A Secretaria de Estado de
Educação de Minas Gerais (SEE/MG) marcou presença no lançamento do projeto
Educação, Justiça e Arte, realizado nesta terça-feira (16/4) pelo Ministério
Público de Minas Gerais (MPMG). O objetivo do projeto é utilizar expressões artísticas
e culturais para abordar questões sensíveis e contemporâneas relacionadas ao
direito à educação de qualidade para crianças e jovens.
A iniciativa, que acontecerá de
abril a novembro deste ano, reúne promotores de Justiça do MPMG, cartunistas de
diversas regiões do país e membros da comunidade escolar de Minas Gerais em uma
série de atividades educativas e culturais.
Promovido pelo Centro de Apoio
Operacional às Promotorias de Defesa da Educação (Caoeduc), em colaboração com
o Observatório de Comunicação (Lei.A) e a Cartuminas, o projeto conta com a
parceria da SEE/MG. A curadoria artística está a cargo de Eduardo Evangelista,
conhecido como Duke, chargista, cartunista e ilustrador.
O secretário de Estado de
Educação, Igor de Alvarenga, presente na solenidade, ressaltou a importância da
linguagem artística, como charges e desenhos, para permitir que os estudantes
expressem suas ideias de forma mais acessível. “A linguagem, por meio de
charges, desenhos, traz uma sensibilidade, uma leveza, para que o estudante
possa expressar, de fato, aquilo que ele às vezes tem dificuldade de falar ou
escrever. É importante que essa forma de comunicação esteja presente ainda mais
nas escolas”, afirmou.
O projeto “Educação, Justiça e
Arte” foi concebido para aproximar a população do trabalho do Ministério
Público e ampliar o entendimento sobre os direitos coletivos, especialmente o
direito à Educação.
A coordenadora do Caoeduc e
promotora de Justiça, Ana Carolina Zambom, destacou o papel do Ministério
Público como defensor da sociedade e explicou a importância de tornar sua
atuação compreensível para todos, especialmente crianças, adolescentes e jovens.
“Como você fala para alguém sobre os seus direitos, se você não se faz
entender? Isso se acentua quando estamos falando com crianças, adolescentes e
jovens. Então, a nossa busca é encontrar meios de aproximar a sociedade do
trabalho do Ministério Público”, ressaltou.
Fonte e imagem: https://www.educacao.mg.gov.br/mpmg-lanca-projeto-artistico-e-cultural-educacao-justica-e-arte-com-a-participacao-da-secretaria-de-educacao/
Os cemitérios destacam-se entre os locais onde a história realmente ganha vida. Na narrativa histórica de uma cidade, existem determinados lugares que desempenham o papel de testemunhas silenciosas e guardiões de registros passados, encapsulando memórias e narrativas daqueles que outrora habitaram os seus espaços.
Os cemitérios servem não apenas como locais de descanso definitivos, mas também como repositórios inestimáveis de legado histórico. Nestes espaços sagrados, as histórias do passado são ressuscitadas através da presença de monumentos, lápides, placas e gravuras.
Estes lugares apresentam uma oportunidade incomparável de mergulhar no patrimônio material e imaterial que salvaguardam, proporcionando um vislumbre diversificado e cativante da tapeçaria rica em experiências humanas do nosso passado e da riqueza da nossa cultura.
Os cemitérios são um testemunho real de museus ao ar livre que demonstram tendências reais por meio de artefatos físicos neles presentes repletos de elementos arquitetônicos e artísticos que refletem estilos em evolução de diferentes períodos ao longo dos séculos.
Dentro do patrimônio arquitetônico e artístico da região, cada estrutura, seja um grande mausoléu exibindo opulência através de esculturas complexas ou uma humilde lápide marcando os séculos passados, narra silenciosamente a sua própria história.
No entanto, para além do patrimônio tangível, os cemitérios proporcionam uma visão daquilo que é conhecido como patrimônio imaterial: as histórias, tradições e memórias que pertencem aos lugares.
Cada lápide, cada nome registrado em uma placa, contém um vislumbre das vidas e dos legados daqueles que ali jazem, como uma cápsula do tempo.
As histórias não se concentram apenas em personalidades notáveis, mas também incluem registros de pessoas simples e eventos comuns que fizeram parte da comunidade ao longo do tempo, retratando aspectos comuns e extraordinários.
Além disso, as pessoas frequentam os cemitérios como locais de oração e reflexão sobre questões universais relacionadas com a morte, a perda ou o legado, o que proporciona uma experiência emocional ou filosófica que contribui com outra camada de valor cultural intangível para a compreensão ou apreciação mais profunda do nosso patrimônio cultural.
Este espaço não só nos leva de volta ao passado, mas também nos torna conscientes da importância de conservar e proteger a riqueza histórica dos nossos antepassados como membros de uma sociedade — rica ou pobre — ao mesmo tempo que nos convida a considerar a igualdade devido à mortalidade.
Na década de 1977, Itaúna sediou um concurso de literatura brasileira no cinema nacional, organizado pela
Embrafilme, Ministério da Educação e Diários Associados, reforçando seu status
de “Cidade Educativa”. No âmbito deste evento, o filme “O Seminarista” foi
exibido simultaneamente em diversas cidades. Em reconhecimento à importância
desta competição, foi concedido um total de Cr$ 18.000,00 (Dezoito mil
cruzeiros) em prêmios.
O processo de seleção consistiu na escolha das três melhores obras sobre o filme, inspiradas no romance de Bernardo Guimarães, que determinariam os vencedores deste concurso. Seriam atribuídos prémios em
dinheiro aos vencedores, com uma generosa quantia de dez mil para o primeiro
lugar, cinco mil para o segundo lugar e três mil para o terceiro lugar. A
prestigiosa cerimônia onde seriam entregues esses prêmios estava marcada para o
dia 21 de outubro, no renomado Palácio das Artes, em Belo Horizonte.
Para participar do concurso, os
participantes teriam que submeter um trabalho composto de uma a três páginas
oficiais. O trabalho deveria incluir um resumo e comentários opcionais
relacionados tanto ao filme quanto ao livro que inspirou sua trama. Podiam
concorrer estudantes do ensino médio ou superior com idade mínima de 16 anos.
As inscrições permaneceram abertas até o dia 7 de outubro. Os interessados poderiam
enviar a carta de inscrição para a Embrafilme, na Avenida dos Andradas número
377, em Belo Horizonte, ou para o Cine Rex, em Itaúna. O filme foi exibido
simultaneamente em Itaúna e Belo Horizonte, estreando em 12 de outubro de 1977.
Referência:
Pesquisa: Charles
Aquino
Fonte Impressa:
Acervo da Hemeroteca Digital Brasileira
O Processo, Conselheiro
Lafaiete, 2ª quinzena de junho de 1977, nº82, p.2
A função do
historiador envolve o estudo dos acontecimentos históricos por meio do exame de
fontes, utilizando um referencial teórico e metodológico. Além disso, os
historiadores têm a tarefa de examinar e decifrar estes acontecimentos,
abordando-os sempre de um ponto de vista crítico e considerando as suas
potenciais consequências no presente e no futuro.
Ao investigar os
anais da história, os historiadores escolhem cuidadosamente entre uma variedade
de fontes, incluindo documentos oficiais, manuscritos, fotografias, artefatos,
descobertas arqueológicas e relatos orais. Através da análise destes materiais
históricos, consideram o meio social, econômico e cultural da época em exame,
estabelecendo ligações com o conhecimento científico existente.
O objetivo deste
esforço é apresentar algumas reflexões sobre as responsabilidades dos
historiadores à luz do processo crescente de transformação da sociedade
contemporânea numa cultura orientada para o patrimônio. Para além das tarefas
convencionais dos historiadores na identificação e preservação de ativos
tangíveis e intangíveis, os seus esforços suscitam a contemplação de
preocupações éticas e políticas.
A tarefa de um
historiador é aprofundar e analisar eventos históricos. No entanto, é crucial
ter cautela e evitar cair na armadilha do anacronismo, um passo em falso ou
erro que é amplamente considerado inaceitável no campo da investigação
histórica. O anacronismo normalmente surge quando as perspectivas atuais são
impostas ao passado.
Quando os
historiadores examinam o passado, podem inadvertidamente introduzir o
anacronismo ao aplicarem as suas ideias atuais ao seu estudo. Isto leva a uma
interpretação do passado que se alinha com o pensamento atual, em vez da
mentalidade do período específico que está sendo estudado. O anacronismo também
prevalece na análise e discussão de certos termos ou conceitos. Por exemplo, a
compreensão de “direita” e “esquerda” durante a Guerra Fria não pode ser
diretamente aplicada ao seu significado nos dias de hoje. Apesar das limitações, as pesquisas desses acontecimentos históricos continuam a ser uma valiosa fonte de informações que pode melhorar substancialmente a nossa compreensão de ocorrências passadas.
No dia 17 de
agosto de 2020 ocorreu a sanção oficial da regulamentação da profissão de
historiador no Brasil com a promulgação da Lei nº 14.038. Esta lei serve para
reger e fiscalizar a prática dos historiadores profissionais no país.
É provável que Jesuína
Americana Brasileira e Silva, conceituada educadora, tenha iniciado sua
trajetória docente antes de 1885. Nesse mesmo ano, foi designada professora
interina da "cadeira feminina" do distrito de Itatiaiuçu, conseguindo
eventualmente a posição permanente. Em 1888, passou triunfalmente em concurso,
conquistando o estimado papel de “professora efetiva” em São João del-Rey. Em
1892, solicitou formalmente a transferência para Campos, zona rural de Santana
do Rio São João Acima. Posteriormente, em 1893, o presidente da Câmara
Municipal do Bonfim concedeu aprovação à nomeação de Custódia Dornas Lacerda
como substituta e dirigente da cadeira masculina de Instrução Primária de
Itatiaiuçu, durante o período sabático concedido a Jesuína, professora titular.
Em 1898, o governo do estado
registrou oficialmente um decreto prevendo um aumento salarial adicional de 5%
para Jesuína, professora da Fábrica da Cachoeira, também conhecida como Companhia de Tecidos Santanense, pertencente ao distrito de Santana do Rio São
João Acima, hoje Itaúna/MG. No ano seguinte, 1899, foi nomeada instrutora do
distrito de Mateus Leme, então sob jurisdição do município de Pará de Minas.
De 1909 a 1910, Jesuína atuou
como professora de “instrução primária da cadeira mista” localizada no distrito
de Itatiaiuçu, que pertencia ao município de Itaúna/MG. De 1911 a 1926,
continuou a carreira docente em “escolas isoladas” do distrito de São Sebastião
do Gil, vinculado ao município de Desterro de Entre Rios, Minas Gerais. Jesuína
faleceu em 1960 na capital mineira e foi sepultada na quadra 43, jazigo 183 do
cemitério do Bonfim. A educadora Jesuína Americana Brasileira e Silva deixou um
legado substancial na educação de seus descendentes e alunos.
O IMPACTO E
CONTRIBUIÇÕES DE JESUÍNA PARA EDUCAÇÃO
O impacto e a importância das
contribuições de Jesuína Americana Brasileira e Silva para a educação em Minas
Gerais justificam um exame minucioso para compreender plenamente a extensão de
sua influência e a importância que ela ocupa na história educacional da região.
Numa época em que o acesso à educação formal era escasso para as mulheres e
muito menos a oportunidade de se tornarem educadoras, Jesuína iniciou a sua
carreira.
Sua tenacidade e capacidade de
superar barreiras sociais e de gênero são evidentes em seu papel como
professora interina e mais tarde como professora permanente. A jornada docente
de Jesuína a levou a vários locais e ambientes educacionais, desde áreas rurais
como até áreas industriais. Esta diversidade de experiências
demonstra a sua adaptabilidade e compromisso inabalável em fornecer educação a
diversas populações, independentemente das circunstâncias locais.
A competência e dedicação de
Jesuína ao trabalho foram oficialmente reconhecidas pelo governo do estado, por
meio de aumento salarial. Este ato não só demonstra o cumprimento dos seus
deveres, mas também destaca o seu desempenho excepcional numa época em que os
recursos e o apreço pelos educadores eram escassos. A extraordinária
perseverança de Jesuína é evidente na sua extensa carreira de mais de quatro
décadas, à medida que continuou a dedicar-se ao ensino enquanto se adaptava a
uma variedade de instituições e circunstâncias. Este compromisso sublinha o seu
compromisso com a educação.
Numa profissão predominantemente
dominada por homens durante o século XIX e início do século XX, Jesuína emergiu
como uma mulher notável e que se destacou. Suas realizações servem de fonte de
inspiração para mulheres e abriram caminho para futuras gerações de educadores.
Através da sua dedicação à educação de crianças em diversas áreas, Jesuína
desempenhou um papel vital nas mudanças sociais da sua época. O conhecimento
que ela transmitiu não apenas transformou indivíduos em cidadãos mais
informados e capacitados, mas também contribuiu para o avanço das comunidades
que ela servia.
Ao longo de sua carreira, Jesuína
encontrou diversos obstáculos, incluindo recursos limitados e necessidade de
mudança. No entanto, a sua determinação face a estes desafios é uma parte
fundamental do seu legado duradouro, demonstrando que uma forte devoção à
educação pode triunfar sobre a adversidade. O comprometimento profissional e a
busca pela excelência de Jesuína servem de exemplo notável para os demais. O
profundo impacto do seu trabalho é evidente no respeito e reconhecimento que
conquistou durante a sua vida e depois dela.
Jesuína Americana Brasileira e
Silva ocupa inegavelmente um lugar significativo na história educacional de
Minas Gerais. Seu impacto vai muito além do mero número de alunos que ela
instruiu; reside na inspiração que ela inspira tanto nos educadores como nos
alunos, enfatizando o valor da dedicação à educação, da determinação face aos
desafios e da profunda capacidade do ensino para provocar a transformação. A
sua notável jornada e trajetória profissional servem como um testemunho
convincente da profunda influência que um educador dedicado pode ter na
sociedade, catalisando o progresso e promovendo o crescimento através do poder
da educação.
Dia 25 de março — "Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Comércio Transatlântico de Escravos" é reconhecido pelas Nações Unidas. Esta data significativa serve como um lembrete dos esforços globais em curso para erradicar as injustiças enraizadas no comércio de escravos. Enfatiza também o papel crucial da educação no reconhecimento do profundo impacto deste acontecimento histórico na nossa sociedade moderna e na abordagem das suas consequências duradouras. Ao longo da história, mais de 15 milhões de indivíduos, incluindo homens, mulheres e crianças, foram transportados à força através do Atlântico.
Numa mensagem de vídeo, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, enfatizou a importância de honrar a memória dos milhões de indivíduos afrodescendentes que suportaram as atrocidades da escravatura e do comércio transatlântico de escravos. Salientou ainda que este comércio estabeleceu e perpetuou um sistema mundial de exploração que persistiu durante mais de quatro séculos, devastando profundamente famílias, comunidades e economias.
Ao refletir sobre a resiliência daqueles que sofreram sob a crueldade dos traficantes e proprietários de escravos, Guterres reconhece as contribuições significativas feitas pelos indivíduos escravizados para a cultura, o conhecimento e as economias dos países para os quais foram transportados à força. Embora o comércio transatlântico de escravos tenha terminado há mais de dois séculos, o chefe da ONU reconhece que as ideologias prejudiciais da supremacia branca que o alimentaram ainda persistem hoje.
Guterres sublinha a necessidade urgente de desmantelar as consequências duradouras da escravatura e do comércio transatlântico de escravos, combatendo ativamente o racismo, a injustiça e as desigualdades, e promovendo comunidades e economias inclusivas que proporcionem oportunidades iguais para todos viverem em paz e dignidade.
Secretário-geral da ONU, António Guterres
"Os compartimentos de um navio negreiro. Gravura publicada em 1830 no livro Notices of Brazil in 1828 and 1829, de R. Washl. Domínio público, Arquivo Nacional – Ministério da Justiça".
Todos os anos, no dia 21 de março, é (re)lembrado o Dia Internacional da Luta pela Eliminação da Discriminação Racial. A Organização das Nações Unidas (ONU) escolheu esta data em memória das manifestações contra a Lei do Passe na África do Sul. Foi neste dia de 1960 que eclodiram os protestos contra a lei que impunha restrições à circulação da população negra. Infelizmente, estes protestos foram recebidos com força brutal por parte do exército sul-africano, resultando no trágico “massacre de Sharpeville”, onde 69 pessoas perderam a vida e outras 186 ficaram feridas. Reconhecendo a importância deste evento, a ONU declarou oficialmente o dia 21 de março como um dia para aumentar a conscientização sobre a discriminação racial em 1966.
Como cidadão itaunense e descendente de herança afro-brasileira, senti-me obrigado a sair da zona de estudos e expressar publicamente minha preocupação e indignação. Acredito que a frase acima não confrontou apenas a narrativa histórica do município de Itaúna, mas também a ancestralidade de seus habitantes, que inclui a escravização de minha trisavó paterna, o nascimento da minha bisavó após a promulgação da Lei do Ventre Livre, e o eventual nascimento de meu avô, que só conseguiu o direito ao registro oficial de nascimento aos 25 anos em 1937, que posteriormente fixaram residência em Itaúna, local de descanso final de uma jornada marcante, deixando um valioso legado para seus descendentes — o direito à educação.
Ao realizar pesquisas rotineiras para elaboração de meus trabalhos, me deparei com um texto complexo em todos os sentidos que está disponível no site da Prefeitura de Itaúna/MG. Assim, a narrativa histórica se apresentou confusa dificultando uma compreensão mais precisa. Após uma segunda leitura minuciosa, finalmente comecei a entender que o texto se tratava da “permuta de padroeiras” no município do século XIX. Mesmo tentando compreender a informação de que as “igrejas foram trocadas” naquela época, imagino que seria difícil transposição de duas construções, no entanto, dadas as informações de livros de história do município que registram esse acontecimento, percebi que seria uma troca de oragos, e não das edificações.
Portanto, seria aceitável considerar isso como um mero “deslize histórico”, podendo até ser enviada uma mensagem à Secretaria de Cultura e Turismo de Itaúna, pedindo a retificação do texto, cujo material apresentado, nem sequer tiveram a preocupação de fornecer as referências adequadas e necessárias. À medida em que realizava a leitura mais atenta do texto, descobri que as informações, em parte, eram meramente baseadas em “achismos”, ou seja, um texto totalmente abstrato e desconecto da história do município. Porém, o mais alarmante ainda estava por vir, pois neste texto trazia uma declaração de que os negros naquela época “roubavam” dentro da igreja do arraial de Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna. Eis aqui, parte do trecho retirado do texto que está disponível no site da prefeitura de Itaúna:
“As igrejas foram trocadas. O problema é que os padres queriam manter as padroeiras. Sant'ana, dos portugueses, agora era dos negros. Senhora do Rosário, dos negros, virou padroeira dos brancos. Os negros não aceitaram. Toda noite, entravam na Matriz e roubavam a Imagem de Nossa Senhora do Rosário e levavam para a nova Capela, no alto do Morro. Sendo lenda ou não, fato é que essa história inspirou a festa mais tradicional da cidade: o Reinado.”
Como mencionado no texto acima, sendo lenda ou não, se registrou que os pretos que faziam parte da comunidade de Itaúna eram ladrões. Neste momento ficou evidente que os (in)responsáveis desta informação, estavam totalmente equivocados. Este incidente representa, no meu ponto de vista, uma violação e rompimento significativo do limite histórico, cultural e ético em toda a história do município, minando as extensas pesquisas e documentações registradas por historiadores e pesquisadores ao longo dos anos. Vale ressaltar que no censo inicial realizado em 1831, aproximadamente 70% da população do arraial de Santana (hoje Itaúna) era de herança afrodescendente.
Até o momento presente, não encontrei nenhum registro ou declaração de qualquer historiador ou publicação que indique ou declare que os pretos naquela época, tenham praticado roubos à paróquia de Santana de Itaúna. Ao analisar cuidadosamente essa “barbárie histórica”, expresso a minha mais profunda frustação e a minha preocupação com a gestão e divulgação da história do nosso município. É provável que muitos indivíduos que pesquisaram a história de Itaúna, neste período em que continua disponível essa matéria no site da Prefeitura, tenham encontrado essas informações, que supostamente seriam de “utilidade pública”, principalmente para a comunidade itaunense. No entanto, este não é o caso.
É imprescindível que essas informações sejam prontamente corrigidas. Proponho que os textos sejam referenciados de forma completa e correta. Além disso, recomendo expressar um sincero pedido de perdão por esta violação histórica da memória dos ancestrais e descendentes afro-brasileiros da comunidade itaunense, que são bens culturais inestimáveis, tangíveis e intangíveis, transmitidos através de gerações. Neste sentido, invoco as palavras do artista Belchior e peço permissão para incorporar duas palavras em sua canção “Roupa Velha Colorida”: No presente a mente, o corpo é diferente, e o passado de “insultos e acusações” é uma roupa que não nos serve mais... precisamos rejuvenescer!” Só assim, acredito que terei tranquilidade para retornar meus estudos e pesquisas, mas mantendo-me vigilante.
Nota: Ao apurar a postagem no site da Prefeitura hoje (11/03/2024), houve uma reformulação no texto, mas até o momento não foi registrada nenhuma nota referente à postagem antiga. Disponível em: Conjunto Arquitetônico do Morro do Rosário
Itaúna é feliz pela qualidade de
seus filhos. Entre estes avultam muitas mulheres notáveis. Elsa Nogueira
Gomide, filha de Péricles Gomide e de Eponina Gomide — família de artistas.
Gente de teatro, da imprensa e da literatura. Irmã do saudoso Piu da “Folha do
Oeste” e, também, do sempre lembrado e sempre atual Pancrácio Fidelis, cronista
imortal pela verve humorística. Soube relatar com espírito crítico, mas ameno
nosso passado, com seus aspectos humanos e pitorescos.
Elsa, normalista, educadora e corajosa,
superando na sua época preconceitos, sempre vitoriosa nos desafios que
enfrentou. No Grupo Escolar Dr. Augusto Gonçalves, com a professora Dona Didina
do Capitão Oscar, nunca ganhou menos do que a nota máxima. Terminou o primário
com distinção e medalha de ouro. Continuou com o mesmo sucesso na Escola Normal
sob competente direção do saudoso professor Anselmo Barreto.
Estagiária na arte de ensinar, depois
professora primária, nomeada com salários de ontem e de hoje, sempre pouco
condizentes com a importância do magistério, partiu para outras atividades.
Aprendeu o alfabeto Morse com o telegrafista Ernesto e conviveu, no mesmo
prédio com seu pai, o Lique, dublê de dentista e ator teatral, também agente do
correio. Foi normalista, através de concurso público, em 1940, telegrafista para
servir em Belo Horizonte. Jovem, solteira, enfrentou a capital, aos 22 anos,
numa época em que as moças viviam agarradas às barras das saias de suas severas
e exigentes mães.
Fez brilhante carreira como funcionária
pública, jamais apadrinhada por prestígio político de quem quer que seja. Nos
concursos públicos estava sempre nos primeiros lugares, assegurando-lhe
nomeação por sua capacidade e competência. Assim foi para o Rio de Janeiro como
escriturária, em pleno regime ditatorial, para servir na Diretoria do Pessoal
no Ministério da Educação e Saúde. Na capital federal, não perdeu tempo. Nas horas
vagas cursava línguas, fez estágio na Biblioteca Nacional.
Voltou para Belo Horizonte a
serviço do Setor Pessoal dos Correios. Viveu muitos anos na capital mineira.
Redemocratizado o país, no governo Dutra, enfrentou novo concurso do DASP em 1948,
tornando-se Oficial de Administração. Retornou ao Ministério de Educação, sua
casa de trabalho, ocupando vários cargos de confiança. Chefe de Seção, também
responsável pela fiscalização da vida escolar dos estabelecimentos federais de
todo país.
O Ministro Tarso Dutra precisou
de alguém de alto nível e de sua confiança pessoal, fora dos quadros políticos,
para exercer a função de Diretora do Departamento de Assuntos Universitários,
em momento difícil, em que pesavam acusações sobre a pouca transparência
naquele importante setor de ensino superior federal. Afastou os políticos e lá
colocou uma técnica de seu ministério. A escolhida foi nossa ilustre e distinta
conterrânea Elsa Gomide, que lá deveria ficar uns dois meses, até que crise
fosse superada. Durante quase um ano e meio o cargo ficou em suas mãos competentes
e limpas. Neste período tornou-se a madrinha da Universidade de Itaúna. Ela
abriu as portas do Ministério para a nascente universidade — considerada até
então como clandestina pelo Egrégio Conselho Federal de Educação — criada pelo
Conselho Estadual, à revelia do Conselho Federal.
Deixando o cargo de Diretora do
DAU, Elsa continuou como assessora de seu substituto, o ilustre Professor Edson
Machado de Sousa, de quem me tornei amigo, por influência dela, à época em que fiz
parte da Diretoria da Associação dos Estabelecimentos de Ensino Superior de
Minas Gerais. Naqueles tempos duros e difíceis em que a Universidade vivia sua
pobreza franciscana, Elsa, em 1969, concedeu-nos a primeira verba federal, Cr$ 101.000,00(cento
e um mil cruzeiros) — valor da época. Desde então, a Universidade, ao longo de dez
anos, foi aquinhoada com as verbas federais. Nos anos de 1970 e 1971 recebemos,
respectivamente, Cr$ 154.745,70 e Cr$ 323.155,00, graças a sua intervenção e
prestígio.
Elsa aposentou-se em 1970, mas
tamanha sua capacidade técnica e administrativa, continuou servindo,
reconvocada pelos ministros que se sucederam. Tornou-se secretária particular
da Ministra Ester de Figueiredo Ferraz. Com o término do mandato da ministra,
Elsa foi requisitada para servir como assessora do Conselho Federal de
Educação. Graças à sua influência, sempre olhando com carinho e boa vontade aos
nossos apelos, essa generosa e notável servidora pública, com honestidade e incomum
senso patriótico, tudo fez para que recebêssemos os seguintes valores do
Governo Federal — 1973 (600 mil cruzeiros), 1974 (600 mil cruzeiros), 1975 (700
mil cruzeiros), 1976 (400 mil cruzeiros), 1977 (500 mil cruzeiros) e 1978 (700
mil cruzeiros).
Elsa aposentou-se em 1988. Foi a
itaunense que mais ajudou a Universidade de Itaúna em momentos difíceis. Criada
pelo Governador Magalhães Pinto, através de seu representante para os atos
consultivos, Dr. Miguel Augusto Gonçalves de Souza, a Fundação recebeu do
Estado um papel, apólice da dívida pública, sem correção monetária, que poucos
anos depois nada valia. Seu patrimônio ficou reduzido a zero. Graças aos nossos
esforços perante o poder público municipal e ajuda dos Governadores Aureliano
Chaves e Francelino Pereira na área estadual, conseguimos recriar seu
patrimônio — porque fundação não existe sem patrimônio. Recursos financeiros
nós só tínhamos os provenientes das anuidades dos alunos e das verbas
conseguidas pela cidadã itaunense Elsa Nogueira Gomide. A ajuda financeira que
recebíamos de empresas e da Prefeitura transformávamos em bolsas de estudo para
operários e alunos carentes.
É enorme a dívida de gratidão dos
itaunenses gratos e reconhecidos para com esta notável cidadã, humilde e
simples, que nasceu para servir sem jamais desejar ser servida.