terça-feira, janeiro 30, 2018

PRAIA DOS MOINHOS

MOINHOS DO RIO SÃO JOÃO: ITAÚNA/MG
ITAÚNA: Um aspecto pitoresco da Praia dos Moinhos

A história dos moinhos d'água em Itaúna é um fascinante capítulo na trajetória dessa cidade. Nas palavras do historiador itaunense João Dornas Filho, esses moinhos não eram apenas estruturas de moagem, mas centros pulsantes de atividade, onde o milho era transformado em fubá de angu, um alimento essencial na dieta local. Suas cerca de vinte casinhas formavam uma cena pitoresca e vital para a subsistência da população.

A descrição do memorialista Osório Fagundes adiciona uma dimensão poética à imagem dos moinhos, comparando-os a um "bando de garças sobre as águas do açude". Essa analogia evoca uma sensação de harmonia entre a natureza e a atividade humana, onde a engenhosidade humana se funde com a paisagem natural. Já o Professor Marco Elísio Chaves Coutinho nos transporta para essa época em que esses moinhos pontilhavam as margens do rio São João, um testemunho tangível da economia e da vida cotidiana da comunidade.

Esses moinhos d'água não são apenas estruturas físicas, mas símbolos de uma época passada, onde a vida seguia o ritmo das águas do rio São João. Eles representam a habilidade humana de se adaptar e aproveitar os recursos naturais para sustentar a comunidade. A história desses moinhos nos lembra da importância de preservar e valorizar nosso patrimônio histórico, para que as gerações futuras possam entender e apreciar as raízes de sua própria cidade. 

Na freguesia de Sant'Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, aproximadamente final do século XIX, existiram por muitos anos moinhos d’água que ficavam às margens do rio São João. O historiador itaunense João Dornas Filho, elenca que, “era uma série de casinhas, cerca de vinte, onde se moía, o milho para o fubá de angu” e o memorialista Osório Fagundes, informa que, “de longe pareciam um bando de garças sobre as águas do açude”!

O moinho hidráulico de herança europeia, das quais, suas origens alçam ao período helenístico pelo mundo mediterrânico, segundo nos informa o professor Francisco de Carvalho, foi um importante marco nas paisagens rurais do Brasil, seja em grandes fazendas ou em pequenos sítios. No Brasil, a partir do século XVII, irão aparecer registros de moinhos hidráulicos nas colônias, surgindo a fabricação em maior escala, entre o final do século XVIII e início do século XIX devido a importância do milho no sistema de transporte do país que possibilitava a alimentação de pessoas e de animais domésticos.

Entre esses períodos, existiram alguns tipos de moinhos movidos pela energia cinética das águas: Os Moinhos de Água ou de Azenha, que eram movidos por uma roda d´água vertical, mais comuns na região sul do país e os Moinhos Horizontais, conhecidos também como Moinhos de Rodízio, mais comuns nas regiões do centro-oeste e sudeste, tendo como fato excêntrico do século XVIII,  a existência de um moinho de vento na cidade de Ouro Preto, hoje, um patrimônio cultural e natural protegido.

 E foi a partir da grande abundância de águas nos riachos e ribeirões do nosso Planalto Brasileiro, que possibilitou a instalação e o funcionamento de vários moinhos em um mesmo local, conseguindo utilizar a mesma leva d’água.

Discorrendo sobre o funcionamento do moinho de fubá (horizontal ou de rodízio), o carpinteiro, Antônio Barcelos, funcionário da fazenda Ponte Alta do município de Pitangui/MG, explica o funcionamento: seria importante construir uma represa que irá acumular água, ou então, construir um açude, que neste caso, o curso da água poderá ser mudado através de bicas, geralmente feitas de madeira.

 Chegando o volume d´água até ao moinho, a roda horizontal ou rodízio, irá acionar um eixo vertical que estará atrelado ao Mó de Baixo, o qual, o Mó de Cima irá girar triturando os grãos de milhos.

  Abaixo o professor Francisco de Carvalho faz um desenho das peças de um moinho de fubá horizontal.
O Almanak Administrativo, Civil e Industrial da província de Minas Gerais (1875), organizado por Antônio Assis Martins, traz informações sobre Itaúna, o qual, era distrito pertencendo administrativamente a Villa do Pará, hoje Pará de Minas, da comarca de Pitangui, com as seguintes informações: quatro Juízes de Paz; 1 Escrivão; 1 Subdelegado; 3 Suplentes; 1 Pároco; 1 Delegado da Instrução Escolar; 1 Professor Escolar; 3 Inspetores de Quarteirão; 5 Oficiais de Justiça; 1 Padre; 1 Boticário; 1 Capitalista; 5 Negociantes de Fazendas; 5 Ditos de Molhados; 9 Tropeiros; 5 Possuidores de Engenho de Cana; 33 Cultivadores de Gêneros Alimentícios; 1 Entalhador; 2 Carpinteiros, 1 Forneiro; 3 Ferreiros; 2 Oleiros; 2 Pedreiros; 2 Fabricantes de Arreios; 3 Alfaiates; 1 Caldeireiro e 2 Estalajadeiros.

Da listagem acima, dos 33 Cultivadores de Gêneros Alimentícios, Serafim Caetano Moreira, seria um dos comerciantes atuantes em Itaúna. Segundo o historiador João Dornas, o primeiro moinho construído na cidade, teria sido o do senhor Serafim, aproximadamente no ano de 1880 e junto desse, foram sendo construídos muitos mais, tendo uma impressão excêntrica de aldeia lacustre. O historiador informa que:

Esses moinhos foram causa de muita briga e muito motim, pois se atribuía ao açude que os movia uma febre maligna no local.  Várias vezes os povos se reuniram, como em 1910 para arrombar o açude, obrigando os seus proprietários e as autoridades a pegarem em armas para defender a s suas propriedades.

Nestes últimos anos, depois que a cidade foi abastecida de força elétrica, esses moinhos foram caindo em ruínas e desaparecendo. E a grande enchente de abril de 1926, a maior que se tem na memória em Itaúna, destruiu o restante dessa pitoresca lembrança de Sant´Ana de São João Acima ... (DORNAS, 1936). 

Em fins do século XIX, parte da família Caetano Moreira se estabeleceram por definitivo no município de Itatiaiuçu na “Fazenda Medeiros”, cujo irmãos, José Caetano Moreira, Manoel Caetano Moreira e Antônio Caetano Moreira, deixaram testamento informando ser naturais da freguesia de Congonhas do Campo e filhos legítimo de Caetano Moreira e Maria da Conceição, todavia, deixaram grande descendência em Itaúna.





REFERÊNCIAS:

FILHO, João Dornas. Itaúna: Contribuição para a História do Município, 1936, p.95 a 97.

FAGUNDES, Osório Martins. Fragmentos de um Passado, 1977, p.624.

ANDRADE de, Francisco de Carvalho Dias. A presença dos moinhos hidráulicos no Brasil. Disponível em:   http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-47142015000100133 .Acesso em: 30/01/2018

ALMANAK: Administrativo, Civil e Industrial da Província de Minas Geraes, 1875, p.396,397,398.

GOMES, Carla Neves Almeida. MORRO DA QUEIMADA – OURO PRETO: os benefícios da categorização paisagem cultural para sua gestão. Disponível em: http://www.forumpatrimonio.com.br/paisagem2014/artigos/pdf/141.pdf . Acesso em: 30/01/2018

Pesquisa, organização e acervo: C. A.

Acervo: Francisco de Carvalho Dias de Andrade.



sábado, janeiro 20, 2018

RUA JOÃO DORNAS

Decreto de Lei 85 L4 - CEP: 35680-335
Denomina logradouro público: Rua João Dornas / Centro - Bairro Graças

Heródoto itaunense ...

No dia 7 de agosto de 1902, nasceu em Itaúna (MG), João Dornas Filho, romancista, contista, ensaísta, historiador e biógrafo. Filho do fazendeiro João Dornas dos Santos – republicano e defensor da emancipação da cidade -  e de Maria Eugênia Vianna Dornas, teve 11 irmãos. Seu amor pela palavra escrita começou na infância, quando trabalhou como tipógrafo.

Amante da literatura e da informação, João Dornas cursou apenas o primário, no Grupo Escolar Dr. Augusto Gonçalves, que foi a base para seu autodidatismo e a aquisição de uma cultura ampla e sofisticada. Para muitos, Dornas Filho era um excêntrico intelectual, que chamavam de Záu. Seus parentes e amigos relatam que ele era “uma pessoa humilde e fácil de se lidar”. Em artigo do Suplemento literário Minas Gerais, denominado “Literatura Mineira: João Dornas Filho e Júlio Ribeiro”, o escritor é assim descrito:

De temperamento extrovertido João Dornas Filho era amigo de toda a gente, boêmio a seu modo, grande trabalhador e pesquisador, aberto a todas as manifestações da beleza e da sensibilidade. Defendia com força e coragem suas ideias, indo à polêmica, se necessário. Um grande exemplo de responsabilidade e autenticidade intelectual (Suplemento Literário, 1977).

Foi nos anos 1920 que Dornas se mudou para Belo Horizonte a trabalho e teve início sua colaboração para os jornais. Na capital mineira, fez amizade com intelectuais e artistas de projeção nacional e internacional, como o pintor Di Cavalcante, que desenhou sua caricatura, hoje uma preciosa relíquia guardada com zelo pela Prefeitura Municipal de Itaúna.

Em 1928, com Guilhermino César e Aquiles Vivacqua, Dornas teve contato com Mário de Andrade e construiu para impulsionar o movimento modernista de Belo Horizonte ao editar o panfletário Leite Crioulo, importante órgão alternativo da imprensa modernista, que repercutiu não só em Minas Gerais, como também em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Em 1945, foi eleito para a Academia Mineira de Letras, ocupando a cadeira nº 12, cujo patrono é Alvarenga Peixoto.  Dornas tentou reformar o estatuto da Academia Mineira de Letras para permitir a entrada de mulheres nas atividades acadêmicas, mas não conseguiu a adesão de seus pares. Considerado um dos mais expressivos filhos de Itaúna, por ter retratado os valores culturais da cidade natal sempre com palavras de admiração e carinho, João Dornas Filho morreu em Belo Horizonte, em 11 de dezembro de 1962.


Itaúna — Contribuição para a história do Município
1936
Silva Jardim
1936
1937
O Padroado e a Igreja Brasileira
1938
1939
Bagana apagada
1940
Apontamentos para a História da República
1941
A Influência social do negro brasileiro
1943
Figuras da Província
1945
Júlio Ribeiro
1945
Eça e Camilo
1945
Antônio Torres
1948
Os ciganos em Mina Gerais
1948
Efemérides Itaunenses
1952
Capítulos da Sociologia Brasileira
1955
O Ouro das Gerais e a civilização da capitania
1957
1958



Dicionário Bibliográfico de Escritores Mineiros, / Constância Lima Duarte, org, Autêntica Ed, 2010, p. 197,198.

Pesquisa e Organização: Charles Aquino

Fotos: Adilson Nogueira, Charles Aquino

Acervo: Câmara Municipal de Itaúna /  Prefeitura Municipal de Itaúna

Fotografia: Adilson Nogueira : Músico, Artista Plástico, Mestre de Cozinha e Fotógrafo profissional. 


quinta-feira, janeiro 18, 2018

PRISÃO NO NOTURNO

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
No meu tempo, no qual as pessoas viajavam de trem, tínhamos diversos tipos de trens, que variavam pela carga, horário, rapidez e conforto. Por Itaúna passavam o Subúrbio (esse exclusivo de Itaúna a BH e vice-versa) o Misto, que carregava passageiros e carga, o Expresso, trem diurno com carro restaurante, poucas paradas, para transporte exclusivo de passageiros e o Noturno. Este, mais sofisticado, tinha carro restaurante, cabines com leitos ou carros com poltronas leito e poucas paradas. Somente nas principais cidades. Assim como o Expresso, era mais rápido. Os dois destinavam-se a viagens mais longas.

 O Noturno, que possuía até camareiros, como o próprio nome indica, só viajava a noite. O carro restaurante era algo a parte. Tinha fogão tocado a lenha ou a carvão, cozinheiro e ajudantes, garçons fardados e às vezes " maitre d'hotel “. Cardápio " a la carte". Coisa chique para poucos.  A bordo do trem vendia-se bebidas. Normalmente, cerveja, vinho, vinho do Porto e conhaque. Servidas por garçons fardados e de gravatas borboleta.

Em Itaúna tínhamos dois Juízes de Direito. A comarca já era importante é somente um não era suficiente. Lembro-me bem de vários e a história que passo a narrar é verídica.

Um dos juízes, de nome Nabor, pai de dois grandes amigos meus, era baixinho, quase minúsculo. Empertigado, sempre de terno e gravata, sanguíneo, eternamente cor de rosa. Chegou em Itaúna em fins dos anos cinquenta e começo dos sessenta do século passado. Já chegou viúvo, com três filhos homens e três meninas. Todos bonitos, claros e rosados. Uma coleção de " biscuits". Miúdos como o pai.

O Doutor Nabor, parece-me que tinha uma namorada em Belo Horizonte e viajava sempre para vê-la. Ia e voltava de trem. A volta, sempre de Noturno. Ia me esquecendo. O magistrado era bom de copo e tinha uma voz tonitruante. Fazia inveja a qualquer locutor. Gostava de cerveja da marca "Portuguesa", fabricada pela Antártica em uma fábrica em Belo Horizonte, onde se localiza hoje o Shopping Oiapoque. Cerveja ruim, engarrafada em cascos verdes.

A preferência em Itaúna era da Brahma Chopp, casco escuro. Doutor Nabor ainda tinha uma preferência estranha. Gosta de cerveja sem gelo. Portuguesa quente, casco verde erapra poucos. O próprio " mijo de égua “.

Numa de suas viagens de volta para Itaúna, o magistrado aboletou-se no Noturno e logo que a composição da Rede arrancou, chamou o garçom e fez o pedido: " por favor, uma Portuguesa, casco verde, sem gelo". O serviçal argumentou que não tinha a cerveja. No entanto, se quisesse Brahma, tinha sem gelo, mas casco escuro. O baixinho era tinhoso e sabedor de suas virtudes como autoridade, pediu para falar com o Maitre. Na sua presença o chefe dos garçons usou dos mesmos argumentos e disse mais. A cerveja pedida vendia pouco e daí a falta dela no estoque. Pedia desculpas, mas nada mais poderia fazer.

Em vista do impasse, o Dr. Nabor mandou que viesse falar com ele, nada mais nada menos do que o Chefe do Trem, autoridade máxima do comboio. Na presença do Chefe, devidamente fardado de azul e apito pendurado no pescoço, o baixinho juiz, já alterado, recitou sua ladainha. Nada feito. A chefe nada podia fazer!!!

Doutor Nabor por fim aquiesceu em beber um conhaque. Bebeu vários e já nas imediações de Mateus Leme, estava vermelho como um peru é bem " tocado".

Pediu mais uma dose é o garçom resolveu dizer-lhe que não lhe serviria mais. Já bebera o bastante. O homenzinho virou um capeta. Proferiu impropérios, xingou a mãe do garçom e aprontou um carnaval. O pobre garçom, que teria uma longa noite pela frente, obrigado a equilibrar-se com o balanço do trem, perdeu a paciência e deu uma bofetada no magistrado. Uma só, o bastante para colocá-lo no devido. Com a esfrega, Dr. Nabor aquietou e recolheu-se ao carro de passageiros, depois de pagar a conta.

Surpresa maior, o baixinho reservou para a equipe do trem, assim que a composição estacionou em Itaúna. Investido de sua autoridade de Meritíssimo Juiz, deu voz de prisão ao Chefe do Trem, ao Maitre e ao Garçon. Reteve todo o Noturno da Rede Mineira de Viação em Itaúna, até que se resolvesse o impasse. Tinha sido desacatado e agredido. Queria e obteve lavratura de atos circunstanciais, boletim de ocorrência, coleta de provas e exame de corpo de delito. Atrasou o trem que ia para Cruzeiro/SP, por três horas.
Abuso de autoridade é coisa antiga no Brasil.

Texto: Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o blog Itaúna Décadas em 03/01/2018.

Organização: Charles Aquino

quinta-feira, janeiro 04, 2018

BANANEIRA

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

CAUSOS DO URTIGÃO

Gosto de metáforas. Costumo comparar os homens e as famílias com as bananeiras. Não pensem que estou a chamar a espécie humana de " banana". É outra história.

A bananeira só dá frutos uma vez. Daí a expressão: " fulano é bananeira que já deu cacho". Vegetal razoavelmente simples, sem a nobreza de uma jabuticabeira ou qualquer árvore de porte, a bananeira, humilde e subalterna, se bem plantada em cova funda, produzirá um belo cacho de frutas, com muitas pencas. Não tem sementes. As mudas crescem ao redor da planta mãe, daí a necessidade de cova funda.

Cortada a primeira e colhidos os frutos, dentro de algum tempo teremos nova planta a produzir. É o ciclo da vida que se repete, perpetuando a espécie. Simples e inteligente. Não requer muitos cuidados. 

Somente boa terra, bom adubo e limpeza ao redor para afastar fungos e pragas. Frutos deliciosos, fartos e nutritivos. No quesito inteligência para ser comido, a banana é imbatível. Portátil, higiênica e bem embalada. Uma campeã.

Voltemos à comparação com os humanos. Em tempos de poucas famílias, de famílias múltiplas e de gêneros iguais, de famílias desfeitas e outras modernices que teimam em impingir aos tradicionais, a banana nos fornece um exemplo único. Produz em cachos, tal como os cocos e as uvas.

Comparemos o engaço do cacho aos chefes da família. Pai e mãe, a reunir a seu redor, filhos, noras, genros, netos, e bisnetos, para os mais longevos. Como acontece com as bananas, alguns frutos se deterioram mais rápido. Descartados, significam uma perda, que não chega a significar o fim da família.

Com o passar do tempo, os membros da família se reúnem de tempos em tempos em torno de pais e mães. São as bananas ao redor do engaço. Ao morrer um dos primitivos, o cacho passa a perder unidade. Com a morte de pai e mãe, a família não se une mais. Como nas bananas, é hora de descartar o engaço. Não serve para mais nada. É o fim de uma família tradicional, como a conhecemos e igual àquela em que fomos criados.

Pensei muito nesta metáfora, no último episódio de doença pelo qual passei. Durante todo tempo tive ao meu lado o núcleo familiar. Mulher, filhos, netos, sobrinhos, primos e até a única tia que tenho a graça de ainda ter.  A presença de entes queridos ao lado do doente o anima a reagir. Como já disse em escrito anterior, o meu filho é um craque. Senhor de todas as " expertises" para cuidar.

 Em tempos de famílias estranhas e esdrúxulas é sempre bom pensar como eu. Que bom ter nascido como as bananeiras. Simples, filho de família tradicional, capaz de render bons frutos e poder desfruta-los na necessidade.

Que Deus os mantenha unidos e me proporcione por mais algum tempo o papel de engaço.

 

Uma nota

O mundo de hoje seria uma refeição completa para Nelson Rodrigues. Uma multidão impensável de idiotas. Gente capaz de passar doze horas em um frio polar, espremido numa multidão, à espera de uma bola que desce num trilho, para marcar o início de um novo ano.

Multidões espremidas e afanadas na praia de Copacabana à espera da passagem do ano e do show de Anitta (com dois tts). Idem em São Paulo à espera do Latino. Em Belo Horizonte, uma multidão em torno da Pampulha, a esperar a chegada de 2018, na beira do Patrimônio Mundial da Unesco mais fedorento que existe. Trata-se do " efeito manada”. Se o vizinho vai, fulano também, sicrano, etc., por não eu? Um espanto!!! 

Texto: Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 02/01/2018.

Organização: Charles Aquino 


domingo, dezembro 31, 2017

ANO NOVO, VELHOS E NOVOS AMIGOS

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG
URTIGÃO
Passei por um atropelo nos últimos dias. O meu coração, safenado, cheio de stents e outras maravilhas da moderna medicina, por pouco não me prega uma peça no dia de Natal. 
Tenho um axioma próprio que diz o seguinte: capeta só aparece para quem quer e dependendo do destinatário, o asmodeus aparece de forma mais branda. Foi o que me aconteceu.
Senti mal na casa de minha filha numa região mais próxima do Biocor. Chamaram a ambulância do condominio e em três tempos eu estava hospitalizado. Fui em companhia de meu filho, um craque em todas as expertises. 
É o próprio homem que sabia javanês, do insuperável conto de Lima Barreto. Mal-estar, sudorese e outros achaques. Nada que um bom hospital é uma bela equipe não resolvam. Eis- me hoje em casa, junto com filhos e netos. 
Deverei passar por outra cirurgia de peito aberto. Nada impossível para alguém que tem fôlego de vários gatos.
Farei a cirurgia ainda em janeiro, há tempo de terminar a biografia de minha mãe, que vou lançar com pompa e circunstância em Itaúna, no mês de março. Deus é grande e N.Sra. é uma baita.
Escrevo em louvor aos amigos novos e velhos. Os velhos certamente se reconhecerão. Os novos, cito de per si. Charles Aquino e Luiz Mascarenhas, que muito me ajudaram na pesquisa sobre d.Graciana. Agradeço a Patrícia Nogueira, amiga nova que ainda não conheço pessoalmente, mas como já disse, a conheci desde o flerte do Dr. Guaracy e a d.Ivete. Agradeço a velha amiga e colega, grande escritora Maria Lúcia Mendes, que não responde a e-mails .
Agradeço a Berenice, mulher do Tarefa, uma das componentes do grupo " As Graciosas da Graciana.  Agradeço ao Pedro Butão e a sua mulher, prima de meu amigo Pedro Edson. Ao Marcinho, de quem não tenho e-mail e todos os outros que de tempos em tempos se reúnem no Gula e Gole. 
Vocês e a cidade de Itaúna me ajudam a encarar nova cirurgia e tudo mais que vier. São amigos sinceros e desinteressados em um tempo de tanta deslealdade. Feliz ano novo a todos. Que Deus os abençoe e nos preserve para que possamos praticar o saudável exercício de jogar conversa fora. A melhor toilette mental em tempos de "Mal de Alzheimer".
Urtigão

Ps.: Em tempo: estava me esquecendo do Renilton e sua heroica Folha do Povo.

Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o  Itaúna Décadas em 31/12/2017.

Organização: Charles Aquino

terça-feira, dezembro 26, 2017

FELIZ ANO

Prof. Luiz MASCARENHAS*

  Outro dia, navegando pela Internet, deparei-me com um interessante texto, atribuído a Drummond: “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Contudo, ao verificar no site oficial do poeta Carlos Drummond de Andrade, constatei a inverdade: este escrito não é da autoria do mesmo. E isto acontece amiúde. Feitas estas considerações literárias, passemos ao cerne da questão: as fatias do tempo e a nossa existência espraiada sobre o mesmo.

No Livro do Eclesiastes podemos ler: “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de planta e tempo de arrancar o que se plantou” (Ecl. 3:1,2). Assim se transcorre a nossa existência: feita de nossas próprias escolhas e que em dado momento, passamos a colher os frutos das mesmas; ora doces, ora amargos...

Ora, tudo no mundo em que vivemos é obra do pensamento humano. Ou seja, existe o mundo físico, real e o mundo dos significantes e significados que o próprio homem imaginou. Não estou aqui eximindo a ideia do Deus Onipotente e Criador de tudo, mas, milhares de questões foram resolvidas pelas interpretações, significados e simbolismos outorgados pelo próprio ser humano.

Uma dessas questões é o próprio tempo, sobre o qual falamos. Temos notícia de tentativas de medições e organização do tempo em calendários há milênios. No ano 46 a.C., Júlio César promoveu uma reforma do antigo calendário lunar e fixou o ano com 365 dias e 12 meses e este vigorou até o séc. XVI da Era Cristã. Por volta do ano de 1582, o Papa Gregório XIII reuniu um grupo de especialistas para corrigir o calendário juliano. O objetivo da mudança era fazer regressar o equinócio da primavera para o dia 21 de março e desfazer o erro de 10 dias existente na época. Trata-se do famoso calendário gregoriano, ainda utilizado por milhares de países até os dias que correm.

 Portanto, por entre números e datas e comemorações e efemérides, escoa a existência humana sobre a Terra. E o viver requer de nós esperanças. E ainda há os que vivem (pouquíssimos) e a imensa maioria que apenas sobrevive...

  Ao observar o burburinho, a correria, a afoiteza das pessoas nesta época – transeuntes do tempo e do espaço; assoberbados de “nada” e atarefados de grandes “vazios”; impõe-se a reflexão sobre o desafio de se estar vivo e de dotar esta vida de razões, de significados e a partir desta instrumentação ser capaz de sorrir, de amar, de sentir ou de apenas ver o vento passar...

Pois como diria Fernando Pessoa: “`as vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido ”.

         Feliz Ano! Novo ou velho, dependerá da acuidade de sua escolha e vontade.





*Professor, Historiador, Escritor / Da Academia Itaunense de Letras.




Acervo: Shorpy


segunda-feira, dezembro 25, 2017

DOCES DE NATAL

HISTÓRIAS E CRÔNICAS EM ITAÚNA MG

Os doces do Natal do meu tempo eram variados e feitos com fartura. Doces de frutas, seguiam mais ou menos a disponibilidade delas na época. Doces de figo em compota ou cristalizados, doces de mamão espelhado ou ralado, de laranja da terra, de cidra e compotas de goiaba. Goiabadas eram feitas para durar mais tempo. Embrulhadas na palha de banana, duravam por um bom período. O mesmo era feito com as bananadas e as marmeladas. Esse último, praticamente desapareceu. Resultado de pragas nos marmeleiros. Ensaiam uma volta tímida.
O doce de Natal, por excelência eram as rabanadas. Quase uma unanimidade, encontradiço em vários países do mundo, com nomes variados. No Brasil andou perdendo terreno para os panetones, moda importada da Itália. O panetone típico é uma espécie de pão doce, com uva passa e frutas cristalizadas. As vezes pode levar um pouco de licor, rum ou vermute. Os de chocolate, por sinal, muito doces, são tipicamente brasileiros.
A rabanada é um doce fácil de fazer e tem um sentido quase religioso. Aproveita as sobras do pão, um alimento ancestral, citado nas Escrituras e venerada antigamente como algo sagrado.
Conforme promessa, aí vai uma receita de rabanada, feita ao meu modo.
Ingredientes:  uma bisnaga " dormida " de mais ou menos 500 gramas; canela em pau e em pó e cravo da Índia; açúcar cristal açúcar de confeiteiro. Se não tiver, serve açúcar refinado; leite frio; quatro ovos; um cálice de conhaque, licor ou vinho do Porto.
Modo de fazer: corte o pão em rodelas de mais ou menos um dedo de largura. Embeba as rodelas no leite e na calda, preparada anteriormente com açúcar cristal, canela em pau e cinco dentes de cravo da Índia. Quando estiver em fervura, coloque o conhaque ou substituto. Depois de embeber as rodelas de leite, despeje um pouco de calda em cada uma delas e deixe descansar. Tomar cuidado para o pão não absorver muito leite ou calda. Não pode desmanchar. Bata os ovos, claras e gemas. Em seguida, mergulhe as rodelas de pão nos ovos batidos. Devem ser passadas no ovo dos dois lados.
Frite as rabanadas em óleo bem quente, tomando cuidado para não tostarem demais. Retire com a espumadeira e coloque na travessa forrada com papel absorvente. Polvilhe as rabanadas com açúcar de confeiteiro ou refinado, misturado com canela em pó.
O doce é muito bom e permanece delicioso até o dia seguinte. Sirva-se, ofereça aos convidados e um Feliz Natal.
Nota: aprendi fazer rabanadas com minha mãe, Graciana Coura de Miranda.


FONTE:
Shorpy Fotografia : Mulheres em uma aula de culinária no Hampton Institute em Hampton, Virginia. Fotografia de Frances Benjamin Johnston, c. 1899.
Rico em história, mergulhado na tradição, a Universidade de Hampton é uma instituição dinâmica e progressiva de ensino superior, que oferece uma ampla gama de programas técnicos, de artes liberais e de pós-graduação. Além de ser uma das melhores universidades historicamente negras no mundo, Hampton University é uma comunidade fortemente unido de alunos e educadores, que representam 49 estados e 35 territórios e nações.
A instituição historicamente negra, Hampton University é comprometida com o multiculturalismo. A Universidade atende alunos de diversas origens nacionais, culturais e económicas. Desde os seus primórdios até o presente, a instituição tem matriculados estudantes dos cinco continentes - América do Norte, América do Sul, África, Ásia e Europa - e muitos países, incluindo o Gabão, Quênia, Gana, Japão, China, Armênia, Grã-Bretanha e Rússia, bem como as ilhas havaianas e do Caribe e numerosas nações indígenas americanos. Colocando seus alunos no centro do seu planejamento, a Universidade oferece um ambiente educacional holística.


TEXTOUrtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 25/12/2017.
Organiação: Charles Aquino

quinta-feira, dezembro 21, 2017

CELEBRAÇÕES NATALINAS

HISTÓRIAS E CRÔNICAS ITAÚNA MG

Uma das maiores tradições do Natal desapareceu em decorrência da violência que assola o Brasil.

Era a Missa do Galo, celebrada do Oiapoque ao Chui, nas igrejas católicas do Brasil. Missa celebrada a meia noite, com frequência garantida de quase todos os habitantes.

As crianças ficavam em casa. Meia noite era muito tarde mesmo para adultos. Tão importante que dá causa e titulo a um dos melhores contos da língua portuguesa. Escrito por Machado de Assis, é uma obra prima.

As ceias eram esparsas. Importante mesmo era o almoço do Dia de Natal. Frango assado, leitão pernil e raramente, o peru. A ave era mais ou menos rara e poucas pessoas criavam o bicho em cativeiro.

Morto na cozinha da casa, carecia de uma dose de cachaça na véspera do abate. Diziam que era para amaciar a carne. Lembro-me do Rameh.

Machado conta a história de um peru degolado em sua casa. Atendendo ao pedido de sua mãe, dona Elza, foi dar a dose para a ave. Gostou da incumbência e deu uma dose e bebeu outra. 

Ao fim e ao cabo, quase esvaziaram a garrafa. Ele é o seu novo companheiro de gole. O peru " apagou”. Coma alcoólico. Morreu anestesiado.

Almoço de Natal tinha além das carnes, arroz de forno macarronada tutu de feijão com linguiça. Cada casa comia o que estivesse dentro de suas posses. Famílias grandes, todos ao redor da mesa, festejando o nascimento do Nazareno.

Vinho frisante Michelon ou Sangue de Boi, de garrafão. Cerveja preta, malzbier. Bebidas destiladas eram raras. Uísque, nem pensar.

Os presentes eram também escassos. O dinheiro era curto para a maioria. Quem ganhava uma bola de couro ou uma bicicleta Philips, inglesa, eram poucos. Coisa de gente rica. Carrinhos de lata ou de madeira. Os que andavam por conta própria eram movidos a corda, tal qual relógios.

O Papai Noel era lenda pagã, desaconselhada pela Santa Madre Igreja. Árvores de Natal também eram raras. Abundância de presépios, inclusive nas igrejas.

Grutas feitas de pano, engomado com grude de polvilho azedo e polvilhadas de pó de pedra e malacacheta. Uma belezura. O Deus menino deitado numa caminha de serragem.

José e Maria ajoelhados em torno da manjedoura e os três reis magos mais afastados. Um deles era negro. Sinal que naqueles tempos, nada de racismo.

Carneiros, bois e os camelos dos magos que atravessaram o deserto para render homenagem ao judeu recém-nascido.

O Natal era uma festa da família, de confraternização em torno de valores cristãos.

As sobremesas eram um caso à parte. Num próximo texto descrevo algumas e passo uma receita de doces natalinos. Prometo.


Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 21/12/2017.Acervo: Shorpy

Organização: Charles Aquino

quarta-feira, dezembro 20, 2017

MÉDICOS DE 50



Minha família mudou-se para Itaúna em 1951. Mais precisamente em fevereiro. Ficamos uns dois meses no Hotel do Sinval, na rua Estrada de Ferro, ao lado da estação ferroviária. Eu tinha sete anos e vivia às voltas com uma amigdalite que sempre me levava para a cama. Vindo de cidades menores, sem médicos, em Itaúna eles já eram fartos.
Se a memória não me trai, o primeiro que conheci foi o dr. José Drumond. A penicilina era o " santo milagroso " e era receitada sem limites. Medida em milhares de unidades e administradas com injeções. Fiquei milionário em antimicrobianos. Lembro-me também do dr. Thomaz Andrade, com consultório na rua Arthur Bernardes. Vizinho do dr. José Campos, este, também professor de Filosofia na Escola Normal. Na mesma rua morava o dr. Coutinho, ex-prefeito, casado com a d. Nair, então diretora da Escola Normal.
O dr. Ademar morava na rua Antônio de Mattos e o dr. Virgílio numa casa senhorial na mesma rua do Ginásio Sant’Ana. O Dr. Hely Gonçalves morava na rua Capitão Vicente. Se não me engano, era ginecologista e obstetra.
Inesquecível para toda a família, foi o dr. Oliveiros Rodrigues. Natural de Itaguara, entrou na nossa vida um ou dois anos depois de nossa chegada. Casado com a d.Marta de Oliveira Guimarães, diretora do Grupo Escolar dr.Augusto Gonçalves. Tornou-se grande amiga de minha mãe e o seu marido, amigo de meu pai.  Frequentaram-se durante anos e anos. Nos sábados, o casal ia na nossa casa. No domingo, a visita era retribuída.
O dr. Oliveiros, sem desdouro para os outros citados era um excelente profissional. Formado em Farmácia e posteriormente em Medicina, na antiga Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Colega de turma do político paulista Adhemar Ferreira de Barros. Era também um ótimo " papo", frequentou rodas boêmias no Rio de Janeiro e entre suas proezas, nos contou que foi namorado de Aracy de Almeida, a maior intérprete de Noel Rosa, segundo os entendidos. Aliás, Noel Rosa também começou a estudar Medicina. Trocou o estetoscópio e o bisturi pela boemia e música. Morreu tuberculoso.
Dr. Oliveiros e d.Marta não tinham filhos. Nós, eu e meus irmãos éramos tratados como tal. Por ter sido bom boêmio, entendia bem os nossos excessos juvenis. Que Deus o tenha.

Texto: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 19/12/2017. Acervo: Shorpy
Organização: Charles Aquino