quinta-feira, janeiro 23, 2014

MAJOR SENÓCRIT NOGUEIRA

 Filho do tenente coronel Zacarias Ribeiro de Camargos  e  Dª Ana Nogueira de castro, o major Senócrit Nogueira nasceu na fazenda da "República" a 24 de abril de 1870. 

Aos dez anos de idade, quando já assumia a direção da aula do mestre José João nas faltas do professor, concluía o curso primário e tomava as responsabilidades da escrituração da fazenda paterna.

 Em 1894 edificava a Capela do Senhor dos Passos no largo desse nome, e demolida em 1950. Em 1895 era eleito presidente do Clube Teatral e no ano seguinte presidente do Clube Literário e Progressista, associações recreativas e culturais que grandes serviços prestaram à população de Santana.

 No ano de 1898, como presidente de uma mesa eleitoral do distrito, fez da Junta Apuradora do Pará, e depois da Junta da Comarca em Sabará, quando evitou, por sua energia, a depuração de um deputado legitimamente eleito.

 Homem enérgico, inteligente e trabalhador, muito cedo era figura indispensável nos empreendimentos locais de desenvolvimento do distrito, sendo eleito em 1895 para o cargo de Juiz de Paz, que exerceu até 1897.

 Vereador do distrito à Câmara Municipal do Pará, de 1898 a 1900, fez passar várias Leis de interesse para o nosso crescimento, e em 1901 era eleito Presidente do Conselho Distrital quando, junto com o Dr. Augusto Gonçalves, iniciou a campanha para a criação do município.

 O trabalho que então desenvolveu para a consecução deste desiderato foi admirável. Todas as providências necessárias para este fim, como a aquisição dos edifícios para a Câmara Municipal e a Escola Pública, foram por ele, coadjuvado neste passo pelos suplentes de vereador Jove Soares Nogueira e Washington Alves da Cunha.

 A documentação justificativa da criação do município apresentada por Senócrit Nogueira ao deputado José Gonçalves de Sousa atesta a dedicação e o empenho que punha no empreendimento. Vitoriosa a ideia pela Lei Estadual de 16 de Setembro de 1901, era nesta data nomeado coletor estadual que ocupou até 1906.

 A batalha da fundação do município teve lances emocionantes que é bom relembrar, como o da manobra do município de Bonfim para não perder o distrito de Conquista. O chefe bonfinense Dr. Moreira da Rocha, não se conformado com o desmembramento de tão próspero distrito, fundou junto à sede deste, com o fim de ficar com a melhor parte, um novo distrito, como aliás permitia em certas condições, a legislação em vigor deu-lhe o nome de Floriano Peixoto, e mandou logo que se fizesse o lançamento de impostos e tomou outras medidas que caracterizassem a soberania do município de Bonfim sobre o novo distrito.

 Senócrit Nogueira intervém então energicamente para anular a manobra e, aconselhado por amigos, convida os contribuintes do distrito de Conquista a pagar os seus impostos em Itaúna. E sabendo que um inventário de pessoa residente no novo distrito estava se processando em Bonfim, entrou em juízo com uma petição de nulidade, acolhida pela justiça do Pará, que ordenou o processamento pelo município de Itaúna.

 O Major Senocrit Nogueira exerceu o cargo de Coletor Estadual até quando foi nomeado secretário da Câmara Municipal e seu coletor, cargo que desempenhou desveladamente até 1920, juntamente com o de delegado de polícia.

 Em 1908, com a cooperação de Damas de Caridade do Sagrado Coração de Jesus, adquiriu uma casa na rua 14 de julho, hoje rua Diógenes Nogueira, com o fim de transformá-la em abrigo dos pobres, casa que prestou serviços até 1951, quando foi demolida.

 Padrinho de Rossini Cândido Nogueira, criou-o e educou-o o nosso biografado, ordenando-o padre em 1927 falecido em Juiz de Fora em 1941, o padre Rossini, pelos seus dotes intelectuais foi uma saliente figura do clero mineiro.

 Chefe do serviço do recenseamento de 1920, em Itaúna passava o nosso biografado em 1921 para Belo Horizonte, onde fixou residência e foi nomeado funcionário da Prefeitura Municipal aposentando-se em 1936.

 Homem público, funcionário exemplar, amigo dedicado dos interesses da sua terra, homem de religião e de sociedade, batalhador infatigável, patriota da mais nobre estirpe, filantropo e benemérito cidadão itaunenese Senócrit Nogueira foi um dos fundadores do Partido Republicano Mineiro, que a sua inteireza moral abandonou quando viu desviados os seus princípios. As novas gerações de Itaúna hão de sempre reverenciar a figura do nobre ancião e nela beber os mais sadios exemplos de patriotismo e inteireza.

 

Referências:

Fonte: Efemérides Itaunenses ,1951  - Pag: 63,64,65,66.

João Dornas Filho - Historiador & Escritor da Academia Mineira de Letras

Organização: Charles Aquino 

terça-feira, janeiro 14, 2014

GRUPO ESCOLAR ITAÚNA


Na década de 1940, o Velho Grupo Escolar de Itaúna era um ponto central na vida da cidade, marcado por suas construções emblemáticas e pela importância na formação educacional dos jovens da região. Localizado atrás da igreja, onde hoje se ergue a Prefeitura Municipal, o grupo escolar era composto por dois chalés grandes e compridos, com janelas envidraçadas que permitiam a entrada generosa de luz natural, criando um ambiente acolhedor e propício para o aprendizado.

Esses chalés eram interligados no centro, onde se encontrava a sala do diretor, um espaço que simbolizava a autoridade e a organização da instituição. Cada chalé abrigava duas salas de aula, equipadas com o essencial para a educação da época, e suas respectivas instalações sanitárias, garantindo a higiene e o conforto dos alunos. A arquitetura simples e funcional refletia a dedicação à educação, oferecendo um espaço onde o conhecimento podia florescer.

Os pátios internos eram o coração da interação social e da recreação dos estudantes. Divididos em dois espaços distintos – um para os meninos e outro para as meninas – esses pátios eram cenários de brincadeiras, risos e formação de amizades. Ali, a garotada podia correr livremente, explorar suas habilidades físicas e criar memórias duradouras. O recreio era um momento de liberdade e descontração, uma pausa necessária nas horas de estudo e concentração.

O Velho Grupo Escolar de Itaúna não era apenas um local de ensino, mas também um símbolo de progresso e desenvolvimento para a comunidade. Em 1916, recebeu a ilustre visita do Governador de Minas Gerais, Delfim Moreira. Esse evento foi um marco na história da instituição, demonstrando o reconhecimento e a importância do grupo escolar no contexto estadual. Dois anos após sua visita, Delfim Moreira foi eleito Presidente do Brasil, o que reforçou ainda mais a relevância daquela ocasião para a cidade de Itaúna.

A visita do governador não foi apenas um evento cerimonial, mas um momento que inspirou tanto alunos quanto professores, fortalecendo o compromisso com a educação de qualidade. A presença de uma figura tão significativa serviu como um lembrete de que o futuro da nação estava sendo moldado ali, nas salas de aula do Velho Grupo Escolar.

Na década de 1940, o Grupo Escolar de Itaúna continuava a desempenhar um papel vital na formação dos cidadãos itaunenses. Com sua arquitetura característica, seus pátios animados e sua história rica, o grupo escolar era mais do que uma simples instituição de ensino – era um verdadeiro pilar da comunidade, preparando gerações para enfrentar os desafios do mundo com conhecimento e valores sólidos. Não seria difícil imaginar lembranças daqueles tempos, que certamente, continuaram a ecoar na memória dos ex-alunos e nas histórias contadas pelas famílias, mantendo viva a essência de uma época em que a educação era a chave para o futuro.


Referências:
Narrativa histórica baseada em fatos reais: Charles Aquino
Fragmentos de Um passado / Osório Martins Fagundes  / página 40
Revista "A Vida de Minas" Ano de 1916
http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/fotografico_docs/photo.php?lid=34902

domingo, janeiro 12, 2014

JOÃO DE CERQUEIRA LIMA

Fundador da Cia. Industrial Itaunense
(1º Maio de 1911)


*Lincoln NOGUEIRA


PRIMEIRA BIOGRAFIA

"Ontem, à tarde, ao sol posto,
Passei junto à tua porta,
E vi com grande desgosto
Que minha esp'rança era morta"

Ele escreveu esp'rança à portuguesa e não esperança, sonoramente à brasileira. São versos da Revista " Cigarra do Sertão", que João Lima, Mário Matos e eu escrevemos, já la vai um punhado de anos.
Basta o esp'rança para se descobrir que a quadra saiu da pena lírica de João de Cerqueira Lima.

Posto que tinha vindo bem pequeno para o Brasil, a linguagem revela desde logo a origem.  Mamou o leite materno em Portugal, na Beira, em Castanheira de Pêra, onde viu a luz pela primeira vez, no dia 21 de abril de 1870.  Menino e não moço ainda, levou-o o destino pra longes terras. Seus pais, Antônio de Cerqueira Lima e Maria Júlia de Cerqueira Lima, resolveram abandonar a pátria e emigrar, com os filhos, para o Brasil.

A imaginação de sonhador, o espírito de aventuras, a alma de romântico, a ânsia do desconhecido, o desejo de viagens fantásticas, a ilusão de mundos novos, virgens e ignotos em remate, os mares de D. Afonso Henriques, a alma portuguesa enfim, sonhadora e romântica, lírica e aventureira, insôfrega e destemerosa, irrequieta e angustiada não permitiram que o lusitano Antônio de Cerqueira Lima envelhecesse calmamente, mansamente, no pátria amada.

Por isso, com a família, atravessou o Atlântico, rumo ao Brasil, isto é, ao desconhecido, em viagem perigosa, que todas eram, naquela época. Chegado que foi ao Rio de Janeiro mete-se com a família pelo interior, e junto com os tropeiros, cavalgando ásperos burros de cela, afundou 600 léguas sertão bruto a dentro, atravessando a perigosíssima serra da Mantiqueira, onde tinha seu quartel bem organizada quadrilha de gatunos, que para roubar, matavam os viajantes desprevenidos.

E veio com a família terminar viagem no centro, no coração de Minas Gerais, instalando-se na cidade de Bonfim, onde se estabeleceu com uma casa comercial. Seu filho, o nosso João de Cerqueira Lima, contava apenas 10 anos de idade, e, para fazer a viagem, acompanhando os pais, interrompera os estudos primários que frequentou apenas durante 6 meses.

O menino João de Cerqueira Lima, ajudava o pai, por todos os meios ao seu alcance, não rejeitando serviço por duro ou pesado, indo de servente de pedreiro a caixeiro do pai, da casa de comércio. As compras para sortimento de negócio, eram feitas em Sant'Ana de São João Acima, na casa de comércio de Manoel Gonçalves de Souza Moreira.

Nota-se, de passagem, a força, o poder deste arraial de Sant'Ana, a futura cidade de Itaúna. Era o arraial grande e poderoso empório comercial, onde havia dois estabelecimentos notáveis, a casa de Manoel Gonçalves de Souza Moreira e a casa de Josias Nogueira Machado. Assombroso, por numerosíssimo, era o movimento de tropas e tropeiros, que de Sant'Ana de São João Acima partiam em todas as direções. O pequeno e modesto arraial supria de tudo, fornecendo, qualquer mercadoria, não só a muitos arraiais como ainda a várias cidades.

Antônio de Cerqueira Lima, porém, não prosperou. Ou porque fosse muito bondoso ou porque o estabelecimento não rendesse o suficiente para sustentar a família, o certo é que fracassou o empreendimento comercial, falindo. Como consequência, ficou devendo a Manoel Gonçalves de Souza Moreira a importância que montava a um cento e tanto. Sempre foi o português Antônio de Cerqueira Lima homem e correto, e, no descalabro de seu negócio, tomou as providências necessárias para saldar todas as dívidas. Não encontrou, porém, jeito de fazer o pagamento, a Manoel Gonçalves de Souza Moreira, e o recurso foi mandar o filho João trabalhar como caixeiro, até que fosse feito pagamento total, aos poucos, mediante um minguado ordenado que recebia.

E João de Cerqueira Lima, quando veio para Sant'Ana de São João Acima, trabalhar para pagar a dívida paterna, contava apenas 11 anos. Uma criança que precisava de brinquedos, ia lutar duramente, com a grave responsabilidade de saldar a dívida contraída pelo progenitor. Deixou o pai amado, e a mãe idolatrada, os irmãos queridos e, montado num burrico qualquer, partiu para o arraial bravo, cheio de lutas e ambições, de gente aventureira, que surgia de todas as bandas, sem freios e nem policiada, onde todas as noites havia rixas e desavenças, tiros e facadas, feridos e mortos.

Partiu com 11 anos de idade, mal sabendo ler e fazer contas para trabalhar para um patrão severo e rigoroso. Conseguiu com paciência e tenacidade pagar a dívida, tendo mais resignação que o Jacó da Bíblia, pois levou 11 anos trabalhando para pagar tudo. Entrou para a casa com 11 anos de idade e a deixou com 22 anos, recebendo, após o acerto de contas, a importância de uma pataca.
Bendita a hora, em que chegou a Sant'Ana de São João Acima o menino João de Cerqueira Lima! Bendita dívida, que obrigou o menino João de Cerqueira Lima a permanecer em Sant'Ana.

Por que João de Cerqueira lima veio a ser um dos maiores vultos de Itaúna? Porque foi ele quem consolidou a Fábrica de Tecidos Santanense, na iminência de um geral fracasso. Porque foi ele que ergueu, junto com Dr. Augusto Gonçalves de Souza a Cia. Industrial Itaunense, de que foi a alma. Porque Itaúna deve a João de Cerqueira Lima a riqueza que possui, a grandeza que ostenta, o progresso que causa admiração, a força industrial que a anima.

Sim, porque, se não fossem criadas as duas poderosas as duas poderosas indústrias de tecidos, que se devem em última análise, a João de Cerqueira Lima, Itaúna estaria hoje modorrando ao sol, como cidade morta.  Mas, continuemos a seguir a vida do lutador.

O trabalho de caixeiro lhe dava poucas horas de folga, que era, porém bem aproveitadas pela criança inteligente e séria. E só podia dispor desses raros momentos de fazer, pois aos domingos e dias santos. O trabalho era dobrado. Em geral, as populações das roças, fazendeiros e lavradores, preferiam os domingos e dias santificados para as compras. Vinham à missa, passavam e faziam compras necessárias. Havia, assim, nos dias destinados ao descanso, desusado movimento, verdadeira azafama, que punham os pobres caixeiros numa roda viva.

O menino, cujo caráter a dureza da vida amoldara rijamente, nas horas vagas, ao invés de brincar ou passear, tratava de estudar, procurando compreender consigo mesmo o que não pode fazer na escola, por a ter frequentado somente seis meses.

Formoso exemplo de autodidata. E não foi o único que apareceu em Sant'Anna. Mais dois pelos menos merecem ser citados e foram Aureliano Nogueira Machado, cujo diploma de farmacêutico trazia a assinatura de D. Pedro II e Joaquim Marra da Silva, o jornalista de linguagem correta e castiça, foram mais ou menos contemporâneos, ainda que João de Cerqueira Lima fosse bem mais moço.

O fato exato é que João de Cerqueira Lima, em pouco tempo, sem professor e sem guia, fazia a escrita da cassa, com perícia e perfeição como competente contabilista, isto, aos 16 anos de idade, isto é, cinco anos depois que bons ventos o trouxeram para Sant’Anna. Quando contava 20 anos, teve que assumir a direção da casa, porque Manoel Gonçalves de Souza adoecera de reumatismo e ficara preso ao leito, entrevado, durante quase 2 anos.

Entreou o povo de Sant'Anna a murmurar que o negócio iria por água abaixo, porque o jovem João de Cerqueira Lima não daria conta do recado, e, faltando o chefe, que sempre esteve à frente, tudo iria mal. E muita gente boa antegozava o fracasso do negócio, numa satisfação mal dissimulada. A fim de estimular o rapaz e dar-lhes mais ânimo. Manoel Gonçalves de Souza Moreira prometeu-lhe dez por cento sobre os lucros, se os houvesse.

Curado o patrão, tornou a assumir a direção de seu estabelecimento comercial, e, foi quando houve a desavença, que os separou. A casa dera mais lucros sob a direção do moço do que antes. Parece que o patrão não gostou, e, no acerto de contas, houve atrito e discussão, e, como resultado, o moço João de Cerqueira Lima deixou a casa, onde trabalhou 11 anos seguidamente.

Por esse tempo já andava de namoro com a senhorita Ana, na intimidade Aninha, filha do Coronel Manoel José de Souza Moreira. Na igreja, que foi mais tarde demolida, situada no largo da Matriz, durante a missa, é que ele via a namorava o brotinho Aninha. Como a semana demorava a passar, para que chegasse o abençoado domingo! E era um instante apenas, pois tão pouco lhe parecia a meia hora da missa, finda a qual corria para o balcão, a atender o povo das roças, que queria fazer compras.

 A moça Ana ficou verdadeiramente apaixonada pelo rapaz, que era elegante, de boas falas e já perito na metrificação. Com certeza, compôs lhe muitos madrigais apaixonados, poeta que era, mas possível não foi obter sequer uma poesia a esse respeito.  Manoel José de Souza Moreira, via o namoro com bons olhos, pois adivinhava no moço, honesto, sério e trabalhador, um homem de futuro.  Não pensava, assim, o filho de Manoel Gonçalves de Souza Moreira, o Manoelzinho ou o Moreira, como era chamado.

Com o amparo do pai e do irmão da jovem, Jovino Gonçalves de Souza, o namoro progredia, para em breve chegar ao noivado. Dizem que Manoel Gonçalves de Souza Moreira, o Manoelzinho, fizera grande oposição, chegando a ponto de oferecer à mana a quantidade de cem contos de reis, fortuna imensa naquele tempo, para que ela abandonasse o João Lima, não se casando com ele. Parece lenda, porque a importância é mesmo fabulosa.

O fato é que a menina Aninha não quis saber do dinheiro, porque estava doidinha para se casar com o João.  Pelo menos diz, um antigo jornalzinho, que se publicou em Itaúna:
 - "A menina Aninha queria porque queria casar com o João, e, quando escutava o sino da Matriz, era assim que o sino falava: Casa com o João que o João é bom! Casa com o João que o João é bom! Ouviu o conselho do sino e casou mesmo com o João".

Já nesse tempo de namoro, negociava João de Cerqueira Lima de sociedade com Jovino Gonçalves de Souza, seu futuro cunhado, de quem era muito amigo. O casamento de João de Cerqueira Lima e Ana Gonçalves de Souza foi celebrado no ano de 1894, na mesma Matriz, onde começaram o namoro.

Tratava-se por esse tempo, da construção da Fábrica de Tecidos Santanense, empresa gigantesca para aqueles tempos remotos. Manoel José de Souza Moreira com seus irmãos José Gonçalves de Souza, Francisco Gonçalves de Souza e Vicente Gonçalves de Souza, e, também, seu filho Manoel Gonçalves de Souza Moreira estavam edificando ou construindo a Fábrica, cujo capital inicial era de seiscentos contos, um capital muito elevado, considerada para a época.

As dificuldades eram imensas, basta lembrar que, desde o Rio de Janeiro até Sant'Ana de São João Acima, todas as máquinas, e muitas eram pesadíssimas, tiveram que ser transportadas nos lombos dos burros ou em carros de bois, numa viagem lenta que durava meses.

E as dificuldades foram sempre subindo de ponto, de tal jeito que a turma desanimou e estava resolvida a liquidar a incipiente Fábrica. A turma, não. É preciso explicar bem. Manoel José de Souza Moreira não desanimou nem concordou ou consentiu que se liquidasse a empresa. 

Desanimado, o filho Manoel não quis mais continuar à frente do empreendimento. Nesse ponto, foi lembrado João de Cerqueira Lima e o sogro o levou para a direção da Fábrica. Deixou assim, o comércio, no ano de 1895, para assumir a gerência da Fábrica de Tecidos Santanense.

Em pouco tempo, reergueu a empresa, evitando que se perdesse tanto esforço e tanto capital. Não pode, porém, continuar muito tempo, pois houve grave atrito e desavença com o cunhado Manoel Gonçalves de Souza Moreira, que, afinal, voltou a dirigir a indústria de tecidos.

João Lima retornou ao comércio, estabelecendo-se com nova casa comercial, à rua Silva Jardim, esquina com Artur Bernardes, onde hoje está a casa de seu filho João de Cerqueira Lima Júnior. A primeira casa comercial de sociedade com Jovino Gonçalves de Souza estava situada na mesma rua, porém, mais abaixo, mais ou menos onde está hoje a casa do Sr. Francisco Guimarães, à praça Luiz Ribeiro.

Ali na rua Silva Jardim, negociou até o ano de 1911 quando se deram dois fatos auspiciosos para Itaúna: - A chegada da Estrada Oeste de Minas e a Fundação da Companhia Industrial Itaunense.

João Lima vendeu a casa comercial e foi ser diretor gerente da Cia. Industrial Itaunense, que dirigiu, administrando, com muito tino e argúcia, até o ano de 1938, em que já doente passou a cargo a seu filho José de Cerqueira Lima, que é o atual diretor gerente. Itaunense notável entre os mais notáveis, ainda que nascido em Portugal, João de Cerqueira Lima passou toda a vida em Itaúna, desde a infância à velhice, dedicou toda a existência a este torrão bendito de Sant'Ana de São João Acima.

Por esta terra lutou, empenhando todas as forças e recursos em todos os setores, quer no social e político que no econômico ou industrial. Não se indigita cometimento de vulto em Itaúna que não traga a marca do lutador resoluto, não há fato de importância que não ostente algum sinal de sua presença.

Entretanto, não quis o destino que, assim como não nascesse em Sant’Anna, viesse, também, a falecer na cidade que ajudara eficientemente a edificar e amava tanto. Grave enfermidade o levara ao Rio de Janeiro, na intenção não só de lhe minorar os padecimentos, como, e principalmente, de prolongar a existência.

Nascera esse grande itaunense (seja -se permitido dizer assim, que fora sempre, como os maiores, de toda a alma e coração) em Portugal e falecera, no Rio de Janeiro. Caprichos do destino. Falecido na Capital Federal, a 11 de setembro de 1942, foi o corpo conduzido para Itaúna, em cujo cemitério municipal, foi inumado no dia 12.

No dia da chegada do corpo em Itaúna, imensa multidão encheu o largo da Matriz, havendo encomendação assistida por toda a população, que contrita, ou em prantos ou em preces fervorosas, assim homenageava o grande homem, tão estimado de todos, já dos ricos, a quem, sempre, amparou ou antes ajudou a enriquecer, já dos pobres e da engrandecida mole de operários, a quem amenizou a dureza da existência, oferecendo trabalho, propiciando meios dignos de subsistência.

Itaúna precisava de render uma homenagem de relevo ao grande filho, não só num preito de gratidão, mas principalmente num elegante gesto de justiça. É verdade que a rua onde se localizou a Fábrica de Tecidos que fundou, consolidou e dirigiu, com competência, brilho e dignidade, recebeu seu nome, conforme decreto do Prefeito de então.

Além da rua João de Cerqueira Lima, que lembra o nome do imorredouro itaunense, há necessidade outra homenagem maior, de imponência e de culto condizentes com a grandeza rebrilhante do homenageado.

Deixou os seguintes filhos, que seguem o exemplo paterno, na honradez, no trabalho, na dignidade e na inteligência: José, João, Afonso, Manoel Maria e Alice. Havia o sétimo, Ana moça prendada, que adoecendo de gripe pulmonar, no Colégio de Mariana, onde estudava como aluna interna, partiu ainda gravemente enferma para Itaúna, onde veio a falecer poucos dias depois. Morrera na flor da idade, quando contava 18 anos.

Além desses filhos, houve mais três, que faleceram, quando pequenos: O 1º José, a 1ª Ana, a 1ª Maria.  Houve, pois, dois filhos com os nomes José, Ana e Maria. Em memória, aqui ficam estas palavras, como singela homenagem de Itaúna agradecida a João de Cerqueira Lima.                    


Década 1911



SEGUNDA BIOGRAFIA

(*1870/ +1942)


**Torres do VALE

Célebre personagem que se fez dentro de nossa terra e que aqui chegara aos 10 anos de idade, vindo antes das Plagas Lusitanas, natural de Castanheira de Pêra bem ao pé de Coimbra, onde nascera a 21 de abril de 1870, filho de Antônio de Cerqueira Lima e de Maria Júlia Baeta Neves. Já então Maria Júlia de Cerqueira Lima, nome registrado em Portugal de conformidade com a herança matrimonial, era irmã do velho Caetano Baeta neves, de muitos anos antes, radicado em nossa vizinha cidade de Bonfim.

Em 1879 Antônio de Cerqueira Lima viera ao Brasil preparar ambiente de trabalho para trazer mais tarde sua família, que havia deixado em Portugal.  Dirigiu-se logo que chegou a Minas, para a cidade de Bonfim, onde exercera a função de pedreiro, trabalhando na construção da Igreja daquela localidade.

Um ano depois, fim de 1880, voltou a Portugal para buscar a família. João de Cerqueira Lima que já trabalhava em Portugal como auxiliar de pedreiro caiu certo dia de um pinheiro e esteve prestes a amputar sua perna esquerda, mas, o destino reservou-lhe a cura do ferimento e viu-se livre de perder a perna.

Quando a família, pressurosa leu no jornal os nomes de passageiros do navio que levava de regresso Antônio de Cerqueira Lima, sentiu-se feliz, porém já lhe falecido sua filha menor Maria Guilhermina, que falecera em terna idade. Seus filhos até então restantes eram: João de Cerqueira Lima, Cristina de Cerqueira Lima e Fortunata de Cerqueira Lima, os quais foram aos cais do porto, assistir ao desembarque de seu pai Antônio de Cerqueira Lima.

Assim que viram surgir um senhor de fisionomia atraente e de barbas negras, correram-lhe ao encontro e perguntaram-lhe: É o senhor, nosso pai Antônio de Cerqueira Lima? Acolhidos pelo papai, seguiram juntos.  Indescritível a euforia de todos em sua residência. Desde então, prepararam a mudança e em janeiro de 1881 vieram para o Brasil.

Chegados ao Rio de Janeiro em fevereiro de 1881, logo que obtiveram a devida licença para o desembarque, foram para a quinta dos Irmãos Bebiano, fortes comerciantes de secos e molhados, estabelecidos na rua 1º de março, no Rio de Janeiro, e primos de Maria Júlia de Cerqueira Lima, onde permaneceram durante cinco dias e dali se transportaram com destino a minas seguindo diretamente para a cidade de Bonfim, onde passaram a residir.

Quatro anos depois, em 1885 resolveu Antônio de Cerqueira Lima seguir com a família para o povoado de Papagaios de Pitangui, onde passaria a comerciar. Foi nessa ocasião que João de Cerqueira Lima que havia ficado em Itaúna, para trabalhar como caixeiro junto à Firma Comercial Moreira e Filhos, assumir aos seus quinze anos de idade responsabilidade do pagamento de um débito de seu pai de trinta contos de reis (30:000$000) dinheiro que havia obtido por empréstimo, para abrir casa comercial em Papagaios MG.

E foi com a máxima pontualidade que o filho lhe cobriu o débito.  Tais foram os dotes de atividade, horandez e inteligência do menor João de Cerqueira Lima, que três anos depois, aos seus dezoito anos de idade, elevava-se ao cargo de Guarda-Livros da firma e dois anos depois, aos vinte de idade, ao cargo de gerente da mesma firma. Na qualidade de gerente da firma, casou-se com Dona Ana Gonçalves de Souza Moreira que passou a assinar Ana Gonçalves Lima e estabeleceu-se por conta própria com uma pequena casa de comércio que lhe dera possibilidade de vencer.

Capacitado para o comércio e para a indústria, foi escolhido para gerente da Companhia de tecidos Santanense, que na ocasião estava em grande dificuldade. Ao lado de seu cunhado Dr. Augusto Gonçalves de Souza e de seu cunhado Cel. Antônio Pereira de Matos, fundou em 1911 a Companhia Industrial Itaunense, que foi uma de suas maiores vitórias e como prêmio de seu alto espírito moral e empreendedor. Basta dizer que em 1912 a referida empresa esteve quase a abrir falência, tal era seu excesso de produção, sem a satisfatória procura da mercadoria fabricada, em seu ainda restrito mercado de consumo.

Entretanto, sorria-lhe o destino, pois, em 1914 explodiu a Primeira Guerra Mundial todo o estoque fabricado com o máximo de procura, foi rapidamente vendido. E daí para diante, vemos à nossa frente a grande realização de João de Cerqueira Lima.

Além de tudo isto, era João de Cerqueira Lima exímio poeta e escritor, porem só escrevia e manifestava suas produções literárias a amigos íntimos, pois, sua modéstia jamais permitiu que ele publicasse o que escrevia. Chegou a colaborar com Mário Matos e Lincoln Nogueira Machado em várias revistas, sendo que, na última delas, fez trabalhar como protagonistas, seu filho José de Cerqueira Lima e sua nora Adalgisa Matos.

Mais tarde impossibilitado de continuar em Itaúna por motivo de falta de saúde transferiu-se com sua família para o Rio de Janeiro, onde faleceu a 11 de setembro de 1942 aos setenta e dois anos de idade e recebeu sepultura nesta cidade de Itaúna.


Década 60



Referências:
*Primeira Biografia de  Dr.Lincoln Nogueira: Revista Acaiaca (Celso Brant / Ano:1954)
**Segunda Biografia de Torres do Vale: Arquivo Dr. Antônio Augusto de Lima Coutinho. Professor Marco Elísio Chaves Coutinho.
Revisão Biográfica: Afonso Henrique da Silva Lima
Textos digitados conforme originais
Pesquisa e Organização: Charles Aquino, graduado em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais / UEMG - Divinópolis/MG.
Acervo fotográfico: Prof. Marco Elísio Chaves Coutinho.

domingo, dezembro 29, 2013

MONSENHOR HILTON

Camareiro Secreto Extranumerário da Santa Sé
"Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem" João 10.14

Estamos em 1912, no último dia 31 de dezembro, nas despedidas do ano velho, que acena para o ano novo de 1913. Nos derradeiros momentos, quando todos festejam a passagem do ano, no velho casarão da Avenida Getúlio Vargas, Dona Custódia de Souza Moreira festeja de um modo todo peculiar, trazendo ao mundo mais um herdeiro, de uma prole numerosa de 15 filhos.

Seu pai, Virgílio Gonçalves de Souza Moreira o deixou muito cedo, com apenas 1 ano e 8 meses. São suas essas palavras: "Como seria bom, se eu pudesse ter conversado e discutido vários assuntos com meu pai".

Menino estudioso, inteligência brilhante, começou seus estudos no Grupo Escolar Dr. Augusto Gonçalves, surpreendeu por sua rara inteligência, ao ser alfabetizado antes dos sete anos, só porque ia à escola com sua irmã, professora, e lá ficava brincando embaixo da mesa. Gostava de trabalhar, nos momentos de folga escolar, no Armazém de seu cunhado Augusto Rodrigues, como também no Armazém de seu outro cunhado Cícero Franco. O menino Hilton transportava também, a correspondência dos correios, fazendo longas caminhadas.

Sentiu vocação para ser padre e, apoiado pela família, principalmente sua mãe e o então vigário Padre Cornélio Pinto da Fonseca. Foi estudar em Belo Horizonte, no Seminário do Coração Eucarístico de Jesus, pelos idos de 1925. Continuava bom aluno, obediente e aplicado. Sentindo, no entanto, dúvidas sobre sua vocação, pediu permissão à sua mãe, para se retirar do Seminário. Claro, essa sua decisão entristeceu muito aos seus familiares, mas foi aceita e respeitada. Fez opção pela carreira de professor indo lecionar em Sete Lagoas. Nessa época escreveu um romance ainda inédito intitulado "A Voz do Coração".

Sua mãe adoeceu e o fez voltar para Itaúna para fazer-lhe companhia nos últimos anos de sua vida. Passou a lecionar Português e Matemática na Escola Normal Oficial de Itaúna. Durante toda a sua vida gostou muito das coisas do campo e, seu tempo livre empregava-o como hortelão, cuidando de uma enorme horta no fundo da sua casa.

Pouco depois da morte de sua mãe, em 1936, o jovem Hilton sentiu novamente o chamado de Deus e, agora, sobe os degraus do Seminário muito mais firme, convicto da vocação e mais ligado à Deus. As dúvidas e as indecisões ficaram para trás. Padre Hilton viveu sua vida dedicada à Deus plenamente!

Seus estudos e orações foram coroados de êxito com sua ordenação em 1944, na Matriz de Sant'Anna, com uma grande festa. Teve por padrinhos seu irmão Manoel Gonçalves de Sousa e o Prefeito da cidade de Itaúna Dr. Lincoln Nogueira Machado. A cerimônia foi oficializada por sua Exº. Revmº. Dom Antônio dos Santos Cabral, Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte.

Veio trabalhar em sua cidade na Paróquia do Coração de Jesus de Santanense, onde seria sua última paróquia. Com seu dinamismo e disponibilidade, dedicou -se inteiramente ao serviço de Deus. Foi um percurso brilhante por suas realizações, tanto no campo espiritual, quanto no administrativo. Homem íntegro, com imensa capacidade de trabalho, sabia ser culto, sem ser pedante; polido, sem ser piegas; forte, sem ser autoritário; profundamente educado, sem ser bajulador.

No dia 20 de fevereiro de 1985 uma avalanche desabou sobre todos nós! Era o último dia de carnaval no Grêmio Paroquial de Santanense, a música tocava alegremente e os foliões dançavam despedindo-se do carnaval. E veio a notícia fulminante, que ninguém esperava ou acreditava:  Monsenhor Hilton morreu!

Foi uma morte rápida, como ele sempre desejou! E ele nos deixou! De um momento para o outro ficamos órfãos, perdemos nosso pai. Nunca vimos uma quarta-feira de cinzas tão cinza! O silêncio rolou pelas ruas, os soluços retumbavam, as lágrimas escorreram pelas faces das pessoas incrédulas, tristes, familiares, amigos, enfim, todos que tiveram o privilégio de usufruir de sua companhia e amizade.

 No momento de sua morte ele estava em sua casa à Rua Acácio Baeta nº 99 em Santanense, com sua sobrinha, quase filha, Marisa Gonçalves de Sousa. No entanto, sua passagem, em nossa paróquia, nos trouxe imensos benefícios espirituais, já que era preocupadíssimo com suas ovelhas, as quais muito amava.
Transmitia a fé e os ensinamentos como ninguém e trabalhou arduamente pelo reino de Deus. Eternamente continuará vivo em nossas lembranças e em nossos corações!

Camareiro Secreto Extranumerário da Santa Sé

Por ato recente da Santa Sé, acaba de ser elevado à categoria de Camareiro Secreto Extranumerário o Exmo. E Revmo. Monsenhor Hilton Gonçalves de Sousa. Esse sacerdote nasceu em Itaúna, aos 31 de dezembro de 1912, cursou o Seminário de Belo Horizonte e ordenou-se em sua terra natal em 1º de novembro de 1941. Conferiu-lhe o Presbiterado o Exmo e Revmo. Dom Antônio, dos Santos Cabral. Exerceu diversos cargos relevantes na Arquidiocese de Belo Horizonte, entre os quais o de Reitor do Seminário de Belo Horizonte. Trabalhou intensamente para a organização da diocese de Divinópolis e, atualmente desempenha as funções de Vigário Geral do Bispado de D. Cristiano de Araújo Pena.
Jornal O Diário, 21 de novembro 1959


REFERÊNCIAS:
Texto & acervo:  Marisa Gonçalves de Sousa
Paróquia Coração de Jesus Santanense - Itaúna mg.
Pesquisa e Organização: Charles Aquino.

sexta-feira, dezembro 20, 2013

AUGUSTO GONÇALVES (MEDICINA)

A Formatura do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira

Em um dia memorável da história, sob os auspícios do Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, Dom Pedro II, um jovem itaunense alcançou um marco significativo em sua vida. Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira, nascido em 29 de julho de 1861 em Sant’Anna de S. João Acima, na Província de Minas Gerais, filho de Manuel José de Souza Moreira e Anna Joaquina de Souza, estava prestes a ser reconhecido como um médico formado pela prestigiada Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

A cerimônia de colação de grau, realizada em 19 de janeiro de 1888, foi conduzida pelo eminente Barão de S. Salvador de Campos. O Barão, um Grande do Império, Conselheiro de Sua Majestade o Imperador, Cavaleiro da Ordem da Rosa, Médico da Imperial Câmara, Doutor em Medicina, Lente de Matéria Médica e Terapêutica e Vice-Diretor da Faculdade, representava a autoridade máxima e a tradição da medicina brasileira.

No majestoso salão da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, decorado com elegância para a ocasião, Dr. Augusto foi convocado a defender suas teses perante uma banca rigorosa de professores e especialistas. Demonstrando um conhecimento profundo e uma dedicação exemplar, ele foi plenamente aprovado, conquistando o direito de receber seu diploma de médico.

O documento, assinado pelo Barão de S. Salvador de Campos em 26 de janeiro de 1888, conferia a Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira todas as prerrogativas e responsabilidades da profissão médica, conforme as leis do Império. Este diploma não era apenas um papel; representava anos de estudo, sacrifício e determinação. Era um símbolo da confiança do Império em suas capacidades e da sua prontidão para servir a sociedade com seu conhecimento e habilidades médicas.

A formatura de Dr. Augusto marcou o início de uma carreira brilhante, pautada pela ética, pela compaixão e pelo compromisso com a saúde e o bem-estar de seus pacientes. Ele retornou à sua terra natal, onde aplicou seus conhecimentos e se tornou uma figura respeitada e admirada na comunidade. Esta conquista, realizada em nome de Sua Majestade Dom Pedro II, não apenas elevou a posição de Dr. Augusto na sociedade, mas também contribuiu para o progresso da medicina no Brasil, inspirando futuras gerações de médicos e profissionais de saúde a seguir seus passos.

Assim, a história da formatura de Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira permanece como um testemunho eloquente do valor do esforço acadêmico e do impacto duradouro que um médico dedicado pode ter em sua comunidade e além.


Em nome de sua Magestade o Senhor Dom Pedro II
 Imperador Constitucional e Denfensor Perpétuo do Brazil

FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO
Eu Barão de S. Salvador de Campos, Grande do Império, do Conselho de S.M. o Imperador, Cavalheiro da Ordem da Rosa, Médico da Imperial Câmara, Doutor em Medicina, Lente de Matéria médica e Therapeutica e Vice- Diretor da Faculdade , etc, etc, etc.
Tendo presente o termo de aptidão ao Gráo de doutor, que obteve O Sr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira, natural de Sant'Anna de S. João Acima (Provincia de Minas Geraes) , filho de Manuel José de Souza Moreira e Anna Joaquina de Souza, nascido no dia 29 de Julho de 1861, e o de collação do Gráo que recebeu no dia 19 de Janeiro de 1888, depois de ter sido approvado plenamente em defesa de Theses; e usando da autoridade que me conferem os Estatutos para que possa exercer a respectiva profissão, com todas as prerogativas concedidas pelas leis do Império.
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, 26 de Janeiro de 1888.

Animação fotografia: MyHeritage

Referência:
Acervo: Afonso Henrique da Silva Lima
Organização e pesquisa:  Charles Aquino 
Narrativa histórica baseada em fatos reais: Charles Aquino
These Medicina Doutor Augusto – Rio de Janeiro 1887

terça-feira, dezembro 17, 2013

RUA SILVA JARDIM

Antônio da Silva Jardim
(Capivari, RJ, 1860 - Vesúvio, Itália, 1891)

Nasceu no município de Capivari, hoje Silva Jardim, no Rio de Janeiro, no dia 18 de agosto de 1860.  Filho de Gabriel Jardim, professor primário e Felismina Leopoldina de Mendonça. Aos cinco anos aprendeu a ler em casa, na escola do pai, e aos seis escrevia e passava horas estudando. Em 1871, completa os estudos primários na Escola Pública da Vila de Capivari. Estuda no Colégio Silva Pontes no Rio de Janeiro.

Em 1874, matricula-se no Colégio São Bento, onde estuda português, francês, geografia e latim. Era responsável pela redação do jornal estudantil Labarum litterario. Com quinze anos publica um artigo sobre Tiradentes, no qual elogia a rebeldia contra o absolutismo.

Por falta de recursos, deixa a república e vai morar em Santa Tereza, com um primo, estudante de medicina. Em 1877, recebe do pai o valor de trezentos réis e embarca para São Paulo para cursar a Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Em 1878, inicia sua vida acadêmica, mora na república, participa de reuniões das sociedades literárias. Inicia grande atividade literária. Passa a lecionar na Escola Normal e se emprega como revisor do jornal Tribuna Liberal. Em 1881 aderiu à filosofia de Auguste Comte e inaugurou o primeiro centro positivista de São Paulo. Formado em 1882, começa a advogar. Em 1883, casa-se com Ana Margarida, filha do conselheiro Martim Francisco de Andrada.

 Foi um grande protagonista da abolição e era um abolicionista radical, disposto a burlar qualquer expediente jurídico que barrasse a libertação dos escravos. Para ele, a lei da abolição deveria ter – como de fato teve – apenas dois artigos. “A questão se resolveria assim: o primeiro artigo diria: fica abolida a escravidão no Brasil; e o segundo, pedimos perdão ao mundo por não tê-lo feito há mais tempo”. Silva Jardim foi responsável pela fuga de dezenas de escravos de fazendas paulistas."

Em 1888, com a crise do império, participa de comícios em prol da República. Por sua iniciativa pessoal, realizou em Santos, em 28 de janeiro, o primeiro comício republicano do país. A partir de então e até o fim de 1889, dedicou-se à campanha republicana. Percorreu diversas cidades fluminenses, paulistas e mineiras para divulgar o novo regime político e promoveu, também no Rio de Janeiro, numerosos comícios. Ao mesmo tempo, colaborava na Gazeta de Notícias.

Por seu radicalismo, foi excluído do Partido Republicano. Depois de instalada a República vai aos poucos sendo afastado do primeiro governo republicano. Em 1890, candidata-se para compor o Congresso Constituinte, pelo Distrito Federal, mas é derrotado. Retira-se da vida política. No dia 2 de outubro do mesmo ano, vai para Europa, em companhia da família e dos amigos Carneiro de Mendonça e Américo de Campos.

No dia 1 de julho de 1891, estando em Pompéia, na Itália, quer ver o Vesúvio. Acompanhado de Carneiro de Mendonça, arranjam um guia e foram até a cratera, aproximam-se da borda, mesmo tendo sido avisado de que o vulcão poderia entrar em erupção a qualquer momento, escorregou, caiu e foi tragado por uma fenda que se abriu na cratera da montanha, deixando o motivo dessa morte envolvido em mistério, pois a imprensa da época insinuou que ele poderia ter suicidado por desilusão política.

Assim, um vulcão lá na Europa distante, teria influenciado os rumos da República brasileira ao ceifar a vida de um ativista político que era uma esperança importante por seus pronunciamentos e atitudes diante dos novos desafios que a nação enfrentava. Sem contar que em inúmeras cidades do país existem praças, ruas e avenidas em homenagem a este grande homem.




Referências:
FILHO, João Dornas -  Livro Silva Jardim
FILHO, João Dornas. Efemérides Itaunenses. Coleção Vila Rica, Ed. João Calazans, 1951, p.252.
Acervo: Ângela Penido / Charles Aquino
Texto: Itaúna em Detalhes -Enciclopédia Ilustrada de Pesquisa (Guaracy de Castro Nogueira), fascículo, nº 21.
Pesquisa e Organização: Charles Aquino, graduando em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais / FUNEDI Campus da Fundação Educacional De Divinópolis.