Molhando
a pena no poço de emoções que a tua trágica morte me causou, Cotinha, aqui
estou a felicitar-te, sincera e calorosamente, trazendo-te as minhas “Boas
Festas”, pelo novo ano que aí vem!
Nova
vida novo ambiente! Novas paisagens para teus olhos deslumbrados! Novo mundo
para teus sentidos! Alegrias novas para teu coração! Uma festa de luz para a tua
sensibilidade!
Tu,
que feriste os pés nas pedras da rua, encontrarás uma estrada luminosa e limpa
nos caminhos da amplidão! As pedrinhas, que catavas pelas ruas da cidade,
transformar-se-ão em diamantes e safiras para coroar-te a cabeça.
Terás
rosas, aquelas rosas que tanto admiravas, a atapetar-te o caminho! Não mais
precisarás colhê-las nos jardins da terra! Tê-las-ás em profusão nos vergéis do
céu! Quando passavas desapercebida dos perigos que te rodeavam monologando, toda
entregue às belezas do seu mundo interior, chamavam-te Coitada!
E
tu te exaltavas em altos protestos! E que — mistérios da alma humana! — te
julgavas nobre e te sentias feliz! Os farrapos que mal te cobriam o corpo eram mantos
de rainha a cobrir-te os ombros!
Diziam
que te faltara a razão, Cotinha! Mas, entre os loucos que contigo cruzaram nos
caminhos do mundo, eras a mais inofensiva e feliz! Não fazias mal a ninguém.
Vivias no teu mundo, à parte. E mostravas, também, uma faceta delicada de teu
espírito, um vislumbre de estética espiritual, no teu amor às flores!
Quando
as colhias nos jardins alheios, era com a maior naturalidade que o fazias! Pois
não eram teus todos os jardins da terra? Que mal havia em colheres as rosas
vermelhas que ali desabrochavam? E como apreciavas as cousas finas e agradáveis
ao paladar mais requintado!
Gostavas
do vinho! E como raramente te molhou ele os lábios! Pois é, Cotinha! Deves estar
Feliz! Não mais os perigos da rua! Não mais te chamarão de coitada.
A
ambrosia, néctar dos deuses, ao alcance de teus lábios! Rosas e mais rosas ao
seu alcance de tua mão! Mas o que mais certamente te encantou foi a homenagem
que te prestaram! O teu nome, antes tão pequenino, tão esquecido, falado aos
quatro cantos do Brasil!
O
teu nome, Cotinha, a embargar a voz dos locutores, a fazer chorar o povo que te
queria! Já foste notícia na imprensa da cidade; o teu retrato já emoldurou os
jornais da terra, uma vez!
Mas
nem soubeste disso! Agora, tudo viste! Sabes que chorei a tua morte! Sabes que
todos choraram! O teu caixão todo de branco e, tu toda de branco vestida! Os
teus funerais! A emoção de tua gente! Talvez tivesses dito: Coitados deles!
Agora,
Cotinha, me penitencio, arrependida de não te haver colocado à minha mesa para que comigo comesses do meu pão e bebesses comigo do meu vinho!
Felicidades,
Cotinha!
E
até lá!
Análise do texto"Boas
Festas, Cotinha"
"Boas Festas, Cotinha",
escrito por Nise Campos, é um texto que mergulha profundamente nas emoções e
reflexões sobre a vida e a morte de Cotinha, uma figura aparentemente
marginalizada pela sociedade.
O texto aborda temas de solidão,
marginalização social, transcendência e redenção após a morte. Está estruturado
em forma de uma carta ou mensagem dirigida diretamente a Cotinha, evocando uma
atmosfera íntima e pessoal. O tom do texto é emotivo e contemplativo. A autora
expressa sentimentos genuínos de pesar pela morte de Cotinha, ao mesmo tempo em
que oferece votos de felicidade e redenção em sua nova jornada após a vida
terrena. O estilo é marcado por uma linguagem poética e simbólica, com
metáforas que ressaltam a beleza e a transformação.
Cotinha é retratada como uma
figura incompreendida e marginalizada, mas também como alguém que encontrava
beleza e felicidade em seu próprio mundo interior. Sua morte é celebrada como
uma libertação dos perigos e do sofrimento terreno, enquanto sua jornada após a
vida é imaginada como repleta de luz, beleza e reconhecimento.
O texto lança uma crítica
implícita à maneira como a sociedade trata os marginalizados e os considera
"coitados". Cotinha é apresentada como uma pessoa feliz e inofensiva
em seu próprio mundo, apesar de ser rotulada como louca ou desafortunada pelos
outros. Essa crítica social é intensificada pelo contraste entre a visão dos
outros sobre Cotinha e a maneira como ela é descrita pela autora. O uso de
símbolos, como as rosas, o vinho e a imagem de Cotinha vestida de branco em seu
funeral, adiciona profundidade ao texto. As rosas representam a beleza e a
fragilidade da vida, enquanto o vinho pode simbolizar tanto prazer quanto
sofrimento. O branco pode evocar pureza, paz ou até mesmo uma nova vida após a
morte.
A autora demonstra uma profunda
empatia por Cotinha, reconhecendo sua humanidade e dignidade mesmo em meio à
adversidade. As emoções sinceras expressas no texto, como o pesar pela morte de
Cotinha e o arrependimento por não ter interagido mais com ela em vida, ressoam
com o leitor e evocam reflexões sobre a natureza da compaixão e da conexão
humana.
Em resumo, "Boas Festas,
Cotinha" é um texto que transcende as barreiras da vida e da morte,
oferecendo uma reflexão comovente sobre a dignidade e a beleza encontradas
mesmo nas margens da sociedade. Através de uma linguagem poética e simbólica, a
autora convida o leitor a contemplar a profundidade da experiência humana e a
encontrar significado na redenção e na transcendência.
A ex-diretora do Museu Municipal Francisco Franco de Itaúna e escritora Maria Lúcia Mendes também nos deixa um texto sobre a Cotinha:
Cotinha ...
Em tamanha naturalidade que parece ter vida. Ah, se me lembro dela ... A Cotinha Pereira, como a chamávamos. Magrinha, estatura média, sempre descalça, era vista aqui e ali peregrinando pelas ruas, absorta em monólogos que ninguém entendia.
Quando alguém lhe dizia! “Coitadinha da Cotinha! Caiu no azeite”, ela contraía o rosto em enormes caretas e protestava: Coitadinha é ...
E a meninada corria assustada ante uma enxurrada de palavrões e pedras. Tinha a mania de andar beirando o meio-fio, revirando tudo que encontrasse pelo chão como que à procura de um objeto perdido.
Segundo diziam, Cotinha em verdes anos, perdera uma agulha com a qual sua mãe costurava e, por causa disso, recebera dela uma praga: haveria de procurar essa agulha, enquanto vivesse.
Verdade ou não, continuava sempre sua estranha procura, catando aqui e ali. Às vezes, parava em plena rua e, entregue àquele universo singular, que criara para si mesma, erguia os braços em gestos descompassados, falando sozinha.
Amante das flores, Cotinha as colhia nos jardins por onde passava e, sob uma chuva de pérolas, coroava-se toda dizendo: Sou moça donzela, sou rainha ...
Análise do texto “Cotinha
Cotinha é apresentada como uma
personagem singular, cujo comportamento excêntrico e aparência peculiar a
tornam notável entre os habitantes da cidade. Ela é descrita como magra, de
estatura média, frequentemente descalça e absorta em monólogos incompreensíveis
para os outros.
A interação de Cotinha com os
outros habitantes da cidade é marcada por momentos de estranheza e
incompreensão. O diálogo relatado, onde ela protesta contra o apelido de
"coitadinha", revela sua personalidade forte e a falta de
conformidade com as expectativas sociais.
A história da maldição lançada
pela mãe de Cotinha, relacionada à perda de uma agulha, adiciona um elemento de
realismo fantástico à narrativa. Esse aspecto contribui para a construção da
atmosfera misteriosa e folclórica em torno da personagem. Cotinha é retratada
como uma pessoa imersa em sua própria realidade imaginativa. Seus gestos
descompassados, a busca incessante por uma agulha perdida e sua declaração de
ser uma "moça donzela, rainha", simbolizam sua fuga da realidade
cotidiana para um mundo interior fantasioso e poético.
O texto sugere uma crítica
implícita à forma como a sociedade lida com aqueles que são considerados
diferentes ou excêntricos. Cotinha é marginalizada e até mesmo temida pela
criançada, refletindo a intolerância e a falta de compreensão em relação às diferenças.
A escrita de Maria Lúcia Mendes é direta e descritiva, utilizando uma linguagem
acessível e vívida para retratar a vida de Cotinha. O uso de expressões
regionais e a caracterização detalhada dos hábitos da personagem contribuem
para a autenticidade e vivacidade da narrativa.
Em suma, "Tipos
Populares" é mais do que uma simples descrição de um personagem
excêntrico; é uma reflexão sobre a marginalização social, a imaginação e a
singularidade humana, apresentada através de uma prosa envolvente e ricamente
detalhada.
Vídeo:Registro do Museu Municipal Francisco Manoel Franco em Itaúna realizado por Hamilton Pereira. Em 2014 o museu foi fechado para visitação e somente em 2019 iniciou sua reforma.
A Capela do Bonfim foi erguida no ano de
1853, por um abastado fazendeiro, Tenente José Ribeiro de Azambuja. Seu estilo
corresponde a um colonial muito simples, um “barroco” jesuítico tardio, com
exterior e interior muito despojados.
Foi construída no cume do então Morro de
Santa Cruz, tudo levando a crer que nele já existia um cruzeiro, como era costume
nas Minas Gerais se plantarem cruzeiros nos altos dos montes, perto das
povoações: isso se explica como um sinal de permanência do homem na terra e sua
necessidade das bênçãos do Céu.
Era um sinal do “divino” entre os homens a
recordá-los sempre das promessas e proteção do Eterno. Localizada a
aproximadamente 25 km do centro da cidade de Itaúna, a Capela do Senhor do
Bonfim sempre foi um local de peregrinação religiosa. Muito concorrida era a festa
de “Santa Cruz”, que antigamente se comemorava no dia 03 de maio; atualmente em
14 de setembro (Festa da Exaltação da Santa Cruz). Está situada no ponto mais
alto da região de Itaúna, a 1000m de altitude.
No
séc. XIX, ao passar estas terras, os frades franciscanos capuchinhos, vindos da
Itália, ditos “barbôneos” – chefiados pelo pregador apostólico Frei Eugênio Maria de Gênova - com a
missão da Sagrada Propaganda “Fide” de Roma, recomendaram que se construísse no
interior do cemitério (hoje EE “José Gonçalves de Melo”) a Capela de São Miguel
e Almas e no alto do Morro de Santa Cruz, a Capela do Senhor do Bonfim; daí sua
origem.
Precisamos sempre elucidar o valor intrínseco
do nosso Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. A pequena Capela do Bonfim
é destituída de traços arquitetônicos que chamem a atenção e não contém obras
sacras de valor significativo. Porém, é na sua simplicidade que reside sua
beleza, que para muitos olhares, transmite aquela sensação de paz e harmonia.
Patrimônio tem a ver com nossas raízes,
nossa História, nossa identidade cultural. Aquilo que nos identifica;
singulariza enquanto povo das barrancas do Rio São João. Todas as cidades são dotadas
de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural.
Algumas pessoas, quando nos
referimos a esses valores, pensam que Patrimônio se restringe apenas às cidades
ditas históricas do Ciclo do Ouro, como logo vem à mente, Ouro Preto, Mariana,
Sabará, São João del Rei e tantas outras. Mas, nós – itaunenses - também temos a nossa História particular e
Itaúna também possuí ainda, algumas pouquíssimas edificações e sinais do nosso
passado histórico. Dentre esses; o nosso marco exponencial que é a Capela do
Rosário, construída praticamente cem anos ante da do Bonfim (1765).
A
Capela do Bonfim pertence à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima do bairro Pe.
Eustáquio e está dentro dos bens tombados da nossa Diocese de Divinópolis.
Diferente da Igreja do Rosário, a Capela do Bonfim carece de maior
documentação.
Isto se explica porque a primeira foi erigida como a Igreja
Matriz e assim possuía grande destaque e funções litúrgicas muito próprias e
específicas, por exemplo, os batizados que eram realizados em sua pia batismal -
este objeto litúrgico é próprio apenas das matrizes, não existindo nas capelas
sufragâneas; enquanto a Capela do Bonfim era quase uma ermida de fazenda,
edificada em propriedade particular.
A Capela do Bonfim passou por um terrível
sinistro no dia 16 de outubro de 2014 que a reduziu a cinzas, restando de pé
somente algumas paredes. Portanto, lamentavelmente a Capela original do séc.
XIX já não mais existe, sendo a atual uma reconstrução.
As chamas de um
incêndio criminoso consumiram parte de nossa História e hoje a Capela ainda
segue incompleta na sua reestruturação, uma vez que o altar-mor (peça sacra que
a caracterizava internamente, aonde se celebravam as missas) não foi
reconstruído.
A Capela do Bonfim – em sua singeleza-
leva-nos a um misto de serenidade e paz e do alto do monte, podemos contemplar
a cidade de Itaúna e o horizonte de montanhas a seu redor, introduzindo-nos na
mineiridade da alma.
FREI
EUGÊNIO MARIA DE GÊNOVA
Frei Eugênio Maria de
Gênova nasceu em Oneglia Província de Gênova, Itália, em 4/11/1812 e foi
batizado como João Batista Maberino. Ingressou na Ordem dos Capuchinhos e tomou
as ordens sacras em 1836, com o nome Frei Eugênio Maria.
Em 1843 chegou ao
Brasil, a mando do Papa Gregório XVI, como missionário capuchinho. Esteve no
Rio de Janeiro, Cuiabá e Pitangui catequizando as pessoas das cidades, vilas e
aldeias. Em 12/08/1856 chegou a Uberaba, abriu a Santa Missão e iniciou a
construção de um cemitério que ficou pronto dentro de dois anos.
Pessoa calma, de educação
polida, paciente, caridoso, zeloso quanto ao cumprimento de sua missão, Frei
Eugênio realizou uma brilhante missão religiosa. Pessoas de regiões distantes
vinham confessar com o Frei, que era despojado, vivia como pobre, com as
doações dos fiéis.
Sua biblioteca era
extensa e as obras variadas: escrituras sagradas, teologia, direito canônico,
direito civil, filosofia, liturgia, literatura, ciência, medicina, história e
geografia. Destacava-se na oratória, possuía memória prodigiosa. Diariamente
escrevia as ações do dia, confissões, comunhões, batizados, casamentos, visitas
a enfermos e missas. Pioneiro dos estudos climatológicos e um dos primeiros no
Brasil, fez com que Uberaba tivesse tradição fortíssima em estudo
climatológico. Anotava os fenômenos meteorológicos e fatos da cidade.
Com a chegada de Frei
Eugênio a Uberaba, vieram pessoas de outras localidades, aumentando a população e consequentemente as concessões de terras. Fizeram-se muitas casas e foram
abertos mais de 17 negócios, tudo com ajuda do Frei.
Casais divorciados se
juntaram, protestantes se converteram, se dissolveram mais de 80 concubinários,
fizeram muitas restituições, reconciliaram-se inimigos. A Igreja em Uberaba
ganhou um novo impulso. Vários oratórios e irmandades surgiram neste período.
Conhecido e chamado por
“Padre Mestre”, foi considerado o maior benfeitor de Uberaba e suas ações foram
sempre dirigidas para proteção e assistência aos pobres e desvalidos. Não se
limitava às Missões, estabelecia melhoramentos básicos: cemitérios, hospitais,
serviços de água, estradas cisternas e fossas.
Promovia ao mesmo tempo
assistência aos órfãos, aos índios e aos escravos, que assistiam à Santa Missa
e depois recebiam uma bênção especial do Padre Mestre, que lhes ungia e
colocavam em seus pescoços medalhinhas ou patuás com orações para se protegerem
contra o mau.
UM
IDEALIZADOR DE PROJETOS
Em 1856 iniciou a
construção do cemitério São Miguel, situado onde hoje é a Praça Frei Eugênio,
considerado o mais sólido e amplo do interior do Brasil, na época. Dentro do
cemitério, Frei Eugênio construiu a Capela de São Miguel.
A maioria dos túmulos era de madeira (o mármore
somente entrou em Uberaba por volta de 1880) quando passou a ser empregado na
construção de residências e túmulos, inclusive o de Frei Eugênio.
O cemitério
funcionou 44 anos, de 1856 a até 1900. Foram enterrados neste período cerca de
4.400 pessoas. Foi interditado depois da construção do Cemitério Municipal, na
época conhecido por Cemitério do Brejinho, atual São João Batista e demolido
em 1917.
Frei Eugênio iniciou
também a construção de um novo Cemitério chamado São Francisco, no fundo da
Santa Casa, porém o Frei não chegou a concluir a obra, que ficou só nos
alicerces. Além do Cemitério e da Capela São Miguel, Frei Eugênio projetou
ainda a construção de uma ponte sobre o Rio Grande, no Porto de Ponte Alta, em
direção a Uberaba, no intuito de ligar o litoral a Província de São Paulo às de
Minas, Goiás e Mato Grosso. Pretendia outra ponte no Rio Paranaíba. Abriu ruas,
fez estudos para canalizar as águas do Rio Uberaba, para o abastecimento da
cidade.
De gênio empreendedor,
Frei Eugênio percebeu o progresso aumentar a população, anteviu a mendicância,
a miséria e a precisão de abrigo para a pobreza enferma. Daí seus esforços para
a construção de uma de suas mais grandiosas obras – a Santa Casa de
Misericórdia, no terreno denominado Largo do Rancho, hoje bairro da Abadia,
onde hoje está o complexo Hospital de Clínicas da UFTM, cujo prédio é
preservado até hoje, como patrimônio histórico.
Junto à comunidade
recolheu donativos, como peças de ouro, rosários, relicários, cordões, moedas
do Império e de Portugal, peças de prata e materiais de construção, e dinheiro
em espécie. Também construiu um açude nas imediações do hospital, já que no
local não possuía água suficiente para a demanda da construção. O açude, além
da construção, favoreceu toda a população que vivia nos arredores e sofria com
a falta de água.
Ergueu uma boa casa ao
lado da Santa Casa destinada à administração, onde também passou a residir. De
1921 a 1934, quando foi inaugurado o segundo prédio do Hospital da
Misericórdia, esta casa serviu para internação dos pacientes. O local ficava na
praça Dr. Tomas Ulhôa, esquina com a rua Frei Paulino, onde atualmente está o
Centro Administrativo da UFTM e a Biblioteca, que leva seu nome.
Entre 1862 e 1863, por
conta da epidemia de varíola no país, às pressas foi preparada uma ala do prédio
em que a construção estava mais adiantada, para receber os doentes. Em 1865 uma
ala do hospital abrigou as tropas do Corpo Expedicionário que aqui se
aquartelaram a caminho de Mato Grosso para a Guerra do Paraguai durante 45
dias, cujos doentes de bexiga (varíola) ali se internaram.
OS
DIVERSOS PROBLEMAS NO FIM DA VIDA
A construção da Santa
Casa da Misericórdia foi agigantando-se, um grande prédio foi surgindo para os
parâmetros do período. Durantes os anos de construção da Santa Casa, Frei
Eugênio enfrentou diversos contratempos. Há alguns anos fora atacado por um boi
ficando bastante ferido e sofrendo com sequelas.
Idade avançada, enfermidades e
ainda a hostilidade e intrigas de autoridades da Comarca do Paraná (à qual
pertencia Uberaba), juízes locais e outros que passaram por censuras feitas
pelo missionário solicitando sua retirada da cidade, o abateram. Porém, a
defesa feita pela Câmara Municipal e a população da cidade, conseguiu que ele
permanecesse em Uberaba e continuasse o trabalho.
Depois de muitas
turbulências, após 27 anos da morte de Frei Eugênio, foi finalmente inaugurada
a Santa Casa de Misericórdia de Uberaba, no dia 14/06/1896.
Porém, Frei Eugênio
morreu sem ver sua obra finalizada, vítima de angina, aos 59 anos de idade, às
23horas do dia 14/06/1871, em sua residência, ao lado do hospital. Uma hora
depois os sinos anunciaram a morte do Frei, reunindo grande parte da população
à sua porta. Seu sepultamento foi considerado o maior em termos de
acompanhamento por aqueles tempos, cerca de 4.000 pessoas seguiram o funeral.
Todos os seus bens foram considerados patrimônio da Santa Casa, dinheiro,
objetos valiosos das doações e livros. Tudo que foi arrecadado foi como
donativo para a finalização da Santa Casa. Foi sepultado no Cemitério São
Miguel no outro dia e com a demolição do local em 1917, seus restos mortais
foram encaminhados para o Cemitério São João Batista e em 1965 foram
encaminhados para a Igreja de Santa Teresinha, em grande cortejo.
A jornalista Élvia Morais
descobriu que a lápide original do túmulo do Frei Eugênio estava na Faculdade
de Direito da Universidade de Uberlândia, e o Prefeito Paulo Piau e a
presidente da Fundação Cultural de Uberaba, Sumayra Oliveira, conseguiram
resgatá-la.
A lápide retornou a Uberaba no dia 21/05/2014 e foi colocada na
Paróquia de Santa Teresinha no último dia 15, para ficar junto aos restos
mortais de Frei Eugênio. Nela, o registro de seu sepultamento, 15 de junho,
conforme usava na época.
Itaúna
perdeu, nos derradeiros dias de 1987, uma figura de valor. A professora e escritora Nise Campos era uma personalidade cativante, pela riqueza interior
que possuía e manifestava com simplicidade. Morreu esquecida.
A
sociedade capitalista em que vivemos só se lembra das pessoas que tenham
dinheiro e prestígio (enquanto os têm) ou estejam na idade de produzir e
consumir.
Nise
Álvares da Silva Campos nasceu em Itapecerica (MG), aos 6 de setembro de 1907.
Seus pais foram Inácio Álvares da Silva Campos, membro da Guarda Nacional do Império,
e Dona Luíza Álvares da Silva Contagem.
Fez
o curso primário na cidade de Pompéu e veio prosseguir os estudos na famosa
Escola Normal de Itaúna. Integrou a primeira turma de professoras aqui
formadas, em 1925. O quadro, com os retratos das quatorze formandas, encontra-se no Colégio Estadual.
A
jovem voltou a Pompéu, onde começou a lecionar, mas retornou a Itaúna, em 1930,
ano em que a Escola Normal foi oficializada. Aqui exerceu o magistério até a
aposentadoria no Grupo Escolar José Gonçalves de Melo. Ficou conhecida pela sua
competência e dedicação.
Fora
da escola, era muito procurada para aulas particulares, sobretudo de português.
Possuía algum dom para a música. Tocava bandolim. Em religião, era adepta do
espiritismo Kardecista. Participava com convicção das atividades filantrópicas e
religiosas do seu Centro Espirita. Mas não era sectária, nem proselitista.
Respeitava as opiniões diferentes da sua.
Desde
cedo manifestou dotes literários. Seu irmão, José Maria Álvares da Silva Campos, farmacêutico, era
também poeta. Muito nova ainda, Nise escreveu suas primeiras composições
poéticas. Em seus escritos sempre transparecia um espírito muito humano meditativo
e uma certa melancolia. Colaborou em diversos jornais itaunenses.
Por
ocasião da morte de Cotinha, uma pobre louca que andava pelas ruas, Nise
publicou uma crônica que bem representa o seu estilo. Tenho como seu mais belo
poema a “Ode ao Tempo”.
Às
vezes, aparecia uma outra face do seu espírito: uma moderada crença religiosa.
Este ceticismo está presente nos versos que escreveu, em 1934, sobre a
demolição da antiga Matriz de Sant’Ana de Itaúna. Eis a duas últimas estrofes:
“Espelho da vida! Imagem de minha
alma, sem santo, sem sino, sem altar ...”
Retribuindo
um cartão ao professor Márcio Auril, ela terminava assim:
“Sua velha e desiludida amiga, Nise”
E
acostumava visitá-la. Aproximava - se o Natal e lembrei-me de que era preciso
ir vê-la. Mas antes disso recebi a notícia de sua partida. Faleceu aos 18 de
dezembro, depois de uma longa e penosa enfermidade, que suportou com resignação
estoica.
Seus
escritos permanecem dispersos.
Referências:
Texto Professor Padre José Raimundo Batista Bechelaine. Data Nascimento: 12/02/1947, Local:
Carmo do Cajuru – MG. Pais: Nagm Antônio Bechelaine e Maria Batista Bechelaine.
Data Ordenação: 01/05/1974. Local: Matriz Sant’Ana – Itaúna – MG. Bispo
Ordenante: Dom Cristiano Frederico Portela de Araújo Pena.
Falando
de lembranças quem se lembra da placa de neon "Telefunken" no alto do
prédio da Casa Adolfo Mendes? E o opala do Benevides Garcia? E a pequena
estátua do Galo na sala da casa dele? E da placa na porta..."Benevides
Garcia - Fotógrafo"? E da placa no sobrado do Prof. Wiliam Leão
"cirurgião dentista"? Dos cartazes dos filmes que a gente via
segurando as grades do portão do Cine Rex? Do Bar Azul...do velho casarão do
Cel Arthur Vilaça, meio abandonado?
Dos laguinhos da praça com água e os engraxates
nadando neles? Quem se lembra dos engraxates da praça? Do seu banco longo e
torto de cimento? Da Loja Guigos, da Farmácia Nogueira, da lanchonete do
Misirico....Do Fórum sem as grades, aonde a gente criança podia deitar na
grama....do Bar do Cilico...da planta "unha de gato" dos jardins...
Do
Opala do Baiano do táxi, que saia um canudo de fumaça? Do vemaguete do Dr
William Leão? E da rural do Dr Zé de Campos? De subir a Silva Jardim e do seu
Bené do Mundo Ótico....Meu papai! Zebra Lotérica do Major Rui...Do seu Avides
da Loja Avides. Do seu Afonso da Loja Athayde...Do seu Levi Vargas do
Banco...Do seu Jesus e do Toninho da Farmácia São Luiz?
Do seu Mazico do frango
assado. E do dogde Dart amarelo com capota de vinil do seu Athayde, eu ficava
sentado na porta da loja pra vê lo passar....Do seu Chico Saldanha com uma
leiteira na mão subindo a rua? Da bomboniere? Da loja Safira Presentes, seu
Adalci e dona Marlene sempre muito chique e elegante? Idem a dona Bernardina da
Sérgio Livraria.
Dona Gilka Drumond passando na porta do Adolfo Mendes aonde eu
trabalhava, sempre muito perfumada e bem vestida. O Euler Coutinho
dentista...Do seu Guarany Nogueira sentado num banquinho redondo de cimento em
frente seu escritório cheio de badulaques, de terno branco com uma flor vermelha
na lapela...Dos velhos casarões da Silva Jardim....Nos fundos da ótica tinha um
depósito de jornal e a contabilidade do Geraldinho.
O casarão dos Santiagos e
um na esquina da Prof Francisco Santiago, com o seu Mauro Barbeiro ( tinha um
carrinho que papai me colocava sentado). E subindo a rua lá vinha o Dr Coutinho
e o Pe. Waldemar com sua surrada batina. E a fonte luminosa....pensava que
tinha água colorida....E o seu Osvaldo fotógrafo e sua Kombi azul calcinha?
Lembranças ...Minhas memórias e minha História. Valeu e vale a pena. Viver é
muito lindo.
Arte
e Organização: Charles Aquino
Acervo:
Shorpy
Texto: Professor Luiz Mascarenhas
Nota: O autor é responsável pelos trabalhos aqui publicados, o qual, também ficará responsável pelas suas correções.
Num
piscar de olhos ela passa. Passa
para negros, brancos, vermelhos e todos mais.
Indiferente
aos nossos desejos, medos e frustrações, ela passa.
A
cada ano, a cada mês, a cada dia, a cada hora e a cada minuto o fluir não para. No
início somos prepotentes e nos achamos imortais, depois passamos a considerar
esta possibilidade a distância e, quando percebemos o vigor se foi, os sonhos
da eternidade se desfizeram e sobrou a maturidade.
É
realmente uma viagem essa nossa vida!
Na
estação milhares esperam o trem, cada um com seus caminhos, suas expectativas,
desejos e busca de realizações. Aí
vem ele, e quando entramos para esta viagem nos sentamos à espera do encontro,
do novo e da transformação que vislumbramos existir. A viagem é o destino de
todos.
Nascemos,
crescemos, aprendemos, realizamos, amadurecemos e de repente lá está a estação
final.
Mas
a viagem também nos remete a questionamentos fundamentais, os quais moldam quem
somos, o que viemos fazer aqui, quais as nossas contribuições, quanto tempo
será nossa viagem e o que podemos deixar como legado existencial.
Incapaz
de retroceder neste destino contará no final tudo aquilo que aprendemos, tudo
que contemplamos, transformamos e realizamos.
Cada
um com seus talentos podemos fazer desta viagem uma grande escola existencial. Vejo
que a escolha será sempre um diferencial. O trem, ou seja: o nosso existir,
acontecerá.
Mas,
nunca e tão somente aos olhos de quem nos vê. Ela acontece na alma de quem
compreende que: hoje pode ser mais um dia, ou; menos um dia. A
viagem continua e suas belezas e sutilezas também.
O
sol brilha, a chuva, cai, vem o frio e depois a beleza da primavera, sempre
será assim. Para nossa alma, o lado que escolhemos pra viajar moldará a nossa
construção. De
novo, a escolha sempre estará nas mãos de cada um de nós.
Sábado à noitinha, logo após o Pe. Zé Netto terminar a Missa das 19 h na Matriz de Sant'Ana, na década de 70, meados de 80, as famílias saiam a passear pela praça. Papai, mamãe e eu também!
A praça ficava mesmo repleta de pessoas passeando por todos os cantos. Íamos olhar as vitrines das lojas. Quase todas as lojas possuíam vitrines que permaneciam abertas até as 22 h.
Havia um capricho, um esmero em se arrumar muito bem as vitrines de modo a encantar os transeuntes.
Recordo-me de algumas...Cinderela Calçados, Loja Avides, Loja Athayde, Athamar Eletro, Casa Áurea, Sapataria São Luiz, A Jóia...
A vitrine da Jóia então era muito chique e tinha uma sessão de carrinhos de ferro...
Meus olhos brilhavam e me detinha um tempo ali...
E meus pais encontravam com muitos amigos e conhecidos e havia sempre a troca afável de cumprimentos e conversas.
Ao atravessar a praça para ver a vitrine do Adolfo Mendes e da Casa das Roupas, era de lei eu parar no carrinho de pipocas do seu Dico, em forma de ônibus da Viação Itaúna...Morria de vergonha se encontrasse alguma professora pelo caminho....
ENTREVISTA COM MINEIRINHO – JORNAL
PANORAMA ITAUNENSE
FALA, MINEIRINHO!
P
— Você poderia começar falando da sua vida, sua biografia mais ou menos?
M
— Eu fico até com vergonha de falar a minha idade …. Nasci em 1930, no dia 5 de
agosto, aqui em Itaúna. Lá no Mirante, em frente ao grupo “João Dornas”. Sou
filho de Serjobes Augusto de Faria — escrivão de paz aqui na terra — e de
Aureslina Matos de Faria, pais de oito filhos; um é falecido. É uma família de
gente muito alegre.
P
— Seus pais, eles eram também alegres?
M
— Também! Minha mãe era pianista do Clube Dr. Vital, ela era carioca! Meu pai
era muito alegre, mas era itaunense mesmo.
P
— A vocação para artista, então, é da família né?
M
— É …. Teve muita gente da minha família que já participou de teatro. Por
exemplo: Dona Adalgisa Matos, meu pai que era ponto do teatro, no tempo do seu
Lique; tinha também o Mário Matos, o Sílvio de Matos. E eu senti essa vocação
aos nove anos de idade. Antes até! Já no grupo escolar eu participava das
festas infantis. Era até convidado por outras salas para participar.
Eu
era um capeta em figura de gente, mas graças a Deus, cresci. Hoje eu sou um
homem ajuizado, não parece? Acontece que apareceu um seminarista aqui por
Itaúna que mexia com teatro, e me convidou para entrar numa peça de variedades.
Cresci e fui fazendo comédia, outras peças. O nosso grupo de teatro chamava
Grupo Teatral Ita e a gente se apresentava no Cine Bagdad, lá na Rua Silva
Jardim; onde é, hoje, aquela mobiladora. Apresentamos também no Cine Rex.
P
— Quer dizer, que naquela época já existia um movimento de teatro em Itaúna?
M
— Sim, já existia. E tinha uma turma boa. Tinha o Totonho Corradi, tinha o Zé
do Dui, o Tucha que era um artista bacana, o seu Lique, pai do Piu que foi um
grande teatrólogo, a Hélida Beghini, Jandira Penido…
P
— No palco, Mineirinho, representando uma peça, você já deu bandeira?
M
— Não …. Eu fazia era muito aso, né? Brincava muito. Teve uma vez que eu e a
Hélida Beghini estávamos representando e no papel que a agente fazia tinha que
beber cachaça. Botei cachaça de verdade na garrafa e quando a Hélida foi beber
…. Aquele nome saiu baixinho, viu?
P
— Quem aí do grupo de teatro, que se quisesse mesmo poderia ser um artista
nacional?
M
— Ah! … Toda turma do “Chica Boa”. A Eleuza Corradi, a Maria Helena Amaral. A
gente ensaiava demais! Parece que naquele tempo o povo tinha mais entusiasmo
com as coisas.
P
— Tinha público para essas peças?
M
— Nossa Senhora! Toda peça que a gente levava, a gente tinha que repetir. O
cinema era cedido para o teatro. A gente ficava uma semana em cartaz! (Nesse
momento chega Didi, a patroa do entrevistado, trazendo uma foto da época). Olha
aqui, gente, este é o professor Coutinho, o ensaiador do teatro.
P
— No teatro, qual foi o seu maior sucesso?
M
— O meu maior sucesso foi a “Chica Boa”. É aquela peça onde eu faço papel de
triste, alegre, velho sem vergonha, tudo quanto há.
P
— E o seu primeiro papel, qual foi?
M
— Nossa Senhora! Eu fazia um papel “triste”: afeminado!
P
— Do teatro para o rádio. Como é que foi esse pulo?
M
— Eu e o Dante, meu irmão, fomos convidados pelo Nhô Dito para participar do
programa “Tarde Sertaneja”, que nessa época já tinha esse nome. Nós falamos que
a gente não tinha queda pra aquele tipo de coisa, mas ele respondeu que a gente
tinha que ir de qualquer jeito.
Então
eu e o Dante fizemos uma roupa caipira — nós éramos alfaiates na época, lá na
Praça João Nogueira — e fomos participar. E já vai fazer trinta anos no dia 3
de março, que eu estou com esse programa na Rádio Clube de Itaúna.
P
— A Rádio foi fundada e logo depois esse programa …
M
—Sete meses depois o programa “Tarde Sertaneja” entrou no ar.