quinta-feira, setembro 12, 2024

DESEJO DE EMANCIPAÇÃO

HISTÓRIA DA EMANCIPAÇÃO ITAÚNA MG
O desejo de emancipação do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, hoje, município de Itaúna, Minas Gerais, percorreu um longo e árduo caminho, marcado por diversas tentativas ao longo dos anos, que culminaram em seu sucesso no início do século XX. A trajetória rumo à emancipação municipal pode ser dividida em diversos marcos significativos ao longo das décadas, com destaque para os anos de 1856, 1874, 1877, 1879, 1890, 1901 e 1902.

1856 — Primeiras Sementes do Desejo de Emancipação: Neste ano surgiram as primeiras discussões sobre a necessidade de emancipação do distrito de Sant’Ana do São João Acima, que então pertencia ao município de Pará de Minas. Esse período foi caracterizado pelo início das articulações políticas locais, onde lideranças começaram a reconhecer a importância de se ter uma administração própria para atender às demandas crescentes da região. Contudo, a falta de estrutura política e a pouca influência dos líderes locais na política provincial impediram que os esforços resultassem em sucesso imediato.

1874 — Reforço no Movimento Emancipacionista: Neste período, novas movimentações foram feitas para impulsionar a emancipação. O crescimento econômico da região, com a agricultura e a pecuária se expandindo, criou um cenário propício para a renovação das tentativas de separação. Porém, mais uma vez, as barreiras políticas e a resistência de figuras influentes no município de Pará de Minas frustraram os esforços dos emancipacionistas.

1877 — Persistência nas tentativas:  A perseverança das lideranças locais foi novamente testada em 1877, quando se intensificaram os movimentos políticos em prol da emancipação. Nessa época, figuras influentes do arraial de Santana começaram a se destacar na luta, promovendo reuniões e debates entre os habitantes locais. Apesar das dificuldades, a mobilização popular cresceu, plantando as bases para as futuras tentativas.

1879 — Avanços Políticos: Dois anos depois, as discussões sobre a emancipação ganharam mais força. As dificuldades vividas pela população local, que enfrentava longas distâncias para resolver questões administrativas em Pará de Minas, tornaram a emancipação um clamor popular. A pressão exercida pelos moradores e líderes locais, intensificou-se, ainda que os resultados práticos só fossem aparecer anos depois.

1890 — Ventos Republicanos:  Ainda em 1890, aproveitando os "ventos republicanos", os líderes de Sant’Ana do Rio São João Acima intensificaram seus esforços pela emancipação do município. Antes mesmo da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o arraial de Sant’Ana já demonstrava um forte alinhamento com os ideais republicanos. Um marco desse pioneirismo foi a fundação do Clube Republicano 21 de Abril, em 1889, sendo um dos primeiros movimentos republicanos em Minas Gerais. Liderado por figuras proeminentes da região, o clube foi fundamental para mobilizar a população em torno das ideias republicanas. No entanto, a instabilidade política do novo regime dificultou a aprovação das demandas locais, tornando o processo mais desafiador do que o esperado.


1901 — Progresso e Conquista da Emancipação Política: Após décadas de tentativas frustradas, a tão esperada emancipação de Itaúna finalmente se concretizou em 16 de setembro de 1901. Nesse contexto, lideranças locais de destaque, como Josias Nogueira Machado, Major Senócrit Nogueira, Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira e Padre Antônio Maximiano de Campos, intensificaram seus esforços, conseguindo com sucesso a autonomia política da região.

1902 — Consolidação da Emancipação: Em 2 de janeiro de 1902, a emancipação de Itaúna foi consolidada com a instalação da Câmara Municipal. A nomeação do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira como o primeiro prefeito marcou o início da administração municipal própria, estabelecendo as bases políticas e administrativas do novo município. Seu papel foi fundamental não apenas na gestão inicial, mas também no fortalecimento das bases, contribuindo significativamente para o desenvolvimento do município.

Longa Jornada: A história da emancipação de Itaúna é marcada por uma longa jornada de pertencimento a diferentes municípios, refletindo as transformações políticas e administrativas que moldaram a região ao longo de décadas. Antes de alcançar sua autonomia, a área que hoje compreende o município de Itaúna passou por várias mudanças de jurisdição, pertencendo a diferentes municípios em momentos distintos: Sabará: 1711, Pitangui: 1715, Bonfim: 1847, Pará de Minas: 1848, Pitangui: 1850, Pará de Minas: 1858, Pitangui: 1872, Pará de Minas: 1874 e finalmente, em 1901, Itaúna se tornou um município autônomo.

Inicialmente, em 1711, a área fazia parte do município de Sabará, um dos primeiros centros administrativos da Capitania de Minas Gerais. Poucos anos depois, em 1715, Itaúna foi incorporada ao vasto território de Pitangui, que na época era um dos principais núcleos urbanos da região. Pitangui manteve sua influência sobre a área até a metade do século XIX. 

Em 3 de abril de 1847, por meio da Lei nº 334, a Paróquia de Santana de São João Acima foi incorporada ao Município de Bonfim. Com o passar do tempo e o desenvolvimento econômico da região, a necessidade de uma administração mais próxima se fez sentir, em 1848, Itaúna foi desmembrada e passou a pertencer a Pará de Minas. Este vínculo durou por alguns anos, mas em 1850, o território de Itaúna voltou a ser parte de Pitangui, refletindo as mudanças nas delimitações municipais que ocorriam na época.

Novamente, em 1858, Itaúna foi incorporada ao município de Pará de Minas, onde permaneceu até 1872, quando mais uma vez voltou a integrar Pitangui. Essas constantes mudanças de jurisdição foram um reflexo das complexas dinâmicas políticas e econômicas que caracterizavam a região naquele período. Finalmente, em 1874, Itaúna foi novamente colocada sob a administração de Pará de Minas.

Já em 1901, após sua emancipação pela Lei nº 319, a vila de Itaúna começou a se consolidar como um importante centro regional. O progresso da vila foi reconhecido pelo governo do Estado de Minas Gerais, e esse reconhecimento foi oficializado pela Lei nº 663, de 18 de setembro de 1915, que alterou a divisão judiciária do estado e conferiu à vila de Itaúna o status de cidade. Em 24 de janeiro de 1925, pela Lei nº 879, Itaúna foi elevada à categoria de comarca.

Esse processo de evolução administrativa reflete o crescimento e a importância que o município adquiriu ao longo do tempo, impulsionado pelo desejo de suas lideranças e pela perseverança de seu povo em alcançar autonomia e desenvolvimento. A elevação do antigo arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, à condição de cidade e comarca marcou o início de uma nova era, consolidando o município como um polo regional de progresso e prosperidade.


Disponível em:

REFERÊNCIAS:

Organização, pesquisa e arteCharles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG

Acervo: Instituto Cultural Maria Castro Nogueira – Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam)

APM — Arquivo Público Mineiro — Fundo Assembleia Legislativa Provincial 1835-1891 — Cx. 40

Coleção das Leis e Decretos do Estado de Minas Gerais 1915, pg. 32, 41.

FILHO, João Dornas. Efemérides Itaunenses, Coleção Vila Rica, 1951, págs. 111, 112, 113, 166, 179, 206, 207, 208.

Itaúna em Detalhes - Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa, 2003, NOGUEIRA, Guaracy de Castro [et al], pg. 20, 21.

Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1879, nº 324

O Bom Senso, 30 de abril de 1856, nº 406

O Estado de Minas Gerais, Ouro Preto, 11 de outubro de 1890, nº 94, 105

O Estado de Minas Gerais, Ouro Preto, 3 de outubro de 1893, nº 298

Revista Acaiaça nº 56, org. Celso Brant, 1952, p. 72, 73, 74.

Leis e Decretos do Estado de Minas Gerais - Ano 1901 - pág. 26.

Prefeitura Municipal de Itaúna História de Itaúna XIX e XX

SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, p.

MINAS GERAIS. Tribunal de Justiça. Memória do Judiciário Mineiro. Comarcas de Minas. Organizadores: Desembargador Lúcio Urbano Silva Martins e Rosane Vianna Soares. Coordenação: Andréa Vanessa da Costa Val. Belo Horizonte: Imprensa Oficial de Minas Gerais, 2016. v. I, p. 576-578. 

quarta-feira, setembro 11, 2024

CANÇÃO PARA ITAÚNA

O poema "Canção para Itaúna", de Maria Lúcia Mendes, é uma expressão clara do amor profundo que a poeta nutre por sua terra natal, Itaúna, celebrando suas paisagens, história e cultura. 
Através de versos que evocam imagens como "terra dos quintais maduros" e "crepúsculo no Bonfim", Maria Lúcia nos transporta para uma Itaúna rica em memórias e significados. 
As referências ao Rosário e ao Bonfim revelam uma conexão espiritual com a cidade, onde o sagrado e o cotidiano se entrelaçam.
No verso "A seiva minando do chão bruto", a poeta sugere a força e a riqueza de Itaúna, tanto em termos naturais quanto humanos. O minério e os teares simbolizam o trabalho e a história industrial da cidade, enquanto o "riso e suor" remetem ao esforço coletivo de seus habitantes ao longo do tempo. 
Ao declarar "amo tuas virtudes, teus pecados", Maria Lúcia nos mostra uma relação sincera e completa com Itaúna, reconhecendo tanto os aspectos positivos quanto os desafios da cidade.

O poema culmina com a afirmação "Sou tua filha, a pedra negra eu beijo", uma metáfora poderosa que remete às raízes históricas de Itaúna, antigamente conhecida como Santana do Rio São João Acima, associada à famosa "Pedra Negra". 

Esse poema, apresentado como uma homenagem em comemoração à emancipação de Itaúna em 16 de setembro, nos brinda, assim, com uma celebração poética que reforça o orgulho e a ligação afetiva com a cidade.


CANÇÃO PARA ITAÚNA

Eu te amo, terra dos quintais maduros

Do Rosário na laje, onde pastam sonhos ...

Crepúsculo no Bonfim, como não vê-los ?

A seiva minando do chão bruto

É minério que engendras, são teares

Riso e suor no tempo emoldurados.

A tempo de viçar toa uma história

Terra que se soprou ventos viários

Fome, razão, cicatriz, desejo

Amo tuas virtudes, teus pecados

Sou tua filha, a pedra negra eu beijo.


Prepare-se para uma viagem emocionante no tempo e no coração!  Agora, essa experiência está disponível também em vídeo! Não perca essa oportunidade imperdível de celebrar a essência de Itaúna de uma forma única e tocante. Venha viver essa poesia com a gente!"


Poema: Escritora Maria Lúcia Mendes 

Organização e arte: Charles Aquino. 

Santana do Rio São João Acima, hoje Itaúna, Minas Gerais: Pedra Negra.

domingo, setembro 08, 2024

CORCUNDAS X PATRIOTAS

A obra do historiador itaunense João Dornas Filho oferece um retrato incisivo dos conflitos ideológicos que marcaram o Brasil em 1831, particularmente no contexto da abdicação de D. Pedro I. Através do diálogo entre o “Corcunda” e o “Patriota”, o autor consegue explorar temas profundos como o embate entre tradição e modernidade, a hipocrisia política e religiosa, e a divisão interna entre os brasileiros. O uso de uma linguagem popular em forma de versos reforça a crítica social, tornando o texto um importante documento histórico e literário, que ajuda a entender as complexidades do período pós-independência no Brasil.

A análise do texto "A Abdicação e a Musa Popular em 1831", de João Dornas Filho, revela uma rica crítica social e política do Brasil no contexto da abdicação de D. Pedro I, “após o 7 de abril”. A obra utiliza uma forma popular, o diálogo em versos entre dois personagens — o “Corcunda” e o “Patriota” —, representando facções opostas da época: os “corcundas”, que defendiam o retorno do imperador, e os “patriotas”, que lutavam pela independência e pela formação de uma república.

O texto está inserido em um período de instabilidade política no Brasil, onde dois partidos principais surgem com visões antagônicas sobre o futuro do país. De um lado, os “corcundas”, nome pejorativo dado aos defensores da monarquia e da volta de D. Pedro I, e de outro, os “patriotas”, que defendiam a continuidade da independência e o afastamento da figura imperial. A luta ideológica desses dois grupos é retratada de forma alegórica, com um “Corcunda” e um “Patriota” debatendo sobre os valores que acreditam ser corretos para a nação.

O “Corcunda” representa a defesa do status quo, com uma visão conservadora e centralizadora, muitas vezes associada ao despotismo. Ele se mostra fiel a um ideal de monarquia como instituição sacralizada e vinculada ao direito divino, como se observa na referência ao rei Davi, comparando D. Pedro I a uma “figura ungida por Deus”. Ao longo do diálogo, ele usa a tradição e a fé como argumentos para justificar a necessidade de um governo monárquico forte, resistente às mudanças propostas pelos patriotas.

O “Patriota”, por sua vez, simboliza a contestação dessa ordem e a busca por novas soluções, questionando o valor da monarquia e defendendo o progresso republicano. Ele desdenha o romantismo de seu oponente, associando os "corcundas" a figuras ultrapassadas e obsoletas, comparando o rei Davi a um "pobre coitado" e criticando o que considera ser uma era de tiranos.

Dornas Filho usa a “musa popular” para refletir a opinião pública da época. Ao recorrer a versos e formas de expressão acessíveis, ele traz para o texto a voz do povo, que, de maneira crítica, usava essas representações para satirizar a situação política do país. Esse recurso literário é valioso, pois preserva as nuances das opiniões populares, muitas vezes marginalizadas pela história oficial. A utilização de um formato popular torna o texto mais próximo das práticas culturais de resistência e debate que aconteciam fora dos círculos do poder. 

Dornas ressalta a definição de “Corcunda” da época, conforme descrita no dicionário “Carcundático” ou na explicação das expressões dos “Carcundas” por José Joaquim Lopes de Lima, de 1821, informando que: “Homem que, feito, e satisfeito com a carga do despotismo, se curva, como o dromedário, para recebê-la; e trazendo esculpido no dorso o indelével ferrete do servilismo, tem contraído o hábito de não erguer mais a cabeça, recheada das estonteantes ideias de uma sórdida cobiça.”   

 

Temas Principais através do diálogo entre o “Corcunda” e o “Patriota”

O diálogo entre o “Corcunda” e o “Patriota” reflete uma disputa entre a manutenção das estruturas tradicionais e a busca por novas formas de governo. A argumentação do “Corcunda” se baseia na preservação da ordem monárquica, enquanto o “Patriota” anseia por uma transformação que rompa com os resquícios coloniais. Um tema recorrente é a desunião entre os próprios brasileiros. O “Patriota” acusa o “Corcunda” dissipar e perseguir seus próprios compatriotas, com a metáfora de lobos que devoram cordeiros. Isso ilustra a violência e a repressão que acompanhou os conflitos internos do Brasil nesse período, refletindo as dificuldades de consolidação da independência.

A religião é um tema subjacente nas falas do “Corcunda”, que constantemente evoca Deus para justificar suas posições. O “Patriota”, no entanto, desmascara a hipocrisia dessas argumentações, associando-as à defesa de interesses egoístas. A referência ao rei Davi é um exemplo dessa desconstrução: o “Patriota” lembra que, embora ungido por Deus, era um simples pastor, questionando a idealização da figura monárquica.

O diálogo também revela as tensões sociais latentes no Brasil do século XIX, com o “Patriota” denunciando a opressão exercida pelos poderosos sobre os mais fracos, simbolizada na metáfora dos lobos. As menções a "carbonários" e "pedreiros" por parte do “Corcunda” indicam uma crítica às forças revolucionárias e republicanas que estavam ganhando força naquele período. Esse texto é uma crítica expressa em tom sarcástico e satírico contra os movimentos políticos e sociais que desafiaram a monarquia e a Igreja Católica em Portugal, especialmente durante o período de D. João VI, rei de Portugal, que governou durante um período tumultuado marcado por tensões entre monarquistas e liberais.

O Movimentos Liberais dos “pedreiros” e “carbonários” mencionados são referências aos maçons, grupos secretos que eram vistos como subversivos pelos monarquistas e católicos, pois defendiam ideias liberais e republicanas. O autor critica a Constituição e a anarquia, associando-as à desordem e à falta de moralidade, em contraste com a ordem e a religiosidade defendidas pelos monarquistas.

Os opositores são retratados como inimigos da religião, que “não querem saber de missa” e “mofam de tudo o que diz o novo Testamento”. Isso sugere que o autor vê os liberais como anticristãos — descrença religiosa. Os “infames patriotas” são acusados de desrespeitar a nobreza e as tradições, o que para o autor é um sinal de decadência moral. O texto exalta a família real, particularmente D. João VI, como “pio e santo”, e expressa a visão de que a monarquia foi instituída por Deus para governar com justiça e piedade. O autor valoriza a nobreza de sangue e de comportamento, criticando a falta de respeito que os “patriotas” têm por essas tradições. No entanto, ao longo do texto, fica evidente que, apesar desse reconhecimento, ele continua comprometido com a defesa de uma ordem antiga, com medo das mudanças representadas pelos “patriotas”.

O texto utiliza estereótipos para ridicularizar os liberais, pintando-os como ímpios, desorganizados e inimigos da ordem social. O trecho, que fala sobre estar “contente de ver tudo acabado”, sugere uma ironia amarga, possivelmente expressando uma frustração pela situação política. O texto reflete o pensamento conservador e monarquista da época, defendendo a tradição, a religiosidade, e a hierarquia social, enquanto critica os movimentos liberais que ameaçavam essas estruturas. É um exemplo da retórica polarizadora e do conflito ideológico que marcou o período. O texto segue com ambos discutindo o estado político e social do Brasil no período pós-abdicação de D. Pedro I, refletindo sobre traições, revoltas e o destino do país.

A retórica satírica e polarizadora revela o conflito ideológico da época. O “Patriota” usa uma linguagem crítica e sarcástica para ridicularizar a monarquia e expor as injustiças sociais, enquanto o “Corcunda” tenta justificar suas crenças com argumentos religiosos, eventualmente se resignando diante das críticas.

Os textos de que fazem parte esse diálogo refletem as tensões políticas e sociais do Brasil pós-abdicação de D. Pedro I, marcadas pela disputa entre conservadores e liberais. O uso de trocadilhos, rimas e figuras de linguagem sugere que esses textos foram pensados para um público popular, talvez circulando em panfletos ou discussões públicas, com o objetivo de difundir ideias e criticar o status quo.

Esses diálogos, ao incorporar personagens simbolicamente nomeados como “Patriota” e “Corcunda”, personificam o embate entre os defensores da monarquia e os partidários de uma sociedade mais igualitária. A crítica ao regime monárquico e à hierarquia social é clara, e a narrativa expõe as injustiças e a opressão das classes mais baixas.

O uso de figuras bíblicas e metáforas religiosas pelos dois personagens reflete a importância da religião nos debates políticos da época, e a linguagem acessível e popular sugere um apelo direto ao público. Esses textos, marcados pela sátira e pela crítica política, são testemunhos das lutas simbólicas que precederam as mudanças sociais no Brasil do século XIX.

 

A ABDICAÇÃO E A MUSA POPULAR EM 1831

CORCUNDA X PATRIOTA

Por João Dornas Filho

 “Logo após o 7 de abril, a política brasileira entrava em ebulição tumultuosa, devida ao aparecimento de dois partidos que pugnavam, cada qual com mais calor e veemência, pela vitória das suas ideias. Eram os “corcundas”, que se batiam pela volta de D. Pedro I, e os “patriotas”, figadalmente adversários desta solução, não repugnando alargar os seus princípios até à implantação da república. Dessa época tormentosa da nossa história ficaram inúmeros documentos em que aparece a “musa popular” criticando os homens e os fatos, como este curioso diálogo entre dois adversários:”

 

CORCUNDA — Deus lhe guarde, meu senhor. 

 

PATRIOTA — Venha com Deus, cavalheiro, 

venha logo me dizendo 

se é "corcunda" ou "brasileiro". 

Vejo-lhe bem divisado 

na cabeça um grande galho, 

bem me parece ser 

da vazante o espantalho.

 

CORCUNDA — Sim, senhor, eu sou corcunda 

e morro pelo meu rei; 

esta divisa que trago 

é da sua real lei; 

se o senhor é patriota, 

provisório cidadão, 

se fala contra o meu rei, 

é judeu, não é cristão. 

E com isto já me vou, 

não quero mais esperar. 

O senhor é jacobino 

pelo modo de falar.

 

PATRIOTA — Dê-me atenção, senhor, 

não se faça esforicido; 

um homem apaixonado 

não dá prova de entendido. 

Eu conheço o seu caráter, 

não é de tolo e vário, 

mostra ser de um pensante 

ou de um escriturário. 

Faça-me a honra apear, 

venha me dar um clarão; 

só o senhor pode dizer-me 

o que é a constituição, 

e também da independência 

de D. Pedro imperador: 

tudo me explique agora, 

eu lhe peço por favor.

 

CORCUNDA — Se o senhor fala-me sério, 

se não é adulação, 

eu lhe direi de que consta 

a nova constituição.

 

PATRIOTA — O senhor creia em mim, 

muito sério lhe falo; 

eu sou um homem néscio, 

não sei onde canta o galo.

 

CORCUNDA — Estes malvados pedreiros, 

carbonários da nação, 

que por serem carvalhistas 

detestam serem cristãos, 

nem querem ter rei nem roque, 

e menos religião, 

por isso desprezaram 

o nosso rei D. João.

A lei deles é anarquia

da tal constituição,

cativando desumanos

sem ter quem lhes vá à mão;

não querem saber de missa,

menos do sacramento,

mofam de tudo o que diz

o novo Testamento.

Veja, pois, por que rigor

chamam a nós marinheiros,

arrocham de pau e peia,

morram todos ao chumbeiro.

Uns homens nobres em tudo,

no sangue e no proceder,

de famílias ilustradas,

muitos deles veem a ser

filhos de duques, marqueses,

de condes e de morgados.

Dos infames patriotas

têm sido desfeiteados...

Estas feras de ora avante

só em si maldade encerram,

desprezam o nosso rei,

que Deus nos deu na terra,

um homem pio e santo,

um refúgio e esperança,

o nosso D. João Sexto,

filho da Real Bragança.

Esta família ilustrada

que o mesmo Deus destinou

pra seus filhos governarem,

serem de nós supriu...

Mas agora estou contente

de ver tudo acabado,

uns mortos e outros presos.

Adeus, tenha saúde,

creia nisso que lhe digo,

fuja dos patriotas,

que são nossos inimigos.

Já estão se acabando

as malditas rebeliões,

ficando só no Brasil

a fé pura de cristões.

 

PATRIOTA — Tratemos da independência. 

 

CORCUNDA — Isso é um passo muito errante, 

Dom Pedro no Brasil 

não pode ser imperante.

 

PATRIOTA — Porque? Ele não é Bragança?

 

CORCUNDA — Se o rei ainda é vivo,

não pode haver herança.

 

PATRIOTA — Já não posso, seu corcunda, 

suas loucuras calar; 

quer por gosto, quer por força, 

ouça-me agora a falar. 

Diga-me, homem sem brio, 

amante do cativeiro, 

somos terra, somos gados 

que D. Pedro seja herdeiro? 

Quando Deus formou o mundo, 

qual foi o rei que deixou? 

Não deixou só um Adão 

de todos progenitor? 

Deste mesmo Adão não fez 

Deus do céu por seu mando 

uma mulher para ele 

produzir o gênero humano? 

Desses pobres camponeses 

produziu todas nações, 

algum dia eles tiveram 

fidalguia ou brasões? 

Onde foi Bragança haver 

esse sangue ilustrado? 

Só se foi por outro Adão 

que por Deus não foi deixado; 

só dessa descendência 

de gentes que Deus não fez 

saiu toda a jerarquia, 

condes, duques e marquês. 

Abre os olhos, homem tolo, 

adora o Deus verdadeiro, 

aquele que por nós morreu 

como inocente cordeiro. 

Se um rei é tão real, 

como adular a D. João, 

é baixeza no morrer 

se formar em podridão. 

Ressuscitar aos três dias 

assim como ressuscitou 

o rei filho de Maria.

 

CORCUNDA — Eu já digo o rei Davi, 

que o mesmo Deus consagrou.

 

PATRIOTA — Isto eu não duvido, 

e também por isto estou; 

mas quem era o rei Davi? 

Era um pobre coitado, 

era um simples pastorzinho 

do rebanho do seu gado. 

Que é do nosso rei Davi? 

Agora só há tiranos, 

dissolutos, incivis, 

de vaidades profanos.

 

CORCUNDA — Já é tarde, vou andando,

tenha mão, seu papagaio.

Você diz: cadê as tropas

do coitado do Pinheiro?

É certo que lá andei,

e que dele sou soldado...

 

PATRIOTA — Perseguiste os teus patrícios

como lobos defamados;

nas casas que cercaste

também, forte carniceiro,

ajudaste a tirar

vida, honra e dinheiro;

ajudaste a matar

teus irmãos, mansos cordeiros.

Que desgraça, seu corcunda,

entre os mesmos brasileiros!

Desprezar os seus irmãos,

como lobos carniceiros.

Esta injustiça, seu corcunda,

reclamam os céus inteiros...

 

CORCUNDA — Meu amigo, estou certo

do quanto me tem narrado,

já me pesa de ter sido

dos meus irmãos o malvado.

Roto o véu do engano,

nova vida eu terei,

constante patriota serei;

podem contar comigo:

— Defender a nossa pátria

e morra o nosso inimigo!

 

“Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro existem centenas de folhetos que guardam a vasta produção de versos como estes, denunciadores do ardor das paixões que crepitaram durante todo aquele movimentado decênio da nossa História”.

Referência:

Organização, arte, pesquisa e análise: Charles Aquino

FILHO, João Dornas: A abdicação e a musa popular em 1831 — CULTURA POLÍTICA — Revista mensal de estudos brasileiros. - INVENTÁRIO - BN - Rio de Janeiro, Ano IV  Nº 41- Junho de 1944 , p.155-159. 

 

quinta-feira, setembro 05, 2024

SETEMBRO DE CELEBRAÇÕES

SÍMBOLOS DO MUNCIÍPIO DE ITAÚNA MG
7 Setembro - 16 Setembro

O mês de setembro é marcado por duas celebrações que ecoam o espírito de orgulho e identidade, tanto no âmbito nacional quanto municipal. 
No dia 7 de setembro, comemoramos a Independência do Brasil, um momento histórico que simboliza o nascimento de nossa nação soberana. Já no dia 16 de setembro, é o aniversário da nossa querida Itaúna, cidade mineira rica em história, cultura e símbolos. Estes dois eventos, embora distintos, se entrelaçam na exaltação dos símbolos que nos representam e nos definem como povo.

No contexto da nação, o Dia da Independência serve como um momento para contemplar o significado da liberdade e da autodeterminação. O ano de 1822 marcou a proclamação da independência do Brasil por Dom Pedro I, libertando-nos do julgo colonial e preparando o cenário para o surgimento de uma nação soberana. A bandeira nacional, adornada com verde, amarelo, azul e branco, permanece como o símbolo máximo deste marco, representando a unidade, prosperidade e aspirações da população brasileira. Em Itaúna, esta bandeira tremula com vigor, ressaltando nossa dedicação aos princípios democráticos que sustentam o país.

No âmbito municipal, o aniversário de Itaúna é uma ocasião para celebrar a trajetória de uma cidade que, ao longo dos anos, se destacou pela sua determinação e capacidade de progresso. Os símbolos municipais – o brasão, a bandeira e o hino – são expressões vivas dessa jornada histórica e cultural.

O Brasão de Itaúna, instituído pela Lei nº 955 de 1969, é um emblema carregado de significado. Suas cores vermelho e verde representam, respectivamente, o minério de ferro e as matas que cercam a cidade. No centro do brasão, uma roda de fiar destaca a importância da indústria têxtil, que foi pioneira no desenvolvimento de Itaúna, enquanto as engrenagens simbolizam a força industrial que impulsiona o município até os dias de hoje. Este brasão não apenas rememora o passado glorioso de Itaúna, mas também reflete o espírito de uma cidade que se reinventa constantemente, mantendo suas raízes firmemente plantadas.

A Bandeira de Itaúna, criada por Eponina Maria do Carmo Nogueira Gomide Soares e oficializada em 1956, é outro símbolo de profundo orgulho para os itaunenses. Suas cores verde e vermelho, dispostas em faixas diagonais sobre um fundo branco, representam a ligação de Itaúna com o Brasil, bem como suas raízes históricas e culturais. A bandeira é um lembrete visual da união e da força da comunidade itaunense, que, ao longo de décadas, construiu uma cidade próspera e acolhedora.

O Hino de Itaúna é uma ode ao espírito de luta e à fé que moldaram a cidade. Suas estrofes celebram o esforço contínuo dos itaunenses em prol do crescimento e do desenvolvimento. Com menções à padroeira Sant'Ana e ao progresso industrial, o hino captura a essência de uma cidade que se orgulha de seu passado enquanto olha com esperança para o futuro. Ao entoá-lo, os cidadãos reafirmam seu compromisso com os valores que fizeram de Itaúna uma "comuna brilhante", como diz o próprio hino.

Neste setembro, ao comemorarmos tanto a independência do Brasil quanto o aniversário de Itaúna, somos convidados a refletir sobre a importância desses símbolos que nos identificam e nos unem. Eles são mais do que meros emblemas; são a materialização da nossa história, dos nossos valores e da nossa identidade. Celebrar esses marcos é também reafirmar nosso compromisso com o futuro, inspirados pelos exemplos de coragem, trabalho e fé que nos foram legados. Que estas celebrações sejam um momento de união, orgulho e reflexão, reafirmando nosso amor por Itaúna e pelo Brasil!

 

Veja a narrativa em vídeo! Imperdível!

SAIBA MAIS :

BANDEIRA DE ITAÚNA  ✅


HINO DO MUNICÍPIO DE ITAÚNA ✅


BRASÃO DO MUNICÍPIO DE ITAÚNA ✅


Referências:

Organização, arte e roteiro: Charles Galvão de Aquino – Historiador  Registro nº 343/MG


quarta-feira, setembro 04, 2024

JOÃO DORNAS: O OURO DAS GERAIS

A obra "O Ouro das Gerais e a Civilização da Capitania" de João Dornas Filho explora o impacto da mineração em Minas Gerais, defendendo que o ouro desempenhou um papel central na formação da sociedade e da economia da região durante o período colonial. Contrariando visões anteriores, como a de Oliveira Lima, que minimizavam a importância econômica do ouro para a colônia, Dornas Filho argumenta que o metal precioso gerou um excedente que possibilitou o desenvolvimento de uma civilização sofisticada em Minas Gerais, além de provocar significativas consequências políticas e sociais, como a transferência da capital da colônia para o Rio de Janeiro.

A obra critica a exploração colonial portuguesa, que canalizou os recursos do ouro para sustentar extravagâncias reais e financiar a Revolução Industrial na Inglaterra, em detrimento do desenvolvimento autônomo da colônia. Dornas Filho também enfatiza o legado cultural deixado pela mineração, que, mesmo após o esgotamento das jazidas, permitiu a continuidade de uma civilização rica em cultura, com impactos nas artes e na educação.

Publicada em 1957 como parte da coleção "Brasiliana", a obra refuta teses anteriores, especialmente as de Oliveira Lima, que minimizavam a importância econômica do ouro de Minas Gerais. Dornas Filho sustenta que a exploração aurífera em Minas Gerais foi um fenômeno crucial para a história brasileira, gerando um excedente que, apesar dos tributos à Metrópole, proporcionou o desenvolvimento de uma "civilização de altiplano", com impactos duradouros nas artes, ciências e administração pública.

A sociedade mineira, estruturada em torno da economia do ouro, criou uma classe de "nouveaux riches" (novos ricos), promovendo urbanização e industrialização em certas áreas, como a indústria pastoril, têxtil e siderúrgica. Exemplos como o do Barão de Catas-Altas e Chica da Silva ilustram as transformações sociais trazidas pelo ouro, evidenciando o contraste entre o luxo dos ricos e as dificuldades da população em geral.

Dornas Filho critica a canalização dos recursos auríferos para os delírios megalomaníacos de D. João V, como a construção do Convento de Mafra, e o desvio desses recursos para a Inglaterra, fomentando a Revolução Industrial. A obra também aborda as políticas fiscais opressivas e a legislação colonial que impediram o desenvolvimento econômico autônomo da colônia.

Além da análise econômica, Dornas Filho aborda as consequências culturais e sociais da mineração, descrevendo a formação de uma elite cultural em Minas Gerais. Apesar do esgotamento das jazidas, essa elite preservou uma civilização vibrante, com forte influência nas artes e na educação.

"O Ouro das Gerais e a Civilização da Capitania" é uma obra fundamental para a compreensão do papel da mineração na formação do Brasil colonial. João Dornas Filho oferece uma visão crítica e bem fundamentada, desafiando interpretações anteriores e destacando a importância econômica, social e cultural de Minas Gerais durante o ciclo do ouro. Sua análise reavalia a história sob uma perspectiva que valoriza o impacto duradouro da exploração aurífera na identidade e na economia brasileira.

MEMORIAL JOÃO DORNAS

Referências:

FILHO, João Dornas.O ouro das Gerais e a civilização da Capitania / João Dornas Filho ; tradução C. da Silva Costa. Publicação: São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1957. Biblioteca Pedagógica Brasileira: Brasiliana, Vol 293.

Organização, arte e roteiro: Historiador Charles Aquino

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