domingo, fevereiro 11, 2018

ITAÚNA: FOOT-BALL E VOLLEY-BALL 1939

AMÉRICA FUTEBOL CLUB  8 x 0 SPORT CLUB ITAÚNA
Foi das mais felizes a excursão que o América Futebol Clube de Belo Horizonte fez a Itaúna, atendendo a um convite do valoroso clube local, o Sport Club Itaúna, que promoveu a primeira festa esportiva e social, realizada na próspera cidade do Oeste Mineiro e escolheu o grande clube de Gerson de Sales Coelho para seu patrono e principal participante.

Correspondendo ao amável convite feito pelo presidente do Sport Club Itaúna, dr Antônio Bustamante da Costa, que também representou o desejo do prefeito dr. Lincoln Nogueira Machado e de todo o povo itaunense, o América partiu com a maior embaixada esportiva que até hoje já saiu da Capital Mineira.

Compunha-se a delegação rubra de 70 pessoas, dela fazendo parte jogadores de futebol, bola ao cesto seção feminina de vôlei, diretores do clube rubro, entre os quais o coronel Oscar Pachoal e sr. Manuel Duarte, distinta senhora Maria José Sales Coelho, esposa do presidente americano, seu filho Antônio Augusto, senhorita Lourdes Frazen de Lima, jornalista José Victor Lessa, da Folha de Minas, João Claudio Teixeira de Sales, da Gazeta Mineira, D’Ângelo, de O Diário, Fortunato Pinto, da Radio Inconfidência e Augusto Siqueira, proprietário da revista Belo Horizonte.   

A delegação rubra foi recebida em Itaúna pelo presidente, diretores e jogadores do Sport Club Itaúna, prefeito Linconl Nogueira e grande massa popular.
Na gare da R.M.B., foi a embaixada do América saudada pela senhorita Maria Conceição de Almeida, embaixatriz do Sport Club Itaúna, que pronunciou aplaudido discurso.

Terminados os aplausos que abafaram a últimas palavras da encantadora embaixatriz do Sport Club Itaúna, respondeu agradecendo o presidente Gerson de Sales Cordeiro. A delegação, dividida em diversos grupos, foi hospedada em hotéis e casas particulares, sendo que o dr. Gerson de Sales Coelho e sua família hospedaram-se na residência do prefeito dr. Lincoln Nogueira.

O JOGO DE FOOT-BALL

Cumprindo a primeira parte do programa organizado, dirigiu-se a delegação rubra para a praça de esportes do Sport Club Itaúna, onde as 15 horas realizou-se o grande jogo entre o clube local e o “onze” de profissionais do América.

Esse embate, que foi assistido pelo prefeito Lincoln Nogueira, autoridades civis e militares locais, todos os componentes de embaixada do América e grande massa popular teve um transcurso brilhantíssimo. Muito embora o América vencesse pela elevada contagem de 8x0, demonstraram os “cracks” itaunenses um bom e disciplinado conjunto, sendo de justiça acentuar, que apesar da visível superioridade do “onze’ rubro, os bravos defensores, do Sport Club Itaúna atuaram um tanto nervosos, mas mesmo assim, revelando excelentes qualidades.

Entretanto, o principal objetivo da partida foi brilhante atingido, pois que durante todo o jogo assistiu-se a uma demonstração de fraternidade, cavalheirismo e inconfundível espírito esportivo, o que causou a melhor impressão e traduziu perfeitamente acentuada orientação dos valorosos clubes.

Na equipe do América, todos agiram muito bem, salientando-se, entretanto, a impecável atuação do grande zagueiro Juvenal, de   Paim e finalmente do “crack” Madureira, que fez uma brilhante estreia no quadro.  Quanto ao Sport Club Itaúna, como dissemos acima, possui ele um bom quadro, quadro esse que desenvolveu segura atuação no primeiro tempo, para jogar com grande nervosismo na fase final. Salientou-se no esquadrão alvinegro o “player” Wandehry, que demonstrou ser um completo atacante.
QUADRO E AUTORES DOS “GOALS”
AMÉRICA FUTEBOL CLUB
SPORT CLUB ITAÚNA
Acosta
Tinho
Juvenal
Cubú
Carlinhos
Wilson
Jacyr
Arnaldo
Lima
Néo
Dedão (depois entrou Paim)
Bianco
Índio
Wandehyr
Madureira
Tibica
Domingos (depois entrou Martinez)
Lucas
Carlito
Luizinho
Juca
Zum

Os “goals” foram feitos por:  Domingos o 1º, Carlito o 2º, Madureira o 3º, Paim o 4º e o 7º, Martinez o 5º, o 6º e o 8º.
Dedão, que vinha atuando com brilhantismo, sofreu um desagradável acidente de um encontro que teve com um “player” do Itaúna, ficando impedido de continuar a jogar, e sendo substituído por Paim que foi sem dúvida um dos melhores elementos em campo.

A partida foi dirigida pelo competente árbitro da L.F.B.H. – Liga de Foot-ball de Belo Horizonte, sr. Geraldo Jacob, que acompanhou a delegação do América. O competente juiz teve uma bela atuação, confirmando assim, plenamente, a fama que goza em todos os círculos esportivos do Estado.

Nas primeiras linhas desta reportagem, esquecemos de salientar que também esteve em Itaúna, como convidado de honra do Sport Itaúna e também do América, o dr. Saint Clair Valadares, presidente da Liga de Foot-ball de Belo Horizonte. O conhecido assistiu todo o desenrolar da partida, aplaudiu os bons lances que ela registrou.

O JOGO DE VOLLEY-BALL
(clicar na imagem)
Tiveram início os jogos de volley-ball, o six feminino do América e o do Sport de Itaúna, que disputaram uma “melhor de cinco”. Atuado brilhantemente, as representantes do América alcançaram uma bella victória , vencendo as suas valorosas adversárias por 3x0, com os seguintes scores:15x1, 15x8 e 15x6.
Na equipe alvi-rubra todas desenvolveram excelente jogo, destacando-se, entretanto, Gelcyra, que esteve em um de seus grandes dias e Elzinha que, apesar de ser a menor da turma, revelou-se uma “gigante” em campo.
O six itaunene, embora derrotado, demonstrou possuir qualidades e não fosse a colocação um tanto errada que fez, teria atuado bem melhor.
AMÉRICA VOLLEY
ITAÚNA VOLLEY
Elzinha
Verônica
Gelcyra
Dalcy
Regina
Júlia
Aurora
Haydée
Dalva
Branca
Lais
Yonne
Dirigiu a partida o sportman Nilton Barbosa Mello, cuja atuação mereceu aplausos.

JANTAR PARA AS MOÇAS
Ao mesmo tempo que se realizava o jantar íntimo na residência do coronel João Nogueira, as moças de Itaúna ofereciam as representantes femininas do América, um jantar na confortável sede do Sport Club Itaúna. Oferecendo em meio da maior alegria e camaradagem, usou da apalavra o dr. João Gonçalves, que se achava ladeado na mesa pelos srs. Fernando Lima, Alyrio Gonçalves e dois jogadores do clube local.

SESSÃO SOLENE
Às 20 horas, no salão do Sport Club Itaúna, realizou-se a sessão solene, com a presença do presidente Gerson de Salles Coelho, todos os componentes da embaixada do América, prefeito Lincoln Nogueira, o presidente dr. Antônio Bustamante da Costa, e todos os diretores, associados e jogadores do Sport Club Itaúna, o mundo social e os representantes da imprensa.

Aberta a sessão e expostas as suas finalidades, o dr. Bustamante da Costa convidou para presidi-la o dr. Gerson de Salles Coelho e para fazerem parte da mesa os srs. Prefeito Lincoln Nogueira, Alcides Gonçalves de Souza, coronel Oscar Paschoal, dr. Hugo Balena, Fernando C. Lima e a embaixatriz do Sport Club Itaúna, senhorita Conceição de Almeida.

Foram logo depois entregues as medalhas aos jogadores inscritos na disputa da série “melhor de três”, para a conquista de taça “Cidade de Itaúna”, sendo os seguintes os condecorados: Allaerte Pércope, Weber Drummond, Wilson Mendes Nogueira, Francisco Paulino, Hélio Gonçalves Manoel de Carvalho, Geraldo Paulino Bianco, Wandehyr Ferreira, Theodorico Ferreira, Luiz Guimarães Júnior, Daniel Guimarães, Rubens Coutinho e Arnaldo Saldanha.

Passe-se então a solenidade da entrega da taça conquistada pelo Sport Club Itaúna, nas partidas que disputou com o Varzeano, sendo o troféu entregue pelo governador da cidade, que antes de fazê-lo congratulou-se com o clube vitorioso pelo brilhante feito.




FONTE E ACERVO: Revista Sport Illustrado. Cia, Ed. Americana S.A. R.J., nº 48, 1939, págs. 2,26,30.   
PESQUISA E ORGANIZAÇÃO: Charles Aquino


sábado, fevereiro 10, 2018

SANTANENSE: CUMPADRES DE PESCARIA

HISTÓRIAS E CAUSOS EM ITAÚNA MG
Quem viveu em Santanense nos anos sessenta e setenta do século passado, vai se lembrar deles. O Tinho era raspador de tacos e aplicador de Sinteco. Tinha um papo de dar inveja e não gostava de ser chamado de papudo. Seu compadre, Trumbica era seu fiel companheiro de pescaria. Era bom cozinheiro, apesar de inimigo da higiene. Tido e havido como o cozinheiro mais porco da cidade.
Bebiam muito. As cachaças daquela época eram boas. Princesinha, Cabecinha no ombro e Marieta. A melhor de todas.
A conselho médico, resolveram deixar a pinga. Era difícil largar a " marvada", principalmente nas pescarias. Passaram um mês sem pescar e sem beber. Extremo sacrifício!!! Em conversa de fim de tarde, matutaram e chegaram a uma conclusão: o médico mandara parar com a pinga. Não proibira as pescarias. Matutado e concluído. Iriam pescar no próximo feriado.
O Tinho ficou responsável pelas tralhas da pesca. Ao Trumbica coube a preparação dos " petrechos" da cozinha e o sortimento. No dia marcado, Tinho com a "trenhera" arrumada, foi se encontrar com o Trumbica. O cozinheiro estava com tudo ajeitado. Panela, caçarola, frigideira, facas, garfo faca, colher e canecas de folha. No meio das coisas, duas garrafas de Marieta.
Tinho estranhou as garrafas e indagou ao compadre: “está tudo muito bom. Arroz, feijão, farinha alho, sal cebola e farinha. Só não entendi a pinga. Nois num paramo de bebe?
Trumbica respondeu prontamente: paramo sim compadre. As pinga vão como remédio. Magina se uma cobra morde nois? Sem pinga pra derreter o veneno é morte certa.
Explicação dada, o Tinho teve sua atenção despertada para um balaio redondo bem tampado e amarrado com barbante.
Perguntou ao compadre: " é esse balaio pra que serve compadre?  Ao que o Trumbica respondeu prontamente: " é uma cobra cascavel. Pru mode nois num encontra nenhuma cobra por lá !!!!!!!

Para animar o carnaval! Um abraço, Urtigão.

Texto: Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 08/02/2018. Acervo: Shorpy

Organização: Charles Aquino 

SÃO JOÃO: NÃO ME DEIXEM MORRER!

Não me deixem morrer!...

Poema dedicado ao Rio São João, que foi, outrora, uma dádiva de Deus.
Hoje, um castigo dos homens.


Diz o rio – beira à morte.
Num canto tão lutuoso:
“– Já fui belo, já fui forte,
“Tive um passado formoso!...

“As minhas águas são turvas,
 “As minhas orlas – imundas...
“Vou correndo pelas curvas
“Em sensações moribundas!...

“Minha Mãe, a Natureza,
“Gerou-me rio – alegria...
“Ninguém viu minha tristeza,
“Ninguém viu minha agonia!...

“Quanta aflição já me invade,
“Quanto sofrer me destrói,
“Saber que minha cidade
“Não me fez seu grande herói!...

“O que já fora beleza,
“O que já fora esplendor,
“Foi morto, ó Deus co’aspereza,
“Por mãos de um poluidor!...

“Que me responde o Prefeito,
“Que me responda o Vigário:
“Sou rio, acaso, imperfeito?!
“Sou rio desnecessário?!

“Crianças, puras crianças,
“Se pudéreis me escutar,
“Doai-me amor, esperanças!...
“Quero viver pr’ajudar!...

“E vós, ó jovens, guerreiros,
“Não tendes pena de mim?!...
“Eu fico entre dois outeiros:
“O do Rosário e Bonfim!

“Tive a mais sã mocidade,
“Em minha cor cristalina...
“Ontem me amaram...Verdade!....
“Hoje me matam! Que sina!...


“Depois de tanto pedir,
“Depois de tanto querer,
“Eu peço a quem puder vir,
“Que venha para me ver!”



Wandick Robson PINCER




Para mim Itaúna tem dois patrimônios que salvaram vidas e que todos nós deveríamos preservá-los incessantemente: o nosso Rio São João e a nossa Casa de Caridade Manoel Gonçalves de Souza!
Das 11 cidades que compõem a sua sub-bacia, Itaúna é a única que depende dele como fonte de água!
O projeto Rio São João catalogou por GPS quase mil nascentes, desde Itaguara (nascente principal) até Carmo do Cajuru 40% delas estão impactadas, ou seja, bem degradadas. Precisamos criar consciência coletiva a esse respeito.
Wandick





Referência: Antologia dos Poetas Itaunense. BH- Lemi/Itaúna. Diretoria de Pesquisa e Extensão da Fundação Universidade de Itaúna, 1990. p.127.

Poema: PINCER, Wandick Robson

Acervo: Shorpy

Organização: Charles Aquino


quarta-feira, fevereiro 07, 2018

ITAÚNA POJICHÁS GUARACY

HISTÓRIAS E LENDAS EM ITAÚNA MG

Hoje em tudo que leio sobre Itaúna, encontro algo ou algum significado que correlaciona com a nossa terra. Pois bem, no livro "Páginas Tímidas" publicado em 1896 pelo escritor Nelson de Senna, bem antes do batismo de nossa cidade, o autor cita a existência de um cacique de nome Itaúna, chefe dos Pojichás, do vale do rio doce por volta de 1830, cuja filha chamava-se "Guaracy" ou abreviadamente "Aracy ".

E isto bem antes do batismo e fundação de nossa cidade. Mais pitoresco é ter já existido um "Itaúna" que tenha gerado uma "Guaracy", assim como nossa cidade o fez, dando-nos o saudoso político e grande historiador. Vejam trechos do livro e em especial o significado de "Guaracy".
Breno Marques da Silva
ARACY
O sol » Em tupi era chamado « Guaracy », que quer dizer « luz da vida », «fonte criadora ». Nos dialetos, porém, dos índios, que, fugindo dos tupis, vieram se refugiar nas montanhas do Sul, desapareceu a sílaba inicial «Gu» da palavra « Guaracy », que é a primitiva tradução de sol.

Corre o mês de junho de 183. . .
A natureza se intumesce, bela e galante, ao começo da estação primaveril. Às margens do rio, na pequena abra de Cuieté, está um acampamento de Pojichás, índios de origem tapuya, pelo ramo degenerado dos Aymorés, e que naquela larga zona inda vagueiam. Está próximo o acampamento indígena do generoso cacique Itaúna, pois facilmente se percebe já o surdo rumor dos saltos e encachoeiradas corredeiras do Doce.
Itaúna, chefe dos Pojichás, é o pai da formosa Aracy, estrela das selvas, cantada por mil guerreiros fortes e bravos, que agora, na época das festas ruidosas da tribo, vem mais uma vez celebrar a formosura da gentil donzela índia, em cujos lábios de bonina colorados a abelha zumbidora destilou a inefável doçura dos alvíssimos favos, que fabricou nos bosques.

Aracy tem nas delgadas e corretas formas de seu belo corpo nu, que o dourado sol de junho amoroso oscula, em claras alegrias, a lesta agilidade da corça vigorosa e fulva, que galga em pulos as serranias e valados; nas madeixas opulentas e descuidadas, que ela alisa, graciosa, com as pequeninas mãos bordadas pela bizarra e confusa tatuagem dos caraíbebês, brilham os negros e intensos fulgores das penas do corvo — a sinistra hiena alada dos píncaros e alturas.

Paliçadas compridas (caiçaras) cercam o espaço terreno ocupado pelos Polichás, que ali se reuniram elo tempo da pesca abundante e nutritiva, afim de cantar os lúgubres e efêmeros amores da nobre filha de Itaúna, a qual vai desposar o mais denodado em façanhas e brios dentre os últimos prisioneiros feitos na horda dos botocudos hostis.

 É o sagrado e antigo costume da tribo. Por isso todos aguardam, impacientes, o dia do delirante sacrifício, que preludia o louco banquetear da festa barbara do cauim. . .. Os índios Pojichás cantam, embriagados pelo espumoso cauim, as suas nacionais canções e belicosos hinos.

A cabida selvagem reunida, sob o mando respeitado do cacique Itaúna, ouve, cheia de fanatismo, as invocações e práticas cabalísticas dos manhosos e solitários pajés, depois do que irão os índios se regalar em farto banquete primitivo, de caça e pescado abundantes, que eles regarão com o liquido fermentado e entontecedor das bojudas urnas de barro fabricadas (iguaçabas).

Aracy, bela entre todas as jovens raparigas da tribo, tem sobre a cabeça um kanitar de fulvos reflexos; revestem-lhe as roliças pernas, do joelho ao artístico tornozelo, as ligas distintivas da virgindade, o simbólico tapacorá. Instrumentos selvagens, como maracás. memhys, borés e nays, ressoam em sua honra, pois é  ela a rainha da festa, a deslumbrante donzela, cândida e branca como o cecem que desabrocha nos prados e silvedos, languida e delicada como o beijo do colibri nos jasmineiros em flor.

No mais alto ebriamento da festa selvagem dos Pojichás, quando já os tenros lábios carminados da doce e formosa Aracy, estão colados, em celestes estribilhos de amor, aos grossos beiços polpudos e sensuais do valoroso Pyrahtinga; quando prazeres infinitos entontecem a mente exaltada dos noivos daquele singelo himeneu de índios – repentinamente estrondejam, sinistros e estridentes, os clangores guerreiros de um pavoroso ataque inopinado de hordas inimigas, que amplamente envolvem o acampamento bloqueado por todos os lado inermes e desapercebidos Polichás.

Com efeito era Angá, o terrível e concupiscente Angá, cacique audacioso que viera para arrancar pelas armas dos braços daquele efêmero noivado, a índia Aracy, que desposara, segundo as práticas rituais de sua tribo, o mais glorioso dos últimos prisioneiros dos Pojichás — Pirahytinga.

Conta a lenda corrente entre os índios mansos do Rio Doce, que trucidadas foram todas as cabildas então reunidas na abra de Cuieté para a celebração dos amores de Aracy — a dileta e suspirada filha de Itaúna, morubixaba dos inditosos Pojichás, ferozmente sacrificados aos impiedosos golpes dos Jiporocks.

Quanto ao destino dos infelizes noivos, morreram ternamente enlaçados, correndo-lhes de larga ferida, aberta pelo mesmo propicio corte de seta inimiga, jorrante e rubro fio de sangue, que foi o augusto batismo de suas rápidas núpcias, cruelmente martirizadas.

O terno canto agudíssimo que vibra a garganta metálica da araponga, ousada nas grimpas esgalhadas de anosos carvalhos, e que estridula, em notas de viva e heroica agonia, pelos recessos das florestas virgens: traduz a imaginosa poesia autóctone, nas suas meigas e simples canções históricas, como o pungente adeus saudoso de Aracy, cujo grito de dor, — quando expirava, tendo o amoroso coração atravessado pela mortífera huy do gentio inimigo — a pequena ave errante imita desde então, talvez para traduzir o imenso sofrer da formosa índia que morria. . .


REFERÊNCIAS:

Pesquisa e Apresentação do Conto: Breno Marques da Silva. Possui graduação em Engenharia Metalúrgica pela Universidade Federal de Ouro Preto (1981) e doutorado em Ciências, com ênfase em Físico-Química Orgânica, pela Universidade de São Paulo (1989). Professor Adjunto do Instituto de Ciências Exatas e Biológicas da UFOP (1982 a 1993). Coordenador e Professor do Curso de Pós-graduação em Terapia Floral da Faculdade de Ciências da Saúde - FACIS/IBEH (1995 a 1996). Criador do sistema terapêutico Florais de Minas (1989). Desde 1993 é sócio proprietário, químico e diretor de pesquisas do Laboratório Florais de Minas. Professor e autor de vários livros sobre terapia floral. Tem experiência na área de Engenharia Química, com ênfase em Tecnologia Química de Produtos Naturais.

Colaborador: José Geraldo Chaves — Pepe Chaves: Desenhista, pesquisador, ufólogo, músico, documentarista, escritor/editor, produtor cultural, artista plástico/gráfico, jornalista e editor do Jornal Via Fanzine.

Organizador: Charles Galvão de Aquino. Pós-Graduação em andamento pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) para o curso de História e Cultura no Brasil Contemporâneo. Possui graduação em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) - Divinópolis MG, com Projetos em Iniciação Científica de Pesquisa e Extensão vinculado ao PROINPE UEMG, FAPEMIG, PAPq e PAEx. Tem experiência na área de História na conservação, tratamento, organização e divulgação do Arquivo Histórico de Pitangui nos séculos XVIII, XIX e XX. Genealogista e pesquisador em arquivos Coloniais com leitura paleográfica. Possui interesse e pesquisa nas seguintes áreas: História do Integralismo, Ciganos em Minas Gerais e Cultura Afrodescendente no Centro-Oeste Mineiro.


Fonte impressa: SENNA, Nelson de. Páginas Tímidas (Contos e Escriptos). Ouro Preto, Tpy Silva Cabral, 1896, p.12-24.

terça-feira, fevereiro 06, 2018

ITAUNENSE PATRANHEIRO

HISTÓRIAS E CRÔNICAS EM ITAÚNA MG
Já contei uma história dele neste espaço. Era Corradi de nascimento. Só não digo o nome completo em razão de malquerenças. Ainda tem muitos parentes vivos.

Trabalhava no ofício que seus familiares trouxeram para Sant'Ana de São João Acima. Foram os pioneiros nas artes de fundição na cidade. Imigrantes italianos, deixaram um legado importante para o município. Gostava de pescar e de caçar. Principalmente se os apetrechos fossem bons. Não gostava de caniços ruins e espingardas mequetrefes. Tinha saído de casa para caçar trocais. Pombas grandes de peito carnudo. Bem preparadas na cozinha davam um belo petisco.

Estava sem sorte. Bateu pernas no mato, gastou munição atoa e nada de pombas. Resolveu voltar para casa quando percebeu que estava somente com um cartucho disponível no pau de fogo. Espingardinha de primeira. Trochado Damasco, fogo central, não esparrodava o chumbo. Tiro dela era ajuntadinho e não estragava caça miúda. Excelente para caçar aves.

No caminho de volta, finalmente avistou uma trocal. Peituda, bonita e sadia. Um pitéu !!!! Ao se aproximar, a ave fez menção de voar. Estava ainda meio longe. Não podia perder o tiro. Mirou bem e mandou fogo. Tiro certeiro, na cabeça do bicho.  De tão alegre, deixou cair a espingarda ao levantar as mãos e exclamar: "Graças a Deus".

Surpresa maior em seguida. Ao erguer as mãos e ajunta-las no ar, tinha apanhado outra gorda trocal voando. Apertou o bicho com as mãos para que não escapasse. Apertou tanto que parte do bucho da pomba saiu pelos anus e sujou suas mãos. O limpar a sujeira no "provisório", outra surpresa: pegou dois coelhos pelas orelhas!!!!!


POMBA-TROCAL

Nome Científico: Patagioenas picazuro

“Uma das maiores espécies da família no País. Cabeça e partes de baixo marrom vinho, barriga pálida. Penas da nuca branco-prateado com pontas pretas. Manto superior roxo metálico, pontas escuras.

Costas na maior parte cinza escuro. Asas marrom apagado, cobertura das asas cinza com pontas pálidas. Cauda preta. Pele orbital vermelha. A fêmea tem cor mais pálido. Mede cerca de 34 centímetros de comprimento. Canto baixo, profundo e rouco, de três a quatro sílabas: “gu-gu-gúu”, “gú-gu-gúu”, sendo que o macho emite quatro repetições e a fêmea três.

Vive nos campos com árvores, áreas urbanas, cerrados, caatingas e florestas de galeria. Frequentemente encontrada no solo. É migratória como outras pombas, estendendo seus domínios acompanhando o desmatamento, aparecendo em grande quantidade. Voa longas distâncias e a grandes altitudes, exibindo seu espelho alar branco; está aproveitando as áreas urbanas, é comum ser encontrada comendo milho em galinheiros. ” (Wiki Aves)

LEI N° 5.197, DE 3 DE JANEIRO DE 1967

Dispõe sobre a proteção à fauna e dá outras providências. O Presidente da República faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

        Art. 1º. Os animais de quaisquer espécies, em qualquer fase do seu desenvolvimento e que vivem naturalmente fora do cativeiro, constituindo a fauna silvestre, bem como seus ninhos, abrigos e criadouros naturais são propriedades do Estado, sendo proibida a sua utilização, perseguição, destruição, caça ou apanha.

Referências:

BRASIL ESCOLA. Aves do Cerrado. Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/brasil/aves-cerrado.htm   

Texto: Urtigão (nascido em Rio Piracicaba desde de 1943) é pseudônimo de José Silvério Vasconcelos Miranda, que viveu em Itaúna nas décadas de 50 e 60. Causo verídico enviado especialmente para o Itaúna Décadas em 06/02/2018.
Colaborador: Marcelo Vasconcelos / Acervo: Shorpy / Organização: Charles Aquino

quarta-feira, janeiro 31, 2018

MOINHOS DO PROFESSOR


Professor Marco Elísio Chaves Coutinho fala sobre a história dos moinhos d’água que existiram na cidade de Itaúna. Os moinhos d'água que dominaram as margens do rio São João por muitos anos representam uma parte crucial da história e da identidade dessa cidade. O Professor Marco Elísio nos oferece uma janela para o passado, onde essas estruturas desempenharam um papel vital na vida cotidiana e na economia local.

Esses moinhos não eram meramente engenhos de moagem, mas centros de atividade comunitária, onde o milho era transformado em fubá de angu, um alimento básico na dieta da região. Através das palavras do Professor Coutinho, somos transportados para uma época em que a vida seguia o ritmo das águas do rio, e a moagem nos moinhos era uma atividade essencial que unia as pessoas em torno de um bem comum: o alimento.

A localização desses moinhos às margens do rio São João não era apenas uma questão prática, mas também simbólica. O rio, com suas águas fluindo constantemente, fornecia não apenas a energia necessária para mover as rodas dos moinhos, mas também uma conexão com a natureza que permeava a vida da comunidade.

A história dos moinhos d'água em Itaúna é, portanto, mais do que uma simples narrativa sobre engenhos de moagem. É uma história de como as comunidades se adaptam e prosperam em harmonia com o meio ambiente ao seu redor. É uma história de inovação e trabalho árduo, onde a engenhosidade humana se encontra com os recursos naturais para sustentar a vida.

Olhar para o passado dos moinhos d'água em Itaúna não apenas nos permite entender melhor a história dessa cidade, mas também nos convida a refletir sobre a importância de preservar e valorizar nosso patrimônio histórico. Essas estruturas são testemunhas silenciosas de um tempo passado, mas sua história continua a ecoar através das gerações, lembrando-nos da nossa conexão com o passado e da importância de honrar nossas raízes.