sexta-feira, julho 26, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (III)

UM MÉDICO RECÉM-FORMADO

O Dr. Hely Nogueira, filho do Sr. Urquiza Nogueira e Dª Ana Dornas Nogueira, formara-se em medicina em dezembro de 1928, aos 21 anos de idade. Ele instalara o seu consultório no cômodo da loja, da casa velha do senhor seu pai, exatamente na esquina da praça [...]. Era uma casa antiga, onde morava o Sr. Urquiza Nogueira e seus familiares.

Precisamente na esquina, havia um cômodo de loja que estava vazio, com duas portas de madeira que davam para a praça e outra para a Travessa 2 de Janeiro, hoje Rua Coronel Artur Vilaça. Naquele local, o Dr. Hely instalara o seu consultório para o atendimento aos seus clientes.

Havia diversos médicos radicados na cidade, que clinicavam aqui há muitos anos; no entanto, fui procurar um médico recém-formado para o tratamento de minha saúde, precisamente porque ele se especializara nesse ramo da medicina, que era o tratamento de moléstias venéreas.

Hoje, no entanto, de acordo com a sua propaganda em jornais, a sua especialidade era “distúrbio psicossexuais”.

Ele atendia no seu consultório e trabalhava também na Casa de Caridade “Manoel Gonçalves”. Era um moço baixo, forte, pela clara, tipo alourado, comunicativo, muito atencioso e procurava sempre contagiar os seus clientes com o seu otimismo.

Iniciado o meu tratamento, ele começou a fazer experiência, uma vez que não lhe era possível diagnosticar o fundo maligno da minha moléstia. Naquele tempo não havia os recursos que existem hoje na medicina e por isso, os médicos lutavam também com as suas dificuldades, para que pudessem descobrir determinada moléstia.

No decorrer do tempo, a doença fora-se desenvolvendo em ritmo contínuo, ao invés de retroceder na sua marcha destruidora, com a aplicação terapêutica do facultativo. O Dr. Hely me atendia em seu consultório e no hospital também.

Não havia necessidade de ficar de cama, mas precisava de fazer certo repouso, não andar muito, o que não acontecia, entretanto, devido à minha impaciência. Ia ao hospital quase diariamente.

O médico começara a me aplicar uma injeção muito usada naquela época, para o tratamento da sífilis, denominada “914”. Aplicação endovenosa e em dosagem progressiva em centigramas, dia sim, dia não. E no decorrer do tempo, eu chegara a tomar uma dosagem “cavalar” como se dizia naquele tempo.

Era uma medicação tão brava, que se por descuido do médico ou do enfermeiro, a agulha transpassasse a veia e penetrasse no músculo um mínimo que fosse daquele líquido, o paciente quase morria de dor!

Certa manhã isto se deu comigo lá no hospital e fora o próprio Dr. Hely quem me aplicara a injeção, precisamente na sala de curativos. Ele dedicava muita atenção ao seu trabalho; no entanto, naquela manhã, sucedeu algo de errado, porque ele deixou que a agulha perfurasse a veia de lado a lado e assim que uma quantidade mínima do líquido atingiu o músculo do meu braço, eu senti uma dor intolerável.

O Dr. Hely percebendo a minha reação, retirou incontinente a agulha da veia. Ato contínuo, fez-me deitar sobre a mesa e, manejando-a em seguida, me colocou de cabeça para baixo, enquanto preparava rápido outra seringa com determinada injeção que me aplicou no músculo, certamente para combater a dor que eu sentia.

Instantes depois, ele, movimentara a alavanca da mesa, me deixando deitado em posição normal. Em seguida, aplicou-me na veia a “914” sem mais nenhum contratempo. Lembro-me ainda, de que passei maus momentos naquela longínqua manhã.  

CONSELHEIROS ITAUNENSES
Na década de 30 com a posse do Presidente Getúlio Vargas, as Câmaras Municipais foram substituídas e fechadas (Decreto nº 9.776, de 24 de novembro de 1930), passando a ser nomeadas de “Conselho Consultivo Municipal”.  Nos anos de 1936 e 1937 houve um retorno das Câmaras, todavia, com curta duração. Com o novo regime político instaurado e denominado de “Estado Novo”, por imposição do governo, realiza-se novamente os fechamentos de todos os Legislativos Municipais, voltando somente no final da década de 40.
O primeiro Conselho Consultivo Municipal de Itaúna foi realizado no dia 27 de dezembro de 1930, com os seguintes integrantes:
Empresário
Farmacêutico
Manoel Dias Corrêa
Empresário
Hely Nogueira
Médico
Antônio Augusto de Lima Coutinho
Médico Cirurgião



O MÉDICO E O FOOTING DA PRAÇA

Para demonstrar o quanto o Dr. Hely foi atencioso para comigo, passarei a relatar aqui certa ocorrência que se deu relativa a meu tratamento de saúde.

Naquela época, a Praça da Matriz era despida de qualquer arborização, sem o belo jardim que a ornamenta atualmente. Defronte à igreja, precisamente onde se acham localizados os bancos do passeio do jardim, erguia-se sobranceiro o belo “Cruzeiro de Madeira”, cujos braços pareciam querer apertar num amplexo espiritual as torres do tempo, tendo ainda a seus pés, uma calçada de pedras superpostas, onde à tardinha, ao pôr do sol, as pessoas amigas se assentavam para um bate-papo provinciano.

Já naquela época, havia na praça, nas noites de sábados e domingos, o célebre footing dos namorados.  Era o vaivém constante pra lá e pra cá. O Dr. Hely Nogueira fazia parte também daquela turma felizarda, tendo a seu lado a deusa de seu coração, com quem se casaria mais tarde.

No entardecer de certo domingo, eu foquei meio apavorado, meio nervoso com a minha doença e não tive a necessária paciência de esperar pela manhã do dia seguinte, a fim de conversar com o médico sobre o assunto. Descendo à noitinha, passei pela casa do Dr. Hely, mas não o encontrei, porque ele já havia saído de casa para encontrar-se com a sua pequena.

Eu continuei pela praça na companhia de um amigo, na expectativa de que ele surgisse ali a qualquer momento, ao lado de sua garota e não me enganei, porque ele apareceu realmente.

Depois que ele deus algumas voltas, enchi-me de coragem e fui ao seu encontro, pedindo-lhe licença para falar-lhe em particular. Atenciosamente, ele pediu permissão a sua namorada e veio falar comigo, um pouco afastado dali.

Falei-lhe então sobre a minha preocupação e solicitei-lhe o favor de me atender em seu consultório naquele instante. Delicadamente ele voltou à presença da sua pequena e pediu a esta que fosse à procura de sua amiga e ficasse na sua companhia até que ele me atendesse por alguns momentos.

Assim que chegamos ao seu consultório, aplicou-me uma injeção, certamente para me acalmar, passando depois a conversar comigo, naquela prosa amiga de médico para cliente: “Isso não vale nada e vai passar logo! ” Em seguida retornamos à praça e depois de meus agradecimentos pela sua atenção, ele foi ao reencontro de sua deusa.

Como veem, o Dr. Hely Nogueira fora extremamente delicado para comigo. Deixar a namorada em pleno footing numa noite de domingo, para atender a um pobre cliente apavorado, não era gesto para qualquer médico não!

Era preciso ser dedicado de verdade como ele o fora! Estes eram alguns traços da personalidade do Dr. Hely Nogueira, moço formado em medicina aos 21 anos de idade, nos ido de 1928.



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REFERÊNCIAS:
Pesquisa e Organização: Charles Aquino
Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira: Periódicos Digitais
Texto 1 e 3: FAGUNDES, Osório Martins. Fragmentos de Um Passado, pag. 128,129.
Texto 2: Charles Aquino.
SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, p.246. Vol.1.
Genealogia da Família Nogueira Penido: Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam) – Genealogista, Edward Rodrigues da Silva (Vavá) – Genealogista, Dr. Alan Penido – Genealogista, Aureo Nogueira da Silveira – Genealogista.
Acervo Genealógico e Arte: Charles Aquino, MyHeritage
Acervo: Câmara Municipal de Itaúna (Brasão)

domingo, julho 21, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (II)

DOUTOR OVÍDIO
 Dr. Ovídio Nogueira Machado nasceu no dia 6 de novembro de 1888 em Sant’Anna do Rio São João Acima, hoje Itaúna, era filho do cel. Josias Nogueira Machado e dona Tereza Gonçalves Nogueira. Foi casado com Zélia de Paula Machado, com a qual teve seis filhos:

Ahmés de Paula Machado c.c. Bety Oswald Machado, Ossian de Paula Machado (Solteiro), Neda Machado de Sousa c.c. Dirceu Alves de Sousa, Yeda de Paula Machado c.c. Lauro Carneiro Borges, Glauco de Paula Machado c.c. Anália Queiroz Machado e Gláucia Machado Corradi c.c. Valdir Corradi

Fez seus estudos primários em Itaúna e sob orientação de seu tio Aureliano Nogueira Machado, preparou-se para os exames de seleção (hoje vestibular) na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi aprovado em primeiro lugar com “distinção e louvor” sendo distinguido por várias vezes com medalhas de “honra ao mérito”.

Diplomou-se em 1917 e montou seu consultório médico na cidade de Iconha (Espírito Santo) a pedido do Presidente do Estado (cargo que hoje se equivale a de Governador do Estado). Pela característica de cidade polo, ali atendeu doentes de dezenas de cidades, ficando conhecido na região como “pai dos pobres”, pelo seu desprendimento. Viajava léguas e léguas a cavalo para atender aos clientes mais pobres, sem nunca se preocupar com renumeração.

No Espírito Santo casou-se com Zélia Gaigher de Paula (nome de solteira), nascendo ali seu primeiro filho Ahmés de Paula Machado.

Estudioso permanente, fazia anualmente viagens de estudos ao Rio de Janeiro, onde participava de congressos médicos trocando experiências. Além da medicina, interessava-se por qualquer assunto.

Era um apaixonado pela literatura, lia correntemente obras médicas chegando a lecionar latim, francês e matemática. Há dois livros publicados sobre matemática “Estudo e Aritmética” e “Ensaio Matemático”, descobrindo a “trisseção do ângulo”, problema insolúvel até a sua época. Defendeu a tese “Novas formas logarítmicas” sendo muito elogiado pela banca examinadora.

A medicina foi sua maior paixão e seu objetivo maior era atender a todos com a mesma dedicação e profissionalismo. Com a doença de seu pai (cel. Josias Nogueira Machado) retornou a Itaúna.

A DESCOBERTA DO ENDOVAN

Até o auge de sua carreira, não havia ainda antibiótico ou sulfa, por isso, montou junto com seu irmão o dr. Lincoln Nogueira Machado um laboratório de pesquisas, onde descobriram e desenvolveram com intenso trabalho, um anti-inflamatório denominado ENDOVAN.

Com o sucesso da fórmula, os ilustres médicos Ovídio e Lincoln foram para o Rio de Janeiro para divulgação do medicamento, provendo várias palestras e entrevistas a jornais da cidade.  O jornal “A Batalha” informou que:

O dr. Ovídio Nogueira Machado que nos visitou ontem é um renomado médico em todo Estado de Minas, onde vive e se entrega a sua profissão.

Nasceu em Itaúna. E lá, naquele recanto sossegado do interior mineiro, no laboratório mais ou menos aparelhado de uma farmácia que mantém juntamente com o seu irmão, também médico, realizam pesquisas procurando lenitivo para certas enfermidades, muito comuns no seu “habitat”.

Contou-nos o distinto médico que há dez anos vinha estudando a fórmula de um medicamento capaz de atuar vantajosamente, sobre muitas doenças, tais como inflamações agudas da boca, da língua, da garganta, ulcerações internas e externas, em infecções da pele, etc. 

E chegou realmente a um resultado satisfatório com as injeções a que deu o nome de ENDOVAN. Aplica-se a todas as moléstias acima mencionada dando excelente resultado no câncer.

O dr. Ovídio, que tem interesse em lançar o seu medicamento nesta praça então esclarece:

— Já o experimentei em três casos e obtive êxito surpreendente. A ferida diminui desaparecendo a supuração, o mal cheiro e a dor. Também nas manifestações abdominais agudas dando belos resultados.  Já o tenho aplicado em mais de quinhentas pessoas. O meu irmão dr. Lincoln Nogueira Machado, auxiliou-se na descoberta do preparado.

Citou outro caso:
— Empreguei as injeções ENDOVAN em pessoas da família do ex-deputado federal e membro da Academia Mineira de Letras, o dr. Mário Mattos. Este ficou tão entusiasmado com o êxito, que me escreveu uma carta, achado que o medicamento era maravilhoso concluiu:

— Prezados amigos drs. Ovídio Nogueira Machado e Lincoln Nogueira Machado. Apresso-me a dar-vos o meu testemunho a respeito de vossa notável descoberta científica do ENDOVAN.

Para mim, não há dúvida nenhuma de que se trata de injeção, que é específica para inflamações agudas em geral. O efeito é imediato.

Tive em minha família, três casos de curas surpreendentes e rápidas, quando já os doentes estavam desatinados de dor, achando-se o processo inflamatório prestes a sutura.  
Interessado pela descoberta, presenciei a muitíssimos outros casos em conhecidos em amigos, em parentes. O resultado foi sempre o mesmo: — definitivo, pronto e insofismável.

Estou, assim, absolutamente convencido que o ENDOVAN é extraordinária descoberta que imortalizará vosso nome, constituindo permanente benefício para a humanidade.
Tenho, pois, viva satisfação em ser o primeiro itaunense, patrício vosso, a proclamar espontaneamente essa verdade, que em breve será ratificada pelos meios científicos brasileiros.  Aos incrédulos podereis dizer por enquanto: — experimentem.

Itaúna primeiro de fevereiro de mil novecentos e trina e dois.
Mário Mattos


 No jornal “A Gazeta da Pharmacia” da cidade do Rio de Janeiro de dezembro de 1932, era anunciado pelo Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio o resultado do pedido para registro da marca do medicamento:
Dr. Ovídio Nogueira Machado, recorrendo do despacho que, exarado no processo relativo ao seu pedido do registro da marca ENDOVAN, para distinguir um produto farmacêutico, da classe 3, mandou que fossem preenchidas as formalidades do decreto 19.606 de 19 de janeiro de 1931. Nego provimento ao recurso. Dia 1º (D.O. 07/10/1932) Silva Araújo.

ZÉLIA & OVÍDIO


O casal dr. Ovídio Nogueira Machado e dona Zélia de Paula Machado, eram extremamente dedicados às crianças.  Ajudado pela dedicação de sua esposa fundou um pequeno hospital em frente à sua casa, dando-lhe o nome de “Maternidade”, para atender às mães carentes ou solteiras.  

Ovídio e Zélia faziam partos e davam toda a assistência aos recém-nascidos, fornecendo até o enxoval do bebê, sem que pagassem nada pela assistência. Além da “Maternidade” sua esposa fundou o “Lactário”, para fornecer leite diariamente às crianças carentes. Esta entidade, por várias décadas prestou inestimáveis serviços à comunidade itaunense.

Em suas pesquisas, desenvolveu um processo para a cura do tifo, epidemia que tomou conta da cidade. Mudou-se então para Santanense, onde a doença tinha feito mais vítimas, lá prestou assistência permanente evitando que se propagasse ainda mais.
Cultura inigualável, Dr. Ovídio se manteve até idade avançada atualizando-se em sua profissão, deslumbrando com a descoberta da penicilina, outros remédios e novos recursos que apareciam na medicina.   

Dr. Ovídio Nogueira Machado faleceu no dia 27 de julho de 1978 aos 90 anos de idade, sendo seu corpo sepultado no cemitério central da cidade de Itaúna junto aos seus entes queridos (Perpétua 3845).



Em homenagem aos beneméritos dr. Ovídio e dona Zélia encontra-se em Itaúna uma Clínica Médica destinada a serviços de saúde denominada Policlínica Municipal Dr. Ovídio Nogueira Machado, um Logradouro no Bairro de Lourdes denominado Rua Dr. Ovídio Nogueira Machado e um centro de danças denominado Centro Cultural de Dança Zélia de Paula Machado.





REFERÊNCIAS:
Organização e Pesquisa: Charles Aquino
Texto: Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam), Charles Aquino
Acervo: Yeda de Paula Machado, ICMC – Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira.
Fonte Impressa: Jornal A Batalha, 25 de março de 1932, nº 684, 686, 698, 716.
Fonte Impressa: Jornal a Gazeta da Pharmacia, Rio de Janeiro dezembro de 1932, nº 3.

quinta-feira, junho 27, 2019

ESCOLA LINCOLN NOGUEIRA


R. Antônio Medeiros, 153 - Lourdes, Itaúna - MG, 35680-189

Inaugurada em 30 de março de 1972, a Escola Municipal Dr. Lincoln Nogueira Machado celebrou, em 2022, seus 50 anos de contribuição para o desenvolvimento educacional do município. Ao longo de cinco décadas, a instituição se consolidou como um pilar fundamental na formação de inúmeras gerações, promovendo o conhecimento e fortalecendo os laços comunitários.

Para marcar essa ocasião memorável, a escola organizou uma programação especial ao longo da semana comemorativa, reunindo alunos, familiares, funcionários, ex-funcionários e membros da comunidade. A celebração não apenas rememorou a trajetória da instituição, mas também ressaltou a importância da educação como vetor de transformação social. Naquele período, a unidade atendia 583 alunos, abrangendo desde a Educação Infantil até os Anos Iniciais do Ensino Fundamental, mantendo um compromisso inabalável com a qualidade do ensino.

A importância dessa data transcendeu a simples marca temporal, reafirmando o papel essencial da educação na construção de um futuro mais promissor. Comemorar essa história foi reconhecer o impacto da escola na formação de cidadãos críticos, conscientes e preparados para os desafios da vida. Investir na educação sempre significou investir no desenvolvimento humano e na melhoria contínua da qualidade de vida da sociedade.

Dessa forma, os 50 anos da Escola Municipal Dr. Lincoln Nogueira Machado, comemorados em 2022, representaram não apenas um legado de dedicação ao ensino, mas também reforçaram o compromisso coletivo com a valorização da educação como alicerce para uma sociedade mais justa e equitativa.

Referência:

Organização e elaboração: Charles Aquino

Prefeitura Municipal de Itaúna, 2022. Disponível em: https://www.itauna.mg.gov.br/portal/noticias/0/3/3400/escola-municipal-dr-lincoln-nogueira-machado-comemora-50-anos


segunda-feira, junho 24, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (I)

A história da saúde pública do Arraial de Sant'Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, se dá em tempos bem remotos ao século XIX. Importantes prestadores de serviços à saúde do arraial, seriam também os farmacêuticos/boticários práticos ou formados — “peritos no desenvolvimento, produção, manipulação, seleção e dispensação de medicamentos”.

Em 1875, o farmacêutico Manoel Hilário Pires Ferrão proferiu uma conferência intitulada “Da farmácia no Brasil e de sua importância: meios de promover a seu adiantamento e progresso”. Nessa ocasião, chamou a atenção para a distinção que deveria ser feita entre boticário e farmacêutico.

 O boticário podia ser qualquer um que resolvesse abrir uma botica e comercializar a retalho vários remédios sem ter direito para isso. Sobre o farmacêutico, Manoel citou a França como exemplo a ser seguido, pois, desde finais do século XVIII adotara o nome farmacêutico para designar aqueles que eram formados em cursos regulares de farmácia.

A designação “boticário” continuou a ser usada pela população para se referir ao farmacêutico diplomado. Apesar da lei de 03 de outubro de 1832 estabelecer que ninguém poderia “curar, ter botica, ou patejar” sem título conferido ou aprovado pelas faculdades de medicina, muitos proprietários de boticas pagavam farmacêuticos diplomados para dar nome a seus estabelecimentos, prática que se estendeu até o século XX.

As boticas ou farmácias, mesmo nos centros urbanos da época, como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Ouro Preto e Recife, acabavam funcionando como locais de assistência médica e farmacêutica, incluindo a prescrição e manipulação dos medicamentos e, provavelmente, a aplicação de procedimentos terapêuticos usuais na época, tais como sangrias, com o emprego de ventosas, lancetas ou sanguessugas, instrumentos que se encontravam à venda nas próprias farmácias (Texto 1).


O primeiro farmacêutico formado que se tem notícia no arraial de Sant'Ana, seria Aureliano Nogueira Machado. O historiador Dr. Guaracy de Castro Nogueira nos diz:

Trata-se de ilustre personalidade de tradicional família de Itaúna. Ele era filho de Justino José Machado e de dona Purcina Nogueira Duarte. Esta descendente dos fundadores de Itaúna, bisneta de Tomas Teixeira e sobrinha bisneta de Gabriel da Silva Pereira, os portugueses que aqui se estabeleceram nas primeiras décadas do século XVIII.

Aureliano Nogueira Machado foi o primeiro farmacêutico filho de Itaúna formado na antiga Escola de Ouro Preto, fundada pelo Imperador Dom Pedro II. Estabeleceu com sua farmácia alopática no alto da antiga rua direita, perto do Mirante, no sobrado de sua mãe Purcina, passando-se depois para um sobradinho, na mesma rua Direita, que existiu junto ao antigo local da Fundição Corradi (hoje Av. Getúlio Vargas). Por último, funcionou na antiga Rua do Rosário, em casa que depois foi residência do dentista Gustavo de Matos e estabelecimento do senhor José Rosa dos Santos.

Exerceu com sucesso sua profissão, não só por causa de sua competência, como também pelos conhecimentos que tinha de farmacologia e das disciplinas básicas comuns dos formados em medicina. Receitava e manipulava medicamentos o que despertou ciúme de quantos viam nele um concorrente.

 Foi acusado de não ser formado. Indo a Ouro Preto buscar o seu diploma, hospedou-se no Hotel Tófolo, e lá foi envenenado quando tomava sua refeição. Não compareceu à formatura, porque era republicano.

Não se fez a apuração para se punir o culpado pelo crime e tudo caiu no esquecimento, sob a hipótese de que o mandante era pessoa de muito prestígio em Santana do São João Acima. Analisando sua curta e proveitosa vida, conclui-se que viveu sob ameaças por causa da forma como exercia sua profissão. 

Daí, cauteloso, sentindo-se perseguido, fez seu testamento em 12 de julho de 1887. Seu pai já era falecido. Deixou seus bens para sua mãe Purcina, salvo um legado no valor de um terço dos bens para sua filha única Carolina, filha de Carolina Fernandes de Sousa, sua companheira e que o ajudou ao longo de sua vida. Seu testamento foi aberto após sua morte em 16 de agosto de 1891.

Zacarias Ribeiro de Camargos, seu tio, tornou-se tutor da menor Carolina. Os três testamenteiros indicados por ele para procederem ao cumprimento do testamento, Manoel Gonçalves de Sousa Moreira, doutor José Gonçalves de Sousa Moreira e doutor Augusto Gonçalves de Sousa Moreira, pela ordem, recusaram a tarefa, desistindo da incumbência quando citados pelo meirinho.

Em 15 de dezembro de 1891, seu irmão Josias Nogueira Machado aceitou ser seu testamenteiro dativo. O inventário só foi requerido em 5 de setembro de 1899, 8 anos depois de seu falecimento. Sua mãe herdou bens no valor de 2 contos, 738 mil, 826 réis e sua filha Carolina a importância de um conto, 369 mil e 413 réis, sendo que o total de sua herança era de 4 contos, 108 mil, 239 réis.

 Carolina nasceu aos 30 de março de 1885 e foi batizada, em Carmo do Cajuru, pelo vigário Guilherme Nunes de Oliveira em 12 de janeiro de 1886. Mais tarde casou-se com o ilustre técnico têxtil Augusto Alves de Sousa, um dos primeiros operários da Santanense e da Itaunense, dando origem a numerosa família itaunense, que tanto tem contribuído para o desenvolvimento de nossa terra.

A homenagem que hoje o  prestamos a tão importante personalidade, tem duplo objetivo: fazer justiça, ainda que tardia, ao primeiro farmacêutico formado de Itaúna e resgatar sua memória, colocando-a em evidencia para o aplauso e o reconhecimento dos itaunenses, que mais uma vez se colocam ao lado dos injustiçados. Esta é uma homenagem muito justa (Texto 2).


No decreto de número 9.554 do dia 3 de fevereiro do ano de 1886 reorganizava os serviços Sanitários do Império para conceder licenças aos farmacêuticos formados ou práticos, conforme os artigos 65 a 68:

 Art. 65 - Nas localidades em que não houver pharmacia dirigida por profissional habilitado, a Inspectoria Geral de hygiene poderá conceder licença a praticos para abrirem pharmacia, dadas as seguintes condições: 1ª Ser a abertura da pharmacia julgada necessaria pela Camara Municipal do termo; 2ª Apresentar o pratico documentos que certifiquem as suas habilitações e probidade.

Art. 66 - Requerida a licença de que trata o artigo precedente, a Inspectoria Geral fará publicar, á custa do requerente, por oito dias successivos, no Diario Official e no jornal official da Provincia onde o pratico pretender estabelecer-se, o teor do requerimento; declarando que, si nesse prazo nenhum pharmaceutico formado communicar á mesma Inspectoria ou ao Inspector de hygiene provincial a resolução de estabelecer pharmacia na localidade, será concedida ao pratico a licença requerida.

Si algum pharmaceutico communicar que pretende estabelecer-se na referida localidade, o Inspector Geral de hygiene ou o Inspector provincial o intimará a comparecer na Repartição e assignar um termo, no qual se comprometta a abrir a sua pharmacia dentro do prazo que fôr marcado.

Art. 67. Realizado o estabelecimento do pharmaceutico, nos termos do artigo antecedente, o Inspector Geral o fará declarar pelo Diario Official; no caso contrario, será concedida licença ao pratico que a tiver requerido em primeiro logar.

Art. 68. Concedida a um pratico licença para abrir pharmacia, subsistirá ella por todo o tempo, ainda mesmo que na localidade venham a estabelecerse pharmaceuticos formados; mas só terá effeito na mesma localidade ou em outra que se achar nas condições mencionadas no art. 65 e para onde poderá ser transferida a pharmacia, com autorização da Inspectoria Geral. (Texto 3)




REFERÊNCIAS: 

Pesquisa e Organização: Charles Aquino


Texto 2: Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam)  

Texto 3: Coleção de Leis do Império do Brasil - 1886, Página 57 Vol. 1 (Publicação Original). Disponível em< http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1824-1899/decreto-9554-3-fevereiro-1886-543197-publicacaooriginal-53270-pe.html  Acesso em< 15/06/2019.


Acervo 2: ICMC - Instituto Cultural Maria de Castro Nogueira. 



NOSSA SENHORA DE ITAÚNA

Itaúna sempre foi uma comunidade que cultivou, com muita devoção, a sua Fé. A cidade nasceu às margens do rio São João, à sombra de um velho cruzeiro plantado pelos pioneiros de nossa povoação, lá no longínquo séc. XVIII, no alto de um monte, hoje denominado Morro do Rosário.

O povoamento se deu, principalmente, devido ao fluxo entre dois grandes centros mercantis daquele tempo: Bonfim e Pitangui. E uma de nossas denominações mais antigas, remete-nos a esta Fé: “Sant’Anna do São João Acima de Pitanguy”.  O arraial desenvolveu-se até ser elevado à paróquia. Em meados do séc. XIX (1841) era criada a Paróquia de Sant’Ana – genitora da própria cidade de Itaúna e hoje desdobrada em outras cinco paróquias (Fátima, Coração de Jesus, Piedade, Nossa Senhora Aparecida e São José).

 Esta Fé, viva e muito presente no seio da sociedade itaunense foi produzindo seus frutos de esperança e de amor e transformando as realidades. Haja visto o significativo número de itaunenses que ao longo dos tempos tomou sacerdócio católico para suas vidas – em torno de trinta padres!

Entretanto, um fato assinala de maneira indelével, as páginas de nossa História.  Uma história de Fé, de conversões e de filial amor à Nossa Senhora.  O ocorrido deu-se no dia 27 de julho de 1955, um dia após a cidade comemorar sua excelsa padroeira a: Senhora Sant'Ana.  Naquele dia, a bucólica Itaúna, abalou-se com a notícia de uma possível aparição de Nossa Senhora a três garotos, em uma mata fechada próxima da antiga Vila Mozart, hoje Bairro de Lourdes.

Filhos das primeiras famílias a habitarem o local, Eduardo Vasconcelos, Antônio Nunes e José Rita eram amigos e gostavam de brincar na mata perto de suas casas. Tarzan era um dos personagens preferidos dos meninos, e a mata fechada era o cenário ideal para suas brincadeiras e estripulias. Em uma manhã, ao sair para procurar o cavalo do pai de Eduardinho, os três garotos se assustaram com um “macaco de aspecto tenebroso". Ao clamarem desesperados pela Mãe Santíssima, logo perceberam uma luz forte descendo do céu.

Na época com 8 anos, o bombeiro hidráulico aposentado Eduardo Vasconcelos lembra-se bem daquele dia. “Vimos descendo do céu uma nuvem branca brilhante, que foi parar sobre um cupinzeiro na mata. Apareceu Nossa Senhora, toda bonita, como se fosse um raio de luz. Ficamos assustados e fomos procurar o padre José Netto”, conta.

A notícia se espalhou rapidamente pela cidade e a Vila Mozart passou a ter um intenso movimento de curiosos e fiéis em busca das bênçãos da Virgem Maria. As pessoas foram abrindo caminho na mata para facilitar o acesso ao cupinzeiro e o local da aparição foi se transformando. Eduardinho, Totõe e José Rita continuaram a visitar o local por vários meses, e as aparições continuaram. Outros videntes surgiram, e a história foi ganhando força. De boca em boca, o fato extraordinário ganhou até mesmo as páginas de jornais da capital mineira, o que fez atrair fiéis e curiosos para o local durante muito tempo.

Sempre mantendo muita discrição sobre o acontecido, Eduardo Vasconcelos descreve com clareza a figura de Nossa Senhora: “Ela tinha a pele morena clara, cabelos pretos compridos caídos sobre os ombros, mãos e dedos compridos. Seu vestido era branco e brilhante e, sobre ele, havia um manto azul. Ela não usava véu. Na mão direita, sobre o peito, carregava um terço com contas que pareciam diamantes. Na mão esquerda, tinha uma flâmula branca em formato de triângulo”. Sua última visão da santa foi aos 18 anos.

Naquele tempo, sem acreditar muito no burburinho que acontecia na cidade, um farmacêutico de nome Ovídio Alves de Souza começou a fazer visitas ao local da aparição por curiosidade. No dia 2 de agosto de 1955, durante uma de suas visitas à gruta, surgiu em seu pensamento as palavras: “ó Virgem Maria Santíssima, em honra e glória ao Divino Espírito Santo, concedei-me uma graça. Fazei com que eu note a vossa presença, não só para aumentar a minha fé, mas também para a conversão dos que não creem”.

Poucos segundos depois de repetir algumas vezes a prece, para memorizá-la, ele vê a Virgem Maria ao lado do cupinzeiro. Achando que poderia ser uma ilusão de ótica, o farmacêutico mudou de posição diversas vezes, contudo continuou a ver-  estupefato- aquela figura feminina radiante como o sol.

 Ele, que chegou a considerar exagerada a reação das pessoas, acabou se tornando um dos mais importantes videntes das aparições em Itaúna. Portou-se como os outros; com delicada discrição – fato que marca muito toda essa história- e em contato constante com o padre José Ferreira Netto, então o pároco da Paróquia de Sant'Ana. Nos meses seguintes Ovídio seguiu visitando o local e tendo diversas visões. A última visão de Nossa Senhora que teve foi em 15 de agosto de 1961.

 Ovídio Alves de Souza – o farmacêutico - registrou toda a experiência em um diário. Em 27 de novembro de 1955, ele descreveu mais uma aparição, detalhando pela primeira vez a mensagem escrita na flâmula que Nossa Senhora trazia: “JESUS CHRISTO, ETERNO DEUS. O PAGANISMO AMEAÇA O MUNDO. ERGUEI O ALTAR, ORAI COM FÉ E VÓS VEREIS O MILAGRE DA CONVERSÃO”.

A atuação do farmacêutico nessa história não ficou restrita apenas a ter as visões, registrá-las e manter-se, até o fim da vida, frequentador assíduo do local. Ele ajudou a população e a Igreja a levantar o dinheiro para a aquisição do lote e construção e preservação da gruta.

As obras da Gruta de Nossa Senhora de Itaúna começaram em 1956, sendo concluídas no ano seguinte. Em 1958, foi entronizada no altar construído no mesmo local do cupinzeiro a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, e missas começaram a ser celebradas.

 “Quando das aparições, nosso padre era muito pragmático. Ele seguiu tudo de perto, mas pediu cautela e que não se explorasse comercialmente o acontecido”, recorda a Escritora Maria Lúcia Mendes, que publicou recentemente uma obra sobre o assunto. Todos os párocos que sucederam o venerando Cônego José Ferreira Netto, seguiram o seu exemplo pastoral. Um deles, hoje bispo auxiliar de Curitiba, Dom Francisco Cota, explicou o seu raciocínio: “Ainda é uma aclamação popular e respeitamos a fé do povo. ”

Já no ano de 2001, Dom José Belvino do Nascimento – de feliz e saudosa memória- então bispo de Divinópolis, deu autorização para a reprodução da imagem de Nossa Senhora de Itaúna – conforme descrita pelos videntes- mas a aparição e a imagem ainda não foram reconhecidas pela Santa Sé, mesmo preenchendo os requisitos necessários e se desenvolvendo de maneira muito espontânea”, explicou nosso então bispo diocesano.

Nossa Senhora pediu em sua mensagem:  ‘erguei o altar’; e construíram a gruta. Recomendou: ‘orai com fé’ e anos depois de tanta devoção, surgiu o grupo “Filhos de Maria”. E concluiu Maria Santíssima: “e vós vereis o milagre da conversão’. Penso que o terço dos homens é o cumprimento dessa profecia. Toda quarta-feira, às 20h, a Gruta de Nossa Senhora de Itaúna recebe o primeiro e um dos maiores grupos do terço dos homens do país.

A Gruta de Nossa Senhora de Itaúna – um oásis de Fé e de Esperança- no coração da cidade, continua aberta, a atrair as pessoas para o aconchego do colo da Mãe, entre o frescor das árvores, como um novo Éden, aonde Deus passeia no meio dos homens.

 SALVE MARIA!


Texto: Prof. Luiz MASCARENHAS
Arte: Avimar Meneses 
Organização e Arte: Charles Aquino