A história dos moinhos d'água em
Itaúna é um fascinante capítulo na trajetória dessa cidade. Nas palavras do
historiador itaunense João Dornas Filho, esses moinhos não eram apenas
estruturas de moagem, mas centros pulsantes de atividade, onde o milho era
transformado em fubá de angu, um alimento essencial na dieta local. Suas cerca
de vinte casinhas formavam uma cena pitoresca e vital para a subsistência da
população.
A descrição do memorialista
Osório Fagundes adiciona uma dimensão poética à imagem dos moinhos,
comparando-os a um "bando de garças sobre as águas do açude". Essa
analogia evoca uma sensação de harmonia entre a natureza e a atividade humana,
onde a engenhosidade humana se funde com a paisagem natural. Já o Professor
Marco Elísio Chaves Coutinho nos transporta para essa época em que esses
moinhos pontilhavam as margens do rio São João, um testemunho tangível da
economia e da vida cotidiana da comunidade.
Esses moinhos d'água não são
apenas estruturas físicas, mas símbolos de uma época passada, onde a vida
seguia o ritmo das águas do rio São João. Eles representam a habilidade humana
de se adaptar e aproveitar os recursos naturais para sustentar a comunidade. A
história desses moinhos nos lembra da importância de preservar e valorizar
nosso patrimônio histórico, para que as gerações futuras possam entender e
apreciar as raízes de sua própria cidade.
Na
freguesia de Sant'Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, aproximadamente final do século XIX, existiram por muitos anos moinhos d’água que ficavam às margens
do rio São João. O historiador itaunense João Dornas Filho, elenca que, “era uma série de casinhas, cerca de vinte,
onde se moía, o milho para o fubá de angu” e o memorialistaOsório Fagundes, informa que, “de longe pareciam um bando de garças sobre
as águas do açude”!
O
moinho hidráulico de herança europeia, das quais, suas origens alçam ao período
helenístico pelo mundo mediterrânico, segundo nos informa o professor Francisco
de Carvalho, foi um importante marco nas paisagens rurais do Brasil, seja em
grandes fazendas ou em pequenos sítios. No Brasil, a partir do século XVII, irão
aparecer registros de moinhos hidráulicos nas colônias, surgindo a fabricação
em maior escala, entre o final do século XVIII e início do século XIX devido a
importância do milho no sistema de transporte do país que possibilitava a
alimentação de pessoas e de animais domésticos.
Entre esses períodos, existiram alguns tipos de moinhos movidos pela energia cinética
das águas: Os Moinhos de Água ou de Azenha, que eram movidos por uma roda
d´água vertical, mais comuns na região sul do país e os Moinhos Horizontais,
conhecidos também como Moinhos de Rodízio, mais comuns nas regiões do
centro-oeste e sudeste, tendo como fato excêntrico do século XVIII, a existência de um moinho
de vento na cidade de Ouro Preto, hoje, um patrimônio cultural e natural protegido. E foi a
partir da grande abundância de águas nos riachos e ribeirões do nosso Planalto
Brasileiro, que possibilitou a instalação e o funcionamento de vários moinhos
em um mesmo local, conseguindo utilizar a mesma leva d’água.
Discorrendo
sobre o funcionamento do moinho de fubá (horizontal ou de rodízio), o
carpinteiro, Antônio Barcelos, funcionário da fazenda Ponte Alta do município
de Pitangui/MG, explica o funcionamento: seria importante construir
uma represa que irá acumular água, ou então, construir um açude, que neste caso,
o curso da água poderá ser mudado através de bicas, geralmente feitas de
madeira. Chegando o volume d´água até ao
moinho, a roda horizontal ou rodízio,
irá acionar um eixo vertical que estará atrelado ao Mó de Baixo, o qual, o Mó de
Cima irá girar triturando os grãos de milhos.
Abaixo o professor Francisco de Carvalho faz
um desenho das peças de um moinho de fubá horizontal.
O Almanak Administrativo, Civil e Industrial da província de Minas Gerais (1875),
organizado por Antônio Assis Martins, traz informações sobre Itaúna, o qual, era distrito pertencendo administrativamente a Villa do Pará, hoje Pará de Minas, da comarca de Pitangui, com as seguintes informações: quatro Juízes de
Paz; 1 Escrivão; 1 Subdelegado; 3 Suplentes; 1 Pároco; 1 Delegado da Instrução Escolar;
1 Professor Escolar; 3 Inspetores de Quarteirão; 5 Oficiais de Justiça; 1
Padre; 1 Boticário; 1 Capitalista; 5 Negociantes de Fazendas; 5 Ditos de
Molhados; 9 Tropeiros; 5 Possuidores de Engenho de Cana; 33 Cultivadores de
Gêneros Alimentícios; 1 Entalhador; 2 Carpinteiros, 1 Forneiro; 3 Ferreiros; 2
Oleiros; 2 Pedreiros; 2 Fabricantes de Arreios; 3 Alfaiates; 1 Caldeireiro e 2
Estalajadeiros.
Da
listagem acima, dos 33 Cultivadores de
Gêneros Alimentícios, Serafim Caetano Moreira, seria um dos comerciantes
atuantes em Itaúna. Segundo o historiador João Dornas, o primeiro moinho
construído na cidade, teria sido o do senhor Serafim, aproximadamente no ano de
1880 e junto desse, foram sendo construídos muitos mais, tendo uma impressão
excêntrica de aldeia lacustre. O historiador informa que:
Esses moinhos foram causa de muita
briga e muito motim, pois se atribuía ao açude que os movia uma febre maligna
no local. Várias vezes os povos se
reuniram, como em 1910 para arrombar o açude, obrigando os seus proprietários e
as autoridades a pegarem em armas para defender a s suas propriedades.
Nestes últimos anos, depois que a
cidade foi abastecida de força elétrica, esses moinhos foram caindo em ruínas e
desaparecendo. E a grande enchente de abril de 1926, a maior que se tem na
memória em Itaúna, destruiu o restante dessa pitoresca lembrança de Sant´Ana de
São João Acima ... (DORNAS, 1936).
Em fins do século XIX, parte da família
Caetano Moreira se estabeleceram por definitivo no município de Itatiaiuçu na
“Fazenda Medeiros”, cujo irmãos, José Caetano Moreira, Manoel Caetano Moreira e
Antônio Caetano Moreira, deixaram testamento informando ser naturais da
freguesia de Congonhas do Campo e filhos legítimo de Caetano Moreira e Maria da
Conceição, todavia, deixaram grande descendência em Itaúna.
REFERÊNCIAS:
FILHO, João Dornas.
Itaúna: Contribuição para a História do Município, 1936, p.95 a 97.
FAGUNDES, Osório Martins.
Fragmentos de um Passado, 1977, p.624.
ALMANAK: Administrativo,
Civil e Industrial da Província de Minas Geraes, 1875, p.396,397,398. GOMES, Carla Neves Almeida.
MORRO DA QUEIMADA – OURO PRETO: os benefícios da categorização paisagem
cultural para sua gestão. Disponível em: http://www.forumpatrimonio.com.br/paisagem2014/artigos/pdf/141.pdf
. Acesso em: 30/01/2018
Denomina logradouro público: Rua João Dornas / Centro - Bairro Graças
Heródoto itaunense ...
No dia 7 de agosto de 1902, nasceu em Itaúna (MG), João Dornas Filho, romancista, contista, ensaísta, historiador e biógrafo. Filho do fazendeiro João Dornas dos Santos – republicano e defensor da emancipação da cidade - e de Maria Eugênia Vianna Dornas, teve 11 irmãos. Seu amor pela palavra escrita começou na infância, quando trabalhou como tipógrafo.
Amante da literatura e da informação, João Dornas cursou apenas o primário, no Grupo Escolar Dr. Augusto Gonçalves, que foi a base para seu autodidatismo e a aquisição de uma cultura ampla e sofisticada. Para muitos, Dornas Filho era um excêntrico intelectual, que chamavam de Záu. Seus parentes e amigos relatam que ele era “uma pessoa humilde e fácil de se lidar”. Em artigo do Suplemento literário Minas Gerais, denominado “Literatura Mineira: João Dornas Filho e Júlio Ribeiro”, o escritor é assim descrito:
De temperamento extrovertido João Dornas Filho era amigo de toda a gente, boêmio a seu modo, grande trabalhador e pesquisador, aberto a todas as manifestações da beleza e da sensibilidade. Defendia com força e coragem suas ideias, indo à polêmica, se necessário. Um grande exemplo de responsabilidade e autenticidade intelectual (Suplemento Literário, 1977).
Foi nos anos 1920 que Dornas se mudou para Belo Horizonte a trabalho e teve início sua colaboração para os jornais. Na capital mineira, fez amizade com intelectuais e artistas de projeção nacional e internacional, como o pintor Di Cavalcante, que desenhou sua caricatura, hoje uma preciosa relíquia guardada com zelo pela Prefeitura Municipal de Itaúna. Em 1928, com Guilhermino César e Aquiles Vivacqua, Dornas teve contato com Mário de Andrade e construiu para impulsionar o movimento modernista de Belo Horizonte ao editar o panfletário Leite Crioulo, importante órgão alternativo da imprensa modernista, que repercutiu não só em Minas Gerais, como também em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Em 1945, foi eleito para a Academia Mineira de Letras, ocupando a cadeira nº 12, cujo patrono é Alvarenga Peixoto. Dornas tentou reformar o estatuto da Academia Mineira de Letras para permitir a entrada de mulheres nas atividades acadêmicas, mas não conseguiu a adesão de seus pares. Considerado um dos mais expressivos filhos de Itaúna, por ter retratado os valores culturais da cidade natal sempre com palavras de admiração e carinho, João Dornas Filho morreu em Belo Horizonte, em 11 de dezembro de 1962.
Dicionário Bibliográfico de Escritores Mineiros, / Constância Lima Duarte, org, Autêntica Ed, 2010, p. 197,198. Pesquisa e Organização: Charles Aquino Fotos: Adilson Nogueira, Charles Aquino
Acervo: Câmara Municipal de Itaúna / Prefeitura Municipal de Itaúna
Fotografia: Adilson Nogueira : Músico, Artista Plástico, Mestre de Cozinha e Fotógrafo profissional.
No
meu tempo, no qual as pessoas viajavam de trem, tínhamos diversos tipos de
trens, que variavam pela carga, horário, rapidez e conforto. Por Itaúna
passavam o Subúrbio (esse exclusivo de Itaúna a BH e vice-versa) o Misto, que
carregava passageiros e carga, o Expresso, trem diurno com carro restaurante,
poucas paradas, para transporte exclusivo de passageiros e o Noturno. Este,
mais sofisticado, tinha carro restaurante, cabines com leitos ou carros com
poltronas leito e poucas paradas. Somente nas principais cidades. Assim como o
Expresso, era mais rápido. Os dois destinavam-se a viagens mais longas.
O Noturno, que possuía até camareiros, como o
próprio nome indica, só viajava a noite. O carro restaurante era algo a parte.
Tinha fogão tocado a lenha ou a carvão, cozinheiro e ajudantes, garçons
fardados e às vezes " maitre d'hotel “. Cardápio " a la carte". Coisa chique para
poucos. A bordo do trem vendia-se
bebidas. Normalmente, cerveja, vinho, vinho do Porto e conhaque. Servidas por
garçons fardados e de gravatas borboleta.
Em
Itaúna tínhamos dois Juízes de Direito. A comarca já era importante é somente
um não era suficiente. Lembro-me bem de vários e a história que passo a narrar
é verídica.
Um
dos juízes, de nome Nabor, pai de dois grandes amigos meus, era baixinho, quase
minúsculo. Empertigado, sempre de terno e gravata, sanguíneo, eternamente cor
de rosa. Chegou em Itaúna em fins dos anos cinquenta e começo dos sessenta do
século passado. Já chegou viúvo, com três filhos homens e três meninas. Todos
bonitos, claros e rosados. Uma coleção de " biscuits". Miúdos como o pai.
O
Doutor Nabor, parece-me que tinha uma namorada em Belo Horizonte e viajava
sempre para vê-la. Ia e voltava de trem. A volta, sempre de Noturno. Ia me
esquecendo. O magistrado era bom de copo e tinha uma voz tonitruante. Fazia
inveja a qualquer locutor. Gostava de cerveja da marca "Portuguesa",
fabricada pela Antártica em uma fábrica em Belo Horizonte, onde se localiza
hoje o Shopping Oiapoque. Cerveja ruim, engarrafada em cascos verdes.
A
preferência em Itaúna era da Brahma Chopp, casco escuro. Doutor Nabor ainda
tinha uma preferência estranha. Gosta de cerveja sem gelo. Portuguesa quente,
casco verde erapra poucos. O próprio " mijo de égua “.
Numa
de suas viagens de volta para Itaúna, o magistrado aboletou-se no Noturno e logo
que a composição da Rede arrancou, chamou o garçom e fez o pedido: " por
favor, uma Portuguesa, casco verde, sem gelo". O serviçal argumentou que
não tinha a cerveja. No entanto, se quisesse Brahma, tinha sem gelo, mas casco
escuro. O baixinho era tinhoso e sabedor de suas virtudes como autoridade,
pediu para falar com o Maitre. Na sua presença o chefe dos garçons usou dos
mesmos argumentos e disse mais. A cerveja pedida vendia pouco e daí a falta
dela no estoque. Pedia desculpas, mas nada mais poderia fazer.
Em
vista do impasse, o Dr. Nabor mandou que viesse falar com ele, nada mais nada
menos do que o Chefe do Trem, autoridade máxima do comboio. Na presença do
Chefe, devidamente fardado de azul e apito pendurado no pescoço, o baixinho
juiz, já alterado, recitou sua ladainha. Nada feito. A chefe nada podia
fazer!!!
Doutor
Nabor por fim aquiesceu em beber um conhaque. Bebeu vários e já nas imediações
de Mateus Leme, estava vermelho como um peru é bem " tocado".
Pediu
mais uma dose é o garçom resolveu dizer-lhe que não lhe serviria mais. Já
bebera o bastante. O homenzinho virou um capeta. Proferiu impropérios, xingou a
mãe do garçom e aprontou um carnaval. O pobre garçom, que teria uma longa noite
pela frente, obrigado a equilibrar-se com o balanço do trem, perdeu a paciência
e deu uma bofetada no magistrado. Uma só, o bastante para colocá-lo no devido.
Com a esfrega, Dr. Nabor aquietou e recolheu-se ao carro de passageiros, depois
de pagar a conta.
Surpresa
maior, o baixinho reservou para a equipe do trem, assim que a composição
estacionou em Itaúna. Investido de sua autoridade de Meritíssimo Juiz, deu voz
de prisão ao Chefe do Trem, ao Maitre e ao Garçon. Reteve todo o Noturno da
Rede Mineira de Viação em Itaúna, até que se resolvesse o impasse. Tinha sido
desacatado e agredido. Queria e obteve lavratura de atos circunstanciais,
boletim de ocorrência, coleta de provas e exame de corpo de delito. Atrasou o
trem que ia para Cruzeiro/SP, por três horas.
Abuso
de autoridade é coisa antiga no Brasil.
Texto:
Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério
Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente
para o blog Itaúna Décadas em 03/01/2018.
Gosto de
metáforas. Costumo comparar os homens e as famílias com as bananeiras. Não
pensem que estou a chamar a espécie humana de " banana". É outra
história.
A bananeira só dá
frutos uma vez. Daí a expressão: " fulano é bananeira que já deu
cacho". Vegetal razoavelmente simples, sem a nobreza de uma jabuticabeira
ou qualquer árvore de porte, a bananeira, humilde e subalterna, se bem plantada
em cova funda, produzirá um belo cacho de frutas, com muitas pencas. Não tem
sementes. As mudas crescem ao redor da planta mãe, daí a necessidade de cova
funda.
Cortada a
primeira e colhidos os frutos, dentro de algum tempo teremos nova planta a
produzir. É o ciclo da vida que se repete, perpetuando a espécie. Simples e
inteligente. Não requer muitos cuidados.
Somente boa terra, bom adubo e limpeza
ao redor para afastar fungos e pragas. Frutos deliciosos, fartos e nutritivos.
No quesito inteligência para ser comido, a banana é imbatível. Portátil,
higiênica e bem embalada. Uma campeã.
Voltemos à
comparação com os humanos. Em tempos de poucas famílias, de famílias múltiplas
e de gêneros iguais, de famílias desfeitas e outras modernices que teimam em
impingir aos tradicionais, a banana nos fornece um exemplo único. Produz em
cachos, tal como os cocos e as uvas.
Comparemos o
engaço do cacho aos chefes da família. Pai e mãe, a reunir a seu redor, filhos,
noras, genros, netos, e bisnetos, para os mais longevos. Como acontece com as
bananas, alguns frutos se deterioram mais rápido. Descartados, significam uma
perda, que não chega a significar o fim da família.
Com o passar do
tempo, os membros da família se reúnem de tempos em tempos em torno de pais e
mães. São as bananas ao redor do engaço. Ao morrer um dos primitivos, o cacho
passa a perder unidade. Com a morte de pai e mãe, a família não se une mais.
Como nas bananas, é hora de descartar o engaço. Não serve para mais nada. É o
fim de uma família tradicional, como a conhecemos e igual àquela em que fomos
criados.
Pensei muito
nesta metáfora, no último episódio de doença pelo qual passei. Durante todo
tempo tive ao meu lado o núcleo familiar. Mulher, filhos, netos, sobrinhos,
primos e até a única tia que tenho a graça de ainda ter. A presença de entes queridos ao lado do
doente o anima a reagir. Como já disse em escrito anterior, o meu filho é um
craque. Senhor de todas as " expertises" para cuidar.
Em tempos de
famílias estranhas e esdrúxulas é sempre bom pensar como eu. Que bom ter
nascido como as bananeiras. Simples, filho de família tradicional, capaz de
render bons frutos e poder desfruta-los na necessidade.
Que Deus os
mantenha unidos e me proporcione por mais algum tempo o papel de engaço.
Uma nota
O mundo de hoje
seria uma refeição completa para Nelson Rodrigues. Uma multidão impensável de
idiotas. Gente capaz de passar doze horas em um frio polar, espremido numa
multidão, à espera de uma bola que desce num trilho, para marcar o início de um
novo ano.
Multidões
espremidas e afanadas na praia de Copacabana à espera da passagem do ano e do
show de Anitta (com dois tts). Idem em São Paulo à espera do Latino. Em Belo
Horizonte, uma multidão em torno da Pampulha, a esperar a chegada de 2018, na
beira do Patrimônio Mundial da Unesco mais fedorento que existe. Trata-se do
" efeito manada”. Se o vizinho vai, fulano também, sicrano, etc., por não
eu? Um espanto!!!
Texto: Urtigão
(nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério
Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico
enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 02/01/2018.
Passei
por um atropelo nos últimos dias. O meu coração, safenado, cheio de stents e
outras maravilhas da moderna medicina, por pouco não me prega uma peça no dia
de Natal.
Tenho um axioma próprio que diz o seguinte: capeta só aparece para
quem quer e dependendo do destinatário, o asmodeus aparece de forma mais
branda. Foi o que me aconteceu.
Senti
mal na casa de minha filha numa região mais próxima do Biocor. Chamaram a
ambulância do condominio e em três tempos eu estava hospitalizado. Fui em
companhia de meu filho, um craque em todas as expertises.
É o próprio homem que
sabia javanês, do insuperável conto de Lima Barreto. Mal-estar, sudorese e
outros achaques. Nada que um bom hospital é uma bela equipe não resolvam. Eis-
me hoje em casa, junto com filhos e netos.
Deverei passar por outra cirurgia de
peito aberto. Nada impossível para alguém que tem fôlego de vários gatos.
Farei
a cirurgia ainda em janeiro, há tempo de terminar a biografia de minha mãe, que
vou lançar com pompa e circunstância em Itaúna, no mês de março. Deus é grande
e N.Sra. é uma baita.
Escrevo
em louvor aos amigos novos e velhos. Os velhos certamente se reconhecerão. Os
novos, cito de per si. Charles Aquino e Luiz Mascarenhas, que muito me ajudaram
na pesquisa sobre d.Graciana. Agradeço a Patrícia Nogueira, amiga nova que
ainda não conheço pessoalmente, mas como já disse, a conheci desde o flerte do
Dr. Guaracy e a d.Ivete. Agradeço a velha amiga e colega, grande escritora
Maria Lúcia Mendes, que não responde a e-mails .
Agradeço
a Berenice, mulher do Tarefa, uma das componentes do grupo " As Graciosas
da Graciana. Agradeço ao Pedro Butão e a
sua mulher, prima de meu amigo Pedro Edson. Ao Marcinho, de quem não tenho e-mail
e todos os outros que de tempos em tempos se reúnem no Gula e Gole.
Vocês e a
cidade de Itaúna me ajudam a encarar nova cirurgia e tudo mais que vier. São
amigos sinceros e desinteressados em um tempo de tanta deslealdade. Feliz ano
novo a todos. Que Deus os abençoe e nos preserve para que possamos praticar o
saudável exercício de jogar conversa fora. A melhor toilette mental em tempos de "Mal de Alzheimer".
Urtigão
Ps.:
Em tempo: estava me esquecendo do Renilton e sua heroica Folha do Povo.
Urtigão
(desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em
Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 31/12/2017.
Outro dia, navegando pela Internet, deparei-me com um interessante
texto, atribuído a Drummond: “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a
que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão”. Contudo, ao verificar no site
oficial do poeta Carlos Drummond de Andrade, constatei a inverdade: este
escrito não é da autoria do mesmo. E isto acontece amiúde. Feitas estas
considerações literárias, passemos ao cerne da questão: as fatias do tempo e a
nossa existência espraiada sobre o mesmo.
No Livro do Eclesiastes
podemos ler: “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito
debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de planta e tempo
de arrancar o que se plantou” (Ecl. 3:1,2). Assim se transcorre a nossa
existência: feita de nossas próprias escolhas e que em dado momento, passamos a
colher os frutos das mesmas; ora doces, ora amargos...
Ora, tudo no mundo em que
vivemos é obra do pensamento humano. Ou seja, existe o mundo físico, real e o
mundo dos significantes e significados que o próprio homem imaginou. Não estou
aqui eximindo a ideia do Deus Onipotente e Criador de tudo, mas, milhares de
questões foram resolvidas pelas interpretações, significados e simbolismos
outorgados pelo próprio ser humano.
Uma dessas questões é o próprio
tempo, sobre o qual falamos. Temos notícia de tentativas de medições e
organização do tempo em calendários há milênios. No ano 46 a.C., Júlio César
promoveu uma reforma do antigo calendário lunar e fixou o ano com 365 dias e 12
meses e este vigorou até o séc. XVI da Era Cristã. Por volta do ano de 1582, o
Papa Gregório XIII reuniu um grupo de especialistas para corrigir o calendário
juliano. O objetivo da mudança era fazer regressar o equinócio da primavera
para o dia 21 de março e desfazer o erro de 10 dias existente na época.
Trata-se do famoso calendário gregoriano, ainda utilizado por milhares de
países até os dias que correm.
Portanto, por entre números e datas e comemorações e
efemérides, escoa a existência humana sobre a Terra. E o viver requer de nós
esperanças. E ainda há os que vivem (pouquíssimos) e a imensa maioria que
apenas sobrevive...
Ao observar o
burburinho, a correria, a afoiteza das pessoas nesta época – transeuntes do
tempo e do espaço; assoberbados de “nada” e atarefados de grandes “vazios”;
impõe-se a reflexão sobre o desafio de se estar vivo e de dotar esta vida de
razões, de significados e a partir desta instrumentação ser capaz de sorrir, de
amar, de sentir ou de apenas ver o vento passar...
Pois como diria Fernando
Pessoa: “`as vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a
pena ter nascido ”.
Feliz Ano! Novo ou velho, dependerá da acuidade de sua
escolha e vontade.
*Professor,
Historiador, Escritor / Da Academia Itaunense de Letras.
Os
doces do Natal do meu tempo eram variados e feitos com fartura. Doces de
frutas, seguiam mais ou menos a disponibilidade delas na época. Doces de figo
em compota ou cristalizados, doces de mamão espelhado ou ralado, de laranja da
terra, de cidra e compotas de goiaba. Goiabadas eram feitas para durar mais
tempo. Embrulhadas na palha de banana, duravam por um bom período. O mesmo era
feito com as bananadas e as marmeladas. Esse último, praticamente desapareceu.
Resultado de pragas nos marmeleiros. Ensaiam uma volta tímida.
O
doce de Natal, por excelência eram as rabanadas. Quase uma unanimidade,
encontradiço em vários países do mundo, com nomes variados. No Brasil andou
perdendo terreno para os panetones,
moda importada da Itália. O panetone típico
é uma espécie de pão doce, com uva passa e frutas cristalizadas. As vezes pode
levar um pouco de licor, rum ou vermute. Os de chocolate, por sinal, muito
doces, são tipicamente brasileiros.
A
rabanada é um doce fácil de fazer e tem um sentido quase religioso. Aproveita
as sobras do pão, um alimento ancestral, citado nas Escrituras e venerada
antigamente como algo sagrado.
Conforme
promessa, aí vai uma receita de rabanada, feita ao meu modo.
Ingredientes: uma bisnaga " dormida " de mais ou
menos 500 gramas; canela em pau e em pó e cravo da Índia; açúcar cristal açúcar
de confeiteiro. Se não tiver, serve açúcar refinado; leite frio; quatro ovos;
um cálice de conhaque, licor ou vinho do Porto.
Modo de fazer:
corte o pão em rodelas de mais ou menos um dedo de largura. Embeba as rodelas
no leite e na calda, preparada anteriormente com açúcar cristal, canela em pau
e cinco dentes de cravo da Índia. Quando estiver em fervura, coloque o conhaque
ou substituto. Depois de embeber as rodelas de leite, despeje um pouco de calda
em cada uma delas e deixe descansar. Tomar cuidado para o pão não absorver
muito leite ou calda. Não pode desmanchar. Bata os ovos, claras e gemas. Em
seguida, mergulhe as rodelas de pão nos ovos batidos. Devem ser passadas no ovo
dos dois lados.
Frite as rabanadas em óleo bem quente,
tomando cuidado para não tostarem demais. Retire com a espumadeira e coloque na
travessa forrada com papel absorvente. Polvilhe as rabanadas com açúcar de
confeiteiro ou refinado, misturado com canela em pó.
O
doce é muito bom e permanece delicioso até o dia seguinte. Sirva-se, ofereça
aos convidados e um Feliz Natal.
Nota:
aprendi fazer rabanadas com minha mãe, Graciana Coura de Miranda.
FONTE:
Shorpy
Fotografia : Mulheres em uma aula de culinária no Hampton Institute em Hampton,
Virginia. Fotografia de Frances Benjamin Johnston, c. 1899.
Rico
em história, mergulhado na tradição, a Universidade de Hampton é uma
instituição dinâmica e progressiva de ensino superior, que oferece uma ampla
gama de programas técnicos, de artes liberais e de pós-graduação. Além de ser
uma das melhores universidades historicamente negras no mundo, Hampton
University é uma comunidade fortemente unido de alunos e educadores, que
representam 49 estados e 35 territórios e nações.
A
instituição historicamente negra, Hampton University é comprometida com o
multiculturalismo. A Universidade atende alunos de diversas origens nacionais,
culturais e económicas. Desde os seus primórdios até o presente, a instituição
tem matriculados estudantes dos cinco continentes - América do Norte, América
do Sul, África, Ásia e Europa - e muitos países, incluindo o Gabão, Quênia,
Gana, Japão, China, Armênia, Grã-Bretanha e Rússia, bem como as ilhas havaianas
e do Caribe e numerosas nações indígenas americanos. Colocando seus alunos no
centro do seu planejamento, a Universidade oferece um ambiente educacional
holística.
TEXTO: Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 25/12/2017.
Uma
das maiores tradições do Natal desapareceu em decorrência da violência que
assola o Brasil. Era a Missa do Galo, celebrada do Oiapoque ao Chui, nas
igrejas católicas do Brasil. Missa celebrada a meia noite, com frequência
garantida de quase todos os habitantes.
As
crianças ficavam em casa. Meia noite era muito tarde mesmo para adultos. Tão
importante que dá causa e titulo a um dos melhores contos da língua portuguesa.
Escrito por Machado de Assis, é uma obra prima.
As
ceias eram esparsas. Importante mesmo era o almoço do Dia de Natal. Frango
assado, leitão pernil e raramente, o peru. A ave era mais ou menos rara e
poucas pessoas criavam o bicho em cativeiro. Morto na cozinha da casa, carecia
de uma dose de cachaça na véspera do abate. Diziam que era para amaciar a
carne. Lembro-me do Rameh.
Machado
conta a história de um peru degolado em sua casa. Atendendo ao pedido de sua
mãe, dona Elza, foi dar a dose para a ave. Gostou da incumbência e deu uma dose
e bebeu outra. Ao fim e ao cabo, quase esvaziaram a garrafa. Ele é o seu novo
companheiro de gole. O peru " apagou”. Coma alcoólico. Morreu anestesiado.
Almoço
de Natal tinha além das carnes, arroz de forno macarronada tutu de feijão com
linguiça. Cada casa comia o que estivesse dentro de suas posses. Famílias
grandes, todos ao redor da mesa, festejando o nascimento do Nazareno.
Vinho
frisante Michelon ou Sangue de Boi, de garrafão. Cerveja preta, malzbier.
Bebidas destiladas eram raras. Uísque, nem pensar.
Os
presentes eram também escassos. O dinheiro era curto para a maioria. Quem
ganhava uma bola de couro ou uma bicicleta Philips, inglesa, eram poucos. Coisa
de gente rica. Carrinhos de lata ou de madeira. Os que andavam por conta
própria eram movidos a corda, tal qual relógios.
O
Papai Noel era lenda pagã, desaconselhada pela Santa Madre Igreja. Árvores de
Natal também eram raras. Abundância de presépios, inclusive nas igrejas. Grutas
feitas de pano, engomado com grude de polvilho azedo e polvilhadas de pó de
pedra e malacacheta. Uma belezura. O Deus menino deitado numa caminha de
serragem.
José
e Maria ajoelhados em torno da manjedoura e os três reis magos mais afastados.
Um deles era negro. Sinal que naqueles tempos, nada de racismo. Carneiros, bois
e os camelos dos magos que atravessaram o deserto para render homenagem ao
judeu recém-nascido. O Natal era uma festa da família, de confraternização em
torno de valores cristãos.
As
sobremesas eram um caso à parte. Num próximo texto descrevo algumas e passo uma
receita de doces natalinos. Prometo.
Texto:
Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que
viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente
para o Itaúna Décadas em 21/12/2017.Acervo: Shorpy
Minha
família mudou-se para Itaúna em 1951. Mais precisamente em fevereiro. Ficamos
uns dois meses no Hotel do Sinval, na rua Estrada de Ferro, ao lado da estação
ferroviária. Eu tinha sete anos e vivia às voltas com uma amigdalite que sempre
me levava para a cama. Vindo de cidades menores, sem médicos, em Itaúna eles já
eram fartos.
Se
a memória não me trai, o primeiro que conheci foi o dr. José Drumond. A
penicilina era o " santo milagroso " e era receitada sem limites.
Medida em milhares de unidades e administradas com injeções. Fiquei milionário
em antimicrobianos. Lembro-me também do dr. Thomaz Andrade, com consultório na
rua Arthur Bernardes. Vizinho do dr. José Campos, este, também professor de
Filosofia na Escola Normal. Na mesma rua morava o dr. Coutinho, ex-prefeito,
casado com a d. Nair, então diretora da Escola Normal.
O
dr. Ademar morava na rua Antônio de Mattos e o dr. Virgílio numa casa senhorial
na mesma rua do Ginásio Sant’Ana. O Dr. Hely Gonçalves morava na rua Capitão
Vicente. Se não me engano, era ginecologista e obstetra.
Inesquecível
para toda a família, foi o dr. Oliveiros Rodrigues. Natural de Itaguara, entrou
na nossa vida um ou dois anos depois de nossa chegada. Casado com a d.Marta de
Oliveira Guimarães, diretora do Grupo Escolar dr.Augusto Gonçalves. Tornou-se
grande amiga de minha mãe e o seu marido, amigo de meu pai. Frequentaram-se durante anos e anos. Nos
sábados, o casal ia na nossa casa. No domingo, a visita era retribuída.
O
dr. Oliveiros, sem desdouro para os outros citados era um excelente
profissional. Formado em Farmácia e posteriormente em Medicina, na antiga
Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro. Colega de turma do político paulista
Adhemar Ferreira de Barros. Era também um ótimo " papo", frequentou
rodas boêmias no Rio de Janeiro e entre suas proezas, nos contou que foi
namorado de Aracy de Almeida, a maior intérprete de Noel Rosa, segundo os entendidos.
Aliás, Noel Rosa também começou a estudar Medicina. Trocou o estetoscópio e o
bisturi pela boemia e música. Morreu tuberculoso.
Dr.
Oliveiros e d.Marta não tinham filhos. Nós, eu e meus irmãos éramos tratados
como tal. Por ter sido bom boêmio, entendia bem os nossos excessos juvenis. Que
Deus o tenha.
Texto:
Urtigão (desde 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que
viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente
para o Itaúna Décadas em 19/12/2017. Acervo:
Shorpy