quarta-feira, janeiro 09, 2019

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA

HOSPITAL MANOEL GONÇALVES ITAÚNA MG
A Câmara Municipal e o Patrimônio

No testamento de Manoelzinho está à disposição: Essa casa denominar-se-á "Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Sousa Moreira", será administrada pela Câmara Municipal da cidade de Itaúna, que poderá criar uma associação ou irmandade para administrá-la, e em sua falta pela diretoria da "Companhia Tecidos Santanense". Para se cumprir a disposição acima, a Câmara se reuniu e há nos arquivos da instituição o original da certidão de seguinte teor: Certifico que, o livro de registro de leis e decretos desta Municipalidade, nele, às páginas 360 a 367, encontrei o seguinte:

Lei nº 127 de 8 de setembro de 1920, sobre a Casa de Caridade. O povo do Município de Itaúna, por seus vereadores, decretou, e eu, em seu nome, sanciono a seguinte lei:
Art. 1º - A Câmara Municipal de Itaúna desiste do encargo de administrar a Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, a fundar-se nesta cidade, preferindo que seja administrada por uma Irmandade.

Art. 2º - Fica o Presidente da Câmara Municipal de Itaúna autorizado a organizar uma Irmandade, que será a seu cargo a administração da nova Casa de Caridade e de seu patrimônio, de acordo com as disposições de testamento do finado itaunense Manoel Gonçalves de Sousa, podendo fundar outros estabelecimentos de caridade, e de instrução, organizando os Estatutos, que serão aprovados por decreto do Presidente da Câmara Municipal.

Art. 3º - Revogam-se as disposições em contrário. Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir, tão inteiramente como nela se contém. O Presidente da Câmara, Dr. Augusto Gonçalves de Sousa Moreira. O Diretor Interino, Cordovil Nogueira. Registrada e publicada nesta Secretaria da Câmara Municipal de Itaúna, aos 8 de setembro de 1920.

Nossos comentários: Nessa altura, tendo a Câmara desistido do encargo de administrar a Casa de Caridade, preferindo organizar uma Irmandade, competia ao Presidente da Câmara redigir o anteprojeto dos Estatutos, submetê-los à discussão e votação dos vereadores, de acordo com as disposições do testamento. Em seguida, após cumpridas as normas nele estabelecidas, submetê-los à autoridade competente, o promotor da Comarca do Pará.

Itaúna era apenas "termo da Comarca do Pará" e aqui não havia promotor. Tratava-se de uma fundação, edificada sobre um patrimônio de grande valor. Matéria já regulamentada pelo Código Civil Brasileiro, sancionado e promulgado a 1º de janeiro de 1916. Através do decreto sob nº 3071, entrou em vigor, conforme disposto no art. 1806, no dia 1º de janeiro de 1917.

E o Art. 24 já em vigor há mais de três anos, na época, determinava que "Para se criar uma fundação, far-lhe-á o seu instituidor, por escritura pública ou testamento, dotação especial de bens livres especificando o fim a que se destina, e declarando, se quiser, a maneira de administra-la".

O Art. 26 é taxativo: "Velará pelas fundações o Ministério Público do estado, onde situadas".
Finalmente, o Art. 27 explicita: "Aqueles a quem o instituidor cometer a aplicação do patrimônio, em tendo ciência do encargo, formularão logo, de acordo com as suas bases (art.24), os estatutos da fundação projetada, submetendo-os, em seguida, à aprovação da autoridade competente".  

Nada disso se cumpriu, nem se deseja agora que se cumpra, é assunto morto, tudo prescrito. E mais: já no artigo segundo a Câmara ultrapassou sua competência, "quando autoriza fundar outros estabelecimentos de caridade e de instrução", contrariando o testamento.

Fala-se num tal esboço do testamento redigido de próprio punho pelo instituidor, mas sem assinatura, conhecido, segundo tradição oral, por poucos parentes, presumimos, suspeitos legalmente. Admitamos, por hipótese, que os acréscimos feitos pelo Dr. Augusto, na qualidade de Presidente da Câmara tenham estado no primeiro testamento, anulado "in totum". Afinal, um homem formado, culto, com tanto dinheiro na mão, responsável pela administração e desenvolvimento do município, imaginou que teria chegado a hora de dotar seu município com o ensino de melhor qualidade, concordando em colocar a instrução como objetivo do instituidor, o que não está no testamento. Documentos sem assinatura e boas intenções não podem ser aceitos, contrariando o espírito do fundador e a legislação em vigor. Principalmente, num documento de tão grande valor, com repercussões futuras, danosas à saúde financeira da Irmandade.

Outro documento da Câmara: Certifico que, revendo o livro de registro de leis e decretos desta Municipalidade, nele às páginas 375 e 376, encontrei o seguinte: "Decreto n. 52, de 20 de setembro de 1920. Promulga os Estatutos da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Sousa Moreira.

Dr. Augusto Gonçalves de Sousa Moreira, presidente da Câmara Municipal de Itaúna, usando da atribuição que lhe faculta aprovar os Estatutos da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, expedido em 16 de setembro 1920, e assinado pelos membros do Conselho Deliberativo". Registre-se e publique-se. Secretaria da Câmara Municipal, aos 20 de setembro de 1920. O Diretor Interino, Cordovil Nogueira.

É o que continha nos registros que fielmente copiei e a que me reporto. Secretaria da Câmara Municipal de Itaúna, aos 16 de novembro de 1920. O Diretor Interino, Cordovil Nogueira.

Nossos comentários
Preocupou-nos o fato de o dr. Augusto ter promulgado os Estatutos doze dias da manifestação da Câmara, tempo, a nosso ver, insuficiente para a sua elaboração pela Câmara e aprovação pelo promotor em Pará. E não havia prazo determinado para tais providências. No Estatuto aprovado pela Câmara, cuja cópia não foi transcrita na ata da primeira reunião da Irmandade que, "redundantemente o aprovou" (17 de outubro), com a presença apenas de 14 irmãos, quando a Câmara já havia fixado em 25 o número dos membros do Conselho Deliberativo, vitalícios e escolhidos pelos vereadores.

Não encontramos em nenhum documento a relação dos 25 membros iniciais, integrantes do Conselho. Sem se conhecer os nomes desses integrantes, a irmandade, reunida pela primeira vez, com 14 pessoas, elegeu os membros da Mesa Administrativa e do Conselho Fiscal. Entre os eleitos e não empossados na primeira reunião estavam os senhores: Artur Contagem Vilaça e o Padre João Ferreira Álvares da Silva (fiscais efetivos), João Rodrigues Nogueira Penido e Artur Pereira Matos (ficais suplentes). Nesta altura já conhecíamos 18 membros do Conselho (os 14 presentes e estes 4 ausentes eleitos).


Referência:
Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa: Itaúna em Detalhes
Pesquisa e redação final: Guaracy de Castro Nogueira
Fonte de pesquisa: Fundação Maria de Castro / Itaúna em Dados
Textos: Sérgio Cunha
Diagramação: Márcio Heleno Santos / Daniel Machado Campos
Ano: 2003
Impressão: Gráfica São Lucas Ltda.
Fascículo nº: 38
Pesquisa e organização: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

OBRA BENEMÉRITA HOSPITAL

JORNAL O IMPARCIAL
 SEXTA - FEIRA, 19 DE NOVEMBRO 1915  

Está se construindo na próspera cidade mineira de Itaúna um moderno e confortável hospital de caridade, que o antigo comerciante daquella praça, sr. coronel Manoel Gonçalves de Souza Moreira, hoje presidente da Junta Commercial de Minas, vae doar á pobreza da zona Oeste do estado. É uma obra benemérita, das poucas que se conhecem no Brasil. Raros são os capitalistas que consomem as verbas da sua fortuna em donativos deste alcance.

Contam-se nomes como Gonçalves de Araújo, Júlio Ottoni e José Carlos Rodrigues, aqui, o saudoso Halield, em Juiz de Fóra, e poucos outros. Nesta obra de benemerência, o coronel Manoel Gonçalves gastará seguramente cem contos de réis, visto numa linda explanada, á margem do rio São João, de salubérrimo clima, o disporá de todos os apetrechos da moderna cirurgia e clinica.

A casa de caridade "Coronel Manoel Gonçalves" terá: uma vasta enfermaria para mulheres, outra para homens, uma sala de cigurgia, uma capella, quatro quartos particulares, vasta cosinha independente, ampla lavanderia, um quarto para religiosas, dois lavabos, quatro “Water-closets", duas banheiras completas, vestíbulo, sala para portaria, óptimo alpendre de entrada, tudo separado por seis vastos corredores, área ajardinada e uma passagem para a cosinha.

O edifício terá 32, m 35 de fundo por 27, m 90 de frente, e será todo de cantaria, concreto, cimento e argamassa de cal e areia, devidamente ladrilhado e assolhado.
Resta notar que o clima de Itaúna é um dos melhores do Brasil, óptimo para tuberculosos e convalescentes, e foi quase preferido pelo sábio Lund[1], quando procurou estabelecer-se no Brasil para sua cura.




[1]  Peter Wilhelm Lund: Diplomou-se em Medicina pela Universidade de Copenhague em 1821, doutorando-se posteriormente pela Universidade de Kiel. Grande estudioso de Botânica e Zoologia, viajou em 1825 para o Brasil, onde percorreu as províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Nestas excursões, coletou grande quantidade de material, que enviava, em parte, para o Museu de História Natural da Dinamarca.





História de Itaúna






Organização e pesquisa: Charles Aquino

Texto digitado conforme o original



SANTA CASA

"Em Itaúna - Um aspecto do local onde vae ser construída a Santa Casa"
História de Itaúna

A Santa Casa: entre a fé, o cuidado e a memória viva de Itaúna

“Em Itaúna — um aspecto do local onde vai ser construída a Santa Casa.”
Com essa frase simples, registrada em antigos periódicos, começava-se a contar uma história que ultrapassa tijolos e paredes. Era o anúncio de um sonho coletivo: o de transformar compaixão em gesto concreto, de converter a caridade em estrutura duradoura.

A Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira — também chamada de Santa Casa ou Casa de Misericórdia — não foi apenas um edifício. Foi um símbolo da solidariedade itaunense, uma extensão da alma cristã e comunitária de um povo que sempre encontrou força na união e na fé. Assim como as Misericórdias portuguesas, inspiradas na tradição humanista e espiritual de séculos, a de Itaúna nascia para acolher, curar e proteger os mais necessitados.

A história dessa instituição se confunde com a própria história da cidade. O terreno, as mãos que ergueram as primeiras paredes, os benfeitores que acreditaram no ideal de caridade — todos eles deixaram marcas que resistem ao tempo. Mesmo nos períodos em que o prédio ameaçou ruir, o sentimento de pertencimento e de esperança nunca se perdeu. A Santa Casa permaneceu como símbolo da resistência da memória, um testemunho de que o amor ao próximo pode atravessar as décadas.

Hoje, ao revisitarmos sua trajetória, percebemos que cada fase — da construção aos dias atuais — é uma página do livro vivo da cidade. As reformas, as ruínas, as reconstruções… tudo reflete um mesmo propósito: preservar o que somos e honrar os que vieram antes.

O prédio, mais do que uma estrutura, é um espelho da própria Itaúna: antiga e renovada, ferida e resiliente, lembrando que cuidar do outro é também cuidar da história.

A Santa Casa não é apenas um marco do passado. É um chamado ao presente — para que continuemos a erguer pontes entre fé e solidariedade, entre o ontem e o amanhã.

Porque toda cidade que preserva seus símbolos sagrados de caridade preserva também a essência mais nobre de sua humanidade.

 



CASA DE CARIDADE MANOEL GONÇALVES DE SOUZA MOREIRA

Casa de Caridade, Santa Casa e Casa de Misericórdia são a mesma coisa no Brasil. As Misericórdias eram instituições de assistência aos necessitados, tradicionais em Portugal desde há cinco séculos, não só na metrópole, mas também em todas as províncias ultramarinas que descobriu e civilizou, atingindo um prestígio que raras instituições alcançaram, pela eficácia e caráter humano. Dedicavam-se à administração de hospitais. [1]



Referência:
[1] SERRÃO, Joel: Dicionário da História de Portugal, vol IV,p. 312
Itaúna em detalhes: Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa. Fascículo 37
Pesquisa e Organização: Charles Aquino



C.C.M.G.S.M.


A Casa de Caridade Manoel Gonçalves, foi fundada devido à generosidade do benemérito Itaunense cel. Manoel Gonçalves de Souza Moreira, que deixou em testamento grande parte de seus haveres, avaliados e mais de mil contos, destinados a amparar e minorar os sofrimentos dos desprotegidos da sorte.
A actual meza administrativa é a seguinte: Dr. Dario Gonçalves, Provedor; Mardocheu Gonçalves de Sousa, vice-provedor; Dr. Affonso dos Santos, Secretário; Francisco de Araújo Santiago, Thesoureiro; Francisco Marques da Silva, Procurador. Sobre este notável estabelecimento, nada se pode accrescentar às impressões de um illustre visitante, transmittidas a um jornal carioca, em fins de outubro.
"A Casa de Caridade Coronel Manoel Gonçalves de Souza Moreira", é uma das melhores de todo o Estado de Minas, gosando de grande e proclamada reputação regional. Distando pouco mais ou menos de um quilômetro da cidade, á margem da linha férrea, onde existe uma pequena parada para o embarque e desembarque dos innumeros doentes que alli afluem, erguem-se magestoso o vasto e imponente prédio.
Magnificamente installada, construida em logar saudável, está amplamente dotada de todo os requisitos necessários à prática da cirurgia moderna. As operações cirurgicas são feitas diariamente alli. Corta-se de manhã e à noite ...
O principal médico operador da Santa Casa de Itaúna, é o dr. Dorinato Lima. Este é o chefe do corpo médico, o tudo dalli, hoje considerado como um dos nossos melhores e mais competentes operadores, e tanto trata com carinho o rico como o pobre. Como dissemos, à Santa Casa de Itaúna chegam diariamente, doentes à procura de remédio. Indivíduos papudos, aleijados, estropiados, cambaios, de tudo alli se vê.
Estive na presença de uma doente “barriga d'agua", vindo de São José do Canastrão, há mais de 200 léguas de Itaúna, esperançoso - disse elle - de que o Dr. Dorinato lhe tirasse a água da barriga. De Bello Horizonte, Juiz de Fóra, até mesmo do Rio, segundo apuramos, vem gente se operar na Santa Casa de Itaúna. Todo o mundo alli proclama a excellencia do corpo clinico e cirúrgico do hospital.
Também são médicos daquella casa os drs. Dario Gonçalves, Antônio Lima Coutinho e Lincoln Nogueira Machado. Os doentes se destacam pela infinita bondade de seus corações, como a superiora, Irmã Candida de Jesus, Irmã Celeste, Irmã Amélia, Irmã Alda, Irmã Therezinha e Irmã Clara.
Há ainda três enfermeiros que são bastantes solícitos e attenciosos para com os doentes; são elles os srs. Messias, Bonifácio e Benedicto. A Santa Casa possue uma optima  pharmacia e uma perfeita installação dos apparelhos de Raio X. Assim, graciosamente deixamos registrada a optima impressão que trouxemos da Santa Casa de Itaúna.

História de Itaúna



REFERÊNCIA:
Acervo fotográfico: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho
Organização e pesquisa: Charles Aquino
Silveira, Victor. Minas Geraes em 1925. Belo Horizonte, 1926, p.708 (Obra Subvencionada Pelo Governo do Estado com a Auctorização do Congresso Mineiro. Organisador e Editor: Victor Silveira).
Texto digitado conforme o original

PEDRA FUNDAMENTAL HOSPITAL

Itaúna 07 Julho 1916


Eis como o “ Minas Geraes”, órgão oficial dos poderes do Estado, notificou as festas do lançamento da pedra fundamental do asylo de caridade “ Cel. Manoel Gonçalves” realizadas nesta cidade a 7 do corrente mez:
“ Conforme já noticiamos, o exmo. Sr. Presidente do Estado foi anteontem à cidade de Itaúna, paranymphar, o acto do lançamento da pedra fundamental do hospital de caridade mandado construir pelo sr. Coronel Manoel Gonçalves de Souza Moreira, antigo comerciante naquela cidade.

O especial partiu desta Capital às 7 horas da manhã, levando na comitiva presidencial as seguintes pessoas : dr. Raul Soares, secretário da Agricultura; dr. Vieira Marques, chefe de polícia; coronel Vieira Christo, ajudante de ordens da presidência; dr. Agostinho Porto, diretor da oeste de Minas; dr. Carvalhães de Paiva, diretor da Imprensa Offcial; marjor Furst, ajudante de ordens da Chefia de Polícia; major Francisco de Castro e suas filhas senhoritas Alzira e luizinha; coronel Manoel Gonçalves de Souza Moreira e sua exma. Esposa; dr. Oswaldo de Araújo, pelo “ Diário de Minas”;coronel Antônio de Mattos, acadêmicos Antônio Moreira, Dario, Augusto, Clarindo e Aldemar Gonçalves, Gines Gea Ribeira e M. Alvim.

Em Soledade do Pará foi servido à comitiva um optimo, “Lunch”. As onze horas da manhã, o especial deu entrada na “gare” de Itaúna, ao som do Hynno Nacional e debaixo de aclamações da grande massa popular àlli estacionada. O exmmo. sr. Presidente do Estado e seus auxiliares foram recebidos pelo sr. Augusto Gonçalves, presidente da Câmara; dr. Alfredo de Albuquerque, juiz municipal do termo; dr. Pedro Nestor, juiz de direito da comarca do Pará, pelos membros do directorio político, autoridades, professores e alunos do grupo escolar.

O sr. Dr. Alfredo de Albuquerque produziu então o discurso seguinte constantemente interrompido por aplausos:

 Exmo. Sr. Dr. Delfim Moreira:
Quando a população de Itaúna foi buscar-me, a mim exclusivamente devotado às cousas de direito, para dirigir a v. exc. As suas saudações de boas vindas, certo pensou que, para a sinceridade da homenagem que entendeu prestar-lhe, poderia servir a voz de quem avesso a lisonjas, tem com tudo um grande culto pela justiça e um espírito capaz de admirar com intensidade.
Aliás, os sentimentos do mandatário não destoam do sentimento dos mandantes.
V. exc. conhece a alma deste povo que, por fortuna sua o tem por guia, num momento difícil da vida nacional. Sabe que os mineiros, gente de virtudes simples, não são thuribularios profissionais.

Reconhecem o mérito e o proclamam com ingênua e ruidosa alegria.
O seu preito é sempre uma sagração.  Bem grande deve ser o orgulho de v. exe., não obstante a modéstia que o caracteriza, ao sentir, nas agruras do poder, nesses ásperos cimos eriçados de tamanhas responsabilidades, o conforto moral que lhe vem dá apoio desinteressado e unanime do povo de Minas Gerais.

As massas humanas, por mais rudimentares que sejam, têm um instíncto que dirige a sua alma e que norteia as suas acções. Esse instíncto, às vezes, pertuba-se ao sopro das paixões rugidoras. Nas épocas de céo lavado é bussola segura.
V. exc. typo representativo desta gente das montanhas, é o seu chefe natural e , por isso mesmo, idolatrado. A confiança no piloto é absoluta. Um passado de esforços patrióticos em prol da terra mineira, justifica essa confiança que se deposita em seu governo por todos os títulos beneméritos.

Nesta ligeira saudação não vem a propósito enumerar o acervo de benefícios que o Estado lhe deve. Alguns deles sagrariam um estadista.
Sempre que Minas o teve em sua administração gosou de paz e na paz  fluiu o espetáculo confortador do trabalho fecundo. Tem appellado com êxito pra o alto espirito de tolerância  que enobrece o caracter  de v. exc. e para a sua clarividência de homem  de estado, todas as vezes em que é preciso amortecer os ódios que a vida política costuma agitar ,todas as vezes em que há necessidade de se organizar e atividade productora.

Foi assim no governo do sr. Dr. Francisco Salles de quem foi v. exc. o braço direito, - governo pacificador, do qual datou uma época radiosa de renascimento em nossa vida econômica. Foi assim, agora quando o voto popular procurou-o como por uma inspiração providencial, para dirigir os nossos destinos  por sobre um mar de incerteza.
Coube-lhe a ventura de terminar a tarefa de confraternização da família mineira, scindida no fragor de luctas ainda memoráveis.

E apesar das dificuldades da hora presente, a aconselharem severas economias – o que v. exc. tem alcançado com uma prudência, com um critério, com uma habilidade realmente admiráveis, - apesar dos tropeços que a situação financeira tem creado à marcha da administração pública, minas caminha, em rota segura, para o brilhante futuro que lhe será reservado.

Ao influxo benéfico de seu governo, as forças vivas se agitam, há um rumor de trabalho e uma doce esperança de grandes dias de fartura e riqueza enche os nossos corações.
Fazer brotar do rochedo de Horeb a lympha crytalina, foi obra milagrosa de Moysés, guia do povo eleito. V.exc.- tirando de uma época de abalos e de desatinos energias creadoras- está realizando milagre semelhante. E isso, com calma modestamente, sem alarde, como essas águas profundas que correm quietas. Ainda agora a sua presença aqui para uma festa de caridade, é um grande estimulo para as iniciativas dos corações generosos.

Exmo. Sr. Dr. Delfim Moreira há de consentir que eu não termine esta saudação sem o relato de uma reminiscência pessoal.
No antigo Theatro Soucasaux, em Bello Horizonte, tive ocasião de assistir a um acto de belleza  empolgante, promovido por italianos, há uns quinze annos atrás.  Era uma solene distribuição de prêmios a alumnos  das escolas mantidas pela colônia. Mas, confesso, sahí acabrunhado daquella festividade, porque Minas amada, por um desolador constraste não curava também da educação de seus filhos.

Estes se entristeciam e se acabrunhavam sob o maldito regimen da férula. Com que santa alegria patriótica dias após, vi no palacete do conde de Santa Marinha, uma festa egual, melhor em enthusiasmo e pompa! Os alunos, porém eram mineiros. Mineiro era o presidente da magna assembleia. Esse presidente era v. exe. – secretário do Interior do governo de então. Póde ser que a memória me engane. Mas guardo a convicção de que foi, como primeiro toque de que foi, como primeiro toque de alvorada, o primeiro passo para o levantamento da nossa instrucção primária.

Outros, muitos outros passos se deram e v. exc. tem sido um dos chefes mais dedicados da santa cruzada, que já nos collocou como modelo, em posição de inconfundível destaque, no seio da federação brasileira.  São poucos os elogios pra os obreiros dessa majestosa construção, sem a qual não é possível a vida das democracias. Bemdicta essa grande preocupação de v.exc. !

Feliz daquelle  que póde receber as aclamações populares com a consciência de que merece por haver cumprido o seu dever !  Viva o dr. Delphim Moreira!
O exmo. Sr. Delphim Moreira agradeceu esta saudação , erguendo vivas ao povo de Itaúna.
Em seguida o especial seguiu até o local onde vae ser construído o hospital , nas proximidades da cidade onde, em um barracão belamente ornamentado, foi servido um lauto almoço.  Ao champagne o sr. Coronel Francisco Santiago, redactor do  “ Itaúna” pela imprensa e pelo directorio político, produziu um bello e eloquente discurso de saudação ao exmo. Sr. Presidente do Estado e cel. Manoel Gonçalves de Souza Moreira pelo seu generoso acto de fazer construir, exclusivamente à sua custa, um importante estabelecimento de caridade.

Em seguida o exmo. Sr. Padre João Ferreira Álvares, vigário de Itaúna, saudou com muita eloquência o sr. dr.  Agostinho Porto, diretor da Oeste. Em nome do sr. coronel Manoel Gonçalves, falou brilhantemente o nosso ilustre collega de imprensa dr. Oswaldo de Araújo. O brinde de honra foi levantado pelo exmo. Sr. Presidente do Estado, aos srs. Dr. Augusto Gonçalves e coronel Manoel Gonçalves.

Depois do almoço, teve logar o lançamento da pedra fundamental. O acto revestiu-se de maior solemnidade, sendo a benção dada pelo revmo. Padre João Álvares. Aquelle digno sacerdote usou da palavra, discorrendo com eloquência sobre a importância do grande melhoramento. Ao povo foi servido então, pelo sr.coronel Manoel Gonçalves, um copo de cerveja.

Depois desta solemnidade, o exmo. Sr. Presidente acompanhado de sua comitiva, das auctoridades  locaes, de grande massa popilar e da banda de música, visitou o prupo escolar e o edifício do fórum. No grupo s. ex. visitou todas as salas, sendo carinhosamente recebido pelos professores e alumnos.

O regresso teve logar às 3 e ½ . Na hora da partida foram erguidos, na estação, enthusiásticos vivas ao exmo. Sr. dr. Delphim Moreira e aos seus auxiliares de governo. O especial chegou a esta capital as 8 horas da noite. O sr. coronel Manoel Gonçalves e sua exma. Esposa foram incansáveis em dispensar gentilezas a todos os convidados.
Ao exmo. Sr. Presidente do Estado foi transmitido pelo dr. José Gonçalves, deputado federal, o seguinte telegramma : Rio, 7 – “ Cumprimento a agradeço honrosa visita  minha terra natal”

- O sr. coronel Manoel Gonçalves ofereceu ao exmo.sr. Presidente do estado a caneta e penna de ouro servidas por s. exe. Na assignatura da acta.
- A casa de caridade cuja pedra fundamental acaba de ser lançada em Itaúna é uma obra de grande vulto e muito recommenda  os sentimentos nobres do sr. coronel Manoel Gonçalves de Souza Moreira. O edifício, composto de dois pavilhões, de bela architectura , terá todas as instalações exigidas pela hygiene e uma sala de operações com os instrumentos cirúrgicos necessários. O digno cavalheiro julga que terá de gastar aproximadamente cem contos na execução da humanitária obra.





REFERÊNCIA:
Fonte: Jornal Cidade de Itaúna, 25 Julho 1916
Local Pesquisa: Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira - ICMC
Pesquisa e Organização: Charles Aquino
Texto digitado conforme o original

  

IRMÃS AUXILIARES DA PIEDADE

Itaúna/MG

MOVIMENTO DOS ENFERMOS
O número de 7.409 doentes aceitos durante esses 21 anos de existência: examinados pelos Médicos assistentes e feito diagnósticos; foram internados e receberam o necessário segundo a prescrição médica. Deles 6.917 receberam alta completamente restabelecidos e faleceram 492.
Serviços externos gratuitos da policlínica, funcionam regularmente e tiveram o seu movimento aumentando.

Para os externos foram aplicados
Curativos
46.628
Aplicação de Injeção
48.910
Pequenas operações
9.112
Lavagens vaginais
8.267
Exames de urina
12.997
Consultas
38.912
Radiações-ultra-violeta
10.590


Serviços internos das enfermarias e administração interna do hospital continuam a cargo das Irmãs Auxiliares da Piedade; com dedicação e proficiência desempenhando todo serviço do hospital no zelo e o amor no cumprimento de seus deveres, tem despertado o mais profundo reconhecimento, gratidão dos enfermos e desvalidos. São examinados pelos Médicos e assistentes.
Para os internos foram aplicados
Injeções
62.240
Curativos
50.108
Pequenas operações
10.201
Grandes operações
12.000
Lavagens vaginais
11.212
Exames de urina
13.402
Radiações-ultra-violeta
1.190

Itaúna, 24 de maio de 1942
Irmãs Auxiliares da Piedade





REFERÊNCIA:
Ata da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira — Itaúna/MG
Irmãs Auxiliares da Piedade / Irmã Benigna Victima de Jesus
Registrado sob nº 16.539 às fls 272 vº do Livro A-XI.
Acervo fotográfico: Prof. Marco Elísio Coutinho / Itaúna Décadas
Organização e Pesquisa: Charles Aquino