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segunda-feira, fevereiro 24, 2025

ITAÚNA

Há poemas que nos transportam no tempo e no espaço, resgatando lembranças, sentimentos e cenários de um passado que permanece vivo na memória. "Itaúna", de Alberto Olavo (pseudônimo de Mário Gonçalves de Matos), é um desses tesouros literários que encantam pela sensibilidade e riqueza imagética.

Neste poema, publicado em 1938 na obra Último canto da tarde, o autor nos convida a um passeio nostálgico por sua terra natal, Itaúna (MG), evocando os sinos das igrejas, o chilrear das andorinhas, o gemido da pomba juruti e as tardes límpidas e finas de maio.

Cada verso pulsa com a musicalidade e a delicadeza das paisagens mineiras, fazendo ecoar a alma e o coração de Minas Gerais.

Ler "Itaúna" é revisitar um pequeno arraial que se fez grande na memória do poeta. É sentir a brisa das montanhas, ouvir os sons que marcaram uma infância e perceber como a poesia pode eternizar o encanto de um lugar. Aceite este convite e mergulhe na poesia! Leia e deixe-se envolver pela beleza dos versos que celebram uma Itaúna cheia de vida, história e emoção.

 

ITAÚNA

Sinos do mês de maio em minha terra,

no azul das tardes límpidas e finas!

O vosso canto em meus ouvidos erra,

como errava nos vales e campinas...

 

As vossas leves músicas divinas

vibravam, a ecoar de serra em serra!

No coração da pequenina terra

cantava o suave coração de Minas ...

 

Ah! Não vos esqueci, por me lembrardes

aqueles céus e, no murchar das tardes,

o gemido da pomba juruti...

 

Ah! sim, por me lembrardes, às tardinhas,

o álacre chilrear das andorinhas,

No pequeno arraial onde nasci ...

 

*Alberto Olavo - 1938

 

Referência
OLAVO, Alberto. Último canto da tarde. Sociedade Editora Amigos do Livro, MG, 1938, p. 47-48.

*Alberto Olavo é o pseudônimo do escritor Mário Gonçalves de Matos, nascido em Santana do Rio São João Acima, atual Itaúna (MG), no dia 28 de setembro de 1891, filho de Antônio Pereira de Matos e Maria Gonçalves de Sousa Matos.

Organização e arte: Charles Aquino


sábado, agosto 24, 2024

O SILÊNCIO DE MEU PAI

O poema “O Silêncio de Meu Pai”, escrito pelo professor Phonteboa e incluído no minilivro “Presença Paterna” – uma obra de dimensões singulares (2,6 x 3,4 cm) e fonte no tamanho 4,5 –, é uma peça literária cuidadosamente elaborada para "afetar" profundamente seus leitores.

 Lançado em 2024, este minilivro, apesar de seu formato diminuto, revela-se grandioso em cada palavra, ampliando-se em significado à medida que o leitor mergulha na mensagem que o autor pretende transmitir.

Phonteboa destaca que cada um tem seu próprio jeito de se tornar presente, e é precisamente essa presença silenciosa que o poema captura com maestria.

O poema explora a profundidade e a complexidade do silêncio como um meio de comunicação poderoso e, muitas vezes, subestimado. Através do silêncio do pai, o eu lírico experimenta uma conexão íntima e profunda que vai além das palavras. 

Este silêncio é apresentado não como ausência, mas como presença repleta de significados e sentidos, algo que ocupa "todos os espaços" do ser do filho, desencadeando reações e reflexões profundas.

A insistência em falar, por parte do filho, pode ser vista como uma tentativa de preencher um vazio que, na verdade, não existe, pois o silêncio do pai já está pleno de significado. Isso reflete a dificuldade humana em aceitar e compreender o silêncio como uma forma legítima e rica de comunicação, especialmente em uma sociedade onde o falar é muitas vezes mais valorizado que o ouvir.

À medida que o poema avança, o silêncio do pai adquire uma dimensão transcendente. Torna-se "uma pausa no barulho do mundo", um momento de introspecção e busca por novos significados, novos pensamentos. É neste ponto que o silêncio se transforma em eternidade – quando o pai se vai, seu silêncio permanece como um legado, algo que agora o filho compreende em sua totalidade.

O desfecho do poema é especialmente tocante. O eu lírico, ao perceber a eternidade do pai no silêncio, cala-se, indicando que finalmente compreendeu e aceitou o poder desse silêncio. O silêncio do pai não é mais algo a ser preenchido ou rompido, mas respeitado e honrado.

Em termos literários, o poema utiliza a repetição do verso "O silêncio de meu pai" para enfatizar a centralidade dessa ideia na vida do eu lírico. O uso de paradoxos, como "o silêncio que comunica" e "o silêncio que ocupa todos os espaços", reflete a complexidade do tema e a rica ambiguidade do silêncio como uma forma de expressão.

No geral, o poema é uma reflexão profunda sobre a comunicação não-verbal, o legado dos pais, e a transformação do silêncio em um espaço de memória e conexão espiritual. É um convite à introspecção e à valorização dos momentos de quietude, tanto na vida quanto na morte. 

O professor Phonteboa, com sua obra pequena em dimensões físicas, mas imensa em profundidade emocional, nos lembra que a presença se manifesta de formas diversas e que o silêncio, muitas vezes, é a mais eloquente delas.

Dimensões singulares do minilivro (2,6 x 3,4 cm) e fonte no tamanho 4,5 


O SILÊNCIO DE MEU PAI


O silêncio de meu pai era repleto de significados ...

Estava ali ao meu lado por um longo tempo sem pronunciar som algum

E como comunicava ...

O silêncio do meu Pai ocupava todos os espaços de meu ser

E provocava em mim reações descabidas

E eu insistia em falar...

E não ouvia plenamente o silêncio de meu pai.

O silêncio de meu pai

Era uma pausa no barulho no mundo

Era uma busca de um novo sentido

De um novo momento

De um novo pensamento.

O silêncio de meu pai

É, agora, eterno.

E, então, percebo que meu pai tornou-se eterno

No próprio silêncio que era o silêncio de meu pai.

No silêncio de meu pai

Calo-me.

Aperte o play e se encante com a narrativa deste vídeo!

Referências:

PHONTEBOA GPresença Paterna. O Silêncio de Meu Pai. 1ª Ed. Itaúna/MG, 2024, p.39-42.  

Contato do Autor: phonteboa@gmail.com

Elaboração, arte e análise do poema: Charles Aquino

O SILÊNCIO DE MEU PAI by Itaúna Décadas

segunda-feira, junho 24, 2019

O AMOR ESTÁ NO AR ...

Ramon MARRA*

Então nos enamoramos e, apaixonados nos tornamos.
Dentro desta fogueira de desejos, nos descobrimos, nos conhecemos, nos tornamos cúmplices do corpo e do prazer.
Assim, passamos a não ser mais dois, senão um indivisível casal apaixonado entre juras de sonhos e fantasias que nos consumiam em chamas como sarças ardentes.
Sem nos dar conta descobrimos que a paixão deu lugar ao compromisso com os nossos corações.
Já não havia ingenuidade em nossos olhares. Não existia mais a frágil ansiedade de tocar, sentir e contemplar os corpos somente pela força do prazer.
Era algo mais....
Havia sim tudo isso, mas fortalecido por uma energia maior, mais madura, mais visionária, mais complementar. Havia sim a paixão se despedindo para que o amor se tornasse bem-vindo.
O olhar não era o mesmo.
O tocar já se comprometia com o sentir.
 Os detalhes já se envolviam em grandes valores.
O amor tomou conta, tomou os corações, sequestrou a vida, as vidas. Assim não éramos um, mais um que geravam dois.
Eis então, que entrou em nossas vidas a matemática do existir. Minhas virtudes transbordaram minha amada.
As delas, semeavam meu coração.
Percebemos que ao nos permitir vivenciar está história, nos transformamos em personagens do amor.
Fundo, insistente, explícito e livre ele transformou nossas vidas.
Agora juntos, nossa existência mostra que a vida pode oferecer tudo aqueles quem se permitem dividir, mas acima de tudo complementar e crescer.
Não se compreende o amor de um casal enquanto esta energia não se transforma em realização de sonhos, conquistas, vitórias, lutas e desejos a dois.
Amar é caminhar crescendo juntos....
Amar é caminhar crescendo...
Amar é caminhar...
Amar é....





*Pós-Graduação em Psicopedagogia
Organização: Charles Aquino
Acervo: Shorpy

sábado, janeiro 26, 2019

TRILHOS VAZIOS

SANTANENSE REMINISCÊNCIAS

Ramon MARRA*

Lá no horizonte já se via uma cortina de fumaça. Mamãe ela está vindo. Gritava eu! Apressadamente colocávamos um banquinho na janela e o primeiro apito enchia nossos corações de excitação.

A Maria Fumaça tinha está magia, porquê os sonhos dos passageiros se misturavam com os nossos olhares e acenos alegres, cheios de emoção. Em cada passageiro se escondiam muitas histórias de vida, que podíamos ver no rosto cansado em busca de um sentido em construção.

A estação ficava cheia dos que desciam e subiam movimentando a plataforma de recepção. Aos poucos Maria Fumaça foi se despedindo e como alguém que precisava ir, mas que não queria machucar os sonhos do cotidiano tornando-os desilusão.

Sorrateiramente desapareceu sem falar não.

Deu lugar aos modernos e robustos trens que de charmosos não tinham nada não, mais em nome do futuro transportavam não mais vidas, mas agora um vazio, cheio de coisas sem inspiração.

Sem acenos, sem sorrisos, sem alegria crescemos e fomos percebendo que as linhas férreas não contavam mais histórias e sim serviam de Norte para o Sul e do Sul para o Norte como um caminho que não tinha mais identidade e portanto, não fazia mais sentido em nosso coração.

Hoje os trilhos estão vazios como num livro que se escreveu pela metade. Ficou a nostalgia, o romantismo, e a inocência daquele tempo em que tudo parecia ser mágico.

Agora olho para os trilhos sem o banquinho, sem mamãe e sem a alegria de sentir a emoção que começava com a fumaça no horizonte e terminava com o adeus dos nossos personagens passageiros de coração



*Pós-Graduação em Psicopedagogia  
Fotografia e local: Marcos Cândido / Bairro Santanense
Organização: Charles Aquino

segunda-feira, novembro 25, 2013

MÁRIO MATOS


Nasceu em Santana do Rio São João Acima, atual Itaúna (MG), no dia 28 de setembro de 1891, filho de Antônio Pereira de Matos e de Maria Gonçalves de Sousa Matos. Fez o curso secundário no município mineiro de Dores do Indaiá e o preparatório nas cidades de Belo Horizonte e Juiz de Fora.

Transferindo-se para a então capital federal, matriculou-se na Faculdade Livre de Direito. Ainda nos tempos de estudante começou a atuar no campo do jornalismo e das artes. Em 1912 escreveu seu primeiro texto teatral, intitulado “A chegada do Presidente”. Dois anos depois terminou a peça Seu Anastácio chegou de viagem. Em 1915 começou a escrever para o jornal carioca Gazeta de Notícias e logo após para a Revista ABC, da qual se tornou redator-chefe. Em 1920, ano em que se formou, escreveu a peça Itaúna em fraldas de camisa. Escreveu a famosa peça teatral "As Cigarras do Sertão" em 1925.

Recém-formado, retornou a Itaúna, onde foi vereador e vice-presidente da Câmara Municipal. Eleito deputado estadual em 1923, exerceu o mandato na Assembleia Legislativa mineira até 1926, tendo sido vice-presidente da casa e membro da Comissão de Finanças. Em 1927 foi eleito deputado federal pelo Partido Republicano Mineiro e em maio tomou posse na Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro. Reeleito em março de 1930, teve o mandato interrompido em outubro seguinte em decorrência da vitória da revolução que levou Getúlio Vargas ao poder e extinguiu todos os órgãos legislativos do país. Voltou então para Itaúna e passou a advogar.

Em fins de 1933 foi nomeado diretor da Imprensa Oficial de Minas Gerais e, em 1935, ministro do Tribunal de Contas mineiro. Em julho de 1939 assumiu a Secretaria do Interior e de Justiça do estado e em julho de 1940 foi nomeado desembargador do Tribunal de Apelação, corte da qual posteriormente se tornaria vice-presidente. Foi ainda diretor da Escola Normal e do periódico Centro de Minas, em seu município de origem, e professor do Instituto de Educação, diretor do Diário de Minas e redator-chefe da Revista Alterosa, em Belo Horizonte.

No Rio de Janeiro trabalhou na Imprensa Nacional e foi docente no Instituto Lafayette. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, presidiu a Associação de Cultura Franco Brasileira e a Academia Mineira de Letras, e foi diretor da Associação Mineira de Imprensa. Faleceu em Belo Horizonte em 28 de dezembro de 1966.

Casou-se com Elisa de Moura Matos e, posteriormente, com Hermelinda de Almeida Matos. Seu genro Paulo Campos Guimarães foi deputado estadual em Minas Gerais. Em seu vasto número de publicações destacam-se Discursos (1927), Último Canto da Tarde, Machado de Assis: o homem e sua obra (1939) e O homem persegue o autor (1945).



REFERÊNCIAS:
TEXTO: Luciana Pinheiro
FONTE: CÂM. DEP. Deputados brasileiros (p. 191);
MONTEIRO, N. Dicionário (v. 1, 2, p. 305-306; 404-405); PREF. MUN. ITAÚNA.
ORGANIZAÇÃO: Charles Aquino 

Academia Mineira de Letras by Itaúna Décadas

domingo, setembro 16, 2012

CHUVAS TORRENCIAIS



 Osório Martins FAGUNDES*

No final de 1948 e até março de 1949 as chuvas foram ininterruptas, e não somente em Itaúna, como em todo o Estado. E como a rodovia era ainda de terra, ficou praticamente intransitável por toda parte e durante uma semana de março, o trecho de Itaúna a Belo Horizonte ficara mesmo paralisado, porque o "Morro Grande" não dava condições para o trânsito de veículos, quer subindo ou descendo. ...

Decorrida uma semana, depois de uns dois dias de estiagem, embora a estrada continuasse intransitável, com lamaçais e atoleiros por toda parte, resolvi tentar trazer o leite à Cooperativa em Itaúna e me arrependi muito daquele meu arrojo, porque, por incrível que pareça, gastei 5 horas de Azurita a Itaúna.

Nas baixadas, formavam-se ali e acolá, atoleiros de até trinta metros de extensão. A caminhoneta era baixa; quando enfrentava aqueles atoleiros, os pneus deslizavam no barro, e não avançavam nem pra a frente nem para trás, em marcha-ré; cada vez que forçava mais o motor da Studebaker, a situação ia piorando sempre. Trouxera comigo um ajudante e um enxadão, mas isto auxiliava pouco.

E assim que conseguia sair de um atoleiro depois de muito cansaço da máquina e do homem, logo à frente aparecia outro lamaçal. Na descida do morro grande a coisa ficara preta de verdade! 

Embora as jardineiras dos Irmãos Lara tivessem deixado de transitar durante uma semana ou mais, caminhões de outras cidades e mesmo daqui tentavam vencer as dificuldades da estrada, apesar da chuvarada.

No morro grande, as rodas dos caminhões formavam aquelas locas profundas na rodovia, ficando no meio e nas laterais do terreno aqueles facões. Na descida eu procurava equilibrar as rodas da camioneta naquele facão central e outro da lateral, mas, como a estrada estava escorregadia, certa hora as rodas da camioneta deslizaram e caíram dentro daquelas valetas profundas.

E sendo baixa a camioneta, o seu eixo agarrou-se no facão central do terreno e pneus passaram a rodar em falso. Eu ainda tive muita sorte, porque subia naquele momento um carro-de-bois do Sr. Juca Gonçalves, que se destinava lá pra as bandas do Morro das Laranjeiras e eu pedira então ao carreiro que fizesse a caridade de me ajudar a sair dali.

Atendendo ao meu pedido, ele encostou o seu carro-de-bois para um lado, cujo local lhe permitia fazer isso e retirando da sua boiada carreira a junta  de bois-de-guia, amarrara a correia do cambão ao para-choque da camioneta e enquanto a junta de ruminantes, ia puxando a  Studebaker morro abaixo, através do volante, eu ia procurando equilibrá-lo sobre os facões da estrada.

Assim fomos descendo até o final do morro grande, onde a estrada se tornou plana. Dei uma gorjeta ao carreiro e lhe fiquei devendo um grande favor, porque se não fora a sua boa vontade em ajudar-me, certamente eu não teria saído dali naquele dia.

Na frente, nas baixadas da estrada, ainda encontramos outros atoleiros, mas aos poucos íamos vencendo um a um. Assim que atingimos o vargedo do Sr. Artur Contagem Vilaça, a gasolina acabara!  

Eu exclamei então: E mais essa! Mandei o ajudante vir até a cidade e levar um pouco de gasolina num balde, o que demorou uma hora mais ou menos. Cheguei à Cooperativa em  já depois das 13 horas e o leite já devia estar azedando.

O ajudante regressou de trem, à tarde até Azurita, enquanto eu pernoitava na cidade. Como não choveu mais naquele dia da tormentosa viagem, no dia seguinte, o meu retorno à fazenda foi menos trabalhoso. 

Realmente fora uma experiência, bastante amarga o ter vindo à cidade daquele dia, quando a estrada se achava intransitável ainda. Como o tempo foi-se firmando, os carros da Empresa Irmãos Lara e caminhões diversos voltaram a transitar novamente pela estrada, embora com certa dificuldade no começo.                              




Referência:
Texto: FAGUNDES. Osório Martins. Fragmentos De Um Passado, pgs. 419/420, 1977.
Organização: Charles Aquino