Um Retrato de
João Dornas Filho e o Brasil de Sua Época
Itaúna, cidade mineira de rica tradição cultural, tem entre seus filhos dois nomes ilustres que se destacaram não apenas em Minas Gerais, mas no cenário literário e intelectual do Brasil: João Dornas Filho e Mário Gonçalves de Matos.
Ambos
foram membros da Academia Mineira de Letras, homens notáveis em seu tempo, que
honraram com palavras e ações o ofício da escrita e o compromisso com a
cultura.
Dois itaunenses notáveis que são nomes que honram a memória intelectual de Itaúna e de Minas Gerais. Ambos membros da Academia Mineira de Letras, deixaram contribuições significativas para a história, a literatura e o pensamento político do Brasil.
Essa carta, que reúne lembranças
pessoais, crítica literária e observações sociais, é um documento valioso para
conhecermos não apenas Silva Jardim, mas também o modo como Minas pensava,
escrevia e se via no espelho de sua história.
A carta que aqui
apresentamos é um verdadeiro tesouro histórico e literário: trata-se de uma
correspondência escrita por Mário Matos a João Dornas Filho, que revela não só
a admiração mútua entre dois grandes intelectuais itaunenses, mas também o
reconhecimento do valor literário e humano de Dornas Filho, especialmente por
sua obra dedicada ao revolucionário republicano Silva Jardim (temos a Rua Silva Jardim em Itaúna).
A carta é também
um retrato de uma época, de um tempo em que a palavra era a maior arma dos
homens públicos e em que a literatura e o jornalismo andavam lado a lado com a
política e a história. Ao mesmo tempo em que Mário Mattos celebra a grandeza
intelectual de Dornas, também relembra seus passos incertos e suas “faltas”,
sem deixar de reconhecer o brilho incomum de sua escrita, sua vocação para a
verdade e seu compromisso com a República.
Convidamos você a
mergulhar nessa leitura e conhecer essa página tocante de nossa história. Uma
carta que é mais que correspondência: é documento, é literatura, é memória viva
de Itaúna. Descubra como a amizade, a palavra e a paixão pelas ideias uniram dois
gigantes da cultura mineira.
Venha conhecer
a carta de Mário Matos a João Dornas Filho — um tributo entre gigantes da nossa
história!
Essa carta (escrita por Mário Matos como prefácio ou comentário ao livro sobre Silva Jardim, de autoria de João Dornas Filho) é uma peça literária e histórica
de grande valor. Mais que um simples elogio à obra, a carta traça um duplo
retrato: o de Silva Jardim, personagem central da biografia, e o do próprio
autor João Dornas, então emergente na cena intelectual mineira.
Dito com lirismo
e crítica sutil, a carta relembra os tempos iniciais de Dornas Filho como
tipógrafo autodidata em Itaúna, destacando sua inteligência precoce, sua sede
de leitura e seu talento para a escrita, características que, embora ignoradas
pelas “sumidades locais”, já anunciavam sua vocação de escritor. É também um
raro testemunho da vida intelectual do interior mineiro no início do século XX,
onde a escassez de recursos era vencida com perseverança e amizade.
Ao comentar o livro Silva Jardim, Mário Matos não apenas exalta a escolha do tema e a qualidade do estilo, mas também ressalta a importância do gesto: escrever sobre uma figura política como Silva Jardim era, naquele tempo, um ato de justiça e memória.
A carta faz paralelos entre a intensidade do biografado ( cuja
trajetória foi "um caminho de fogo entre os combates e o Vesúvio" ) e
a capacidade do autor em captar essa chama. Mais do que isso, o autor valoriza
o esforço de Dornas em apresentar não só o político, mas o homem: idealista,
íntegro, inquieto e, por isso mesmo, trágico.
Contudo, é impossível ignorar os traços de seu tempo: a carta carrega uma visão paternalista sobre a mulher, reduzida a uma “clareira de doçura e paz” na vida do homem público. Anna Margarida, esposa de Silva Jardim, é apresentada como a “redenção do sexo feminino”, em uma construção que espelha os valores patriarcais e moralistas da época.
Essa visão, que hoje soaria ofensiva ou ultrapassada,
serve de chave de leitura para compreendermos não apenas os limites individuais, mas a mentalidade de uma geração inteira de intelectuais brasileiros.
Por fim, Mário
Matos lança um comentário perspicaz sobre a política brasileira "então e agora" ao citar uma das ideias de Silva Jardim:
“O homem não
deve aparecer em público senão em determinadas ocasiões e sempre com um fim
nobre e elevado.”
Com ironia
refinada, Matos diz que, se essa máxima fosse levada a sério, muitos políticos
deveriam se recolher à vida privada — uma crítica que atravessa o tempo.
CARTA RESERVADA A JOÃO DORNAS FILHO
Logo que acabei a leitura do seu livro a respeito de Silva Jardim, feita de assentada, pus-me a rememorar a parábola de sua vida, João Dornas. Lembrei-me do seu tempo de typógrapho sem emprego na redação de pequenos jornais em Itaúna — “Centro de Minas” e “Tribuna” — onde você acumulava todos os cargos, fazendo quase sozinho, o jornal todo.
Em mangas de
camisa, você trabalhava o dia inteiro e, à noite, lia devoradamente não só
livros comprados por você, como emprestados por mim. Estes livros eram
entregues honestamente e, percorrendo-os, eu via, pelos sinais, que os lera e
dormira sobre eles.
Você aparecia
naquelas manhãs brumosas nossa erra, à porta do meu escritório, chamando-me de
modo invariável:
— Deputado?
— Entre, Záu...
Você entrava. Em duas ou três palavras, explicava-me, com penetração a inteligência do que meditara. Você era menino e moço, mais menino ainda do que moço. Frequentara a escola pública, em que deixara impressão oficial de crença vadia. Inteligente, mas vadia. Muitos o elogiavam pela única maneira porque as sumidades locais enaltecem os homens diferentes. Que pena João Dornas não querer estudar!
Para
essa gente, estudar é seguir carreira liberal, afim de que se possa, mais
tarde, à sombra da lei, exercer a falta de talento e de caráter. Recordo-me de que você se mostrava lisonjeado
com a minha defesa constante, prevendo o que hoje é realidade: quando ninguém,
se apercebe de muitos, seu nome já está na admiração dos homens cultos de
Minas.
Bem sei que você
cometeu faltas que francamente lhe reprovava, não havendo sido das menores
alguns discursos proferidos sobre o túmulo raso de certos defuntos explicáveis,
mas inteiramente municipais. Nesses momentos, era tomado a sério, porque
parecia ter criado juízo. Mas não criava nada.
As coisas
continuaram assim, até um dia que você me surgiu, novo e feliz, para
despedir-se. Fora nomeado funcionário público em Belo Horizonte. O resto, que é
tudo, pode ser totalizado no resumo de sua vitória. “Silva Jardim”.
Este livro, para
mim, já é senáculo de uma vocação que venho acompanhando com simpatia desde os
primeiros estampas lactentes. As virtudes de um escritor apuram-se em um
cadinho: o estilo, exteriorização gráfica da personalidade. É com o escritor
que se deixa ler por todo homem inteligente.
E’ também um ato de justiça retardatária. Não se continha noção certa da sua figura excepcional, a não ser por episódios salteados, os quais, muitas vezes, costumam desfigurar os homens. Você veio mostrar a força e o ímpeto com que Silva Jardim sempre gravitou no sentido de implantar a Republica no Brasil.
É o desenho do
político. Não esqueceu, porém, o indivíduo. Para Silva Jardim era tudo difícil,
como para os que tem escrúpulos morais. Seu temperamento proceloso era agravado
pela integridade de caráter.
O homem de fé, de
caráter e de coração vive mal e perigosamente, mas entra de pé na História. Querem os céticos que tal compensação seja
precária. Não sei ...
Outros aspectos, inéditos por assim dizer, são expostos com espontaneidade, nessa biografia semeada em crônicas. Foi novidade para mim verificar em Silva Jardim a capacidade de pensar. Ha aqui algumas ideias dele, que me ficaram. Parecem simples, mas, a meu ver, têm um grande alcance.
Citarei unicamente uma: “O homem não deve aparecer
em público; senão em determinadas ocasiões e sempre com um fim nobre e
elevado.” Se este pensamento for invertido em norma de conduta, número apreciável
de políticos no Brasil recolher-se-á à vida privada.
Na carreira de todo homem agitador existe, quase sempre, uma clareira de doçura e paz. Na de Silva Jardim foi Anna Margarida, sua esposa. Este destino da mulher é a coisa mais consoladora deste mundo. Só isso redime o sexo de suas falhas, cuja designação peço licença para não declinar...
Chama você atenção do leitor para
esse fato: a campanha republicana teve, em Minas, decidido apoio dos médicos ao
contrário do que se narrou com os bacharéis. Não há estranhável no caso. Os
médicos atuam clinicamente, o bacharel é de sua própria natureza profissional
um tanto oportunista e suspicaz
Elaboração: Charles Aquino
Revista Belo Horizonte/MG 1933
Imagem meramente ilustrativa
Veja mais em: Rua Silva Jardim - Itaúna/MG
https://orcid.org/0009-0002-8056-8407
