sexta-feira, agosto 08, 2025

SANTANENSE 1896

CIA. TECIDOS SANTANENSE / ITAÚNA MG

Progresso em Sant’Anna de São João Acima: A Fábrica Santanense em 1896

No final do século XIX, enquanto o Brasil vivia os primeiros anos da República, algumas regiões de Minas Gerais começavam a experimentar os sinais de um novo tempo: o da industrialização. Um exemplo eloquente desse processo pode ser encontrado em um registro publicado em Belo Horizonte, no qual se destacava o desempenho da Companhia de Tecidos Santanense, situada no então distrito de Sant’Anna de São João Acima — atual cidade de Itaúna.

Fundada em 1891, a fábrica já dava sinais expressivos de vitalidade econômica em 1896. Somente naquele ano, a produção alcançou a marca de mais de 300 mil metros de tecidos de algodão, brancos e coloridos, atendendo a uma demanda crescente. O lucro líquido registrado refletia uma gestão eficiente e um mercado consumidor em expansão. A baixa quantidade de tecidos em estoque no fim do ano mostrava que a produção encontrava escoamento rápido, sem acumular-se nos armazéns: havia, portanto, circulação, consumo e retorno.

Mais do que números, o texto revela aspectos fundamentais sobre o modo como o empreendimento se organizava. A diretoria da fábrica contava com figuras proeminentes da elite local. Essa configuração mostra como o capital econômico e o capital político frequentemente se entrelaçavam na condução dos negócios regionais, impulsionando o desenvolvimento com base nas redes de influência locais. Não à toa, o Conselho Distrital, espécie de câmara local, aprovou um voto de louvor ao gerente, reconhecendo o avanço da fábrica como expressão do espírito progressista da comunidade.

E é justamente neste ponto que o texto assume um tom simbólico. Ao dizer que o progresso da fábrica “vem atestar o espírito yankee dos santanenses”, não apenas pela força e dedicação dos empreendedores locais, mas também invoca um ideal de modernidade associado a eficiência, trabalho, inovação. A frase funciona como afirmação de identidade e orgulho regional — Sant’Anna se via (ou queria ser vista) como uma vila moderna, ativa, capaz de competir em igualdade com os centros mais dinâmicos do país.

Entretanto, o entusiasmo não anula a crítica. Mesmo com solo fértil e favorável, a região não tinha um desenvolvimento suficiente no cultivo do algodão, base essencial para o funcionamento da fábrica. A dependência da importação dessa matéria-prima "em rama" é qualificada como “quase vergonhosa”, denunciando uma contradição estrutural: uma fábrica moderna funcionando em uma região que não lhe garantia insumos básicos. Era o retrato de um modelo de industrialização que, apesar do sucesso técnico, ainda carecia de integração com a produção agrícola local. O alerta é claro: o verdadeiro progresso exigia não apenas máquinas e lucros, mas também planejamento e articulação entre diferentes setores da economia.

Este documento, mais do que um simples relatório empresarial, é uma janela para compreender os desafios e ambições do interior mineiro no final do século XIX. Revela como distritos como Sant’Anna de São João Acima buscavam se destacar em meio à economia nacional, apostando na indústria como caminho para o desenvolvimento. Ao mesmo tempo, expõe as limitações de um país que tentava se modernizar, mas ainda enfrentava entraves históricos, como a concentração fundiária, a fraca diversificação agrícola e a ausência de políticas públicas voltadas à integração produtiva.

Para a história de Itaúna, esse texto é uma fonte preciosa. Ele mostra que a origem industrial da cidade não foi mero acaso, mas fruto de estratégias, investimentos e sonhos de progresso. A Companhia de Tecidos Santanense foi um dos pilares dessa transformação — não apenas por suas máquinas, mas pelo que ela representava: uma aposta no futuro, feita com os pés ainda fincados em um passado que resistia a mudar por completo.

 INDÚSTRIA MINEIRA

Lê-se na Capital de Belo Horizonte: “A Companhia de Tecidos Santanense, fundada no próximo distrito de Sant’Anna de São João Acima (1891), teve um lucro líquido de 43:435$057 (Quarenta e três contos, quatrocentos e trinta e cinco mil e cinquenta e sete réis) ou 8% sobre o capital realizado. Durante o ano de 1896 a fábrica produziu 306.089,20 metros de algodões brancos e de cores, tendo estes produtos grande procura.

Em 31 de dezembro o depósito de fazendas era apenas 24:000$000 (vinte quatro contos de réis). A fábrica tem trabalhado com quarenta teares, e montou outras machinas que devem começar a funcionar em junho próximo. É gerente da empresa o senhor João de Cerqueira Lima, sendo presidente o deputado estadual, dr. José Gonçalves de Souza e tesoureiro o senhor Manoel José de Souza Moreira.

O parecer do Conselho Distrital propôs um voto de louvor ao gerente da companhia, cujo estado de progresso é indiscutível e vem atestar o espírito yankee dos santanenses. Lamentamos tão somente, que ali, onde a uberdade do solo compensa todo o trabalho, não se desenvolva em larga escala o plantio do algodoeiro, pois é quase vergonhoso, se é que não o é em absoluto, ver-se o nosso Estado importar algodão em rama!


A análise desse documento permite refletir sobre diversos aspectos econômicos, sociais e culturais da época:

O ano de referência é 1896, período da Primeira República (ou República Velha), em que Minas Gerais buscava redefinir sua posição econômica após o declínio do ciclo do ouro e diante da ascensão do café em outras regiões. O texto evidencia a tentativa de inserção de Minas no processo de industrialização nacional, através da produção têxtil, um dos primeiros setores industriais brasileiros a se consolidar.

A Companhia de Tecidos Santanense é apresentada como um exemplo de sucesso, com: Lucro líquido de 43:435$057 réis, equivalente a 8% sobre o capital realizado, valor expressivo e indicativo de boa gestão e demanda favorável. Produção de 306.089,20 metros de tecidos brancos e coloridos — o que mostra não apenas capacidade produtiva, mas também diversificação de produtos. Baixo estoque no fim do ano (24 contos de réis), sinalizando uma venda eficiente da produção. O dado de que os produtos tinham “grande procura” reforça a ideia de que havia mercado consumidor, tanto local quanto regional, para os têxteis produzidos no interior mineiro.

A fábrica operava com quarenta teares e se preparava para instalar novas máquinas em junho, o que demonstra um processo contínuo de modernização tecnológica e ampliação da capacidade produtiva. Esse dado é relevante para compreender como, mesmo em regiões interiores de Minas, havia esforço em acompanhar os avanços industriais, importando provavelmente equipamentos estrangeiros (possivelmente ingleses ou americanos) ou de centros industriais mais desenvolvidos como São Paulo e Rio de Janeiro.

O parecer do Conselho Distrital, que propõe um voto de louvor ao gerente, demonstra o envolvimento cívico da comunidade com a fábrica. A expressão “espírito yankee dos santanenses” é especialmente significativa: elogia-se a mentalidade empreendedora, associando-a aos ideais de progresso e modernização dos Estados Unidos (referência ao “American way of business”). Essa comparação reforça um tipo de orgulho regional e um desejo de diferenciação positiva dentro do Estado de Minas, sugerindo que Sant’Anna seria um exemplo a ser seguido por sua capacidade de inovar e gerar riqueza.

Apesar do bom desempenho da fábrica, a falta de plantio de algodão na própria região. Considerando que essa era a matéria-prima fundamental para a indústria têxtil, o texto denuncia a dependência de importação de algodão em rama, o que era visto como “quase vergonhoso”.

Isso revela um paradoxo no modelo de desenvolvimento local: havia indústria, mas não havia uma base agrícola de suporte devidamente articulada, resultando em custos mais altos e dependência externa. O autor sugere que, dada a “uberdade do solo” (fertilidade), o cultivo do algodão deveria estar mais disseminado — uma crítica ao atraso agrícola diante do avanço industrial.

Este texto é uma fonte primária importante por revelar: a inserção do interior mineiro no processo de industrialização nacional; a formação de elites industriais locais com base na política e nos negócios familiares; o esforço de modernização industrial e tecnológica; a valorização simbólica da iniciativa privada e do trabalho como formas de progresso; e ao mesmo tempo, a denúncia de desequilíbrios estruturais, como a falta de articulação entre agricultura e indústria.

Para o estudo da história de Itaúna e de Minas Gerais, esse documento reforça a importância da Companhia Santanense como elemento fundacional da cidade de Itaúna, que viria a emancipar-se pouco depois, em 1901. Também serve como base para análises sobre o empreendedorismo regional, a transição entre economia agrária e industrial, e as tensões entre progresso técnico e estrutura agrária tradicional.

 

Referencias:

Organização e pesquisa: Charles Galvão de Aquino -  Historiador

Fonte impressa:

Jornal “Minas Geraes” - Ouro Preto, MG, 18 de maio de 1897, ed. 130, p.5.

Jornal “Minas Geraes”, Ouro Preto, 17 de novembro de 1891, ed. 248, p.3.

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

 

quinta-feira, julho 31, 2025

FRANCISCO 1884

HISTÓRIA ESCRAVIDÃO EM ITAÚNA MG

A narrativa a seguir é uma história inspirada em documentos históricos autênticos: os anúncios de jornais do século XIX que buscavam capturar pessoas escravizadas que haviam fugido.

Esses registros, como o publicado em 1884 sobre o jovem Francisco, detalhavam com minúcia impressionante as características físicas e comportamentais das pessoas, revelando não apenas o esforço dos senhores em recapturá-las, mas também as marcas físicas e simbólicas de uma sociedade marcada pela violência e pela desumanização.

Ao construir a história de Francisco, buscamos dar vida a essas linhas secas e burocráticas dos anúncios, imaginando as emoções, os medos, as estratégias de fuga e os encontros humanos que não aparecem nos registros oficiais. 

Não se trata de julgar com os olhos do presente, mas de fazer um exercício de empatia histórica: olhar para o passado com profundidade, entendendo o contexto e reconhecendo as resistências silenciosas e corajosas de tantos homens e mulheres.

Esta é, portanto, uma ficção baseada em vestígios reais. Um convite à memória, à escuta do que os arquivos não disseram por completo e à valorização da luta pela liberdade que moldou a história do Brasil.

 ESPERANÇA DE LIBERDADE

Em outubro de 1884, a Fazenda Medeiros, localizada em Sant’Anna de São João Acima, vivia dias de inquietação. Francisco, um jovem escravizado de 21 anos, tinha desaparecido na calada da noite, deixando para trás apenas um vazio e muitas perguntas. Pardo escuro, de estatura regular, cabelos anelados e uma expressão de determinação que desafiava o destino, ele já não podia mais suportar as correntes invisíveis que o prendiam àquela vida.

Desde cedo, Francisco era conhecido por sua inteligência e habilidade em aprender rapidamente. Apesar do trabalho árduo, ele tinha um espírito forte e alimentava um sonho proibido para muitos: a liberdade. Ele sabia que essa busca era perigosa, mas o desejo de ser dono de si mesmo superava o medo.

Na noite de sua fuga, Francisco aproveitou a escuridão para escapar pelos campos. Guiado pelas estrelas e pelo conhecimento que adquirira ao longo dos anos, ele traçou um caminho rumo às montanhas, onde esperava encontrar abrigo e talvez a ajuda de quilombos. Mas o perigo estava em todos os lugares. Os anúncios espalhados em jornais e a recompensa oferecida por José Ignácio de Mello eram um lembrete constante de que ele era caçado como um animal.

Francisco, porém, era astuto. Para confundir seus perseguidores, adotou o nome de Antônio Modesto e procurou se misturar entre os trabalhadores livres das pequenas vilas pelas quais passava. Sua capacidade de mudar de identidade, bem como sua descrição física marcante,  como a verruga em um dos lados do rosto, tornavam cada dia uma batalha para permanecer oculto.

Nessa jornada, Francisco encontrou aliados improváveis: pessoas comuns que, tocadas pela sua história e coragem, decidiram ajudá-lo. Uma dessas pessoas era Maria Clara, uma jovem viúva que, apesar dos riscos, ofereceu-lhe abrigo e informações sobre rotas seguras. Com o passar do tempo, Maria Clara e Francisco desenvolveram uma conexão profunda, unida pela esperança de um futuro melhor.

No entanto, a rede de caçadores de recompensas estava sempre um passo atrás. Em um momento de tensão, Francisco foi quase capturado ao atravessar uma pequena cidade. Foi salvo apenas graças a um grupo de quilombolas que interveio no momento certo, levando-o para um quilombo escondido nas profundezas da mata.

No quilombo denominado Catumba, Francisco encontrou mais do que proteção; encontrou uma comunidade de resistência, formada por pessoas que, como ele, tinham enfrentado o impensável em busca de liberdade. Lá, ele se tornou um líder, organizando ações para resgatar outros escravizados e lutar contra o sistema que tentava subjugá-los.

Apesar dos desafios, Francisco nunca esqueceu de onde veio nem o preço de sua liberdade. Sua história tornou-se uma lenda entre os quilombolas e as comunidades negras da região. Pouco anos depois, quando a abolição finalmente chegou, muitos se lembraram de Francisco como um símbolo de coragem e resiliência, um homem que enfrentou o impossível para conquistar aquilo que todos têm direito: a liberdade.

Ouro Preto, 27/11/1884

Elaboração: Charles  Galvão de Aquino -  Historiador

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

Ouro Preto, 27 de novembro, 1884 Santana de São João Acima (Itaúna/MG).



segunda-feira, julho 28, 2025

LIBERTOS NO PITANGUI

REVISTA DE HISTÓRIA: PITANGUI XVIII

Estudar Pitangui é essencial para compreender a história de Itaúna

A Revista de História da UEG publicou o artigo hoje (28/07/2025). O estudo investiga como libertos e suas comunidades articularam fé, reputação, palavra empenhada e estratégias jurídicas para acessar crédito, consolidar vínculos sociais e afirmar sua dignidade em uma sociedade colonial marcada por hierarquias.

Com base em fontes documentais como testamentos, registros matrimoniais, e as chamadas Ações de Alma — processos judiciais em que o juramento religioso era utilizado como instrumento de cobrança de dívidas — o artigo evidencia como a religiosidade popular e o sincretismo afro-cristão sustentavam formas de economia moral e resistência simbólica.

As irmandades leigas, especialmente as compostas por pessoas negras e pardas, são analisadas como instâncias centrais de apoio espiritual, solidariedade comunitária e regulação econômica. Ao integrar práticas religiosas, compromissos de palavra e redes de crédito informal, o texto contribui para uma historiografia que reconhece a atuação dos libertos como agentes históricos fundamentais na construção das sociabilidades no interior mineiro do século XVIII.

A leitura do artigo ganha ainda mais relevância ao se considerar que a atual cidade de Itaúna (MG) teve suas origens no antigo arraial de Santana do Rio São João Acima, que esteve juridicamente subordinado à vila de Pitangui durante o período colonial. Esse arraial, situado às margens do rio São João, funcionava como ponto estratégico de paragem e passagem de tropeiros, comerciantes e viajantes que, partindo da Corte (Rio de Janeiro), cruzavam o interior das Minas em direção à Picada de Goiás, uma das principais rotas coloniais rumo ao centro-oeste.

Esse papel geográfico e logístico inseria o arraial de Santana nas dinâmicas econômicas, religiosas e culturais de Pitangui, influenciando a formação das primeiras irmandades, práticas devocionais e relações creditícias locais. Entender, portanto, a “Pitangui” — com suas estruturas jurídicas, valores comunitários e redes espirituais — é fundamental para compreender as origens históricas de Itaúna e os traços de resistência e ancestralidade que ainda marcam sua cultura popular.


Imagem: Revista História da UEG


Faith, Credit and Freedom: Networks of Former Slaves in Colonial Brazil (18th Century)

In the eighteenth-century hinterlands of Minas Gerais (Portuguese America), the experience of freedom among formerly enslaved individuals was shaped by complex social, economic, and religious dynamics. Far from occupying marginal positions, freed people actively participated in local networks of credit, sociability, and power.

This study examines how freed individuals and their communities in the region of Pitangui articulated systems of trust, reputation, and religious belief to access credit, establish social bonds, and assert their dignity within a highly hierarchical colonial society.

Drawing on a diverse set of documentary sources—including wills, marriage records, and judicial cases known as Ações de Alma—this analysis highlights the central role of religiosity in structuring economic practices. In these legal actions, oaths invoking the soul were used as mechanisms to enforce debt repayment, revealing the deep entanglement between faith and economic life.

The evidence suggests that freed individuals were not merely adapting to existing structures, but actively reshaping them. By mobilizing trust, engaging in credit relations, and participating in lay brotherhoods, they constructed networks that combined spiritual solidarity with economic cooperation.

Lay religious brotherhoods, particularly those composed of Black and mixed-race individuals, played a crucial role in this process. These institutions functioned not only as spaces of devotion but also as arenas of mutual support, social regulation, and economic exchange.

The interplay between religious practices, verbal commitments, and informal credit networks reveals the existence of a moral economy in which economic transactions were embedded within shared ethical and spiritual frameworks. In this context, trust was not an abstract principle, but a socially constructed resource, continuously negotiated through community interactions.

Moreover, these dynamics point to forms of symbolic resistance. By asserting their credibility, participating in legal processes, and maintaining economic autonomy, freed individuals challenged the limitations imposed by a society structured around slavery and inequality.

By foregrounding the agency of freed populations, this study contributes to broader historiographical debates on slavery, freedom, and the African diaspora. It demonstrates that, even within oppressive systems, formerly enslaved individuals developed sophisticated strategies to navigate, negotiate, and transform their social worlds.

terça-feira, julho 01, 2025

COMERCIANTES PODEROSOS

PITANGUI XVIII -  ECONOMIA / MINAS GERAIS

Artigo publicado 
Tenho o prazer de compartilhar a publicação do meu artigo: 

"Comerciantes poderosos: o poder da palavra como moeda circulante no sertão do Pitangui setecentista".

A pesquisa investiga como, no contexto do declínio da mineração em Minas Gerais no final do século XVIII, comerciantes locais assumiram um papel central na economia ao utilizar a confiança, a palavra e o crédito como instrumentos de circulação e controle econômico.

Por meio da análise de documentos judiciais preservados no Instituto Histórico de Pitangui, exploro as chamadas Ações de Alma e Ações de Crédito, destacando as relações entre economia, moralidade e religiosidade na formação de redes de dependência e poder local.


O artigo contribui para as discussões sobre: Economia moral e práticas de crédito, Cultura jurídica e religiosidade no Brasil colonial, Dinâmicas de poder em sociedades de Antigo Regime e A centralidade da palavra como forma de valor.

Agradeço à Revista História e Economia pelo acolhimento da pesquisa e convido colegas, pesquisadores(as) e estudantes a acessarem, lerem e compartilharem.

Durante o período abordado no artigo — o século XVIII —, o arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima, atual cidade de Itaúna, integrava a jurisdição da vila de Pitangui. Situado estrategicamente no caminho dos sertões, o arraial era uma importante rota de passagem de tropeiros, o que favoreceu a circulação de mercadorias, ideias e práticas comerciais. É muito provável que vários comerciantes poderosos mencionados no estudo tenham atuado ou transitado por essa região, reforçando o papel do território itaunense nas redes econômicas e creditícias do período colonial.

🧾 Link para o artigo completo (acesso livre):

Referência:

A Revista História e Economia do Instituto Lima Barreto para a Mobilidade Social é uma publicação interdisciplinar editada pelo Instituto e pela Universidade de Extremadura (UNEX), sendo dirigida por um conselho editorial composto por professores de diferentes universidades, no Brasil, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal.

Instituto Lima Barreto para a Mobilidade Social

Rua Saubara, 189. Itanhangá.

Rio de Janeiro, RJ 22641-550

Universidade de Extremadura

Departamento de História

Avenida de Elvas s/n 06006 Badajoz, Espanha


Credit, Faith and Power: Trust as Currency in Colonial Brazil (18th Century)

In the late eighteenth century, in the region of Pitangui (Minas Gerais, Portuguese America), local economic dynamics were deeply shaped by the decline of gold mining and the resulting scarcity of metallic currency. In this context, systems of credit based on trust, reputation, and verbal commitment emerged not as peripheral mechanisms, but as central pillars of economic life.

This study examines the role of powerful merchants in structuring and sustaining these credit networks, highlighting how the “word” functioned as a form of currency. Drawing on judicial records—particularly Ações de Crédito (Credit Actions) and Ações de Alma (Soul Actions)—this analysis reveals how economic practices were inseparable from moral and religious frameworks.

Unlike modern financial systems grounded in formal contracts and institutional guarantees, credit relations in colonial Pitangui relied heavily on personal honor and social recognition. The credibility of an individual was constructed within a network of relationships, where reputation operated as both economic capital and social control mechanism.

Merchants occupied a strategic position within this system. Far from acting merely as intermediaries of goods, they functioned as key agents in the circulation of credit, establishing bonds of dependency and influence that extended across different social strata. Their power was not solely economic, but also symbolic, rooted in their capacity to mobilize trust and enforce obligations.

Judicial documentation provides crucial evidence of these dynamics. Through Ações de Crédito, creditors sought legal recognition of debts, often grounded in verbal agreements. Meanwhile, Ações de Alma reveal the intersection between economy and religiosity, as debts were framed not only as financial obligations but also as moral and spiritual commitments.

This intertwining of faith and economy reflects a broader cultural logic in which religious beliefs reinforced systems of accountability. The invocation of the “soul” in legal disputes underscores how trust was not merely a pragmatic tool, but a deeply embedded social value, sustained by shared moral expectations.

Furthermore, these credit networks contributed to the maintenance of social hierarchies. By controlling access to goods and credit, merchants reinforced structures of dependency, consolidating their position within the local power structure. In this sense, credit functioned not only as an economic instrument but also as a mechanism of social organization.

By situating local practices within wider historiographical debates, this study contributes to discussions on informal economies, the role of trust in pre-modern societies, and the intersections between religion and economic behavior. It also challenges simplified narratives of monetary scarcity by demonstrating the existence of complex and adaptive systems of exchange.

Ultimately, the case of Pitangui reveals that, in the absence of sufficient coinage, the “word” itself became a form of currency—one that circulated through networks of trust, honor, and faith, shaping both economic transactions and social relations in colonial Brazil.

domingo, junho 15, 2025

O JURAMENTO

CIA. TECIDOS SANTANENSE - MG

No fim do século XIX, em pleno coração do arraial de Sant’Ana do Rio São João Acima — hoje Itaúna, em Minas Gerais — desenrola-se um dos mais expressivos embates públicos da história local: uma disputa moral, administrativa e profundamente pessoal entre quatro figuras ilustres da vila mineira. 

O palco? A Companhia de Tecidos Santanense. Os protagonistas? O reverendo Vigário Antônio Maximiano de Campos, o Coronel João de Cerqueira Lima (gerente da companhia e autor do texto), o acionista Manoel Gonçalves de Souza Moreira e o conselheiro fiscal Francisco Manoel Franco.

O texto intitulado “O Senhor Francisco Manoel Franco e o Seu Juramento”, publicado na Gazeta de Oliveira em abril de 1898, é uma peça documental marcada pela retórica ardente, pela defesa vigorosa da honra e pelo uso do espaço público no caso, a imprensa  como arena de justiça. Franco jura em plenário pela veracidade das informações e é justamente esse juramento que dá nome ao texto.

Cerqueira Lima, sentindo-se injustamente acusado de irregularidades na gestão da companhia, redige uma carta aberta à comunidade, na qual reconstitui, com riqueza de detalhes, as tentativas de difamação baseadas em rumores e insinuações não comprovadas. A acusação mais grave? Que o Coronel se abasteceria no armazém da companhia sem pagar pelos produtos, e que teria rendimentos ocultos incompatíveis com sua função.

Diante da Assembleia de acionistas, o Coronel não apenas se defende com dados, documentos e uma narrativa precisa de suas ações, como exige provas. No clímax do embate, a verdade é tensionada com a chegada de uma carta do acionista Manoel Gonçalves — suposto autor da informação — que, tomado de surpresa, revela não ter conhecimento prévio de tal episódio.

Além de relatar esse episódio com detalhes minuciosos, o texto é um excelente exemplar da linguagem de época: solene, rebuscada, repleta de expressões que traduzem a eloquência e o peso moral de se viver numa sociedade pautada pela reputação e pelo prestígio pessoal. A estrutura do discurso é digna das grandes defesas forenses, com introdução, argumentação, provas e clímax dramático. Trata-se, portanto, de um documento que atravessa a mera defesa pessoal é também um testemunho sobre os valores, os modos de governança e os códigos de honra de uma vila em transformação.

O texto é exemplar da oratória mineira do século XIX, especialmente em contextos de embates administrativos e de honra. Sua ortografia está em consonância com as normas da época. A força do texto está na sua capacidade de dramatizar um conflito ético, utilizando-se de uma retórica formal e cuidadosamente estruturada, que ainda hoje ecoa como documento cultural, lingüístico e histórico.

Convido você, leitor ou pesquisador da história mineira, a conhecer e analisar mais de perto esse embate singular onde honra, palavra, fé e poder administrativo se entrelaçam num texto digno das grandes batalhas retóricas do Brasil oitocentista.

Venha descobrir como, numa época de poucas testemunhas e de muitos boatos, a verdade encontrava sua melhor aliada na palavra escrita e como um homem usou a eloquência, a imprensa e o senso de justiça para defender seu nome diante da história.


O SENHOR FRANCISCO MANOEL FRANCO E O SEU JURAMENTO

“Jurar e por na balança da justiça alguma coisa mais do que o próprio nome, a consciência em abono da verdade”

Como gerente da Companhia de Tecidos Santanense, cumpria um dever submetendo a apreciação do muito digno Conselho Fiscal da Companhia, os livros e mais papeis bem como o balanço relativo ao ano administrativo de 1897.

Cumpria ainda um dever respondendo as informações que me foram solicitadas pelo muito digno membro do Conselho Revmo. Vigário Antônio Maximiano de Campos, que, solícito e escrupuloso no desempenho de seu cargo quis este senhor de um modo, orientar-se da origem de alguns títulos do vencimento de alguns empregados e mesmo das condições em que minhas compras no armazém da fábrica, eram efetuadas.

Levar suas pesquisas a este ponto de indagar como eram realizadas as minhas compras no armazém, vi nisso, uma revelação como vislumbre de gravidade; abençoada revelação. O senhor Vigário Campos como membro do Conselho Fiscal da Companhia de Tecidos Santanense, cumpria o seu dever, era fiscal competia-lhe, portanto, ver, examinar, informar-se de tudo e emitir sua opinião.

Lamento que outro tanto não fizesse o digno membro do Conselho, senhor Francisco Manoel Franco; porquanto limitou-se apenas a folhear em silêncio as páginas do Diário, a demorar suas vistas de profissional no balanço e não passou disso; não pediu sequer um esclarecimento.  

Dar-se-ia talvez por satisfeito como o seu escrupuloso exame não carecendo de esclarecimento algum; ou pelo menos contentar-se-ia com os que me haviam sido solicitados pelo Revmo. Vigário Campos, os quais de muito bom agrado forneci.

Dias depois comparecia o digno membro do Conselho Fiscal, senhor Thomaz Antônio de Andrade; a ele foram por mim postos a sua disposição todos os livros e mais papéis bem como o balanço sobre qual cumpria-lhe dar seu parecer etc. Por minha vez chamei atenção desse senhor para que sindicasse com minuciosidade sobre a origem de qualquer lançamento ou procedência de qualquer título que lhe parecesse estranho, declarando-me ao mesmo tempo pronto para fornecer-lhe todo e qualquer esclarecimento que preciso fosse.

O seu exame não foi menos escrupuloso; porquanto orientando [...] financeiro da Companhia e do seu [...] industrial, mostrando satisfeito. Habilitado o Conselho Fiscal a [...] o autorizado parecer, apresentou a Diretoria em 16 do corrente.

A reunião dos dois primeiros membros teve lugar em 11 do corrente, e em 12 fui surpreendido com o que meu respeito havia sido informado, o meu particular amigo Vigário Campos. Quem seria o autor de semelhantes informações? É cedo ainda; e o seu nome não importa.

De fato, uma suspeita que implica a própria desonra pairava de um modo premeditado e covarde sobre meu nome. Ciente pois do que a meu respeito se dizia, ou antes boatos dirigidos, pensados e premeditados por uma só cabeça, fiquei tranquilo e agradeci de bom grado a providência que assim me deparava um justo motivo de explicar com as mais cabais e satisfatórias provas, o timbre de todos os meus atos. Aproximava-se o dia da reunião da Assembleia Geral dos acionistas, convocada para 26 do corrente; belíssima ocasião; ela seria ciente de todos os meus feitos.   

O título “Despesas Gerais” sobre o qual poderia visar alguma suspeita, foi por mim apresentado em conta corrente, objeto por objeto, pagamento por pagamento, ao muito digno membro do Conselho Vigário Campos, em 20 do corrente, ficando a mesma com ele até dia 26. E esta conta não datava só o do ano de 1897, pois vinha desde a data em que assumi a gerência da Companhia em 1895.  Ainda [...] julguei [...] ainda para o mesmo [...] sorte que apresentou todas, poderia a Assembleia julgar-se habilitada a sondar qualquer irregularidade se realmente essa existisse.

Chegou finalmente o dia 26. As 12 horas da manhã assumia a presidência da mesa o acionista Vigário Campos que declarou acharem-se presentes acionistas que representavam 1.249 ações, por conseguinte; mais de um terço do Capital da Companhia.

Aprovado o parecer do Conselho; rejeitada por unanimidade a emenda, que mandava distribuir como dividendo os lucros suspensos, proposta por um dos seus membros, senhor Franco, no respectivo parecer; aprovadas enfim, todas as contas da Companhia, reeleitos os mesmos ficais para o exercício de 1898, eu exercendo um dos mais sagrados deveres, pedi a palavra.

 Senhores Acionistas.

Ciente das referências que a meu respeito foram feitas ao digno membro do Conselho senhor Vigário Campos, referencias que desabonam o meu caráter, a minha reputação, a minha consciência, eu acredito cumprir um dever acrescentando-vos de todo tempo de minha gestão, a origem de todos os meus atos administrativos, a cópia fiel de todos os lançamentos sobre os quais possa haver qualquer suspeita.  Declaro-vos, pois, que, sobre qualquer título, qualquer lançamento, sobre enfim, qualquer ato de minha gestão, acho-me habilitado a demonstrá-lo, a esclarecê-lo, a prová-lo.  

E aqui perante vós, perante quem quer que seja, eu protesto contra semelhantes referências e convido o seu autor a provar-me o que disse, a menos que não queira passar por um caluniador.

Dizer-se que me alimento à custa do armazém da Companhia sem que me sejam debitados os gêneros que careço; dizer-me que as venda da Companhia ou aliás, o seu produto em fazendas, fora por mim confessado em $300 e tantos contos de réis em 1897; dizer-se finalmente que as venda da Companhia no próximo mês de janeiro, foram ainda por acusadas em $50 e tantos contos; Senhores! Isto importa em um abuso de tal ordem, que reclama as vossas mais sérias e mais enérgicas providências.

Eu cumpro um dever apresentando-vos todos os meus atos documentados por uma escrita que não sofreu emendas, e que pelo seu sistema todos os títulos estão harmoniosamente ligados, uns aos outros. Ei-la aí está; examinai-a; sondai esses descalabros dos quais eu peço, eu exijo formalmente a prova. Por minha felicidade achavam-se presentes o enformado e o informante; este apresentou-se finalmente.

Quem havia de ser meu Deus! Um dos membros do Conselho Fiscal, o senhor Francisco Manoel Franco; que boas provas, deve ter; sim porque na sua qualidade de fiscal compete lhe ou pelo menos assiste-lhe o dever de saber, examinar, pedir informações a pessoa competente; ouvir todo e qualquer esclarecimento; fiscalizar, enfim, o erro o descalabro, a mentira e emitir em seu parecer a verdade nua e crua de suas pesquisas.

Vejamos as suas provas: Quem diz o que o senhor se fornece do armazém da Companhia, dos gêneros para seu consumo e que estes não lhe são debitados, são os empregados da fábrica.

Um fiscal de uma Companhia fundar suas provas por um boato, de cujo eu duvido formalmente e tanto que o convido a provar-me declinando o nome ou nomes desses empregados. Mas não isto o senhor Franco não fará de certo; a menos que não queira comprometer a terceiros inocentes. Mas contra essa prova vã indigna de um homem e muito mais de um fiscal, aí tem minha caderneta; mais depressa ela lhe dirá que os gêneros alimentícios ou outros quaisquer que ali compro-me, são debitados pelo custo e carreto com 10% do que de graça.   

Aí está minha conta corrente com a Companhia; vereis por ela que hão de ter sido regulares os pagamentos que tenho feito do armazém da fábrica. Os empregados são que dizem, sim; os empregados da intriga, os empregados da inveja, os empregados da calúnia, digo-lhe eu.

Continuam as suas provas: Que o produto da fábrica de 300 e tantos contos em 1897, ouvi do senhor. De mim? Ainda bem que o senhor fiscal andou desta vez melhor. Disse-lhe então que o produto da fábrica em 1897 foi de 300 e tantos contos? Pois olhe o balanço diz menos; apenas nos demonstra 184 contos e tantos. 

E o que é que vossa senhoria quis pretender com isso? Acaso demonstrar uma lesão em meu benefício próprio de cento e tantos contos! Extraordinária gerência! Não embaraçada por uma crise que fará época na história brasileira, assombra com lucros fabulosos ultrapassando a expectativa ao senhor Franco, mas ao mesmo tempo mesquinha de mais em distribuir dividendos.

Não senhor Franco; o senhor não ouviu isso de mim, afirmo-lhe; porém o que é fato é ter-lhe declarado a produção da fábrica em 1897, em 320 e tantos mil metros de fazendas; e como 320 e tantos mil metros de fazendas, não são 300 e tantos contos, logo o senhor sacrificou a verdade com os seus algarismos exagerados.

Ter-lhe dito também que as vendas da fábrica em janeiro já saiam a 50 e tantos contos, não é certo; porém poderia dizer-lhe, e disto não tenho lembrança e nem sequer me lembro se conversamos a respeito que as nossas vendas inclusive pedidos para aprontar, andavam por cento e tantos fardos. Mas não é só.   

O senhor Franco não satisfeito de pretender mesclar a reputação alheia, de mim que procuro simplesmente nos meus trabalhos, nos meus esforços, de um modo condigno, tornar-me sempre merecedor dos aplausos da minha consciência, da minha família, da sociedade em que vivo, quis ainda ir mais longe comprometendo a terceiros.

Vejamos, vejamos a sua última prova; ela vai ser enérgica, precisa e incontestável:

— Ouvi do senhor Manoel Gonçalves de Souza Moreira, que o senhor contara a senhora deste, ter o senhor como gerente da Companhia de Tecidos Santanense o rendimento anual de vinte e tantos contos, subindo, por conseguinte as suas retiradas a esta importância. O senhor diz que ouviu do senhor Manoel Gonçalves (ainda bem que isto me satisfaz), e eu digo-lhe que o senhor não ouviu do senhor Manoel Gonçalves o que SSª acaba de falar; eu afirmo-lhe em pleno vigor da palavra, com toda energia que vai nesta expressão, o senhor não ouviu.

A um protesto tão formal o senhor Franco em plena Assembleia, surpreendeu-a prestando um juramento, em abono do que acabava de relatar. Jurar! — Eu juro! — quando estas palavras nos saem dos lábios, o homem parece reunir nelas, toda a extensão do seu ser: crenças honra consciência o próprio nome forma o conjunto dessas duas palavras — eu juro. — E o senhor Franco jurou. Não lhe quis dizer que sacrificara o seu juramento: não obstante manifestei-lhe a mesa, que duvidava da sua validade porquanto sabia que tal confidência, não podia ter existido.  

Compreende-se, pois, que o senhor Franco jurou e eu duvidei do seu juramento; a exceção desta confidência recurso de momento não logrou provar coisa alguma; as suas suspeitas as suas provas, careciam da verdade. Ficou o juramento.

Ora eu tinha duvidado e quem duvida em questões desta natureza, deseja, ou pelo menos assiste-lhe o dever, de documentar as suas dúvidas com provas cabais. Assim foi que dirigi ao senhor Manoel Gonçalves de Souza Moreira, a seguinte carta:

Ilustríssimo senhor Manoel Gonçalves de Souza Moreira.

Convido a Vossa a Senhoria a provar-me a existência de uma confidência por mim feita a vossa Excelentíssima Senhora ... e que versa sobre o seguinte: Ter eu declarado a vossa Excelentíssima Senhora [...] da Companhia de Tecidos Santanense o rendimento anual de vinte e tantos contos, subindo, por conseguinte a esta importância as minhas retiradas.

Faço isto pelo fato de Assembleia Geral de acionistas hoje reunidos, o membro do Conselho Fiscal, senhor Francisco Manoel Franco ter declinado o nome de Vossa Senhoria como transmissores de semelhante confidência. Esperando à vossa resposta, conto que não me será negado fazer dela o uso que me convier. Com apreço me subscrevo.  De Vossa Senhoria, Coronel João de Cerqueira Lima. Sant’Anna, 26 de março de 1898.

Eis a resposta:

Ilustríssimo senhor João de Cerqueira Lima. Acabo de receber, neste momento, a vossa carta datada de ontem e apreso-me em respondê-la. Surpreendeu-me a vossa pergunta, porque nunca falei nem ouvi falar de pessoa alguma que Vossa Senhoria recebia da Companhia Tecidos Santanense vinte e tantos contos de rendimento anuais. E posso garantir-lhe que não sei o quanto Vossa Senhoria tem de vencimento e nem me compete saber; e tenho por hábito não ocupar ou indagar daquilo que não me compete ou não diz respeito meu particular. Pode fazer desta o uso que convier. Subscrevo. Vosso admirador. Manoel Gonçalves de Souza MoreiraBasta estou satisfeito. Sant’Anna de São João Acima 28 de março de 1898.

    

Referências:

Pesquisa e elaboração: Charles Aquino

Ilustração criada com IA, inspirada no conteúdo do texto.

Hemeroteca Digital Brasileira. Biblioteca Nacional. Jornal Gazeta de Oliveira (MG), 17 de abril de 1898, nº 552, p. 2.  Disponível em: <https://memoria.bn.gov.br/docreader/DocReader.aspx?bib=850420&pagfis=119>.

  

sábado, maio 31, 2025

UM MILHÃO

BLOG ITAÚNA DÉCADAS - HISTÓRIA MEMÓRIA

É com grande satisfação que anuncio um marco significativo na trajetória do Blog Itaúna Décadas: atingimos no mês de maio de 2025, em 13 anos de existência, a notável marca de 1.000.000 (um milhão) de visualizações.

Este feito não apenas atesta o amplo alcance do blog, mas também reforça a relevância do trabalho historiográfico que aqui se desenvolve, voltado à preservação da memória local e regional.

Desde sua criação em 2011, o Itaúna Décadas assumiu o compromisso de sistematizar, difundir e problematizar a história de Itaúna, contribuindo para o entendimento de sua formação social, cultural e econômica. 

Fruto de pesquisa documental e da interlocução com fontes orais, o blog consolidou-se como referência para estudiosos, educadores e cidadãos interessados na trajetória desta cidade que, historicamente, integrou o Sertão de Pitangui e o Centro-Oeste Mineiro.

Importa ressaltar que o Itaúna Décadas funciona como plataforma aglutinadora de diversos projetos colaterais cujos subblogs aprofundam temáticas específicas, tais como:

Ruas de Itaúna: proposta de investigação sobre a história inscrita nos nomes dos logradouros da cidade, que oferece um novo olhar à evolução urbana e toponímica de sua malha viária, refletindo as transformações socioespaciais ao longo do tempo. 

Este estudo também destaca as personalidades que marcaram a trajetória do município, defendendo a preservação da memória e a valorização desses agentes — entre outras figuras relevantes — cuja atuação contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento de Itaúna.

Casa de Caridade de Itaúna: estudo institucional e histórico aprofundado da Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza Moreira (Santa Casa), que investiga suas origens, sua estrutura funcional, a trajetória de resistência e os impactos no sistema de saúde e de assistência social local. Essa análise considera as políticas públicas vigentes na província mineira até os dias de hoje.

Afrodescendentes de Itaúna: pesquisa dedicada a identificar, resgatar e divulgar a presença, as estratégias de sociabilidade e a memória das populações afrodescendentes em Itaúna, contribuindo para uma historiografia que amplie a compreensão das dinâmicas étnico-raciais no interior de Minas Gerais.

Resgate da História do Centro-Oeste Mineiro e Sertão de Pitangui: projeto que contextualiza Itaúna no âmbito administrativo e territorial do antigo Sertão de Pitangui, mapeando redes de circulação mercantil, fluxos de escravizados, práticas religiosas e estruturas de poder econômico entre os séculos XVII e XIX.

A consolidação dessas frentes de pesquisa, todas hospedadas sob o domínio itaunaemdecadas.blogspot.com, revela a pluralidade de abordagens que o blog oferece aos leitores. Essa rede de publicações vem sendo construída a partir de leituras de várias fontes primárias—como atas capitulares, registros paroquiais, documentos notariais e periódicos locais—e de um diálogo contínuo com a historiografia regional e nacional.

O alcance de um milhão de visualizações simboliza, em termos acadêmicos, a consolidação de um espaço digital de memória que ultrapassa a simples acumulação de acessos. Trata-se de um indicador de que o público reconhece a importância de recuperar narrativas muitas vezes marginalizadas pelos cânones historiográficos tradicionais seja a trajetória dos afrodescendentes, o legado das instituições assistenciais, a dinâmica urbana ou as redes de poder econômico que se formaram em torno de “Pedra Negra” (Itaúna) quando parte do antigo Sertão de Pitangui.

Cada visita contabilizada representa um agente interessado em refletir sobre as raízes da comunidade, materializando, assim, o processo de construção de uma identidade coletiva.

Agradeço sinceramente a todos os colaboradores, leitores, parceiros institucionais e fontes orais que, ao longo dos anos, dedicaram tempo e interesse para viabilizar este projeto. O sucesso alcançado é o resultado de múltiplas contribuições: depoimentos de moradores, doações de acervos fotográficos, indicações de documentos e debates estimulantes com pesquisadores locais.

Por fim, reafirmo meu compromisso com o aprofundamento contínuo das pesquisas apresentadas no Itaúna Décadas e, em especial, nos subblogs: Ruas de Itaúna, Casa de Caridade de Itaúna, Afrodescendentes de Itaúna e Resgate da História do Centro-Oeste Mineiro e Sertão de Pitangui. Que este marco de um milhão de visualizações seja um convite renovado à reflexão crítica sobre nossa história, incentivando novos leitores a colaborarem com sugestões, correções e relatos que possam enriquecer ainda mais este espaço. 

Charles Galvão de Aquino

Historiador - Registro Nº 343/MG

quinta-feira, maio 29, 2025

MANOEL & DONA COTA

Na trajetória de Manoel Gonçalves de Souza Moreira, não há como dissociar sua grandiosidade filantrópica da presença constante e marcante de sua esposa, Maria Gonçalves de Souza Moreira, carinhosamente conhecida como Dona Cota

O casal, unido não apenas pelos laços matrimoniais, mas também pela fé e pelo compromisso com a generosidade, protagonizou uma história de parceria, cumplicidade e devoção mútua.

A história do casal Manoel e Dona Cota é um testemunho de que o verdadeiro amor transcende a vida cotidiana e se manifesta em gestos de grandeza. 

Eles não apenas compartilharam uma trajetória comum, mas construíram, juntos, um legado de amor ao próximo, de devoção à caridade e de respeito mútuo.

 Hoje, ao olhar para a Casa de Caridade que leva o nome de Manoel, também se deve recordar a presença silenciosa, mas essencial, de Dona Cota – a mulher que, com sua ternura e força, foi o alicerce do grande homem que Itaúna/MG jamais esquecerá.

LEGADO DONA COTA  ✅

GONÇALVES PELA EUROPA ✅

TESTAMENTO MANOEL GONÇALVES ✅


Arte e texto: Charles Aquino 

sábado, abril 19, 2025

LIBERTOS EM PITANGUI XVIII

ESCRAVOS EM PITANGUI XVIII
Descubra como ex-escravos moldaram a economia no coração de Minas Gerais colonial! Na edição nº 11 da Revista GALO (jan./jun. 2025), o historiador Charles Galvão de Aquino assina o artigo: “Práticas Creditícias: dinâmicas de poder entre libertos em Pitangui no século XVIII”.
Nesta análise minuciosa, o historiador revela como libertos — muitos deles trazidos da África pelo tráfico escravista — participaram ativamente do mercado de crédito na vila de Pitangui. 
O texto mostra que, mesmo após a experiência do cativeiro, essas pessoas exerceram papéis centrais como credores e devedores, demonstrando notável capacidade empreendedora ao oferecer empréstimos, comercializar produtos e construir reputações que garantiam acesso ao crédito.
Mais do que simples sobrevivência, a atuação desses agentes revela formas complexas de inserção social, poder e mobilidade, que incluíam inclusive a aquisição de cativos. Um retrato revelador da contribuição dos libertos para a sustentação das estruturas econômicas e sociais da sociedade colonial.

O artigo nos revela a participação de ex-escravos nas práticas creditícias em Minas Gerais. Considerando que os personagens que aparecem como credores e devedores nos processos de dívidas que o autor analisa eram pessoas que viveram a escravidão, muitos chegados ao Brasil pela migração forçada do tráfico, sua atuação no mercado de crédito demonstra uma incrível capacidade empreendedora, tanto ao fornecer empréstimos ou produtos e serviços à crédito, quanto ao construir reputação para tomar dinheiro emprestado.
Como corolário dessa competência, o autor mostra que egressos do cativeiro frequentemente adquiriram escravos e conclui que os libertos desempenharam um papel essencial na sustentação das relações econômicas e sociais da vila mineira de Pitangui, no século XVIII”.

Curiosidade histórica: O arraial de Santana do Rio São João Acima — atual município de Itaúna/MG — integrava, no século XVIII, a jurisdição da vila de Pitangui, estando sujeito às suas autoridades civis, eclesiásticas e judiciárias.

REVISTA GALO - ED.11/2025

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Dossiê: Formas de liberdades e vidas de libertos no escravismo atlântico

Ano 6, nº 11 – jan./jun. de 2025 – doi: https://doi.org/10.53919/g11

Organização Dr. Afonso de Alencastro Graça Filho; Me. Bruno Martins de Castro e Dr. Carlos de Oliveira Malaquias

O sucesso da historiografia sobre escravidão e liberdade tem demonstrado que as diversas estratégias empreendidas por africanos e seus descendentes – como a alforria, a fuga ou revolta, ou a demanda à justiça – correspondiam a variadas experiências de autonomia, seja como produtor independente, trabalhador subordinado, foragido ou diversas outras formas mais ou menos precárias de liberdade.

Partindo dessas e de tantas outras questões que a temática proposta enseja, objetivamos congregar aqui trabalhos de pesquisa que possam explorar a riqueza e a complexidade das relações sociais, econômicas e políticas que pautaram e conformaram as diversas experiências de escravidões e liberdades no escravismo atlântico, ao longo de sua história. Fitar essa realidade, acima de tudo, permite-nos compreender e problematizar muito daquilo que nos tornamos. Afinal, a intolerância, as desigualdades e o racismo, marcas deletérias de nosso tempo, possuem raízes históricas profundas e sua superação não se dará sem conhecermos os caminhos trilhados até aqui.


Freed People in Pitangui: Economy and Society in 18th-Century Colonial Brazil

During the eighteenth century, the region of Pitangui, in Minas Gerais (Portuguese America), was characterized by dynamic social and economic interactions shaped by the broader context of colonial expansion and the gradual decline of gold mining.

Within this setting, formerly enslaved individuals—commonly referred to as freed people—played a significant and often underestimated role in local society. Far from occupying marginal or passive positions, they actively participated in economic exchanges, social networks, and legal practices.

Evidence from historical studies shows that freed individuals were integrated into a wide range of economic activities, including trade, credit relations, and even slave ownership. Their participation reveals a complex social reality in which freedom did not necessarily imply exclusion, but rather a reconfiguration of roles within the colonial hierarchy.

The village of Pitangui functioned as an important regional center, where diverse groups—including merchants, landowners, enslaved individuals, and freed populations—interacted within a structured yet flexible social system. Judicial and administrative institutions provided spaces in which these interactions could be negotiated and formalized.

In this context, freed people contributed significantly to the maintenance of local economic and social relations. Their involvement in credit systems, commercial exchanges, and community life demonstrates that they were active agents in shaping the colonial order, rather than merely subjects of it.

Moreover, the historical connection between Pitangui and surrounding regions—such as the area that would later become the municipality of Itaúna—highlights the broader territorial networks in which these dynamics unfolded.

Understanding the role of freed populations in Pitangui allows for a more nuanced interpretation of colonial Brazilian society, emphasizing the importance of agency, adaptation, and social negotiation within a system marked by inequality and hierarchy.