O desejo de
emancipação do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, hoje, município de
Itaúna, Minas Gerais, percorreu um longo e árduo caminho, marcado por diversas
tentativas ao longo dos anos, que culminaram em seu sucesso no início do século
XX. A trajetória rumo à emancipação municipal pode ser dividida em diversos
marcos significativos ao longo das décadas, com destaque para os anos de 1856,
1874, 1877, 1879, 1890, 1901 e 1902.
1856
— Primeiras Sementes do Desejo de Emancipação:Neste ano surgiram as
primeiras discussões sobre a necessidade de emancipação do distrito de Sant’Ana
do São João Acima, que então pertencia ao município de Pará de Minas. Esse
período foi caracterizado pelo início das articulações políticas locais, onde
lideranças começaram a reconhecer a importância de se ter uma administração
própria para atender às demandas crescentes da região. Contudo, a falta de
estrutura política e a pouca influência dos líderes locais na política
provincial impediram que os esforços resultassem em sucesso imediato.
1874
— Reforço no Movimento Emancipacionista: Neste período, novas movimentações
foram feitas para impulsionar a emancipação. O crescimento econômico da região,
com a agricultura e a pecuária se expandindo, criou um cenário propício para a
renovação das tentativas de separação. Porém, mais uma vez, as barreiras
políticas e a resistência de figuras influentes no município de Pará de Minas
frustraram os esforços dos emancipacionistas.
1877
— Persistência nas tentativas:A
perseverança das lideranças locais foi novamente testada em 1877, quando se
intensificaram os movimentos políticos em prol da emancipação. Nessa época,
figuras influentes do arraial de Santana começaram a se destacar na luta,
promovendo reuniões e debates entre os habitantes locais. Apesar das
dificuldades, a mobilização popular cresceu, plantando as bases para as futuras
tentativas.
1879 —
Avanços Políticos: Dois anos depois, as discussões sobre a emancipação
ganharam mais força. As dificuldades vividas pela população local, que
enfrentava longas distâncias para resolver questões administrativas em Pará de
Minas, tornaram a emancipação um clamor popular. A pressão exercida pelos
moradores e líderes locais, intensificou-se, ainda que os resultados práticos
só fossem aparecer anos depois.
1890 — Ventos
Republicanos: Ainda em 1890,
aproveitando os "ventos republicanos", os líderes de Sant’Ana do Rio
São João Acima intensificaram seus esforços pela emancipação do município. Antes
mesmo da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o arraial de
Sant’Ana já demonstrava um forte alinhamento com os ideais republicanos. Um
marco desse pioneirismo foi a fundação do Clube Republicano 21 de Abril, em
1889, sendo um dos primeiros movimentos republicanos em Minas Gerais. Liderado
por figuras proeminentes da região, o clube foi fundamental para mobilizar a
população em torno das ideias republicanas. No entanto, a instabilidade
política do novo regime dificultou a aprovação das demandas locais, tornando o
processo mais desafiador do que o esperado.
1902
— Consolidação da Emancipação: Em 2 de janeiro de 1902, a emancipação de
Itaúna foi consolidada com a instalação da Câmara Municipal. A nomeação do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira como o primeiro prefeito marcou o início da
administração municipal própria, estabelecendo as bases políticas e
administrativas do novo município. Seu papel foi fundamental não apenas na
gestão inicial, mas também no fortalecimento das bases, contribuindo significativamente
para o desenvolvimento do município.
Longa Jornada:
A história da emancipação de Itaúna é marcada por uma longa jornada de
pertencimento a diferentes municípios, refletindo as transformações políticas e
administrativas que moldaram a região ao longo de décadas. Antes de alcançar
sua autonomia, a área que hoje compreende o município de Itaúna passou por
várias mudanças de jurisdição, pertencendo a diferentes municípios em momentos
distintos: Sabará: 1711, Pitangui: 1715, Bonfim: 1847, Pará de Minas: 1848, Pitangui: 1850,
Pará de Minas: 1858, Pitangui: 1872, Pará de Minas: 1874 e finalmente, em 1901,
Itaúna se tornou um município autônomo.
Inicialmente, em
1711, a área fazia parte do município de Sabará, um dos primeiros centros
administrativos da Capitania de Minas Gerais. Poucos anos depois, em 1715,
Itaúna foi incorporada ao vasto território de Pitangui, que na época era um dos
principais núcleos urbanos da região. Pitangui manteve sua influência sobre a
área até a metade do século XIX.
Em 3 de abril de 1847, por meio da Lei nº 334, a Paróquia de Santana de São João Acima foi incorporada ao Município de Bonfim. Com o passar do tempo e o desenvolvimento
econômico da região, a necessidade de uma administração mais próxima se fez
sentir, em 1848, Itaúna foi desmembrada e passou a pertencer a
Pará de Minas. Este vínculo durou por alguns anos, mas em 1850, o território de
Itaúna voltou a ser parte de Pitangui, refletindo as mudanças nas delimitações
municipais que ocorriam na época.
Novamente, em
1858, Itaúna foi incorporada ao município de Pará de Minas, onde permaneceu até
1872, quando mais uma vez voltou a integrar Pitangui. Essas constantes mudanças
de jurisdição foram um reflexo das complexas dinâmicas políticas e econômicas
que caracterizavam a região naquele período. Finalmente, em 1874, Itaúna foi
novamente colocada sob a administração de Pará de Minas.
Já em 1901, após
sua emancipação pela Lei nº 319, a vila de Itaúna começou a se consolidar como um importante
centro regional. O progresso da vila foi reconhecido pelo governo do Estado de
Minas Gerais, e esse reconhecimento foi oficializado pela Lei nº 663, de 18 de
setembro de 1915, que alterou a divisão judiciária do estado e conferiu à vila
de Itaúna o status de cidade. Em 24 de janeiro de 1925, pela Lei nº 879, Itaúna
foi elevada à categoria de comarca.
Esse processo de
evolução administrativa reflete o crescimento e a importância que o município
adquiriu ao longo do tempo, impulsionado pelo desejo de suas lideranças e pela
perseverança de seu povo em alcançar autonomia e desenvolvimento. A elevação do
antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, à condição de
cidade e comarca marcou o início de uma nova era, consolidando o município como
um polo regional de progresso e prosperidade.
SOUZA, Miguel
Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, p.
MINAS GERAIS. Tribunal de Justiça. Memória do Judiciário Mineiro. Comarcas de Minas. Organizadores: Desembargador Lúcio Urbano Silva Martins e Rosane Vianna Soares. Coordenação: Andréa Vanessa da Costa Val. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 2016. v. I, p. 576-578.
O poema
"Canção para Itaúna", de Maria Lúcia Mendes, é uma expressão clara do
amor profundo que a poeta nutre por sua terra natal, Itaúna, celebrando suas
paisagens, história e cultura.
Através de versos que evocam imagens como
"terra dos quintais maduros" e "crepúsculo no Bonfim",
Maria Lúcia nos transporta para uma Itaúna rica em memórias e significados.
As
referências ao Rosário e ao Bonfim revelam uma conexão espiritual com a cidade,
onde o sagrado e o cotidiano se entrelaçam.
No verso "A
seiva minando do chão bruto", a poeta sugere a força e a riqueza de
Itaúna, tanto em termos naturais quanto humanos. O minério e os teares
simbolizam o trabalho e a história industrial da cidade, enquanto o "riso
e suor" remetem ao esforço coletivo de seus habitantes ao longo do tempo.
Ao
declarar "amo tuas virtudes, teus pecados", Maria Lúcia nos mostra
uma relação sincera e completa com Itaúna, reconhecendo tanto os aspectos
positivos quanto os desafios da cidade.
O poema culmina
com a afirmação "Sou tua filha, a pedra negra eu beijo", uma metáfora
poderosa que remete às raízes históricas de Itaúna, antigamente conhecida como
Santana do Rio São João Acima, associada à famosa "Pedra Negra".
Esse
poema, apresentado como uma homenagem em comemoração à emancipação de Itaúna em
16 de setembro, nos
brinda, assim, com uma celebração poética que reforça o orgulho e a ligação
afetiva com a cidade.
CANÇÃO PARA
ITAÚNA
Eu te amo, terra
dos quintais maduros
Do Rosário na
laje, onde pastam sonhos ...
Crepúsculo no
Bonfim, como não vê-los ?
A seiva minando
do chão bruto
É minério que
engendras, são teares
Riso e suor no
tempo emoldurados.
A tempo de viçar
toa uma história
Terra que se
soprou ventos viários
Fome, razão,
cicatriz, desejo
Amo tuas
virtudes, teus pecados
Sou tua filha, a
pedra negra eu beijo.
Prepare-se para uma viagem emocionante no tempo e no coração! Agora, essa experiência está disponível também em vídeo! Não perca essa oportunidade imperdível de celebrar a essência de Itaúna de uma forma única e tocante. Venha viver essa poesia com a gente!"
Poema: Escritora
Maria Lúcia Mendes
Organização e
arte: Charles Aquino.
Santana do Rio
São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais: Pedra Negra.
A obra do historiador itaunense João
Dornas Filho oferece um retrato incisivo dos conflitos ideológicos que marcaram
o Brasil em 1831, particularmente no contexto da abdicação de D. Pedro I.
Através do diálogo entre o “Corcunda” e o “Patriota”, o autor consegue explorar
temas profundos como o embate entre tradição e modernidade, a hipocrisia
política e religiosa, e a divisão interna entre os brasileiros. O uso de uma
linguagem popular em forma de versos reforça a crítica social, tornando o texto
um importante documento histórico e literário, que ajuda a entender as
complexidades do período pós-independência no Brasil.
A análise do
texto "A Abdicação e a Musa Popular em 1831", de João Dornas Filho,
revela uma rica crítica social e política do Brasil no contexto da abdicação de
D. Pedro I, “após o 7 de abril”. A obra utiliza uma forma popular, o diálogo em
versos entre dois personagens — o “Corcunda” e o “Patriota” —, representando
facções opostas da época: os “corcundas”, que defendiam o retorno do imperador,
e os “patriotas”, que lutavam pela independência e pela formação de uma
república.
O texto está
inserido em um período de instabilidade política no Brasil, onde dois partidos
principais surgem com visões antagônicas sobre o futuro do país. De um lado, os
“corcundas”, nome pejorativo dado aos defensores da monarquia e da volta de D.
Pedro I, e de outro, os “patriotas”, que defendiam a continuidade da
independência e o afastamento da figura imperial. A luta ideológica desses dois
grupos é retratada de forma alegórica, com um “Corcunda” e um “Patriota”
debatendo sobre os valores que acreditam ser corretos para a nação.
O “Corcunda”
representa a defesa do status quo, com uma visão conservadora e
centralizadora, muitas vezes associada ao despotismo. Ele se mostra fiel a um
ideal de monarquia como instituição sacralizada e vinculada ao direito divino,
como se observa na referência ao rei Davi, comparando D. Pedro I a uma “figura
ungida por Deus”. Ao longo do diálogo, ele usa a tradição e a fé como
argumentos para justificar a necessidade de um governo monárquico forte,
resistente às mudanças propostas pelos patriotas.
O “Patriota”, por
sua vez, simboliza a contestação dessa ordem e a busca por novas soluções,
questionando o valor da monarquia e defendendo o progresso republicano. Ele
desdenha o romantismo de seu oponente, associando os "corcundas" a figuras
ultrapassadas e obsoletas, comparando o rei Davi a um "pobre coitado"
e criticando o que considera ser uma era de tiranos.
Dornas Filho usa
a “musa popular” para refletir a opinião pública da época. Ao recorrer a versos
e formas de expressão acessíveis, ele traz para o texto a voz do povo, que, de
maneira crítica, usava essas representações para satirizar a situação política
do país. Esse recurso literário é valioso, pois preserva as nuances das
opiniões populares, muitas vezes marginalizadas pela história oficial. A
utilização de um formato popular torna o texto mais próximo das práticas
culturais de resistência e debate que aconteciam fora dos círculos do poder.
Dornas ressalta a
definição de “Corcunda” da época, conforme descrita no dicionário “Carcundático”
ou na explicação das expressões dos “Carcundas” por José Joaquim Lopes de Lima,
de 1821, informando que: “Homem que, feito, e satisfeito com a carga do despotismo,
se curva, como o dromedário, para recebê-la; e trazendo esculpido no dorso o
indelével ferrete do servilismo, tem contraído o hábito de não erguer mais a
cabeça, recheada das estonteantes ideias de uma sórdida cobiça.”
Temas
Principais através do diálogo entre o “Corcunda” e o “Patriota”
O diálogo entre o
“Corcunda” e o “Patriota” reflete uma disputa entre a manutenção das estruturas
tradicionais e a busca por novas formas de governo. A argumentação do “Corcunda”
se baseia na preservação da ordem monárquica, enquanto o “Patriota” anseia por
uma transformação que rompa com os resquícios coloniais. Um tema recorrente é a
desunião entre os próprios brasileiros. O “Patriota” acusa o “Corcunda” dissipar e perseguir seus próprios compatriotas, com a metáfora de lobos
que devoram cordeiros. Isso ilustra a violência e a repressão que acompanhou os
conflitos internos do Brasil nesse período, refletindo as dificuldades de
consolidação da independência.
A religião é um
tema subjacente nas falas do “Corcunda”, que constantemente evoca Deus para
justificar suas posições. O “Patriota”, no entanto, desmascara a hipocrisia
dessas argumentações, associando-as à defesa de interesses egoístas. A
referência ao rei Davi é um exemplo dessa desconstrução: o “Patriota” lembra
que, embora ungido por Deus, era um simples pastor, questionando a idealização
da figura monárquica.
O diálogo também
revela as tensões sociais latentes no Brasil do século XIX, com o “Patriota”
denunciando a opressão exercida pelos poderosos sobre os mais fracos,
simbolizada na metáfora dos lobos. As menções a "carbonários" e
"pedreiros" por parte do “Corcunda” indicam uma crítica às forças
revolucionárias e republicanas que estavam ganhando força naquele período. Esse
texto é uma crítica expressa em tom sarcástico e satírico contra os movimentos
políticos e sociais que desafiaram a monarquia e a Igreja Católica em Portugal,
especialmente durante o período de D. João VI, rei de Portugal, que governou
durante um período tumultuado marcado por tensões entre monarquistas e
liberais.
O Movimentos
Liberais dos “pedreiros” e “carbonários” mencionados são referências aos maçons,
grupos secretos que eram vistos como subversivos pelos monarquistas e
católicos, pois defendiam ideias liberais e republicanas. O autor critica a
Constituição e a anarquia, associando-as à desordem e à falta de moralidade, em
contraste com a ordem e a religiosidade defendidas pelos monarquistas.
Os opositores são
retratados como inimigos da religião, que “não querem saber de missa” e “mofam
de tudo o que diz o novo Testamento”. Isso sugere que o autor vê os liberais
como anticristãos — descrença religiosa. Os “infames patriotas” são acusados de
desrespeitar a nobreza e as tradições, o que para o autor é um sinal de
decadência moral. O texto exalta a família real, particularmente D. João VI,
como “pio e santo”, e expressa a visão de que a monarquia foi instituída por
Deus para governar com justiça e piedade. O autor valoriza a nobreza de sangue
e de comportamento, criticando a falta de respeito que os “patriotas” têm por
essas tradições. No entanto, ao longo do texto, fica evidente que, apesar desse
reconhecimento, ele continua comprometido com a defesa de uma ordem antiga, com
medo das mudanças representadas pelos “patriotas”.
O texto utiliza
estereótipos para ridicularizar os liberais, pintando-os como ímpios,
desorganizados e inimigos da ordem social. O trecho, que fala sobre estar
“contente de ver tudo acabado”, sugere uma ironia amarga, possivelmente
expressando uma frustração pela situação política. O texto reflete o pensamento
conservador e monarquista da época, defendendo a tradição, a religiosidade, e a
hierarquia social, enquanto critica os movimentos liberais que ameaçavam essas
estruturas. É um exemplo da retórica polarizadora e do conflito ideológico que
marcou o período. O texto segue com ambos discutindo o estado político e social
do Brasil no período pós-abdicação de D. Pedro I, refletindo sobre traições,
revoltas e o destino do país.
A retórica
satírica e polarizadora revela o conflito ideológico da época. O “Patriota” usa
uma linguagem crítica e sarcástica para ridicularizar a monarquia e expor as
injustiças sociais, enquanto o “Corcunda” tenta justificar suas crenças com
argumentos religiosos, eventualmente se resignando diante das críticas.
Os textos de que
fazem parte esse diálogo refletem as tensões políticas e sociais do Brasil
pós-abdicação de D. Pedro I, marcadas pela disputa entre conservadores e
liberais. O uso de trocadilhos, rimas e figuras de linguagem sugere que esses
textos foram pensados para um público popular, talvez circulando em panfletos
ou discussões públicas, com o objetivo de difundir ideias e criticar o status
quo.
Esses diálogos,
ao incorporar personagens simbolicamente nomeados como “Patriota” e “Corcunda”,
personificam o embate entre os defensores da monarquia e os partidários de uma
sociedade mais igualitária. A crítica ao regime monárquico e à hierarquia social
é clara, e a narrativa expõe as injustiças e a opressão das classes mais
baixas.
O uso de figuras
bíblicas e metáforas religiosas pelos dois personagens reflete a importância da
religião nos debates políticos da época, e a linguagem acessível e popular
sugere um apelo direto ao público. Esses textos, marcados pela sátira e pela
crítica política, são testemunhos das lutas simbólicas que precederam as
mudanças sociais no Brasil do século XIX.
A
ABDICAÇÃO E A MUSA POPULAR EM 1831
CORCUNDA X PATRIOTA
Por
João Dornas Filho
“Logo após o 7
de abril, a política brasileira entrava em ebulição tumultuosa, devida ao
aparecimento de dois partidos que pugnavam, cada qual com mais calor e
veemência, pela vitória das suas ideias. Eram os “corcundas”, que se batiam
pela volta de D. Pedro I, e os “patriotas”, figadalmente adversários desta
solução, não repugnando alargar os seus princípios até à implantação da
república. Dessa época tormentosa da nossa história ficaram inúmeros documentos
em que aparece a “musa popular” criticando os homens e os fatos, como este
curioso diálogo entre dois adversários:”
CORCUNDA —
Deus lhe guarde, meu senhor.
PATRIOTA —
Venha com Deus, cavalheiro,
venha logo me
dizendo
se é
"corcunda" ou "brasileiro".
Vejo-lhe bem
divisado
na cabeça um
grande galho,
bem me parece
ser
da vazante o
espantalho.
CORCUNDA —
Sim, senhor, eu sou corcunda
e morro pelo meu
rei;
esta divisa que
trago
é da sua real
lei;
se o senhor é
patriota,
provisório
cidadão,
se fala contra o
meu rei,
é judeu, não é
cristão.
E com isto já me
vou,
não quero mais
esperar.
O senhor é
jacobino
pelo modo de
falar.
PATRIOTA —
Dê-me atenção, senhor,
não se faça
esforicido;
um homem
apaixonado
não dá prova de
entendido.
Eu conheço o seu
caráter,
não é de tolo e
vário,
mostra ser de um
pensante
ou de um
escriturário.
Faça-me a honra
apear,
venha me dar um
clarão;
só o senhor pode
dizer-me
o que é a
constituição,
e também da
independência
de D. Pedro
imperador:
tudo me explique
agora,
eu lhe peço por
favor.
CORCUNDA —
Se o senhor fala-me sério,
se não é
adulação,
eu lhe direi de
que consta
a nova
constituição.
PATRIOTA —
O senhor creia em mim,
muito sério lhe
falo;
eu sou um homem
néscio,
não sei onde
canta o galo.
CORCUNDA —
Estes malvados pedreiros,
carbonários da
nação,
que por serem
carvalhistas
detestam serem
cristãos,
nem querem ter
rei nem roque,
e menos
religião,
por isso
desprezaram
o nosso rei D.
João.
A lei deles é
anarquia
da tal
constituição,
cativando desumanos
sem ter quem lhes
vá à mão;
não querem saber
de missa,
menos do
sacramento,
mofam de tudo o
que diz
o novo
Testamento.
Veja, pois, por
que rigor
chamam a nós
marinheiros,
arrocham de pau e
peia,
morram todos ao
chumbeiro.
Uns homens nobres
em tudo,
no sangue e no
proceder,
de famílias ilustradas,
muitos deles veem
a ser
filhos de duques,
marqueses,
de condes e de
morgados.
Dos infames
patriotas
têm sido
desfeiteados...
Estas feras de
ora avante
só em si maldade
encerram,
desprezam o nosso
rei,
que Deus nos deu
na terra,
um homem pio e
santo,
um refúgio e
esperança,
o nosso D. João
Sexto,
filho da Real
Bragança.
Esta família ilustrada
que o mesmo Deus
destinou
pra seus filhos
governarem,
serem de nós supriu...
Mas agora estou
contente
de ver tudo
acabado,
uns mortos e
outros presos.
Adeus, tenha
saúde,
creia nisso que
lhe digo,
fuja dos
patriotas,
que são nossos
inimigos.
Já estão se
acabando
as malditas
rebeliões,
ficando só no
Brasil
a fé pura de
cristões.
PATRIOTA —
Tratemos da independência.
CORCUNDA —
Isso é um passo muito errante,
Dom Pedro no
Brasil
não pode ser
imperante.
PATRIOTA —
Porque? Ele não é Bragança?
CORCUNDA —
Se o rei ainda é vivo,
não pode haver
herança.
PATRIOTA — Já
não posso, seu corcunda,
suas loucuras
calar;
quer por gosto,
quer por força,
ouça-me agora a
falar.
Diga-me, homem
sem brio,
amante do
cativeiro,
somos terra,
somos gados
que D. Pedro seja
herdeiro?
Quando Deus
formou o mundo,
qual foi o rei
que deixou?
Não deixou só um
Adão
de todos
progenitor?
Deste mesmo Adão
não fez
Deus do céu por
seu mando
uma mulher para
ele
produzir o gênero
humano?
Desses pobres
camponeses
produziu todas
nações,
algum dia eles
tiveram
fidalguia ou
brasões?
Onde foi Bragança
haver
esse sangue
ilustrado?
Só se foi por
outro Adão
que por Deus não
foi deixado;
só dessa
descendência
de gentes que
Deus não fez
saiu toda a
jerarquia,
condes, duques e
marquês.
Abre os olhos,
homem tolo,
adora o Deus
verdadeiro,
aquele que por
nós morreu
como inocente
cordeiro.
Se um rei é tão
real,
como adular a D.
João,
é baixeza no
morrer
se formar em
podridão.
Ressuscitar aos
três dias
assim como
ressuscitou
o rei filho de
Maria.
CORCUNDA — Eu
já digo o rei Davi,
que o mesmo Deus
consagrou.
PATRIOTA —
Isto eu não duvido,
e também por isto
estou;
mas quem era o
rei Davi?
Era um pobre
coitado,
era um simples
pastorzinho
do rebanho do seu
gado.
Que é do nosso
rei Davi?
Agora só há
tiranos,
dissolutos,
incivis,
de vaidades
profanos.
CORCUNDA —
Já é tarde, vou andando,
tenha mão, seu
papagaio.
Você diz: cadê as
tropas
do coitado do
Pinheiro?
É certo que lá
andei,
e que dele sou
soldado...
PATRIOTA —
Perseguiste os teus patrícios
como lobos
defamados;
nas casas que
cercaste
também, forte
carniceiro,
ajudaste a tirar
vida, honra e
dinheiro;
ajudaste a matar
teus irmãos,
mansos cordeiros.
Que desgraça, seu
corcunda,
entre os mesmos
brasileiros!
Desprezar os seus
irmãos,
como lobos
carniceiros.
Esta injustiça,
seu corcunda,
reclamam os céus
inteiros...
CORCUNDA —
Meu amigo, estou certo
do quanto me tem
narrado,
já me pesa de ter
sido
dos meus irmãos o
malvado.
Roto o véu do
engano,
nova vida eu
terei,
constante
patriota serei;
podem contar
comigo:
— Defender a
nossa pátria
e morra o nosso
inimigo!
“Na Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro existem centenas de folhetos que guardam a vasta
produção de versos como estes, denunciadores do ardor das paixões que
crepitaram durante todo aquele movimentado decênio da nossa História”.
FILHO, João
Dornas: A abdicação e a musa popular em 1831 — CULTURA POLÍTICA — Revista
mensal de estudos brasileiros. - INVENTÁRIO - BN - Rio de Janeiro, Ano IV Nº
41- Junho de 1944 , p.155-159.
O mês de setembro
é marcado por duas celebrações que ecoam o espírito de orgulho e identidade,
tanto no âmbito nacional quanto municipal.
No dia 7 de setembro, comemoramos a
Independência do Brasil, um momento histórico que simboliza o nascimento de
nossa nação soberana. Já no dia 16 de setembro, é o aniversário da nossa
querida Itaúna, cidade mineira rica em história, cultura e símbolos. Estes dois eventos,
embora distintos, se entrelaçam na exaltação dos símbolos que nos representam e
nos definem como povo.
No contexto da
nação, o Dia da Independência serve como um momento para contemplar o
significado da liberdade e da autodeterminação. O ano de 1822 marcou a
proclamação da independência do Brasil por Dom Pedro I, libertando-nos do julgo
colonial e preparando o cenário para o surgimento de uma nação soberana. A
bandeira nacional, adornada com verde, amarelo, azul e branco, permanece como o
símbolo máximo deste marco, representando a unidade, prosperidade e aspirações
da população brasileira. Em Itaúna, esta bandeira tremula com vigor,
ressaltando nossa dedicação aos princípios democráticos que sustentam o país.
No âmbito municipal,
o aniversário de Itaúna é uma ocasião para celebrar a trajetória de uma cidade
que, ao longo dos anos, se destacou pela sua determinação e capacidade de
progresso. Os símbolos municipais – o brasão, a bandeira e o hino – são
expressões vivas dessa jornada histórica e cultural.
O Brasão de
Itaúna, instituído pela Lei nº 955 de 1969, é um emblema carregado de
significado. Suas cores vermelho e verde representam, respectivamente, o
minério de ferro e as matas que cercam a cidade. No centro do brasão, uma roda
de fiar destaca a importância da indústria têxtil, que foi pioneira no
desenvolvimento de Itaúna, enquanto as engrenagens simbolizam a força
industrial que impulsiona o município até os dias de hoje. Este brasão não
apenas rememora o passado glorioso de Itaúna, mas também reflete o espírito de
uma cidade que se reinventa constantemente, mantendo suas raízes firmemente
plantadas.
A Bandeira de
Itaúna, criada por Eponina Maria do Carmo Nogueira Gomide Soares e oficializada
em 1956, é outro símbolo de profundo orgulho para os itaunenses. Suas cores
verde e vermelho, dispostas em faixas diagonais sobre um fundo branco,
representam a ligação de Itaúna com o Brasil, bem como suas raízes históricas e
culturais. A bandeira é um lembrete visual da união e da força da comunidade
itaunense, que, ao longo de décadas, construiu uma cidade próspera e acolhedora.
O Hino de Itaúna
é uma ode ao espírito de luta e à fé que moldaram a cidade. Suas estrofes
celebram o esforço contínuo dos itaunenses em prol do crescimento e do
desenvolvimento. Com menções à padroeira Sant'Ana e ao progresso industrial, o
hino captura a essência de uma cidade que se orgulha de seu passado enquanto
olha com esperança para o futuro. Ao entoá-lo, os cidadãos reafirmam seu
compromisso com os valores que fizeram de Itaúna uma "comuna
brilhante", como diz o próprio hino.
Neste setembro,
ao comemorarmos tanto a independência do Brasil quanto o aniversário de Itaúna,
somos convidados a refletir sobre a importância desses símbolos que nos
identificam e nos unem. Eles são mais do que meros emblemas; são a
materialização da nossa história, dos nossos valores e da nossa identidade.
Celebrar esses marcos é também reafirmar nosso compromisso com o futuro,
inspirados pelos exemplos de coragem, trabalho e fé que nos foram legados. Que
estas celebrações sejam um momento de união, orgulho e reflexão, reafirmando
nosso amor por Itaúna e pelo Brasil!
A obra "O
Ouro das Gerais e a Civilização da Capitania" de João Dornas Filho explora
o impacto da mineração em Minas Gerais, defendendo que o ouro desempenhou um
papel central na formação da sociedade e da economia da região durante o
período colonial. Contrariando visões anteriores, como a de Oliveira Lima, que
minimizavam a importância econômica do ouro para a colônia, Dornas Filho
argumenta que o metal precioso gerou um excedente que possibilitou o
desenvolvimento de uma civilização sofisticada em Minas Gerais, além de
provocar significativas consequências políticas e sociais, como a transferência
da capital da colônia para o Rio de Janeiro.
A obra critica a
exploração colonial portuguesa, que canalizou os recursos do ouro para
sustentar extravagâncias reais e financiar a Revolução Industrial na
Inglaterra, em detrimento do desenvolvimento autônomo da colônia. Dornas Filho
também enfatiza o legado cultural deixado pela mineração, que, mesmo após o
esgotamento das jazidas, permitiu a continuidade de uma civilização rica em
cultura, com impactos nas artes e na educação.
Publicada em 1957
como parte da coleção "Brasiliana", a obra refuta teses anteriores,
especialmente as de Oliveira Lima, que minimizavam a importância econômica do
ouro de Minas Gerais. Dornas Filho sustenta que a exploração aurífera em Minas
Gerais foi um fenômeno crucial para a história brasileira, gerando um excedente
que, apesar dos tributos à Metrópole, proporcionou o desenvolvimento de uma
"civilização de altiplano", com impactos duradouros nas artes,
ciências e administração pública.
A sociedade
mineira, estruturada em torno da economia do ouro, criou uma classe de
"nouveaux riches" (novos ricos), promovendo urbanização e
industrialização em certas áreas, como a indústria pastoril, têxtil e
siderúrgica. Exemplos como o do Barão de Catas-Altas e Chica da Silva ilustram
as transformações sociais trazidas pelo ouro, evidenciando o contraste entre o
luxo dos ricos e as dificuldades da população em geral.
Dornas Filho
critica a canalização dos recursos auríferos para os delírios megalomaníacos de
D. João V, como a construção do Convento de Mafra, e o desvio desses recursos
para a Inglaterra, fomentando a Revolução Industrial. A obra também aborda as
políticas fiscais opressivas e a legislação colonial que impediram o
desenvolvimento econômico autônomo da colônia.
Além da análise
econômica, Dornas Filho aborda as consequências culturais e sociais da
mineração, descrevendo a formação de uma elite cultural em Minas Gerais. Apesar
do esgotamento das jazidas, essa elite preservou uma civilização vibrante, com
forte influência nas artes e na educação.
"O Ouro das
Gerais e a Civilização da Capitania" é uma obra fundamental para a
compreensão do papel da mineração na formação do Brasil colonial. João Dornas
Filho oferece uma visão crítica e bem fundamentada, desafiando interpretações
anteriores e destacando a importância econômica, social e cultural de Minas
Gerais durante o ciclo do ouro. Sua análise reavalia a história sob uma
perspectiva que valoriza o impacto duradouro da exploração aurífera na
identidade e na economia brasileira.
FILHO, João Dornas.O ouro das Gerais e a civilização da Capitania / João Dornas Filho ; tradução C. da Silva Costa. Publicação: São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1957. Biblioteca Pedagógica Brasileira: Brasiliana, Vol 293.
Organização, arte
e roteiro: Historiador Charles Aquino