonte? 
Respondi que sim e ele disse-me que estava fazendo uma lotação para a Capital. Iria cobrar o mesmo preço do ônibus. Se não me interessava. Respondi assertivamente e de imediato apareceu outro interessado. Lotação completa. Pagamento adiantado e toca para BH.
A estrada até Juatuba não era muito diferente. De terra batida, passava por dentro de Azurita, de Mateus Leme e o mesmo trecho da atual MG 050, naqueles tempos, MG O7. Margeava a ferrovia. 
Em Juatuba, demandava caminho para Vianópolis, passando por um lugarejo de nome Ponte Nova, onde atravessava o Paraopeba. Ponte estreita, para um só veículo. Na margem esquerda um velho e pequeno cemitério.
Um pouco a frente, chegava-se a Vianópolis. Chega de chão e poeira. Começava o calçamento. Pé de moleque. Proeza de Benedito Valadares, que tentou e não conseguiu calçar a estrada de Belo Horizonte a Pará de Minas, seu reduto eleitoral.
Em Vianópolis, existiam umas casas, um bar, uma venda e um posto da polícia militar com uma cancela de madeira. Após a cancela, entrada para Esmeraldas e caminho para Betim.
Os três capiaus estavam no banco de trás do carro. Pelo visto, nunca tinham passado por ali de automóvel. Ao verem que o Benevides não diminuía a marcha, os três em coro falaram para o chofer: " Olha o pau Benevides"!
Tanto eu, quanto o outro passageiro sabíamos que a cancela permitia a passagem de veículos menores. Só impedia ônibus e caminhões. Ficamos impassíveis e o motorista continuou sua marcha. Mais trinta metros e o aviso veio de novo do banco traseiro: " Olha o pau Benevides"!!!
Benevides Garcia continuava impávido ao volante de seu Mercury. Carro robusto, de motor possante de seis cilindros. Tempo de gasolina importada, muito boa. Ao verem que o retratista chofer não atendia ao apelo os aflitos matutos gritaram a plenos pulmões: “OLHA O PAU BENEVIDES !!!!!!!
E imediatamente agacharam no chão do carro para não terem as cabeças apanhadas pela cancela. O sério retratista, de pouca conversa e de riso, teve de estacionar o carro. Ataque de riso que o impedia de dirigir.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 05/04/2017. Organização: Charles Aquino



CAUSOS DO URTIGÃO

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

   URTIGÃO: Causos de Itaúna é uma coletânea de histórias narradas por José Silvério Vasconcelos Miranda, que usava o pseudônimo URTIGÃO. Miranda viveu em Itaúna durante as décadas de 1950 e 1960, e sua obra reflete as peculiaridades e personagens dessa época. 

    O pseudônimo "URTIGÃO" também é associado a um personagem dos estúdios de Walt Disney, criado por Dick Kinney e Al Hubbard. Este Urtigão, conhecido como “Hard Haid Moe”, é um caipira mal-humorado que vive afastado da sociedade. Contudo, este “Urtigão” é bem-humorado e totalmente integrado nos causos da sociedade itaunense!!!

   Organizado por Charles Aquino, "Causos do Urtigão" são crônicas que retratam com humor e nostalgia o cotidiano de Itaúna. Cada “causo” aborda diferentes aspectos da vida na cidade, destacando figuras pitorescas e eventos memoráveis. Essas crônicas não apenas entretêm, mas também preservam a memória de uma época e de uma comunidade, celebrando a cultura e os personagens de Itaúna. Aqui estão alguns dos “causos” mais notáveis:





























* URTIGÃO (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nos anos 50 e 60 (In Memoriam). 


© ITAÚNA DÉCADAS
Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Arte e concepção:
Charles Galvão de Aquino
Historiador — Registro Profissional nº 0000343/MG


sábado, abril 08, 2017

SENHORA SANT'ANA 1952

PRAÇA MATRIZ DE ITAÚNA MG
VENERÁVEL IMAGEM DE SENHORA SANT'ANA


Para intensificar cada vez mais a devoção a nossa padroeira Senhora Sant’Ana, resolvi fazer uma peregrinação com a venerável imagem, percorrendo toda paróquia. Dia 27 de Abril às 10 horas partiu em uma caminhonete enfeitada e acompanhada de automóveis e caminhões, a virgem antiga de Sant’Ana em direção ao Córrego do Soldado.
Acompanhando a banda de música “Santa Cecília”. Teve uma recepção estrondosa. Em seguida houve missa e procissão. De 27 de abril a 26 de julho a imagem percorreu os seguintes lugares —    ora de carro, ora nos ombros: Campos, Lopes, Garcias, Vista Alegre, Fazenda dos Coelhos, Brejo Alegre, Pedra, Fazenda das Braúnas, Fazenda dos Campo Redondo, Carneiros, Paulas, Calambau, Vargem da Olaria, Vila Padre Eustáquio, Vila Mozart, Bairro da Piedade, Bairro das Graças, Santa Casa e Santanense.
Dia 26 de julho em carro triunfal acompanhada de inúmeros automóveis, ladeada de fila de motores, deu entrada na Praça da Matriz a venerável imagem de nossa querida padroeira — Sant’Ana.
Itaúna, 1952
Pároco José Ferreira Netto

FONTE: LIVRO TOMBO Nº 02/1948 – 1992: Paróquia de Sant’Ana de Itaúna, p. 21, 22.
PESQUISA E ORGANIZAÇÃO: Charles Aquino.
ACERVO FOTOGRÁFICO: Professor Marco Elísio Chaves Coutinho

CHOFER DO CARRO DE PRAÇA

CHOFER DO CARRO DE PRAÇA EM ITAÚNA

O chofer do carro de praça era um gentleman! Sempre bem alinhado, muitas vezes de terno com um quepe à cabeça e o mais importante, disposição sempre para choferar pelas ruas — calçadas ou empoeiradas!
O chofer ou chauffeur, era destinado ao transporte de passageiros, viajando “a qualquer hora, em qualquer lugar”.
 No município de Itaúna na década de 60, para ser um chofer de praça, era somente ir a prefeitura e obter uma licença, o qual, recebia uma placa de cor vermelha para fixar na parte dianteira do carro.
No dia 20 de maio do ano de 1961, chegava em Itaúna um jovem com carro de marca Chevrolet ano 1948.  Emplacando todos os requisitos, Ernani José dos Santos, começou a trabalhar como chofer de praça.
O "carro de praça" em Itaúna, era um “acessório indispensável” para várias situações, entre as mais solicitadas estariam: Os traslados de noivos até a porta da Igreja para o enlace matrimonial, crianças para receberem o sacramento do batismo acompanhados dos pais e padrinhos, chamadas de emergência para o hospital, atendimentos médicos a locais distantes, entre outros.
O "chofer de praça" Ernani, era um dos poucos que usava seu carro para transportar passageiros até a capital mineira. Com uma velocidade de quase 70 km por hora e sempre com o carro revisado, Ernani fazia viagens para “Aparecida do Norte” durante o ano. Vários foram estes serviços prestados à comunidade e cidades adjacentes.
Em Itaúna, existiam pouquíssimos carros, porém, a frota de chauffeurs conseguia atender bem a demanda. O ponto estratégico à espera de passageiros, era em torno da praça à sobra das Caesalpinia férrea.
 Benevides Garcia, também era chofer de praça e fotógrafo. Ernani diz que ele foi um grande “companheiro de praça”. Quando Benevides tinha o compromisso da fotografia e não podia atender ao chamado do cliente para transportá-lo, imediatamente o serviço era realizado por Ernani.
Foram exatamente 29 meses de serviços prestados a comunidade itaunense e região, entre os anos de 1961 a 1963, que Ernani José dos Santos trabalhou como chofer de praça. Em seu escritório ainda guarda com grande orgulho as fotografias de seu Chevrolet 1948, que lhe rendeu muitas histórias. Ao ver uma fotografia de vários choferes da década de 60 da praça de Itaúna, imediatamente informou os nomes com brilho nos olhos:  Cordomar Silveira, Klebão do sinhô, Júlio da Zurica, Valtinho Antunes Ari Antunes e Francisco Fernandes (Chico do Vítor).
Ernani José dos Santos foi uns dos que fizeram e ainda continua fazendo história em terras itauneneses.


FONTE:
DATA DA ENTREVISTA: 05 de abril de 2017.
DURAÇÃO: 59 minutos.
LOCAL:  Esfera Estamparia de Ferro e Aço Ltda. / Sala de recepção da empresa.
CIDADE: Itaúna/MG.
ENTREVISTADO: Ernani José dos Santos
ENTREVISTADOR: Charles Aquino
INTERMEDIAÇÃO/INDICAÇÃO:  Professor Arnaldo de Souza Ribeiro, indicou e intermediou o encontro com o senhor José dos Santos, o qual, foi possível conhecê-lo e realizar a entrevista.
ACERVO FOTOGRÁFICO:  Ernani José dos Santos

quinta-feira, abril 06, 2017

SETE ANÕES EM ITAÚNA

ITAÚNA MINAS GERAIS -  ESCOLA
OS SETE ANÕES EM ITAÚNA 
*Urtigão
A vida das professoras primárias e das diretoras de grupo escolar era dura. Nada de verbas de qualquer espécie para merenda escolar. O dinheiro tinha de ser angariado com rifas, tômbolas, jantares festivos e contribuições de pais de alunos mais abastados.
Havia uma diferença dos dias de hoje. Só recebiam merenda os alunos comprovadamente pobres. Normalmente era sopa, bem rica, de macarrão "goela de pato" com carne picada, legumes, etc. Se não era macarrão, era um belo engrossado de fubá, comprado no moinho do Serjobes. Tinha broa de fubá, broa de canjica com melado de rapadura, broa feita com coalhada. Quem fazia a merenda era a Merendeira, uma funcionaria destacada para a função. Os outros alunos, " não pobres" levavam merenda de casa.
Lembro-me bem de um teatro organizado pelas professoras do Grupo Escolar " José de Melo", onde fiz o primeiro ano primário. Coisa bem-feita. 
A peça teatral apresentada foi a história da Branca de Neve e os Sete Anões, com números de canto e dança, orquestra de violões e violinos de uns ciganos estabelecidos em Itaúna. Eles eram ciganos fixos. Tinham uma fábrica de máquinas de moer carne. Tinham fama de bonitões e as professoras solteiras suspiravam por um deles. Por azar delas, só se casavam com mulheres “ciganas”.
Ia me esquecendo de dizer: as apresentações foram no antigo Cine Sant'ana, na rua Silva Jardim. Espetáculo com ingresso pago. O dinheiro arrecadado serviria para reforçar a Caixa Escolar.
Os ciganos tocavam de graça, bem como, todos os "artistas" se apresentavam sem cachê. Fantasia também por conta dos pais. Já narrei em outra parte deste blog que eu e meu irmão mais velho, éramos nanicos. Ele foi escolhido para ser o Zangado. Fazia bem o seu tipo. Baixinho, marrento e enfezado. Eu era de boa paz. Deram-me o papel de Feliz. Entrávamos no palco, com pás e picaretas nas costas a cantar as canções conhecidas de gerações e gerações. Barbas de algodão a fazer cócegas e todos nós compenetrados da responsabilidade que nos cabia.
Na casinha bem arrumada, encontramos Branca de Neve, adormecida, encantada pela feiticeira invejosa. Era bonita. Se não me falha a memória, o papel coube a Eleusa Moreira, já desaparecida. Um alvoroço entre os anões. O chefe era o Irdevan Nogueira, dava ordens com precisão.
Branca de Neve jazia na cama, adormecida para sempre. O que fazer. Aflição, clima de " barata voa"!!!!!
Nos contos de fada, sempre há final feliz. Eis que surge o Príncipe Encantado, vestido de veludo azul, com alamares e botões dourados. Chapéu com plumas, parecendo um mestre sala de escola de samba, tamanha a imponência. Era o Aires Bastos. Muito branco, com a palidez realçada pela luz indireta e pelas roupas azuis. Beija a Branca de Neve no rosto e o feitiço desaparece.
Aplausos retumbantes. Mesuras e mais mesuras para a plateia. Fecham-se as cortinas. As palmas não cessam. Os toscos artistas reaparecem. Mais aplausos. As mães orgulhosas " lambem as crias”. Nada de assobios e os gritinhos histéricos tão comuns nas apresentações atuais. Sucesso absoluto. Três dias de casa lotada. Só não houve prorrogação da temporada em razão de compromissos dos donos do cinema com as distribuidoras de filmes.
Um segredo: para os artistas mirins o que fez sucesso mesmo foram as maçãs. Coisa tão rara no interior que foram mandadas buscar em Belo Horizonte. Compradas num empório de nome" Estâncias California". Ficava na escadaria dos edifícios Sulacap e Sulamerica.
A cada anão, coube uma maçã à guisa de cachê. Embrulhadas em um papel azul, vermelhas e perfumadas. Uma beleza.

*Urtigão é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Tudo que narrei acima é verdade. É meio piegas, mas sai um pouco do "modelo" Urtigão! Organização: Charles Aquino.  Crônica escrita e enviada especialmente para o Itaúna Décadas em 06/04/2017.

segunda-feira, abril 03, 2017

ESCOLA NORMAL ITAÚNA: MICTÓRIO

MUNICÍPIO DE ITAÚNA MG- ESCOLA
A MEDIDA DO MICTÓRIO

Urtigão*

O dr. Guaracy era uma figura admirável em todos os aspectos. Ao assumir o cargo de diretor da Escola Normal, de imediato botou mãos à obra para modernizar o educandário. O banheiro dos rapazes só tinha privadas. Dr. Guaracy resolveu que o lugar tinha de ter também um mictório.
Servia mais estudantes ao mesmo tempo, mais fácil de limpar e gastava menos água. Coisa sem luxo. De cimento queimado, uma torneira para ser aberta de tempos em tempos para escorrer o " xixi " e um ralo no final da instalação. Contratou os pedreiros e só tinha uma dúvida. A altura exata mictória, em declive, que pudesse servir a todos os estudantes.
Eu estava na primeira série ginasial e meu irmão Antônio de Pádua, já na terceira série. Éramos, sem nenhum favor, os dois menores alunos do ginásio. Eu media exatos 1,29 m e meu irmão, por sinal, mais velho do que eu, 1, 27 m. Na medida para tirar a dúvida do diretor. Meu irmão passava na porta do vetusto prédio na rua Arthur Bernardes indo buscar carne no açougue do Juca, quando foi chamado pelo dr. Guaracy – Padinha, (esse era o apelido dele no ginásio) venha até aqui!
Meio desconfiado, meu irmão foi até o diretor e se colocou ao seu dispor.  De imediato foi levado até o mictório em obras e lá atendeu ao pedido do dr. Guaracy:  Faça de conta que você vai urinar na parede. Qual é a altura ideal, sem fazer esforço! Meu irmão atendeu o pedido e fez a   simulação. Feito isso, os pedreiros marcaram a altura. E a Escola Normal ganhou um mictório sob medida e à prova de reclamações.
 O fato é verídico e aconteceu no início de 1955. A história é verdadeira. Meu irmão é agrônomo e fará setenta e cinco anos em maio. Era o xodó dos professores. Ele entrou no ginásio antes de fazer onze anos. Baixinho, bom de cabeça e de briga. Depois crescemos. Não muito!!!

* Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nos anos cinquenta e sessenta. Crônica escrita e enviada especialmente para o blog Itaúna Décadas em 01/04/2017. Organização: Charles Aquino

Acervo: Shorpy