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sábado, maio 23, 2026

DUNGA

Cantora Itaunense, Maria Concebida Viana

Maria Concebida Viana

A voz negra que ecoou na alma de Itaúna

Em uma Itaúna marcada pelos bailes populares, pelas serestas sob a luz amarelada dos postes e pelos carnavais que transformavam a Praça da Matriz em um verdadeiro palco popular, uma voz se impunha acima da multidão. 

Não era apenas potência vocal. Era presença. Era identidade. Era memória coletiva. Essa voz pertencia a Maria Concebida Viana, eternizada na cidade simplesmente como Dunga.

Cantora negra, Dunga construiu seu nome pela força do talento. Sua voz atravessou décadas, atravessou gerações e permaneceu viva na lembrança afetiva de Itaúna mesmo após sua morte, em 14 de outubro de 2005.

Sua trajetória foi profundamente itaunense. Sua arte nasceu das ruas, dos encontros musicais, das escolas de samba, dos grupos de baile e das serestas que moldaram a cultura popular da cidade nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Durante anos, integrou conjuntos musicais e apresentações ao lado de nomes importantes da música local, como o acordeonista Glício Mendes. Sua presença artística se expandiu para além de Itaúna através do projeto Minas ao Luar, promovido pela Rede Globo Minas, pelo qual percorreu diversas cidades mineiras durante parte da década de 1980, levando consigo a musicalidade e a identidade cultural itaunense.

Mas talvez tenha sido no carnaval que Dunga tenha alcançado uma dimensão quase mítica. Em uma época em que os “puxadores” de samba eram tradicionalmente homens, ela assumiu a condução dos sambas-enredo da Escola de Samba Clube dos Zulus. Não apenas ocupou aquele espaço: dominou-o. Sua voz passou a incendiar a antiga avenida da Praça da Matriz, transformando desfile em espetáculo.

Fernando Lúcio de Lima recorda exatamente essa força: “A Dunga não podia faltar. Voz poderosa que incendiava a Praça da Matriz nos bons tempos do carnaval itaunense. Ouço a voz da Dunga nos desfiles memoráveis do Zulu. Era uma rainha que cantava.”

A expressão é precisa: “uma rainha que cantava”. Porque Dunga não era apenas intérprete; ela ocupava o espaço com autoridade artística. Sua presença carregava dignidade, imponência e carisma.

Sua trajetória, porém, não se limitava ao samba e à música popular. O texto sobre as organistas da Matriz de Sant’Ana registra sua participação ao lado da organista Anna Alves Vieira dos Reis, entoando os versos graves e solenes do Agnus Dei da Missa in honorem Sancti Michaelis Archangelis

Esse detalhe é extremamente significativo historicamente: revela uma artista capaz de transitar entre o universo popular do carnaval e o repertório sacro erudito da liturgia católica.

Essa versatilidade desmonta qualquer tentativa simplista de enquadrar Dunga apenas como cantora carnavalesca. Ela era intérprete de múltiplos repertórios, dona de uma voz lírica e potente, capaz de ocupar tanto a avenida quanto a igreja, tanto a seresta quanto o canto religioso.

Sandra Crespo Lima resumiu essa lembrança em poucas palavras: “Conheci a Dunga. Voz linda. Ela cantou no Zulu.”

Já Agostinho Rocha recorda não apenas a cantora, mas a presença humana: Já tive o prazer de contracenar com a Dunga num curto diálogo teatral, no Sindicato dos Metalúrgicos! Tudo é saudade para nós, corações vividos...!”

O comentário revela outro aspecto importante: Dunga participava ativamente da vida cultural da cidade. Não era uma artista isolada, mas alguém integrada aos espaços coletivos de sociabilidade popular.

Pepe Chaves, por sua vez, destacou a dimensão afetiva deixada por ela: “Sua voz potente e lírica será ainda lembrada por muitos itaunenses que tiveram o prazer de ouvi-la".[...] "Dunga possuía uma voz que remetia às grandes cantoras negras da música gospel norte-americana".

E talvez seja justamente aí que reside a permanência de Dunga. Sua memória sobrevive porque ela pertence à experiência emocional da cidade. Dunga não foi apenas “uma cantora de Itaúna”. Ela se tornou parte da paisagem sonora da memória itaunense.

Sua última apresentação pública possui força quase simbólica. Poucos dias antes de falecer, voltou ao palco justamente em uma edição do Minas ao Luar, realizada na Praça Dr. Augusto Gonçalves. Era como se encerrasse sua trajetória diante da própria cidade que ajudou a cantar durante décadas.

Quando se fala nos antigos carnavais de Itaúna, nas serestas, nos bailes populares, na Praça da Matriz tomada pelo samba e pela música, sua voz continua presente, não apenas como lembrança, mas como patrimônio afetivo e cultural de uma cidade inteira.

 

NOTA SOBRE IMAGENS E VÍDEO DE DUNGA

As imagens e o vídeo apresentados nesta publicação não correspondem, em sua totalidade, a registros fotográficos ou audiovisuais originais de Maria Concebida Viana, a Dunga.

Parte do material consiste em recriações visuais interpretativas produzidas, elaboradas a partir de fotografias históricas, relatos memorialísticos, referências documentais e descrições relacionadas à cantora itaunense.

As recriações buscaram preservar, de forma respeitosa, características físicas, estéticas e contextuais associadas à artista, especialmente sua atuação nos meios musicais e culturais de Itaúna ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980.

O objetivo deste material é contribuir para a preservação da memória cultural itaunense, valorizando a trajetória artística de Dunga e ampliando o acesso público à sua história por meio de recursos visuais contemporâneos inspirados em fontes históricas disponíveis.

Todo o conteúdo foi desenvolvido pelo projeto Itaúna Décadas com finalidade exclusivamente cultural, educativa, histórica e memorialística.

 

 © ITAÚNA DÉCADAS

Projeto independente de memória, história e patrimônio cultural.

Texto, pesquisa, arte e concepção:

Charles Galvão de Aquino — Historiador (Registro nº 343/MG).

 

Referências

CHAVES, Pepe. Itaúna perde a cantora Dunga. Via Fanzine, [s.l.], 2005. Disponível em: Via Fanzine Galeria. Acesso em: 23 maio 2026.

MOREIRA JÚNIOR, Rodrigo Botelho. As organistas da Matriz de Sant’Ana. Itaúna Décadas, Itaúna, 30 ago. 2016. Disponível em: Paróquia de Sant’Ana de Itaúna. Acesso em: 23 maio 2026.

Depoimentos em rede social

CHAVES, Pepe. Depoimento sobre Maria Concebida Viana (Dunga). Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.

LIMA, Fernando Lúcio de. Depoimento sobre os carnavais itaunenses e a participação de Dunga nos desfiles do Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.

ROCHA, Agostinho. Depoimento sobre participação teatral ao lado de Dunga no Sindicato dos Metalúrgicos de Itaúna. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.

LIMA, Sandra Crespo. Depoimento sobre a atuação musical de Dunga no Clube dos Zulus. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020.

XADREZ, Cepex. Comentário em memória da cantora Dunga. Publicado no grupo “Itaúna... Bons Tempos”, Facebook, entre 2018 e 2020. 

terça-feira, março 31, 2026

DONA LADOMILA

RUA DONA LADOMILA ITAÚNA MG

Dona Ladomila: Fé, Caridade e Memória em Itaúna

Este texto apresenta a trajetória de Dona Ladomila, personagem marcante na história social e religiosa de Itaúna, a partir de uma narrativa originalmente escrita por Stella Máximo e publicada no jornal Folha do Oeste, em 22 de abril de 1956.

 Mais do que uma homenagem, o registro permite compreender como práticas de caridade, religiosidade e protagonismo feminino se articulavam no cotidiano da cidade, convidando o leitor a refletir sobre o papel dessas figuras na construção da memória e das relações sociais de seu tempo.

DONA LADOMILA

Corria o ano de 1872, quando nasceu em Santana de São João do Rio Acima, Ladomila  Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro.

Cresceu e desfrutou a vida de família rica e opulenta da época. Aos 26 anos de idade, casou-se com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho, nascendo sua filha Godvy, em 27 de novembro de 1898, e Odilon, em 11 de agosto de 1900.

Começou seu calvário em 1902 quando morreu-lhe o esposo. Viu-se a braços com inúmeras dificuldades, devido à doença do marido e, depois, com a manutenção e educação dos filhos. Lutou sem esmorecer, venceu todas as dificuldades que o destino colocou à sua frente, passou pelas amarguras de viúva pobre que, assustada, pensa no dia de amanhã e no pão de cada dia para seus queridos filhos.

Foi por isso, talvez a maior benfeitora dos pobres de nossa terra. Quando dizemos benfeitora, não referimos ao dinheiro, que se pode dar ao pobre, falamos sim de benefícios que ninguém tem coragem de fazer. Lavar a ferida de um infeliz, de um desgraçado era para Ladomila coisa banal sem nenhuma importância; era fato corriqueiro, não merecia ser citado.

Era católica fervorosa, estava enterrado o Apostolado da Oração da paróquia, quando ela e d. Umbelina Victoi de Melo, mais conhecida por d. Nenê de Melo, levantaram essa irmandade. Foi zeladora da igreja matriz, trabalhou muito para a construção da atual. Durante 40 anos foi a representante da Terra Santa em Itaúna.

Já no leito, em extrema debilidade que a moléstia lhe causava, zelava sem descanso as suas obrigações, sacrificando-se às vezes.

Foi a fundadora do lactário, trabalhou para a construção do prédio velho, que foi depois vendido. Fundou a irmandade das Damas de Caridade e por mais de 20 anos foi sua presidente. Nesta associação foi relevante e seu serviço para os pobres desta terra. Conseguiu auxílio do governo federal, comprou a casa para as Damas, na rua Antônio de Matos.

Era Ladomila um espírito forte, alegre. Na mocidade foi a alma de toda festa e reunião; tocava violão, sanfona, viola, cantava modinha, era perita na arte de fazer versos, era dama de companhia das mocinhas para os bailes e festas, era enfim, o que se pode chamar de pau de toda obra. Estava pronta para toda festa, como também para acudir um doente ou alguém que sofria.

Foi vítima de incompreensão. Foi apedrejada por mãos que muito lhe deviam. Disse-nos ela certa vez: “Fulana me maltratou, porquê?” Respondemos: “Talvez inveja.” Sorrindo, retrucou: “de uma pobretana como eu?” Respondemos agora: “Sim, inveja de sua bondade. Inveja do seu desprendimento, de seu altruísmo. Inveja por se julgarem incapazes de fazer aquilo que essa senhora fazia!”

Ao vermos Ladomila no leito de agonia, abatida, alquebrada, contando os minutos finais, lembramo-nos de seu espírito irônico e sarcástico às vezes. Recordamo-nos de uma passagem muito interessante: — Uma sua amiga comprou determinada mercadoria e negou-se a pagar à vendedora. Passado algum tempo a credora pediu àquela senhora uma Santa Visitadora para ir à sua casa.

Terminada a novena, negou-se a entregar a santa. Ladomila, como zeladora das imagens, reclamou a demora da santa em regressar, vindo a saber que a mesma se encontrava presa por dívida. Procurou a credora, pagou os Cr$ 8,00, e trouxe a santa. 

Dias depois, briga ela na igreja, em frente ao altar do Santíssimo com a ex-devedora. Discussão vai, discussão vem, a outra sem argumento disse-lhe: Ladomila, cale esta boca! respeite a Jesus Sacramentado! Ela prontamente retrucou: “Jesus me perdoará, pois tirei sua Mãe da hipoteca!...”

E assim, lúcida, aos 84 anos, cumprindo seus deveres, findou-se Ladomila. Foi uma luz que se apagou, deixando muita gente nas trevas. À volta de seu cadáver, choravam seus pobres, pedindo a Deus que lhe desse no céu aquilo que ela lhes dera na terra!

Disse Coelho Neto: “A morte não é uma destruição, é um lento acabar, um lento sumir. Vai-se o cadáver, mas... o corpo que morre é como um frasco de fina essência que se quebra, deixando o casco, por muito impregnado de aroma, até que o tempo o vai desvanecendo e fica somente a saudade, que é a memória do coração.”

RUA DONA LADOMINA ITAÚNA MG
Fotografia original publicada no jornal, integrando a biografia.

 
Rua Dona Ladomila - Itaúna/MG CEP 35680-365

Referências:

Organização, pesquisa e arte: Charles Aquino

Texto biográfico: Stella Máximo

Imagem: Reconstituição visual ilustrativa gerada por Inteligência Artificial, inspirada na biografia de Dona Ladomila. A imagem não corresponde a um registro histórico, tratando-se de uma interpretação artística que busca evocar traços de sua trajetória, sua atuação junto aos mais necessitados, sua religiosidade e sua presença marcante na vida social de Itaúna.

Fonte Impressa: Jornal Folha do Oeste, Itaúna, 22 de Abril de 1956. Direção Sebastião Nogueira Gomide.

Prefeitura Municipal de Itaúna e Câmara Municipal de Itaúna/MG.

Rua Dona Ladomila - Belveder e Cerqueira Lima, CEP:35680-365 (Lei 1343/76) 

Obs.: No texto original do jornal da Folha do Oeste, Dona Ladomila é identificada como Ladomila de Castro Nogueira, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Freitas Sobrinho.

Entretanto, no trabalho genealógico de Edward Rodrigues da Silva, são apresentadas informações divergentes, posteriormente incorporadas à presente biografia. Nessa leitura, a personagem passa a ser identificada como Ladomila Nogueira de Castro, filha de Zacarias Ribeiro de Camargos e Ana Carolina Nogueira de Castro, tendo se casado com Joaquim Gonçalves de Faria Sobrinho.  Disponível em: https://www.asbrap.org.br/revista/artigos/rev20_art16.pdf


sábado, março 08, 2025

MULHERES NOTÁVEIS

MULHERES PROTAGONISTAS EM ITAÚNA MG

Mulheres notáveis em Itaúna

Prestamos homenagem às mulheres notáveis em Itaúna, Minas Gerais, que, com coragem, dedicação e resiliência, moldaram a história da cidade em áreas como educação, saúde, filantropia, resistência, cultura e tradição. Este texto celebra a diversidade e contribuições e reforça a importância de seu legado para as gerações atuais e futuras.

 Mulheres de Fé e Serviço

Irmã Benigna Victima de Jesus: Madre superiora da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira por 12 anos, liderou as Irmãs Auxiliares da Piedade desde sua chegada a Itaúna em 1945. 

Sob sua gestão, o hospital ofereceu serviços médicos internos, administração exemplar e atendimentos gratuitos na policlínica, trazendo esperança aos necessitados. Sua missão em Itaúna terminou em 1948, mas seu impacto na saúde e espiritualidade da comunidade permanece vivo.

 Educadoras que Transformaram Gerações

A educação em Itaúna foi profundamente marcada por mulheres que dedicaram suas vidas ao ensino, enfrentando desafios e deixando legados duradouros:

Professora Elsa Nogueira Gomide: Normalista e funcionária pública, superou preconceitos para se tornar influente na educação. Atuou no Ministério da Educação e assegurou verbas federais para a Universidade de Itaúna, um marco educacional.

Professora Thereza Juliano Boza Campos: Nascida em 1934, lecionou por mais de 20 anos em cidades como Santos Dumont e Itaúna, incluindo a Universidade de Itaúna, com paixão e compromisso.

Professora Gilka Drumond de Faria: Iniciou sua carreira aos 16 anos na zona rural e dedicou 49 anos à educação. Como professora e diretora, inspirou suas filhas a seguirem o magistério, sendo homenageada com a Escola Estadual Professora Gilka Drumond de Faria.

Professora Celuta das Neves: Nascida em 1885, formou-se em Mariana e lecionou até 1942, oferecendo aulas particulares até sua morte em 1968. Afrodescendente, foi um farol de sabedoria, recebendo o título de Cidadã Honorária em 1965 e a homenagem da Escola Municipal Professora Celuta das Neves em 1974.

Professora Yedda de Paula Machado Borges: Nascida em 1925, foi essencial na criação da Universidade de Itaúna, lecionando matemática e participando de cursos em Israel. Recebeu a Medalha de Ouro na primeira turma de Filosofia da universidade e foi uma das “Melhores do Ano” em 1981.

Professora e Escritora Nise Campos: Nascida em 1907 em Itapecerica, formou-se na Escola Normal de Itaúna em 1925. Lecionou até a aposentadoria e escreveu poesias de humanismo e melancolia, como a “Ode ao Tempo”. Faleceu em 1987.

Professora Graciana Coura de Miranda: Nascida em 1914, dedicou quase 50 anos à educação. Implantou o Jardim de Infância Ana Cintra em Itaúna e lecionou por 30 anos na cidade, sendo um ícone até sua morte em 1997.

Professora Jesuína Americana Brasileira e Silva: Nascida em 1866, foi uma educadora pioneira que atuou por mais de 40 anos em Minas Gerais. Casada com Francisco de Paula Machado em 1884, teve 10 filhos e começou sua carreira docente antes de 1885, inicialmente como professora interina em Itatiaiuçu. Tornou-se efetiva em São João del Rei em 1888 após vencer um concurso e lecionou em áreas rurais e industriais, como a Fábrica da Cachoeira (Companhia de Tecidos Santanense), onde recebeu um aumento salarial de 5% em 1898 por seu desempenho excepcional. Atuou em Mateus Leme, Itatiaiuçu e São Sebastião do Gil, enfrentando recursos limitados e mudanças frequentes. Faleceu em 1960 em Belo Horizonte, deixando um legado transformador que inspirou gerações de educadores e contribuiu para o avanço das comunidades.

Professora Nair Chaves Coutinho: Descendente de famílias tradicionais de Itaúna, como os Gonçalves Chaves, foi educadora e diretora da Escola Normal "Manoel Gonçalves de Souza". Eleita Rainha de Itaúna em sua juventude, antes dos concursos de Miss, destacou-se por sua beleza estonteante e formação primorosa em Oliveira. Casou-se em 1924 com o médico e ex-prefeito Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho, com quem teve nove filhos. Sua vida foi marcada pela harmonia entre beleza, fé cristã, cultura didática e dedicação à família e à comunidade. Após sua morte, foi homenageada com a Praça Nair Chaves Coutinho (Lei Municipal 2987/95), reconhecida como exemplo de dignidade e virtude. 

Professora Dolores Nogueira Penido: Atuou na Escola Rural do Povoado de Pedra, alfabetizando gerações em uma região remota. Sua contribuição foi eternizada com a Escola Municipal Dolores Nogueira Penido.

Filantropia e Compromisso Social

Maria Gonçalves de Souza Moreira (Dona Cota): Nascida em 1875, fundou o Orfanato São Vicente de Paulo em 1949, doando sua fortuna para proteger crianças desamparadas. Seu trabalho, apoiado por figuras como Dona Tereza Gonçalves, é um exemplo de solidariedade.

Trabalhadoras e Resilientes

Associação de Santa Zita: Formada na década de 1950 por mulheres afrodescendentes como Dona Edite Marques de Oliveira Melo e Dona Geni Ferreira Pinto, apoiava empregadas domésticas. Celebraram a Lei 5.859/1972, que garantiu direitos à categoria.

Anna Egipcíaca (1807-1852): Mulher escravizada que resistiu com fé, unindo misticismo cristão e tradições afro-brasileiras.

Maria Adriana da Silva ("Bisa"): Afrodescendente nascida por volta de 1879, aprendeu a ler e escrever antes da abolição de 1888. Viveu até os 91 anos, inspirando sua descendência.

Dona Sinhá e Maria da Piedade: Representam a força das trabalhadoras rurais.

Maria Tião: Conhecida por seus biscoitos fritos de polvilho, trouxe alegria à vida cotidiana.

 Parteiras e Cuidadoras

Balbina Fortunata da Silva: Nascida em 1902 em Itatiaiuçu, foi parteira em Itaúna, ajudando centenas de nascimentos. Acolheu os pobres e foi ativa na política até sua morte em 1975.

Maria Viana Mendes: Parteira gratuita na região das ruas Agripino Lima e Getúlio Vargas, também costureira de vestidos de noiva. Faleceu em 1965.

 Guardiãs da Memória

Maria Augusta de Faria: Nascida em 1887, criou 13 filhos e foi homenageada em 1972 com uma escola em seu nome.

Maria Joaquina Parda: Faleceu em 1852 aos 95 anos, deixando uma grande descendência em Itaúna.

 Guardiãs da Cultura e Tradição

Eponina Maria do Carmo Nogueira Gomide Soares: Idealizadora da Bandeira de Itaúna, contribuiu para a identidade cultural da cidade.

Maria da Conceição Basílio de Jesus (Dona Sãozinha): Nascida em 10 de novembro de 1925 em Divinópolis, foi coroada Rainha da Irmandade de Santa Ifigênia aos 13 anos e liderou o Reinado de Nossa Senhora do Rosário em Itaúna por 85 anos. Sua casa no bairro Santo Antônio tornou-se o "quartel-general" das celebrações de 1º a 15 de agosto, atraindo milhares de participantes, incluindo políticos, artistas e congadeiros. Casada com João Ferreira em 1947, levantava a Bandeira de Santa Ifigênia todo 1º de agosto, marcando o início das festividades com danças, música e símbolos culturais. Faleceu em 26 de dezembro de 2023, aos 98 anos, e seu velório incluiu o ritual de "descoroação". Seu legado cultural afro-brasileiro será perpetuado por suas filhas e netas.

 

Essas mulheres — religiosas, educadoras, filantropas, trabalhadoras, parteiras, figuras culturais e guardiãs da tradição — construíram Itaúna com suas mãos e corações. Seus legados estão nas escolas, hospitais, ruas e celebrações da cidade, inspirando-nos a lutar por igualdade e valorizar as mulheres de hoje. Que possamos honrar suas histórias e trabalhar por um futuro onde todas as vozes sejam ouvidas, perpetuando os valores de coragem, compaixão, determinação e preservação cultural que elas exemplificaram. 

Organização, arte e elaboração: Charles Aquino

 

terça-feira, março 08, 2022

MULHERES EM ITAÚNA

 MULHERES QUE FIZERAM HISTÓRIA EM ITAÚNA

  A cidade de Itaúna, ao longo de sua rica história, foi moldada por mulheres extraordinárias cujas contribuições reverberam através dos tempos. Desde as figuras mais abastadas até as mais humildes, cada uma delas desempenhou papéis vitais que transcenderam suas épocas, deixando marcas indeléveis no coração da comunidade.
   Entre as mulheres empreendedoras, destacam-se empresárias visionárias que impulsionaram o desenvolvimento econômico da cidade junto com seus cônjuges. Elas fundaram empresas e instituições que se tornaram exemplo de caridade e fomento a educação local. Suas histórias são de inovação e coragem, desbravando caminhos que antes eram considerados inacessíveis.
   Por outro lado, as mulheres trabalhadoras de Itaúna, com sua dedicação e espírito comunitário, desempenharam um papel igualmente crucial. Trabalhadoras incansáveis, elas contribuíram para a construção de uma sociedade mais justa e solidária. Como professoras, enfermeiras, donas de casa e voluntárias, essas mulheres teceram uma rede de apoio que fortaleceu a coesão social e promoveu o bem-estar coletivo.
   A força, resiliência e dedicação dessas mulheres estão presentes em cada canto de Itaúna. Seus legados são visíveis nas escolas que educam as futuras gerações, nos hospitais que cuidam da saúde dos cidadãos e nas organizações comunitárias que promovem a cultura e a solidariedade. Elas deixaram um exemplo de liderança e altruísmo que continua a inspirar e guiar os habitantes da cidade.
   Essas mulheres notáveis não apenas construíram uma cidade, mas também criaram uma herança de valores e conquistas que permanece viva. Em Itaúna, cada rua, cada praça e cada instituição carrega consigo a essência das mulheres que, com suas histórias e feitos, fizeram da cidade um lugar onde a força do espírito humano brilha intensamente. O legado dessas mulheres é um testemunho poderoso de que, independentemente das circunstâncias, é possível transformar o mundo ao nosso redor com coragem, visão e coração.
 
Nair Chaves Coutinho:  uma educadora dedicada, transformou a Escola Estadual de Itaúna através de sua liderança como professora e diretora. Seu compromisso com a educação pavimentou o caminho para o desenvolvimento intelectual da comunidade itaunense.

Irmã Benigna Victima de Jesus  Madre superiora na direção da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira ao longo de 12 anos.  Serviços internos nas enfermarias, administração do hospital e serviços externos gratuitos da policlínica, trabalho este, apoiado também pelas Irmãs Auxiliares da Piedade, que trouxe alívio e cuidados essenciais para muitos necessitados.

Maria Joaquina Parda:   Sepultada na Capela do Rosário no ano de 1852 com 95 anos de idade, deixando grande descendência em Itaúna.

Maria Adriana “Bisa”: conhecida como “Bisa” e filha da escrava Francisca Claudina da Silva, também é lembrada por sua numerosa prole, muitos dos quais se destacaram na área da educação.

Dona Sinhá e Maria da Piedade: representa a força e resiliência das trabalhadoras rurais, respectivamente, demonstrando a importância do trabalho árduo na construção da comunidade.


Balbina Fortunata da Silva: Parteira das mais conceituadas e solicitadas em Itaúna, ajudando centenas de cidadãos itaunenses a vir ao mundo.

Alice Nogueira: ao ser coroada Miss Itaúna em 1949, colocou a cidade no mapa da beleza e elegância. 

Maria do Carmo: lembrada por sua vida de trabalho e pela luta em criar os filhos sozinha, mas deixou o impacto de suas contribuições.

Maria Viana Mendes Uma mulher de admiráveis virtudes e habilidades. Era excelente costureira, especialmente para noivas e, sobretudo, parteira, sempre pronta para servir ao próximo.

Maria Gonçalves de Souza Moreira “Dona Cota”:  deixou um legado duradouro ao instituir a Fundação São Vicente de Paulo, que continua a servir a comunidade desde 1948.

Maria Batista Alves: Trabalhadora, deixando grande descendência em Itaúna.

Maria Tião: com seus deliciosos biscoitos fritos de polvilho, trouxe alegria e sabor. 


 Organização e Pesquisa : Charles Aquino

sábado, novembro 23, 2013

ISMA PEREIRA FRADE

Conheça a história inspiradora de Isma Pereira Frade, ou simplesmente Dona Isma, uma mulher que dedicou sua vida ao serviço público e à comunidade de Itaúna, Minas Gerais.

Nascida em Salvador, Bahia, e órfã desde jovem, Dona Isma superou desafios e, em 1947, foi incumbida de abrir a primeira agência do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários (IAPI) em Itaúna.

Sua jornada é marcada por dedicação, amizades e conquistas, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. 

Ela foi reconhecida com o título de Cidadã Honorária de Itaúna, fundou o setor de assistência social de uma das maiores empresas da cidade e, mais tarde, foi eleita vereadora, sempre lutando pelos menos favorecidos.

Mesmo após sua aposentadoria, continuou contribuindo para a comunidade, até falecer em 2005, deixando um legado admirado por todos que a conheceram. Venha se inspirar com a história dessa grande mulher baiana/itaunense!

 

Uma baiana que amou Itaúna


ISMA PEREIRA FRADE ou simplesmente Dona Isma, nasceu em Salvador (BA) em 29 de dezembro de 1924. Ainda muito nova Dona ISMA perdeu seus pais, tendo sido criada uma tia-avó Amália do Sacramento Pereira e seu marido Octaviano Marques Pereira. Iniciou seus estudos no Instituto Normal da Bahia e, em 1941 formou-se Normalista (hoje professora primária). Ingressou no ex-IAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários) através de Concurso Público. Em 1947, no Rio de Janeiro, recebeu o seguinte desafio que ela mesma contava: "ir para uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, chamada Itaúna e lá abrir um Posto do IAPI". 

Como boa baiana, aceitou e desafiou e dizia: "viajei de locomotiva a vapor (Maria Fumaça), do Rio de Janeiro para Belo Horizonte e de lá para Itaúna". Aqui chegou em 1947, sem conhecer nada nem ninguém da cidade. Havia, como há ainda hoje, uma pensão quase ao lado da Estação Ferroviária. Hospedou-se lá e, quem a conheceu sabe, tinha uma imensa facilidade de fazer amizades. E foi o que aconteceu. Em pouco tempo era conhecida por todos. A primeira pessoa a quem ela procurou foi Sr. Prefeito Municipal, à época Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho (DR. COUTINHO), expondo-lhe sua missão aqui em Itaúna. Dizia ela que recebeu total apoio e, em pouco tempo conseguiu abrir a Agência do IAPI, contando, também, com a colaboração da Cia. Industrial Itaunense e Cia. Tecidos Santanense, as duas maiores empresas da cidade. 

Em outubro de 1950, casou-se aqui em Itaúna com ERNESTO FRADE, bancário, natural de Formiga (MG), que veio transferido para o extinto Banco Comércio e Indústria, depois Banco Nacional. Desta união nasceu IONE COUTINHO, filha única do casal. Depois da Agência funcionar em diversos locais, durante o período revolucionário houve a fusão dos diversos Institutos, passando a ser o Instituto Nacional de Previdência Social e Dona ISMA continuou a ser a AGENTE (Chefe da Agência).

O Instituto então adquiriu um terreno à Rua Dr. José Gonçalves, onde construiu a Agência Local, tudo sob a supervisão de Dona ISMA e, conforme ela mesmo dizia, contou com a inestimável colaboração do Engº. SÉRGIO DE CASTRO, atual Secretário Municipal de Obras da Administração Municipal. Depois de 35 anos de profícuo e dedicado trabalho ao Instituto, decidiu aposentar-se, o que aconteceu em 1977. 

Em 1971, a Câmara Municipal de Itaúna concedeu-lhe, merecidamente o título de CIDADÃ HONORÁRIA DE ITAÚNA, título do qual ela muito se orgulhava, pois dizia "SOU ITAUNENSE DE CORAÇÃO". Coincidentemente, em 1978 a Cia. Industrial Itaunense ainda em boa situação, através de sua Diretoria, decidiu fazer uma reformulação completa, moderna e mais dinâmica em seu organograma, criando Departamentos, Divisões e Setores.

Em vista da experiência da Dona Isma na área social e da necessidade de uma empresa do porte da então Itaunense ter um setor especializado em assistência social, ela foi contratada, com o objetivo de implantar o Setor de Assistência Social, tendo sido nomeada Chefe do Setor. Eu, pessoalmente, acompanhei Dona ISMA em várias visitas que fez a diversas empresas que já tinham o referido setor já bem estruturado e, baseada nas diversas experiências que conheceu, estruturou o Setor na Itaunense. 

Para que funcionasse bem, a Diretoria destinou uma verba para que ela pudesse, entre outras coisas, atender aos funcionários de qualquer cargo ou nível, oferecendo pequenos adiamentos de salários, ajuda em caso de doença, etc. E o mais importante, com exceção da Diretoria, era a única pessoa que teve autorização para abrir uma conta bancária em nome da Cia. e assinar cheques. 

Em 1982, Dona ISMA resolveu ingressar na política, candidatando-se a vereadora. Foi eleita e cumpriu o mandato de 01-02-83 a 31-12-88. Foi considerada uma boa representante do povo, especialmente dos menos favorecidos, que ela conhecia bem devido anos de experiência vividos com AGENTE do INPS. Com a piora da situação da Itaunense ela decidiu parar de trabalhar definitivamente. 

Por problemas de saúde, mudou-se para BOCAIÚVA (MG), indo morar com sua filha IONE que para lá se mudara desde o casamento. Os problemas se agravaram e ela foi transferida para Montes Claros, onde acabou falecendo dia 14 de julho de 2005. Seu sepultamento foi aqui em ITAÚNA, terra que tanto amou e dedicou sua vida. Houve um sentimento generalizado de perda em toda a comunidade itaunense. Perdemos a "Dona Isma do INPS". Esta é resumidamente, a vida desta grande itaunense.

 

Texto: Juarez Nogueira Franco (In Memoriam)

Fonte: Ione Coutinho - (filha)

Organização: Charles Aquino