sexta-feira, setembro 20, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (IV)

CENTRO OESTE DE MINAS GERAIS - SAÚDE

Teve grande repercussão em nossa cidade o Concurso de Robustez Infantil promovido pelo Centro de saúde de Divinópolis, como preliminar ao grande concurso que será realizado no fim do ano na Capital do Estado.

O dr. Mario Figueiredo, esforçado diretor daquele centro, não tem poupado energias para o maior brilhantismo do certâmen: grande é o número de prêmios que recebeu aquele posto para serem distribuídos às crianças vencedoras.

Em Itaúna já estão fichadas e prontas para concorrerem ao concurso as seguintes crianças:
FILHO
PAI
Evandro Alberto
dr. Lima Coutinho
Luiz Augusto
dr. Augusto Gonçalves
Zenolia
sr. Crispim Magalhães
Ildeu
sr. Francisco Guimarães
José Jorge
Sr. Messias Jorge
José Joaquim
sr. Alcino Ribeiro
Danilo
sr. Bossuet Guimarães
Renée
sr. Tertuliano Queiroz
Carlo Nei
sr. Acrísio Moura Costa
Guido
sr. Francisco Saldanha
Adolfo
sr. Adolfo Mendes

Há ainda várias outras crianças cujas filhas estão em preparação. Os pais que possuírem filhos robustos, com idades de 3 meses a um ano, e desejarem que concorram ao concurso, devem procurar os drs. Lima Coutinho, Lincoln Nogueira, Hely Nogueira e José Drumond.

Robustez em Divinópolis

A campanha em torno do primeiro Concurso de Robustez Infantil em Divinópolis, estava com base na ideologia da “eugenia positiva[1] (SOARES, 2012), por meio de cuidados biológicos e tratando dos problemas sociais, não como questões raciais, mas como decorrência de precárias condições de saneamento, que grande parte da população urbana e rural do início do século XX se encontravam.

O dr. Figueiredo acreditava que o concurso seria uma forma de conscientizar e educar as famílias para o fortalecimento das sociedades humanas e consequentemente a do país, tendo como principal alvo, “a participação da mulher na construção de uma nação forte e saudável”. (ALMEIDA, 1928, p.160).

As inscrições para o primeiro concurso de robustez foram realizadas no próprio Centro de Saúde de Divinópolis, entre o período de agosto a outubro de 1933.

O local do concurso de Robustez, foi realizado no Cine Avenida, localizado no centro da cidade. Neste evento, reuniram-se cerca de quatrocentas pessoas, entre várias personalidades: políticos, médicos, sanitaristas, colaboradores e a população divinopolitana. 

O concurso foi superintendido pelo dr. Mário Augusto de Figueiredo e composto por um grupo de médicos que constituiu uma comissão de júri: dr. José Drumonddr. Aristóteles de Barros, dr. Dario Gonçalves, dr. Antônio de Lima Coutinho, sendo todos médicos da cidade de Itaúna/MG e dr. Ananias Ataliba Teixeira, médico da cidade de Formiga.

CONCURSO ROBUSTEZ INFANTIL -MG

O evento contou com a presença do farmacêutico e prefeito da cidade de Divinópolis, Pedro X. Gontijo, ficando o discurso inicial na incumbência do juiz municipal, dr. José Pereira Brasil. O orador fez “largas considerações sobre a eugenia” e enalteceu o bom trabalho realizado pelo dr. Mário no município.

Em seguida, foi realizada uma conferência pelo universitário, Paulo Augusto de Figueiredo, filho do dr. Mário, com o tema: “Como enriquecer a nação com filhos sadios e robustos”, referindo-se também aos problemas da higiene infantil e pré-natal, focalizando na questão do amparo a infância proletária.

ROBUSTEZ INFANTIL MG

Encerrada a conferência, dr. Mário deu continuidade ao concurso de robustez que chegou ao número de 50 crianças participantes, sendo classificadas as 10 primeiras robustas recebendo prêmios e brindes como forma de incentivo à saúde. 



REFERÊNCIAS:

ORGANIZAÇÃO E PESQUISA: Charles Aquino
ALMEIDA, Jane Soares de. Imagem feminina e maternidade: o concurso de robustez infantil em São Paulo. 1928. p. 160,163,165,166. Disponível em: <http://emaberto.inep.gov.br/index.php/rbep/article/view/769/744> Acesso em:  04 out. 2016.
AZEVEDO Francisco Gontijo de; AZEVEDO, Antônio Gontijo de. Da História de Divinópolis. Divinópolis: Graphilivros,1988. p.50.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1933, p.6.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 13 de setembro de 1931, p.6.
 JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 24 de novembro de 1933, p.7.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1933, p.11.
JORNAL: CORREIO DA MANHÃ, Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 1934, p.5.
JORNAL: LAVOURA E COMÉRCIO, Uberaba, 23 de julho de 1936, p.2.
JORNAL: O OPERÁRIO, Montes Claros, 15 de setembro de 1934, p.1.
AQUINO, CHARLES; SANTOS, HELENO: UEMG. 6º Período História. JORNADA DA SAÚDE: PRÁTICAS EDUCATIVAS E POLÍTICAS EM DIVINÓPOLIS NA DÉCADA DE 30.
ROBUSTEZ EM ITAÚNA TEXTO: Jornal de Itaúna, 22 de outubro 1933, p.1.
ACERVO: Professor Marco Elísio Chaves Coutinho (In Memoriam), Charles Aquino



[1] A eugenia no Brasil foi apropriada e lida de formas extremamente diversas, produziu vertentes mais radicalizadas, que obtiveram pouco efeito prático e também suscitou aproximações menos radicalizadas, onde alguns dos intelectuais brasileiros responderam a suposta “degeneração” advinda da mestiçagem que “acometia” a população brasileira de forma extremamente criativa e arrojada, defendiam que a mestiçagem não constituía um fator de degeneração na população brasileira, mas pelo contrário, a mestiçagem foi entendida como uma das melhores qualidades da população.



quarta-feira, agosto 28, 2019

O ÚLTIMO CASAMENTO


No bucólico vilarejo de Itaúna, a imponente Velha Matriz de Sant'Ana, erguida com suas pedras gastas pelo tempo, vivenciava o crepúsculo de sua história. Era abril de 1934, mês que marcaria não só o último casamento, mas também o encerramento iminente das portas da igreja que havia testemunhado séculos de histórias.

Na serena manhã de 12 de março, a luz do amanhecer iluminava as antigas vidraças enquanto Emídio Herculano Pereira, um homem de trinta anos, e Alzira Maria de Freitas, uma jovem de vinte e dois, se reuniam no sagrado interior da Matriz. Sob o olhar benevolente do vigário Padre Ignácio Campos, os noivos trocaram votos de amor eterno, unidos pelos laços do matrimônio em uma cerimônia simples, porém repleta de significado.

Emídio, filho de Joaquim Herculano Pereira e Diolina Gonçalves Rodrigues, um homem de semblante sério e olhar determinado, encontrou em Alzira, filha de Francisco Patriocínio e Maria Marra de Freitas, uma companheira de alma e coração. Ela, com sua juventude radiante, e ele, com a maturidade de quem enfrentara os desafios da vida no interior mineiro.

Enquanto as testemunhas Manoel Gomes Pereira e Isaurino do Vale confirmavam a união, a Velha Matriz testemunhava seu último casamento. As paredes que ecoaram tantas preces e bênçãos estavam destinadas a ser silenciadas, seu destino selado para dar lugar ao progresso que avançava inexoravelmente sobre o passado.

Ao final da cerimônia, o Padre Ignácio Campos registrou os detalhes do evento, marcando não apenas o casamento de Emídio e Alzira, mas também a despedida de um capítulo histórico da pequena cidade. O sino da Matriz, que por séculos anunciara nascimentos, casamentos e falecimentos, soou pela última vez antes que as portas se fechassem para sempre, selando o fim de uma era e o início de uma nova história para Itaúna.


Ano 1934

Este casamento foi o último realizado na Velha Matriz (Paróquia de Sant'Ana de Itaúna). No dia 8 de abril de 1934 foi fechada para ser demolida.
Aos doze dias do mês de março do ano de mil novecentos e trinta e quatro pelas 6:30 horas da manhã nesta Matriz de Sant'Ana de Itaúna, depois das denominações canônicas e mais formalidades prescritas não aparecendo impedimento algum, por palavras de presente na forma do Ritual, em minha presença e na das testemunhas Manoel Gomes Pereira e Isaurino do Vale, receberam em matrimônio EMÍDIO HERCULANO PEREIRA e ALZIRA MARIA DE FREITAS.
Ele solteiro com trinta anos de idade, filho legítimo de Joaquim Herculano Pereira e Diolina Gonçalves Rodrigues, nascido e batizado em ibidem (Itaúna).
Ela solteira com vinte e dois anos de idade, filha legítima de Francisco Patriocínio e Maria Marra de Freitas, nascida e batizada nesta freguesia e residente, ibidem (Itaúna).
E para constar lavrei este assento, que assino.
O vigário Padre Ignácio Campos




Referências:
Organização: Charles Aquino
Acervo: Shorpy (Fotografia meramente ilustrativa)
Acervo: Paróquia Sant'Ana de Itaúna


terça-feira, julho 30, 2019

OS COLIBRIS DE ITAÚNA

OFERTA DE 100 COLIBRIS À CHINA

Convidou o jornalista Assis Chateaubriand o embaixador Li Ti-Tsan e o Consul Geral da China em São Paulo, sr. Chihslen Mao para um almoço e estendendo o convite a amigos seus, como os srs. Nelson Cayres de Brito, Roberto Paiva e Ismael Ribeiro.

Momentos antes do almoço, o jornalista Assis Chateaubriand conferenciou com os diplomatas chineses, convidando-os a conhecer o viveiro de colibris da Casa Amarela, que conta inicialmente com 100 colibris, dos quais 28 capturados nas florestas, 72 foram criados nos viveiros do sr. Augusto Ruschi, no Espírito Santo.

Durante a visita o jornalista Assis Chateaubriand declarou demostrando ser profundo conhecedor do assunto que os colibris se adaptam bem ao cativeiro. Presos vivem muito mais tempo que em liberdade.

Disse que cárcere privado é promissor para esses pássaros, pois tem o néctar das flores e o mel (água com açúcar) que inexistem na floresta. A água com açúcar colocada em redor do viveiro é preparada na base de 20 por centro ou ainda: em cada litro de d’agua 200 gramas de açúcar.  

CAMPANHA DOS COLIBRIS NO BRASIL

Perguntou o sr. Assis Chateaubriand aos diplomatas chineses se a China existe colibris, tendo o embaixador Li Ti-Tsan respondido negativamente. Só veio a conhecer alguns em Petrópolis e, ontem, a coleção da Casa Amarela.

Esclarecendo a oferta de colibris à República da China, o sr. Assis Chateaubriand disse que enviará colibris das montanhas de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul que estão habituados a uma temperatura de 3 a 4 graus. E argumentou: “Tenho um amigo na Inglaterra para quem mandei 60 colibris.

Ele os mantém durante o inverno a uma temperatura de 20 graus abaixo de zero. Os colibris não devem ser engordados. Gordos morrem, porque a sua musculatura impede a conservação e agilidade. A gordura é inimiga do beija-flor.

Vamos iniciar uma campanha para dar ao Brasil 500 viveiros em um ano. Nós estamos editando um livro em dois volumes sobre os colibris brasileiros. São conhecidas no mundo 330 variedades de colibris, das quais o Brasil já tem 130.


Assis Chateaubriand



ITAÚNA ADERE À CAMPANHA DOS COLIBRIS

A cidade de Itaúna será integrada na Campanha Nacional pela preservação da espécie dos beija-flores, lançada pelo jornalista Assis Chateaubriand, instalando três viveiros de colibris, que, serão inaugurados, ali, em maio, com grandes festividades. O principal viveiro será construído na praça Augusto Gonçalves, por iniciativa do prefeito Milton de Oliveira Penido, devendo obedecer às disposições da planta modelo, distribuída pelos “Diários Associados”.

O chefe do Executivo municipal de Itaúna convidou o fundador dos “Associados” para paraninfar a solenidade e vai solicitar a indicação da cidade par sede do Museu Regional do Oeste de Minas, que deverá ser instalado pela Campanha dos Museus Regionais, também, lançada no país pelo sr. Assis Chateaubriand.

Em seu pedido, o prefeito Milton de Oliveira Penido vai evocar a tradição histórica de Itaúna, bem como seu pioneirismo na indústria da região, lembrando, ainda, os foros de cultura de sua gente. Itaúna foi uma das primeiras cidades mineiras a possuir um jornal “O Centro de Minas”, que circulou antes de 1900 e uma das primeiras a instalar uma indústria têxtil — a Companhia de Tecidos Santanense, entre outras inúmeras conquistas.


Prefeito Milton de Oliveira Penido

NOTA
Essa reportagem é do ano de 1963. O Brasil evoluiu e com ele a mentalidade/entendimento da criação/preservação de “pássaros da fauna silvestre”. Hoje temos diversas leis de proteção visando a conscientização/preservação da nossa fauna brasileira.

Os colibris são aves Apodiformes que “é uma ordem de aves de pequeno porte, caracterizadas pelo bico longo e asas afiladas. Estes animais têm um metabolismo muito acelerado, em que o batimento cardíaco pode chegar a 1.200bmt (batimentos por minuto), asas muito longas, úmero curto, músculos de voo muito desenvolvidos, penas secundárias curtas, dez penas caudais, pés muito pequenos com garras recurvadas. São os andorinhões e os beija-flores”.

A deputada Shéridan Esterfany Oliveira de Anchieta é uma psicóloga e política brasileira, deputada federal por Roraima que enviou um Projeto de nº 3.264/2015 ao Congresso Nacional que proíbe “a criação de passeiformes, nativos ou exóticos, em cativeiro, em todo o território nacional”, entretanto, na “Justificação” do projeto, acreditamos que seja também, uma importante mensagem de preservação e amor a todos os “pássaros” da fauna silvestre brasileira:

JUSTIFICAÇÃO

Os pássaros necessitam, para seu normal desenvolvimento, alimentação e reprodução, viver em liberdade. Os pássaros estão adaptados para voar e explorar vastos espaços. Confiná-los dentro de exíguas gaiolas, onde mal podem se mover, privando-os do contato com o diversificado e estimulante ambiente natural, é um ato de crueldade.

A legislação vigente proíbe a captura e a manutenção em cativeiro de pássaros da fauna silvestre, mas autoriza a criação e a comercialização de dezenas de espécies da fauna nativa nascidas em cativeiro e de espécies exóticas.

Manter aves em gaiolas, mesmo as nascidas em cativeiro, para desfrute humano, segue sendo um ato cruel que não se justifica moralmente. Não é necessário manter pássaros em gaiolas para desfrutar o canto dos sabiás, dos pintassilgos e dos canários, o voo dos beija-flores e dos pardais, o trabalho artesanal do joão-de-barro e a beleza da gralha azul e do bico-de-ferro, apenas para dar alguns pouquíssimos exemplos.

Há inúmeras formas de atrair e manter pássaros na vizinhança das moradias humanas, sem que seja necessário privá-los da liberdade. O que precisamos é manter as áreas com vegetação natural, ampliar os parques e a arborização nas cidades e educar as pessoas para que possam conhecer, reconhecer e desfrutar dos pássaros ao ar livre.

Brasília, com suas extensas áreas verdes e parques urbanos, é um exemplo. É muito fácil observar, no Plano-Piloto, pássaros como o sabiá, o joão-de-barro, o bem-te-vi, o beija-flor-tesoura, a asa-branca, a rolinha-caldo-de-feijão, o chopim, os anus, o alma-de-gato, andorinhas, pica-paus, periquitos, o carcará e muitos outros.

No Parque Olhos D´agua, bem no meio da área urbana, já foram registrados mais de uma centena de pássaros. Com um pouco mais de atenção é possível localizar ninhos e observar, na época de reprodução, o encantador processo de cuidado parental e o crescimento dos filhotes.
A criação de pássaros em gaiola é uma atividade anacrônica, que não se coaduna com os valores atuais. É tempo de abandoná-la, em favor de formas mais humanas, mais éticas e sustentáveis de desfrutar dos pássaros e da natureza. É com esse objetivo em mente que estamos apresentando o presente Projeto de Lei.

Sala das Sessões, em 8 de outubro de 2015.
Deputada Shéridan



Referências:

Pesquisa e Organização: Charles Aquino

Fonte Digital: Biblioteca Nacional Digital / Hemeroteca Digital Brasileira. “O Jornal”, Rio de Janeiro, 22 março de 1966, p.8; “Diário da Noite”, São Paulo 8 de julho de 1963, p.3.

Acervo: Itaúna Bons Tempos: Saudades anos 70, 80 e 90.

Arte: Alessandro Narimatsu de Faria (Colibri). Disponível em: @alefaria.art

Acervo: Assis Chateaubriand. Disponível em:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Assis_Chateaubriand


sexta-feira, julho 26, 2019

HISTÓRIA DA SAÚDE EM ITAÚNA (III)

UM MÉDICO RECÉM-FORMADO

O Dr. Hely Nogueira, filho do Sr. Urquiza Nogueira e Dª Ana Dornas Nogueira, formara-se em medicina em dezembro de 1928, aos 21 anos de idade. Ele instalara o seu consultório no cômodo da loja, da casa velha do senhor seu pai, exatamente na esquina da praça [...]. Era uma casa antiga, onde morava o Sr. Urquiza Nogueira e seus familiares.

Precisamente na esquina, havia um cômodo de loja que estava vazio, com duas portas de madeira que davam para a praça e outra para a Travessa 2 de Janeiro, hoje Rua Coronel Artur Vilaça. Naquele local, o Dr. Hely instalara o seu consultório para o atendimento aos seus clientes.

Havia diversos médicos radicados na cidade, que clinicavam aqui há muitos anos; no entanto, fui procurar um médico recém-formado para o tratamento de minha saúde, precisamente porque ele se especializara nesse ramo da medicina, que era o tratamento de moléstias venéreas.

Hoje, no entanto, de acordo com a sua propaganda em jornais, a sua especialidade era “distúrbio psicossexuais”.

Ele atendia no seu consultório e trabalhava também na Casa de Caridade “Manoel Gonçalves”. Era um moço baixo, forte, pela clara, tipo alourado, comunicativo, muito atencioso e procurava sempre contagiar os seus clientes com o seu otimismo.

Iniciado o meu tratamento, ele começou a fazer experiência, uma vez que não lhe era possível diagnosticar o fundo maligno da minha moléstia. Naquele tempo não havia os recursos que existem hoje na medicina e por isso, os médicos lutavam também com as suas dificuldades, para que pudessem descobrir determinada moléstia.

No decorrer do tempo, a doença fora-se desenvolvendo em ritmo contínuo, ao invés de retroceder na sua marcha destruidora, com a aplicação terapêutica do facultativo. O Dr. Hely me atendia em seu consultório e no hospital também.

Não havia necessidade de ficar de cama, mas precisava de fazer certo repouso, não andar muito, o que não acontecia, entretanto, devido à minha impaciência. Ia ao hospital quase diariamente.

O médico começara a me aplicar uma injeção muito usada naquela época, para o tratamento da sífilis, denominada “914”. Aplicação endovenosa e em dosagem progressiva em centigramas, dia sim, dia não. E no decorrer do tempo, eu chegara a tomar uma dosagem “cavalar” como se dizia naquele tempo.

Era uma medicação tão brava, que se por descuido do médico ou do enfermeiro, a agulha transpassasse a veia e penetrasse no músculo um mínimo que fosse daquele líquido, o paciente quase morria de dor!

Certa manhã isto se deu comigo lá no hospital e fora o próprio Dr. Hely quem me aplicara a injeção, precisamente na sala de curativos. Ele dedicava muita atenção ao seu trabalho; no entanto, naquela manhã, sucedeu algo de errado, porque ele deixou que a agulha perfurasse a veia de lado a lado e assim que uma quantidade mínima do líquido atingiu o músculo do meu braço, eu senti uma dor intolerável.

O Dr. Hely percebendo a minha reação, retirou incontinente a agulha da veia. Ato contínuo, fez-me deitar sobre a mesa e, manejando-a em seguida, me colocou de cabeça para baixo, enquanto preparava rápido outra seringa com determinada injeção que me aplicou no músculo, certamente para combater a dor que eu sentia.

Instantes depois, ele, movimentara a alavanca da mesa, me deixando deitado em posição normal. Em seguida, aplicou-me na veia a “914” sem mais nenhum contratempo. Lembro-me ainda, de que passei maus momentos naquela longínqua manhã.  

CONSELHEIROS ITAUNENSES
Na década de 30 com a posse do Presidente Getúlio Vargas, as Câmaras Municipais foram substituídas e fechadas (Decreto nº 9.776, de 24 de novembro de 1930), passando a ser nomeadas de “Conselho Consultivo Municipal”.  Nos anos de 1936 e 1937 houve um retorno das Câmaras, todavia, com curta duração. Com o novo regime político instaurado e denominado de “Estado Novo”, por imposição do governo, realiza-se novamente os fechamentos de todos os Legislativos Municipais, voltando somente no final da década de 40.
O primeiro Conselho Consultivo Municipal de Itaúna foi realizado no dia 27 de dezembro de 1930, com os seguintes integrantes:
Empresário
Farmacêutico
Manoel Dias Corrêa
Empresário
Hely Nogueira
Médico
Antônio Augusto de Lima Coutinho
Médico Cirurgião



O MÉDICO E O FOOTING DA PRAÇA

Para demonstrar o quanto o Dr. Hely foi atencioso para comigo, passarei a relatar aqui certa ocorrência que se deu relativa a meu tratamento de saúde.

Naquela época, a Praça da Matriz era despida de qualquer arborização, sem o belo jardim que a ornamenta atualmente. Defronte à igreja, precisamente onde se acham localizados os bancos do passeio do jardim, erguia-se sobranceiro o belo “Cruzeiro de Madeira”, cujos braços pareciam querer apertar num amplexo espiritual as torres do tempo, tendo ainda a seus pés, uma calçada de pedras superpostas, onde à tardinha, ao pôr do sol, as pessoas amigas se assentavam para um bate-papo provinciano.

Já naquela época, havia na praça, nas noites de sábados e domingos, o célebre footing dos namorados.  Era o vaivém constante pra lá e pra cá. O Dr. Hely Nogueira fazia parte também daquela turma felizarda, tendo a seu lado a deusa de seu coração, com quem se casaria mais tarde.

No entardecer de certo domingo, eu foquei meio apavorado, meio nervoso com a minha doença e não tive a necessária paciência de esperar pela manhã do dia seguinte, a fim de conversar com o médico sobre o assunto. Descendo à noitinha, passei pela casa do Dr. Hely, mas não o encontrei, porque ele já havia saído de casa para encontrar-se com a sua pequena.

Eu continuei pela praça na companhia de um amigo, na expectativa de que ele surgisse ali a qualquer momento, ao lado de sua garota e não me enganei, porque ele apareceu realmente.

Depois que ele deus algumas voltas, enchi-me de coragem e fui ao seu encontro, pedindo-lhe licença para falar-lhe em particular. Atenciosamente, ele pediu permissão a sua namorada e veio falar comigo, um pouco afastado dali.

Falei-lhe então sobre a minha preocupação e solicitei-lhe o favor de me atender em seu consultório naquele instante. Delicadamente ele voltou à presença da sua pequena e pediu a esta que fosse à procura de sua amiga e ficasse na sua companhia até que ele me atendesse por alguns momentos.

Assim que chegamos ao seu consultório, aplicou-me uma injeção, certamente para me acalmar, passando depois a conversar comigo, naquela prosa amiga de médico para cliente: “Isso não vale nada e vai passar logo! ” Em seguida retornamos à praça e depois de meus agradecimentos pela sua atenção, ele foi ao reencontro de sua deusa.

Como veem, o Dr. Hely Nogueira fora extremamente delicado para comigo. Deixar a namorada em pleno footing numa noite de domingo, para atender a um pobre cliente apavorado, não era gesto para qualquer médico não!

Era preciso ser dedicado de verdade como ele o fora! Estes eram alguns traços da personalidade do Dr. Hely Nogueira, moço formado em medicina aos 21 anos de idade, nos ido de 1928.



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REFERÊNCIAS:
Pesquisa e Organização: Charles Aquino
Acervo: Hemeroteca Digital Brasileira: Periódicos Digitais
Texto 1 e 3: FAGUNDES, Osório Martins. Fragmentos de Um Passado, pag. 128,129.
Texto 2: Charles Aquino.
SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves de. História de Itaúna, BH, Ed. Littera Maciel Ltda, 1986, p.246. Vol.1.
Genealogia da Família Nogueira Penido: Guaracy de Castro Nogueira (In Memoriam) – Genealogista, Edward Rodrigues da Silva (Vavá) – Genealogista, Dr. Alan Penido – Genealogista, Aureo Nogueira da Silveira – Genealogista.
Acervo Genealógico e Arte: Charles Aquino, MyHeritage
Acervo: Câmara Municipal de Itaúna (Brasão)