terça-feira, abril 14, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (4)

VIGILÂNCIA NA IMPRENSA EM ITAÚNA MG

CAPÍTULO 4

A história que se revela neste capítulo 4 não é apenas a trajetória de um jornal, mas o retrato de uma época em que informação, vigilância e poder se entrelaçavam de maneira silenciosa e estratégica. 

Ao percorrer estes documentos, o leitor é convidado a ultrapassar a superfície dos registros e mergulhar em uma investigação que revela não apenas dados administrativos, mas indícios de um sistema mais amplo de observação e controle.

Conhecer essa narrativa é compreender como a imprensa local, muitas vezes vista como periférica, ocupava um papel central na circulação de ideias e na formação da opinião pública. Mais do que um resgate histórico, trata-se de uma oportunidade de enxergar, com olhar crítico, as engrenagens que operavam nos bastidores da informação em um período decisivo da história brasileira.

Folha do Oeste nos arquivos do SNI (Serviço Nacional de Informações):  o que ainda revelam os documentos sobre o jornal nos anos 1980?

 Como já apresentado no Capítulo 1 desta série, documentos produzidos pelos órgãos de informação do Estado registraram a presença do jornal Folha do Oeste em levantamentos nacionais sobre a imprensa do interior brasileiro. 

A análise de novos registros permite agora avançar nessa investigação, revelando não apenas a estrutura do periódico, mas também elementos que evidenciam sua organização administrativa ao longo da década de 1980.

Essa ampliação temporal é fundamental. Isso porque os documentos consultados indicam que o jornal não pode ser compreendido apenas a partir de uma única gestão, mas deve ser analisado como parte de uma trajetória institucional mais longa, marcada por diferentes direções e reorganizações empresariais desde sua fundação em 1944.

Mais do que registrar a existência do jornal Folha do Oeste, essas fontes revelam, com um nível incomum de detalhamento, como o periódico foi descrito, acompanhado e inserido nos levantamentos oficiais da época. 

Os dados analisados abrangem diferentes momentos da década de 1980 e permitem identificar mudanças significativas na estrutura do jornal, evidenciando uma transição entre o período em que esteve sob a direção de José Waldemar Teixeira de Melo, no início da década, e a gestão de Sérgio Fernandes da Cunha, já em sua fase final.

Diante disso, a pergunta que orienta este capítulo deixa de ser apenas descritiva e passa a ser interpretativa. O que exatamente esses documentos revelam? Estariam eles (SNI) registrando apenas um jornal ou revelando uma estrutura em transformação, acompanhada de perto por órgãos de informação do Estado?

Um documento particularmente revelador, datado de 1981 e classificado como confidencial pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), apresenta um levantamento minucioso sobre o periódico, oferecendo um retrato detalhado de sua estrutura naquele momento.

O documento produzido revela que o acompanhamento da imprensa do interior brasileiro não se dava de forma superficial ou ocasional, mas por meio de instrumentos sistemáticos e detalhados de coleta de dados.

No caso do jornal Folha do Oeste, esse acompanhamento materializou-se na aplicação de um Questionário composto por 24 itens, elaborado com o objetivo de levantar informações precisas sobre a estrutura, funcionamento, alcance e características editoriais do periódico.

Esse dado, por si só, já altera a forma como o documento deve ser interpretado, pois demonstra que não se tratava apenas de registrar a existência de jornais, mas de compreendê-los em profundidade, quase como se fossem objetos de mapeamento estratégico.

O questionário abrange uma ampla gama de aspectos que, analisados em conjunto, revelam o interesse do Estado em construir um perfil completo do veículo de comunicação. As perguntas contemplam desde dados básicos, como nome do jornal, razão social, data de fundação e endereço, até informações mais sensíveis relacionadas à estrutura de propriedade, composição administrativa e funcionamento interno.

No caso da Folha do Oeste, destaca-se a identificação clara de seus proprietários, com a concentração quase total das cotas nas mãos de José Waldemar Teixeira de Melo, o que indica um modelo de controle centralizado e reforça a figura do proprietário como elemento-chave na definição dos rumos do jornal.

Além disso, o questionário avança sobre aspectos operacionais, como periodicidade, dias de circulação, número médio de páginas, tiragem e maquinário utilizado na impressão, revelando não apenas a capacidade produtiva do jornal, mas também seu nível técnico e organizacional.

A tiragem de 2.000 (dois mil) exemplares, associada a uma circulação que ultrapassava os limites de Itaúna e alcançava cidades vizinhas e até centros urbanos maiores, indica que o periódico possuía uma inserção regional relevante, funcionando como elo de comunicação entre diferentes localidades.

Outro conjunto de informações presentes no questionário diz respeito à distribuição e às fontes de receita, incluindo assinaturas, venda em banca e publicidade. Esses dados permitem compreender o modelo econômico do jornal e sua forma de sustentação financeira, ao mesmo tempo em que indicam sua dependência de redes locais de consumo e financiamento. 

A inclusão de perguntas sobre concorrentes diretos, tanto em Itaúna quanto em cidades próximas, revela que o levantamento não ignorava o contexto de disputa no campo da comunicação, sugerindo que o interesse não estava apenas no jornal isoladamente, mas também na posição que ele ocupava dentro de um sistema regional de imprensa.

O questionário também investiga a existência de interrupções na circulação do periódico, o número de funcionários assalariados e até possíveis projetos de expansão, como a viabilidade de uma emissora de rádio. 

Esses elementos indicam que o Estado buscava avaliar não apenas a situação atual do jornal, mas também suas perspectivas futuras e sua capacidade de crescimento, o que reforça a ideia de um monitoramento voltado para o potencial de influência do veículo.

Particularmente relevante é o item que trata dos assuntos predominantes publicados pelo jornal, no qual se registra que a Folha do Oeste se apresentava como um veículo aberto a todas as correntes de opinião e sem vinculação político-partidária. 

Mas o contexto em que essa declaração aparece levanta uma questão inevitável: até que ponto essa neutralidade era uma posição editorial ou uma forma de se situar diante de um ambiente de vigilância?

 Essa autodefinição, no entanto, deve ser analisada com cautela, pois, inserida em um contexto de vigilância institucional, pode refletir não apenas uma postura editorial, mas também uma forma de posicionamento diante de um ambiente político sensível, no qual a neutralidade declarada funcionava como estratégia de legitimidade e proteção.

Ao reunir esses 24 itens em um único instrumento de coleta, o SNI produziu mais do que um simples cadastro. O que se observa é a construção de um retrato detalhado do jornal enquanto organização, empresa e agente social. 

Cada informação, isoladamente, pode parecer apenas técnica, mas, em conjunto, elas permitem mapear relações de poder, redes de circulação, capacidade de alcance e potencial de influência sobre a opinião pública.

Assim, a existência de um questionário estruturado em 24 itens não apenas confirma o interesse institucional pela imprensa local, mas também indica a presença de uma lógica de vigilância que operava de maneira organizada e sistemática, transformando jornais do interior em objetos de conhecimento e acompanhamento dentro de um contexto político mais amplo.

Avançando para o final da década, os registros não apenas aumentam em volume, mas também mudam de natureza. As fichas produzidas pelo SNI entre 1987 e 1988 revelam uma Folha do Oeste em nova configuração, marcada pela ampliação de sua rede de colaboradores. Nomes ligados à produção jornalística, à vida cultural e até à atuação política local passam a aparecer associados ao periódico, indicando um jornal mais inserido e atuante no espaço público.

Entre eles, destacam-se os jornalistas Sérgio Fernandes da Cunha e Renato Geraldo Soares, vinculados à condução administrativa, além de uma extensa rede de colaboradores que evidencia um veículo já profundamente integrado à dinâmica social da cidade.

Também são mencionados colaboradores ligados à produção jornalística e editorial do periódico, como Maria Helena Moraes, José Raimundo Rodrigues, Vicente Parreiras, Eblaid Silva, Janaina Moraes, Beatriz Chaueb Corrêa, Danilo de Oliveira Lopes, Raimundo Araújo, Geovane Vinícius (ou Giovanni Vinícius), Geovane Vilela e Silva, Alberto Libânio Rodrigues, Fábio Souza Gonçalves, Paulo Bonfim, Heli de Souza Maia e Aleino de Souza, entre outros nomes registrados na documentação.

A presença de uma relação extensa de colaboradores indica que o jornal operava por meio de uma rede diversificada de jornalistas, colunistas e articulistas, refletindo a dinâmica característica da imprensa regional, frequentemente sustentada por profissionais ligados à vida cultural, social e política da própria comunidade.

Essa reorganização interna se reflete também em seus indicadores operacionais: o jornal passa a operar com tiragem aproximada de 4.500 exemplares e periodicidade bissemanal, consolidando sua ampliação no cenário regional.

A importância do periódico no cenário regional também pode ser observada em registros públicos da época. Em pronunciamento realizado na Câmara dos Deputados e publicado no Diário do Congresso Nacional, em 9 de outubro de 1985, o deputado Dimas Perrim (PMDB–MG) mencionou a imprensa local ao afirmar que o município de Itaúna contava com “cinco importantes órgãos” de comunicação, destacando entre eles o jornal Folha do Oeste.

No mesmo discurso, o parlamentar citou a direção do periódico, então associada a Sérgio Fernandes da Cunha, Renato Geraldo Soares, Marlênio Raimundo de Souza e Alberto Libânio Rodrigues, observando que o jornal possuía “grande penetração local”, marcada pela seriedade de suas matérias e pelo interesse em defender as causas de Itaúna e dos municípios vizinhos.

Esse registro demonstra que, naquele período, o jornal era reconhecido publicamente como um dos veículos relevantes de comunicação, sendo reconhecido tanto no debate público quanto em registros administrativos do próprio município e na região.

As próprias fichas consultadas registram ainda uma observação adicional sobre o periódico. Na seção destinada às observações, consta que o jornal Folha do Oeste foi declarado de utilidade pública pela Lei Municipal nº 697, sendo também reconhecido como órgão de publicação dos atos oficiais da Comarca de Itaúna/MG. Embora o documento não apresente a data exata dessa lei, a informação aparece registrada na “Ficha Cadastral de Veículo de Comunicação Social” elaborada pelas autoridades em 27 de maio de 1987.

Ao mesmo tempo, os documentos administrativos produzidos por órgãos de informação do Estado mostram que o periódico também figurava em sistemas de cadastro e acompanhamento institucional. As fichas analisadas registram dados detalhados sobre o funcionamento do jornal, incluindo endereço da redação, estrutura da empresa editora, composição da equipe editorial, tiragem e área de circulação.

O nível de detalhamento presente nesses registros indica que os órgãos responsáveis pelo levantamento buscavam manter atualizados cadastros completos sobre veículos de comunicação em atividade no país. Esse tipo de documentação não se limitava a grandes jornais de circulação nacional, incluindo também periódicos regionais do interior.

Outro documento consultado no mesmo conjunto de arquivos acrescenta um elemento adicional a esse panorama. Trata-se de um relatório administrativo que registra a organização do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em Minas Gerais no ano de 1988, no qual aparecem listados nomes associados à constituição de comissões diretoras municipais provisórias em diversas cidades do estado.

Na relação referente ao município de Itaúna, o documento menciona os nomes de Sérgio Fernandes da Cunha, Geovane Vilela e Silva e Valdecir Alves da Silva como integrantes da estrutura inicial de organização partidária local.

A presença desses registros sugere que alguns nomes ligados à imprensa local também participavam da vida política e institucional do município, fenômeno relativamente comum em cidades de porte médio, onde diferentes esferas da vida pública frequentemente se entrelaçam.

Nesse contexto, surge uma questão interpretativa relevante. Se, por um lado, registros públicos indicam que o jornal Folha do Oeste possuía grande presença na comunicação regional e era reconhecido como um dos principais veículos da cidade, por outro lado documentos administrativos produzidos por órgãos de informação registravam de forma detalhada sua estrutura e seus responsáveis.

Diante desse cenário, cabe perguntar: seria justamente a relevância do jornal na formação da opinião pública local um dos fatores que teria motivado a elaboração desses registros institucionais sobre o periódico e sua equipe editorial?

Embora os documentos não ofereçam resposta direta a essa questão, eles evidenciam que a imprensa regional também esteve presente nos arquivos produzidos por estruturas de informação do Estado durante o período de transição política brasileira.

Mais do que “registros administrativos”, esses documentos constituem hoje fontes importantes para compreender a história da imprensa regional e o papel desempenhado por jornais locais na circulação de ideias, debates públicos e construção da memória das cidades do interior.

A análise desses materiais contribui para ampliar o entendimento sobre a trajetória da Folha do Oeste e sobre a atuação de seus dirigentes e colaboradores na vida pública de Itaúna durante as transformações políticas e institucionais da década de 1980.

Dessa forma, o documento revela que a Folha do Oeste, embora inserida em um contexto local, era percebida como um agente relevante no circuito comunicacional regional. Ao mesmo tempo, evidencia que a imprensa do interior também estava integrada aos mecanismos de observação do Estado, sendo analisada não apenas pelo conteúdo que publicava, mas sobretudo pelo papel que desempenhava na articulação social e na circulação de ideias.

Quando observados em conjunto, os registros do início e do final da década de 1980 permitem ainda identificar uma transformação significativa na estrutura do jornal. Sob a direção de José Waldemar Teixeira de Melo, no início da década, a Folha do Oeste apresentava uma organização mais concentrada e operacionalmente enxuta. 

Já nos anos finais, durante a gestão de Sérgio Fernandes da Cunha, o periódico surge com uma configuração ampliada, marcada pelo aumento da tiragem, pela diversificação de colaboradores e por maior inserção no espaço público local.

Mais do que uma simples mudança administrativa, essa transição evidencia um jornal em movimento e, ao mesmo tempo, acompanhado de perto pelos órgãos de informação. Nesse sentido, a Folha do Oeste não aparece nos documentos apenas como veículo de comunicação, mas como parte de uma estrutura dinâmica cuja evolução também foi objeto de registro e observação ao longo da década.

Importante ressaltar que o Serviço Nacional deInformações (SNI) foi o órgão federal de inteligência criado em 1964 para coordenar em todo o país as atividades de informação do regime militar. Já o DOPS de Minas Gerais (Departamento de Ordem Política e Social) era a polícia política estadual, encarregada de investigar opositores do regime em Minas.

Embora um fosse federal e o outro estadual, ambos integravam o mesmo sistema de segurança interno (SISNI), que reunia polícias civis, militares e federais com o objetivo comum de monitorar. Na prática, SNI e DOPS-MG trabalhavam lado a lado. 

No próximo capítulo desta série, novos documentos e registros históricos serão apresentados, ampliando a investigação sobre a presença da imprensa itaunense nos arquivos produzidos por órgãos de informação e sobre o papel desempenhado pelos jornais locais na história da comunicação regional. 

Entre os periódicos desse período destaca-se o jornal Brexó, cuja atuação nos debates públicos da cidade será examinada a partir de documentos produzidos pela polícia política e das próprias edições do periódico preservadas da época. 

 
Disponível: Folha do Povo

REFERÊNCIAS:

AQUINO,Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN).
Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8).
Série: MIC/GNC/AAA. Dossiê: 81019370. Título: Levantamento de dados de jornais, p. 1-2, 45. Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.AAA.81019370. Disponível em:
https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/aaa/81019370/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_81019370_d0001de0002.pdf. Acesso em: 04 abr. 2026.

 BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN).

Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/OOO.

Dossiê: 88013583. Título: Cadastro de veículos de comunicação, p.1-2, 27-29. Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013583. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.

 BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN).

Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/OOO.
Dossiê: 89014611. Título: Cadastro de veículos de comunicação, p.1-2, 14-16.
Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.89014611.
Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/89014611/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_89014611_d0001de0003.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.

 BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN).

Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC, GNC.OOO.88013642. Título: Organização dos partidos politicos em minas gerais,psb., p. 1-7. – Dossiê. Código de referência: BR DFANBSB V8 MIC GNC OOO 88013642. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013642/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013642_d0001de0001.pdf . Acesso em: 04.abr. 2026.

BRASIL. Congresso Nacional. Diário do Congresso Nacional. Seção 1, ano XL, n. 126, Capital Federal, 9 out. 1985, p. 39.

Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística da imprensa itaunense abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos. 

CONFIDENCIAL ITAÚNA (CAP 4) by Itaúna Décadas

segunda-feira, abril 13, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (3)

VIGILÂNCIA NA IMPRENSA EM ITAÚNA MG

CAPÍTULO 3

Este texto convida o leitor a ir além de uma leitura superficial dos dados apresentados e a observar, com atenção crítica, os vestígios documentais que revelam muito mais do que simples registros administrativos.

Ao percorrer as informações sobre os jornais da imprensa itaunense no final da década de 1980, torna-se possível identificar indícios de organização, alcance e até possíveis formas de monitoramento da imprensa local em um período marcado por forte presença estatal sobre os meios de comunicação.

A proposta aqui não é apenas informar, mas provocar: que tipo de controle se exercia sobre esses veículos? O que esses cadastros silenciam? E, sobretudo, o que eles deixam escapar? A leitura do capítulo permite acessar essas camadas e compreender como a história da imprensa também se constrói a partir de arquivos produzidos pelo próprio aparato que buscava observá-la

Os Jornais da Tribuna Itaunense e Folha do Centro-Oeste nos registros das autoridades: o que revelam as Fichas dos Cadastros de veículos de Comunicação?

Esta série analisa documentos históricos produzidos por órgãos de informação que registraram dados sobre jornais da cidade de Itaúna nas décadas de 1970 e 1980, revelando aspectos da estrutura e da circulação da imprensa local naquele período.

A análise de documentos produzidos por órgãos responsáveis pelo levantamento de veículos de comunicação social revela que outros periódicos de Itaúna também aparecem registrados nos arquivos administrativos do período. Além dos jornais já mencionados nos capítulos anteriores desta série, as fichas consultadas indicam a presença de informações detalhadas sobre publicações como o Jornal Tribuna Itaunense e o Jornal Folha do Centro-Oeste.

Esses registros fazem parte de fichas de cadastro elaboradas em 1987 por órgãos responsáveis pelo levantamento de veículos de comunicação social em diferentes cidades. Os formulários reuniam informações sobre denominação do jornal, data de fundação, razão social da empresa editora, endereço da redação, tiragem, periodicidade, área de circulação e nomes de integrantes das equipes editoriais. Esse modelo padronizado de registro indica que o levantamento buscava reunir dados sistemáticos sobre os veículos de comunicação em funcionamento naquele momento.

Entre os periódicos documentados encontra-se o Jornal Tribuna Itaunense, fundado em 16 de junho de 1975 e vinculado à empresa Editora Gazeta de Minas Ltda.. O endereço da redação aparece registrado na Rua Santana, nº 436, bairro Graças, no município de Itaúna.

Segundo a ficha consultada, o periódico tinha como diretor responsável Antônio de Freitas. A equipe editorial incluía colaboradores ligados à produção jornalística, entre eles Adolfo Osório Mendes Penido e José Raimundo Rodrigues, identificados como colunistas, além de José Maria de Aquino, Hely de Souza Maia e José dos Santos Pereira, mencionados como colaboradores.

Os dados administrativos indicam que o jornal possuía periodicidade semanal, com oito páginas por edição e tiragem aproximada de 1.500 exemplares. A área de circulação registrada inclui os municípios de Itaúna, Itatiaiuçu e Mateus Leme, indicando que o periódico possuía presença informativa concentrada na própria cidade e em localidades vizinhas.

A documentação registra ainda que a empresa editora contava com dois empregados e apresentava situação financeira classificada como “boa” no momento da atualização do cadastro.

Outro periódico registrado nas fichas é o Jornal Folha do Centro-Oeste, fundado em 28 de junho de 1986 e vinculado à empresa SICOM – Sistemas de Comunicação do Oeste de Minas Ltda.

O jornal estava sediado na Rua Silva Jardim, nº 367, no centro de Itaúna, e apresentava uma estrutura editorial composta por diversos profissionais. O quadro societário registra Alberto Libânio Rodrigues, Geovane Vilela e Silva e Lindair Vicente de Rezende, que também desempenhavam funções na organização do periódico: o primeiro como editor, o segundo como diretor comercial e repórter, e o terceiro como diretor financeiro.

A ficha menciona ainda outros integrantes da equipe editorial, entre eles Paulo Roberto Alves Nogueira, identificado como jornalista responsável; Luciene Luzia da Silva Ferreira, redatora; José Raimundo de Miranda Alves, responsável pela diagramação; além de Maria Eugênia Teixeira Vargas, colunista social, e Adilson Rodrigues, colunista de música.

Os dados administrativos indicam que o periódico possuía periodicidade quinzenal, com doze páginas distribuídas em dois cadernos e tiragem aproximada de 5.000 exemplares.

A área de circulação registrada para o jornal é significativamente mais ampla que a de outros periódicos locais, incluindo cidades como Divinópolis, Belo Horizonte, Formiga, Pará de Minas, Mateus Leme e Itatiaiuçu, além do próprio município de Itaúna.

Os documentos registram ainda a existência de representantes regionais em diferentes cidades, indicando a formação de uma rede de distribuição e representação comercial em localidades como Belo Horizonte, Divinópolis, Formiga e Pará de Minas, além de um representante responsável pela divulgação do jornal em âmbito nacional. A documentação indica também que a impressão do periódico era realizada pela gráfica do Diário do Comércio, em Belo Horizonte.

Fundados em momentos distintos, os dois periódicos refletem fases diferentes da imprensa local. O Jornal Tribuna Itaunense, criado em 1975, aparece com tiragem aproximada de 1.500 exemplares e circulação concentrada em Itaúna e municípios próximos. Já o Jornal Folha do Centro-Oeste, fundado mais de uma década depois, em 1986, apresenta tiragem registrada de 5.000 exemplares e circulação mais ampla, alcançando cidades importantes da região centro-oeste mineira.

A comparação entre os dados registrados nas fichas sugere que, ao longo desse período, alguns veículos da imprensa local passaram a buscar maior alcance regional e estruturas de circulação mais amplas.

Observados em conjunto, os registros documentais revelam diferentes momentos da imprensa itaunense. Enquanto a Folha do Oeste, fundada em 1944, representa uma fase mais antiga da comunicação local, periódicos surgidos nas décadas seguintes, como Tribuna, Itaunense e Ita Vox, ambos fundados em 1975, e a Folha do Centro-Oeste, criada em 1986 indicam a formação de um ambiente jornalístico diversificado, com veículos que buscavam ampliar sua circulação e atuação na região.

Ao reunir informações sobre esses jornais, incluindo endereço das redações, tiragem, periodicidade e nomes de integrantes das equipes editoriais, os documentos analisados acabam revelando não apenas dados administrativos, mas também fragmentos importantes da história da comunicação em Itaúna.

Entre esses periódicos, um dos que aparece com maior destaque nos registros consultados é o jornal Folha do Oeste. Como já mencionado no primeiro capítulo desta série, o periódico também figura em levantamentos realizados por órgãos de informação do Estado. No próximo capítulo, novos documentos serão apresentados, permitindo examinar com maior detalhe a trajetória e a atuação editorial do jornal naquele período.

REFERÊNCIAS: 

AQUINO, Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG. 

Arquivo Nacional. Fundo: BR DFANBSB V8.MIC, GNC.000.88013583.
Série: Cadastros de veículos de comunicação, p.21-22,22v. Dossiê. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf
Acesso em: 13 abr. 2026.

IMAGEM:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação simbólica do contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística discutidos no texto, não correspondendo a registros fotográficos ou documentos históricos autênticos. 

CONFIDENCIAL ITAÚNA (CAP 3) by Itaúna Décadas

sábado, abril 11, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (2)

VIGILÂNCIA NA IMPRENSA EM ITAÚNA MG

CAPÍTULO 2

Esta pesquisa convida você a conhecer documentos confidenciais produzidos pelos órgãos de informação no final da ditadura, que mostram como a imprensa itaunense também foi monitorada.

Ao analisar essas fontes, o leitor encontrará não apenas dados técnicos sobre jornais, mas registros que revelam interpretações sobre posicionamentos editoriais e vínculos políticos. 

O caso do jornal Ita Vox chama atenção tanto por sua circulação expressiva quanto por suas conexões, incluindo a presença de Austregésilo de Athayde entre os articulistas.

Mais do que relatar fatos, o texto propõe uma reflexão sobre o papel da imprensa itaunense, os limites entre informação e vigilância e a forma como esses registros ajudam a compreender o período.

Se você busca entender como a história também se constrói a partir da imprensa regional, esta leitura oferece um ponto de partida consistente e provocador.

 Arquivos da polícia política (1987/1988): documentos revelam registros sobre jornal de Itaúna que contou com o intelectual Austregésilo de Athayde entre seus articulistas 

Documentos classificados como confidenciais, preservados nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação do período, revelam que jornais do interior de Minas Gerais foram incluídos em registros detalhados mantidos pelo Estado. Esses documentos integram o chamado Cadastro de Veículos de Comunicação Social, no qual eram reunidas informações sobre direção, circulação, estrutura editorial e colaboradores de diversos periódicos.

A reportagem publicada na última edição deste jornal iniciou uma série dedicada à análise desse material histórico, mostrando que veículos ligados à cidade de Itaúna/MG também aparecem nesses registros oficiais. A continuidade da investigação revela que entre os periódicos registrados nesses arquivos está o jornal Ita Vox, publicação fundada em 11 de maio de 1975 e dirigida pelo jornalista Juarez Heleno Campos.

As fichas consultadas indicam que o periódico possuía circulação semanal, com cerca de oito páginas por edição e tiragem aproximada de 7.500 exemplares, número expressivo para um veículo do interior naquele período. A distribuição alcançava não apenas Itaúna, mas também cidades da região como Divinópolis, Pará de Minas, Itaguara, Itatiaiuçu e Mateus Leme, além de Belo Horizonte. Esses dados aparecem registrados nas fichas elaboradas pelos órgãos responsáveis pelo levantamento dos veículos de comunicação que circulavam em Minas Gerais.

Outro aspecto presente no documento é a relação de integrantes e colaboradores vinculados ao jornal. Entre os nomes registrados aparece o do jornalista Austregésilo de Athayde, intelectual de projeção nacional e uma das figuras mais influentes da imprensa brasileira no século XX.

Athayde teve longa trajetória no jornalismo nacional, esteve ligado aos Diários Associados e presidiu a Academia Brasileira de Letras por mais de três décadas, consolidando-se como uma das referências da vida intelectual brasileira. A presença de um nome desse porte entre os articulistas do periódico revela que o Ita Vox mantinha conexões que ultrapassavam o âmbito estritamente local da imprensa regional.

Além dessas informações, a ficha elaborada pelos órgãos responsáveis pelo levantamento dos veículos de comunicação apresenta um nível de detalhamento bastante amplo sobre o funcionamento do periódico. O documento registra minuciosamente dados administrativos e editoriais do jornal, incluindo o quadro societário, a composição da equipe editorial, a relação de colaboradores, além do número de telefone e do endereço da redação.

Entre os nomes já mencionados, além do diretor responsável Juarez Heleno Campos e do jornalista Austregésilo de Athayde, a ficha também registra Jacqueline Almeida Simões Campos, integrante do quadro societário. Como membros do conselho editorial aparecem o jornalista José Leandro Junqueira Meireles e o colunista social Cosme Caetano Silva. O documento menciona ainda articulistas como Jarbas Passarinho, Rangel Coelho e Luiz Gonzaga da Fonseca.

A ficha também registra informações adicionais sobre a estrutura de representação do periódico, indicando a existência de representantes ou sucursais em importantes centros urbanos do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília.

Nas observações do documento aparece ainda o registro de que o jornal Ita Vox foi declarado de utilidade pública pela Lei Municipal nº 1.951, de 1º de setembro de 1986. Esses elementos indicam que o levantamento buscava reunir um panorama bastante completo sobre a organização, a equipe editorial e a rede de atuação do periódico.

Dentre os trechos mais reveladores do documento está uma observação registrada na ficha referente ao diretor responsável pelo jornal. No registro produzido pelos órgãos responsáveis pelo acompanhamento de informações e atividades consideradas relevantes no período consta a seguinte anotação:

“Em seu editorial sempre se posiciona contrário à conjuntura atual do país, tecendo críticas às atuações dos atuais governantes, tanto no âmbito federal quanto no estadual. É ligado a políticos do Partido Democrático Social (PDS).”

Esse trecho é particularmente significativo porque revela aspectos que vão além de um simples registro administrativo sobre o veículo de comunicação.

Primeiro, o documento não registra apenas dados técnicos do jornal, como tiragem, endereço ou periodicidade. Ele também apresenta observações sobre o conteúdo editorial publicado no periódico.

Segundo, o registro identifica o posicionamento político do responsável pelo jornal, ao destacar que seus editoriais expressavam críticas à atuação de governantes.

Terceiro, a presença desse tipo de observação indica que as fichas não se limitavam a um cadastro burocrático dos veículos de comunicação. Em determinados casos, os registros incluíam também anotações interpretativas sobre a atuação pública e editorial dos jornais.

A presença de observações sobre o posicionamento editorial de jornais vinculados a Itaúna mostra que os registros produzidos pelos órgãos de informação iam além de um simples cadastro administrativo. Esses documentos hoje ajudam a compreender como veículos da imprensa regional eram descritos e analisados nos arquivos oficiais do período.

A série de reportagens prossegue nas próximas edições com a análise de outros jornais e personagens da imprensa de Itaúna que também aparecem nesses registros históricos, ampliando o entendimento sobre a presença da comunicação regional nos arquivos produzidos pelos órgãos de informação daquela época.

 

Disponível : Jornal Folha do Povo

REFERÊNCIAS: 

AQUINO, Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG. 

Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Série: MIC/GNC/OOO. Dossiê: 88013583. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013583. Disponível em:
https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf.
Acesso em: 11 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (SNI). Série: MIC/GNC/OOO. Dossiê: 88014600. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88014600. Disponível em:
https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88014600/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88014600_d0001de0003.pdf.
Acesso em: 11 abr. 2026.

CONFIDENCIAL ITAÚNA (CAP 2) by Itaúna Décadas

quarta-feira, abril 08, 2026

CONFIDENCIAL ITAÚNA (1)

VIGILÂNCIA NA IMPRENSA EM ITAÚNA MG

CAPÍTULO 1

Folha do Oeste à Folha do Povo: jornalismo e vigilância política em Itaúna

O jornal Folha do Oeste em Itaúna/MG, fundado em fevereiro de 1944 por Sebastião Nogueira Gomide, conhecido como “Piu”, ocupa um lugar de destaque na trajetória, história e memória da imprensa local e regional.

 Surgido em pleno contexto de transformações sociais e políticas no Brasil, ainda sob o Estado Novo, o periódico representou desde cedo a tentativa de consolidar uma imprensa mais estruturada no interior de Minas Gerais, tendo o mérito de ser considerado um jornal de Itaúna com registro profissional e circulação regular.

Sua fundação não foi apenas um marco de comunicação, mas também um instrumento de afirmação da cidade como polo em expansão econômica e cultural, dando voz às demandas de uma população que buscava maior visibilidade frente aos acontecimentos do cenário estadual e nacional.

Nos primeiros anos de circulação, ainda sob o nome Folha do Oeste, o jornal manteve forte vínculo com seu fundador, Sebastião Nogueira Gomide, que foi seu proprietário e diretor até o falecimento em 26 de novembro de 1980. 

Gomide, figura reconhecida no meio jornalístico e cultural de Itaúna, imprimiu ao periódico um caráter combativo, comunitário e de valorização da vida local, transformando-o em referência da imprensa interiorana mineira durante décadas. Após o falecimento de seu fundador, o jornal passou por um processo de reorganização administrativa e editorial.

Apesar das pressões e transformações, o jornal manteve-se ativo, adaptando-se às novas conjunturas políticas e sociais. Entre os nomes que marcaram sua condução ao longo dos anos estão Célio Silva, José Waldemar Teixeira de Mello, Anis José Leão, Juarez Heleno Campos e Sérgio Cunha, que imprimiram diferentes estilos e enfoques, mas sempre preservaram o caráter local e participativo da publicação.

Entre os arquivos consultados sobre a trajetória da imprensa itaunense, emergem também documentos oficiais que evidenciam o ambiente de controle e vigilância política característico do final da década de 1970. Um exemplo é o ofício nº 1427-SA/79, datado de 25 de outubro de 1979, expedido pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais e assinado por Anis José Leão, então diretor da Secretaria de Coordenação Eleitoral. Classificado como “confidencial”, o documento responde a uma solicitação do Departamento de Polícia Federal, remetendo dados cadastrais de um eleitor.

Embora de aparência meramente burocrática, a correspondência revela as conexões entre diferentes órgãos do Estado, Justiça Eleitoral e Polícia Federal, em uma rede de vigilância que ultrapassava o campo estritamente administrativo. Esse tipo de prática era frequente no período e tinha por finalidade monitorar cidadãos e servidores públicos, especialmente aqueles que, de alguma forma, exerciam atividades de influência social, jornalística ou política.

A presença de Anís José Leão nesses trâmites institucionais, o mesmo que mais tarde teria ligação com o contexto jornalístico da cidade, citado em registros associados à Folha do Oeste, sugere que seu trabalho também esteve sob o olhar atento das estruturas de controle da época. 

Esses ofícios, lacrados com o selo de confidencialidade e trocados entre repartições, são testemunhos eloquentes de um tempo em que até mesmo comunicações administrativas podiam adquirir um caráter político, refletindo o clima de desconfiança e vigilância generalizada que marcou o fim do regime autoritário no Brasil.

Em continuidade às práticas de controle e mapeamento da imprensa, um documento oficial do Serviço Nacional de Informações (SNI), datado de 23 de julho de 1981 e classificado como “Confidencial”, confirma que o jornal Folha do Oeste, de Itaúna/MG, foi incluído em um levantamento nacional de dados sobre jornais do interior. 

O relatório, identificado como Informação nº C262/19/AC/81, integra uma série de anexos elaborados pela Agência Central do SNI, com o objetivo de compilar informações sobre veículos de comunicação em diversos estados, entre eles Minas Gerais, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e São Paulo.

Na listagem referente ao Estado de Minas Gerais (Anexo “C”), o nome Folha do Oeste – Itaúna/MG aparece ao lado de periódicos regionais como o Agora (Divinópolis), Paraminense (Pará de Minas), Diário da Tarde (Juiz de Fora), Folha de Itabira (Itabira), entre outros, demonstrando que o jornal itaunense figurava entre os veículos monitorados pelo sistema de inteligência federal. 

O objetivo desse levantamento, conforme indicado no próprio documento, era manter atualizados os cadastros sobre a estrutura, a circulação e o perfil editorial dos jornais do interior, compondo um panorama de vigilância sistemática da imprensa brasileira.

A inclusão da Folha do Oeste nesse relatório de 1981 confirma que a vigilância sobre o jornal não se limitou ao período de transição democrática dos anos 1980, mas se estendeu de forma articulada aos órgãos centrais do regime. Esse material reforça a percepção de que, mesmo em pequenas cidades, a imprensa local era considerada um espaço estratégico de formação de opinião, e portanto, alvo do olhar atento do Estado autoritário.

Em 1983, o jornalista José Waldemar Teixeira de Mello aparece documentado em relatórios da Agência Belo Horizonte do Serviço Nacional de Informações (SNI), atuando como 1º Tesoureiro da recém-criada Associação dos Jornais do Interior de Minas Gerais (ADJORI-MG). 

A participação de José Waldemar na fundação da associação demonstra sua relevância não apenas para a imprensa itaunense, mas também para o fortalecimento dos veículos regionais de comunicação em todo o estado. A ADJORI-MG nasceu como uma rede de cooperação entre jornais do interior, em um contexto de concentração midiática e dificuldades financeiras, buscando promover a troca de informações, recursos e estratégias de sobrevivência editorial.

O papel de José Waldemar foi essencial na estruturação financeira e institucional dessa entidade, garantindo sustentabilidade às pequenas redações e consolidando a voz do interior mineiro diante dos grandes centros. Seu envolvimento reflete um compromisso de longa data com a profissionalização do jornalismo e com a defesa da liberdade de imprensa, valores que também marcaram sua passagem pela direção da Folha do Oeste em Itaúna.

Em 1987, registros oficiais apontam uma nova direção, agora sob responsabilidade de Sérgio Fernandes da Cunha e Renato Geraldo Soares. À época, o jornal, ainda denominado Folha do Oeste, possuía sede em Itaúna, e mantinha uma tiragem de 4.500 exemplares, circulando também nos municípios de Mateus Leme e Itatiaiuçu. 

Seu quadro societário e equipe editorial incluíam jornalistas, colunistas, colaboradores e representantes regionais. Com declaração de utilidade pública pela Lei Municipal nº 697, o jornal chegou a atuar como órgão de publicação dos atos oficiais da Comarca de Itaúna.

A relevância institucional e o alcance do jornal chamaram a atenção das autoridades da época. Documentos confidenciais da Agência de Belo Horizonte (ABH), datados de 1987–1988, provenientes do Arquivo Cronológico de Entrada (ACE) e do Serviço Nacional de Informações (SNI), revelam que o jornal Folha do Oeste foi monitorado pela polícia política, constando em um cadastro de veículos de comunicação que reunia informações detalhadas sobre sua estrutura, propriedade, circulação e equipe.

A ficha, classificada na categoria “Z7-A”, apresentava um retrato minucioso do jornal, incluindo nomes, números de identidade, dados financeiros e de tiragem, o que demonstra a preocupação estatal em manter vigilância sobre a imprensa regional.

Esse registro de monitoramento, feito em plena transição democrática brasileira, ilustra um momento de tensão entre a liberdade recém-reconquistada e os mecanismos de controle herdados do regime militar. Mesmo após a revogação formal dos Atos Institucionais e a promulgação da nova Constituição de 1988, diversos órgãos de segurança civil e militar continuavam a operar estruturas de observação e fichamento de entidades civis, entre elas, jornais, sindicatos, partidos, clubes e igrejas. 

O caso da Folha do Oeste insere-se nesse contexto de vigilância residual, em que o Estado, ainda temeroso do papel político da palavra impressa, mapeava e classificava periódicos locais para avaliar seu potencial de influência ou crítica.

O nível de detalhamento da ficha é revelador: ela registra, por exemplo, o endereço exato da redação, os nomes e cargos de todos os colaboradores, o número de páginas, a tiragem, a área de circulação e até a condição financeira do jornal. Isso indica que tais dados extrapolavam a função burocrática, configurando um mecanismo de vigilância política sistemática, num contexto em que o Estado brasileiro ainda preservava práticas de controle oriundas do regime autoritário.

 Embora o país já estivesse sob o governo civil e o processo de redemocratização avançasse, os órgãos de informação e segurança, entre eles o antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) e as agências estaduais de inteligência, continuavam a monitorar a atuação da imprensa, especialmente nos municípios do interior, onde a comunicação local exercia papel decisivo na formação da opinião pública.

Esse tipo de monitoramento se insere em uma estratégia mais ampla de controle da informação, muito comum nas décadas de 1970 e 1980. O Estado, temeroso da imprensa como espaço de crítica e resistência, buscava mapear os meios de comunicação, seus responsáveis e suas redes de influência. 

O objetivo era prevenir que jornais regionais, frequentemente mais livres e próximos da população, se tornassem veículos de oposição ou espaços de contestação política. Assim, o cadastro da Folha do Oeste não deve ser entendido apenas como um registro administrativo, mas como parte de uma estrutura de vigilância ideológica voltada para o controle do discurso público.

A existência de uma ficha tão completa indica também o reconhecimento, por parte das autoridades, da relevância e alcance do jornal. A Folha do Oeste era lida por milhares de pessoas, dialogava com comerciantes, trabalhadores, agentes políticos e religiosos, e registrava os acontecimentos que moldavam o cotidiano de Itaúna e região.

Nesse sentido, o monitoramento, paradoxalmente, reforça a importância histórica do jornal como instrumento de informação e poder simbólico no interior mineiro. Mesmo sob observação, o periódico manteve sua circulação e sua função comunitária, o que demonstra sua resiliência diante do controle estatal e o compromisso de seus dirigentes com a continuidade do projeto jornalístico iniciado por Sebastião Nogueira Gomide em 1944.

Na década de 1990, sob nova orientação editorial, o periódico consolidou o nome Folha do Povo, reafirmando sua identidade e proximidade com a comunidade itaunense. Desde 1996, a direção está sob a responsabilidade do jornalista e diretor Renilton Gonçalves Pacheco, que não apenas deu continuidade à tradição do jornal, mas também o transformou em um verdadeiro laboratório de memória e consciência cidadã.

Seu primeiro contato com a redação remonta a 1973, quando, ainda menino de 13 anos, adentrou a antiga sede da Folha do Oeste, no número 11 da Rua Antônio de Matos, esquina com a Praça da Matriz, em Itaúna. O ambiente efervescente, dominado por discussões políticas, notícias policiais e temas sociais, o marcou profundamente.

Renilton relembra que foi ali, entre o barulho das velhas impressoras e o cheiro de tinta, que conheceu o fundador Sebastião Nogueira Gomide (o “Piu”), “um senhor polêmico e inteligente, que cobrava e exigia dos governantes postura em relação às coisas do município”. 

Acompanhando de perto as críticas e os editoriais contundentes de Gomide, muitos ainda sobre temas que persistem até hoje, como a Casa de Caridade Manoel Gonçalves, o jovem aprendiz absorveu o sentido do jornalismo como instrumento de transformação. Outro nome marcante foi Célio Silva, o primeiro chefe de redação, que conduzia a oficina gráfica e introduziu Renilton à prática diária da produção jornalística.

Ao longo dos anos seguintes, Renilton formou-se na escola viva do jornalismo local, aprendendo com nomes como José Waldemar Teixeira de Mello, ex-redator do Estado de Minas, e Anis José Leão, professor de Ética na Faculdade de Jornalismo da UFMG. De ambos herdou a noção de rigor, ética e compromisso público, valores que norteariam a condução futura da Folha do Povo.

Hoje, com mais de 30 anos à frente do jornal, Renilton reafirma a crença de que o jornalismo é uma forma de agir sobre a realidade, e não apenas de noticiá-la. Em suas palavras, o papel do jornalista não se limita a “dar a notícia”, mas a construí-la com responsabilidade, checagem e clareza, combatendo a pressa e a superficialidade impostas pelas mídias digitais.

A Folha do Povo, sob sua direção, continua a exercer esse jornalismo atento à cidade e comprometido com a verdade, cobrando obras, fiscalizando o poder público e preservando a memória coletiva de Itaúna. A expansão para Itatiaiuçu, com edição semanal aos sábados, ampliou ainda mais sua influência regional.

Assim, a trajetória da Folha do Povodesde sua origem como Folha do Oeste com Sebastião Nogueira Gomide, passando pela vigilância policial da década de 1980 e pela consolidação moderna sob Renilton Gonçalves Pacheco, espelha a própria história de Itaúna: um percurso de resistência, adaptação e continuidade. 

O jornal atravessou regimes políticos distintos, enfrentou períodos de censura e monitoramento, testemunhou crises e transformações urbanas, mantendo-se como símbolo de liberdade de expressão, memória e identidade local. Mais do que narrador, tornou-se protagonista da história itaunense.

Disponível em: JORNAL FOLHA DO POVO

REFERÊNCIAS:

AQUINO,Charles Galvão de Organização, arte e pesquisa. Historiador. Registro nº 343/MG.

Nota sobre a imagem:

A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por meio de inteligência artificial, com finalidade exclusivamente ilustrativa. Trata-se de uma representação visual simbólica, que busca evocar o contexto de vigilância, produção documental e atividade jornalística abordados no texto. Não corresponde a registros fotográficos reais nem a documentos históricos específicos.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN)Fundo: Divisão de Inteligência do Departamento de Polícia Federal (BR DFANBSB ZD). Código de referência: BR DFANBSB ZD 0 0 0022C 0005 D0004. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_zd/br_dfanbsb_zd_0/br_dfanbsb_zd_0_0/br_dfanbsb_zd_0_0_0022c/br_dfanbsb_zd_0_0_0022c_0005/br_dfanbsb_zd_0_0_0022c_0005_d0004.pdf. Acesso em: 04 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/AAA. Dossiê: 81019370. Título: Levantamento de dados de jornaisCódigo de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.AAA.81019370. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/aaa/81019370/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_aaa_81019370_d0001de0002.pdf. Acesso em: 04 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/OOO. Dossiê: 83008307. Título: Funcionamento do sistema de comunicação social do Poder Executivo. Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.83008307. Disponível em: https://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/83008307/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_83008307_d0001de0001.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/OOO. Dossiê: 89014611. Título: Cadastro de veículos de comunicaçãoCódigo de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.89014611. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/89014611/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_89014611_d0001de0003.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.

BRASIL. Arquivo Nacional. Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN). Fundo: Serviço Nacional de Informações (BR DFANBSB V8). Série: MIC/GNC/OOO. Dossiê: 88013583. Título: Cadastro de veículos de comunicação. Código de referência: BR DFANBSB V8.MIC.GNC.OOO.88013583. Disponível em: http://imagem.sian.an.gov.br/acervo/derivadas/br_dfanbsb_v8/mic/gnc/ooo/88013583/br_dfanbsb_v8_mic_gnc_ooo_88013583_d0001de0003.pdf . Acesso em: 04 abr. 2026.

JORNAL FOLHA DO POVO. Folha do Povo (Itaúna/MG). Sobre nós. Disponível em: https://www.folhapovoitauna.com.br/sobre-nos .Acesso em: 04 abr. 2026.  

CONFIDENCIAL ITAÚNA (CAP 1) by Itaúna Décadas

sábado, abril 04, 2026

QUEIMA DO JUDAS

Em 2015, foi publicada uma postagem sobre a tradicional “Queima do Judas” em Itaúna — uma prática que marcou gerações e integrou o calendário cultural da cidade. 

Passados alguns anos, revisitar esse conteúdo é também revisitar a memória coletiva. A “Queima do Judas”, comum em diversas regiões do Brasil no contexto do Sábado de Aleluia, está ligada simbolicamente à figura de Judas Iscariotes, associada à tradição cristã.

No entanto, seu significado ultrapassa o campo religioso.

Mais do que um rito simbólico, essa prática se consolidou como uma manifestação da cultura popular, marcada pela participação coletiva, pelo humor e, em muitos casos, pela crítica social. Em diferentes épocas, a figura do “Judas” representava personagens públicos ou situações do cotidiano, funcionando como uma forma de expressão social e cultural das comunidades.

A imagem utilizada nesta publicação é inspirada na fotografia original da década de 1900, que retrata a Praça da Matriz de Itaúna/MG, importante registro da memória local. A igreja ali existente, posteriormente demolida em 1934, remete a um contexto histórico no qual práticas como a “Queima do Judas” possivelmente ainda integravam o cotidiano da cidade, ao menos nas primeiras décadas do século XX.

Hoje, essa tradição já não aparece com a mesma força em muitas localidades, o que torna ainda mais importante preservar esses registros. Mais do que uma simples encenação, tratava-se de uma prática que revelava valores, tensões e formas de sociabilidade de seu tempo.

  Relembre a postagem original de 2015: 



A imagem utilizada nesta publicação foi gerada por IA (Inteligência Artificial), sendo inspirada na fotografia original da década de 1900, que retrata a Praça da Matriz de Itaúna/MG, importante registro da memória local.

Organização: Charles Aquino