segunda-feira, março 16, 2026

COZINHO SANTANENSE

Jacob Marra da Silva (“Cozinho”): vida, trabalho e devoção em Santanense

 

Jacob Marra da Silva, popularmente conhecido como “Cozinho”, nasceu em 3 de outubro de 1905 e faleceu em 30 de agosto de 1984. Sua trajetória esteve profundamente ligada à vida comunitária, religiosa e social da cidade de Itaúna, Minas Gerais, especialmente no bairro Santanense.

Casado com Josina Marra, Jacob constituiu uma família numerosa. O casal teve quatorze filhos, embora apenas três tenham sobrevivido, além de um filho adotivo criado pelo casal. 

Entre os filhos mencionados nos registros estão Maria Helena Marra, Maria Aparecida Marra Ribeiro, Geraldo Marra e João Pinto, este último adotivo. A vida familiar de Jacob foi marcada por perdas significativas, mas também por forte espírito de fé e perseverança.

Jacob Marra trabalhou na Companhia de Tecidos Santanense, importante indústria têxtil que marcou o desenvolvimento econômico e urbano de Itaúna ao longo do século XX. Iniciou sua trajetória como empregado da fábrica e, ao longo do tempo, alcançou a função de encarregado de seção, posição que demonstra reconhecimento e confiança em seu trabalho.

A presença da Companhia de Tecidos Santanense foi fundamental para a formação social do bairro Santanense, reunindo trabalhadores, famílias e redes de sociabilidade que moldaram a vida cotidiana da comunidade.

Além de sua atividade profissional, Jacob Marra destacou-se pela intensa participação na vida religiosa local. Durante muitos anos atuou como sacristão da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, no bairro Santanense.

Também foi confrade vicentino por cerca de cinquenta anos, participando da Sociedade de São Vicente de Paulo, organização católica dedicada à assistência aos necessitados e à prática da caridade.

Segundo os documentos, Jacob Marra era figura conhecida nas manifestações religiosas da comunidade. Nas procissões, frequentemente conduzia a cruz à frente do cortejo, demonstrando sua dedicação à fé. Também participava da organização dos cortejos fúnebres, ajudando a conduzir orações e acompanhar a comunidade até o cemitério.

As informações aqui apresentadas baseiam-se na biografia redigida por Antônio Augusto Fonseca, então Presidente da Câmara Municipal de Itaúna, no contexto da tramitação do Projeto de Lei nº 95/87, apresentado em 14 de outubro de 1987. A proposta tinha como objetivo denominar um logradouro público em homenagem a Jacob Marra.

O projeto foi aprovado pelo Legislativo municipal e sancionado por meio da Lei nº 2076/87, que oficializou a denominação da Praça Jacob Marra, localizada na confluência das ruas das Camélias e das Rosas com a Avenida Manoel da Custódia, no bairro São Geraldo, em Itaúna/MG.

Na justificativa do projeto, destacou-se que Jacob Marra era lembrado pela comunidade como um homem simples, humilde e dedicado ao próximo, cuja vida foi marcada pelo trabalho, pela fé e pela participação ativa na vida comunitária.

A trajetória de Jacob Marra da Silva representa um exemplo significativo da vida social em cidades mineiras no século XX, especialmente em contextos marcados pela presença da indústria têxtil e pela forte influência da religiosidade católica na organização da vida cotidiana.

Trabalhador industrial, agente ativo da vida religiosa e participante das redes de solidariedade comunitária, Jacob Marra tornou-se uma figura respeitada em sua comunidade. A denominação de uma praça em sua homenagem constitui, portanto, uma forma de preservar sua memória e reconhecer sua contribuição para a vida social e religiosa de Itaúna. 

|Praça Jacob Marra -  Bairro São Geraldo 

Referências:

Pesquisa, elaboração e arte:

Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Fonte:

CMI – Câmara Municipal de Itaúna - Projeto de Lei nº 95/87 – Lei nº 2076/87

Biografia apresentada pelo Presidente da Câmara Municipal de Itaúna, Antônio Augusto Fonseca, em 14 de outubro de 1987, por ocasião da proposta de denominação da Praça Jacob Marra, localizada no bairro São Geraldo, em Itaúna/MG.

Texto biográfico elaborado a partir da documentação legislativa preservada no arquivo da Câmara Municipal de Itaúna.

Imagem:

Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Jacob Marra da Silva (“Cozinho”), apresentada em 1987 por Antônio Augusto Fonseca durante a tramitação do Projeto de Lei nº 95/87 para denominação de logradouro público em Itaúna.

A imagem não corresponde a um registro histórico, mas sim a uma interpretação artística que busca evocar o contexto social do personagem, sua atuação como trabalhador da Companhia de Tecidos Santanense, sua religiosidade e sua ligação com a comunidade itaunense. 

quarta-feira, março 04, 2026

ZÉ DO ZAQUEU

Personagens que dão nome às ruas de Itaúna

José Francisco da Silva – “Zé do Zaqueu” (1921–1986)

Entre os diversos personagens lembrados na toponímia urbana de Itaúna está José Francisco da Silva, conhecido popularmente como “Zé do Zaqueu”, cuja memória foi preservada na denominação de um logradouro público da cidade.

A biografia que fundamentou a homenagem foi apresentada em 1990 pelo vereador João Viana da Fonseca, durante a tramitação do projeto que propôs a denominação da via.

José Francisco da Silva nasceu em 10 de outubro de 1921, filho de Zaqueu Francisco da Silva e Maria Cândida da Silva.

Exerceu a profissão de alfaiate, atividade bastante comum nas cidades brasileiras ao longo do século XX, quando o ofício estava diretamente ligado à vida cotidiana das comunidades e ao atendimento personalizado dos moradores.

Além do trabalho, Zé do Zaqueu era conhecido por seu espírito sociável e pela facilidade de fazer amizades. Participava com frequência de encontros entre amigos, especialmente em rodas de música, onde gostava de cantar sambas e participar de serestas, uma tradição musical muito presente na cultura urbana mineira.

Outro aspecto lembrado na biografia apresentada à Câmara Municipal foi sua habilidade no futebol, esporte bastante presente no cotidiano.

Zé do Zaqueu destacou-se como jogador do Esporte Clube de Itaúna, tradicional equipe da cidade, popularmente conhecida pelos torcedores como “Esportão”. O clube teve papel importante na vida esportiva local e reuniu, ao longo de décadas, diversos atletas que marcaram o futebol amador itaunense.

Segundo registros da memória local, o talento demonstrado por Zé do Zaqueu no futebol chegou a levá-lo a atuar também fora da cidade, tendo passagem pelo Clube Atlético Mineiro, um dos principais clubes do futebol brasileiro.

A prática esportiva, somada à sua participação na vida social da cidade, contribuiu para que se tornasse uma figura bastante conhecida entre os moradores.

As recordações registradas na biografia destacam Zé do Zaqueu como uma pessoa muito querida em Itaúna, lembrado principalmente por sua convivência amistosa e pela participação em atividades culturais e esportivas da cidade.

Ele faleceu em 10 de outubro de 1986, no dia em que completava 65 anos de idade.

Quatro anos após seu falecimento, sua memória foi homenageada pelo poder público municipal com a denominação de um logradouro em Itaúna, iniciativa apresentada pelo vereador João Viana da Fonseca.

Esse tipo de homenagem faz parte de uma prática comum nas cidades brasileiras: a toponímia urbana, ou seja, a escolha de nomes de ruas e espaços públicos como forma de preservar a memória de pessoas que tiveram presença marcante na comunidade.

O estudo desses nomes permite compreender como as cidades constroem e preservam suas referências de identidade e pertencimento.

Projeto de Lei nº 140/90 - Lei 2472/91 - CEP: 35680-227

Denomina logradouro público.

O Povo do Município de Itaúna, por seus representantes decreta, e eu, em seu nome, sanciono a seguinte lei:

Art. 1º Denominar-se-á RUA ZÉ DO ZAQUEU, o logradouro público que tem seu início na Av. Dorinato Lima, passando pela quadra 11 e terrenos de propriedade do senhor João de Cerqueira Lima e terminando na rua Vasco Mendes, localizado no Conjunto Residencial Morro do Engenho, zona 03.

Art. 2º A Prefeitura Municipal de Itaúna providenciará a colocação de placas indicativas, bem como a comunicação à Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e à Companhia de Minas Gerais - CEMIG.

Art. 3º Revogadas as disposições em contrário, esta lei entrará em vigor na data de sua publicação

Sala das Sessões, em 12 de dezembro de 1990.

<João Viana da Fonseca> - Vereador

Aprovado em 1ª discussão em 13/02/1991


Referências:

Pesquisa, elaboração e arte: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Fonte:

CMI – CÂMARA MUNICIPAL DE ITAÚNA  

Projeto de Lei nº 140/90 - Lei 2472/91 - CEP: 35680-227

Biografia apresentada pelo vereador João Viana da Fonseca à Câmara Municipal de Itaúna em 1990, por ocasião da proposta de denominação de logradouro público.

Imagem:

Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de José Francisco da Silva (“Zé do Zaqueu”), apresentada em 1990 pelo vereador João Viana da Fonseca durante a proposta de denominação de logradouro público em Itaúna.

A imagem não corresponde a um registro histórico, mas sim a uma interpretação artística que busca evocar o universo social do personagem, sua profissão de alfaiate e sua ligação com o futebol itaunense, incluindo referência ao Clube Atlético Mineiro.

quarta-feira, fevereiro 11, 2026

CRUZ ROJA ESPAÑOLA

CRUZ ROJA EM ESPAÑA

Entre protocolos e pessoas: aprender a cuidar no cotidiano da Cruz Roja na Espanha

Atuar como voluntário na Cruz Roja Española, na cidade de Elda, tem sido uma experiência que ultrapassa em muito a ideia inicial de “ajuda humanitária”. 

O que se revela no cotidiano não é apenas a urgência social, mas um modo específico e profundamente histórico de organizar o cuidado, a responsabilidade e a dignidade humana.

Elda está localizada na província de Alicante, na Comunidade Valenciana, e é amplamente conhecida por sua tradição industrial ligada ao calçado. 

No entanto, há um aspecto menos visível e igualmente constitutivo de sua identidade que ajuda a compreender o ambiente em que essa experiência de voluntariado se desenvolve: Elda carrega, historicamente, a memória de uma  "Ciudad de acogida" (Cidade de acolhida).

Durante a Guerra Civil Espanhola, a cidade recebeu crianças deslocadas, feridos e pessoas em situação extrema de vulnerabilidade, desempenhando um papel ativo na proteção de vidas em meio ao conflito. 

Esse episódio é hoje reconhecido como parte do patrimônio histórico local e ajuda a explicar por que, ainda no presente, Elda se apresenta como um espaço socialmente acessível, com forte presença de redes comunitárias e instituições voltadas à inclusão. É nesse ambiente  simultaneamente histórico e atual que se insere a atuação da Cruz Roja.

Para quem vem do Brasil, especialmente de cidades médias do interior como Itaúna, o primeiro impacto não está apenas na existência da pobreza ou da vulnerabilidade, mas na forma como essas realidades são tratadas institucionalmente. Nada é improvisado. Nada é decidido de maneira individual. Tudo passa por protocolos claros, responsabilidades definidas e formação contínua. 

Essa estrutura não esfria a ação solidária; ao contrário, ela a torna sustentável, ética e previsível valores raramente associados à assistência social no imaginário latino-americano.

No Centro de Servicios (CES), onde atuo regularmente, a rotina é marcada por tarefas aparentemente simples: organização de alimentos, montagem de kits, registro de entregas, controle de turnos. No entanto, é justamente nesse nível do detalhe que se percebe uma concepção madura de ação social. 

Cada entrega é documentada. Cada pessoa usuária é reconhecida pelo nome, pelo código, pela data. Não se trata de desconfiança, mas de garantia de direitos tanto para quem recebe quanto para quem atua como voluntário.

Historicamente, sabemos que a assistência aos pobres, tanto no Brasil quanto na Europa, esteve ligada à caridade religiosa, ao favor pessoal e, muitas vezes, ao controle moral. 

O que se observa aqui é um deslocamento significativo: a ajuda deixa de ser um gesto individual e passa a ser uma política humanitária organizada, ancorada em princípios universais e em normas claras de atuação. Isso não elimina a desigualdade social, mas redefine a forma de enfrentá-la.

Essa lógica se torna ainda mais evidente nas chamadas saídas noturnas, ações voltadas ao atendimento de pessoas em situação de rua. Ao contrário do que se poderia imaginar, não se trata de ações espontâneas. Há calendário, planejamento, logística e definição de funções. 

Cada voluntário sabe exatamente o seu papel. Existe sempre uma pessoa de referência, responsável pela coordenação do grupo, e há articulação prévia com outros serviços.

Essas saídas revelam algo fundamental: o cuidado também envolve responsabilidade coletiva, e reconhecer limites é parte do compromisso ético. Em termos históricos, isso marca uma ruptura com a imagem romantizada do voluntariado heroico e solitário. 

Aqui, o voluntário não é um salvador, mas parte de uma engrenagem coletiva, onde a ação individual só faz sentido quando integrada a um projeto maior.

Um ponto que aprofunda ainda mais essa reflexão foi a entrevista concedida por Alejandro Pascual, trabalhador social da Cruz Roja em Elda. Ele chama atenção para uma distinção frequentemente apagada no discurso público: imigrante não é sinônimo de refugiado

Segundo Pascual, as pessoas refugiadas não chegam buscando simplesmente “um mundo melhor”, mas buscando viver, muitas vezes fugindo de guerras, perseguições políticas, religiosas ou étnicas e contextos que tornam a permanência em seus países de origem impossível.

A partir dessa distinção, Pascual destaca um elemento decisivo para compreender a prática da Cruz Roja: a língua como serviço transversal. O domínio do idioma local não é tratado como um complemento opcional, mas como uma condição estrutural de inclusão. A língua atravessa todos os serviços: o atendimento inicial, a orientação jurídica, o acesso a políticas públicas, a formação profissional e a construção de vínculos comunitários. 

Sem ela, o direito permanece abstrato; com ela, a autonomia se torna possível. Nesse sentido, o trabalho linguístico não apenas facilita a comunicação, mas organiza o próprio processo de integração social, funcionando como elo entre acolhida, dignidade e cidadania.

Outro aspecto central dessa experiência é a formação. Não se atua sem estudar. Direitos humanos, diplomacia humanitária, proteção da infância, perspectiva de gênero, ética institucional, meio ambiente, combate à desinformação e todos esses temas compõem um corpo formativo obrigatório. 

Isso indica que a Cruz Roja não forma apenas executores de tarefas, mas sujeitos conscientes do impacto político, social e simbólico de suas ações.

Para alguém que se dedica à pesquisa histórica e à memória social, essa vivência provoca inevitáveis comparações. No Brasil, muitas iniciativas de assistência ainda dependem excessivamente da boa vontade individual e sofrem com a descontinuidade. 

Falta estrutura, formação e, sobretudo, reconhecimento institucional do voluntariado como prática social qualificada. Aqui, o voluntário não “ajuda quando pode”; ele assume responsabilidade.

Essa experiência também desloca o olhar sobre o próprio conceito de solidariedade. Solidariedade não é apenas empatia ou compaixão. É organização, método, limite e permanência. É compreender que o cuidado, para ser justo, precisa ser regulado. Essa talvez seja uma das lições mais importantes deste percurso.

Ao registrar essas reflexões no Itaúna Décadas, não pretendo narrar uma trajetória pessoal de mérito, mas oferecer um testemunho comparativo. A história se constrói justamente nesses encontros entre realidades distintas, onde aprendemos que outras formas de agir são possíveis e que muitas delas podem, e devem, ser pensadas criticamente a partir de nossa própria experiência brasileira.

Entre protocolos e pessoas, o que se aprende é simples e profundo: cuidar também é uma forma de pensar o mundo.


Referencias

Organização e elaboração: Charles Galvão de Aquino – Historiador Registro nº 343/MG

Cruz Roja Española.

Sitio oficial de la Cruz Roja en España. Información institucional, principios fundamentales, programas de acción social y voluntariado. Disponible en: https://www.cruzroja.es

Elda (Alicante), España. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3u_mWK4cWpY

Ayuntamiento de Elda. Elda, ciudad de acogida.
Página institucional que recoge el papel histórico de la ciudad de Elda como espacio de acogida durante la Guerra Civil Española, integrando este episodio en su patrimonio histórico y memoria colectiva.
Disponible en:
https://www.elda.es/patrimonio-historico/elda-ciudad-de-acogida/

Cadena SER – Radio Elda. Alejandro Pascual.

Las personas refugiadas no vienen buscando un mundo mejor, vienen buscando vivir.
Entrevista que aborda la diferencia entre inmigrante y persona refugiada, así como el papel de la lengua como servicio transversal en los procesos de acogida e integración social desarrollados por la Cruz Roja.
Disponible en:

https://cadenaser.com/comunitat-valenciana/2025/10/21/alejandro-pascual-trabajador-social-cruz-roja-las-personas-refugiadas-no-vienen-buscando-un-mundo-mejor-vienen-buscando-vivir-radio-elda/

Comité Internacional de la Cruz Roja (CICR).
Principios del Derecho Internacional Humanitario y acción humanitaria en contextos de conflicto y desplazamiento forzado.

Disponible en: https://www.icrc.org

terça-feira, fevereiro 03, 2026

VILA ITAÚNA 1913

VILA DE ITAÚNA MG
Conheça um raro registro sobre a Vila de Itaúna em 1913. Pouco mais de uma década após sua emancipação, em 1901, a então Vila de Itaúna já se destacava como um território de grande dinamismo econômico, social e territorial. 
Um documento histórico raro, publicado pelo jornal O Paiz em 1º de outubro de 1913, revela detalhes surpreendentes da vida cotidiana, das riquezas naturais e das iniciativas pioneiras que moldaram os primeiros anos dessa jovem vila mineira.

Terras férteis, produção agrícola em expansão, um rebanho de mais de 35 mil cabeças de gado, fábricas de manteiga e laticínios modernos, ferrovia cortando o território, e uma população rural ativa e empreendedora fazem parte deste retrato impressionante de uma Itaúna em plena construção de sua identidade.

Este inquérito econômico, produzido pela Inspetoria Agrícola, não apenas enumera dados: ele nos transporta para um tempo em que o progresso se fazia com o esforço das mãos, a força da terra e o espírito coletivo de uma gente determinada.

Convidamos você a explorar esse valioso registro e descobrir como Itaúna, em apenas onze anos de existência como município, já demonstrava sinais claros de modernização, organização econômica e visão de futuro.

Este é um convite à memória, ao orgulho local e ao reconhecimento da trajetória que construiu a cidade que hoje conhecemos. O texto revela uma rica análise do panorama abrangente da estrutura territorial, da economia agrícola e pastoril, da incipiente industrialização e da organização social da vila de Itaúna em 1913.

A elevação do antigo distrito de Sant’Ana do Rio São João Acima à condição de Vila, por meio da Lei Mineira nº 319 de 16 de setembro de 1901, representa um marco da afirmação político-administrativa de Itaúna como unidade autônoma dentro da divisão territorial de Minas Gerais. Em 1913, o município já se encontrava bem delineado, com área de 3.774 km², fazendo limite com importantes municípios da região central mineira, como Pará de Minas, Bonfim, Entre Rios (atual Pará de Minas), Divinópolis e Cláudio.

A composição interna incluía cinco distritos de paz: Cajuru, Conquista, Itatiaiuçu, Serra Azul, além da sede (a própria Vila de Itaúna), bem como diversos povoados rurais e núcleos de ocupação. Essa malha territorial reforça a existência de uma dinâmica populacional dispersa, com pequenos aglomerados que provavelmente giravam em torno da agricultura de subsistência, do extrativismo e do pastoreio.

O documento estima a população total em cerca de 22.000 habitantes, sendo 4.000 residentes na sede da Vila, o que indica que aproximadamente 18% da população se concentrava em ambiente urbano, enquanto a maioria permanecia na zona rural, refletindo o caráter predominantemente agrário da região.

Em termos de infraestrutura, destaca-se a presença do ramal ferroviário (Ramal de Minas) que conectava Divinópolis a Belo Horizonte, passando por Cajuru, o que conferia à Vila de Itaúna uma vantagem logística relevante para o escoamento de produtos agrícolas e industriais. A menção a estradas de rodagem que cortavam o município “em todas as direções” revela a importância das rotas terrestres para a integração interna e com os municípios vizinhos.

Na agricultura,  a descrição da terra como “argilosa e próxima da afamada terra roxa” ressalta o potencial produtivo do solo, associado à fertilidade e adaptabilidade a diferentes cultivos. Apesar do relevo acidentado e das condições secas, a fertilidade permitia um bom desempenho agrícola, especialmente de cereais, café, algodão e cana-de-açúcar.

Embora os “modernos processos de cultura” começassem a ser introduzidos (com uso de arados e maquinário agrário), a maioria dos agricultores ainda se utilizava de técnicas rudimentares (como a enxada). Isso indica uma agricultura em transição, marcada pelo início da mecanização, mas ainda profundamente enraizada nas práticas coloniais.

Os proprietários rurais destacados, Josias Nogueira Machado, Luiz Ribeiro de Oliveira e Joaquim Nogueira Penido, representam a elite agrária local, controlando grandes propriedades no distrito sede, provavelmente com influência sobre decisões econômicas e políticas locais.

A pomicultura também é referida como um setor em ascensão, com destaque para frutas tropicais como laranja, jaboticaba, abacate, manga, abacaxi e banana — esta última já sendo uma fonte de renda e objeto de exportação para Belo Horizonte. A diversificação produtiva revela tanto adaptação climática quanto um olhar voltado para o comércio regional, sinalizando o surgimento de excedentes agrícolas.

A pecuária aparece como o eixo central da economia local, com cerca de 35.000 cabeças de gado bovino, incluindo raças caracu, curraleira, indiana, holandesa e suíça. A criação era subdividida entre gado leiteiro e de corte, com manejo eficiente entre pastagens e invernadas. A menção às feiras de “Sítio” e “Benfica” como destinos do gado sugere circuitos comerciais locais bem estabelecidos.

A produção anual de 25.000 kg de manteiga e volumes significativos de queijo evidenciam o protagonismo da indústria de laticínios, reforçada pela fundação da Cooperativa de Laticínios Itaunense, empreendimento coletivo de grande porte, que contou com capital de 50 contos de réis, um valor expressivo para a época. Essa iniciativa indica uma mentalidade empresarial já estruturada entre os fazendeiros da região.

A economia local não se restringia à produção primária. Havia também fábricas com tecnologia relativamente moderna, com uso de turbinas hidráulicas e motores para movimentar máquinas de beneficiamento de arroz, café, enlatamento de produtos e fabricação de gelo. Destaques incluem: Usina Nogueira (30 kg diários de manteiga, além de fábrica de gelo e beneficiamento de arroz); Fábrica do Calambau (20 kg diários de manteiga e beneficiamento de café); Usina Quintão (preparo de peles e arroz).

Esses dados mostram que, já em 1913, Itaúna reunia as condições para um processo de industrialização artesanal e descentralizada, impulsionada por agentes privados e ligada à agropecuária. Essa industrialização era regional, voltada principalmente para o consumo interno e mercados próximos. O retrato de Itaúna neste período permite concluir que, em apenas 11 anos após sua instalação como Vila, o município apresentava: Estrutura administrativa consolidada; População expressiva com forte base rural; Integração ferroviária e rodoviária relevante; Solo fértil e clima propício; Diversificação agrícola crescente; Potente economia pastoril com industrialização acoplada; Adoção gradual de tecnologias agrícolas e industriais.

A combinação entre iniciativa privada, organização cooperativa e recursos naturais abundantes foi determinante para o desenvolvimento rápido da Vila, consolidando-a como polo produtivo regional. Em síntese, Itaúna emergia, em 1913, como um exemplo de progresso interiorano mineiro, ainda ligado às tradições agrárias, mas já conectado às dinâmicas da modernização econômica.


VILA DE ITAÚNA 1913

Inquérito econômico (Segundo dados da Inspetoria Agrícola) — Pertencente a zona Central do Estado, o município de Itaúna deve a sua criação a Lei Mineira nº 319 de 16 de setembro, que elevou à categoria de Vila o antigo distrito de Santana do Rio São João Acima em 1901, dando-se a sua instalação a 2 de janeiro de 1902.

Tem 3.774 km quadrados o seu território e limita-se com os municípios do Pará, Bonfim, Entre Rios, Divinópolis e Cláudio. Compõe-se de cinco distritos de paz que são: a vila de Cajuru; Conquista, Itatiaiuçu e Serra Azul; e conta ainda os seguintes povoados: Olaria, Pedra, Garcias, Tabuões, Domingues, Campos, Angu Seco, Cruz das Almas, Medeiros, Retiros dos Pintos, Córregos das Pedras, Conceição, Agrilho, Salgado, Ribeiro, Cunha e Empaturrado.

Sua população é calculada em 22.000 almas, sendo que só a vila conta com 4.000 habitantes. Além do Rio São João que atravessa o município do sul a norte, tendo como afluentes os ribeirões Capotos, Olaria, Angu Seco, Jacuba e Pintos, pelo Pará, que a divide com o município do mesmo nome, e pelos ribeirões Conquista e Vermelho tributários dos rios Pará e Paraopeba.  

O ramal de Minas, que liga Divinópolis a Belo Horizonte, atravessa o município, passando pelos distritos de vila de Cajuru, em cujas sedes tem estações. Várias estradas de rodagem cortam o município em todas as direções ligando a sua sede aos distritos e aos municípios vizinhos. Possui o município jazidas de ferro e manganês, ainda não exploradas; encontram-se estas no distrito de Serra Azul. O clima é quente, seco e saudável em todo o município. 

Os terrenos de Itaúna, são geralmente acidentados, secos e reconhecidos como de muita fertilidade, atestando isso as vegetações que revestem o município e o resultado das colheitas de cereais, etc. A terra argilosa que muito se aproxima da afamada terra roxa, oferece ali grande porcentagem, encontrando-se também muita terra misturada e alguma arenosa. Tem o município 10% de terrenos em matas virgens, 25% em capoeiras de muito valor, 5% em cerrados e 64% em campos naturais e pastagens artificiais de capim gordura, roxo e provisório.

É muito importante a vida agrícola e industrial do município, habitado por um povo inteligente e empreendedor, notando-se mesmo, na sua população rural, grande animação pelos magníficos resultados da colheita de cereais e do desenvolvimento das criações.

Na agricultura, só agora vão sendo introduzidos os modernos processos de cultura, por meio do arado e outros instrumentos agrários. Todos plantam em larga escala pelos primitivos sistemas do emprego da enxada, etc., e consideram compensadores os resultados das colheitas. A principal cultura é a dos cereais, vindo, em seguida, as do café, do algodão e da cana-de-açúcar.

Os agricultores do município, em geral, encontram-se em prósperas condições, existindo avultado número de importantes propriedades rurais. Dentre estas, destacam-se as dos senhores Josias Nogueira Machado, Luiz Ribeiro de Oliveira e Joaquim Nogueira Penido, todas no distrito da vila.

A pomicultura está bastante desenvolvida no município, não pela variedade de frutas raras próprias do clima frio, mas pela quantidade de frutas de clima quente, que ali são cultivadas, tais como a laranja, muito variada e de excelente sabor; a jaboticaba, o abacate, a manga, o abacaxi e a banana, que já constitui fonte de renda, havendo grande exportação para Belo Horizonte, tendo boa aceitação.

A indústria pastoril, explorada em grande escala no município, apresenta-se como sua principal fonte de renda. Realmente fazendeiros há, possuidores e largas áreas, divididas em seções, onde, desfalcada a parte destinadas às culturas, mantém um efetivo anual de 1.200 bovinos, das raças caracu e curraleira, encontrando-se também, em número avultado, belíssimos exemplares da indiana, holandesa e suíça, já muito propagadas.

Além das pastagens destinadas ao gado leiteiro, há também grandes invernadas para o de talho, que, depois de gordo, é levado às feiras do Sítio e Benfica, para ser vendido.    Existem atualmente no município cerca de 35.000 cabeças de gado bovino. A produção anual de manteiga é de 25.000 kg, sendo muito considerável também a do queijo, que como a primeira, encontra franca aceitação, não só no mercado desta capital, como nos demais Estados.

É tal o desenvolvimento da indústria pastoril no município, que os senhores João Gonçalves de Souza, Luiz Ribeiro de Oliveira e João Rodrigues Nogueira Penido montaram, com o capital de 50 contos de reis, todo subscrito por fazendeiros do distrito da vila, a Cooperativa de Laticínios Itaunense.

O prédio construído especialmente para esse estabelecimento, montado com todo o gosto e capricho, está situado nas proximidades da estação, que serve a vila, funcionando os modernos machinismos dessa poderosa empresa com a maior regularidade. Além da Cooperativa de Laticínios Itaunense, existem no município muitas fábricas de manteiga, como sejam, entre as mesmas, as seguintes: Usina Nogueira de propriedade do senhor Josias Nogueira Machado, que mantém a 6 km da vila, uma importante fábrica de manteiga com a produção diária de 30 kg. Anexas à fábrica de manteiga funcionam as machinas para enlatamento e fabrico de gelo. Mantém ainda a Usina uma aperfeiçoada machina de beneficiar arroz. Todos os machinismos da Usina são movimentados por uma turbina com força de 40 cavalos.

Fábrica de manteiga do Calambau, pertencente ao senhor Luiz Ribeiro de Oliveira, que se acha situada na propriedade agrícola desse nome, a 6 km da vila. É de 20 kg diários de manteiga a produção desse importante estabelecimento industrial, que tem anexa uma poderosa machina para beneficiar café. Todos os seus machinismos são movidos por um motor hidráulico.

Oriunda ainda do desenvolvimento da indústria pastoril no município, existe no distrito da vila, a Usina Quintão, destinada ao preparo de peles. Dista este estabelecimento 2 km da vila e é seu proprietário o senhor Washington Alves da Cunha Quintão, vendo-se junto ao curtume uma bem instalada machina de beneficiar arroz.

Referências:

Elaboração e pesquisa: Charles Galvão de Aquino

Fonte:  Jornal “O Paiz”, Rio de Janeiro, quarta-feira, 1 de outubro de 1913, p. 6.

Hemeroteca Digital Brasileira

quinta-feira, janeiro 15, 2026

PRIMEIRO TREM

CHEGADA DO TREM EM ITAÚNA MG

A chegada do primeiro trem em Itaúna/MG: um marco celebrado com flores, música e multidão

Convidamos você a conhecer um dos momentos mais emblemáticos da história de Itaúna: a chegada do primeiro trem à vila, um acontecimento que não apenas representou o avanço da modernização e da conexão ferroviária com o restante de Minas Gerais, mas que também foi vivido e registrado como um verdadeiro espetáculo popular de alegria, orgulho e união cívica.

Embora alguns documentos indiquem que o primeiro trem teria chegado a Itaúna no ano de 1910, fontes impressas da época, como o jornal Pharol, de Juiz de Fora, em sua edição de 16 de março de 1911, registram com riqueza de detalhes que o marco histórico ocorreu no dia 8 de março de 1911. A matéria descreve com entusiasmo e precisão o impacto daquele dia na vida da população itaunense e na paisagem urbana da então vila recém-emancipada.

Naquela manhã de março, o trem do lastro da Estrada de Ferro Oeste de Minas, conduzindo o engenheiro-chefe dr. José de Berredo e acompanhado por famílias importantes de das Estações Ferroviárias de Henrique Galvão (Divinópolis/MG) e Cajuru (Carmo do Cajuru/MG), fez sua entrada triunfal no local onde se construía a estação de Itaúna. 

O cenário que se desenhou foi de comoção coletiva: uma multidão estimada em dez mil pessoas se reuniu para saudar a locomotiva com vivas aos nomes dos senhores Chagas Dória, Ministro da Viação, e do próprio dr. Berredo. O som de três bandas de música, o estouro de foguetes e os aplausos fervorosos criaram uma atmosfera de festa nacional.

Mas o momento mais simbólico e encantador se deu quando a locomotiva foi coberta por pétalas de rosas e confetes, lançados por um cordão encantador de moças e meninas do grupo escolar, como se a modernidade fosse recebida com bênçãos floridas e pura poesia popular. Era mais que uma recepção: era um ritual de acolhimento, de reconhecimento da importância daquela conquista para a vida de todos.

A cerimônia seguiu com discursos públicos representativos: Santiago, como porta-voz do Conselho Municipal, e Enéias Chaves, falando pelas classes comerciais e jurídicas. Também tomaram a palavra o Reverendo Padre Manoel Maria e o inspetor estadual Francisco Jota. Todos saudaram e homenagearam o feito da chegada do trem como um símbolo de desenvolvimento e progresso.

Após o desembarque, os convidados seguiram ao palacete municipal para um requintado lanche, onde novos discursos celebraram o feito. Encerrando o evento, o chefe político local e médico, dr. Augusto Gonçalves de Souza, elevou o brinde de honra, sintetizando o orgulho do povo itaunense. À noite, a vila foi palco de um elegante sarau, com a presença de oitenta senhoritas vestidas com apuro e elegância, simbolizando o refinamento e a vitalidade de uma comunidade em plena transformação.

Naquela época, Itaúna era descrita como uma vila florescente, com cerca de 3 mil habitantes, localizada na fralda da serra homônima, a 95 km de Belo Horizonte. Contava com cinco fábricas (de tecidos, cerveja, sapatos, pregos, ferraduras e manteiga) e já se preparava para a instalação da iluminação elétrica e de uma nova tecelagem. Ou seja, a chegada do trem era apenas uma das engrenagens de um ciclo promissor de industrialização e modernidade.

Convidamos os leitores e leitoras a refletirem sobre esse momento singular da história local, a partir do registro vívido e emocionante da imprensa da época. A chegada do primeiro trem a Itaúna foi muito mais que um evento logístico: foi um ato simbólico, uma festa popular, um gesto de esperança no futuro. Um dia em que a vila parou para celebrar a ferrovia como vetor de transformação e o fez com música, flores, discursos e fé no progresso.

INAUGURAÇÃO FERROVIA EM ITAÚNA MG

Que esse registro inspire novas gerações a valorizar a memória, o patrimônio e a história de Itaúna.


Referência:

Elaboração e pesquisa: Charles Galvão de Aquino

Fonte: Jornal “Pharol”, Juiz de Fora, MG, quinta-feira, 16 de março de 1911,  Ed. 60, p. 1.   

Hemeroteca Digital Brasileira

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

 

segunda-feira, dezembro 15, 2025

ITAÚNA A ROMA (1950)

Travessia de Fé: de Itaúna a Roma a bordo do Vapor Duque de Caxias (1950)

Em 1950, o Ano Santo proclamado pelo Papa Pio XII mobilizou milhões de católicos em todo o mundo. No Brasil, a celebração foi marcada por um feito inédito: a organização da Primeira Peregrinação Oficial Popular a Roma, coordenada por monsenhor Helder Câmara

A iniciativa combinou espiritualidade, articulação política, ousadia logística e profunda sensibilidade pastoral. Este artigo analisa os principais aspectos dessa jornada marcante, destacando sua dimensão religiosa, social e política, bem como a atuação carismática de Helder Câmara.

Embora já fosse uma figura nacional da Igreja e da Ação Católica, Helder Câmara ainda não havia feito nenhuma viagem internacional. O desejo de conhecer Roma e o Vaticano se concretizou quando foi convidado a colaborar na organização da peregrinação brasileira ao Ano Santo.

Em Itaúna, Minas Gerais, os “sinos” da Igreja da Matriz de Sant’Anna repicaram mais altos do que nunca. Era a manhã de 27 de abril, e a cidade vivia um momento de fervor e despedida. No altar principal, o Padre José Ferreira Neto ( Padre Zé Neto ) celebrava a missa de envio dos peregrinos que partiriam rumo a Roma para o Ano Santo proclamado pelo Papa Pio XII.

Ao seu lado, as senhoritas Ivolina Gonçalves, Maria Jardim Guimarães, Divina Coutinho, Angélica Lenti, Lídia Braz e o Padre Waldemar Teixeira, da vizinha Maravilhas. A cerimônia foi um misto de emoção, lágrimas e esperança. A pequena Itaúna, de alma interiorana, preparava-se para cruzar o Atlântico e chegar ao coração da cristandade.

Após a missa, a caravana embarcou em um micro-ônibus especial rumo a Belo Horizonte e, de lá, tomou um voo da Aerovias para o Rio de Janeiro — aventura inédita para a maioria. No porto, aguardavam centenas de fiéis vindos de todo o país. Era a Primeira Peregrinação Oficial Popular a Roma, organizada por Dom Helder Câmara, figura em ascensão na Igreja brasileira.

Com apoio de dom Rosalvo Costa Rego e intervenção direta junto ao presidente Eurico Gaspar Dutra, obteve-se o navio-escola Duque de Caxias da Marinha brasileira. Além da embarcação, o governo isentou os fiéis da exigência de passaporte e concedeu licença aos funcionários públicos que participassem da peregrinação. 

O Duque de Caxias, de 135 metros de comprimento e mais de 6.900 toneladas, já tinha percorrido os mares da guerra. Construído nos Estados Unidos em 1918 sob o nome Orizaba, transportara tropas nas duas Guerras Mundiais

Em 1945, chegou ao Brasil e trouxe de volta os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Dois anos depois, em 1947, foi cenário de uma tragédia: um incêndio vitimou 27 pessoas. Reformado, renasceu com um novo destino: de navio de guerra, tornou-se navio de paz, e, em 1950, seria palco da maior peregrinação religiosa do país.

Na manhã de 30 de abril, o cais do Rio de Janeiro estava tomado por familiares e curiosos. O sol iluminava a Baía da Guanabara, e a multidão agitava lenços e bandeirinhas. O apito grave do Duque de Caxias ecoou sobre as águas, e a embarcação começou a se mover. Dom Helder, emocionado, dirigiu-se aos peregrinos:

“Não é uma viagem de turismo. É uma peregrinação de fé. Cada sacrifício será parte da bênção.”

O navio partiu lentamente, levando a bordo mais de 1.300 peregrinos — embora sua capacidade fosse de 800. Lá estavam padres, freiras, idosos, jovens e famílias inteiras. Entre eles, o grupo de Itaúna, guiado pela firmeza e serenidade do Padre Zé Neto.

Durante os 22 dias de travessia, o Duque de Caxias se transformou em uma cidade flutuante. As cabines tornaram-se capelas, o convés virou espaço de procissões e orações. O enjoo do mar e o calor sufocante dos camarotes foram vencidos pela alegria dos hinos e pela fé compartilhada confortava os peregrinos adoecidos.

Outro episódio curioso marcou a viagem: diante das dificuldades enfrentadas pelas enfermeiras, foi autorizado o uso de calças compridas pelas mulheres, até então proibido no regulamento do navio. A decisão foi recebida com aplausos — símbolo da fé que se renova sem perder a essência.

Roma: o encontro com o Papa

O Duque de Caxias fez paradas em Salvador e Recife, e após sete dias de mar aberto, os peregrinos avistaram a ilha de Tenerife, nas Canárias (“terra natal do Padre Anchieta”), como escreveu Padre Zé Neto. No dia 19 de maio, chegaram à cidade italiana de Nápoles e, dois dias depois, seguiram rumo a São João de Latrão, em Roma.

O ápice da peregrinação aconteceu em 24 de maio de 1950, quando os brasileiros foram recebidos em audiência pelo Papa Pio XII, na Basílica de São Pedro. O relato no Livro Tombo de Itaúna é comovente:

“Foi um momento de grande comoção quando apareceu no fundo da Basílica a figura cândida de Pio XII. Falou diretamente aos brasileiros em português. Tive a felicidade de tocar em sua mão sagrada.”

Era a voz do Padre José Ferreira Neto, o vigário de Itaúna, que registrava com suas próprias palavras o instante em que tocou as mãos do Papa, gesto que uniria para sempre a fé de um povo mineiro à história da Igreja Universal.

A jornada prosseguiu por Assis, Florença e Pisa, com paradas de oração e contemplação. Em Pistóia, os peregrinos visitaram o Cemitério Militar Brasileiro, onde repousavam os soldados da FEB — o mesmo exército que o Duque de Caxias havia transportado anos antes. Na volta, o navio fez escalas em Marselha, Lisboa, Fátima, Sintra, Cascais e Estoril, unindo espiritualidade e cultura.

Dom Helder, que retornou antes ao Brasil de avião, deixara organizado um segundo grupo para setembro daquele ano, que viajaria no navio Geni — a chamada “Segunda Peregrinação”. Assim nasceram dois nomes simbólicos: os duquistas, do Duque de Caxias, e os genianos, do Geni.

O retorno

O grupo itaunense chegou a Itaúna em 5 de julho de 1950, após mais de dois meses de viagem. A recepção foi apoteótica. O Padre Silvério organizou uma grande celebração. O prefeito Dr. Antônio de Lima Coutinho, o Dr. José Luiz Guimarães e o jovem Guaracy Nogueira discursaram na porta da Matriz, e tudo foi transmitido ao vivo pela recém-inaugurada Rádio Clube de Itaúna (ZY-Z4), que seria oficialmente inaugurada e abençoada dias depois, em 9 de julho.

“Itaúna sentiu orgulho dos filhos que cruzaram o oceano pela fé”, escreveu Padre Zé Neto no encerramento do registro.

A Peregrinação de 1950 marcou para sempre a história religiosa de Itaúna. Foi a união entre a fé simples do interior e a universalidade da Igreja. Para o Brasil, foi o símbolo de um tempo novo: a espiritualidade popular ganhava força, e Dom Helder Câmara, inspirado pela experiência, daria origem à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada em 1952.

O Vapor Duque de Caxias, que um dia transportara soldados e feridos, transformou-se em navio de oração. E o gesto de Padre José Ferreira Neto, ao tocar as mãos do Papa Pio XII, ficou para sempre gravado como o símbolo máximo dessa travessia.

Mais de sete décadas depois, as páginas do Livro Tombo II ainda guardam o perfume do incenso daquela missa de envio. E quando se fala em Itaúna e Roma, é importante recordar de que um dia o mar uniu Minas à Cidade Eterna e que um sacerdote levou consigo, nas mãos estendidas ao Papa, a fé viva de todo um povo.




Referências:

Realização e pesquisa: Charles Galvão de Aquino

Dom Hélder Câmara: o profeta da paz, Walter Praxedes, Nelson Piletti. Editora Contexto, 2009, p. 145-151.

Livro do Tombo II, 1950,  p. 9. Paróquia Santana de Itaúna/MG.

NAVAL — Navios de Guerra Brasileiros. NGB – Duque de Caxias (D-068). Disponível em: https://www.naval.com.br/ngb/D/D068/D068.htm. Acesso em: 24 out. 2025.

MARINHA DO BRASIL. Duque de Caxias : navio-auxiliar/navio-escola (31 jul. 1945-16 maio 1958). Rio de Janeiro: Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, s.d. Disponível em: https://www.marinha.mil.br/dphdm/sites/www.marinha.mil.br.dphdm/files/DuquedeCaxiasNavioAuxiliarNavioEscola1945-1958.pdf. Acesso em: 24 out. 2025.