domingo, abril 16, 2017

GASOLINA E O CAIXÃO

HISTÓRIAS E CAUSOS EM ITAÚNA MG

Sou de um tempo no qual o único transporte para a zona rural de Itaúna, eram os caminhões leiteiros. Percorriam as fazendas e retiros recolhendo os latões de leite para serem entregues na Cooperativa Velha, que ficava na beira da linha da Rede Mineira de Viação.
Traziam o leite e levavam coisas, incluindo gente que vinha na Sede para comprar sortimento, tecidos, ir ao médico e em tempos de festas religiosas, acompanhar procissões, ir a rezas, pagar promessas e se divertir nas quermesses.
Naqueles tempos não existia proibição de viajar na carroceria. Todo mundo se arranjava no lugar da carga e lá iam comendo poeira, os homens segurando o chapéu e as mulheres as saias, por causa do vento. Velocidade pouca: estrada de terra e buraqueira não dava pra passar dos trinta por hora. Uma exceção era Itatiaiuçu. Para o principal distrito da cidade, sempre tinha caminhão de minério. Vazio na ida e cheio na volta. Todos os dias da semana.
Gasolina era o apelido de um lavador de carros e caminhões que trabalhava no Posto do Bossuet Guimarães. Nunca soube seu nome verdadeiro. Era o Gasolina e bastava para quem o conhecia. Prestativo, trabalhador e de boa paz. Cor indefinida, confundida na sujeira de seu trabalho. Óleo, graxa, barro, terra de minério ajudavam a moldar o personagem. Uma figura. Era bem conhecido, quase um tipo popular.
Num sábado, depois de dois aperitivos e uma marmita reforçada acedeu a um convite de um carreteiro para ir até o "Tatiaio". Não ia carregar minério. Levava umas encomendas para uma mineração e entre outras coisas, um caixão para um defunto lá do distrito. Não teve tempo de tomar banho e trocar de roupa. Faria isso na volta. Era sábado, podia tomar mais umas cachaças em Itatiaiuçu e na chegada tomar banho no posto e trocar de roupa.
Devido a sujeira, não quis ir na boleia. Preferiu a carroceria. Mais fresco, com vento na cara, podendo se esparramar à vontade no meio das tralhas, ao lado do caixão.
Logo que saíram da Vila Mozart, perto da fazenda do Zé Herculano, começou a chover forte. Gasolina não se apertou. Abriu o caixão, acomodou-se o melhor que pode, fechou a tampa e pouco depois " ferrou no sono". Efeito dos aperitivos, do cansaço e da boa marmita.
Mais um pouco a frente, o caminhoneiro parou e deu carona para algumas pessoas que iam para o Córrego do Soldado. Três homens, duas mulheres e dois moleques adolescentes. Gasolina continuava a dormir, fechado no caixão.
Alguns quilômetros depois, passada a Cachoeira dos Chaves, já sem chuva e com céu limpo, Gasolina acordou. Abriu a tampa do caixão de uma vez só e com os braços abertos, ainda assentado no ataúde, abriu os olhos e a boca com os dentes muito brancos.
Feito isso, fez menção de se levantar, já falando em voz alta e rouca:
" Eta ferro, parece que dormi demais!!!!"
Ainda com o caminhão andando, só houve tempo dos passageiros da carroceria pularem na poeira e rolarem no cascalho. Defunto feio levantando do caixão e ainda “estrumunhando”, nunca viram.
Muitos arranhões, roupas rasgadas, e nada de mais grave. De nada adiantou o dono do caminhão ter parado o veículo mais na frente e tentado correr atrás dos caronas que já sumiam no " provisório".
Lucro quem teve foi Gasolina: recebeu muitas missas por intenção de sua alma, mandadas rezar pelos caronas. Continuou a viver por muitos e muitos anos.

O Gasolina existiu de verdade. Era um boa praça. O caso é verídico.


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 14/04/2017. Organização: Charles Aquino

quinta-feira, abril 13, 2017

ITAÚNA:SEMANA SANTA 1898

SANT'ANA DE SÃO JOÃO ACIMA

Tivemos o prazer de hospedar durante os dias da festa da Semana Santa aos Revmos. Padres Euzébio Nogueira Penido, Domingos Ferreira Martins e José Marinho; o primeiro digno vigário de Itatiaiuçu, o segundo de Mateus Leme e terceiro do externato municipal da cidade do Pará.

Estes preclaros sacerdotes vieram acolitar o nosso digno e estimável vigário padre Antônio Maximiano de Campos durante os festejos da Semana Santa, e que depois de uma curta demora entre nós, regressaram a suas residências, deixando gravados em nossos corações os mais gratos sentimentos de simpatia que angariaram de todos quantos tiveram a ventura de tratar de perto com tão ilustres sacerdotes. Retiraram-se deixando-nos a grata reminiscência dos dias que com eles tivermos a felicidade de passar.

Estiveram deslumbrantes os festejos da Semana Santa nesta localidade. Às 7 horas da noite de quarta-feira de trevas, depois do sermão do pretório em que o Revmo. Vigário Antônio Maximiano de Campos fez mais uma vez ouvir a sua eloquentíssima palavra em uma ligeira e lindíssima alocação análoga ao ato.

Saia da Igreja dos Passos a linda procissão do Senhor dos Passos que seguiu na maior ordem possível até ao encontro, onde o ilustrado e Revmo. Padre Domingos Ferreira Martins, do alto da tribuna sagrada derramou em lindíssimas palavras comoventes e cheias de fé o seu eloquente sermão, que foi geralmente apreciado.

O Revmo. Padre Martins mostrou a sua muita proficiência e o seu vasto conhecimento de história santa, mostrando diversos pontos e fazendo comparações em uma linguagem sã e cheia de virtudes.

A procissão da Santíssima Virgem que vinha ao encontro, estava sumptuosíssima — duas alas em que aproximadamente se encontravam cento e oitenta virgens, todas na melhor ordem seguiram a imagem que parecia contemplá-las e à sua candidez.

Seguia-se a procissão e ao entrar na matriz orou o digno e Revmo. Padre José Marinho, honra de sua classe, em um brilhante e sublime discurso, burilado pelo seu muito saber; narrou a vida de Cristo fazendo comparações que pareciam saídas dos lábios do Divino Mestre.

Quinta-feira, no mesmo horário do dia anterior, saía da matriz a procissão de Dores, essa tocante e bem ornamentada. Era calculado superior a seis mil o número dos devotos, filhos do cristianismo que prestavam justa e respeitada homenagem à Santíssima Virgem.

A imagem era conduzida por quatro virgens e estava colocada em um rico e bem ornado andor. Percorreu as ruas de seu trajeto e chegada que foi à matriz. Usou da palavra, o nobre orador sacro o Revmo. Padre José Marinho que não menos que no dia antecedente mereceu os aplausos dos ouvintes.

Às 7 horas da noite de sexta-feira da paixão assomou à tribuna sagrada o lustrado Revmo. Sr. Padre Domingos Martins. As últimas palavras caídas dos lábios do Redentor ao gênero humano, foram as primeiras d’aquele preclaro sacerdote — Consumatum est; foi esse o tema do Revmo. Padre Martins.

E depois, conforme o seu discurso ia ordenando assim, e foram os apóstolos procedendo a tão linda e solene, quão tocante e sublime cerimonia do descimento da Cruz, àquele que exalou o último suspiro almejando a nossa salvação.

O Revmo. Padre Martins coordenou uma série de pensamentos tão tristes e em palavras tão repassadas de dor que os ouvintes derramaram copiosas lágrimas. Dalí seguiu-se a procissão cuja numerosidade e aglomeração de devotos era incalculável.

Todas as procissões foram feitas com a maior pompa e respeito possível e foram a acompanhados pelo Revmo. Padre Euzébio Nogueira Penido.

Sábado de aleluia houve missa cantada pelo Revmo. Padre Nogueira Penido acolitado pelos digníssimos padre Antônio Maximiano de Campos e José Marinho. Meu voto de louvor, pois, à comissão encarregada dos festejos, que forma verdadeiramente dignos de encômios.

Correspondente do Jornal Gazeta de Oliveira, 14/04/1893.


Pe. Antônio Maximiano de Campos


FONTE & TEXTO: GAZETA DE OLIVEIRA. ANO XII. Nº 554, DOMINGO 1 DE MAIO DE 1898, p.2.
PESQUISA e ORGANIZAÇÃO: Charles Aquino
ACERVO: IHP - Instituto Histórico de Pitangui / Prof. Marco Elísio
FOTOGRAFIAS: Padre Antônio Maximiano de Campos / Igreja Matriz de Itaúna

quarta-feira, abril 12, 2017

ITAÚNA: AULA DE FRANCÊS

ESCOLA ESTADUAL ITAÚNA MG - FRANCÊS

O professor Geraldo Santos meu professor de francês no curso ginasial. A língua de Victor Hugo, Moliere, Emile Zola, Balzac e outros clássicos era ensinada de imediato, assim que chegávamos ao ginásio. O inglês, que me perdoem os francófilos, sem dúvida a língua mais rica entre todas, só chegava para os ginasianos na segunda série.
O professor era paulista. De Ribeirão Preto. Contava maravilhas de sua terra e ninguém ousava contesta-lo. São Paulo era outro mundo. Lembro-me que tecia elogios inflamados a um fruto de nome tamarindo. 
Muitos anos depois fui apresentado a tal iguaria. Minha mulher nasceu em Uberaba e passou a maior parte de sua infância em São José do Rio Preto. Vizinha de Ribeirão. Ela também dizia adorar a tal fruta. Confesso: no meu sentir, uma bela porcaria. Azedo e com pouco proveito. Fazer o que.
Tirando a empáfia paulista, o professor Geraldo era boa gente. Nunca soube porque razão deu com os costados em Itaúna. Fincou raízes, casou-se com D. Nívea Santiago, teve filhos e creio, também netos. 
Era bom professor. Severo, gozador e às vezes “cáustico”. Nos dias de hoje, de tempos politicamente corretos, certamente seria processado por assédio moral. Outros tempos e outros costumes.
Do pouco que ainda sei de francês, devo a ele. Serviu até (e como) nos meus tempos de hotelaria. Dava para me virar muito bem. 
Os professores do meu tempo sempre tinham uma forma de atropelar os maus alunos e mesmo os " tirados " a sabichões com frases que davam a entender uma coisa e ao serem traduzidas, levavam a outro significado. Umas das preferidas de nosso saudoso professor era a seguinte:

"Je n'importe que le mulle manque, je vais vous rosetter";

Tradução do aluno: eu não me importo que a mula manque. Eu quero é rosetar!!!

Tradução correta: não me importo que faltem os mariscos, eu que e vos condecorar!!!

* Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Se houver alguma incorreção no francês, as minhas desculpas. Já se passaram sessenta e dois anos.  "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 12/04/2017. Organização: Charles Aquino

Imagem: meramente ilustrativa

terça-feira, abril 11, 2017

OSSOS NAS ONDAS DO RADIO

ESCOLA ESTADUAL DE ITAÚNA MG

Prof. William Leão, nunca soubemos se era sírio ou libanês. Naquele tempo, todos os imigrantes vindos do Oriente Médio, na voz do povo eram turcos. A confusão se dava por uma razão simples. Antes da Grande Guerra de 1914/18, toda a região pertencia ao Império Turco-Otomano. Todos que vinham de lá tinham passaporte turco. Daí a denominação comum que recebiam.
William Leão era tão brasileiro ou mais do que qualquer um de nós. Seu pai, o velho Leão José viera daquelas bandas. Nunca soubemos se da Síria ou do Líbano. O professor William era também cirurgião dentista. 
Morava num belo sobrado na Praça dr. Augusto Gonçalves, esquina de rua Silva Jardim. Lá também tinha o seu gabinete dentário. Lecionava Ciências Naturais, matéria obrigatória a partir da terceira série do ginásio. Atualmente, acho que tem o nome de Biologia. Dá no mesmo.
Era tenente da reserva. Nas solenidades notadamente no Sete de Setembro, botava farda e ficava garboso assistindo o desfile do Tiro de Guerra 80, dos estudantes da Escola Normal e do Ginásio Santana, ao lado de outras autoridades.
Era político. Vereador dedicado e vice-prefeito em várias gestões, incluindo a administração pioneira de Milton Penido, que conseguiu dar a Itaúna um título inédito: foi eleita uma das dez cidades de maior progresso no Brasil. 
Bom professor, amigo dos alunos e sabedor da matéria. Tive a honra de substitui-lo por um breve período no final de 1962, na Escola de Contabilidade. Curso noturno. Era engraçado dar aula para meus companheiros de farra. Deu certo.
Do mestre William Leão, contava-se o seguinte caso: em uma prova final de Ciências, uma das perguntas, aliás, bem simples, pedia que o aluno escrevesse o nome dos dois ossos do braço.
O primeiro da fila de carteiras sabia a resposta e escreveu: cúbito e radio.
O segundo, entre sussurros, pediu-lhe ajuda, ao que ele respondeu entre os dentes: cúbito e radio. Mal entreouvido, o " sabido " escreveu na prova: Rádio Clube;
O terceiro da fila também pediu ajuda e o " sabido " deu-lhe a dica: " Rádio Clube. Mas não coloque igual. Disfarce!!! Prontamente o terceiro escreveu" Emissora de Itaúna!!!!
O quarto e último da fila também pediu ajuda. O terceiro, sem pestanejar disse-lhe: "Emissora de Itaúna”, mas disfarce.
No que foi prontamente atendido pelo quarto aluno, que em triunfo escreveu: os ossos do braço são ZYZ4 !!!!

Sem comentários.


* Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 11/04/2017.  Organização: Charles Aquino

Acervo fotográfico: Professor Marco Elísio Chaves Coutinho

Obs.: Alunos em aula de física e química a cargo do professor William Leão na Escola Normal de Itaúna. Década 60. 
Alguns alunos foram identificados: Irdevan Nogueira Júnior, Artur Bitelo, professor William Leão, Maria Nilse e Dr. Helton.


PROFESSORES & URTIGÃO \o/

ESCOLA EM ITAÚNA MG

Sou de um tempo no qual os professores e professoras eram cultuados. Mereciam dos alunos todo o respeito e admiração e nunca eram contestados. Uma reprimenda, um castigo e uma nota ruim doíam mais do que qualquer mal físico. Principalmente para mim e meus irmãos, filhos de professora.
Tínhamos fama de pequenos gênios. Conversa fiada. Talvez tivéssemos mais informação do que os colegas, em decorrência do hábito da leitura. Ao lado do incentivo à leitura e à cata de informação, em virtude da cegueira prematura de meu pai, fomos habituados a ler o jornal diariamente para ele. 
Desde que soubéssemos ler, obrigação diária. Se claudicássemos nas palavras, Seu Zeca nos fazia consultar o " Pai dos Burros". Desde cedo aprendemos a consultar o velho "Caldas Aulette", manusear o Atlas Geográfico e localizar os países. Quando aprendi a ler, em 1951, a Guerra da Coréia corria solta. Localizar os países e cidades nos mapas era essencial.
No mais, meu irmão mais velho, que tinha nome de general francês, herdado de meu avô paterno, era realmente meio gênio. Se ele podia, os outros também podiam. Com pouco ou mais sacrifício. Tomar bomba era proibido na minha casa. 
Daí a fama de inteligentes que sempre nos perseguiu. Nada demais. Somente um pouco mais de informação e o salutar hábito de boa leitura, mantido até hoje.
Feita a digressão, vamos a narrativa. Um curto perfil de alguns professores de meu tempo de ginásio em Itaúna:  Prof. Oswaldo Chaves — Um padre inacabado. Diziam que por estudar demais e por excesso de religião, viu-se obrigado a deixar o seminário em Mariana. Pouco tempo antes de fazer os votos. Aliás, não era inacabado. Era um padre acabado. Casou-se com uma prima, de nome Ritinha. 
Acredito que tenha feito voto de castidade. Não teve filhos. Não ficava a sós com alunas na sala de aula por dinheiro nenhum. Por este motivo não lecionava no Curso Normal. No seu lugar, dava aulas de português, o prof. Ibsen Drumond
Lembro-me de Gercina Mendes, minha colega de quarta série, que emboscava o prof. Oswaldo no corredor, somente para vê-lo cheio de dedos para se desvencilhar. Sabia muito português e muito latim. Que Deus o tenha. Ensinava muito mal. 
Um poço de sabedoria do qual não podíamos beber, pois o seu didatismo era quase nulo. Cheio de minudencias. Dividia as notas em décimos. Fazia perguntas na sala e oferecia de prêmio a quem acertasse, dois décimos, três décimos de acréscimo na nota do mês. De grão em grão a galinha enchia o papo.
Nas aulas de latim tinha duas perguntas clássicas, feitas ano a ano. Nos pedia para traduzir. Transcrevo as duas:
- Em latim " mater tua mala burra est"
- Tradução do aluno: " minha mãe é uma mala e é burra !!! "
- Tradução correta: " sua mãe come a maçã vermelha"
Outra:
" cor contrictum et humiliatum non dominum despicit "
-Tradução do aluno: couro curtido e molhado nem Deus espicha"
- Tradução correta: o coração contrito e humilhado, Deus não despreza.
Prof. Oswaldo, apesar de ser radicalmente contra jogos de qualquer espécie, ganhou um "Fusca" num concurso de uma loja de Belo Horizonte, de nome A Nacional Magasin". 
O carro lhe foi entregue de maneira solene, na Praça dr. Augusto Gonçalves, em Itaúna. Eu perguntei a ele se ele já sabia dirigir, ao que ele me respondeu: Teoricamente eu conheço tudo do carro. Praticamente, nada sei!!!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 10/04/2017. (Se o latim estiver " perrengue" me perdoem. La se vão mais de sessenta anos).
 Organização: Charles Aquino

segunda-feira, abril 10, 2017

ARTHUZINHO E OS PATOS

FAZENDA ARTHUR VILAÇA - ITAÚNA MG

Arthur Contagem Vilaça era um grande homem e um homem grande. Bom administrador, bom marido, bom pai, bom prefeito e bom cristão. Foi prefeito de Itaúna nos anos quarenta do século passado. Fazendeiro, morava na cidade num casarão com coqueiros na frente, do lado oposto da igreja Matriz de Sant'Ana. De seu tempo, na praça dr. Augusto Gonçalves, restam apenas as duas velhas " Caesalpinia férreas" em frente ao Fórum. Nada mais.

 Bondoso, grande, claro e de cabelos claros, tinha a fazenda cortada pelos trilhos da antiga Rede Mineira de Viação. Abrigava em duas terras um rapaz esperto de nome Artur, conhecido como Arturzinho. Esperto, sempre de chapéu na cabeça, de voz esganiçada, pouco trabalhava. Vinha sempre a cidade. Era conhecido. Quase um tipo popular. Se as crianças o remedavam, respondia sempre com um palavrão. No mais, era inofensivo.

Na mesma fazenda tinha uma lagoa e muitos patos. Uma festa para o rapazinho. De tarde apresentava-se ao patrão e trazia sempre a mesma notícia Sô Arthu, a máquina do trem matô um pato!!!

Seu Arthur Vilaça respondia com bonomia:  matou Arturzinho? Dá para aproveitar alguma coisa?   Poquim Sô Arthur !! Respondia o patrão: então aproveita o que der e coma!

A história se repetia dia após dia. O rapazinho esperto comia pato todo dia. O patrão sabia da "mutreta" e fazia vista grossa. Até que um dia, por motivo de manutenção nos trilhos o trem não passou. Arturzinho desavisado veio com a mesma cantilena Sô Arthur, dá licença. A máquina matô um pato!!  

 Ao que o patrão retrucou: como Artur? Hoje não passou trem?

 Ao que o Arturzinho não se dando por vencido retrucou: não Sô Arthur: o pato morreu afogado!!!!

Seu Arthur Vilaça espantada pergunta ao esperto. Como? Pato morrer afogado?

Resposta pronta do comedor de patos: Sim verdade Sô Arthur. Eu ajudei ele com uma paulada!!!!!


*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 24/03/2017. Organização: Charles Aquino

Acervo:  Instituto Cultural Maria Castro Nogueira/ Patrícia Gonçalves Nogueira / Guaracy de Castro Nogueira (in memoriam).

domingo, abril 09, 2017

NECA FISCAL

FAMÍLIA EM ITAÚNA -  FERROVIA
 Neca Fiscal...
era um senhor singular. Poucas pessoas sabiam seu nome. A maioria desconhecia a sua atividade. Era fiscal. Despachava em um escritório debaixo do Automóvel Clube. Era o bastante.
Muitos o conheciam como Sô Neca. Extrema ironia. Desculpem-me o trocadilho. Um Sô Neca casado com D. Syrene. Um paradoxo.
Ao que tudo indica, viviam felizes. Tinham três filhos. Dois homens — Roberto o mais velho. Oto foi meu colega de curso primário. Tinham também uma filha, Nicéia. D. Sirene, se a memória não me falha era professora de piano. Coisa fina. Para moças prendadas.
Neca Fiscal foi o introdutor do basquete em Itaúna. Tão logo terminada a quadra polivalente na Escola Normal, obra do dr. Guaracy, coube ao Sô Neca ensinar a arte da bola ao cesto aos jovens de Itaúna. Seu filho Oto era um atleta nato. Não do basquete. Foi campeão mineiro de vôlei. Pelo Minas Tênis Clube.
Outra singularidade de Neca Fiscal — tinha cachorros de raça. Bem diferentes. Num tempo no qual na cidade só se via os cachorros chamados "cabeçudos", que deram origem posteriormente ao Fila Brasileiro, os chamados veadeiros, cães magros e velozes, usados nas caça de veados e os vira-latas. 
Sô Neca tinha cachorros da raça boxer. Como o desconhecimento era geral, todo mundo dizia que ele criava buldogues. Objeto de admiração. Morava num casarão na rua Direita, na boca do beco da Caridade. Quem passava por lá, espreitava para conseguir divisar os tais cachorros.
A vida corria tranquila até que um dos cães apareceu doente. Neca Fiscal deu remédio e nada. Botou o cachorro no carro do Chico do Vítor e tocou para Belo Horizonte atrás do dr. Giovane, veterinário de fama, apesar de paraguaio de nascimento.
Sem chance. Sem diagnóstico e sem tratamento. Sô Neca voltou para Itaúna e na viagem ouviu o conselho do Chico do Vitor, chofer de praça muito rodado, conhecedor de Itaúna e redondezas.  —" O Neca: prás bandas do Córrego do Soldado, tem um curandeiro que é tiro e queda. Se quiser, antes de te levar em casa, te levo até lá. Quem sabe? 
Revigorado com a sugestão do motorista, Neca Fiscal ficou aliviado. Mal entraram em Itaúna, rumaram para a estrada de Itatiaiuçu, no caminho da casa do curandeiro. Em pouco tempo, a Chevrolet 1950 do Chico já estava na porta do casebre do benzedor. Desceram os dois. Chico do Vitor se encarregou da apresentação do visitante e do problema. 
O velho benzedor não se fez de rogado. — De imediato disse: "pode trazer o bicho." Ao ver o cão disse : "Cachorro fromoso, deferente. Num vai sê difici cura. "
Pegou de um ramo de arruda, benzeu o cão, mastigou algumas rezas entre os dentes e disse ao aflito Neca Fiscal: "O bichinho tá sem cume, quando chega em casa e de fome, da cumida e coloca esse pozinho. Na hora que coloca, fala o nome de dois preguiçoso de Itaúna."
Neca Fiscal respirou aliviado. Quis saber quanto era o trabalho. O benzedor disse-lhe para dar uma esmola bem boa para Nossa Sra. do Rosário dos Pretos. Sô Neca agradeceu, pediu benção ao curandeiro e se arrumou no banco do Chevrolet, junto com seu cachorro. 
Chegando em casa botou o cão na casinha, arrumou a comida do bicho, colocou o pozinho e falou bem alto: " Wilson Alemão e Jorge Turquinho." 
De imediato o pobre bicho esticou as canelas. Enfarte fulminante. Neca Fiscal ficou desolado. No dia seguinte bem cedo, procurou Chico do Vítor, contou-lhe o ocorrido e tocaram para o Córrego do Soldado a procura do benzedor.
Lá chegando Sô Neca esbaforido contou para o curandeiro a morte do cachorro e pediu explicações. Sem se alterar, o benzedor lhe perguntou: "Vosmecê fez tudo cumo falei? Deu cumida. Deu pozinho? Qual nomes de mintiroso vosmice falo?
Neca Fiscal repetiu os nomes: "Wilson Alemão e Jorge Turquinho". Daí que o curandeiro exclamou: " Vosmice mato o cachorro. Isso é remédio prá cavalo, num é pra cachorro!!!

 A história do basquete é verídica. Dos cachorros também. Do curandeiro é mentira!!!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 03/04/2017. Organização: Charles Aquino


BIOGRAFIAS: NECA FISCAL & DONA CYRENE

Manoel Gonçalves de Carvalho: Nasceu em BH no dia 15 de fevereiro de 1907 e faleceu em 30 de novembro de 2000, em Itaúna. Ele era conhecido como Neca Fiscal, devido ao cargo de Fiscal de Rendas. Foi um dos fundadores da Loja Maçônica Itaúna Livre. Construiu, quase que sozinho, o campo do Esporte, hoje Estádio “Manoel Gonçalves de Carvalho”, que pertence à Universidade de Itaúna. 
Foi treinador de basquete e vôlei, e o filho Oto se destacou na Seleção Juvenil Brasileira de Voleibol. Foi o primeiro itaunense criador de cães de raça, proprietário do Canil Pedra Negra. Seus cães eram admirados em todo Brasil.

Cyrene Morávia de Carvalho: Muito contribuiu com a educação musical de Itaúna pois foi a primeira mulher a tocar piano em bailes, no Clube que ficava na casa de Luiz Fagundes, na Rua Silva Jardim. Também foi a primeira professora de piano de Itaúna, ensinando sua arte para centenas de itauneneses. 
Fazia parte de um Coro que cantava nas de igreja e casamentos, com um instrumento que era conhecido como Harmônio, junto com Zezé Dornas, Hermínio Corradi, Duzolina Corradi e tantos outros. Como professora de piano organizava audições em casa e no Clube União.

BIOGRAFIAS: Revista Cidade de Itaúna.
Cidade de Itaúna - Edição III / Personalidades de Itaúna, Vile Ed, 2003., p.21.
Redação: Guaracy de Castro Nogueira / Geovane Vilela
Coordenação Editorial e de Pesquisa: Conceição Lopes
Revisão: Guaracy , Professor Miranda e Geovane Vilela

Mais sobre a vida de Dona Cyrene: As organistas da Matriz de Sant’Ana - < http://itaunaemdecadas.blogspot.com.br/2016/08/as-organistas-da-matriz-de-santana.html >.

Pesquisa e Organização: Charles Aquino

SANTANENSE x ITAUNENSES

FUTEBOL - BAIRRO SANTANENSE-ITAÚNA/MG
Clube Atlético Souza Moreira 1961


EM PÉ: Zagalo, Xavante, (nome), Eurípedes, Mário da Cica, Zé dos Lima e Romeu.

AGACHADOS: Luizinho, Zé Boneco, Zuis, Nelson do Lico e Dalzinho. 

 ORIGEM: Bairro Santanense / Cidade Itaúna MG

Acervo Fotográfico: Dimas, Willian Douglas


A rivalidade dos naturais de Santanense com os itaunenses era quase centenária. Afinal, o bairro Santanense tinha vida própria. A fábrica de tecidos era pioneira. A luz elétrica também. Tinha Grupo Escolar, Campo Futebol, Igreja e empregos. Promovia seus bailes nos quais as moças do lugar definitivamente não dançavam com os rapazes de Itaúna. Aliás, era temerário os moços da sede irem à noite em Santanense. Se ficassem muito "aprumados", era briga e surra.
Pior era com o futebol. Se havia jogo da "matriz" com a " filial", podia apostar: briga na certa!!!
Dia de domingo. Jogo em Itaúna, no campo do Zé Flávio. Chamado pomposamente de Estádio. Naqueles tempos, não tinha sequer alambrado. A torcida assistia ao jogo em pé, nas beiradas do campo. Também não tinha vestiário. Os atletas já vinham "montados", prontos para a peleja. Todo mundo aboletado na carroceria de caminhões. Time e torcida. Uma festa.
O jogo transcorreu sem muitos incidentes. Caneladas de lado a lado. Campo sem grama. Uma poeira danada. Um baita calor e as torcidas cada vez mais acaloradas. Jogo empatado até quase o final. O time do Zé Flávio era aguerrido e o de Santanense não menos. Até que um beque (naquele tempo zagueiro tinha esse nome) aprumou o atacante do Zé Flávio em plena área.
Pênalti, sem apelação. Confusão. Empurra, empurra, palavrões, torcida exaltada e briga generalizada. No meio da confusão, uma facada e um morto.
De imediato a briga parou. Os de Santanense apanharam o defunto, botaram ele deitado na carroceria de um dos caminhões e subiram no veículo, prontos para irem embora com o enorme prejuízo. Levavam um morto, mas, não perderam o jogo.
Antes de se mandarem, eis que surge o Delegado. Figura ímpar. De nome Sebastião Dias Duarte, apelidado " Tiao Secreta ". Bebia muito. Sempre de terno escuro era delegado de "calça curta" denominação que se dava aos delegados que não eram bacharéis e supriam a falta desses em caso de vacância. O seu efetivo policial era minúsculo. Um cabo e dois praças. O cabo era o "Pedro Soldado", que foi promovido e passou a ser chamado de Cabo Pedro Soldado. O outro, magro e desajeitado tinha o apelido de Pluto. Lembrava bem o cachorro do Pateta. Do terceiro não me lembro o nome. Sei que era um baixinho invocado.
O delegado, bem cheio de cana, mandou o cabo parar o caminhão e disse com autoridade, segurando a dentadura: "Cabo: você e os praças vão apontar quem estava na briga. Eu vou mandar descer do caminhão. Depois de identificados, vamos tocar pra delegacia, lavrar a ocorrência, já com todos os quesitos formulados. Entendido? "
O diminuto contingente assentiu às ordens do chefe e começou a ladainha — "Aquele lá tava na briga"; O delegado dizia: "Desce ". E um a um iam descendo os de Santanense.
Tudo ia muito bem e a turma de brigões já somava uns vinte, quando o cabo apontou para o Tinho, exímio raspador de tacos e aplicador de sinteco, dono de um papo de fazer inveja. — "Delegado: aquele papudo lá também tava na briga"
De imediato, antes do delegado manda-lo descer o Tinho respondeu: " Na briga eu tava, mas papudo é a P.Q.P.!!!!
Foi a senha para a briga começar de novo. Por pouco não morre mais um!!!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 04/04/2017. Organização: Charles Aquino


CACHAÇAS ITAUNENSE

CRÔNIAS E HISTÓRIAS EM ITAÚNA MG
CACHAÇAS ITAUNENSE E UMA BEBIDA SINGULAR

Na minha juventude bebi muito. Mais do que devia. Se não deixasse a "marvada" ela teria me consumido. Acordei a tempo. Outros amigos não fizeram o mesmo. "Viajaram antes do combinado". Uma pena.
Na nossa época bebia-se muito. Uisque era coisa muito rara. Comum mesmo era vinho vagabundo, de marca "Vênus", vermutes e cachaça. Era " amansada " com limão, fernet, groselha, vermute ou coca cola. Todas as combinações eram péssimas.
Itaúna, se bem me lembro existiram três boas cachaças — A cachaça Cabecinha no Ombro, produzida na Fazenda dos Chaves, um pouco acima da Barragem do Benfica. Tinha uma bela cachoeira na qual se apanhava lambaris com a mão. 
Engenho e alambique. Garapa e cachaça quente para quem se arriscasse. Dava uma lombeira!!!; A cachaça Princesinha era engarrafada na beira da linha num prédio que ainda existe. Dos irmãos Batista. Hélio e Jairo. 
Infelizmente, já se foram; A cachaça Marieta, era a melhor de todas. Pinga afamada, feita pelo Lázaro Coutinho lá pelas bandas da nascente do córrego da Praia. Pinga cara e rara. Bebi dela poucas vezes.
No título, mencionei uma Bebida Singular. Quando criança, via falar dela e a vi algumas vezes nas prateleiras da Petisqueira, do Bar Azul e do Bar Sant'Ana. Garrafas quadradas, iguais às do uísque Johnnie Walker
No rótulo amarelo, um cachorro São Bernardo. Chamava-se Água Vida. Diziam que era feita por um suíço, numa destilaria de nome São Bernardo. Uma alusão ao cão que salva pessoas na neve e a terra natal do homem.
Tempos depois, parece-me que o homem parou a produção. Não sei se morreu ou se mudou da cidade. A bebida era na realidade uma acquavit, uma espécie, de gin ou vodka, dupla ou triplamente destilada, sem cheiro e sem cor. 
Diziam que era muito forte. Muitos a bebiam misturada com guaraná ou soda limonada. A destilaria era num prédio onde funcionou posteriormente, muitos anos depois a Rádio Clube de Itaúna. Por ser sem gosto e sem cheiro, a tal Água Vida caiu nas graças de muitos. Dizem as más línguas que a danada vitimou uma geração. A ser comprovado!

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 08/04/2017. Organização: Charles AquinoAcervo: Shorpy

OLHA O PAU BENEVIDES!!!

TAXI EM ITAÚNA MG -  HISTÓRIA E MEMÓRIA
Benevides Garcia era fotógrafo e chofer de praça de Itaúna. Naquele tempo não se usava falar em taxista. Não existia o tal taxímetro nem em cidade grande. 
Tampouco se nomeava alguém de motorista. Chofer era mais chique. Vinha do francês, Chauffer, língua mais elegante.
Tinha um carro de marca Ford e modelo Mercury — preto. Estacionava quase na saída da Travessa Arthur Vilaça, localizado na praça, a poucos metros de sua casa e de seu estúdio de retratista. 
Fazia corridas para as redondezas e as vezes, lotações para Belo Horizonte.
Em uma dessas ocasiões eu esperava o ônibus dos irmãos Lara para a Capital, quando estacionou do meu lado o Benevides com três matutos dentro do Mercury. Indagou-me: O rapaz, vai pra Belo Horizonte? 
Respondi que sim e ele disse-me que estava fazendo uma lotação para a Capital. Iria cobrar o mesmo preço do ônibus. Se não me interessava. Respondi assertivamente e de imediato apareceu outro interessado. Lotação completa. Pagamento adiantado e toca para BH.
A estrada até Juatuba não era muito diferente. De terra batida, passava por dentro de Azurita, de Mateus Leme e o mesmo trecho da atual MG 050, naqueles tempos, MG O7. Margeava a ferrovia. 
Em Juatuba, demandava caminho para Vianópolis, passando por um lugarejo de nome Ponte Nova, onde atravessava o Paraopeba. Ponte estreita, para um só veículo. Na margem esquerda um velho e pequeno cemitério.
Um pouco a frente, chegava-se a Vianópolis. Chega de chão e poeira. Começava o calçamento. Pé de moleque. Proeza de Benedito Valadares, que tentou e não conseguiu calçar a estrada de Belo Horizonte a Pará de Minas, seu reduto eleitoral.
Em Vianópolis, existiam umas casas, um bar, uma venda e um posto da polícia militar com uma cancela de madeira. Após a cancela, entrada para Esmeraldas e caminho para Betim.
Os três capiaus estavam no banco de trás do carro. Pelo visto, nunca tinham passado por ali de automóvel. Ao verem que o Benevides não diminuía a marcha, os três em coro falaram para o chofer: " Olha o pau Benevides"!
Tanto eu, quanto o outro passageiro sabíamos que a cancela permitia a passagem de veículos menores. Só impedia ônibus e caminhões. Ficamos impassíveis e o motorista continuou sua marcha. Mais trinta metros e o aviso veio de novo do banco traseiro: " Olha o pau Benevides"!!!
Benevides Garcia continuava impávido ao volante de seu Mercury. Carro robusto, de motor possante de seis cilindros. Tempo de gasolina importada, muito boa. Ao verem que o retratista chofer não atendia ao apelo os aflitos matutos gritaram a plenos pulmões: “OLHA O PAU BENEVIDES !!!!!!!
E imediatamente agacharam no chão do carro para não terem as cabeças apanhadas pela cancela. O sério retratista, de pouca conversa e de riso, teve de estacionar o carro. Ataque de riso que o impedia de dirigir.

*Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. "Causo" enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 05/04/2017. Organização: Charles Aquino