A História da Educação em Sant’Anna
de São João Acima (hoje Itaúna), termo da Vila de Pitangui, pertencente à
Comarca do Rio das Velhas, foi construída a partir de um grande esforço
coletivo, tanto de professores quanto da comunidade que possuíam o mesmo ideal
e desejo de ter um ensino local, isso "bem
antes do Governo do Estado cogitar da instrução intensiva" (DORNAS,
1951, p.156).
A criação da primeira escola pública
no século XIX, regida pelo mestre Francisco Zeferino[1] foi determinada pela
Lei Mineira nº 511 de 3 de julho de 1850 que no seu Artigo 3°, §3.º,
estabelecia a criação das "Cadeiras
do 1º gráo de instrucção primaria para o sexo masculino na Freguezia de
Sant'Anna de São João Acima, Município de Pitangui" (Livro da Lei
Mineira, 1850).
No ano de 1831, foi realizado o
primeiro censo no distrito de Sant'Anna de São João Acima, com dados de 2.757
habitantes existentes na vila, sendo 869 mulatos, 843 brancos, 552 crioulos,
448 pretos e 45 africanos. O censo fornecia diversos dados como
o número de quarteirões e fogos [2]; o nome e profissão dos moradores; sua cor
e país de origem; se eram livres ou escravos; filhos legítimos ou expostos[3],
estado civil, idade e ocupação profissional. (Itaúna em Detalhes, 2003.Fascículo:22).
No quesito Ocupação (profissão), já
figurava o nome de dois Mestres das Primeiras Letras: Quintilianno Jose Pinto,
pardo, casado, da idade de 29 anos, morador no Quarteirão de número 1 e Fogo de
número 2; Serafim Cardoso, branco, casado, da idade de 55 anos, morador no
Quarteirão de número 10 e Fogo de número 6. (Poplin-Minas 1830).
Importante observar que, no distrito
de Sant'Ana, várias tentativas de ensino foram montadas pela iniciativa privada
e mesmo com as dificuldades enfrentadas naquela época, a cidade mostrou ser um
grande Polo Educacional.
Em 13 de maio de 1889, era instalada a primeira escola
noturna do arraial, a Sociedade Progresso Santanense, na qual, o Dr. Augusto
Gonçalves de Souza Moreira e o farmacêutico João de Araújo Santiago,
ministravam aulas gratuitas, sendo somente remunerado o professor Joaquim Marra
da Silva (DORNAS, 1936, p.42).
A Cia. Tecidos Santanense, também
conhecida como Fábrica da Cachoeira, estabelecida após o ano d 1891, possuía
uma escola dentro da fábrica, sendo ministradas aulas pela professora Jesuína
Americana Brasileira e Silva[4].
Já no ano de 1893, era inaugurado o Externato
Santanense, pela iniciativa dos senhores Joaquim Augusto Pereira Lima,
Francisco Santiago, Cornélio Lima e Joaquim Marra da Silva, o instituto
funcionou, porém, pouco tempo.
Sobre estes estabelecimentos de
iniciativa privada, Ruy Lourenço Filho ressalta: Não confundamos o aspecto de administração
geral, que envolve o aspecto político-social, com o da administração escolar, considerada
pelo tipo, forma e funcionamento das instituições de ensino.
Dois tipos
fundamentais existem: o da escola isolada e o da escola agrupada. O primeiro é
o da escola de um só professor, a que se entregam 40, 50 ou às vezes, mais
crianças. Funciona quase sempre em prédio improvisado. A segunda toma o nome de “escolas
reunidas” [...]. Aqui o prédio oferece melhores condições de conforto e
higiene, mesmo quando adaptado [...]. O material é menos precário. Aí temos a
escola comum dos meios urbanos. (FILHO,2002 v.6, p.45).
No dia 8 de dezembro de 1873 na
capital de Minas Gerais, Ouro Preto, era realizada uma reunião dos irmãos da
ordem de São Francisco de Assis, para celebrar uma grande festa em consagração "à N.S. da Conceição, padroeira da
mesma ordem, com uma grande e variada exposição, cujo resultado será applicado
às obras da capella".
Um dos vários irmãos devotos que iria recolher
assinaturas para ajudar nas obras da capela local era um jovem de dezoito anos
de idade de origem portuguesa, Plácido Teixeira Coutinho, que no ano de 1877,
contemplava a notícia da sua aprovação do processo de naturalização de cidadão
brasileiro, expedida pelo Ministério do Império (Diário do Rio de Janeiro, 1877).
Passados alguns anos, casado e pai de
família, o senhor Plácido estava residindo na freguesia de São Gonçalo do
Ibituruna, termo de São João Del Rei, exercendo a profissão de professor
público de instrução primária. No dia 23 de maio de 1881, entrava
com pedido à inspetoria geral da instrução pública, solicitando sua
transferência para a freguesia de Mateus Leme, termo do Pará, solicitação esta,
aceita no dia 27 de maio do mesmo ano. A notícia da transferência do
professor Plácido para outra freguesia, não agradou a várias pessoas.
Em carta publicada no jornal A Província de
Minas, aos 10 de julho do ano de 1881, intitulada Os pais de famílias, via-se
claramente a insatisfação e tristeza que a ausência do professor Plácido
estaria causando aos pais e alunos daquele local. O motivo desta insatisfação se encontrava
retratado na carta: o professor estaria sofrendo grande pressão e perseguição
do subdelegado, o Sr. João José Gomes, da freguesia de São Gonçalo do
Ibituruna, para que deixasse o cargo à disposição.
De fato, assim que o professor
conseguiu carta de transferência, o filho do subdelegado, Joaquim Ernesto Gomes
partiu às presas para o termo de São João Del Rei e constava que "veio nomeado interinamente para reger
a cadeira com promessa de ser provido nella oportunamente".
Naquela mesma carta os autores ainda
expõem que: o filho do subdelegado, ao
contrário do professor Plácido, havia captado a antypathia geral, e sobre tudo
tido e havido como um chapado analfabeto, sem o menor conhecimento das regras
da grammatica e da orthographia, da arithimetica e do systema métrico, da
geografia e até do catecismo romano, semelhante nomeação é a morte da escola
pública nesta infeliz freguesia pela falta indubitável de frequência, que já se vão dando com a
retirada de alguns meninos para as escolas de Nazareth e de Bom Sucesso, na certeza
de que forem lecionados pelo tal Joaquim Ernesto Gomes (A Província de Minas,
1881).
Passados quase sete anos, desde a
transferência para a freguesia de Mateus Leme, no dia 26 de janeiro de 1888 era
anunciado no jornal A Província de Minas os resultados finais dos exames
aplicados nos anos de 1886 e 1887 na Escola Pública Matheus Leme pelo professor
Plácido, cujo, alunos eram avaliados em três tipos de grau de classificação: Aprovados com Distinção; Aprovados
Plenamente e Aprovados Simplesmente.
Sobre os tipos de grau de
classificação dos exames, assim expressa a doutoranda Fernanda Cristina C. da
Rocha, que pesquisou o Grupo Escolar Rocha nos anos 1910-1916:
Não é
possível precisar o que significava cada grau de classificação dos alunos no
GEPR. Parece-me que o grau era conferido de acordo com a nota alcançada no
exame final. Porém, não é possível saber se a direção seguia rigorosamente as
determinações legais. Segundo o regimento, se os alunos lançassem nota igual ou
superior a cinco, seriam considerados aprovados.
Alcançando nota 5 eram
aprovados simplesmente, se obtivessem nota de 6 a 9 eram aprovados plenamente e
nota 10, aprovados com distinção. Os alunos que não alcançassem média 5 nos
exames de final de ano seriam considerados não preparados, e repetiriam o ano (ROCHA,2016, p.39).
No dia 28 de setembro do ano de 1889,
o jornal A Província de Minas, anunciou que a Instrução Pública estaria
exonerando, a pedido, o professor Plácido Teixeira Coutinho de trabalhos
escolares na freguesia de Vargem Grande, termo de Juiz de Fora e concedendo sua
mudança para o distrito de São Caetano, termo de Queluz. Ali permaneceria o professor Plácido por um
período de três anos, sendo transferido depois, a pedido, para o distrito de
Sant’Anna do São João Acima (hoje Itaúna), termo do Pará (Jornal A Ordem,
1892).
Recém-chegado ao distrito de
Sant'Ana, o professor Plácido Teixeira Coutinho ministrava aulas noturnas
gratuitas para alunos da primeira instrução primária, tendo de início
matriculados nove alunos.
A época da sua chegada, no início de
1893, as escolas isoladas formadas pela inciativa privada em Sant'Anna do São
João Acima, somadas com presença da escola do Estado, eram responsáveis pela
cidade e gozavam de grande privilégio na parte educacional. Após cinco anos morando no distrito
de Sant'Ana do São João Acima (hoje Itaúna), o professor Plácido TeixeiraCoutinho de cinquenta e quatro anos de idade, mudaria o seu destino.
Em uma manhã do dia 7 de dezembro de
1899, aproximadamente às 10 horas, o desespero beirava ao insuportável do
limite e a falência da esperança tornava-se presente. Com isso, "sua morte foi proveniente de suicídio
por um tiro de garrucha disparado no ouvido", dentro do cemitério da
cidade, sendo o declarante do óbito o Sr. Lindolfo Antônio da Silva.
O jornal O Pharol do ano de 1902 noticiou que: "por conta do governo
do Estado, vae ser internada no hospício nacional a louca Elisa de Oliveira
Coutinho. A desventurada mocinha perdeu a razão por ser iludida com promessa de
casamento". Esse teria sido o amargo motivo que
há três anos, seu pai ao saber da história e "ralado de desgostos, suicidou-se".
O professor Plácido Teixeira Coutinho brindou com o destino o golpe amargo da vida, todavia, suas atitudes educativas foram luzes!
REFERÊNCIAS:
ELABORAÇÃO E PESQUISA: Charles Galvão de Aquino - Historiador
ACERVO: Maria Lúcia Mendes, Professor Marco Elísio, Charles Aquino
FILHO, João Dornas. Efemérides
Itaunense. Coleção Vila Rica. Ed. João Calazans. Belo Horizonte, MG, 1951.
APM. Arquivo Público Mineiro:
Coleção Leis Mineiras (1835-1889). Disponível em: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/leis_mineiras/brtacervo.php?cid=1168
. Acesso em: 20/07/2016.
ITAÚNA em detalhes: Enciclopédia
Ilustrada de Pesquisa.
POPLIN-MINAS 1830: Lista
Nominativa: Distrito de Santana do Rio São João Acima, Topônimo Atual: Itaúna,
Termo Pitangui, Comarca Rio das Velhas. Disponível em:
http://www.poplin.cedeplar.ufmg.br
.Acesso em:20/07/2016.
FILHO, Ruy Lourenço Lourenço Org. Tendências da Educação Brasileira:
Coleção Lourenço Filho v.6, Brasília-DF, Inep/MEC, 2002.
MOREIRA, Lúcio Aparecido. AS FONTES
DO MEDO NA EDUCAÇÃO: estudo de caso de uma Escola construída onde existiu um
cemitério. Belo Horizonte, 2013, p.23.
ROCHA, Fernanda Cristina Campos: A
repetência e a reprovação em um grupo escolar mineiro, nas primeiras décadas do
século xx. Revista Intersaberes, vol.11, n.22. Jan –abr 2016. Disponível:http://www.grupouninter.com.br/intersaberes/index.php/revista/article/view/1001
. Acesso em: 20/07/2016.
GIL, Natália e CALDEIRA. Sandra: escola Isolada e Grupo Escolar: a
variação das categorias estatísticas no discurso oficial do governo brasileiro
e de Minas Gerais. Disponível em:
http://seer.ufrgs.br/estatisticaesociedade/article/view/24543 . Acesso em:
20/07/2016.
SOUZA, Miguel Augusto Gonçalves.
ITAÚNA: sua trajetória política, social, religiosa, econômica e cultural, desde
a criação do Arraial de Santana do São João Acima, em 14 de outubro de 1765,
até a data do centenário de instalação do município:1765-2002.
Fontes impressas Hemeroteca Digital Brasileira:
A ACTUALIDADE – Ouro Preto, 2 de
Julho de 1881 – nº 64, p.1.
A ACTUALIDADE – Ouro Preto, 2 de
junho de 1881 – nº 55, p.2.
A ACTUALIDADE – Ouro Preto, 31 de
Maio de 1881 – nº 54, p.2
A ACTUALIDADE – Ouro Preto, 31 de
Maio de 1881 – nº 54, p.3
A ORDEM – Ouro Preto, 9 de julho de
1892 – nº 164, p.3
A PROVÍNCIA DE MINAS – Ouro Preto, 10
de Julho de 1881 – nº 56, p.3.
A PROVÍNCIA DE MINAS – Ouro Preto, 26
de Janeiro de 1888, n° 511, p.4.
A PROVINCIA DE MINAS – Ouro Preto, 28
de Setembro de 1889 – nº 613, p.2.
DIARIO DE MINAS – 22 de Agosto de
1866 – nº 62, p.1.
DIARIO DE MINAS – Ouro Preto, 16 de
Outubro de 1873 – n° 147, p.4.
DIARIO DO RIO DE JANEIRO – Rio de
Janeiro, 4 de Julho de 1877 – N°178
LIBERAL MINEIRO – Ouro Preto, 17 de
Junho de 1884 – nº 67, p.2.
MINAS GERAES – Ouro Preto, 18 de
Março de 1893 – nº 75, p.1.
MINAS GERAES – Ouro Preto, 22 de Março
de 1893 – nº 79, p.3.
O PHAROL – Juiz de Fóra, 7 de maio de
1902 – nº 116, p.1.
[1] O homem que exigia dos paes dos
meninos que estes levassem um toco de madeira para se assentarem e uma garrafa
d’agua para se dessedentarem, deixando fama de grande algoz dos seus alunos.
FILHO. João Dornas: Itaúna – Contribuição para a História do Município, 1936,
p.40.
[2] FOGO: Casa ou residência. O
distrito possuía 400 fotos, cujo, levantamento incluía os filhos casados e
escravos dos moradores.
[3] EXPOSTO: Recém-nascido abandonado
pela mãe em outra casa; enjeitado. Geralmente eram colocados nas portas das
casas, entregues a orfanatos administrados por freiras.
[4] Jesuína Americana Brasileira e
Silva era proprietária de uma escola no distrito de Itatiaiuçu e havia
trabalhado em outras escolas nos distritos de Mateus Leme e Entre Rios.